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A casa às costas

“Em Guimarães, pediram-me para insultar, chamar cabrão e filho da p..., porque era essa a linguagem que o jogador do Vitória percebia”

Arábia Saudita, Egito, Jordânia, Irão, Coreia, China, Índia, Malásia, são os principais países por onde Nelo Vingada passou enquanto treinador e onde quase sempre foi feliz, contando no currículo com um título de campeão continental, entre outros. A memória dos anos passados no Benfica e sobretudo no Marítimo está ainda tão presente que voltar a treinar em Portugal está praticamente fora de hipótese, apesar de continuar no mercado. Se pudesse escolher, diz que ia para os EUA ou voltava à Coreia

Alexandra Simões de Abreu

TIAGO MIRANDA

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Estava a dizer que depois da seleção olímpica vai para a Arábia Saudita. Como surge o convite?
Um mês depois dos Jogos Olímpicos em que não houve acordo para continuar na federação, recebi um convite do Egipto para treinar a seleção A, estive em Paris um dia inteiro mas não chegamos a acordo. Um mês depois o Carlos Queiroz liga-me de Nova Iorque e diz-me: “Tenho aqui o secretário do príncipe da Arábia, estão à procura de treinador e eu disse que tu és a pessoa certa, como é que é?”. “Tudo bem”. Fui a uma reunião a Londres, uma semana depois viajei para Riade e estive lá uma semana. Ficámos assim entre as nove e as dez, era para a seleção olímpica. Dois dias depois de regressar a Lisboa liga-me o príncipe a dizer: “Gostei muito de reunir consigo, gostei da sua visão sobre o treino, o jogo, gosto das suas credenciais, o treinador da seleção A foi despedido, quero que daqui a uma semana esteja em Riade para dirigir a seleção A, para o Campeonato da Ásia”. Pus algumas condições, ele concordou, fui, e levei o Simões comigo.

Que condições é que colocou?
Além do salário disse-lhe que queria levar duas pessoas comigo e que era melhor eu dirigir a seleção e depois se gostasse do meu trabalho, renovávamos o contrato. Eles gostaram do trabalho e ainda na fase de grupos propuseram renovar o contrato.

Quando chegou a casa e disse que ia para a Arábia Saudita, qual foi a reação?
As minhas filhas tinham 19 e 17 anos, já andavam na faculdade. A minha mulher já estava em casa, mas para mim próprio confesso que foi um choque. Nos primeiros tempos foi difícil, eu jamais me imaginaria na pele de emigrante. Mas houve duas coisas boas. Preparei-me para ir, convenci-me de que tinha de ir e preparei-me. Sabia tudo sobre a cultura, sobre a religião, tempos das rezas, a comida, como vestir… O próprio príncipe disse-me: “Você para ser um verdadeiro árabe só falta ter quatro mulheres”. Correu bem. Penso que terei sido o primeiro treinador português a ter sucesso relevante, porque fui campeão continental como treinador da Arábia Saudita.

A família foi logo consigo?
Não, porque fui trabalhar um mês fora, em estágio, com a equipa. O mês seguinte foi de competição. Depois renovei o contrato e a minha mulher foi ter comigo. A partir daí, já estive em 11 países diferentes e a minha mulher esteve sempre comigo. As filhas foram praticamente a todos os sítios onde estive. Na altura elas andavam a estudar na faculdade, a mais velha, a Andreia tirou marketing e publicidade, e a Filipa Ciências da Comunicação na Universidade Nova. Depois casou com um jogador de futebol, o Ricardo Esteves, agora ex-marido, e andou sempre com ele. Ela nunca exerceu a atividade dela porque logo que casaram ele foi jogar para Itália, para o Reggina; aliás o nosso neto mais velho, o Tiago, nasceu em Itália. Tem 12, vai fazer 13 anos. A irmã, a Mariana vai fazer 5. A Andreia casou com um egípcio, também já está divorciada.

Quando a sua mulher foi ter consigo como é que foi a adaptação?
Ela surpreendeu-me. Quando lá chegou comprou logo uma abaia. Ela, a mulher do Simões e a mulher do Catoja, que também foram. Surpreendeu-me pela facilidade incrível em se adaptar às culturas e aos outros países.

O professor Nelo Vingada também se adaptou a, por exemplo, comer com a mão?
Sim, quando estava com eles, sempre. Aliás, uma das coisas que em todos os sítios sempre apreciaram foi a minha facilidade em adaptar-me. Em 2010 fui para a Coreia. Quando eu comecei o meu trabalho, havia um estágio e vieram ter comigo para saber se eu queria comer outra coisa, porque o anterior treinador tinha tido dificuldade em se adaptar. E eu respondi: “Estou na Coreia, vou comer o que os jogadores comem. Se depois tiver fome o problema é comigo”. Sempre tive essa capacidade e já lá vão 11 países. Se me perguntar se alguma vez me custou? Custou.

Onde?
Na China. Houve alturas que nem sei o que é que comi. E foi talvez o sítio onde comi em restaurantes mais luxuosos com o mais alto padrão de qualidade. Às vezes nem sabia o que é que estava a comer, mas comia de tudo.

Nunca lhe aconteceu ter metido à boca uma coisa que não conseguisse comer e ter que deitar fora?
Não, isso não. Mas uma vez no Egito estávamos a comer num restaurante de marisco e veio snake fish e eu olhei para aquilo que me parecia mais uma cobra do que peixe.... Eu aqui também não sou grande apreciador nem de enguias... Mas comi, comi menos, mas comi. Às vezes na China perguntava o que era mas diziam-me: “Nem vou dizer, se gostas come, se não gostas não comas” (risos). Mas também comi coisas fantásticas na China.

Na Arábia como é que fazia com o álcool, não bebia?
Não bebia com eles. Na Arábia Saudita só bebia em duas circunstâncias, ou na embaixada portuguesa, algumas vezes fui lá, o senhor embaixador e o encarregado de negócios faziam o favor de me convidar; ou então, a minha mulher tinha levado bacalhau, de vez em quando fazia bacalhau e o cônsul vinha a minha casa e como ele era da embaixada podia trazer uma garrafa de vinho. Ou quando havia receções noutras embaixadas. Fui convidado várias vezes para ir a receções no palácio dos príncipes com gente do estrato social mais elevado da Arábia Saudita, onde havia álcool, mas com eles nunca bebi.

