Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

Tonel: “Rui Gomes da Silva não teve escrúpulos e cinco minutos de televisão puseram em causa 15 anos de trabalho”

Cresceu como portista mas tornou-se adepto do Sporting, clube onde mais gostou de jogar e onde amadureceu como jogador e como homem, depois de passagens pela Académica e o Marítimo. Os três anos na Croácia foram felizes do ponto de vista desportivo, mas a família nunca se adaptou à vida além fronteiras. Em nove meses Tonel passou de jogar a Liga dos Campeões para os relvados da II Liga. E hoje, aos 38 anos, diz estar a preparar-se para ser treinador depois de, segundo ele, terem acabado com a sua carreira de jogador mais cedo do que queria.

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

Partilhar

Nasceu na Lourosa, Santa Maria da Feira. Como era a sua família?
Nasci no hospital de Espinho, mas vim para a Lourosa porque os meus pais na altura moravam com os meus avó, por isso cresci em Lourosa. O meu pai trabalhava na cortiça e a minha mãe num banco. Tenho um irmão mais novo 5 anos.

Como surge a alcunha Tonel?
Vem de nascença. Tenho 3 nomes de um avô e 2 do outro. António Leonel Vilar Nogueira de Sousa. António Nogueira de Sousa é o nome de um avô e Leonel Vilar, do outro. Uma tia logo que nasci disse: "Não, não vamos estar a chamar Antonio Leonel, vamos chamar Tonel que é mais curtinho". Desde que me lembro, toda a gente me chama Tonel.

Não teve mais nenhuma alcunha?
Só na altura do Belenenses e que o Chainho chamava-me de “O Tropa”. Eu tinha o cabelo muito curtinho e ele dizia que a treinar eu parecia um militar porque estava sempre muito sério.

Recorda-se da sua infância?
Das memórias e pelo que falam os meus pais e avós, até aos 10 anos era um bocado rebelde. Era um miúdo inquieto, estava sempre a jogar à bola; lembro-me que chegava da escola, fazia os deveres e ia logo jogar à bola. Vinha para casa com o meu avô e ele dizia-me muitas vezes para não chutar a bola contra o portão ou para o campo, que lhe estragava as couves (risos). Era um bocado irrequieto e casmurro até à 4.ª classe. No 5.º ano fui para o Colégio Internato dos Carvalhos, um colégio de padres com miúdos internos. Nunca fui interno, mas era um colégio mais rígido e penso que mudei um bocadinho, fiquei mais calmo.

Do que mais se recorda desses tempos no colégio?
Os padres andavam no corredor com a régua na mão: lembro-me de levar algumas palmadas na mão com a régua. Estamos a falar de 1990, havia outro rigor, outra disciplina, era uma educação mais rígida. Esses tempos que passei no colégio, do 5.º ao 10.º ano mudaram-me um pouco, criaram-me alguma disciplina, o que naturalmente fez mudar a minha maneira de ser e de estar.

Tonle com 1 ano

Tonle com 1 ano

D.R.

Quando e como começa a jogar futebol a sério?
Quando fui para o colégio, havia um torneio no final do ano lectivo, o Torneio Vítor Baía. Fui representar o colégio nesse torneio, tínhamos uma equipa com jogadores bons e, na final, ganhámos ao 6-3 ao FCP. Foi a partir daí que o FCP falou com os meus pais. Queriam que eu fosse para o FCP jogar.

Nessa altura torcia por que clube?
Eu gostava do FCP. O meu pai é benfiquista, a minha mãe portista e eu era portista também. O meu ídolo era o Fernando Couto, gostava da maneira dele jogar, e ele também é daqui, da minha zona.

Começou logo a jogar como central?
Com 12, 13 anos já era mais alto que os outros e aos 15 já tinha a altura que tenho agora. Quando cheguei ao FCP, aos iniciados, em altura já estava um bocadinho acima dos outros e tecnicamente não era inferior à maioria. Já no colégio, quando jogámos contra o FCP naquele torneio, era defesa. Por isso deixaram-me ficar a central. Nunca se pôs a hipótese de jogar noutra posição.

Quando participa no torneio Vítor Baía, já sonhava em ser jogador de futebol?
Com aquela idade, 10, 11 anos, muito sinceramente acho que não se pensa nisso. Mas se me perguntassem o que é que eu gostava de ser, eu dizia jogador. Não era um sonho, também não era um objetivo, era uma coisa que eu gostava. Dizia que queria ser jogador porque gostava de jogar futebol. Se me perguntavam se não fosse jogador o que é que gostava de ser, aí já tinha mais dificuldade em responder.

Tonel com um mês de vida, ao colo da mãe

Tonel com um mês de vida, ao colo da mãe

D.R.

Os seus pais não colocaram nenhum entrave em ir para o FCP?
Não. Na altura fizeram alguns sacrifícios. Moro a 30 quilómetros do Porto e os meus pais quase todos os dias tinham que ir levar-me e buscar. Isso foi importante.

Colocaram alguma condição do género: só ficas no futebol se mantiveres os estudos com boas notas?
Sim, sim. Nos estudos as minhas notas de 0 a 10, eram 6, 7. Não era um aluno com dificuldades, mas também não era um aluno bom. Não era muito dedicado aos estudos, porque não me davam muito prazer. Não conseguia dedicar-me e focar-me como devia porque tinha outro prazer, jogar à bola.

Entretanto começa a sua formação no FCP.
Sim e o 1.º ano marcou-me. Correu mal.

Porquê?
Estamos a falar do 1.º ano de iniciados. Custou-me a adaptar porque tinha nascido e vivido numa aldeia. Agora é cidade, mas na altura não era. Chegar ao Porto e lidar com miúdos da minha idade, mas que tinham outros comportamentos nos quais não me revia nem me identificava…

Que tipo de comportamentos?
Eu era tímido, ainda sou, era um bocado fechado e não me conseguia integrar. Não vou dizer que as pessoas é que tinham culpa; a culpa se calhar era minha porque achava que os miúdos eram mais evoluídos do que eu, tinham conversas diferentes das minhas. Mesmo no contexto de futebol não me consegui adaptar porque tinha a noção de que os outros eram melhores do que eu. Os outros já lá andavam há mais anos e estavam mais à frente do que eu. Os meus pais e eu levantámo-nos várias vezes às 6 da manhã para ir aos jogos e depois chegava ao jogo e era o 19.º, ficava na bancada. Tinha 13 anos e isso de certa forma marcou-me. Houve um dia, já quase a acabar a época, em que o meu pai disse: “Não, isto não vai continuar porque trabalho a semana toda e ao fim de semana estar a levantar-me cedo para tu ficares sempre na bancada. Tens que sair daqui e ir para outro lado, não vale a pena andares aqui”.

Como reagiu?
Também achei que era bom sair do FCP, porque não estava a fazer nada. Queria continuar a jogar e perceberam que eu não estava preparado, nem ao nível dos outros.

Cartão da participação de Tonel no Torneio Vitor Baía, em representação do Colégio dos Carvalhos

Cartão da participação de Tonel no Torneio Vitor Baía, em representação do Colégio dos Carvalhos

D.R.

Lembra-se de algum colega em especial dessa época do FCP?
Lembro-me de alguns de quem entretanto perdi o contacto. O Tinaia e o Severino. Eram os dois moçambicanos e chegaram a fazer carreiras interessantes. Lembro-me de um médio, o Sousa, e do guarda-redes Zé Eduardo.

Quando os seus pais falaram com o FCP para o tirar de lá, o clube não colocou entrave nenhum?
Não e até disseram que era melhor para mim, para poder evoluir e ter prazer, porque estamos a falar de um miúdo de 13 anos que se não tiver prazer em jogar, não vai evoluir. Disseram ao meu pai que quando foram buscar-me não se tinham apercebido de que eu ainda não estava no nível que precisava. Um pouco da culpa também teve a ver com a minha maneira de ser, era um miúdo acanhado e fechado.

Foi para onde?
Há aqui uma história curiosa. Como moro perto de Santa Maria da Feira, a 5 minutos, o meu pai queria que eu fosse para o Feirense. O treinador dos iniciados ainda é meu segundo tio. O meu pai falou com ele, disse-lhe que eu tinha saído do FCP e gostava que lá fosse treinar à experiência, para ver se podia ficar no Feirense. O meu tio concordou e ao fim de dois ou três treinos disse ao meu pai, com quem tinha um certo à vontade: “Olha Toni, é melhor levares o teu filho para outra atividade porque no futebol vai ser difícil, não vejo nele capacidades para poder vir a ser jogador”. Quando o meu pai me disse isso, eu respondi logo que nem pensar, se não fosse ali, iria ser noutro sítio qualquer.

