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A casa às costas

Vingada, parte I: “O Dani era fabuloso, mas complicado. Fosse onde fosse, ficava tudo maluco com ele. Miúdas, mulheres, era uma loucura”

Tem 65 anos mas, por enquanto, a reforma não faz parte dos planos de Nelo Vingada, o treinador que começou por ser conhecido como o eterno adjunto de Carlos Queiroz, que, aliás, considera um irmão. Mas antes ainda foi jogador do Belenenses, do Atletico, do Sintrense e Vilafranquense e, se não tivesse tirado o curso de Educação Física, muito provavelmente seria hoje piloto de aviões. Nesta primeira parte revela o percurso de vida até tornar-se treinador principal

Alexandra Simões de Abreu

TIAGO MIRANDA

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Nasceu em Serpa mas as suas origens não são de lá, pois não?
A minha família é toda de Tarouca, ao pé de Lamego. Os meus pais, que já faleceram, os meus irmãos... Infelizmente o meu irmão do meio também já faleceu, num desastre de automóvel quando estava na tropa. Eu sou o mais novo.

Como é que vai nascer a Serpa?
Porque o meu pai na altura era funcionário público, tinha uma profissão que julgo já não existir: aferidor de pesos e medidas. Passava pelos estabelecimentos comerciais, fiscalizava e certificava os pesos, as balanças, as medidas, os contadores dos táxis e também das bombas de gasolina. Quando eu era pequeno e estava de férias da escola, às vezes ia com ele e batia com o martelo para certificar as coisas e os comerciantes achavam piada e davam-me um chocolate ou um bolo. Um dia, em Algés, onde morei 40 anos, era pequeno e estava a ver o meu pai a certificar uma balança semi-automática num talho e reparei que por baixo estava um bocado de sebo branco no prato. Imaginemos que estavam duzentas gramas de sebo, significava que quando devia estar a pesar um quilo, na realidade só pesava oitocentas gramas. E disse “pai está ali qualquer coisa debaixo do prato da balança”. O engraçado é que eu cresci em Algés, joguei no Belenenses, casei e fiquei sempre em Algés, e o talhante era o meu fornecedor de carne. Quando lá ia ele lembrava-se do episódio: “Nelo lembras-te quando eras pequenino, fui obrigado a pagar uma multa” (risos).

Acabou por não explicar como foi nascer a Serpa.
A origem do meu pai é essa, ele era aferidor, nasceu em Tarouca, depois esteve em Boticas, uma terra ao pé de Chaves e depois foi para Serpa, porque era um concelho de uma classe superior ao de Boticas. Era uma forma de subir na carreira. Eu nasci em Serpa e a família da minha mãe estendeu-se por lá. Uma irmã da minha mãe que ajudou a criar-me acabou por casar em Serpa, e hoje até há um restaurante famosíssimo em Serpa que se chama “Molha o bico”, que é de uma prima direita, filha da irmã da minha mãe.

A sua mãe tinha alguma profissão?
Quando eu era pequeno, a minha mãe era modista. Tinha um jeito incrível para fazer roupa, especialmente de senhora e de criança. Depois de eu nascer, em menos de um ano o meu pai foi colocado em Elvas, que era um concelho superior a Serpa. Estive em Elvas até aos cinco anos, altura em que o meu pai foi colocado em Oeiras, que já era um concelho de topo, onde fez o resto da sua carreira. Fomos morar para Sassoeiros, para um prédio onde no 2º andar morava a minha futura mulher e sogros. A minha mãe começou a fazer as costuras para a minha sogra e para a minha mulher, quando ela tinha apenas dois anos. Conhecemo-nos desde os dois anos dela e dos meus cinco. Entretanto mudámos para Algés e eles para a Cruz Quebrada, houve sempre contacto.

Estava a dizer que é o irmão mais novo. Pode apresentar os seus irmãos?
O mais velho é o José Alberto, tem mais oito anos do que eu e o meu irmão que faleceu era Heitor Martinho Pereira, tinha mais seis anos e meio. O meu pai era José Pereira Vingada e os meus irmãos tinham Pereira, não tinham Vingada no nome, já eu não tenho Pereira e sou o único que tem Vingada, mas somos filhos do mesmo pai e da mesma mãe (risos).

Nelo Vingada (em cima), com os irmãos

Nelo Vingada (em cima), com os irmãos

D.R.

Como era o Nelo Vingada na escola?
Fui sempre um aluno médio, gostava de ir à escola, nunca tive qualquer problema.

