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A casa às costas

Ricardo Fernandes: “Tive ataques de pânico, ficava a tremer, o coração acelerava muito. Quando paravam parecia que tinha feito ginásio”

Deixou os relvados há uns meses, já perto dos 40 anos, depois de uma carreira que passou por Sporting e FC Porto e, lá fora, Chipre, Grécia, Ucrânia e Israel. Arrepende-se de não ter conseguido impôr-se no FC Porto, clube de onde gostava de não ter saído, e conta algumas histórias vividas no famoso autocarro dos dragões. Diz que gostava de ser treinador, já experimentou o agenciamento de jogadores e está a pôr de pé um restaurante-bar, em Vizela, depois de ter transformado a casa de família num turismo rural. Sobre Cristiano Ronaldo, que conheceu quando este tinha 17 anos, diz que era muito mais arrogante do que hoje

Alexandra Simões de Abreu

Rui Duarte Silva

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Nasceu em Moreira de Cónegos, era vizinho do Pedro Mendes... E mais? Conte-nos um pouco mais sobre a sua família.
Tenho um irmão mais novo seis anos que se chama Rui. O meu pai, Dinis, era encarregado de secção de peças e stocks de uma empresa em Moreira de Cónegos, e a minha mãe, Maria José, era costureira. O Pedro Mendes costumava jogar à bola no meu quintal.

Quando se fala de infância, qual é a primeira memória que tem?
A rua e as brincadeiras, o futebol na rua com os amigos, à porta de casa.

A bola sempre foi a grande paixão?
Foi e continua a ser, agora de forma diferente, do lado de fora. Hoje é que percebo que era realmente a única coisa que sabia fazer [risos]. Ainda há uns dias, em conversa com uns amigos, estava a dizer que a minha vida foi sempre andar a correr atrás de uma bola e achava que o mundo todo girava à volta da bola. E não é assim. Agora é que estou a aprender o que se calhar devia ter aprendido há muitos anos.

Não gostava da escola?
Gostava muito de andar na escola, não gostava de estudar. Custou-me sair da escola, mesmo sendo por causa do futebol, porque gostava muito do ambiente da escola.

Ricardo Fernandes começou a formação no Desportivo das Aves, com nove anos

Ricardo Fernandes começou a formação no Desportivo das Aves, com nove anos

Rui Duarte Silva

Quando é que vai pela primeira vez a um clube?
Com nove anos fui para o Aves, para as escolinhas. Era o único clube daqui que tinha um escalão sub-10. O Vitória de Guimarães tinha equipas a partir dos infantis, dos 10 anos para cima. Fui porque estava ansioso por jogar. O meu pai acabou por fazer o favor de levar-me lá. Ele também gostava muito de futebol, toda a vida esteve ligado ao Moreirense, ainda hoje continua a ajudar na parte da secretaria. Nunca foi remunerado, mas passou metade da vida dele a trabalhar para o Moreirense e a outra metade para mim.

Nessa época torcia por que clube?
Nunca fui muito de ver futebol na televisão. Mas gostava muito do Sporting, porque tinha aquela geração do Figo, do Peixe, que foram campeões em Riade e tiveram oportunidade de jogar muito cedo na equipa principal. Como eu tinha o objetivo de ser profissional, gostava do Sporting por isso, porque dava oportunidade aos jovens portugueses.

Nunca quis ser outra coisa?
A única vez que balancei foi por volta dos 16 anos, quando começamos a pensar noutras coisas. Um dia atrasei-me a chegar a casa para o meu pai levar-me ao treino e ele chateou-me a cabeça. Nesse momento disse-lhe que não queria jogar mais futebol. Foi a única vez que o meu pai me forçou a fazer alguma coisa. Disse que não tinha andado oito anos a levar-me e a ir buscar a todo o lado e a fazer sacrifícios, para eu agora, que estava tão perto, abandonar e virar as costas àquilo por que todos tínhamos estado a trabalhar. Foi a única vez que balancei, mas nem era porque queria fazer outra coisa, era mesmo porque não queria fazer nada [risos]. Se não fosse o meu pai a chamar-me à atenção naquela altura se calhar tinha deitado tudo a perder. Mas nunca pensei em fazer outra coisa.

Os pais de Ricardo

Os pais de Ricardo

Rui Duarte Silva

Quando aos nove anos foi para o Aves, já ia com uma posição definida?
A posição foi sempre no lado esquerdo, pelo facto de ser esquerdino. No primeiro treino, o treinador, o senhor Pinheiro, meteu-me a jogar a lateral esquerdo. Eu não gostava nada de defender, gostava de jogar na frente. Depois passei a extremo esquerdo, mas também não gostava porque ficava muito tempo à espera que a bola chegasse e eu queria ter sempre a bola. Mais tarde comecei a jogar no meio-campo, mais à frente ou mais atrás, mas no meio-campo.

Era aí que gostava de jogar.
Sim. É ali por onde passa tudo, eu queria que a bola estivesse sempre nos meus pés.

Quem eram as suas grandes referências, os seus ídolos?
Nunca tive. Eu via o Moreirense todas as semanas e os meus ídolos eram do Moreirense. Havia um jogador brasileiro, um tal de Denô, que chegou aqui já na fase final da carreira, com 34 ou 35 anos, mas era um fenómeno e fazia coisas que normalmente não se viam. Se calhar foi ele a minha maior referência.

Ricardo Fernandes é o 4º jogador em cima, a partir da esquerda

Ricardo Fernandes é o 4º jogador em cima, a partir da esquerda

D.R.

Fez todos os escalões no Aves.
Sim, até aos sub-18. Às vezes já vinha ao Moreirense treinar, o treinador era o Carlos Garcia. Na pré-época como não tinha treinos nos juniores do Aves e o meu pai era diretor do Moreirense, lá se arranjava forma de treinar com a equipa sénior do Moreirense. Nos dois anos antes de passar a sénior, fazia duas semanas de treinos com o Moreirense. Na altura era muito pequenino, muito magrinho e o Carlos Garcia ajudou-me. No meu último ano de juniores indicou-me o professor Zé Neto, em Paços de Ferreira, para ele fazer-me um plano de treinos de forma a que eu pudesse evoluir fisicamente. Fiz o plano durante seis meses e no ano seguinte entrei no plantel sénior do Moreirense.

Correu bem?
Fiquei quase um ano sem jogar e como eu gostava de jogar... Entretanto o patrão do meu pai, o senhor José Almeida, que na altura investia em Freamunde, convidou-me para ir para o Freamunde, da 3ª divisão. E fui emprestado. Fomos campeões, subimos à 2ª B e regressei ao Moreirense. Mas nunca quis ficar no Moreirense e arranjou-se maneira de eu voltar para o Freamunde onde fiquei mais dois anos.

Ricardo com o irmão, Rui, mais novo seis anos

Ricardo com o irmão, Rui, mais novo seis anos

Rui Duarte Silva

É no Moreirense que recebe o primeiro ordenado?
Sim, no meu primeiro ano de sénior. 40 contos [200 euros] .

Fez alguma coisa de especial com esse dinheiro?
Não. O primeiro carro foi o meu pai que me deu e eu destruí-o [risos]. Era um Seat Ibiza.

Destruiu como?
Tive um acidente, sozinho, dois dias antes de assinar pelo Sporting. Tivemos jogo à tarde, era a 3ª ou 4ª jornada da 2ª Liga, creio que o Freamunde ganha em casa contra o Esposende 2-0 e fui eu quem fiz os dois golos. Depois fomos jantar com uns amigos. Na volta bati de frente com um muro e o carro foi para a sucata. No dia seguinte estava a sair do hospital e liga-me o Joaquim Gomes, que na altura trabalhava com o José Veiga, a propor-me a ida para o Sporting.

O telefonema surge do nada?
Eu já tinha falado com vários empresários. Recordo-me de almoçar com o Jorge Manuel Mendes, mas nunca tinha assumido compromisso com ninguém. Esperava que quando me aparecesse uma proposta, aí sim assumia um compromisso. Foi quando surgiu o José Veiga, através do Joaquim Gomes, e assinei contrato com o Sporting.