Não gostava de mais nenhum desporto?
Não. Era só mesmo futebol. Fui para o Sp. Espinho. Fui lá treinar à experiência e o treinador, o Zé António, que hoje deve ter à volta de 60 anos, gostou. Disse ao meu pai que queria eu fizesse parte do grupo. Comecei a treinar e a jogar. No 2.º ano de iniciados as coisas continuam a correr bem. Faço lá mais um ano e depois volto ao FCP, no 1º ano de juvenil.

É o FCP que o chama?
Quando subo a juvenil o Sp. Espinho tinha uma equipa no Distrital e tinha outra no campeonato nacional. Como as coisas estavam a correr bem eu também jogava na equipa do nacional. Nesse ano joguei contra o FCP e no final da época o FCP volta a chamar-me, para os juvenis. Aqueles 2 anos no Sp. Espinho foram de facto muito bons e pude evoluir. Ainda por cima naquele meu 1.º ano de juvenil tive um treinador que apostou em mim, Ernesto Lopes, que tinha sido meu professor de educação física no Colégio dos Carvalhos. Com ele evoluí bastante.

Tonel, à direita, com 13 anos nos iniciados do Sp. Espinho

Tonel, à direita, com 13 anos nos iniciados do Sp. Espinho

D.R.

Ficou orgulhoso de voltar ao FCP?
Fiquei contente como é óbvio porque tinha saído dali de uma maneira e estava a entrar de outra. E já me sentia mais ao nível dos outros, sentia que estava preparado para estar lá. A verdade é que nesse ano sou internacional de sub-15, pela 1ª vez. E nos dois anos em Espinho nunca tinha ido à seleção de Aveiro.

Chega ao FCP e é logo chamado à seleção?
Exatamente.

É o peso da camisola...
Também ajuda jogar no FCP. Ficámos em 2.º lugar no campeonato.

Mas regressa ao Sp. Espinho. Porquê?
Regresso no ano a seguir. Mas aí já foi diferente, porque era 1º ano de júnior e como as coisas tinham corrido muito bem em Espinho naqueles dois anos que lá tinha estado, é o FCP que fala comigo. Uma vez que ia ser júnior de 1º ano eu ia jogar no campeonato distrital se ficasse no FCP, porque a equipa do 2º ano é que jogava no campeonato nacional, mas se fosse para Espinho já jogava no campeonato nacional. Foi uma das decisões mais difíceis de tomar porque saí e voltei, agora ia sair outra vez. Será que é bom, será que é mau? Lembro-me de falar com o meu pai, tinha muitas dúvidas. Mas acabei por decidir sair. Já tinha 16 anos e achei que voltar ao Sp. Espinho podia ser melhor. Voltei a Espinho sabendo que se tudo corresse bem, no ano seguinte podia regressar ao FCP. Joguei no Sp. Espinho, no campeonato nacional pela equipa de 2º ano e depois voltei ao Porto para fazer mais 2 anos de júnior no FCP. Fiz 3 anos de júnior porque a lei entretanto mudou.

Correram bem esses 3 anos de júnior?
Foram 3 anos fantásticos. Quando volto ao FCP sou campeão nacional de juniores, era o João Pinto o treinador. E depois ainda fiz um 3º ano de júnior.

E os estudos?
Tive de sair dos Carvalhos e fui para outro colégio no Porto. Saía do colégio de manhã, depois ia almoçar ao lar do Porto e ia para os treinos. Os estudos começaram a ficar um bocado para trás. Isto no último ano de júnior. Já tinha 18 anos, já tinha carta, já tinha carro, já namorava...Os estudos começaram a ficar para 2º plano e o futebol em 1º.

Quando é que deixa definitivamente a escola?
Continuei a estudar até ao 12º ano mas não terminei por causa de duas disciplinas, matemática e físico-química. Entretanto vou para a equipa B do FCP, o que foi ótimo para mim. Em 1999, na equipa B, assino o meu 1º contrato profissional com o FCP.

Lembra-se qual foi o valor?
No 1º ano tinha um ordenado de 300 contos (1500 euros), no 2º ano eram 375 contos. Assinei por dois anos.

Era muito dinheiro para um rapaz com a sua idade.
Sim, era bom dinheiro.

O que fez com esse primeiro dinheiro?
Guardei.

Não fez nenhuma “loucura”?
Nunca fui de loucuras. Acho que sempre tive os pés assentes no chão. Lembro-me que quando fiz 18 anos, o meu pai deu-me um carro, um comercial de 2 lugares. Eu disse-lhe que quando juntasse 5 mil euros, comprava outro carro, um Audi A3, que era o carro da moda. E passado 1 ano comprei um usado com o dinheiro que juntei. Isto em 2000.

John Walton - EMPICS

Com quem jogou na equipa B e como correu esse ano?
Passaram por lá jogadores como o Gaspar, o Quinzinho, o Panduru, o Folha, o Ricardo Carvalho, Ricardo Silva, alguns seniores que não estavam a jogar na equipa A e vinham jogar à equipa B. Por isso não foi um ano em que jogasse muito; nem eu, nem nenhum dos que tinham vindo comigo de júnior para sénior. Os que vinham de cima jogavam e nós era só quando houvesse vaga. Fiz à volta de 20 jogos. No 2º ano as coisas mudaram. Eles verificaram que os jogadores que vinham de cima não estavam motivados e, então, a equipa B passou a ser mais virada para quem subia de juniores, porque queria dar o salto para o futebol sénior. Na altura tinham subido o Ricardo Costa e o Bruno Alves, que são um ano mais novos que eu. Eu era o capitão da equipa B, só que havia ali um problema: eu, o Ricardo Costa e o Bruno éramos os três centrais, mas só podiam jogar 2. Muitas vezes jogava eu e jogava o Bruno, e o Ricardo Costa jogava a lateral direito, ou às vezes não jogava um e jogava o outro, e chegámos a dezembro... A mim, que era o mais velho, propuseram-me ir para a Académica.

Em que condições?
Renovava com o FCP por mais 2 anos e ia para o Académica emprestado. Aceitei porque até ia ganhar mais, ia jogar na 2ª Liga, em vez de estar a jogar na 2ª B. A Académica é um clube com história, numa cidade boa e em janeiro de 2001 fui para a Académica.

Sozinho?
Não, foi aí que casei. Já namorava com a minha atual mulher, a Liliana, há alguns anos. Começámos a namorar com 15 anos. Para o meu sogro, se quisesse tirar-lhe a filha de casa, tinha que casar (risos). Fui para a Académica em janeiro e casei-me em fevereiro. E não tive lua-de-mel porque no dia seguinte fui para estagio com a seleção (risos).

O que fazia a sua mulher na altura?
Tinha acabado os estudos e trabalhava nas finanças, mas abdicou do trabalho para ficar comigo.

Tonel, todo de preto, comemora com a equipa a subida da Académica à I Liga, em 2002

Tonel, todo de preto, comemora com a equipa a subida da Académica à I Liga, em 2002

D.R.

Como é que foi a adaptação a uma cidade nova, à vida de casado e ao futebol de II Liga?
No futebol não senti grandes dificuldades. Encontrei em Coimbra um grupo de pessoas que vivia o futebol à moda antiga, pessoas que sentiam o clube e isso para mim foi importante porque eu também me via assim.

Quem era o treinador?
Era o Hassan Ajenoui, marroquino, mas passado um mês veio o João Alves, o “Luvas Pretas”, que para mim foi muito importante. Não digo que foi como um pai, porque acho que pai só temos um, mas foi um treinador muito importante. Confiou em mim; eu com o Hassan às vezes jogava, outras vezes não, porque havia um jogador marroquino, o Mounir, que era muito bom, tinha mais de 30 anos, e o Hassan metia-o. O João Alves chegou e pôs-me sempre a jogar, deu-me uma oportunidade, gostava de lançar miúdos. Lembro-me de um jogo em casa, na estreia do João Alves, com o Santa Clara, em que ganhámos 2-0 e no jornal de Coimbra fui considerado o melhor jogador em campo.

A adaptação à vida de casado também foi boa?
Também. Mais difícil se calhar para a Liliana porque eu ia para os treinos e ela ficava em casa. Para ela foi um mundo novo. Vivia com os pais, nunca tinha dormido fora de casa. Quando namorávamos e saíamos à noite, à meia noite no máximo ela tinha de estar em casa. Foi uma mudança mais brusca, mas acabou por adaptar-se bem.

