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A casa às costas

“O árbitro expulsou-me do banco e disse-lhe: ‘Agora já podes ir para a beira dos teus amigos no café dizer que expulsaste o Petit’”

Depois de regressar de Colónia, Petit dedicou-se ao restaurante da família e ao fim de um mês já tinha engordado 10kg. Mas como o bichinho do futebol continuava lá, aceitou ser jogador-treinador no clube onde fez toda a sua formação, o Boavista, embora não quisesse ser treinador, revela. Depois de garantir a manutenção do Tondela e do Moreirense, resolveu parar, está agora a tirar o IV nível do curso de treinador e anseia pela oportunidade de agarrar numa equipa com ambições europeias. Esta é a segunda parte da entrevista a Petit

Alexandra Simões de Abreu

Rui Duarte Silva

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Na última época como jogador, na Alemanha, tem uma lesão grave.
Sim. Eles queriam que eu ficasse mais uma época, mas tinha uma proposta para ir para o Qatar. No último jogo, como já estávamos safos da descida, eu ia sair aos 80 minutos, para me despedir dos adeptos, para a ovação. Só que, sozinho, rebentei o joelho que já tinha sido operado duas vezes. Saio logo do jogo, vou para uma clínica fazer exames e o doutor disse-me que tinha de ficar parado seis a oito meses. Apesar de ter acabado o contrato, como no Colónia gostavam muito de mim, prolongaram durante mais um ano, mas não fiz nenhum jogo e no último jogo da época, quando descemos com o Bayern de Munique, chamaram os meus filhos, a minha mulher, deram-me um quadro, flores e os adeptos bateram palmas de pé. Isto antes do jogo, passado uma hora e meia invadiram o campo para bater nos jogadores por terem descido de divisão (risos).

Nessa altura pensou que o futebol tinha acabado, certo?
Sim. Tinha 36 anos, tinha tido uma lesão muito grave, já tinha sido operado quando era miúdo na fase de crescimento, tinha sido operado quando ainda estava no Benfica e depois ali. Quando recuperava estava sempre a fazer roturas. Então, decidi terminar e vir embora para Portugal.

Custou quando percebeu que tinha mesmo de pendurar as chuteiras?
Não, porque pensei que ia voltar para Portugal, para a beira da minha família e não me chateava mais. Vim para Portugal, tinha cá o restaurante e fiquei ali. Nos primeiros tempos só ficava no restaurante, vinham os meus amigos e ficávamos a comer e a beber. Passado uns tempos já tinha 10 quilos a mais. Depois, aos poucos, começa aquele bichinho... Começo a sentir a falta do cheirinho da relva e entretanto o Rui Borges, o Rui Couto e o Amândio pedem-me para ir ajudar o Boavista que estava numa fase muito má. Estava na II divisão, não tinha equipa de futebol e o presidente tinha sido eleito há pouco tempo. Começo então a ir para o Boavista para os ajudar, mas depois aquele bichinho levou-me a jogar. Só joguei dois ou três jogos na II B, não dava mais. Depois passei a treinador-jogador.

Já tinha algum nível do curso de treinadores?
Tinha só o nível um pelas internacionalizações. Mas eu não queria ser treinador. Queria trabalhar na formação, queria ficar no Boavista como chefe de futebol juvenil. Nunca pensei em ser treinador, só que eles pediram-me porque não tinham mais ninguém, torno-me treinador-jogador e começo a gostar, começo a aprender algumas coisas.

Nessa altura como é que fazia para gerir o plantel?
Usava a minha experiência como jogador.

Depois foi tirar o 2.º e o 3.º níveis do curso?
Tive que me inscrever, porque passado um ano vamos para a I Liga, o Boavista ganha a causa em tribunal e sobe. Fico como treinador e como só tinha o nível 1, inscrevo-me para o 2.º e 3.º níveis, em Fátima. Agora estou a fazer o 4.º nível.

Petit à porta do estádio do Bessa, já como jogador-treinador do Boavista

Petit à porta do estádio do Bessa, já como jogador-treinador do Boavista

Rui Duarte Silva

Esteve dois anos na II divisão e um ano na I e depois vai embora do Boavista. Porquê?
Acho que lidava mal com os ciclos negativos. Pensava que era sempre eu o culpado, que a mensagem não estava a passar e que era mais fácil eu sair do que os jogadores. E também havia um desgaste enorme: meter o clube na I Liga deu muito trabalho, só quem andou lá é que sabe. Quando não estou bem num lugar, sou o primeiro a chegar à beira seja de quem for para agradecer e sair. E foi o que aconteceu: saí do Boavista com 10 pontos em nove jogos.