Quando chegou à Arábia Saudita, a nível de futebol a diferença era muito grande?
Eu fiquei impressionado com a qualidade dos jogadores.

A sério?
Nós chegamos numa sexta-feira, no sábado treinamos e na quarta-feira seguinte jogamos com a Bulgária que tinha o Balakov, Mladenov... Aliás a Bulgária tinha ficado em 3.º no Campeonato do Mundo nos EUA. E nós ganhamos 1-0. Eu próprio fiquei impressionado com a técnica individual. Penso que o Jesus que agora está lá deve ter ficado admirado com a qualidade. Agora, claro, a mentalidade profissional, os padrões e as exigências de vida deles não têm nada a ver com as nossas.

A religião interferia muito com os treinos?
Não muito. Às vezes o intervalo era um pouco mais alongado, às vezes a hora do jogo tinha que mudar, tentei sempre coordenar os treinos para não interferir com a reza - há cinco rezas diárias - e tentei que não houvesse grandes problemas com isso, mas uma ou outra vez aconteceu chegar a hora da reza e ter que se parar, aí não há nada a fazer.

Nelo Vingada foi campeão continental com a seleção da Arábia Saudita

Nelo Vingada foi campeão continental com a seleção da Arábia Saudita

D.R.

Depois da Arábia Saudita, foi para o Benfica, como adjunto. Porque é que sai da Arábia?
Porque depois de termos sido campeões da Ásia, começa a fase de qualificação para o Campeonato do Mundo; nós chegámos a fazer um trajecto muito bom, nós e o Irão, mas a três jornadas do fim tínhamos um jogo com o Qatar em casa e ao intervalo estava 0-0 e, surpreendentemente, através do manager recebo uma ordem para substituir um jogador que, curiosamente, eu tinha deixado de fora. O Sameil Jaber que, não sei se se recorda, apareceu nas primeiras imagens de contratação do Jorge Jesus, era um dos jogadores mais emblemáticos da seleção, mas naquele jogo eu resolvi pô-lo de fora e ao intervalo fui coagido a pô-lo a jogar e não aceitei a decisão do príncipe. Ganhámos 1-0, a equipa ficou praticamente apurada para o Mundial de França, mas no dia seguinte fui despedido porque tinha desobedecido à ordem do príncipe.

Quando foi embora não tinha nenhuma proposta de trabalho?
Não. Quando estava em Lisboa decorria o processo eleitoral do Benfica, o Vale e Azevedo fez um convite ao Simões e a mim. O Simões foi escolhido para ser director desportivo e eu fui escolhido para ser coordenador de todo o futebol jovem. Ainda não havia treinador, foi escolhido um treinador sueco, que era o treinador da seleção da Suécia no Mundial, agora não me recordo do nome dele mas que à última hora declinou e deixou o Vale e Azevedo numa situação enrascada e acabou por vir o Graeme Souness que não falava português. Na altura o Vale e Azevedo e a estrutura resolveram estender a minha colaboração, para eu dar uma ajuda ao Souness.

Não conhecia o Souness?
Não, não conhecia, só como jogador, tinha sido um grande jogador. Tivemos uma relação boa, ele com o seu estilo conservador, um bocadinho fleumático. Recordo uma história engraçada, no primeiro jogo que foi com o Guimarães disse-lhe “olha Graeme aqui em Portugal é normal o treinador falar, fazer uma exposição...”. “Mas nós em Inglaterra não trabalhamos assim”. “Mas aqui é a tua primeira vez, depois os jogadores vão se habituando à tua maneira” e lá lhe expliquei que ele ia falando e eu ia traduzindo. Ele fez uma palestra de cinco minutos e no fim disse “Isto é a maior palestra que eu fiz para uma equipa de futebol e ainda por cima foi o Nelo que me pediu e quase me obrigou” (risos), mas disse aquilo numa boa. Ele era daqueles treinadores que pensava assim: tem que se treinar e no dia do jogo os jogadores têm que reproduzir aquilo que é feito no treino. Estive seis ou sete meses mas confesso que não me revi em muitas coisas e no final do ano...

Em que coisas é que não se revia?
Na maneira como aquilo estava a ser conduzido e falei com o Vale e Azevedo. Se me perguntar se estava a ver aquilo tudo, não estava a ver o que mais tarde... Mas eu não me revia no funcionamento das coisas. Depois no final do ano o Simões tinha uma visão de mexer pouco na estrutura técnica e na base da equipa, talvez um ou dois jogadores, a visão neste caso do Vale e Azevedo e do Souness, de britanizar mais a equipa, como aliás veio a acontecer e eu saí. Foi de forma pacífica, falei com o Vale e Azevedo, “gosto muito do clube mas não me revejo nestas coisas e quero sair”.

Nelo Vingada no dia da entrevista, no Parque das Nações

Nelo Vingada no dia da entrevista, no Parque das Nações

TIAGO MIRANDA

Ficou desiludido, afinal era o seu Benfica.
Sim, era, e eu tinha um contrato para dois anos, até estava em incumprimento e podia arranjar ali uma guerra, mas eu também disse para me pagarem o tempo que trabalhei e justiça seja feita, na altura ele deu uma entrevista e até referenciou a maneira educada como eu tinha saído. O Simões depois também acabou por sair, já num processo mais litigioso.