Quando percebeu que ia para o Sporting ficou eufórico?
Já se falava muita coisa, já esperava que acontecesse alguma coisa, mas não esperava que fosse para um nível tão alto porque afinal eu vinha da 2ª divisão e dois meses antes jogava no que é hoje o CNS. Comecei muito por baixo, fui campeão em todas as divisões em Portugal, não deve haver muita gente que o tenha sido, e esperava que houvesse uma oportunidade num clube na 1ª divisão, mas não contava que fosse logo num dos maiores de Portugal.

Ricardo no dia da entrevista escolhe fotos com a mãe, sob o olhar do irmão Rui

Ricardo no dia da entrevista escolhe fotos com a mãe, sob o olhar do irmão Rui

Rui Duarte Silva

Apesar desse percurso nunca foi chamado à seleção.
Não. Creio que uma vez fui pré-convocado para a seleção B, no ano em que estive no Gil Vicente. Eu e o Luís Loureiro estivemos pré-convocados, mas na lista final, já só foi o Luís.

Ficou com essa mágoa?
Um bocadinho.

Acha que a chamada não aconteceu porquê?
Na formação não aconteceu porque naquela altura as seleções só levavam jogadores do Sporting, do FC Porto e do Benfica, mais o Boavista e pronto. Nem SC Braga, nem V. Guimarães. O V. Guimarães durante anos e anos teve um ou dois jogadores nas seleções. Ainda bem que hoje já não é assim. O campeonato também é feito de forma diferente. Eu joguei sempre nos campeonatos distritais, mesmo na formação, era natural que não conseguisse. Mas há várias situações que se calhar me fizeram chegar onde cheguei. Quando fui treinar ao Boavista com 12, 13 anos sabia bem o que estava a fazer, mas só porque era o mais pequenino, o mais levezinho, não olhavam para mim. E na verdade eu fazia 10 vezes mais do que os outros miúdos que lá estavam, mas chegava ao fim e eles diziam aos miúdos maiores para aparecerem no dia seguinte e eu vinha-me embora. Isso também fez com que eu prometesse coisas a mim próprio....

Que coisas?
Pensava: "Um dia vão pedir que eu venha e eu vou dizer não".

Isso aconteceu?
Aconteceu.

Com que clube em concreto? Com o Boavista?
Não chegou a haver o convite mas era natural que quando estava na I Liga, no Sporting ou no FC Porto, que eles tivessem essa vontade. Isso também fez com que eu ganhasse forças. Tenho outro episódio com o Moreirense também. Eu estava emprestado ao Freamunde, mas queria ficar livre do contrato com o Moreirense e quando me dão a rescisão alguém diz ao meu pai: “Vamos dar a rescisão ao teu filho para um dia ele não dizer que não chegou a lado nenhum por nossa causa”. Ou seja estavam a querer dizer que eu não ia dar em nada e assim já não tinham essa responsabilidade nos ombros. O meu pai ainda achava que eles estavam certos e não gostava que eu me revoltasse, mas estas coisas doíam-me.

E quando assina contrato com o Sporting, estava livre do Freamunde?
Não. Eu assino com o Sporting no início da época, já tinha feito os primeiros três jogos do campeonato em Freamunde, mas fico até ao final da época, em Freamunde, cedido. No ano seguinte é que já fui fazer a pré-época, com o Inácio. O Sporting tinha sido campeão.

Ricardo no dia da 1ª Comunhão

Ricardo no dia da 1ª Comunhão

Rui Duarte Silva

A ida para o Sporting obriga-o a sair da casa dos pais. Custou-lhe?
Um bocadinho, estava perdido. Aliás, no primeiro dia de treinos chego ao estádio José Alvalade e o segurança perguntou-me quem eu era, não fazia a mínima ideia de quem eu era e tive de ligar ao Bino, que é casado com uma amiga minha de infância. Por sorte ele estava lá e ajudou com o resto da logística [risos].

Ficou a viver onde?
Em Setúbal. Como treinávamos em Alcochete, a maior parte dos jogadores ia para o Montijo, mas o sítio onde viviam e onde estavam a iniciar a construção de alguns prédios não me agradava muito. Como tinha um amigo, que esteve comigo no Gil Vicente, que tinha assinado pelo Setúbal, pensei: “Vamos para Setúbal, também não é assim tão longe”.

Já era casado?
Sim. A única namorada que tive, que possa dizer que foi minha namorada, é a minha atual mulher, a Roberta.

Como é que se conheceram?
Na verdade conhecemo-nos quase desde que nascemos, vivíamos na mesma rua, a uns 500 metros um do outro, mas nunca tinha havido intimidade. Ela estava numa escola perto de Guimarães, eu estudava em Riba de Ave, por isso praticamente não nos encontrávamos. Conhecíamo-nos de vista, até que, com 18 anos, nos encontramos numa saída. Conhecemo-nos melhor e começamos a nossa relação que teve altos e baixos, mas que se mantém.

Casaram quando?
Casámos muito cedo, em 2000, tinha acabado de fazer 22 anos e ela 21.

O que é que a Roberta fazia nessa altura, trabalhava?
Ajudava a mãe, que teve durante muitos anos uma confeção, e estudava. Acabou por abandonar os estudos quando casamos. Eu nunca quis que ela trabalhasse. Ela trabalha muito em casa. Com três filhos trabalha-se muito, mais do que noutra coisa qualquer.

A Roberta foi consigo para Setúbal?
Foi. Eu só fico no Sporting mesmo na terceira época de contrato. Tinha estado emprestado ao Santa Clara. Fomos só os dois, a Roberta engravidou e no final da época nasceu o Pedro. Depois fui para o Gil Vicente e ficámos a viver em Moreira, na casa da mãe dela, e no terceiro ano, quando vim para o Sporting, fomos viver para Setúbal e ela já ia grávida da Rita, tinha o Pedro um ano e pouco.

Adaptaram-se bem à vida a dois, fora da zona de conforto?
Sim. A Roberta tem essa capacidade, nunca estranhou muito os sítios para onde fomos, à exceção de Israel, em que ficou um bocado assustada com a primeira imagem.

Ricardo foi guardando todos os cartões dos escalões de formação

Ricardo foi guardando todos os cartões dos escalões de formação

Rui Duarte Silva

Já lá vamos. Estava a dizer que esteve emprestado ao Santa Clara, depois ao Gil Vicente, até que finalmente vai para o Sporting. Como foi o embate com o plantel do Sporting?
Nessa altura eu ainda era sportinguista, não era ferrenho, nunca fui, mas era o clube que via como ideal para poder crescer. Quando cheguei levei com os meus ídolos todos. O João Pinto, que fazia parte do tal grupo que foi campeão em Riade, o Jardel, que tinha acabado de fazer 42 golos, o Pedro Barbosa, o Sá Pinto, o Rui Jorge, o Niculae, que ainda era jovem...

Era Boloni o treinador. Gostou dele?
Cheguei ao final da época sem saber se o homem gostava muito de mim ou não gostava nada de mim. Isto não é uma crítica. A nível pessoal tivemos sempre boa relação, só que eu percebia que não ia jogar. Tinha vindo de uma época boa no Gil Vicente, tinha sido a minha estreia na 1ª Liga. Inicio a pré-época a pensar: “Aqui vai ser mais difícil, não me dou como perdido, mas sei bem que vai ser difícil, apesar do João estar castigado e jogarmos mais ou menos na mesma posição...” A minha vontade foi sempre sair. Entrei com vontade de ser emprestado. Percebi que o Boloni não valorizava muito aquilo que fazia, mas fui andando devagarinho e sempre com esta coisa de querer sair. O Luís Campos entretanto tinha ido para Setúbal e estava à minha espera. Foi também isso que me levou a ficar a viver em Setúbal, porque eu já pensava que não ia estar muito tempo no Sporting.