Antes de avançar mais sobre a sua carreira de treinador, diga-nos o que foi mais difícil enquanto jogador-treinador. Administrar o treino propriamente ou garantir que o respeitavam como treinador?
O mais difícil foi a teoria da comunicação. Uma coisa é eu estar no balneário com 23 jogadores ao lado a olhar para o treinador. Outra coisa é eu estar a olhar para 24 e eles estarem a olhar para mim, para ver o que é que eu vou dizer. Porque o jogador é inteligente, apanha tudo. E o discurso às vezes não é o melhor, mas vamos evoluindo nisso, ainda hoje não sou um expert no discurso, mas conta muito. O treino em si também não é fácil. Não é chegar ali, fazer uns bonecos e vai fazer isto. Tem que haver uma preparação, saber como é que vamos trabalhar no treino para a nossa ideia de jogo.

Mas o mais difícil são as palestras?
Sim, o discurso. Mas aprendi. Tínhamos lá (no Boavista) um psicólogo que gravava as conversas, filmava para que eu ver o que tinha dito e a minha postura, para poder melhorar.

A seguir vai para o Tondela. E em Braga é expulso por ter falado com o 4.º árbitro. O que aconteceu?
Estamos num bom momento e o árbitro expulsa-me por ter perguntado qual era o critério, quando estava um jogador no chão. Estou de mãos nos bolsos, até estão as câmaras de televisão a gravar, ele chama o 4.º árbitro e manda-me expulsar. Quando recebemos o relatório, estava escrito o que eu disse e que estava a gesticular com os braços. Mas estive sempre com as mãos nos bolsos. Levei quatro ou cinco jogos de castigo e não sei quanto de multa. Quando estava a sair, disse-lhe: “Estás contente? Amanhã já podes ir para a beira dos teus amigos para o café, dizer que expulsaste o Petit” (risos). E eles meteram isso no relatório também.

Petit, como treinador do Tondela, dá indicações a um jogador durante o jogo com o Sporting, em 2016

Petit, como treinador do Tondela, dá indicações a um jogador durante o jogo com o Sporting, em 2016

Gualter Fatia

Foi expulso como jogador e como treinador. O que é que custa mais?
Como treinador, porque acho que os jogadores gostam de ter a sua referência, o seu líder no banco. Gostam de sentir que está ali alguém. Não é tirar o mérito ou a qualidade aos nossos adjuntos, mas acho que os jogadores sentem mais. Como jogador, temos um plantel e qualquer jogador te pode substituir.

É esse lado que tem de melhorar, conseguir manter a cabeça mais fria?
Já melhorei. Este ano fui repreendido, mas não fui expulso.

O que é que o tira do sério?
Tenho o sangue quente e estou a viver o jogo como se estivesse lá dentro, sou mais um jogador. Isso também se vai moldando com a experiência que vamos acumulando como treinador. Mas a envolvência do jogo, o ritmo, a competitividade, o resultado, a necessidade de querer ganhar aquele jogo, porque precisas, porque os objetivos passam por ali, levam-nos, às vezes, a não refletir. Com a experiência já consigo parar 10 segundos, respirar, ir para o banco sem dizer nada. Estou a aprender.

Enquanto jogador tinha a imagem de ser um jogador muito duro. A alcunha “Pitbull”, que é tido como um cão agressivo, chateava-o?
Não, nós temos que saber lidar com a crítica e com o aplauso. Com o aplauso é mais difícil.

Com o aplauso é mais difícil?
É porque quando acabamos o futebol, passamos a estranhos. Podemos ter sido grandes jogadores mas passado meia dúzia de anos já não temos o aplauso, o pedido de autógrafo, a fotografia, já passamos um pouco despercebidos, a nossa fase acabou. Agora a crítica a mim obrigava-me a pensar e a dizer: “Vou mostrar-lhes”. E mostrei, consegui sempre ter a carreira que desejei.

Reconhece que às vezes era duro demais ou não?
Nunca lesionei ninguém. Fazia parte da minha posição de jogo.

Nunca foi “mauzinho”?
Não, nunca fui com a intenção de magoar e nunca magoei ninguém. Pelo contrário, eu é que tive várias lesões porque me magoaram. Como sabiam que eu era agressivo com a bola, os jogadores já vinham com outra atitude dividir a bola comigo.

Pode contar como ganhou a alcunha de “Pitbull”?
Foi o António Oliveira, na seleção. Quando fui chamado a primeira vez, estavam alguns jogadores a falar com ele: “Ó mister, como é que ele é a jogar?”. “Deixa-o começar a correr que quando ele começar a correr parece um pitbull” (risos). E Ficou.

Rui Duarte Silva

Quando conseguiu alcançar a permanência do Tondela foi a Fátima a pé.
Nós entrámos a meio da época, quando já só faltavam nove, dez jogos para acabar. Vivíamos em Tondela, a equipa técnica toda, éramos uns seis, sete e tínhamos dito que se conseguíssemos o objetivo, íamos todos a Fátima.