E depois?
Depois de sair do Benfica,apareceram algumas possibilidades, sou convidado para ir treinar o Al Ain dos Emirados Árabes Unidos. Nessa altura o Carlos Queiroz também foi dirigir a seleção dos Emirados Árabes Unidos. Só que fui treinar uma equipa que era campeã dos Emirados Árabes Unidos e que não tinha uma estrutura profissional naquela altura. Nós tínhamos um plantel com dois estrangeiros que eram os únicos jogadores verdadeiramente profissionais. O resto eram todos jogadores que ou eram militares ou eram da guarda real. Raramente conseguia ter os jogadores todos para treinar. Sempre que havia viagens para jogar fora ou quando foi para vir para a Europa, o estágio foi na Áustria, nunca houve problemas, mas nos treinos havia sempre mais do que um que não podia ir ou porque estava de serviço, ou por isto ou aquilo. Treinar duas vezes por dia então, nem pensar. Como o profissionalismo ainda não estava instalado eu não me estava a identificar muito com aquilo. Apuramos a equipa para os quartos de final, ia haver um hiato em termos de competição, o Carlos Queiroz tinha uma competição internacional e o campeonato ia ficar parado durante um mês e eu cheguei a acordo. Eu tinha sido Campeão da Ásia um ano e meio antes, ia “queimar” um pouco a minha reputação estando ali a trabalhar num nível que não era profissional.

Sentia que estava a dar um passo atrás.
Era. Em termos de carreira ia dar um passo atrás. Entretanto uns 15 dias ou quase um mês depois de já cá estar, o Marítimo não estava bem, na altura era o Augusto Inácio o treinador e um dia recebo um telefonema do Carlos Pereira. Ele tinha visto uma entrevista minha na SIC, na altura queriam saber mais coisas sobre a história do Vale e Azevedo, porque havia aquela confusão com os ingleses, mas eu avisei que não falava sobre o Benfica. Ele que viu a entrevista e que já tinha ouvido falar bem de mim, sabia que eu tinha sido campeão da Ásia, pensou: “É esta pessoa”. Estive duas horas reunido com o Carlos Pereira e ao fim das duas horas ele diz-me: “Você é o primeiro com quem estou a falar há duas horas e ainda não me perguntou, nem me falou sobre o salário que quer ganhar, nem quais são as condições”. Nós falamos sobre a equipa, sobre os jogadores, sobre as condições de trabalho, como é que viajava. Chegamos rapidamente e facilmente a acordo. Ele até disse que tinha havido um treinador, que não me ia dizer o nome, que chegou, sentou-se e lhe disse: “Olhe, vou por aqui o meu salário escrito num papelinho, você põe o seu, a gente soma e divide por dois” (risos).

Nelo Vingada com a mulher, filhas e netos

Nelo Vingada com a mulher, filhas e netos

D.R.

Esteve quatro anos e meio no Marítimo. Desse tempo o que lhe ficou mais gravado na memória?
Há um momento que para mim é icónico que foi jogar a final da Taça no Estádio Nacional, com o FCP, do Fernando Santos. Perdemos 2-0, mas portamo-nos com muita dignidade. Marcamos primeiro até, mas o árbitro anulou o golo, que como se viu na televisão, foi limpo. Mas pessoalmente o momento mais importante, foi quando uns anos depois voltei à Madeira como treinador da Académica. Quando entrei dentro de campo, provavelmente estariam 5000/6000 pessoas todo o estádio aplaudiu em pé. Vieram entregar-me um arranjo de flores e o speaker fez um mini discurso sobre mim. Isso para mim vale mais do que ganhar imensos jogos mesmo com o Marítimo lá. Foi um momento altíssimo da minha carreira em que vi naquelas pessoas, provavelmente algumas delas até me terão criticado enquanto treinador do Marítimo, o reconhecimento pelos quatro anos que tinha feito no Marítimo e por aquilo que fui enquanto cidadão ao serviço do Marítimo e da Madeira.

Que jogadores é que o marcaram mais nesse período ou que ajudou a lançar?
Jogadores mais emblemáticos que ajudei a lançar foi o Pepe e do Danny, que chegaram à minha mão com 17 anos. O Danny jogou na primeira equipa com 17 anos, o primeiro jogo que fez foi contra o Sporting. Eu disse: "Não é nenhum teste, não é nenhuma experiência. Vais jogar hoje e os próximos três jogos, portanto joga com tranquilidade e diverte-te, como se estivesses a jogar nos juniores". O Pepe que fomos buscar, veio com 17 anos e atingiu uma expressão muito alta. Outra das coisas que também foi uma marca minha na Madeira foi que no terceiro ano de Marítimo nós jogamos muitas vezes com cinco, seis e algumas vezes com sete madeirenses e o Marítimo fez um campeonato bom, acabou em 6º.

Sai porquê?
Foram quatro anos e pouco, não se passou nada de especial mas houve um desgaste. Nós ganhamos 2-1 ao FCP, era o Mourinho o treinador. Na altura isso foi badalado de um maneira que parecia quase que o Marítimo tinha sido campeão. E já tínhamos ganho ao FCP noutras alturas até. Curiosamente nos jogos do Marítimo com o Benfica e com o FCP sempre fomos felizes. Com o Sporting não. Nunca consegui ganhar ao Sporting enquanto treinador do Marítimo e depois vim ganhar ao Sporting, em Alvalade, como treinador da Académica. Depois daquele jogo em que ganhamos ao FCP, jogamos em Coimbra e perdemos, a seguir jogamos com o Stª Clara em casa, empatamos 1-1. E no final do jogo houve ali uma onda de alguma contestação e desabafos. Eu morava ao lado do estádio e vinha a pé para casa e algumas pessoas tiveram comentários desagradáveis que, confesso, não me caíram bem. Falei com o Carlos Pereira e resolvi eu e ele, pormos fim a relação de quase quatro anos e meio. O Marítimo estava numa situação relativamente tranquila, dava tempo a quem viesse para preparar a época seguinte. Não quer dizer que se não houvesse aquela contestação eu não saía, mas não me caiu bem e sou um bocadinho assim às vezes por uma gota, se transbordar, já não volto atrás. Achei que era altura e saí. Tinha mais um ano e meio de contrato.

Não tinha nenhum contato feito?
Não. Saí em Março e estive duas vezes em Manchester com o Carlos Queiroz a vê-los treinar e jogar a conviver com eles. No ano seguinte fui para o Egito, para o Zamalek.