Qual foi o primeiro desporto que começou a praticar?
Obviamente sou do tempo em que jogávamos à bola na rua. Hoje é normal e vulgar mandarem as criancinhas com quatro, cinco, seis anos para as escolas de futebol. Pessoalmente, e sendo um homem de treino, acho um exagero mandar um miúdo aos seis anos aprender futebol. Com essa idade acho que ainda não tem estrutura mental, nem física para aprender futebol, apenas para jogar à bola.

Com que idade é que devem começar a aprender futebol?
Com oito, nove anos, até lá deve ser só jogar à bola e tentar reproduzir o que é o jogar na rua. Nem é preciso treinador. Essa coisa de dizer que é preciso um treinador para miúdos de cinco, seis anos na minha opinião é um exagero, até porque a atenção, o estar focado com essa idade é completamente diferente. Quando eu era miúdo jogava à bola na rua, era o meu desporto favorito; e andar de bicicleta, brincar como as outras crianças.

Quando era miúdo sonhava em ser o quê?
Jogar futebol era uma das minhas metas porque, modéstia à parte, tinha algum jeito. Joguei vários anos no Belenenses, se perguntar ao Pietra (que quando jogava comigo era conhecido por Minervino), uma figura consensual, sem a menor suspeita, ele pode dizer o que eu era como jogador. Eu era de facto um bom jogador quando era miúdo. Mas também sempre quis estudar e os meus pais obrigaram-me. Como fui o mais novo da família, nasci numa fase em que do ponto de vista social e económico os meus pais tinham melhores posses. Os meus irmãos, um fez o curso comercial e o outro o curso industrial. Sou o único que já vai estudar para o liceu e vai para a faculdade.

Já sabia que curso queria fazer?
Ou Educação Física ou ir para piloto de aviões. Quando acabei o 7º ano estava inscrito para fazer a admissão ao INEF, para o curso de Educação Física. Era a prioridade. No caso de chumbar por qualquer razão, iria fazer os psicotécnicos e os exames para a Academia da Força Aérea de Sintra, onde se formavam os pilotos. Sempre tive um imaginário pelos aviões. Mas como na altura jogava …

Nelo Vingada no dia do casamento

Nelo Vingada no dia do casamento

D.R.

Quando é que começou a jogar no Belenenses?
Tinha 14 anos e estive lá até os 19.

Porquê o Belenenses?
Era o clube com mais expressão perto de Algés. Era mais perto para mim, andava no liceu de Oeiras. Fui lá, treinei uma vez, agarraram-me logo e chamaram o meu pai.

Torcia por que clube?
Pelo Benfica.

Em sua casa era tudo benfiquista?
Não, o meu pai era do Sporting, o meu irmão do meio era Sporting, a minha mãe não ligava, e eu e o meu irmão mais velho éramos do Benfica. Há uma coisa muito engraçada: eu fui capitão de juvenis e juniores no Belenenses. Um dia dei uma entrevista ao “Jornal Belenenses” e perguntaram-me quem era o jogador que mais gostava e admirava e eu disse que era o Simões, do Benfica (e que depois foi meu colaborador, trabalhámos juntos em Portugal, na Arábia Saudita, nos Emirados, no Marítimo, no Benfica). Na altura não levaram muito a bem, sendo eu capitão do Belenenses, ter dito que a minha referência era Simões e não um jogador do Belenenses que já tinha jogadores que eram referência. Mas pronto, o clube de que eu gostava, era o Benfica… .

Quando chega ao Belenenses é treinado por quem?
Inácio Rebelo. Um senhor que já faleceu, que tinha muito jeito para lidar com as crianças. Só treinávamos duas vezes, à segunda-feira e ao sábado, não colidia muito com a atividade escolar. Mas como lhe dizia, eu morava em Algés e sempre fui muito ecléctico, quando tinha nove, dez anos aprendi a nadar. Nadava razoavelmente bem, jogava basquetebol no Algés e Dafundo, no liceu era guarda redes da seleção de andebol e jogava futebol nas escolas do Belenenses.

Em que posição é que jogava futebol?
A médio esquerdo, mas marcava muitos golos, estava sempre na lista dos melhores marcadores do Belenenses. Depois quando fui estudar para o INEF, como tinha aulas de manhã e de tarde, não podia de maneira nenhuma estar no Belenenses e fui emprestado ao Sintrense. Quando acabei o curso de Educação Física, casei e fui jogar para o Atlético que na altura estava na I divisão.

Nelo Vingada no dia da entrevista, no Parque das Nações

Nelo Vingada no dia da entrevista, no Parque das Nações

TIAGO MIRANDA

A sua mulher como é que se chama e o que fazia?
A minha mulher é Almerinda, mas toda a gente a trata por Minda. Tenho duas filhas, a Andreia e a Filipa, e três netos. O Tiago e a Mariana, que são da mais nova, e a Leonor, da mais velha.