Fica 3 anos e meio na Académica porque o FCP não o quis de volta ou porque o Tonel queria ficar?
Por tudo. Porque no 1º ano quando cheguei, faltava meia época, a Académica estava para descer mas depois as coisas correram bem e não descemos. Eles gostaram de mim e quiseram que eu continuasse. O FCP também não se importou e para mim foi ótimo porque tinha acabado de me instalar e queria ficar.

Tonel, de preto à esquerda, num jogo da Académica, em 2002

Tonel, de preto à esquerda, num jogo da Académica, em 2002

D.R.

Continuou na Académica.
Sim. Eles também queriam que eu ficasse. Estávamos na 1ª divisão, gostava da cidade, gostava das pessoas, sentia-me bem, portanto. Tive mais treinadores. O Vítor Oliveira, o Artur Jorge, que tinha sido campeão europeu pelo FCP, o professor João Carlos Pereira, treinador com quem também gostei de trabalhar.

E do Artur Jorge gostou?
É uma figura mítica. Ele entrou a meio da época. Uma pessoa muito carismática, com uma presença que impunha respeito. Conseguiu levar a dele avante, conseguiu manter a Académica na 1ª Divisão e conseguiu criar uma ligação até de alguma empatia com os jogadores. No início havia alguma distância - ele era o Artur Jorge e nós éramos jogadores da Académica, mas ele conseguiu integrar-se e tínhamos grande respeito por ele.

E Vítor Oliveira?
Uma linguagem diferente. Lembro-me de o ouvir dizer: “Se não vai de charrua, vai de arado”, se não vai a bem, vai a mal. Era uma pessoa simples, com um discurso muito simples, um treinador em termos do físico...No primeiro dia da pré época nem me conseguia levantar (risos). Era uma tareia à moda antiga, ai Jesus.

Quando e como vai para o Marítimo?
Ainda no meio dessas duas épocas, há uma altura em que se chegou a falar em eu ir para o U. Leiria. Ligaram-me, mas eu gostava tanto de estar em Coimbra que fiquei. Depois, ainda na Académica, volto a renovar mais 2 anos com o FCP, ou seja, renovava de 2 em 2.

Não sentia nenhuma mágoa por não ser chamado à equipa principal do FCP?
Não, porque sentia que não estava preparado para jogar no FCP, sinceramente. Uma coisa era jogar na Académica, outra coisa era jogar no FCP. Sentia que quem estava no FCP era superior a mim, tive sempre essa noção. Quando fui para o Marítimo, o FCP vai buscar o Pepe ao Marítimo, onde tinha feito uma época espetacular, e manda-me a mim, ao Evaldo e ao Ferreira, que é um lateral direito.

Tonel esteve uma época no Marítimo

Tonel esteve uma época no Marítimo

Neal Simpson - EMPICS

Quando lhe dizem que vai para o Marítimo qual foi a sua reação?
Fiquei contente porque tinha gostado muito dos 3 anos e meio em Coimbra, mas o meu tempo lá tinha-se esgotado e ia para um desafio maior. O Marítimo tinha-se classificado para a Liga Europa. Deixava um clube que me marcou muito e onde adorei estar mas que lutava para não descer, para ir para um clube que estava em 5º ou 6º, ou seja um clube que lutava para estar nas competições europeias. Para a minha carreira era mais um saltinho. Tinha vindo da 2ª B, 2ª liga, 1ª, depois lutar para não descer, depois vou para a 1ª a lutar pela Liga Europa. Era uma progressão na carreira, por isso vi com bons olhos a ida para a Madeira.

Nessa altura já havia filhos?
Já. Casei e passado um ano e meio tive logo o primeiro filho. O Igor, que nasceu em 2002, faz 16 anos, em setembro. Em Coimbra a minha mulher estava muito sozinha e sentiu necessidade, e eu também, de sermos pais.

Vão os três para a Madeira? Como é que foi?
Vamos os três, sim. Quando chego sou muito bem recebido, as pessoas trataram-me muito bem, a equipa é a mesma do ano anterior. Ia disputar a fase de grupos para ir à Liga Europa, com o mister Manuel Cajuda. Sabia que se corresse tudo dentro do normal, ia ter ao meu lado o senhor Mitchell van der Gaag, que tinha sido alguém muito importante para o Pepe. O Pepe cresceu muito a jogar no Marítimo ao lado dele. E eu tinha hipótese de jogar ao lado dele e isso motivou-me. Gostei. Gostei de estar esse ano na Madeira.

E que tal o mister Cajuda?
Gostei de trabalhar com ele, era uma figura diferente dos outros.

Em que aspeto?
Pela maneira como falava, como vivia os treinos, como se integrava no grupo. O Cajuda chega a ir ao pormenor de falar do PH das águas. O Cajuda é um bocadinho ator, ou seja ele consegue transmitir as suas ideias aos jogadores, quer passar a mensagem e, às vezes, quer criar um ambiente mais descontraído e sabe fazê-lo bem. Gostei de trabalhar com ele, mas passado um mês e pouco, acabou por sair do Marítimo porque perdeu 1 ou 2 jogos.

Tonel, o 2º à direita em pé, com a equiipa do Sporting em 2006

Tonel, o 2º à direita em pé, com a equiipa do Sporting em 2006

D.R.

E vem quem?
Vem o Mariano Barreto e, com todo o respeito, gostei muito de trabalhar com o mister Manuel Cajuda, mas o Mariano Barreto foi alguém muito importante na minha vida. Com ele evoluí como nunca evoluí com mais nenhum, sinceramente.

O que é que tinha de especial?
Eu tinha 24 anos quando ele foi meu treinador. Esteve connosco cerca de 8, 9 meses, porque entretanto o nome dele veio à baila naquele caso da Casa Pia e ele disse que não tinha condições para continuar; queria defender o bom nome dele e saiu. Adorei trabalhar com ele, fez-me ver o futebol de outra maneira.

Como assim?
Ao nível do treino ele dava liberdade, gostava que os jogadores se sentissem à vontade com a bola, que se sentissem bem. Tentava meter-se no meio dos jogadores para ver se eles estavam a gostar ou não. A mim fez-me evoluir porque eu era muito agressivo, ia aos lances todos para ganhar, era um jogador muito concentrado no treino; se o ponta de lança recebesse a bola eu já achava que tinha feito mal, o ponta de lança não podia tocar na bola. Ele começou a ensinar-me algumas coisas que os outros não tinham feito até lá. A defender-me, a dizer que não tinha que chegar sempre primeiro e antes dos ponta de lanças, ensinou-me a saber ficar nas costas, a não fazer faltas. No fundo cresci com ele em muitos aspetos.

Ajudou-o a posicionar-se melhor em campo, é isso?
Sim, a posicionar-me, a fazer a leitura do jogo, a estar mais sereno. Com ele senti-me mais confiante. Eu era muito disponível, muito focado, muito concentrado, mas com ele senti-me mais confiante. Fui-me sentindo mais jogador. Estive só uma época na Madeira e esses 8 meses em que trabalhei com ele sinto que cresci e evoluí muito como jogador. E o que é certo é que passados dois, três meses o Sporting liga-me.

Tonel esteve cinco anos no Sporting

Tonel esteve cinco anos no Sporting

FRANCISCO LEONG/GETTY

Tinha empresário?
Não tinha empresário, mas uma pessoa amiga que tinha tratado das coisas quando fui da Académica para o Marítimo. E na altura há um episódio curioso. Quando acaba a primeira e única época com o Marítimo, ainda tinha mais 1 ano de contrato, mas o FCP queria rescindir e o Marítimo queria que eu ficasse mais 2 anos. Vim cá passar férias, rescindo com o FCP e estava previsto que, quando chegasse à Madeira, no início dos treinos, assinava 2 anos com o Marítimo. Já tínhamos tudo acertado, valores e tudo, quando faço o primeiro treino, vou para casa descansar porque tinha treino à tarde quando o telefone tocou. Era o presidente do Marítimo. “Tonel estou em Lisboa, o Sporting quer que tu venhas para cá. Já acertámos tudo. Pega no avião o mais rápido possível e anda.”