Ricardo, à esquerda de camisola azul, com o irmão e os primos

Ricardo, à esquerda de camisola azul, com o irmão e os primos

D.R.

O Luís Campos tinha sido seu treinador no Gil Vicente.
Sim, foi ele quem me deu a oportunidade de jogar na 1ª Liga. Ele depois vai embora para Setúbal, em dezembro ou janeiro, e vem o Vitor Oliveira.

Muito diferentes, o Vítor Oliveira e o Luís Campos?
Completamente diferentes. Eu era a estrela da companhia com o Luís Campos, ele dizia que eu era um craque. O Vitor Oliveira chegou e depois de dois jogos a titular, pôs-me no banco quatro jogos seguidos. E tive sorte, porque houve alguém que se lesionou para eu poder voltar a jogar.

Porque é que isso aconteceu?
Porque eu tinha que aprender e só aprendia assim, se me dessem uma pancada forte.

Aprender o quê e porquê?
Eu achava que girava tudo à minha volta e que podia fazer o que quisesse. Reconheci logo o erro. Percebi ao fim de dois meses que tinha evoluído muito a esse nível, com essa espécie de castigo que ele me deu. O Luís Campos e o Vitor Oliveira foram os meus dois melhores treinadores na 1ª Liga. São muito diferentes, mas cada um deles ajudou-me à sua maneira. E se calhar a “porrada” que levei do Vitor fez-me crescer mais do que aquilo que o Luís Campos me deu e que foi tudo e mais alguma coisa.

Ricardo com a mulher, Roberta, a sua primeira e única namorada

Ricardo com a mulher, Roberta, a sua primeira e única namorada

Rui Duarte Silva

Voltando ao Sporting: acabou por jogar pela equipa B.
Acabei por fazer uma série de jogos pela equipa B, quando não era convocado. Eu e os outros, normalmente os mais novos. Mas houve uma fase em que até chegámos a ir para a equipa B com o Sá Pinto, o Marcos Paulo, houve um jogo em que fomos seis ou sete e correu tão mal [risos]. Perdemos por 4-1. Revoltámo-nos e assumimos que não queríamos jogar na equipa B. Mesmo para os miúdos da equipa B não estava a funcionar muito bem. Os rapazes treinavam a semana toda a pensar que iam jogar e depois na véspera do jogo vínhamos nós.

Nessa altura quem estava também no Sporting era o Cristiano Ronaldo.
Sim. Tinha uma cabeça... Não era fácil segurá-lo. Era o mais novo do plantel, mas era o mais arrogante na forma como lidava com as coisas, com os colegas, mas isso só o ajudou.

Era ambicioso.
Muito. E com 17 anos dizia e achava já que era o melhor do mundo. Ainda não era, mas foi essa mentalidade que o levou onde levou. O Quaresma que era um bocadinho mais velho e que também fazia parte da mesma equipa, nunca teve essa ambição enorme de ser o melhor. Tinha se calhar o potencial para ser um dos melhores do mundo, mas não tinha a vontade do Cristiano. Uma ambição desmedida. Mas sabe que, no futebol, respeito a mais também não ajuda. Essa falta de humildade que ele demonstrava fez com que ele chegasse longe. Muita humildade não ajuda, as pessoas passam por cima. Acho que o Cristiano agora é muito mais humilde do que era. Aquela arrogância se calhar também fazia parte da juventude, o ser muito novo e ter o mundo aos pés dele. Agora tem um discurso diferente, cresceu muito em todos os aspetos.

Nessa época, no Sporting, o que é que o marcou mais?
O facto de estar com o Cristiano Ronaldo e ele chegar agora aonde chegou e naquela altura ser um miúdo que lá andava, a quem toda a gente reconhecia valor. O Quaresma também. Eu normalmente fazia as idas ao ginásio com os dois, porque embora eu fosse mais velho, juntávamo-nos para fazer ginásio. O senhor Boloni achava, e tinha razão, que eu tinha de fazer ginásio para ganhar mais físico e essas idas com eles ao ginásio eram engraçadas porque normalmente ou jogava o Quaresma ou jogava o Ronaldo e nós íamos ao ginásio com o Rolão Preto e eles questionavam. “Porque é que quando eu não jogo, joga ele?”. Eu ficava calado, mas a dada altura disse-lhes: “E eu que não jogo nunca?” [risos]. Eles queriam jogar os dois, sempre. Mas havia muita gente para aquelas posições, o Pedro Barbosa, o Sá Pinto... . O Quaresma é muito boa gente. Não chateia ninguém, não se mete com ninguém, quer o cantinho dele, tem as piadas dele e às vezes associam-no a coisas que não tem nada a ver com quem ele é. E tínhamos na minha opinião um dos melhores capitães de sempre, o Pedro Barbosa. Notava-se que havia respeito no balneário por ele, tinha carisma.

Só apanhou o Boloni como treinador do Sporting?
Ainda apanhei uma semana o Fernando Santos, no ano seguinte, estava naquela indecisão de ir ou não para o Futebol Clube do Porto, e ainda iniciei a época.

Ricardo, o sexto a contar da esquerda, estreou-se na I Divisão pelo Gil Vicente

Ricardo, o sexto a contar da esquerda, estreou-se na I Divisão pelo Gil Vicente

D.R.

Como é que surge o FC Porto, quem é que o contacta?
Foi o presidente. O Joaquim Gomes, que trabalhava para o José Veiga, já me tinha dito que havia essa possibilidade, mas isso um mês antes de terminar o campeonato. Eu na altura estava lesionado, tinha feito uma cirurgia ao ombro, estava parado e fiquei um bocadinho com o pé atrás. Custava-me a acreditar, apesar de saber que o Mourinho já me queria ter levado para Leiria. Tinha jogado pouco no Sporting. O FC Porto estava a ganhar tudo naquela época e ia-se lembrar do Ricardo Fernandes? Mas surgiu aquela situação da troca com o Clayton e o presidente contacta-me. Nunca tinha falado com o Pinto da Costa, mas quando ouvi aquela voz do outro lado... Não acreditava. Só que é uma voz inconfundível. Explicou-me as coisas como estavam, como iam ficar e como se iam fazer, mas nunca mais falámos e o Joaquim Gomes também não sabia dizer mais nada. Entretanto não havia relação entre o José Veiga, o Joaquim Gomes e o FC Porto. Acabei por ir pelo António Araújo.

O que é que o fez ir para o FC Porto?
No Sporting não tinha tido muitas oportunidades. Estive toda a época a pedir para sair, mas o Boloni não me deixava sair. Recordo-me de uma vez me ter dito, à saída da academia, que eu tinha que fazer mais ginásio e eu lhe ter respondido: “OK, eu faço mais ginásio mas também quero jogar, não é só fazer ginásio, estou aqui para jogar à bola”. Acabei por jogar no jogo seguinte com o Paços de Ferreira, ganhamos 4–0 e eu fiz o primeiro golo. Mas no jogo seguinte já não joguei outra vez. Daí eu dizer que nunca percebi se ele gostava de mim ou não.

Mas pelos vistos o Mourinho tinha mesmo interesse em si...
...O interesse do Mourinho vem de um jogo que ele viu. Foi no ano em que estava emprestado ao Santa Clara. Fomos jogar a Setúbal e o jogo correu-me bem. Mais tarde joguei pelo Gil vicente contra a U. Leiria, onde estava o Mourinho. Também não me correu mal e ele foi guardando aquela ideia. Aliás, ele queria ter-me levado para Leiria, mas não havia relação entre o José Veiga e o Bartolomeu e acabou por não acontecer. Entretanto o Mourinho muda para o FCP a meio da época e vou com o Gil jogar ao FCP, perdemos 2-1, mas podíamos ter feito melhor porque o jogo correu-me muito bem, fiz golo outra vez.