Já lá vamos. Começou a namorar a sua mulher com que idade?
Namorar, namorar tinha uns 18 anos, mas a minha paixão na altura era o futebol. A Minda fez o curso comercial e foi trabalhar para uma empresa de ferragens e ferramentas, em Algés, onde o pai dela era técnico de contas. Ela trabalhava no escritório. Depois casámos e ainda lá trabalhou durante 15 anos. Mas quando cheguei à seleção, com o Carlos Queiroz, em que a atividade começou a ser de tal modo intensa, para poder dar apoio às miúdas, desempregou-se.

Casa em que ano, tem ideia?
Se não soubesse a minha mulher cortava-me o pescoço: casei a 10 de julho de 1976.

Estava dizer que depois de casar foi para o Atlético.
Joguei três anos no Atlético e voltei ao Sintrense.

Porquê?
Porque o Atlético desceu de divisão e no Sintrense, onde tinha jogado quatro anos, gostavam muito de mim. Mas foi no Atlético, enquanto lá estive como jogador, que tive a primeira experiência como treinador de juniores. O treinador dos juniores foi promovido à equipa sénior, ficou ali um buraco e pediram-me. Achava piada porque acabava o treino de jogador e ia treinar os juniores.

Tinha quantos anos?
25. No ano seguinte o presidente do Sintrense, fez-me o convite para ser jogador/treinador. Como treinador não tinha formação. Tinha a licenciatura em educação física, obviamente com especialização em futebol, mas dizer que era treinador, não posso dizer. Mas tive a possibilidade de começar a lidar e a ter que decidir, primeiro com juniores.

Foi bem recebido?
Fui. Mas foi uma experiência muito intensa como jogador e como treinador, confesso. Tem as suas vantagens porque às vezes o treinador dentro do campo tem a capacidade de decidir e impor aquilo que quer. Quando está fora, como costumo dizer, quando os jogadores vão para dentro do campo: “Agora estou nas vossas mãos”. Sabe, aquela coisa de me criticarem por não estar aos berros, de não estar a gesticular para dentro do campo, nunca o fiz, nem nunca irei fazer porque enquanto fui jogador sei qual era o papel do treinador e sei que isso nunca resolveu nada. E temos exemplos de grandes treinadores - não há fórmulas secretas -, mas há grandes treinadores do mundo, com um sucesso incrível e que não berraram uma vez.

Dê um exemplo.
O Guardiola, raramente o vemos gesticular ou levantar. O Ancelotti também é uma pessoa low profile. Há outros que são mais exuberantes, mas não quer dizer que por isso sejam melhores.

Foi então uma experiência intensa.
Sim, eu tinha de jogar, tinha de treinar, dava aulas, era muita coisa ao mesmo tempo.

Dava aulas na faculdade?
Não, na altura estava a dar aulas na escola, na faculdade foi mais tarde. Entretanto em 1980 volto ao Atlético para jogar mais um ano, jogo seis ou sete jogos, e bem, diga-se de passagem, mas termino aqui a minha carreira como jogador e vou treinar o Belenenses. Vou trabalhar como treinador adjunto do Peres Bandeira que me conhecia há muito tempo do Belenenses, um grande amigo da família. Em 2014 eu estava no Irão e ligaram-me para dizer que ele tinha falecido. Estava sozinho no quarto e chorei. Ele era visita de casa, quando as miúdas faziam anos ou já os meus netos, ele e a mulher vinham sempre à festa. Era uma pessoa íntima.

Em 1980 ele convidou-o para adjunto?
Sim. Eu tinha a particularidade de ter sido jogador de futebol, tinha jogado na 1ª e na 2ª divisão, no Belenenses, no Atlético, no Sintrense e era licenciado em Educação Física. E naquela altura começou a estar na moda os preparadores físicos, mas eu tinha uma actividade mais abrangente com ele. Os dois tomávamos conta da equipa. Nessa altura eu tinha 27 anos e pensei: “Se continuar a jogar, vou jogar na 2ª divisão”. Porque trabalhava, sempre trabalhei, sempre dei aulas. “Se conseguir conciliar a minha atividade de treinador com as aulas (na altura já estava a dar aulas no ISEF) vou de facto ter a possibilidade de aprender com este treinador, saber mais de treino, saber mais o que é a competição, entrar nos meandros do nível altamente profissional. E pronto, decidi acabar com a carreira de jogador, embora pudesse ter jogado mais uns tempos.