E?
Pensei que o presidente estivesse a brincar. Depois de garantir que só faltava eu acertar-me com o Sporting, ele disse uma coisa que nunca mais esqueci: “Agora não abras muito a boca que eles não têm dinheiro” (risos). E eu: “OK presidente eu vou já para aí”. Caiu-me tudo. Lembro-me que estava de chinelos, calção e t-shirt e só mais tarde é que me apercebi. Quando cheguei ao aeroporto estavam lá uns jornalistas que tiraram fotos e eu ia como uma t-shirt de manga à cava (risos). Não me preparei minimamente para aquele momento. Quando o presidente disse anda para cá o mais rápido possível, nem pensei na roupa que tinha, se era adequada ou não, só pensei em apanhar o avião e ir para Alvalade. Ligo ao meu empresário que estava no Porto e digo-lhe: “O Sporting quer que eu vá para lá, como é que é, queres ir lá negociar comigo?”. “Sim, vou lá negociar contigo”. Encontrámo-nos perto de Alvalade e fomos juntos para o Sporting. Mas fui eu que lhe liguei, o Sporting já me tinha contactado, não foi ele que me arranjou clube.

Assinou pelo Sporting por quanto tempo?
Assinei por 3 anos mais um de opção.

A sua mulher também ficou contente?
Óbvio. Tinha a noção de que uma coisa era jogar num clube médio ou até um bom clube e a outra é jogar num dos 3 grandes, ou até mesmo no Sp. Braga que hoje em dia já está mais perto dos grandes. Os 3 grandes têm uma envolvência diferente, têm um estatuto diferente. Eu tinha essa noção, que confirmei mais tarde. Quando cheguei ao Sporting comecei a viver outra realidade.

Tonel, à esquerda, tira foto com um fã do Sporting e com Abel

Tonel, à esquerda, tira foto com um fã do Sporting e com Abel

D.R.

Fale-me dessa outra realidade.
O treinador era o José Peseiro. Estavam lá o Beto e o Polga, que eram os centrais. Tinham o José Semedo que era um jovem da formação e que acabou por fazer carreira em Inglaterra, e eu ia ser o 3º, 4º central. Pensei: o Polga e o Beto são em teoria os centrais para jogar e eu e o José Semedo vamos lutar para sermos a 3.ª opção. Vamos trabalhar e depois logo se vê. Meti na minha cabeça que ia dar tudo o que tinha e se as coisas tivessem que acontecer, iam acontecer. E as coisas acabaram por correr muito bem, superaram as minhas expetativas iniciais, porque nos primeiros 2 meses e meio, além de ter jogado pouco, as coisas não correram bem à equipa, perdemos o acesso à Liga Europa e o mister José Peseiro saiu.

E vem o Paulo Bento.
Exato. Apesar de na época 2004/2005 o mister Peseiro ter estado quase a ganhar tudo, no detalhe acabou por não ganhar. Vem o Paulo Bento. Personalidades diferentes. A nível de treino o mister Peseiro gosta que a equipa tenha a bola e que disfrute do jogo. Gosta de ganhar mas se calhar ganhar não é tudo. Enquanto o mister Paulo Bento já é um treinador mais objetivo, mais focado no resultado, um treinador que consegue ser mais “disciplinador”. Quando o Paulo Bento chegou eu já estava no Sporting e ele acaba por sair e ainda continuo no Sporting. Ele esteve lá 4 anos e eu estive 5 anos. Conheço o Paulo Bento bem como treinador, não posso dizer como pessoa porque não tinha essa afinidade, era a relação jogador/treinador, mas acho que um treinador ao longo de 4 anos também se revela como pessoa. Para o Paulo Bento o grupo para ele estava acima de tudo, defendia-o acima de tudo. Eu identificava-me com essa ideia do grupo acima de tudo, como é óbvio.

Foram 5 anos no Sporting. Quando pensa nesse tempo qual é a primeira coisa que lhe vem à cabeça?
Foi o clube onde passei mais anos. Foi o maior clube em que estive e foi onde passei os meus melhores tempos. Graças ao Sporting fui internacional A e joguei na Liga dos Campeões. Foi o clube que mais me marcou. Às vezes perguntam-me: “Mas tu és portista ou és sportinguista?”. Eu hoje gosto do Sporting, passei lá 5 anos fantásticos. Fiz a minha formação no FCP, gostava do FCP, não era fanático mas era portista, mas depois vivi 5 anos no Sporting e de uma forma natural criei uma afinidade muito boa com os adeptos e com os sócios. Nunca houve nenhum sportinguista que me tenha abordado para culpar de alguma coisa, foram sempre palavras de agradecimento: “Tonel assim é que é. Jogadores que dão a vida pelo clube é que é importante e tu és um desses”. As abordagens quase sempre eram estas e ainda hoje há pessoas que me vêem na rua e dizem: “Olha o Tonel do Sporting”.

Num Sporting-FCP torce por quem?
Pelo Sporting (risos). Em casa, o meu filho mais velho, não digo que é fanático, mas gosta muito do Sporting, porque ele também cresceu ali um bocadinho. Dos 5 aos 10 anos ia ao estádio no mínimo de 15 em 15 dias. É normal que vivesse tanto aquilo, foram 5 anos da vida dele a ir muitas vezes a Alvalade e ficou a gostar. Sofre mais do que eu quando o Sporting perde.

Como está a viver estes últimos acontecimentos no clube?
Com muita tristeza, porque isto ultrapassa os limites do razoável. Era impensável acontecer o que aconteceu. É triste, é muito mau para o clube e para o país em si, pela forma como lá fora se olha para o futebol, em Portugal. Deixa-me muito triste.

Tonel, ao centro, comemro com o argentino Marco Torsiglieri e o francês Sinama Pongolle, depois de marcar golo no jogo de apres entação da equipa contra o Olympique Lyonnais, na época 2010/2011

Tonel, ao centro, comemro com o argentino Marco Torsiglieri e o francês Sinama Pongolle, depois de marcar golo no jogo de apres entação da equipa contra o Olympique Lyonnais, na época 2010/2011

LUIS GODINHO

Dessas 5 épocas no Sporting, qual é a melhor e a pior recordação que tem?
A pior foi uma lesão que tive em Paços de Ferreira. Parti o perónio numa porrada que levei e estive cerca de 2 meses parado. Foi um momento que me custou porque gostava de jogar e essa lesão tirou-me a possibilidade de jogar. E consequentemente acaba por estar ligado ao momento desportivo em que jogámos com o Bayern de Munique e perdemos em casa 5-2 e depois 7-1, em Munique. Cheguei àqueles jogos e não me sentia preparado, porque tinha estado 2 meses parado. Uma coisa é treinar, outra coisa é jogar e jogar contra o Bayern de Munique, super forte. Tive alguma dificuldade, não me sentia no meu melhor e passados 15 dias ou uma semana fomos a Munique na tentativa de limpar um bocadinho a imagem e acabámos por perder por mais. Foi um dos momentos marcantes pela negativa.

E pela positiva?
Vários. Duas Taças, duas Supertaças, um ano em que ficamos a 1 ponto do FCP, em 2º lugar. Quatro anos seguidos em que o Sporting foi à Liga do Campeões, o golo que marquei em Barcelona. Tenho muitos bons momentos. Lembro-me do 5-2 em casa ao Benfica, para a Taça. No final desse jogo até estava chateado porque tínhamos sofrido 2 golos (risos). O dia a dia naquele clube, para mim era um prazer.

Alguma vez foi praxado?
Fui, na Académica. Antes do jogo começar, à saída do túnel, meteram-se 5 jogadores de cada lado e tive de passar pelo meio para levar uns cachaços (risos). Era uma tradição em Coimbra, não sei se hoje ainda a fazem.

Tem mais dois filhos.
A do meio é a Mariana, tem agora 12 anos, nasceu quando eu cheguei ao Sporting. Foi feita na Madeira. Quando ela nasceu teve um problema e teve de ser internada passadas duas semanas com princípios de pneumonia e lembro-me que estava em Alcochete, onde vivi sempre, e como só tinha chegado há dois meses ao Sporting não conhecia nada nem quase ninguém. Mas houve um casal, com quem ainda me dou, que eram donos de um restaurante, que se disponibilizou para ajudar. Até uma ou outra noite ficaram com a minha filha no hospital para a minha mulher poder vir a casa descansar. Eu andava em estágios não tinha muita disponibilidade para ajudar e tínhamos outro filho, que tinha 3 anos na altura e também precisa de atenções e cuidados. A Beta e o Gaisita, os donos desse restaurante onde só tinha ido apenas meia dúzia de vezes, foram impecáveis.