Não é nessa altura que também diz não ao Carlos Queiroz e ao Real Madrid?
Disse não por uma razão simples. Sai do Marítimo. No defeso tive algumas oportunidades. Vieram pessoas do Zamalek a Lisboa reunir comigo. E chegamos a um entendimento. Fiquei de viajar dois dias depois para formalizar o acordo e ser apresentado. No dia a seguir o Carlos Queiroz liga-me a dizer que ia ser o treinador do Real Madrid e queria que eu fosse. Eu disse-lhe "se me tens ligado um dia antes", eu iria com muito gosto, até porque se havia pessoas com as quais eu podia voltar a ser adjunto o Carlos Queiroz era o Nº1 sem dúvida. Mas disse-lhe que ia falar com as pessoas da Zamalek. Quando cheguei ao Cairo já sabia, não sei como, que o Real Madrid e o Carlos Queiroz queriam que eu me juntasse ao projeto deles. Embora eu não tivesse contrato assinado, ia lá para assinar o contrato e ser apresentado. Se fosse intelectualmente desonesto e não quisesse cumprir a minha palavra tinha dito que já não queria ir, até porque não havia qualquer vínculo formal. Mas o presidente queria mesmo que eu ficasse e estavam mais de 70 jornalistas na minha apresentação. E não fui para o Real Madrid só por isso.

Não ficou nenhuma mágoa da parte do Carlos Queiroz?
Não. Ainda há pouco tempo ele esteve na minha casa a tomar o pequeno almoço, quando veio cá ver o pai dele. Ele é como fosse meu irmão, falamos regularmente. Temos uma relação mais do que profissional. E foi quando o José Peseiro se juntou a ele.

José Mourinho e Nelo Vingada

José Mourinho e Nelo Vingada

D.R.

Inicia a sua aventura pelo Egipto. Que tal?
Pessoas fantásticas, simpaticíssimas, loucos pelo futebol, um entusiasmo transbordante, contagiante, pressionante. Um país de contrastes. Cairo é uma cidade que tem uma parte de luxo. Eu vivia com a minha mulher numa suite de luxo no hotel Meridien em frente às pirâmides. Como imagina não me faltava nada. Mas quando eu ia para treino, passava por sítios paupérrimos. Era no tempo do Hosni Mubarak e sem fazer apologia a ele, mas naquela altura havia estabilidade, havia segurança, havia desenvolvimento. Quando visitei o embaixador ele disse-me, vai estar numa cidade onde pode andar na rua às 4h da manhã, não vai ser assaltado nem ter problemas. A sua mulher pode andar sozinha a qualquer hora, é uma cidade segura. E tive oportunidade de ver isso. assisti a algumas obras de viadutos, pontes, aquilo crescia, víamos vida e felicidade, dentro da pobreza. Mas por aquilo que me apercebi havia muita contestação já, mas havia também o reconhecimento de que apesar de tudo aquilo que era essencial havia. E hoje não. Hoje está mais difícil a vida lá. Quando o Mubarak caiu, não terá resultado como até alguns amigos meus pensavam que ia resultar.

Sentem que a Primavera Árabe falhou?
Pois, falhou.

Deportivamente como lhe correu?
Correu bem, fomos campeões sem derrotas, ganhamos a Arabe Cup.

É nessa altura que começa a dar-se mais com o Manuel José?
Sim. Eu já o conhecia de cá. Era engraçado porque a eles fazia-lhes imensa confusão ver o treinador do Zamalek e do Al-Ahly juntos a jantar. Porque normalmente no dia de folga jantamos juntos, eu e a minha mulher ele e a mulher dele. Ele vivia no Marriott eu vivia no Meridian. Quando foi o jogo que ia decidir o título antecipadamente para nós, tínhamos combinado que quem ganhasse o jogo pagava o jantar. Como o Zamalek ganhou e foi campeão eu paguei o jantar e os empregados do restaurantes estavam admirados como é que o Manuel José perdeu o jogo e está aqui a jantar a comemorar. Eu tive de explicar-lhe que ele não estava a comemorar nada e que foi uma aposta. Para eles era estranho, porque aqueles dois clubes são inimigos, é pior que Benfica-Sporting. No Irão também vivi isso com o Persépolis e o Esteghlal, que também são rivais.

Como é que vai parar à seleção?
Vim do Zamalek, tive um ano fantástico, mas foram mais de 60 jogos, viajei imenso por África, vi coisas chocantes.

O que mais o chocou?
Pobreza. Na Mauritânia, Gâmbia, Costa do Marfim, na Etiópia. vi coisas que pensava até que não era possível já existirem. Vi muita pobreza. e viajei muito, foram muitos jogos e quis parar. Eles fizeram tudo para que eu continuasse mas não quis. Vim, estive um ano e meio na Académica e depois correu bem, os objetivos foram conseguidos, mantivemos a equipa na I Divisão e fui convidado para voltar ao Egito, porque queriam tentar a qualificação para os Jogos Olímpicos. Fomos eliminados no último jogo pela Costa do Marfim. Estivemos quase mas não fomos apurados, portanto acabei o contrato e vim embora. Segue-se o WAC de Casablanca, em Marrocos, mas só lá estive dois meses. Como eles nunca me pagaram nenhum mês, rescindi o contrato e fui para a Jordânia.

Gostou da Jordânia?
Foi dos países onde eu e a minha mulher gostamos mais de estar. Fui dez vezes a Petra. Fui lá com o Carlos Queiroz, com o Manuel José, com as minhas filhas. Adorei o povo, simpatiquíssimo, um país calmo, é um país muçulmano mais com uma forte influência americana. Os americanos ajudam muito os jordanos, por razões geopolíticas obviamente, porque eles são um tampão entre a Palestina e Israel. Estou convencido de que não existisse a Jordânia e o King Abdullah II aquela situação da Palestina e Israel seria dez vezes pior. Curiosamente estive numa recepção no palácio real, com Cavaco Silva. Tomei muitas vezes banho no Mar Morto, onde temos aquela experiência de estar em pé e conseguir flutuar. E o pôr do sol é fantástico.