Quando vai para o Porto, onde é que fica a viver?
Em Guimarães. Eu era, e ainda sou, muito saudosista. Fazia-me falta a minha terra, as minhas pessoas, as minhas gentes, a minha família, apesar de estar com a minha mulher e com os meninos lá em baixo, custava-me. Aliás, nós chegavamos a vir cá acima só para jantar e iamos para baixo. Quando chegava aqui mais perto da zona do Porto, começava a ver o céu mais cinzento e aquilo dava-me uma alegria tremenda. Devia ser ao contrário (risos) o céu aberto é que faz as pessoas mais alegres, mas sentia muita falta disso e quando houve a possibilidade de voltar para cá e ainda por cima para o FCP, que tinha ganho tudo no ano anterior, nem olhei para trás. O presidente do Sporting na altura, o dr. Ribeiro Telles pôs nas minhas mãos a decisão. “Ricardo há muita indecisão em relação à tua situação. Já te prendemos no início da época passada, prendemos-te também em janeiro mas agora a decisão fica nas tuas mãos. Não nos sentimos no direito de te prender mais aqui”. Agradeci-lhe.

Ricardo já com a camisola do FCP

Ricardo já com a camisola do FCP

D.R.

No Sporting ganhou uma SuperTaça e joga pela primeira vez na Liga dos Campeões.
Sim a pré-eliminatória com o Inter. O estádio de San Ciro foi o que me marcou mais até hoje, é o mais imponente dos estádios em que joguei. Mas o Sporting nesse ano não estava preparado para se bater com essas equipas. Somos eliminados por eles na pré eliminatória e acabamos por perder também na pré eliminatória do play-off de acesso à Liga Europa, Taça UEFA na altura, com o Partizan que não era uma equipa forte.

No FCP foi diferente.
No FCP chega-se e percebe-se que se vai ganhar.

Explique melhor.
Éramos quatro ou cinco reforços na altura, eu, o Pedro Mendes, o Bonsigwa, o Serginho e estávamos à espera do Benni, que integrou o estágio muito mais tarde. Nas primeiras conversas com o treinador percebe-se logo que há uma ambição desenfreada, mas não era só ambição, eles acreditavam mesmo naquilo. Aliás é público que eles convencem o Deco a ficar mais um ano um bocadinho por aí, porque eles assumiam para dentro, para fora era uma loucura dizermos que íamos lutar para ganhar a Liga dos Campeões, mas para dentro a mensagem desde o primeiro dia era essa, nós íamos ganhar tudo o que houvesse para ganhar e a Liga dos Campeões fazia parte desse objetivo.

O que é que o Mourinho tinha de tão especial?
Acho que o melhor que ele tinha, e para mim ele continua a ser o melhor, era a capacidade de gerir muito bem o lado humano dos jogadores e da equipa. Ele conseguia perceber muito bem cada um, individualmente, junto do coletivo, e conseguia mexer com as emoções de cada um, conseguia puxar toda a gente para aquilo que ele queria. Manipulava é claro. Mas os melhores treinadores, os melhores líderes têm que saber fazê-lo, uns de uma forma mais subtil do que outros. Ele manipulava tudo da forma que queria. Mesmo as conferências de imprensa, ele é que direcionava como queria, não eram os jornalistas que o faziam, foi sempre assim. Hoje se calhar já não consegue fazê-lo tanto, também está a um nível bastante superior, mas naquela altura percebia-se que as conferências de imprensa do José Mourinho eram controladas completamente por ele. E se ele conseguia fazer isso com os jornalistas, com os jogadores seria muito mais fácil. Ele conseguia manipular aquilo tudo.

A nível do treino, gostou do método dele?
Muito, muito bom. Foi isso que o fez ganhar naqueles primeiros anos. Mais tarde havia mais gente a trabalhar assim, mas naquela altura não. Houve uma série de treinadores em Portugal que tentaram seguir aquilo que ele fazia e não conseguiram.

Mas “aquilo” era o quê em concreto?
Primeiro havia motivação para treinar porque sabíamos que havia sempre alguma coisa nova no treino. Era sempre direcionado para o jogo e não havia paragens. Os jogadores não gostam de estar parados nos treinos, não gostam por exemplo de jogar 11 contra 0, que é um exercício que se faz com muitos treinadores. Os jogadores não gostam de estar ali a jogar mas parados. "Agora tu vens para aqui, o outro para ali e o outro para acolá". Até porque isso num jogo, na minha opinião e se calhar na opinião do José Mourinho, não funciona. Estarmos a treinar parados, sem oposição, só o fez uma vez para preparar o jogo, creio que com o Corunha, para a 2ª mão da meia final da Liga dos Campeões. Se o fez foi só essa vez num ano inteiro, em que juntou 11 jogadores e disse que íamos fazer uns movimentos para nos adaptarmos ao adversário. De resto era sempre com intensidade muito alta. Não treinava duas horas, era uma hora e 10, uma hora e 15 minutos e chegava. E depois a malta acreditava nele de olhos fechados. Ele sabia dar, mas sabia exigir também. Acho até que ele dava para depois exigir.

Ricardo, o segundo em baixo à esquerda, confessa que gostaria de se ter afirmado mais no FCP

Ricardo, o segundo em baixo à esquerda, confessa que gostaria de se ter afirmado mais no FCP

D.R.

O Ricardo chegou a fazer parte do famoso "U" do autocarro do FCP, cujos lugares eram geridos por Jorge Costa?
Sim. Na despedida do Deco foram buscar esse mítico autocarro para revivermos um bocadinho esses momentos. A malta sentou-se mais ou menos nos lugares onde normalmente se sentava. Por acaso tanto eu como o Pedro Mendes entramos logo para o grupo porque jogávamos às cartas, à sueca. No estágio na Alemanha a seguir ao jantar íamos jogar à sueca para um barzinho que havia no hotel. As duplas eram o Jorge Costa e o Pedro Emanuel, eu e o Pedro Mendes. Havia uma outra dupla que não me recordo bem, mas que não era certa. O Jorge Costa é que geria, ele é que mandava. Nós passamos diretos para lá porque eles precisavam de adversários.

É verdade que os treinadores não iam lá, aos lugares em forma de U?
É verdade, a não ser o Mourinho. Por isso é que na minha opinião o José Mourinho percebe muito bem da gestão humana. Os treinadores viajavam em baixo e naquela mesa onde se jogava às cartas, naquele U, faziam-se muitas coisas que se contarmos as pessoas não acreditam. Se calhar eram coisas que as pessoas não acham indicadas para profissionais de futebol, como fumar ou beber uma cerveja. A equipa técnica ia em baixo e quando o treinador queria subir, pedia a um dos assistentes para avisar. “Epá arrumem as coisinhas porque daqui a cinco minutos o homem quer cá vir dar uma palavrinha”. A malta arrumava as coisas, escondia as latas vazias, mas ele sabia bem o que se fazia, só que, para não criar um problema, avisava.

Tem alguma historia divertida desses tempos?
Quando cheguei ao FCP, fomos fazer um amigavel a Corunha. No regresso, no autocarro estávamos a jogar às cartas e eu estava a ganhar. A meio do caminho disse que se perdesse rapava o cabelo. Eu usava o cabelo um pouco comprido. Acho que eles juntaram-se para eu perder, porque perdi mesmo e mal chegamos o Nuno Espírito Santo pegou na máquina de barbear e fez questão de rapar-me o cabelo (risos).

O que é que o faz sair do FCP?
Por mim nunca tinha saído do FCP, nunca. Foi a coisa que mais me custou em toda a carreira, foi sair do FCP. Eu não gostava do FCP até ao ano em que lá chego. Nunca fui adepto do FCP e havia uma série de coisas com que não me identificava, mas depois de lá entrar, dizia à minha mulher que se o dinheiro fosse suficiente para criarmos os nossos filhos, podiam vir dar-me tudo que eu nunca mais saia do FCP. Mas fui apanhado de surpresa no final da época. O José Mourinho sai, tudo tranquilo porque continuava a fazer parte dos planos do clube para a época seguinte...Entretanto não foi fácil arranjar um substituto para o José Mourinho, acaba por vir o Del Neri que quis trazer os jogadores que conhecia melhor e achou que eu não fazia parte daquilo que ele pretendia. Dispensou-me. Ele conseguiu ficar lá um mês e foi embora, mas entretanto lá tive que sair. A alternativa que me davam era arranjar uma solução para ser emprestado. O V. Guimarães era uma das soluções, mas o presidente na altura, o senhor Vítor Magalhães, achava que por eu ter o contrato com o FCP não teria que pagar-me. Ele soube que eu tinha feito um acordo de rescisão com o FCP, e como tinha recebido dinheiro, achava que já não tinha que me pagar muito porque eu já tinha recebido.