Assistiu ao parto deles?
Assisti ao nascimento dos 3. Nasceram os 3 de cesariana. Consegui ser forte. No meu 3º filho, logo que saí do Sporting vou para a Croácia e a minha mulher está grávida de 8 meses e meio. E o curioso é que o meu filho mais novo, o Diego, nasceu no mesmo dia do meu filho mais velho, por acaso.

Por que Diego e não Diogo?
Lembro-me que na altura em que estava na Madeira, o Chainho, que esteve no FCP, tinha um filho chamado Diego e eu e a minha esposa gostamos muito do nome e comentamos que se tivéssemos um 3º filho ia chamar-se Diego. Na altura até disse: "É melhor não que com 2 já estamos bem". Mas veio a acontecer.

O sportinguista Tonel rouba a bola a Cristiano Ronaldo, então no Manchester United, em 2007

O sportinguista Tonel rouba a bola a Cristiano Ronaldo, então no Manchester United, em 2007

Matthew Peters

Voltemos ao Sporting. O Paulo Bento sai e vem o Carvalhal, não é?
Sim. O Carvalhal apanhou o clube numa situação complicada, porque foram 4 anos de Paulo Bento, marcou uma fase do Sporting, pela positiva não tenho dúvidas, porque se formos analisar os plantéis que teve... É importante analisar o que dão ao treinador para trabalhar e os orçamentos, porque os orçamentos é que nos permite ter jogadores melhores ou piores. Os resultados são muitas vezes consequência disso também. E com os orçamentos que o Paulo Bento teve, com o que lhe foi disponibilizado, conseguir nos 3 ou 4 anos ir à Liga dos Campeões e ficar em 2º lugar no campeonato... foi muito bom. Claro que queríamos ficar em 1º mas face aos orçamentos das outras equipas e aos jogadores que os plantéis tinham, acho que foi positivo. O último ano foi muito complicado. A saída Paulo Bento, a vinda do Carvalhal e do Costinha como diretor desportivo. Chegou-se a comentar na altura que o Carvalhal não era o treinador que o Costinha queria, e mais tarde veio a confirmar-se que era o Paulo Sérgio. Mas no meio ano em que esteve no Sporting gostei muito de trabalhar com o Carvalhal.

E do Costinha como diretor desportivo, com que opinião é que ficou?
Não era a praia dele. Ele agora é treinador do Nacional e já fez um bom trabalho, acho que como treinador acabará por ter mais sucesso e mais prazer no que faz. É o que penso, não sei se é verdade ou não. Mas não tenho que dizer mal do Costinha. A mim abriu-me a porta, digamos assim. Quando acaba a época eu já estava há 5 anos no Sporting tinha mais 1 ano de contrato e o Costinha disse-me: "Tonel se aparecer uma coisa boa para ti, para poderes ganhar dinheiro, mais do que ganhas aqui, nós deixamos-te ir". Apesar de ter feito muitos jogos e chegar a ser capitão, nunca tive um salário como tinham alguns. Quando venho do Marítimo para o Sporting pouco mais vou ganhar, mas para mim até podia ir ganhar o mesmo (risos). Havia muitos jogadores de fora que vinham ganhar muito mais do que eu e eu nunca me queixei. É óbvio que gostava de ganhar mais. Até que chegou uma altura, depois de 5 anos no clube, que entendi que as pessoas queriam mudar, aquela geração Paulo Bento tinha terminado. O Costinha abriu-me a porta. E isso fez-me ver que o meu tempo ali tinha acabado. Acho que para mim também era bom mudar, porque eu vivia muito o clube e a instabilidade daquela última época custou-me.

Histórias do Sporting, tem alguma que possa contar?
Tenho uma com o Postiga. Eu tenho uma boa relação com ele desde os juvenis do FCP. Eu era 2ª ano de juvenil e ele era 1º ano. O treinador muitas vezes chamava o Postiga para vir treinar connosco por isso conhecíamo-nos. Dávamo-nos bem mas estávamos sempre a picar-nos. Ele era ponta de lança e eu central andávamos muitas vezes picados. Mais tarde, no Spriting, aquela nossa "rivalidade" e picardias de miúdos, com 15/16 anos, veio ao de cima. Houve um treino em que estávamos a jogar um contra o outro e ou ele queixou-se que eu lhe tinha dado uma antes e ele deu uma a seguir ou vice versa, já não me lembro, sei que levantamo-nos os dois, encostamos a cabeça um ao outro, chateados, começamos a dizer que fazíamos e acontecíamos, e o Paulo Bento mandou-nos para o balneário. Lembro-me que estávamos os dois no chuveiro a tomar banho e começamos a falar: "Era escusado aquilo, agora vamos ser f....!". "Pois é". O Pedro Barbosa chamou-nos e levamos uma multa, tivemos de pagar um almoço à equipa (risos).

Tonel, à esquerda, festeja a conquista da Taça de Portugal, pelo Sporting, em 2008

Tonel, à esquerda, festeja a conquista da Taça de Portugal, pelo Sporting, em 2008

MIGUEL RIOPA

Como surge o Dinamo de Zagreb?
Através de um empresário que conheço naquela altura. Antes do Dínamo surgiu uma proposta da Turquia, até financeiramente mais vantajosa, mas eu não quis ir.

Porquê?
Tinha 2 filhos, a minha mulher estava grávida, já passava de 8 meses e eu ia para a Turquia? A guerra andava lá perto, a pouco mais de 100 km, e o dinheiro não é tudo. A proposta era muito boa, era do Eskişehirspor, mas disse que não. Entretanto apareceram mais umas coisas, mas nada que me motivasse muito. Até que no dia 25, 26 de agosto surge o Dínamo e as coisas fazem-se de um dia para o outro. Eles convidam-me para ir lá acertar as condições e vou. Claro que quando me falam de Zagreb, perguntei: “Isso é onde?”. Croácia? Nunca nenhum jogador português tinha jogado na Croácia. Mas pensei, é ao lado de Itália, é perto. Fui ver à net, tinha uma bela costa, boas temperaturas...e para um clube que era campeão há 6 anos seguidos que tinha entrado na liga Europa sempre nos últimos anos, permitia-me continuar a jogar a um nível bom. Não nos melhores campeonatos da Europa, mas logo no nível a seguir. Tinha 30 anos, aceitei.

Li algures que houve uma empregada doméstica que ajudou à sua transferência. Conte lá isso.
O treinador era o Vahid Halilhodžić, um bósnio que fez carreira em França no PSG, foi um dos melhores marcadores do PSG, e na altura ele era treinador do Dínamo. Ele tinha uma empregada portuguesa e quando surgiu o meu nome ele foi tentar saber mais coisas sobre mim, foi ver a minha carreira e como a empregada era portuguesa, até gostava e via futebol e era sportinguista, perguntou-lhe qual era a opinião dela. Ela disse-lhe muito bem de mim (risos).

Tonel, o 1º à direita, com a equipa do Dinamo de Zagreb, da Croácia

Tonel, o 1º à direita, com a equipa do Dinamo de Zagreb, da Croácia

HRVOJE POLAN

Foi sozinho para a Croácia nos primeiros tempos, cálculo.
Sim, a Liliana estava mesmo no final da gravidez. Nunca me tinha separado dela, custou-me um bocadinho. No dia 5 de setembro vim cá para a assistir à cesariana. Ela vai buscar-me ao aeroporto, vamos diretamente para a clínica, ela tem o nosso filho, e no outro dia, às 5 da manhã, vou embora outra vez, porque tinha jogos.

Como é que foi a adaptação à Croácia. Falava inglês?
Sim, eu desenrasco-me bem no inglês.

Ficou a viver sozinho quanto tempo?
Só passado um mês, quando o meu filho já podia andar de avião, é que foram ter comigo. Custou-me, marcou-nos.

O que foi mais difícil nessa altura, além das saudades?
Foi o facto de ter de “separar-me” da minha mulher, nunca tínhamos estado separados. Estava há um mês sozinho, custava-me não só o estar sozinho mas saber que ela não me tinha lá para apoiá-la. Eu estava bem instalado, tinha boas condições, treinava bem, mas fora do treino era complicado. Falávamos pela net mas...Eu via as dificuldades que ela estava a passar e não podia fazer nada, custou. Mesmo o facto de ver o meu filho umas horas e só voltar a vê-lo passado um mês... Mas faz parte da vida. Quando eles chegaram já tinha tudo preparado: casa, carro, etc. Eles ficaram cerca de meio ano aqui, a ideia era ficar cá mais algum tempo para não perderem a escola, porque o meu filho mais velho já andava na 3ª classe. Neste 1.º ano em que andavam lá e cá, de três em três semanas a minha mulher ia, ficava lá três ou quatro dias e voltava. Não havia vôos diretos.