Enquanto jogador, referiu o Pietra com quem jogou. Com que outras figuras jogou?
Com o Norton de Matos, o Mário Wilson Filho, com o João Alves, quando eu era capitão do Belenenses ele estava no Benfica, o Shéu … São todos jogadores da minha geração.

Já tinha referências de treinadores?
Na altura, estamos a falar de um tempo em que do ponto de vista mediático, do ponto de vista tecnológico, só havia praticamente a televisão, não era fácil saber, como hoje se sabe das coisas, mas identifiquei-me muito e fiquei muito feliz por ter trabalhado com o Mário Wilson, na Académica. Fui adjunto dele em 82, e trouxe muitas coisas para mim do comportamento, daquilo que era o relacionamento dele.

O que mais admirava nele?
A sua liderança. Outra pessoa da qual fui adjunto, na sua primeira experiência como treinador, foi o Artur Jorge a quem aproveito para mandar, se ele ler a entrevista, um grande abraço e espero que esteja tudo bem com ele. Também ele um low profile como eu. Como sabe vim da Malásia e não dou eco disso, não ando a dizer cheguei, estou cá, estou disponível…. Raramente vou ao futebol, vejo na televisão. Se há algum jogo que vejo ao vivo é o Marítimo quando vem aqui jogar. Estive lá quatro anos e meio, dou-me bem com o presidente e gosto muito do clube. Vejo também às vezes o Vilafranquense porque tenho casa lá ao pé. Mas como estava a dizer, o Artur Jorge também foi uma pessoa com quem me identifiquei.

Nelo Vingada enquanto jogador do Atlético, em 1976/77

Nelo Vingada enquanto jogador do Atlético, em 1976/77

D.R.

Quando é que começa a ser professor na faculdade?
Penso que em 1979. Até lá não havia gabinete de futebol e veio uma comissão instaladora nova para o ISEF que se lembrou de mim, pelo meu passado como jogador. Na altura não havia muita gente licenciada que tivesse sido jogador. Havia o professor Rui Silva, que foi treinador do Benfica e foi meu treinador no Belenenses, e havia outras pessoas, mas eu era um pouco mais novo, tinha acabado o curso em 1976, alguns dos professores que iam entrar na comissão instaladora tinham sido meus professores e conheciam o meu trajeto enquanto jogador.

Quem é que lhe passou pelas mãos enquanto aluno? Alguém de destaque?
O que se tornou mais mediático é o José Mourinho. Foi meu aluno como o José Peseiro.

Nessa altura o Mourinho já era diferente dos outros, era especial?
Não, mas nessa altura ele teria uns 22, 23 anos, ou menos talvez, era muito novo. O pai dele foi meu treinador no Belenenses e lembro-me dele com nove, dez anos ir para lá brincar com a bola. Lembrava-me dele quando era miúdo e quando chegou ali como aluno, obviamente que se destacava, porque estamos a falar de um meio onde pouquíssima gente era da alta competição. Se me pergunta se naquela altura quando olhava para ele percebia o que ele iria ser, obviamente que não. Penso que até ele próprio naquela altura também não.

A profissão de treinador torna-se um bocadinho mais séria quando passa a ser adjunto do Peres Bandeira.
Sim em 80/ 81. Depois ele sai e vem o Jimmy Haggan e eu continuei. Em 81/ 82 estive com o Artur Jorge também no Belenenses. Depois estive com Mário Wilson na Académica e no Estoril e por aí fora até à seleção.

Como é que vai parar à seleção?
A partir de 1982, 83 não posso precisar, abri o novo Gabinete de Futebol, algum tempo depois juntou-se ao gabinete o professor Mirandela da Costa e o professor Jesualdo Ferreira. Dois anos depois era preciso mais alguém. O Carlos Queiroz é um mês mais velho do que eu mas fez o curso de Educação Física mais tarde porque veio de Moçambique, andava em engenharia e depois é que fez educação física. Ele era o aluno daquela fornada que era visto com mais capacidade pedagógica, com mais talento, com mais visão, já com ideias e perspetivas muito interessantes e foi convidado para integrar o gabinete como assistente estagiário. Portanto, começámos a trabalhar juntos quando estou no Estoril, no 1.º ano em que trabalhei com o Mário Wilson. No ano seguinte o meu horário de professor colidia completamente com a disponibilidade para treinar. O do Carlos Queiroz era um horário que permitia e então apresentei-o ao Mário Wilson. Evidentemente que toda a gente já lhe reconhecia a capacidade e o talento. Nessa altura havia um protocolo entre a faculdade e o Belenenses, e ele dirigia parte dos escalões mais jovens do Belenenses, das escolas já com a sua visão e com as suas ideias. E ele começou a trabalhar com o Mário Wilson. A primeira experiência formal dele ao nível da alta competição, advém daí.