E do ponto de vista do futebol?
Acho que foi dos trabalhos melhores que eu fiz. Porque a Jordânia era terceira divisão no plano asiático e hoje está no nível B mas muito próximo já do nível A. Apresentei um projeto de reestruturação e organização do futebol jovem, à semelhança do que se tinha feito em Portugal. Outra forma de olhar para as seleções. E acho que criei bases para que a Jordânia ficasse de facto com o um nível melhor. E hoje a Jordânia é uma seleção bem razoável que já se consegue qualificar para as fases finais com alguma regularidade. E tinha uma relação ótima com o presidente, foi talvez dos melhores presidentes que tive, o príncipe Ali, que é irmão do King Abdullah e que é uma pessoa fantástica. Pôs-me sempre completamente à vontade para pôr e dispor, nunca interferiu. Claro, também estamos a falar de um príncipe e de famílias que foram educadas em Inglaterra e estudaram na América.

Nelo Vingada (o 5º à esquerda) com equipa técnica, no Irão

Nelo Vingada (o 5º à esquerda) com equipa técnica, no Irão

D.R.

Porque é que vai para o Irão?
Eu fiz um trajeto na Jordânia, conseguimos levar pela primeira vez a Jordânia à última fase de qualificação. O meu contrato acabaria caso não conseguisse a qualificação. Entretanto ia começar a fase de qualificação para a Taça da Ásia. E havia dois jogos de seguida e pediram para eu ficar. Aceitei, dirigir a equipa já sem contrato. Entretanto surgiu-me a oportunidade de ir para o Persépolis, do Irão. Senti que na Jordânia desportivamente dificilmente conseguia ter melhor resultado do que tive até ali.

Que tal o Irão?
Pessoas simpaticíssimas, afáveis. Mesmo na rua nunca fui maltratado. Agora em termos organizativos está muito longe dos nossos padrões. O Irão foi o único país em que tive de ir para a FIFA para receber, foi o único sítio onde mais conflituosidade profissional houve. O Persepolis é o grande clube de lá mas sempre em incumprimento, sempre com os salários em atraso.

E depois?
Quando saí do Irão em 2009, tive um convite para dirigir o Al Ahly. Aceitei a proposta mas com a condição de levar duas pessoas comigo. Eles aceitaram tudo e sobre as duas pessoas disseram para lá ir. Fui para o Cairo, estive um dia inteiro com eles e eles só queriam que eu levasse uma pessoa. Ficamos ali presos por causa disso, porque eles queriam que eu só levasse um e eu queria levar dois. Disse que não aceitava. Portanto tive acordo com o Al Ahly mas nunca treinei o clube. Vim para Portugal, sem clube.

Como surge o V. Guimarães?
Estava quase a começar a época faltava muito pouco tempo para o Guimarães começar a treinar, não sei o que é que se passou entre o Cajuda e o Guimarães, sei que o Cajuda saiu e ligaram-me. a primeira reunião não foi conclusiva, mas à segunda reunião lá chegámos a acordo. Tenho que dizer que é uma cidade maravilhosa, o Guimarães é um clube fantástico, na altura já tinha umas condições de trabalho boas, tinha um público fantástico, mas também tinha uma faixa de adeptos extremamente exigentes e às vezes raiando até a falta de educação. Uma das coisas que me acusaram em Guimarães é que eu era educado demais.

Como assim?
Que devia falar mais, tratar mal os jogadores, chamar filho da puta, cabrão, que isso é que é a linguagem que os jogadores do Guimarães entendem. Eu disse-lhes que nesse aspecto contratar o treinador errado porque para me impor ou para me fazer respeitar não preciso de dizer palavrões. Eu também sei falar mal, também sei dizer asneiras, mas quando for preciso ou se for preciso. E nós fomos fazer um jogo à Madeira e aos 15m estávamos a levar 2-0 do Nacional, dois golos de penálti. Fiquei irritado e no fim tive um discurso muito forte. Não chamei nomes aos jogadores, mas foi um discurso violento até para aquilo que são os meus padrões de relação com os jogadores. E no fim disse ao presidente que para continuar tínhamos que pôr os pés à parede e havia ali alguns jogadores que comigo não jogavam mais e disse-lhe "se o Sr. apoia-me vou consigo até ao inferno, se não me apoia é melhor negociarmos". Não sei se era isso que eu queria, mas disse-me "Ah sabe que aqui em Guimarães e difícil porque a massa associativa..." Não tem nada a ver como clube nem com a maioria das pessoas mas não me estava a rever naquela forma de estar e cheguei a acordo para ir embora e, há coisas... Vim embora, sai daqui, meti-me no avião para ver a minha família no Dubai e depois fui à Malásia e recebi um convite para ir treinar o FC Seoul. Pronto. Voltei a Portugal meti-me no avião, fui para a Coreia, cheguei a acordo e fui campeão na Coreia.

Nelo Vingada esteve no FC Seoul da Coreia, em 2010

Nelo Vingada esteve no FC Seoul da Coreia, em 2010

D.R.

Já disse publicamente que adorou a Coreia. Porquê?
Foi a melhor experiência que tive. Se juntarmos tudo. Primeiro estava em Seul, as condições de trabalho eram ótimas, o clube era ótimo, a organização, o respeito, o profissionalismo, a pontualidade, a limpeza, a própria competição, o nível da equipa era bom, fomos campeões, ganhamos a Taça da Liga, batemos todos os recordes de pontos e golos que jamais o FC Seoul tinha conseguido. A média de espectadores foi de 38.000 durante ano, tivemos jogos com 50.000, 60.000 pessoas, o estádio tinha um ambiente fantástico, com música, divertimento para as crianças, era uma festa. Vemos famílias inteiras, era um ambiente altamente saudável. Nunca tive a mínima chatice. A minha família esteve lá e toda a gente gostou de lá estar.

Não continuou porquê?
Porque eu aceitei tudo o que o FC Seoul me ofereceu, não discuti nada. E fi-lo porque queria investir naquele mercado e queria que eles sentissem que tinham escolhido o treinador certo. Disse-lhes isto e que no ano seguinte, com o sucesso que eu ia ter eles iam reconhecer. No ano seguinte, acho que não estavam a ter reconhecimento por aquilo que tinha feito.