A base em Portugal era onde nessa altura?
Onde moro hoje, em Santa Maria da Feira. A minha mulher tinha os pais para ajudá-la aqui e a minha irmã também. Eu tinha uma casa antiga dos meus pais, restaurei-a e fiquei com ela.

Tonle, à esquerda, disputa uma ola com Ozil, durante um Dinamo de Zagreb-Real Madrid, de 2011

Tonle, à esquerda, disputa uma ola com Ozil, durante um Dinamo de Zagreb-Real Madrid, de 2011

PIERRE-PHILIPPE MARCOU

Como foi a aventura desportiva na Croácia?
Fui campeão três vezes. Logo no meu 1º jogo da Liga Europa ganhamos 2-0 ao Vilarreal de Espanha, em casa. O presidente vive as coisas de uma maneira intensa e passados dois meses de lá estar ele dizia que eu era o melhor estrangeiro que tinha jogado na Croácia, que tinha sido a melhor contratação do Dínamo. Adorava-me. Passei ali dois anos em que me senti valorizado, integrado, as pessoas gostavam de mim, nunca me falou nada. Até que decidi vir embora.

Porquê?
Porque na verdade a minha família nunca se adaptou muito bem a viver lá. Nunca gostou. Acho que o facto de ter começado mal, isto é, de se ter dado o facto do meu filho nascer e a minha mulher ter de ficar em Portugal, marcou logo de início. O mais velho andava numa escola inglesa e não gostava da escola. Já tinha aqui as amizades dele, a escolinha, os professores e ir para um país diferente custou-lhe. Na escola havia miúdos das embaixadas da Ucrânia, EUA, Canadá, misturavam-se várias línguas e raças e eles não se adaptaram muito bem. Essencialmente porque vinham de uma realidade diferente. Ali também éramos só nós os 5, não tinham a família que tinham cá. Cheguei a ir para estágios, a minha mulher ficava com eles e quando os mais velhos tinham de ir para a escola, a minha mulher tinha de ficar a falar ao telemóvel com o mais velho porque as temperaturas eram de -15, nevava, a estrada estava cheia de gelo e eles iam a pé, sozinhos. A minha mulher não podia ir com eles, tinha de ficar em casa com o pequenino porque estava muito frio lá fora. E eles os dois iam sozinhos, a escorregar na estrada, com muito frio. Olhando para trás vejo que são momentos que os marcaram, embora eu ache que lhes fez bem.

Quando decide vir embora as coisas começam a não correr bem. Porquê?
Porque o presidente queria que eu renovasse e eu fui sincero com ele. Disse-lhe que eu até gostava de estar lá, mas que devido à minha família, queria vir embora. Eles sabiam que a família estava à frente de tudo. Foi aí que as coisas passaram quase de um extremo para o outro.

O que aconteceu?
Surgiu uma situação. O treinador, Ante Cacic, num jogo em casa com o PSG, não me pôs a jogar porque eu não renovei. A imprensa caiu em cima dele e ele disse que o Tonel já não estava com a cabeça no Dínamo, que queria ir embora, que andava a treinar mal e que já não queria saber do clube. Ou seja, disse coisas que não me disse a mim, foi dizer para os jornais. Não gostei. Acho que devia ter tido uma conversa comigo. Disse-lhe que ele não foi correto comigo. Houve um jornalista que falou comigo e descarreguei um bocadinho, disse que ele não tinha tido personalidade e que se tinha alguma coisa para dizer que me falasse nos olhos e não nos jornais. No dia a seguir é capa do jornal que Tonel disse que o treinador do Dínamo não tinha personalidade. A situação piorou. Nesse dia chamaram-me e disseram que face ao que eu tinha dito não tinham hipótese: ou ia eu ou o treinador. E como eu não queria ficar, iam pôr-me a treinar com os juniores. Percebi a decisão e estive dois meses e meio a treinar com os juniores. Não foi um período muito agradável. Passados três dias a equipa joga em casa e perde para a Taça com uma equipa de meia tabela e o treinador veio dizer que a culpa era minha, que eu tinha desestabilizado o balneário.

Tonel, à direita, festeja com Semedo a conquista do Europeu de sub-18, em 1999

Tonel, à direita, festeja com Semedo a conquista do Europeu de sub-18, em 1999

Adam Davy - EMPICS

Mas deve ter alguma história divertida para contar da Croácia.
Tenho uma engraçada. O meu parceiro de defesa era o Vida, que jogou agora o Mundial da Rússia, houve um jogo para a Taça que fiquei de fora para descansar. Estou em casa, a equipa tinha a saida para estagio lá para o final da tarde. Eu estava em casa tranquilo e de repente recebo uma chamada do diretor do clube a dizer que tinha de me apresentar rapidamente porque afinal tinha sido convocado. Como a camioneta dos jogadores já tinha partido eu ia com os roupeiros e outro staff do clube. Quando chego junto deles, pergunto-lhes o que se tinha passado para eu ter sido chamado, de repente. Estava calor e quando o autocarro arrancou de Zagreb, o Vida abriu uma cerveja no autocarro, estava com sede, o treinador viu-o e expulsou-o. Deixou-o mesmo no meio da cidade, mandou-o sair do autocarro mesmo ali (risos). Depois ainda se falou que ia ser multado em 100 mil euros por causa daquilo, mas não sei se foi verdade ou não. Se foi a cerveja, saiu-lhe bem cara (risos).

Entretanto surge o Beira Mar. Como?
Quando decidi que não queria continuar no Dínamo já tinha uma pessoa a falar aqui em Portugal e com o Beira Mar porque era o clube para onde queria vir. Sou de Santa Maria da Feira, e queria dar estabilidade aos meus filhos. O Beira Mar fica a 20 minutos de minha casa, estou a jogar na I Liga, por isso era o clube ideal.

Teve propostas de outros clubes?
Tive proposta de um clube do Algarve, mas não quis. Já tinha andado muito de um lado para o outro e o meu filho mais velho na altura já tinha 10 anos, ia entrar no 5º ano, e queria dar-lhe estabilidade.

A sua família também fazia pressão para o Tonel voltar?
Não era pressão, pelo menos feita propositadamente. Na Croácia, às vezes chegava a casa e os meus filhos estavam tristes porque não queriam estar ali. Isso vai-nos dando sinais.

Eles não lhe pediam para regressar a Portugal?
Às vezes diziam que gostavam de voltar mas nunca fizeram birra. Eu também já tinha 32 anos, achei que o dinheiro não era tudo e que eles precisavam da tal estabilidade. Dois deles estavam em idade de escola e iam chegar aqui com dois ou três anos de atraso em relação aos outros, porque andavam numa escola inglesa, as matérias não eram as mesmas. E depois em vez de irem para o 5.º ou 6.º ano, iam para a 4ª classe com miúdos 2 anos mais novos. Não ia ser bom para eles. Isso fez com que voltasse e o Beira Mar para mim foi ótimo.

Tonel na seleção

Tonel na seleção

Mike Hewitt

Quem era o treinador do clube?
Ulisses Morais. Quando cheguei em janeiro o Beira Mar estava a meio da tabela, mas mais perto do fundo do que propriamente de cima. A minha perspectiva era ficar mais alguns anos no Beira Mar. Assinei por ano e meio. Só que correu mal.

O que correu mal?
Estive na Croácia a treinar com os juniores durante 2 meses e meio, portanto a preparação era diferente. A minha dedicação não era a mesma, não treinava com a mesma pica. Chegou dezembro o campeonato lá parou, vim embora. Estive mais de 1 mês parado. Só comecei a treinar em janeiro, no Beira Mar. Os outros estavam a meio da época em Portugal e eu não tive a pré-época que devia ter tido e quando começo a jogar passados 2, 3 jogos não sei se por isso ou não, lesionei-me. Fiz uma rotura na coxa, atrás. Estive 3 semanas e meia parado e quando volto, no primeiro treino, rasguei-me outra vez, ao lado. Ou seja, não tinha curado bem. Só que, durante o período em que estive parado, os resultados também não foram bons e a equipa estava a cair. Eu sentia, as pessoas sentiam e sabia que o treinador também sentia, que eu podia ajudar se estivesse a jogar. Isso fez com que se precipitasse o meu regresso ao treino. Acabei por fazer 3 roturas. Ou seja, depois daquela 2ª, aconteceu uma 3ª vez. Acabei por estar parado 3 ou 4 meses no total.