Sentiu logo empatia pelo Carlos Queiroz?
Sim. Primeiro porque somos da mesma idade, depois porque convivemos muito, éramos os mais novos do gabinete, o professor Mirandela da Costa e o professor Jesualdo eram mais velhos. Quando havia os campeonatos universitários o Jesualdo Ferreira e o Carlos Queiroz dirigiam a seleção do ISEF e eu jogava, não ia como treinador, ia como jogador, mesmo já tendo 30 anos. Mas eu e o Carlos Queiroz trabalhávamos juntos, convivíamos, as nossas famílias também tinham uma empatia muito grande, andávamos juntos para aqui e para ali. Entretanto, o Gabinete de Futebol começou a trabalhar com o sector de formação da Federação e em 1985 o Carlos foi convidado pelo José Augusto para integrar também o Gabinete de Futebol Jovem da Federação, onde só estava o José Augusto. Nessa altura eu estava a trabalhar no Vilafranquense. O Carlos Queiroz trabalhava com o José Augusto, eeu um bocadinho nos bastidores, às vezes ajudava-os na observação. Foi na altura em que começamos a pegar nas câmaras de vídeo e íamos filmar os treinos. Depois foi desenvolvido um projeto, o Skills, criado pelo Carlos Queiroz e por mim. Fizemos uma série de observações, de comparações, para encontramos um modelo. O José Augusto saiu porque teve a opção de ir treinar o Farense e de repente a Federação que para o futebol jovem tinha só o José Augusto e o Queiroz, passou a ter só o Queiroz que foi promovido ao lugar do José Augusto. Nessa altura, o Queiroz precisava de uma pessoa para trabalhar com ele e em 1986/87 convida-me para trabalhar com ele no Gabinete da FPF, e foi até 1993.

Foram por aí fora juntos até ao tempo das conquistas, Riade, Lisboa...
...E embora não tenha tido o mesmo peso mediático até porque era um escalão mais novo, também foi a primeira vez que fomos Campeões da Europa de sub-16, na Dinamarca, em 1989. Este foi um ano muito bom: fomos Campeões do Mundo em março, a final até foi no dia de anos da minha filha, três de março. Em finais de maio, princípio de junho fomos Campeões da Europa de sub-16, numa equipa cujos talentos maiores eram o Figo, o Peixe, o Toni, o Tulipa, o Miguel Geraldes e outros. O guarda redes era o Paulo Santos. Um mês e meio depois, esta equipa foi ao Campeonato do Mundo dos sub16 e ficámos em 3.º, na Escócia. Não sei se se recorda de um episódio, em que o nosso guarda redes, o Paulo Santos, baixou o calções... Foi uma bronca, estavam a chateá-lo e ele depois acabou por ser expulso.

Recorde o episódio.
Estávamos a jogar a meia final com a Escócia A outra meia final era Bahrain-Arábia Saudita. Quase que se dizia que quem ganhasse a nossa meia final seria o Campeão do Mundo, o que não veio a acontecer porque o campeão do mundo acabou por ser a Arábia Saudita. Nós perdemos 1-0. Estavam a chatear e a provocar tanto o Paulo Santos, ele era um bocadinho nervoso, e às tantas baixou os calções. Claro, foi expulso da competição (risos). Depois ganhámos o jogo para apurar o 3.º e o 4º lugar. Mas foi um ano muito bom, porque fomos Campeões do Mundo com aquela geração do Fernando Couto, Valido, o Abel Silva que marcou um dos golos na final, Jorge Couto, o Paulo Sousa era suplente dessa equipa, mas obviamente era um bom jogador, o Folha, que também era suplente, o Paulo Alves, o João Pinto, o Hélio, que foi campeão como jogador e como treinador e que é uma pessoa fantástica, o Tozé, que era o capitão da equipa na altura, Mário Morgado...Tínhamos uma seleção que valia mais como equipa. O jogador deste grupo que mais se notabilizou acabou por ser o Fernando Couto. O Vítor Baía era o guarda redes desta equipa mas o FCP não o deixou ir e acabou por ser o Bizarro o guarda redes.

Carlos Queiroz e Nelo Vingada, em Riade 1989

Carlos Queiroz e Nelo Vingada, em Riade 1989

D.R.

Esteve até 1993 com o Carlos Queiroz.
Sim. Há aqui um tempinho, em 1991, em que dirigi a seleção de esperanças, porque a seguir ao Campeonato do Mundo apanhámos uma fase de qualificação a meio, ele acabou a fase de qualificação da seleção A e eu acabei a fase de qualificação da seleção de Esperanças e depois voltamos a estar juntos com a seleção A para o Mundial.