Quanto tempo esteve sem clube?
Pouco tempo, foi rápido porque a minha relação com as pessoas no FCP era muito boa. Acho que para eles também lhes custou um bocadinho a minha saída, não tinham nada a dizer de mim, gostava tanto daquilo como eles, eles percebiam isso. Mas a vida é assim, não havia muito a fazer. Foi o que me custou mais, por mim nunca tinha saído dali, podia acontecer o que acontecesse que eu não saía.

Ricardo com o equipamento do APOEL, do Chipre

Ricardo com o equipamento do APOEL, do Chipre

D.R.

Vai para a Académica. Como?
Depois da rescisão havia a possibilidade do Vitória, depois houve também a possibilidade do SC Braga, mas não chegamos a acordo de valores. O SC Braga queria um contrato de três anos e eu achava que era muito tempo. Tinha 27 e pensava que se fizesse um contrato de três anos ia acabar ali. Foi tudo ao contrário porque os jogadores que o SC Braga contratou nessa altura, mais ou menos com a minha idade, acabaram por sair para equipas boas, a maior parte foi para a Rússia, para o Dínamo de Moscovo. Eu não queria prender-me a um contrato tão longo, andamos ali a discutir valores, até que surge a Académica um pouco do nada e achei que era uma grande ideia, tinha um treinador que tinha conhecido muitos anos antes, o João Carlos Pereira. Conheci-o em Moreira, ele tinha sido jogador do Moreirense. Mas as coisas em Coimbra não funcionaram bem nem com ele, nem com o clube.

Foi viver para Coimbra?
Mais ou menos. Vivíamos em Coimbra mas vinhamos muitas vezes aqui e acho que um dos problemas foi esse. Eles confundiam as minhas vindas a Guimarães com idas para a noite e não era assim. O presidente, o José Eduardo Simões, chegou a assumir que tinham gente que me acompanha nas viagens para ver onde é que eu ia. Mas eu vinha dormir a casa e voltava. Eles achavam que eram outras coisas e não correu muito bem.

E inicia a sua aventura no estrangeiro. Como é que surge?
Eu tinha acabado a época na Académica, tinha entrado o Nelo Vingada para treinador, a minha relação com ele foi sempre muito boa mas nunca joguei. Acho que tinha um bocadinho a ver com as minhas vindas a Guimarães e no final da época há um empresário que liga ao Nelo Vingada e pede um jogador para a minha posição, para a Grécia, na altura creio que para o PAOK. Havia outro rapaz da minha posição que até era titular na Académica, o Rafael Ledesma, mas o Nelo Vingada deu o meu nome. Eu não jogava há quatro meses, com ele joguei um jogo ou dois em 16 ou 17, e o primeiro nome que falou foi o meu! O empresário até lhe disse “Então não metes o rapaz a jogar e agora queres mandá-lo para o PAOK?”. “Ele não te deixa ficar mal”. Primeiro era para ser para a Grécia mas não deu em nada e a oportunidade passou para o Chipre, fui parar ao APOEL.

Foi sozinho?
Fui eu e o empresário, o Acácio Correia, de Setúbal. Quando o Acácio me liga a dizer que tinha a proposta oficial, estava de férias em Punta Cana com os meus pais. O Acácio queria que eu voltasse mais cedo, mas disse-lhe que não. Ele não me dizia qual era o clube, dizia-me só que era um paraíso (risos).

Ricardo com adeptos cipriotas

Ricardo com adeptos cipriotas

D.R.

Qual foi a primeira impressão com que ficou do Chipre?
Gostei. Normalmente gosto dos sítios para onde vou. Fiquei duas época e meia no APOEL.

O futebol é muito diferente do que se pratica cá.
O nível é bastante mais baixo.

Não teve dificuldade na adaptação?
Os primeiros meses foram difíceis porque foram muito exigentes. Eles metem-se em tudo, aquilo é uma aldeia. A ilha é muito pequena, a gente não pode sair a porta que toda a gente sabe da vida de toda a gente, depois extrapola-se tudo, é tudo a mais. Mas também tem o lado bom, quando corre bem é uma loucura, é inacreditável. Nos primeiros tempos foi um bocadinho difícil. Em dezembro queria voltar, mas depois a coisa começou a ficar organizada. Ainda pensamos em voltar, mas a partir do natal mudou tudo.

Pensava em voltar por causa das saudades de casa?
Também. Mas estive lesionado... Como o lado profissional não estava a correr bem, pensei que não valia a pena estar a fazer aqueles sacrifícios ali e que o melhor seria voltar para casa. Mas em janeiro as coisas começaram a melhorar em termos profissionais, o tempo melhorou um bocadinho, começou o verão e a vida fica sempre mais fácil (risos). No primeiro ano os miúdos não estavam na escola, no segundo entraram e adoraram a escola. Foi difícil no primeiro mês porque não comunicavam nada em inglês, mas a partir do momento em que percebemos que estavam bem e que estavam a aprender rapidamente, aí foi perfeito. No plano desportivo também fomos campeões no segundo ano.

A adaptação da família é fundamental para os jogadores?
Nisso tive muita sorte, eles aceitaram sempre bem a mudança. Quando viemos embora acho até que eles se esforçaram para eu não saber que estavam tristes. O Pedro e a Rita diziam, “Pronto papá, vamos, Tu vais, nós também vamos”. Acho que não era bem aquilo que eles sentiam, mas ajudaram nesse aspecto. Sair custou-lhes mais porque eles estavam completamente adaptados e adoraram aquilo.

Ricardo com o primeiro filho, Pedro, ainda bebé.

Ricardo com o primeiro filho, Pedro, ainda bebé.

Rui Duarte Silva

E sai porquê?
É sempre a minha cabeça. Não consigo estar muito tempo no mesmo sítio. Cansa estar sempre a fazer a mesma coisa para as mesmas pessoas. Aquilo é tão pequeno que depois a relação com a direção, com os adeptos, são relações quase de casa, de família, as pessoas conheciam-me perfeitamente e eu conhecia as pessoas quase todas. Chegou a um ponto em que achava que estava tudo muito fácil, já fazia “parte da mobília”, não havia muito mais a fazer. E se não tivesse saído dali, um ano ou dois mais tarde tinha que parar, já não havia ambição em mim para estar ali e ganhar mais alguma coisa.

Vai para o FK Metalurh Donetsk, da Ucrânia.
Sim, surgiu essa oportunidade e fui sozinho por causa dos miúdos. Não havia escolas internacionais em Donetsk, a Roberta estava em final de gravidez da Raquel e tivemos de mudar a vida toda. Ela veio para Portugal com os miúdos, a Raquel nasceu em setembro e ficaram cá todos.

Foi difícil ficar longe da família?
Um bocadinho. Embora estivesse bem na parte profissional, custou. Até porque, dos três, a Raquel era a que mostrava sentir mais a minha falta, desde bébé. E no final dessa época, com a Raquel a fazer um ano, a minha mulher também achou que não podíamos estar separados... A decisão de sair da Ucrânia e voltar ao Chipre foi um bocadinho baseado nessa questão da família.

A nível desportivo gostou da experiência na Ucrânia?
Gostei muito. As condições de trabalho eram muito boas, o campeonato é mais competitivo do que o do Chipre, mas não tanto como o português.