Jogou muito pouco então.
Só fiz 3, 4 jogos. Voltei no final de abril e o campeonato acabava em maio.

É por isso que vai para o Feirense?
Sim. Depois do último jogo no Beira Mar, o Beira Mar precisava de ganhar ao Sporting para se safar e ficar na I Liga. Ao intervalo estávamos a perder 3-0, era o Costinha o treinador. Eu estava no banco e até entrei na 2ª parte, mas o resultado final ficou 4-1 e o Beira Mar desceu de divisão. Eu tinha vindo para ajudar e a verdade é que não ajudei como devia. Tinha mais um ano de contrato, era até dos mais bem pagos, juntamente com o Balboa, que também esteve lesionado algum tempo. O Beira Mar ia jogar na II Liga e eu não me senti bem. Sendo dos mais bem pagos eu não podia ficar no Beira Mar com o mesmo contrato a jogar na II Liga. Acho que não era correto.

O que fez então?
Abdiquei do ano seguinte de contrato. O Beira Mar não pagou um cêntimo e abdiquei do último mês de contrato. Ou seja, assinei um contrato de 15 meses e recebi 4 meses no total. Tentei ser o mais correto possível com o clube. E surgiu o Feirense, da II Liga, que fica a 2 minutos de casa. Era um projeto ambicioso, de tentar ir para a I liga e aceitei. Estive aqui dois anos e no 2.º ano estivemos mesmo a um passinho de subir de divisão. Joguei 80 jogos da II Liga. Nove meses antes estava a jogar a Liga do Campeões. Mas a vida é mesmo assim.

Custa?
Claro que custa, porque em termos de motivação tenho que admitir que não era a mesma coisa jogar a Liga dos Campeões e jogar na II Liga, mas tinha de ter humildade suficiente para aceitar, foi o caminho que eu escolhi.

Tonel em ação pelo Belenensesl

Tonel em ação pelo Belenensesl

Gualter Fatia

Vai parar ao Belenenses porquê e como, se a ideia era não sair de casa?
Estava a acabar contrato com o Feirense, com 34 anos, e estava na dúvida se ainda tinha motivação para continuar ou não, estava a pensar no que queria fazer mas punha todos os cenários. De continuar e não continuar a jogar. E recebo uma chamada do Belenenses, neste caso do Sá Pinto, que tinha sido meu colega e diretor desportivo no Sporting. Ia ser treinador do Belenenses. "Quero que saibas que tivemos pessoas ver-te este ano porque eu já tinha isto mais ou menos falado com o Belenenses. Tu ainda estás bem, e podes ajudar-nos na I Liga". Não estava à espera, sinceramente. Com 34 anos, depois de estar 2 anos na II Liga voltar à I, não é muito normal. Disse-lhe logo: "Sá, eu vou a pé se for preciso". E pronto. Facilmente acertei com o Belenenses porque o dinheiro não foi questão prioritária. Ainda por cima o clube ia disputar o acesso à Liga Europa.

Foi sozinho para Lisboa?
Não (risos). Lá está, eu queria estabilidade para os meus filhos, ainda tinha a minha casa dos tempos do Sporting, em Alcochete. Pensei, tenho casa, os meus filhos podem ir para a mesma escola onde tinham andado quando eu estava no Sporting, vão continuar em Portugal...Eu ia assinar contrato de 1 ano e quem sabe não podia ficar mais.

Como foi a reação em casa?
Gostaram da ideia. Eles quando pensavam no sair de casa pensavam na Croácia, no estrangeiro, mas iam ficar em Portugal e num sítio onde já tinham estado os 2 mais velhos. E fomos todos para baixo outra vez. A seguir a assinar pelo Sporting ir para o Belenenses foi o segundo momento mais feliz porque não estava a contar.

Chega e passado um mês o Sá Pinto vai embora.
Eu cheguei em julho, para a pré época. Jogamos o apuramento para a Liga Europa e pela primeira vez na história pusemos o Belenenses na Liga Europa. Eu tinha contribuído com excelentes exibições nesses jogos, estava a jogar sempre, o Carlos Martins estava espetacular, eu estava com um orgulho muito grande. Acho que foi a época da minha vida em que estive a jogar com mais prazer e sem pressão. Até que surge aquele jogo com o Sporting. A partir daí mudou tudo.

Dê-nos a sua versão dos acontecimentos.
Aquilo foi absurdo.

Tonel acabou a carreira no Belenenses

Tonel acabou a carreira no Belenenses

Carlos Rodrigues

Estamos a falar do episódio em que toca a bola com a mão, involuntariamente, dentro da área, que originou um penalti a favor do Sporting, já no tempo de descontos, e a vitória dos leões. Depois, um comentador, Rui Gomes da Silva, num programa de televisão, deu a entender que foi intencional da sua parte, para ajudar o Sporting a ser campeão. É isto?
Exatamente. Aquilo que ele fez foi sem escrúpulos. Mas há que distinguir a pessoa e o clube a que está associada, o Benfica. Eu sei que as pessoas do Benfica, nomeadamente pessoas acima dessa, não se reviam naquelas declarações. E não é por acaso que aquela pessoa que falou no programa passado meio ano sai do Benfica.

O que é que o magoou e custou mais?
Tudo o que atingi na carreira foi graças ao meu empenho e dedicação, a ser sério e honesto. E essa pessoa quis pôr em causa tudo isso. Ando 15 anos a trabalhar, crio uma imagem que corresponde aquilo que sou realmente e vem essa pessoa alterar tudo em 5 minutos na televisão. Começo a perguntar-me porquê. E percebo que o mister Jorge Jesus tinha trocado o Benfica pelo Sporting, então tudo o que fosse apanhado no meio era para triturar.

O que quer dizer?
Valia tudo. Aquilo acaba por ser uma coisa que beneficiou o Sporting e quem fosse apanhado no meio era para...Fui apanhado numa guerra que não era minha.

Depois daquele comentário as coisas acabam por tomar outras proporções. A onda de comentários contra si cresceu.
Sim, mas essa pessoa foi a principal responsável pela maneira como falou. Quer se queira quer não, infelizmente, o que se diz na televisão tem algum impacto e as pessoas assumem que aquilo que se diz na televisão é verdade. Não conseguem ver mais à frente. Transmite uma ideia e a sociedade bebe dessa ideia. Eu passei do céu ao inferno no espaço de um dia.

Foi criticado no próprio Belenenses.
Exatamente, no próprio clube, pelos adeptos. No jogo a seguir, que foi em casa, lembro-me que, no aquecimento, tinha adeptos do Belenenses a chamar-me nomes. A dizer que eu tinha feito de propósito. Como é que é possível? Estas pessoas que aqui estão a dizer isto, há três meses estavam a aqui a bater palmas quando o Belenenses entrou pela 1ª vez na Liga Europa.

Foi isso o que mais lhe custou?
Foi. O comentário foi o impulsionador de certas atitudes e custou-me por vir de alguém que andava no futebol há muitos anos mas não tem um mínimo de bom senso nem mede as palavras. Andei 15 anos a fazer uma carreira, a dar tudo, a ser uma pessoa séria, dedicada e alguém que não me conhece de lado nenhum vem pôr em causa isto tudo.

Chegou a colocar Rui Gomes da Silva em tribunal?
Não. Eu queria. Estive em 3 advogados mas infelizmente todos eles disseram: "Tonel, vais perder".

Porquê?
Porque na nossa sociedade ainda pesam algumas coisas e há algumas forças... Eu perguntei-lhes: "Mas como é que vamos perder se as declarações estão aqui, temos aqui jornais, temos tudo". E eles: "O sistema funciona assim. A probabilidade de ganhares é muito pequena. Vão alegar que é liberdade de expressão, que é não sei quê e depois sabes como é, este conhece aquele, aquele conhece o outro…”. E a verdade é que depois começam a sair algumas notícias de outros casos, de outras coisas, de aquele envolvido com aquele e eu começo a ver que realmente ainda ia perder. Como é que é possível? Mas, pronto. Acabei por desistir porque tive três advogados que não quiseram avançar.

Disse numa entrevista que esteve um mês sem sair de casa.
Sim, foi difícil, eu não me sentia bem. Achava que as pessoas olhavam para mim de uma maneira diferente, no próprio clube, cá fora os adeptos...O Sá Pinto também foi embora passados 15 dias, depois gerou-se uma confusão entre a SAD e o clube. Houve uma divisão grande.