Falando ainda de Riade e de Lisboa, que foram dois momentos ímpares. Sentiam que estavam a fazer história?
Sim. Hoje se perguntar aos jogadores, o discurso estava sempre virado para: “Nós podemos ganhar, nós temos condições, nós podemos lutar”. Mas há um dado que é muito importante. Antes de Riade, houve o Campeonato da Europa de sub-18, que apurava três ou quatro seleções, agora os campeonatos do Mundo têm mais equipas mas na altura só tinham 16, e da Europa eram só apuradas três ou quatro. Esse Europeu foi jogado ainda na Checoslováquia, numa cidade que pertence hoje, se não me engano, à Eslováquia e a final foi entre Portugal-União Soviética. E estamos a ganhar por 1-0 até 15 minutos do fim. Eles tinham um jogador fantástico, o Salenko, um jogador que era um bicho, era um touro com técnica, na frente. Eles empataram o jogo 1-1, estava muito calor e no prolongamento nós perdemos por 3-1. Mas uma equipa que é vice-campeão da Europa, obviamente que num contexto de um Campeonato do Mundo, penso que não fica mal se se assumir como candidata a um dos lugares de honra e nós assumimos. E para aquele tempo havia uma cobertura mediática fantástica. Os jogos da seleção jovem davam todos na televisão, havia sempre jornalistas onde íamos jogar. O pioneiro foi o Rui Santos, que viajava sempre com a seleção, mas depois, e com o sucesso da seleção, o Record, a Gazeta dos Desportos, o Jogo começaram a mandar gente. Havia jornalistas quase que diria especializados no futebol jovem e que acompanhavam a seleção para toda a parte. Havia uma expressão e um entusiasmo muito grande à volta da seleção.

Lá no íntimo acreditava mesmo que seríamos campeões?
Acreditar acreditava, mas lá no íntimo achava que ia ser tão difícil.

Porquê?
Porque havia o Brasil, havia a União Soviética. Mas valíamos muito como equipa, havia uma empatia muito forte entre nós e os jogadores. No fundo nós éramos um pouquinho mais velhos do que os jogadores. Em 1989 tínhamos 35, 36 anos.

Para si quem era o grande talento dessa seleção?
O João Pinto já se destacava, era franzino e rápido, era um jogador que claramente já se destacava. Dois anos foi quase um processo natural, isto é, a equipa de Lisboa foi uma equipa que começou nas mãos do Carlos Queiroz e eu estava ao lado dele, quando eles tinham 15 anos. A equipa de Lisboa é a primeira equipa que mostra que, com trabalho metódico, organizado, muito investimento da Federação, muito apoio dos clubes, muito apoio dos técnicos e das associações, os resultados surgem. Este é um país com memória curta, as pessoas podem criticar o Carlos Queiroz de muita coisa, mas esquecem-se que, ainda hoje, não tenha dúvida, com todo o mérito que esta Federação tem, especialmente agora, e as pessoas que lá estão, mas ainda hoje há frutos, há um reflexo desse trabalho. O Carlos Queiroz marcou um tempo diferente no futebol português. Até 1986/87 era uma coisa e depois passou a ser outra.

Entretanto chegam à equipa A?
As coisas com a seleção A não estavam bem, o selecionador era o António Oliveira, a direção da FPA resolveu fazer uma mudança e convida o Carlos Queiroz para ser o selecionador da seleção A com contrato até 1994. Isto em ano de qualificação para o Europeu de 1992, que já estava difícil e não se conseguiu. Depois havia a possibilidade de fazer a qualificação para fazer o Campeonato do Mundo de 1994 nos Estados Unidos, mas não não nos qualificamos.

Por que é que as coisas não correram bem?
A relação forte que havia entre os jogadores e o Carlos Queiroz, eram jogadores que na altura tinham 21, 23 anos e não era possível juntar todos e colocar na seleção, onde havia um conjunto de jogadores muito bons, como o Vítor Paneira, o Oceano, tantos, que eram de uma faixa etária que não tinha passado pelo Carlos Queiroz. Não houve choque porque a relação era boa e eles eram bons jogadores mas de facto havia ali algum trabalho que era feito com 20 jogadores consecutivamente há quatro anos e de repente, o Carlos Queiroz e eu deparámo-nos com outros jogadores que estavam já perto do fim da carreira.