Mas não correu bem, não foi?
Depois do último jogo, metemos pés ao caminho mas andamos perdidos em Santa Comba Dão numa noite, sem luzes, sem nada. Estivemos 12 horas para andar seis quilómetros. Muitas bolhas e cansaço do jogo, que tinha sido na véspera. Acabámos por fazer por etapas, eu vim embora porque estava cheio de dores nos músculos, cheio de bolhas, tive que vir descansar.

Acabaram ou não por ir a pé de de Tondela a Fátima?
Fomos mas por etapas. No sítio onde ficámos, iam buscar-nos e levavam-nos para casa, porque tínhamos que treinar. Isto já foi no início da época seguinte, porque entretanto fomos de férias. Depois voltávamos ao sítio onde tínhamos ficado e voltávamos a andar a pé uns 20 quilómetros, depois iam-nos buscar e vínhamos outra vez para treinar. Passadas duas semanas íamos outra vez. E foi assim (risos). É que nós não sabíamos que para organizar uma caminhada até Fátima, temos que ter um carro de apoio, temos que saber o caminho.

Tem superstições?
Não.

Nem tinha nenhum ritual antes de entrar em campo?
Nada, nada. Nem hoje tenho, só tenho o cigarro. Mas de resto não tenho nada disso.

Já são vários os clubes aflitos que salva da descida. O que é mais difícil nesse trabalho? É o lado psicológico dos jogadores?
É tudo. Para começar temos que identificar o plantel, a equipa, os jogadores, conhecê-los, perceber se estão num bom momento ou não, tanto do ponto de vista psicológico como na parte anímica. Também depende do que se quer para a equipa, posso ter uma ideia de jogo para a equipa mas não ter jogadores para isso.

Qual é a sua ideia de jogo? Identifica-se com algum treinador, tem alguma referência?
Gosto de uma equipa com intensidade, com bola mas com intensidade de jogo e rápida a chegar à baliza. Um dos treinadores de que gosto muito, mas não me identifico, é o treinador do Liverpool, o Klopp. O futebol é feito de golos, de espetáculo. Mas temos de saber se temos jogadores para isso, qual é o contexto em que estamos inseridos, se entramos a meio, no princípio ou a cinco jogos do fim. Quando vou para salvar, estou em último lugar, só tenho de olhar para cima, tenho que ir à procura de resultados e tu para teres resultados tens que jogar sempre para ganhar, mas sabendo quem é o adversário.

Petit já como treinador do Moreirense

Petit já como treinador do Moreirense

Gualter Fatia

Inicia a época seguinte no Tondela, mas depois sai a meio. Porquê?
Tanto no Boavista como no Tondela, saem muitos jogadores e temos que reformular o plantel todo outra vez. E ia ser difícil. Nós salvamos o Tondela e eu fico sem jogadores, só tinha dois jogadores que eram dois miúdos com contrato, de resto todos os jogadores acabavam o contrato, o Tondela tinha vindo da II para a I Liga e fizeram só contratos de um ano. Nós conseguimos esse feito de garantir a permanência, só que só ficaram quatro ou cinco jogadores, a maior parte foi para outros clubes ganhar mais dinheiro, outros para o estrangeiro. Estar outra vez a passar por esse processo, a reformular, ter que escolher jogadores...Nunca é fácil os jogadores quererem ir para a zona interior do país, porque é um meio diferente.

Estava longe da família nessa altura?
Estava.

Vivia num hotel?
Não, vivia numa casa com a equipa técnica. Só que vinha muito a casa porque o meu filho tinha saído do Boavista, estava no Rio Ave e a escola não estava boa, por isso tive de vir muitas vezes ao Porto para estar com ele. Então nem estava focado no Tondela, nem no meu trabalho e optei por sair.

E vai para o Moreirense. Como é que surge?
É o presidente que me liga. Gostava da minha postura, da minha maneira de ser, dizia que eu era a pessoa indicada para salvar o clube. E foi o que aconteceu. Foi tudo rápido também. Passado uns tempos, tinha salvo o Moreirense e estive ali dois anos seguidos.

Seguidos? Não tem o Paços de Ferreira pelo meio?
Tenho, sim. No Moreirense acabo e saio, o presidente já tinha falado com o Manuel Machado e eu também não estava interessado.

Magoou-o?
Não, porque o Moreirense também estava numa fase em que foi tudo embora. Neste contexto alguns clubes fazem contrato só de um ano e depois a base dos jogadores tem que ser feita outra vez e eu andava à procura de um projeto diferente, que me desse outras garantias pelo trabalho que tinha feito no Tondela, no Boavista e no Moreirense e é quando vou parar ao Paços de Ferreira.