Tonel a mulher e os três filhos

Tonel a mulher e os três filhos

D.R.

Depois do Sá Pinto veio o Julio Velazquez.
Sim. Alguém lhe deve ter dito o que se passou, não só comigo como com o clube e o Sá Pinto e há uma situação em que vamos jogar ao Rio Ave e o Velázquez não tem mais centrais porque ainda não tinha chegado o certificado internacional do Rafael e pôs-me a jogar. Joguei muito bem e ganhámos 2-1. Isto foi passado um mês de ter acontecido aquilo. Pensei: bem, agora mudou o treinador as coisas já acalmaram um bocadinho, eu joguei bem, a equipa ganhou, isto agora vai engatar outra vez, vou começar a jogar e as coisas até vão acabar bem. Mas, na semana a seguir, jogámos em casa com o V. Guimarães, pensava que ia jogar a titular e quando vou ver a convocatória, não tinha sido convocado. Aí caiu-me tudo. Nem uma palavra do treinador. Pelo menos eu se fosse treinador chamava e dava uma explicação. Ele não. Nem uma palavra.

Não perguntou nada?
Não. Também não quis complicar a vida à pessoa. Ele é que é o treinador. Se alguém tinha de dizer alguma coisa a alguém, era ele. Se eu fosse perguntar ele poderia responder simplesmente: "Opção minha".

O que aconteceu depois?
Raramente joguei até ao final da época. Acabou a época e acabou aí a minha carreira.

Não recebeu mais propostas?
Recebi mas eram propostas de outro nível, de II Liga, para onde já não queria voltar. Eu estava na I Liga e sentia que tinha condições para jogar na I Liga. Tinha determinado tipo de objetivos. Aquele episódio tinha-me marcado de tal forma que as coisas depois não surgiram como eu queria. Mas aí já tinha 35 anos e tive capacidade para aceitar que tinha chegado o fim da minha carreira. Agora não acabou da maneira que eu quis nem como eu acho que merecia. Mas já foi há dois anos, olho para trás e penso que se foi assim é porque tinha de ser. Também houve momentos em que as coisas correram bem e se calhar não merecia tanto.

Como é que imaginava o final da sua carreira de jogador?
Eu gostava de acabar normalmente, ou seja, chegou a altura sinto que já não tenho condições físicas, psicológicas e motivacionais para continuar a jogar e ponho um ponto final. Mas de maneira diferente do que aconteceu. Era eu a pôr o ponto final e não alguém a ditar-me o final da carreira que foi o que aconteceu. Foi isso que me custou e que me custa ainda hoje. embora prefira olhar para o lado bom e dar graças a Deus por aquilo que consegui e pelos momentos que vivi.

Como é que surge Tonel, o treinador?
(risos). Vamos ver o que é que vai acontecer. Para já estou a tirar o curso, acabei agora o nível I. Não entendo como é que um jogador como eu e outros, como o Silas que está no Belenenses e que tem uma carreira similar à minha e outros, não tenham o nível I do curso de treinador. Obrigam-nos a estar 2 anos a tirar o nivel I. Não dão equivalência a nada. Pela lei se o Cristiano Ronaldo terminasse a carreira agora tinha de ir tirar o nível I do curso de treinador. Absurdo.

Mas esteve a treinar o Lusitânia Lourosa e o União de Lamas.
Estive. Mas eu tinha comigo um treinador de nível II e ele é que era o treinador, digamos assim.

Gostou da experiência?
Gostei. Mas eu não queria ser treinador (risos(). Quando as pessoas me perguntavam se eu ia ser treinador quando acabasse o futebol, eu dizia que não. Não tinha nada planeado. Acho que o futebol marcou-me tanto pela positiva que nunca vou ter nada que me dê tanto prazer como tive a jogar. Eu tinha prazer no jogo. Não tenho ainda um foco definido. Essa coisa de ser treinador surgiu por acaso. Pediram-me para ser diretor desportivo do Lusitânia Lourosa porque assim não me afastava do futebol de uma maneira radical. Só que surgiram várias situações, foram embora dois treinadores por maus resultados e a três meses do final da época pediram-me para pegar na equipa. E eu peguei. Levei o barco até ao fim. A verdade é que os resultados melhoraram e eu gostei, tive prazer. Porque não? Tenho como objetivo ser treinador mas não sei se vai dar, vou tentar lá chegar pelo menos.

Vai treinar alguma equipa na próxima época?
Este ano, em princípio não. Tenho de tirar os outros níveis, o que leva quatro anos.

O que vai fazer além de terminar os restantes níveis?
Vou fazer outras coisas à parte do futebol, mas não quero falar sobre isso. E tenho 3 filhos para criar.

Ao longo dos anos investiu o dinheiro onde? Em Imobiliário?
Também. Soube guardar algum e gastar outro.

Investiu em algum negócio?
Não. Tenho as portas abertas, não tenho um rumo definido, não sei o que vou fazer mas felizmente a vida permite-me tentar ir por alguma coisa que me dê prazer. Se puder ser treinador, se puder ter prazer no meu trabalho sem abdicar dos meus valores, da minha integridade, deixa-me satisfeito.

Foi chamado a primeira vez à seleção com 15 anos, pelo Agostinho Oliveira. E depois foi sempre chamado...
...Fui sempre chamado, aos sub-15, sub-16, sub-18, sub-20, sub-21 seleção B e A. Fiz o percurso completo nas seleções.

Quais são as melhores memórias da seleção?
Lembro-me da minha estreia no Egito. Com 15 anos. Dois jogos particulares no espaço de 3 dias. Depois lembro-me de ser campeão da Europa de sub-18, na Suécia, em 1999. E seleção A, a 1ª vez foi em Coimbra. Fui internacional 2 vezes na equipa A. Uma delas com o Scolari, em 2006, em Coimbra. A segunda vez foi em 2010 com o Carlos Queiroz, em Coimbra também.

Com que opinião ficou desses 2 selecionadores?
Gostei de ambos. O Scolari é muito simples na ligação, tem fé, transmite aos jogadores isso, é católico, agarra-se muito à sua fé.

O Tonel também é católico?
Sou. Não posso dizer que sou muito praticante, não vou à igreja todos os domingos e entendo que cada um tem a sua maneira de exercer a religião.

Faz promessas?
Já fiz. Quando jogava tinha um amuleto, uma Nossa Senhora pequenina, que levava sempre comigo para o campo. Pedia e no final das épocas agradecia. Acreditava que tinha alguém lá em cima a olhar por mim também.

Alguma vez fez uma entrada mais dura em que percebeu logo que ia correr mal?
Sim. Principalmente nos treinos. Mas nunca foi por maldade. Lembro-me uma vez nos treinos do FCP na equipa B, fiz uma entrada a um baixinho e torci-lhe um pé. Sei que esteve 2 ou 3 semanas parado por causa daquilo. Arrependi-me logo, era desnecessário. Isso aconteceu-me algumas vezes, mas não era por maldade era por querer ganhar. Eu era muito rigoroso, muito sério, muito focado. Por isso o Chainho dizia que eu era um tropa. Eu era agressivo e cheguei a ser expulso dois ou três vezes por agressão. No FCP fui criado no "ganhar ganhar,a ganhar". Mas chegou uma altura em que era duro, mas não passava de certos limites, e a partir dos 30 eu só queria é que não me dessem a mim (risos). Lembro-me que, com 21 ou 22 anos, deixava crescer a barba antes dos jogos que era para parecer mais velho, para impor mais respeito (risos).

Algum dos seus filhos vai seguir-lhe as pisadas?
Eu gostava. Mas o mais velho não. Não tem algumas coisas que é preciso no futebol. Ele jogou muitos anos, mas no último saiu. O mais novo vejo-o mais parecido comigo. Tem 7 anos, ainda é muito pequenino, mas vai agora para as escolinhas do Benfica porque se destacou no Lusitânia Lourosa e o Benfica chamou-o. Vamos ver, ainda é muito cedo.

E torcem por quem?
O mais novo é benfiquista (risos). Eu gostava que eles fossem sportinguistas... O mais velho é fanático pelo Sporting mas o mais novo como foi 4 ou 5 vezes ao Benfica treinar e agora chamaram, ele então é benfiquista. Não vou dizer nada. A minha filha gosta do Sporting mas não gosta muito de futebol.