Tinham que ligar os mais velhos com aquela geração mais nova.
Sim e de facto não houve um tempo, dois, três anos para juntar toda aquela gente, por a trabalhar juntos. Havia jogadores, os de Riade, com quem nós conseguíamos comunicar com os olhos. Com os outros era uma realidade diferente, eram jogadores mais maduros, mais experientes, alguns deles pouco mais novos do que nós e isso fez com que fosse difícil obter os resultados desportivos que tínhamos tido até ali. E penso que também se criou uma certa expectativa, campeões da Europa, campeões do Mundo... Houve um desabafo do Carlos Queiroz, em 1993, no jogo com a Itália que não caiu bem.

Que desabafo?
Nós estávamos habituados a viajar em voos charter e quase sempre em fato de treino. Acabava o jogo e voltávamos. Nesse jogo, que era o último e que só ganhando é que teríamos possibilidade de nos qualificar, foi decidido levarmos fato. O jogo era em Itália. Escolher o fato, escolher as camisas, as gravatas, criou-se ali um ambiente que não tinha nada a ver com o jogo. Perdemos o jogo, o árbitro não foi feliz e o Carlos Queiroz irritou-se no final do jogo, jogamos meia hora só com 10 porque o Fernando Couto foi expulso. O Carlos Queiroz estava muito exaltado e atira: “Enquanto esta merda na federação existir, vai ser difícil obter resultados”. Aquilo obviamente não caiu bem na estrutura superior da FPF. Uma semana ou 15 dias depois o Sporting foi eliminado pelo Salzburgo, o Sousa Cintra despediu o Bobby Robson e resolveu convidar o Queiroz. E ele foi.

Deixa de ser adjunto do Carlos Queiroz, quando este vai para o Sporting, em 1994. Nessa altura já tinha a ambição de ser treinador principal?
As condições que foram oferecidas ao Queiroz obviamente que o satisfizeram. Eu iria ser o treinador adjunto, iria com ele, o Carlos Queiroz é como meu irmão, mas aquilo que me estava a ser oferecido era francamente menos do que o que usufruía da FPF. O próprio Queiroz disse que não me podia levar indo eu ganhar menos e tendo mais trabalho. Não foi possível chegar a acordo naquela altura. Em relação a ser treinador principal, é claro que eu alimentava essa possibilidade e achava que tinha condições, embora naquela altura a minha ambição era continuar com o Carlos Queiroz.

Mas com a saída dele sobe a selecionador nacional.
Havia ainda uns compromissos da seleção A e o engenheiro Vítor Vasques, que era o presidente, juntamente com a direção promoveram-me durante o tempo restante de 1993/94 a treinador da seleção A.

Como é que foi a experiência?
Foram apenas dois jogos. A estreia foi num jogo em Espanha, em Vigo, empatámos 2-2.

Estava nervoso, mais do que era normal?
Não sou calmo, mas consigo controlar muito bem as minhas emoções. Depois do jogo o próprio presidente da federação deu-me os parabéns não só pelo resultado mas também porque não estava à espera que, sendo a primeira vez que ia tomar conta da seleção, estivesse tão calmo, tão sereno. Tenho uma grande capacidade de me adaptar em função das circunstâncias.

Nelo Vingada num passeio junto ao rio Douro

Nelo Vingada num passeio junto ao rio Douro

D.R.

Depois vai dirigir a seleção olímpica.
Sim e pela primeira vez Portugal ganhou o direito de estar nos JO. Em 1928 tinha estado nos JO em Amesterdão por convite. Mas no terreno só ganhou o seu direito em 1996.

Gostou da experiência nos JO?
Gostei porque foi inédito, acabámos em 4.º e fomos a melhor equipa da Europa. Mas se me perguntar se a experiência olímpica para mim foi igual a campeonato da Europa e do Mundo, não. Nós não vivemos o ambiente da Aldeia Olímpica, do convívio entre atletas, da multiplicidade de culturas e de gente, que deve ser a parte engraçada de uma coisa daquelas. O futebol foi dividido por diferentes cidades, nós por destino do sorteio jogamos os três primeiros jogos em Washington e ficámos lá, depois fomos aos quartos de final, em Miami, com a França. A meia final e a medalha de bronze foi em Stanford, perto de Atlanta. Só estive em Atlanta quando foi o sorteio.

Para fechar o capítulo da seleção, deve ter muitas histórias dessa altura até porque apanhou jogadores como o Porfírio, o Dani...
...O Dani junta-se à seleção sub 15 a seguir ao Campeonato do Mundo, em 1991. É o jogador com mais talento que vi naquela idade. O Dani nunca chegou ao nível do Figo, que ganhou a Bola de Ouro, mas quando tinha 15 anos era o jogador mais talentoso que me passou pelas mãos, fabuloso. Só que a estrutura profissional... E onde ele chegava ficava tudo maluco com ele. As miúdas, as mulheres, aquilo era uma loucura, portanto também não era fácil o ambiente que o rodeava, mas foi um jogador fantástico. E como era um miúdo fantástico e uma pessoa muito agradável. Tenho uma história engraçada do grupo dele.