Em termos culturais foi fácil a adaptação?
Não é fácil. Tive situações com o meu capitão de equipa... De entrar num café e perceber que ele estava a esgueirar-se por outro lado, só para não me cumprimentar. Mas isso não acontecia só comigo Eles olhavam para os estrangeiros como alguém que ia para ganhar o dinheiro deles e que não se importava se as coisas corriam bem ou mal. Mas perceberam que fui porque achava que a aposta valia a pena e que não foi só a pensar no dinheiro. Ao fim de um mês ou dois já estavam todos do meu lado. O que ajudou a que os que vieram no verão seguinte, tivessem uma integração muito mais fácil.

Quem foram os portugueses com quem esteve?
Nesse verão chegou o Mário Sérgio, o Boaventura, um brasileiro que já conhecia do Chipre, mais um cipriota que também jogava comigo e que ajudei para que viesse, e o Kingsley que chegou a jogar no Beira Mar e que estava no Chipre também. Entraram esses quatro que já conhecia e acabei por ajudar na integração deles porque já tinha conseguido criar a relação de confiança com os outros.

Pedro, Rita e Raquel (ao meio), os três filhos de Ricardo Fernandes

Pedro, Rita e Raquel (ao meio), os três filhos de Ricardo Fernandes

Rui Duarte Silva

Estava a dizer que acaba por vir embora por uma questão familiar. Mas porquê o Chipre novamente?
Porque fomos felizes no Chipre até a ida para a Ucrânia. Nunca ponderamos voltar a Portugal, até porque as condições de contrato que conseguia em Portugal nunca se assemelhariam ao que podia ter no Chipre. Nesse altura no Chipre eles perderam um bocadinho o norte e começaram a oferecer contratos que nunca deveriam ter oferecido. Esse que me ofereceram no Anorthosis era um contrato muito bom, para três anos.

E pagaram-lhe?
Só lá fiquei seis meses e abdiquei de tudo porque não estava contente.

Porquê?
Não me sentia bem, não conseguia jogar à minha maneira e em janeiro abdiquei do contrato, sem ninguém saber. Tinha metido na cabeça que queria voltar ao APOEL, que no Chipre não ia funcionar noutro lado. E não funcionou. O único clube em que funcionou foi já na parte final da carreira, no DOXA. O APOEL, no Chipre, assim como o FCP, em Portugal, era o clube em que me sentia diferente. As coisas no Anorthosis não correram como estava à espera, tinha havido conversas com o presidente do APOEL e com dois diretores que eu conhecia que ainda eram do tempo em que lá tinha estado, e chegamos a um princípio de acordo verbal. Ia perder por ano cerca de 30% em relação ao contrato que tinha com o Anorthosis mas não me importava. Foi na altura do natal, a minha família veio de férias, eu não informei ninguém, cheguei ao clube rescindi o contrato só que depois, quando fui ter com os diretores do APOEL, a palavra já não contava para nada e fiquei no ar. Fiquei sem clube durante duas, três semanas e fui para o AEL Limassol. Estive lá quatro meses mas não tinha cabeça para continuar no Chipre, tinha que sair porque depois da asneira que tinha feito, ter virado as costas aquele contrato de três anos, não tinha condições para continuar e a solução foi Israel.

Ricardo, no dia da entrevista, junto à piscina da sua casa

Ricardo, no dia da entrevista, junto à piscina da sua casa

Rui Duarte Silva

Não é comum jogadores portugueses irem para Israel.
O Be’er Sheva tinha um treinador que tinha estado no Chipre muitos anos e que me conhecia bem.

Quanto tempo é que ficou em Israel?
Seis meses. A ida para Israel foi mais uma teimosia minha que dizia que não queria ficar no Chipre de forma alguma. Primeiro fui eu e a Roberta. Aproveitamos que era o nosso aniversário de casamento, eles convidaram-nos para conhecer a cidade. Lá convenci a Roberta a ir, no mínimo íamos fazer uma viagem de aniversário de casamento (risos).

E que tal?
Chegamos a Be’er Sheva num dia em que havia uma tempestade de areia e o céu estava que parecia que vinha abaixo, vermelho. A Roberta já estava assustada com a imagem que tínhamos de Israel cá fora e que afinla não é nada do que realmente é. Pensou: “Esta poeira só podem ser bombas que estão a rebentar ali ao lado”. Ficou assustadíssima e não queria que ficássemos em Israel (risos). Mas lá consegui dar-lhe a volta. O plano era irmos todos para Israel, ficar a viver em Telavive, porque em Be’er Sheva não havia escolas internacionais, e eu fazia as viagens, eram 120 kms. Entretanto fomos procurar escolas e a única que nos agradou, era a American International School, a mesma em que eles tinham andado no Chipre. Só que ficava a 20 kms de distância de Telavive, no lado oposto àquele que eu tinha de fazer. Ia ser uma confusão tremenda. O Bernardo Vasconcelos que tinha ido comigo para lá e que também tinha levado a família, estava com o mesmo problema. Juntamo-nos os quatro para conversar. A única solução era as famílias irem para casa e nós tentarmos fugir em janeiro. Elas não gostaram muito da ideia, e com razão, mas assim fizemos. Aproveitamos o verão e ficamos em Telavive, até início de setembro. Telavive é das cidades de que mais gosto.

O que é que o fascinou?
A praia, a água quente...E se calhar também o facto de toda a informação que tinha amealhado na cabeça sobre Israel e Telavive serem completamente o oposto daquilo que vi enquanto lá estive. Pelo menos em Telavive. Em Be’er Sheva um dia ou outro ainda apanhei um susto, mas em Telavive não, foi sempre muito bom.

Que susto é que apanhou em Be’er Sheva?
Tocavam as sirenes e a malta não sabia o que fazer. Tenho um episódio engraçado. Eu vivia no mesmo prédio do Bernardo, no centro da cidade. O Bernardo vivia no 15º andar e eu no 2º. Um dia de manhã acordamos com as sirenes. Tinham-nos explicado que quanto tocassem as sirenes, havia um quarto blindado em cada apartamento e se possível as pessoas deviam refugiar-se nesse quarto. Mas estavamos a dormir tão bem quando tocou a sirene que pensamos que era impossível alguma coisa acontecer-nos. À tarde quando fomos para o treino, percebemos que pensamos os dois na mesma coisa “Vou agora mudar para o outro quarto? Estou a dormir tão bem, não vou nada, isto não vai bater aqui de certerza” (risos).

Gostou dos israelitas, da cultura?
Em Telavive melhor. Em Be’er Sheva são muito ligados à religião, mais fanáticos e isso fazia um bocadinho mais de confusão. Até no dia-a-dia, a vida era mais difícil em Be’er Sheva. À sexta-feira à noite parava tudo e só quando descia o sol no sábado é que voltavam a viver. Às vezes para encontrar um sítio onde almoçar ou jantar era difícil. Em Telavive não, é uma cidade diferente. Mas não tenho queixas, deixamos sempre amigos. Aliás sai a chorar da maior parte dos sítios por onde passei.

Ricardo com a mulher e os dois filhos mais velhos, Pedro e Rita, foram motivo de reportagem numa revista cipriota

Ricardo com a mulher e os dois filhos mais velhos, Pedro e Rita, foram motivo de reportagem numa revista cipriota

Rui Duarte Silva

Enrtetanto regressa à Ucrânia. Porquê?
Porque tinha gostado muito da experiência pelo lado profissional e desportivo na Ucrânia e porque estava de novo a viver sozinho, a família estava em Portugal, tentei de todas as formas e acabei por conseguir voltar ao Metalurh que era um clube que me dizia alguma coisa. Como ainda lá estava o mesmo treinador... Mas ele tinha ficado muito chateado por eu ter forçado a saída e andei ali meses a tentar mas ele não aceitava. Cheguei a ligar-lhe, ele falava comigo muito cordialmente, mas depois chegava ao diretor desportivo e dizia que não queria que eu voltasse porque tinha precisado muito de mim e eu voltei as costas. Acabei por conseguir que ele percebesse que a minha decisão tinha sido por razões familiares. Quando finalmente me aceita e vamos preparar o regresso para janeiro, chateou-se com o vice presidente e decidiu que ia embora. O novo treinador chegou passado um mês de eu já lá estar e correu bem tanto para ele como para mim.