Não houve nada de que não gostasse na Coreia?
Perfeito não é. Em alguns aspectos vi que ainda havia dentro da própria estrutura do clube, não comigo, alguns planos de disciplina exacerbada, coisas que já não têm a ver com os nossos padrões. Nos quais eu não me revia, embora comigo não tenha havido praticamente choques nenhuns.

E vai para China.
Eu não renovei o contrato. Assim que acabou o campeonato na Coreia tive um convite para ir treinar o Beijing Guoan mas achei que desportivamente seria um passo atrás, embora financeiramente fosse muito melhor do que na Coreia.

Porque era um passo atrás?
Porque achava o campeonato chinês... Eu próprio voltei ao Irão em 2014 e da primeira vez tinha dito que jamais voltaria ao Irão. Sabe que às vezes dizemos coisas e depois pela boca morre o peixe. Mas naquela altura achava que um treinador que é campeão da Coreia, das duas uma, ou continua na Coreia ou vai para o Japão ou vai ganhar milhões para um sítio qualquer, até podia ser o Afeganistão ou a China. Fiquei sem trabalhar. Mas seis meses depois fui para a China, para o Dalian Shide.

Porquê, foi o contrato da sua vida?
Foi um contrato muito bom foi.

Foi onde ganhou mais dinheiro?
Sim. Infelizmente o presidente foi preso e apareceu morto na prisão e o clube desapareceu. Faliu. O clube de repente deixou de pagar. Quatro meses de salário que nunca recebemos. Nem sequer pude ir para a FIFA porque o clube acabou. Os padrões de vida, de treino, de exigência, de responsabilidade e profissionalismo dos chineses não tem nada a ver com os coreanos.

Em 2013 esteve com Carlos Queiroz no Irão...
...até escreveram que eu tinha voltado a ser adjunto dele. Mas não. Fui ter com ele e estive a ver o jogo na bancada com ele porque ele tinha sido suspenso. Até servi de ligação entre ele e os colegas, porque ele não podia. Mas foi uma coisa entre nós os dois. Foi uma coisa pontual. No ano seguinte recebi um convite para ir treinar a seleção olímpica. Eu não queria voltar. Estive lá oito meses e chegou uma altura em que tinha quatro meses de salário em atraso. Vim de férias a Portugal e disse que só voltava se me pagassem. Como não pagaram, não fui.

Nelo Vingada festeja a conquista do campeonato na Coreia, em 2010

Nelo Vingada festeja a conquista do campeonato na Coreia, em 2010

D.R.

Voltou para Portugal e assume a liderança da SAD do Atlético.
Eu joguei no Atlético. O presidente do Atlético, senhor Almeida Antunes, foi diretor no meu tempo de jogador. Houve um chinês que comprou o Atlético e que eu não conheço. Mas conheci cá, no Atlético, um dos chineses que estava cá, o Bruce, a representar o outro chinês (Mao Xiaodong) que comprou o clube. E houve uma altura que para tentar receber o contrato do Dalian, através da federação, ele conseguiu proporcionar uma reunião, mas que até nem deu em nada. Entretanto o presidente Almeida Antunes perguntou-me o que é que eu achava da compra dos chineses. Disse que não achava nada, que sabia que os chineses estavam a investir em muita coisa. E o Atlético fez o negócio que fez, não sei como é que fez nem quando fez, não tenho rigorosamente nada a ver com isso. Entretanto, um dia ele chama-me pede a minha ajuda porque os chineses não estavam a cumprir. Não posso fazer nada. Entretanto o presidente da SAD era um jogador, o Moreira. Mandaram o treinador embora e esse tal chinês, o Bruce, perguntou-me se eu tinha alguém que pudesse ir treinar o Atlético. Indiquei o treinador do Oriental, António, mas eles optaram por contratar o Neca. O presidente da SAD era o Moreira, porque o Moreira tinha jogado na China e conhecia os chineses. O Neca, que é meu amigo, quis que o Moreira voltasse como jogador, porque era novo tinha 32 anos, mas o Moreira para jogar não podia ser ao mesmo tempo presidente da SAD. Então o presidente do Atlético e o chinês perguntaram se não podia ser eu presidente da SAD. Disse que sim, mas avisei: "Sou treinador, assim que me aparecer uma oportunidade, não posso continuar aqui porque a minha vida profissional é ser treinador. Mas há uma coisa, eu não vou receber um tostão como presidente da SAD. Dão o dinheiro ao clube ou ao futebol jovem, não quero receber nada, porque não vou ficar nem mais rico nem mais pobre por causa disso. Vou apenas ajudar". Na altura exigi apenas que pagassem os impostos e a segurança social porque é obrigatório. Ficou tudo resolvido. Estive lá três meses. E estive lá porque joguei no Atlético. Se eu não tivesse jogado no Atlético pode ter a certeza que eu não tinha lá estado. Estou completamente tranquilo porque não tirei qualquer benefício de ter estado naquela posição, antes pelo contrário, só prejuízo. Mesmo a ajuda que o chinês tinha dado, tendo arranjado uma reunião em Pequim com a federação para mim e a equipa técnica, infelizmente não deu em nada. Também não recebi o dinheiro.

Nelo Vingada festeja com jogadores do FC Seoul o título de campeão

Nelo Vingada festeja com jogadores do FC Seoul o título de campeão

D.R.

Qual foi a sua reação, quando o seu nome aparece associado a investigação dos resultados viciados?
Aquilo que li foi que o chinês que tinha comprado o Atlético, tinha comprado um clube não sei onde, na Irlanda parece-me, e que esses resultados viciados supostamente teriam sido lá. Aqui no Atlético houve uma altura em que se levantou essa polémica, como se levantou do Feirense o ano passado, mas julgo que esses resultados do Atlético até foram antes ou depois de eu ter lá estado. Não foi durante o meu tempo, porque só estive lá três meses durante o campeonato da II Divisão. Acho até que de algum modo resolvi muita da conflituosidade que existia entre a SAD e o clube. Infelizmente aquilo deu para o torto mas a responsabilidade é de quem fez o negócio com o Atlético e com a SAD. Entretanto saio para o Irão, fui treinar a seleção, mas não me pagavam e em finais de janeiro de 2016 surge a possibilidade de trabalhar no Marítimo.