E aí, como é que correu?
No Paços as coisas não estavam mal, nem estavam bem. Eles tinham tido dois treinadores que eram da casa, que viviam lá. As pessoas de lá gostavam de mim, falo e dou-me bem com a direção, o diretor é meu amigo há muitos anos e os resultados, uns apareceram, ganhamos logo o primeiro jogo, estávamos acima da linha de água, mas não estavam a ser aquilo que ele esperava. Quando analisei a equipa, depois de estar lá dentro a trabalhar, achei que havia ali coisas que se podiam explorar no mercado de janeiro. Tinha falado com a direção, queria três, quatro jogadores porque havia um défice nas alas e nos médios... e não veio nenhum. Já havia alguma contestação dos adeptos e depois perdemos um jogo em Vila do Conde com o Rio Ave e quando chegamos a Paços de Ferreira, os adeptos estavam dentro dos balneários, vieram para cima de mim, puxaram-me e tive ali alguns problemas. A seguir, num jogo com o Portimonense, eles estavam atrás do banco… Senti que já não havia aquele espírito e fui falar com o presidente, disse que era melhor ir embora e fui. Nunca fui despedido de lado nenhum, eu é que tomava a iniciativa, porque sabia que era a melhor solução.

Mas chegou a vias de facto com algum adepto?
Não. Depois porque a minha equipa técnica segurou-me, mas tivemos ali alguns problemas. Depois de sair, também houve problemas com o diretor-desportivo: empurraram-o e ele veio embora.

Petit, treinador do Moreirense, no jogo com o Belenenses, no Restelo, em 2017

Petit, treinador do Moreirense, no jogo com o Belenenses, no Restelo, em 2017

Gualter Fatia

E volta para o Moreirense.
Pedem-me outra vez para ir para o Moreirense para ajudar a salvar e foi o que aconteceu.

Não fica porquê?
Por razões que não quero estar aqui a falar.

Esta pausa em que está agora é opção sua?
Apareceram alguns projetos, mas nada do que quero agora.

O que ambiciona?
Tenho cento e tal jogos na I Liga, quatro projetos em que consegui salvar as equipas. Quando assim é, é sinal que foi preciso jogar para ganhar, que há trabalho feito de qualidade, de campo e de balneário, de liderança. Por isso estou à espera de um projeto em que lute por outros objetivos, que lute pela Liga Europa.

Não quer ficar conhecido como o treinador das subidas?
Não, porque tenho a minha ideia, estou a aperfeiçoá-la e este tempo também dá para analisar tudo aquilo que fiz nos últimos quatro anos. Estou a acabar o curso de treinador que me permite estar mais à vontade, porque nem sequer podia opinar ou ir a uma flash interview e isso não é bom para o treinador.

Os seus filhos estão com que idade agora?
Ela tem 19 e ele 16.

O que é que fazem?
Ela está a estudar turismo na faculdade, fala cinco línguas e o meu filho joga no Boavista e está na escola.

Ele começou a jogar quando?
Na Alemanha, com cinco anos.

Foi muito difícil para eles vir embora da Alemanha?
Foi, choraram, já tinham o grupo deles, mais a Bárbara que já tinha 12 anos. Ainda agora ela vai à Alemanha, a Colónia, ter com as amigas. E se agora tiverem de ir embora daqui também vai ser difícil porque já têm o grupo de amigos, mas eles sabem qual é a profissão do pai.

Se agora for para fora eles vão consigo?
Eles vão sempre, embora ela já esteja na faculdade, já tem os seus amigos, é mais complicado.

Já podia ter ido treinar para fora?
Sim, tive alguns convites de outros países, mas não era aquilo que queria e também opto por não ir por causa do miúdo que tem 16 anos e está numa fase...

É rebelde como foi o pai?
É. Mas é mais de ficar em casa a jogar Playstation online com os amigos. Não é um miúdo de ir jogar futebol para a rua.

Ao longo dos anos, onde é que ganhou mais dinheiro?
Na Alemanha.

Foi investindo onde, no imobiliário, meteu-se em algum negócio?
Em imobiliário, nos restaurantes do meu pai, para a família e os meus irmãos. Não comprei, fiz obras e remodelei. E tenho o meu dinheiro aqui e na Alemanha.

Os carros são uma paixão?
Já tenho o carro dos meus sonhos, o Aston Martin. Já não troco, Vim da Alemanha com um jipe que troquei por uma carrinha para a mulher andar e para a filha, mas o meu já não troco.

Qual a maior amizade que fez no futebol?
Fiz muitas.... posso estar um ano ou meio ano sem falar, mas quando estou junto com eles, parece que foi ontem.

Hoje ainda pratica desporto?
Padbal, com pessoal aqui do norte, ex-jogadores, no verão no parque da cidade e no inverno no campo do Leça.