Conte.
A seleção campeã do Mundo em 1991, foi uma seleção que teve muito tempo de estágio, de treino, de trabalho e nós vivíamos muito no aparthotel perto do Campo do Estoril. E ter miúdos de 16, 17 anos ali dentro... Um dia veio o gerente ter connosco. Só lá estávamos nós e poucos turistas e a máquina de gelados tinha sido assaltada. O gerente disse que tinham aberto a máquina e que tinha sido os jogadores da seleção. O Carlos Queiroz chamou toda a gente e deu-lhes uma descasca, mas nunca conseguimos saber quem foi. Eles fizeram um pacto entre eles.

Mas há mais histórias. Não há uma que mete o Porfírio e um carrinho de golfe, em Atlanta?
Sim, nós fizemos os estágio para os Jogos Olímpicos, em Toronto, num resort fantástico, tinha dois campos de futebol óptimos, tinha campo de golfe... Um dia eles conseguiram a chave de um dos carrinhos de golfe e, à noite, foram a um bar que havia a um ou dois quilómetros, no carrinho de golfe (risos). Tiveram sorte porque se fossem apanhados na estrada com aquilo...

Como é que castigavam os jogadores nessa altura, se é que castigavam?
Às vezes castigávamos. O Porfírio era o único jogador que embora tivesse idade olímpica, também tinha estado na seleção A, em Inglaterra. Vinha da seleção A onde durante o trajeto da qualificação tinha sido jogador titular e meteu na cabeça que chegava lá e era ele e mais 10. No primeiro jogo não jogou e teve um comportamento pouco adequado, com declarações do género, se era para não jogar mais valia não ter vindo. Antes do jogo com a Tunísia, chamei-o e disse-lhe: “Tu vais para o banco mas não vais jogar em circunstância alguma. Depois do jogo a gente resolve”. Depois, tivemos uma reunião com todos os jogadores e disse-lhe: “Porfírio quando dizes que para ter vindo e não jogar mais valia não teres vindo estás a pôr em causa o teu treinador, mas também estás a pôr em causa o nível profissional dos teus colegas”. O Porfírio era um miúdo muito temperamental mas também muito dócil. Acabou por jogar, mas na altura ainda lhe disse: “Se estás assim, meto-te no avião e vais embora”. Ele depois caiu em si com a ajuda dos colegas e resolvemos as coisas. Mas raramente houve castigos, havia mais castigos pedagógicos do que outra coisa. De uma forma geral nós funcionávamos um bocadinho com uma visão paternal. Lembro-me de muitas vezes estar a ensinar o Nuno Gomes e o Dani a fazer a mala, a dobrar a roupa porque eles eram despassarados e uma das coisas com a qual tínhamos preocupação era a maneira como eles se iam apresentar, a maneira como deviam falar, comunicar.

Houve alguma partida que tenham pregado e que a equipa técnica tenha rido à gargalhada?
Nós próprios, os mais velhos, entre nós, também pregávamos partidas uns aos outros. Lembro-me de uma altura em que fomos jogar à Bulgária e eu e o Carlos Queiroz tirámos a mobília toda do quarto do Pedro Mouzinho, que era o secretário técnico. Pusemos tudo na varanda e só deixamos um lençol em cima do chão. No outro dia quando ele chega ao pequeno almoço começa a dizer: “Hoje tive de dormir no chão, estava tão aflito das costas, o problema ficou resolvido, vou continuar a dormir no chão”. E durante os quatro ou cinco dias em que estivemos na Bulgária, ele não mexeu uma palha para meter a cama e as coisas dele no quarto, dormiu sempre no chão (risos). Depois dos Jogos Olímpicos fui dirigir a seleção A da Arábia Saudita. Recordo-me de um jantar na embaixada, em Abu Dhabi, em homenagem aos campeões da Ásia. Fomos todos jantar e à boa maneira árabe, quando se entra na sala toda a gente tem de se descalçar. Deviam estar umas 60, 70 pessoas no jantar. Estava o embaixador, o presidente da federação, algumas figuras proeminentes da sociedade saudita, afinal, tínhamos sido campeões. Quase no fim do jantar fui à casas de banho e quando regresso vi tanto chinelo e tanto sapato que agarrei naquilo e virei tudo. Quando acabou o jantar e as pessoas vieram embora estava tudo desirmanado, mas nunca souberam que fui eu (risos).