Ainda lá esteve mais uma época.
Sim, uma época e meia na primeira passagem e uma época na segunda.

Ricardo com a filha mais nova, Raquel, a mulher, Roberta, e o filho mais velho, Pedro, no jardim da sua casa

Ricardo com a filha mais nova, Raquel, a mulher, Roberta, e o filho mais velho, Pedro, no jardim da sua casa

Rui Duarte Silva

Depois vai para a Grécia.
Tive um problema na Ucrânia por causa do vício do tabaco. Meti na cabeça que tinha de deixar de fumar, uma das muitas que tentei. Comecei a achar que não me estava a sentir muito bem por causa do cigarro e cortei, sem medicação, sem ajuda, sem nada. Nos primeiros dias ainda fumava dois, três cigarros, mas depois cortei de vez. Só que continuei a beber café como quando fumava. Muitos. Isto tudo mais o facto do contrato estar a acabar e eu já estar com 33 anos, comecei a pensar que o futebol estava a acabar...Acabei por criar um problema mais de saúde mental, do que físico e chegou uma altura em que comecei a ter ataques de pânico. Vim embora, pensava que ia morrer na Ucrânia.

Como assim?
Não treinava, sentia palpitações, começava a tremer, o coração a bater muito forte, muito acelerado. Num dos episódios, estive mais de meia hora assim e quando passou, tinha os braços e o peito como se tivesse trabalhado no ginásio quatro horas seguidas, estavam inchados de tanta palpitação e tensão. Era tudo por medo, por achar que não estava bem.

Estar sozinho, sem mulher e filhos, deve ter contribuído para essa ansiedade.
Houve um episódio que me marcou a mim e ao Mário Sérgio. Houve folga para as seleções e normalmente sempre que havia uma folga para as seleções, vínhamos a Portugal. Mas decidimos que não vínhamos, porque dali a um mês estávamos de férias. Ao fim de dois anos essa foi a primeira vez que decidimos não vir a casa numa folga. Jantamos e a seguir fomos para casa. Sentamos a ver televisão, um liga para a mulher, o outro também e quando demos por ela estávamos os dois completamente de rastos por não termos vindo a casa. Acho que foi esse episódio que fez com que começasse a sentir este tipo de coisas.

Fez exames para saber o que tinha?
O meu pai tinha tido um problema de coração uns tempos antes, encontraram-lhe uma arritmia. Fui ter com o médico que o seguia. Fez-me todos os exames e mais alguns. “Esquece, tira as coisas que tens na cabeça, podes jogar futebol até aos 40 anos ou mais, até quereres. É tudo da tua cabeça”. Tinha 33 anos na altura. O contrato na Ucrânia tinha acabado, fiquei num impasse, já nem procurava muito por clubes. No final de janeiro, apareceu com uma proposta do Panetolikos e acabei por ir quatro meses para a Grécia.

Sozinho?
Sim, sozinho. Fui assustado. Vinha daqueles episódios todos e ia para lá sozinho outra vez. Andava sempre a tremer, com receio que me acontecesse alguma coisa, mas só me aconteceu mais uma vez um episódio, numa altura em que lá estavam os meus pais. Jantamos em casa, eles tinham ido para o quarto, eu fiquei a ver televisão como sempre, adormeci no sofá e acordei, eram umas duas da manhã, a sentir que estava a ter mais um ataque. Fui espreitar ao quarto deles, estavam a dormir, ainda não conhecia praticamente ninguém na cidade, liguei a um diretor, expliquei-lhe que tinha de ir ao hospital e perguntei se podia passar lá em casa. Nem sequer avisei os meus pais para não os preocupar. Fui ao hospital e em conversa com o médico, ele disse que tinha tudo a ver com stress. Quando percebi bem o que se estava a passar comigo a coisa deixou de acontecer. Percebi que era uma questão de saúde mental e a partir dali esqueci, nunca mais tive problema nenhum.

Depois da Grécia regressa ao Chipre.
Volto ao Chipre, porque apesar de ter gostado do Panetolikos, pouco joguei e foi a única descida de divisão que tive. A única coisa que me aparecia na altura era o DOXA, do Chipre, cujo presidente era o senhor que tinha estado envolvido na minha transferência para o APOEL oito ou dez anos antes. Tinham subido e ele pediu-me ajuda. Fui à condição por isso esse primeiro ano a minha mulher e os miúdos não me acompanharam. Recordo-me que jogamos o primeiro jogo e perdemos 3–0 e a Roberta disse-me “Anda embora connosco”. Foi no final do verão eles estavam para vir embora. Mas eu não podia virar as costas. Acabei por ficar e correu muito bem, fui muito feliz no DOXA, para quem já estava numa fase que era só pelo prazer de jogar.

Mas ainda jogou no Omónia.
Dois anos do DOXA e fui transferido. O Nuno Assis é que estava no Omónia, eu estava em boas condições, estava bem. Passei seis meses no Omónia.

Aí a família já estava consigo?
Estava. Só no primeiro ano no DOXA é que não. No segundo já tinha a família. Estive meio ano no DOXA e meio ano no Omónia. No final, o treinador do Omónia, que era o capitão do Omónia quanto estive no APOEL, queria que eu continuasse, mas voltei ao DOXA, porque ali sentia-me em casa. Estava tranquilo, a minha opinião contava tanto como a do presidente. Mas no último ano, o treinador, o presidente e eu fomos desgastando a relação e quando venho embora do DOXA ficamos uns tempos sem nos falar. Estávamos cansados de tanto tempo que passamos juntos (risos).

Quando vem embora, vem a pensar “Agora acabou”?
Sim. Foi um bocadinho repentino a forma como acabei lá, não vinha a pensar em nada. Só queria descansar e depois logo se via.

Veio viver para Guimarães?
Sim. Isto foi em finais de dezembro, passamos lá o natal, com os meus pais e no dia 27 viemos todos embora, mas sem pensar em nada, alguma coisa se havia de encontrar para fazer.

Nesta altura não lhe passava pela cabeça ser treinador?
Eu queria, mas não estava preparado. Ainda hoje não estou. Tenho ajudado alguns treinadores e tenho feito alguns negócios em parceria com a MNM Sports agora. Tenho ajudado alguns miúdos a ir para o Chipre, outros a vir para aqui, ou seja, tenho feito um pouco de intermediação. Aliás o que fiz desde que voltamos até agora, além de ter jogado no Trofense foi isso, mas não é uma coisa que me agrade muito. Faço porque acho que até consigo fazer, mas prefiro muito mais um dia ser treinador do que andar a fazer intermediação ou ser agente.

Porque é que não lhe agrada ser agente?
Tem que se correr muito atrás das pessoas, parece que estamos sempre a pedir favores a toda a gente, o que não é verdade. E tem que se andar atrás dos jogadores, temos que lhes dar mimo. Acho que a responsabilidade de um agente vai muito além de arranjar clube. Cada jogador com que estou envolvido passa a ser mais um filho, porque depois é uma dor de cabeça se a coisa não corrre bem, o miúdo não está bem, tem que se arranjar uma solução. Ainda agora aconteceu com um miúdo que eu tinha levado para o Chipre e que foi dispensado nos últimos dias de mercado. Foi uma guerra até se conseguir uma solução, de forma que o miúdo não perdesse muito. E não sai da cabeça, é muito sombria essa parte e eu não gosto.