E não correu muito bem.
Atenção, eu fui para o Marítimo porque as coisas não estavam a correr bem.

Houve um desentendimento de jogadores num treino que veio a público.
Sim houve. Mas eu recordo-me que há uns anos, jogadores do Leeds andaram à pancada em pleno jogo. Se perguntar, foi bonito? Não foi. Mas são coisas que acontecem no futebol. O que houve é que um jogador brasileiro e um madeirense envolveram-se à pancada de uma maneira bastante violenta. Há uma entrada má, há uma reação forte do jogador que sofre a entrada e a partir daí há um descontrole dos jogadores. Foi um incidente. E que aconteceu dois dias depois de ter pago um almoço aos jogadores e às suas famílias, porque eu fazia anos. São coisas que acontecem no futebol.

Mas essa não foi sequer a polémica maior. Houve outra relacionada com o Benfica.
Toda aquela controvérsia que antecedeu o jogo com o Benfica. A história da mala. De virem dizer que o jogo da mala mudou-se agora para a Madeira. A maneira como o senhor Pedro Guerra se referiu à forma como eu estava a gerir a minha equipa afirmando que parecia que eu estava a serviço do Sporting. A própria maneira como fui tratado por alguns adeptos do Benfica que, influenciados por estas coisas que estavam a aparecer, também achavam que eu estava a fazer favores ao Sporting, quando os únicos favores que eu faço são a mim próprio e à minha instituição que era o Marítimo. E fiz tudo, obviamente o melhor que sabia e podia, para tentar ganhar o jogo.

O que é que mais o magoou?
Eu posso tomar más decisões, posso escolher jogadores de uma forma errada, posso não encontrar as melhores soluções, agora porem em causa a minha dignidade e honestidade, isso para mim... No dia em que se perde isso, perde-se tudo. E não tinham razão de ser. Mas como quem não deve não teme, segui o meu caminho até ao fim.

Porque é que geriu os jogadores daquela maneira?
Nós tínhamos vários jogadores com cartões amarelos, seis com quatro amarelos. Desses seis, dois nunca jogaram comigo. Se pouco jogaram com o Ivo Vieira e comigo também nunca jogaram, não era crível que eu estivesse a poupar dois jogadores só para ir jogar contra o Benfica. Dos quatro que sobravam, um estava lesionado, o Edgar Costa. Sobravam três. Um jogou, o Patrick. E os outros dois, o João Diogo e o Alex Soares, não os pus a jogar. Fui chamado ao Marítimo com o principal objetivo de manter o Marítimo na zona de estabilidade para não correr risco de descer de divisão, e não descemos. O Ivo Vieira tinha feito um trabalho fantástico em termos de Taça da Liga, foi ganhar ao FCP, a equipa estava com dois pés na Taça da Liga. Os objetivos mínimos foram cumpridos, a equipa assegurou a permanência na Superliga, a três ou quatro jornadas do fim e a equipa qualificou-se para a final da Taça da Liga. Entendi que esses dois jogadores, até porque eles também queriam muito jogar contra o Benfica, o que é normal, um jogo com o Benfica tem uma expressão grande, não jogavam.

Nelo Vingada em Xian, com o exército de terracota do imperador Qin atrás

Nelo Vingada em Xian, com o exército de terracota do imperador Qin atrás

D.R.

Para si, como treinador, ganhar ao Benfica tem mais expressão do que levar o Marítimo à final da taça?
Se calhar tem. Portanto eu próprio fiz descansar os dois jogadores. Como bem se recordam nessa semana o Benfica jogou com o SC Braga para a Taça da Liga e também fez poupar seis ou sete jogadores, inclusivamente o André Almeida levou um cartão amarelo, só com o cartão amarelo não tinha jogado na Madeira, mas ao provocar o segundo amarelo e sendo expulso já pode jogar... Há estas incongruências. Com amarelo não tinha podido jogar, porque estava com não sei quantos amarelos, mas como foi expulso e como era Taça da Liga, era outra competição, já podia jogar a seguir na Madeira. O próprio André Almeida provocou a expulsão para poder jogar. O treinador do Benfica geriu a equipa como bem quis e entendeu, como eu. Eu fiz descansar apenas dois jogadores. Nesse dia do jogo com o Estoril, eu fui para o avião, no regresso fui muito maltratado por dois ou três passageiros que eram do Benfica. Durante a semana fui maltratado, tive de desligar o telefone. Veio um artigo no Mais Futebol, que foi escrito de uma maneira insultuosa, e ao qual tive de responder porque percebi que tinha de pôr um travão, porque não me revejo neste tipo de coisas. E não vou dizer de uma maneira radical e definitiva, mas quase que pôs um travão a qualquer possibilidade de voltar a trabalhar em Portugal. Não faz parte dos meus planos.

Saiu magoado.
Muito magoado. Especialmente pela maneira como puseram em causa... Agora, se me perguntar, que jogos de bastidores houve, deve ter havido muitos como há em toda a parte. Mas, honestamente, não vi nada de estranho nesse jogo. Sinceramente. Porque se tivesse havido qualquer coisa de estranho seguramente que o Sporting era a primeira instituição a levantar... Foi um jogo normal. Enquanto foram 11 contra 11 jogamos otimamente. Podíamos ter marcado primeiro, não marcamos. A partir do momento em que o Renato Sanches foi expulso, no primeiro minuto da segunda parte sofremos um golo e sofremos outro aos 90m. Não vi nada, honestamente. E se fossemos por esse caminho então o guarda redes do Liverpool, como vimos na final da Champions League, ou como vimos recentemente o guarda redes da seleção da Inglaterra, em Espanha, quase que sofreu um golo... São erros que acontecem no futebol. Depois disso passei pela Índia.