Ricardo Fernandes tem 40 anos

Ricardo Fernandes tem 40 anos

Rui Duarte Silva

Estava a dizer que quando regressa a Portugal, vem sem nada definido. Como é que vai parar ao Trofense?
Isso são coisas do Hélder Sousa. Conheci o Hélder quando voltei pela última vez ao DOXA. Ele tinha ido para lá no ano anterior, para uma equipa pequena, entretanto foi transferido para o APOEL e conhecemo-nos lá. E é engraçado porque a esposa do Hélder é de Moreira de Cónegos também. Eu não me recordava dela, nem ela de mim, e fomos conhecer-nos no Chipre, aos 34 ou 35 anos. O Hélder é uma das pessoas com quem me identifico mais. Damo-nos muito bem, as famílias também. Criámos uma boa relação no pouco tempo em que ele lá esteve e mantivemos sempre o contacto. Quando regressei a Portugal a primeira coisa que me disse foi “Anda ajudar-me aqui no Trofense”. Disse-lhe que não. Em julho o Helder voltou a puxar por mim e pensei “Não há nada a perder, isto é amador, se a coisa não estiver a correr bem, agradeço, peço desculpa e fico em casa”. Mas adorei, principalmente os primeiros seis meses da época.

Do que é que gostou?
Gostei do ambiente, dos miúdos, tínhamos um grupo muito bom, malta muito porreira, os mais novos com um respeito, às vezes uma adoração pelo Hélder tremenda. E ele merece.

Não lhe fez confusão ter saído de Portugal na I divisão e regressar...
...Sim, isso também me custava um bocadinho, confesso. Se bem que no Chipre o nível de futebol não é muito bom, mas depois também pensava que se comecei por aqui, não é vergonha acabar onde comecei. E a partir do momento em que a época começou a decorrer esqueci rapidamente e diverti-me. Tive muitos adversários e árbitros que vieram agradecer-me, a mim e ao Helder.

Ricardo Fernandes com o equipamento do Omonia

Ricardo Fernandes com o equipamento do Omonia

D.R.

Depois do Trofense ainda joga no Felgueiras.
Gostei muito. No Trofense lutamos pelo play off de subida até janeiro, depois houve uma série de coisas, o Trofense não é um clube fácil em termos de gestão, tinha muitos problemas financeiros, as pessoas da Trofa ainda não encontraram o equilíbrio necessário para ajudarem o clube e a segunda fase correu um bocadinho mal. Já tinha dito ao Helder que queria ter parado em janeiro, quando não conseguimos o play off para subir, mas ele, mais sensato do que eu, lá conseguiu dar-me a volta, fiquei até ao final da época e acabei por ser importante para ajudar a equipa a manter-se. Entretanto veio o convite do Pedro, do Nuno e do Fernando para colaborar com eles na empresa de representação MNM e aceitei. Na segunda reunião pediram-me para ir jogar no Felgueiras orque a empresa tinha lá interesses. O Fernando até me disse “Ou jogas ou vais para adjunto, faz o que quiseres”. Já não estava a pensar naquilo e lá comecei outra vez. A minha mulher entretanto dizia-me “É melhor ires jogar do que ficar aqui em casa. Depois não sabes o que fazer e acabas por ficar chato e sou eu que tenho que te aturar. Se calhar até é boa ideia, vai” (risos). Lá fui e correu bem.

E quando é que tira o curso de treinador?
Tenho o 2º nível. Ainda estava a jogar no Chipre quando fiz o 2º nível.

Quando acaba a época em Felgueiras, foi o Ricardo que colocou um ponto final na carreira?
Sim. Aliás, nem acabei a época.

Porquê?
Houve um momento que não correu muito bem com os adeptos. Tínhamos a equipa em 1º, andamos a época toda em 3º, 4º, 5º e quando finalmente chegamos a 1º os adeptos começam a manifestar-se de forma negativa. Criou-se instabilidade para a equipa primeiro e eu como mais velho e com um pouco mais de responsabilidade, comecei a chatear-me. Até que no final de um jogo eu reagi para a bancada. Não o devia ter feito porque já tenho idade suficiente para não o fazer, mas nunca fui de hipocrisias, o que tenho a dizer ou os sentimentos que tenho a demonstrar...Insurgi-me contra alguns dos adeptos, meia dúzia deles.

O que aconteceu a seguir?
No dia seguinte o presidente achou que eu devia ser castigado. Não tinha havido qualquer punição por parte da arbitragem mas o presidente do clube achou que devia ser castigado. Faltavam quatro jogos para chegarmos à fase de subida e ele queria que eu ficasse de fora dois jogos. O treinador, o Ricardo de Sousa, não podia convocar-me. Quem me comunicou isto até foi o Fernando Meira num dia logo de manhã, eu ainda estava a acordar. Disse-lhe “OK, o que for melhor para todos”. Mas quando me meti no carro em direção a Felgueiras para ir treinar, pensei “Não tenho necessidade nenhuma disto, não tenho 20 anos para estar a levar um raspanete. Sei que não devia ter feito o que fiz, mas fiz e se voltasse a acontecer fazia a mesma coisa”.

E?
Cheguei a Felgueiras e disse que não treinava mais. Ia aos jogos, sentava-me no banco, estava com eles no balneário, porque não queria abandonar a equipa, mas o clube tinha deixado de ter significado para mim. Fui ver os jogos todos, estive com eles, estive com os adeptos. Depois informei o Fernando, o Pedro e o Nuno, era a eles que devia respeito. Pedi-lhes desculpa, mas não podia aceitar. Compreendia até uma decisão daquelas, mas não podia aceitar, por respeito a mim próprio também.

Ricado, à direita, com a família, no dia da festa de despedida dos relvados, já este ano.

Ricado, à direita, com a família, no dia da festa de despedida dos relvados, já este ano.

D.R.

Isso foi a época passada. O que faz agora para ocupar o tempo?
Agora meti-me aqui numa confusão dos diabos (risos). Estava à procura de um rumo para a vida, já tínhamos criado um negócio com a casa de família, A Casa da Raquel, que transformamos em alojamento local e está a correr muito bem. Fomos viver para uma mais perto da cidade e há três meses metemo-nos também num restaurante-bar, em Vizela, chamado o "Chalé do Park". Para já, e para quem não estava preparado para nada disto, tem funcionado muito bem.

Onde é que fica o sonho do Ricardo treinador?
Acho que isto do restaurante-bar até pode ser bom para pensar em iniciar essa atividade porque posso desligar do futebol enquanto jogador e quando voltar, volto para fazer aquilo que realmente quero fazer, que é treinar. E não me importo se começar pelos juniores ou pelos juvenis, ou pela 3ª divisão, porque comecei muito por baixo enquanto jogador e consegui vingar.

Vai fazer os outros níveis do curso?
Sim, acho que é importante fazê-los.

Os seus filhos estão com que idades?
O Pedro tem 17 anos, a Rita, 15 e a Raquel, 10. O Pedro vai para o 12º anos, a Rita para o 10º e a Raquel para o 6º. O Pedro joga futebol no Moreirense, nos sub 18.

Ele quer seguir as suas pisadas?
Ele quer muito, acho que quer mais do que o pai quis, mas o querer às vezes não chega. Mas também lhe digo que é muito mais importante a vontade, do que a qualidade.

Ricardo a jogar à bola com a mulher e os filhos mais velho e a mais nova, no jardim da sua casa.

Ricardo a jogar à bola com a mulher e os filhos mais velho e a mais nova, no jardim da sua casa.

Rui Duarte Silva

Onde é que ganhou mais dinheiro?
Na Ucrânia.

Só investiu o seu dinheiro em imóveis?
Eu cometi um erro grave porque investi muito num só, quando deveria ter investido em vários. Investi muito na Casa da Raquel. Se tivesse investido menos e em mais coisas hoje se calhar tinha outro tipo de soluções. Mas não me queixo.

Qual é a coisa que mais se arrepende de ter feito e de não ter feito?
Acho que me arrependo de não ter sido um bocadinho mais corajoso no ano em que estive no FCP. Se calhar nunca tinha saído de lá. Assumo isso perfeitamente, a certa altura deixe-me intimidar pela grandeza de quem estava ao meu lado e isso prejudicou-me no resto da minha carreira. Acho que esse é o maior arrependimento que tenho.