Como foi?
Uma experiência interessantíssima. Vivi o lado bom da Índia, hotel de cinco estrelas, viagens, condições ótimas de trabalho.

Mas viu o lado mau também?
Vi. Vi porque quando vou para qualquer país tento sempre visitar. Depois da Índia, como é um campeonato muito curto, tive um convite para ir para a Malásia e vivi num sítio fantástico, mas futebolisticamente o nível mais baixo que eu treinei. E também achei um ano depois que estava um bocadinho a remar contra a maré. Entre estar a remar contra a maré, pardo, preferi vir. E agora estou parado.

Nelo Vingada com os três netos

Nelo Vingada com os três netos

D.R.

Está com 65 anos.
Mas ainda não me posso reformar. Ainda me falta um ano e tal (risos).

Mas pensa nisso, na reforma?
Eu mesmo não estando a treinar eu faço outras coisas, que durante muito tempo não pude fazer.

Por exemplo?
Em termos familiares. Nos últimos três anos nunca fiz ferias com a família, fiz este ano. Este ano é que estivemos cinco semanas juntos na República Dominicana e no Algarve. Ao tempo que não estava assim de férias com a família, embora por todos os sítios por onde tenho andado eles tenham estado lá também.

Mas o professor Nelo Vingada continua no mercado, ainda quer treinar?
Sim, estou no mercado. Tenho contactos e algumas possibilidades que tenho em aberto.

Se pudesse escolher e dependesse só de si, para onde gostava de ir treinar?
Olhando ao que foi a minha experiência, eu nunca trabalhei na Europa a não ser em Portugal. Já vi treinadores chegar à Premier League ou ao Championship ou a França ou aqui ou ali e, modéstia à parte, com aquilo que fiz, com os resultados que já tive acho que tenho mérito e currículo também para poder chegar. Mas se eu pudesse escolher não escolhia a Europa mas os EUA, a MLS, ou Coreia outra vez ou o Japão.

Porque os EUA?
Porque estive lá várias vezes, a última vez em 2016 e consegui estar dentro da Liga. Quando o Carlos Queiroz esteve em Nova Iorque no Metrostars, eu estive lá nos Jogos Olímpicos com Portugal e vi como é o ambiente. Vive-se um ambiente saudável em que a vitória e derrota são relativizadas à importância que têm. São as coisas mais importantes naquele dia, mas não são as coisas mais importantes da vida das pessoas. E o Japão e a Coreia porque são culturas totalmente diferentes da nossa mas nas quais eu me revejo, em termos da educação, da disciplina, da pontualidade, da limpeza, do nível profissional.

Falou no currículo, quais considera os pontos altos do seu currículo?
Em termos mediáticos, em 1996 fui campeão da Ásia com a seleção A da Arábia Saudita. Sou o primeiro treinador português campeão continental. Hoje Fernando Santos também foi, em 2016, e ainda bem para Portugal. Fui campeão pelo Zamalek sem derrotas. Na Coreia, fui campeão pela primeira vez com o FC Seoul. Cada coisa teve a sua importância. Mas talvez os momentos mais icónicos, mais importantes nem tenham a ver com resultados. Uma das maiores vitórias para mim foi no dia em que entrei no estádio dos Barreiros como treinador da Académica e fui aplaudido por todo o estádio. E também o momento em que eu e a equipa técnica e jogadores conseguimos qualificar Portugal para os JO, senti que escrevemos uma página diferente e única na história do futebol português até ali.

Qual foi a derrota que mais lhe custou?
A final da Taça da Liga, 6-2, porque o Marítimo jogou 20m soberbos. Se o guarda-redes do Benfica não se chamasse Ederson provavelmente nós teríamos marcado um, dois golos primeiros e é daqueles jogos que levamos 6-2 e o jogo podia ter sido 6-4, 6-5 ou 3-2. Foi uma derrota imerecida, até porque eu tinha decidido não trabalhar mais em Portugal. Doeu-me muito, pelo volume e pelo peso dela.

Nelo Vingada também passou pela Índia

Nelo Vingada também passou pela Índia

D.R.

Qual foi o jogador que mais gozo lhe deu treinar?
O Dani. Eu não treinava só jogador, eu tinha uma relação com ele muito cúmplice. Muitas vezes eu era pai dele, era irmão dele, era amigo, confidente. Deixou de jogar muito novo, o que é uma pena.

Depois de deixar de treinar vai reformar-se mesmo ou vai fazer outra atividade?
Não sou muito de estar parado. Todos os dias faço o meu jogging, mantenho uma atividade física regular, enquanto puder continuar a nadar, nado. E viajar. Eu já estive em 90 países, espero ainda poder acrescentar meia dúzia deles, mais em turismo.

Há algum país que lhe encha as medidas?
A Coreia. O lado profissional marcou-me muito. Em termos de beleza, gosto muito de Roma. Praga é uma cidade encantadora. Um dos sítios onde quero ir é a Rússia, porque já fui a tanto sítio e nunca lá fui.

Qual é a sua maior frustração?
Sinto-me grato e reconhecido por aquilo que o futebol me deu mas ao mesmo tempo também acho que com aquilo que eu fiz, noutro contexto, podia ter chegado a outro patamar.

Sente falta de reconhecimento?
Um bocadinho. Mas outras pessoas sentiram muito mais do que eu. Mas tenho uma coisa que se calhar vale mais do que o reconhecimento desportivo que é o reconhecimento pessoal e afetivo.

Tem algum inimigo do futebol?
Não. Quando era treinador do Marítimo houve uma altura em que houve um desentendimento não meu, com o presidente do Nacional, a seguir a um jogo Nacional-Marítimo. O presidente do Nacional Rui Alves referiu-se a mim e ao Carlos Pereira de uma maneira muito pouco educada, aquilo foi para tribunal. Eu apenas exige um pedido de desculpa público, que foi feito.

Onde investiu o dinheiro que foi ganhando?
Na qualidade de vida e na educação das minhas filhas e dos meus netos agora. E algum património imobiliário.