Tribuna Expresso

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A casa às costas

“Faziam rodinhas à volta do Mantorras quando ele dançava, mas numa noite ele diz-me assim: ‘Coimbra, o meu juju não aguenta’. Era o joelho”

Filho de um tenente-coronel e de uma professora de matemática, João Coimbra era apelidado de "Doutor" por frequentar o curso superior de medicina, do qual ainda só completou três anos, mas foi e é como futebolista que João Coimbra sempre se quis afirmar. Não vingou como sonhava no clube do coração, o Benfica, nem na I Liga portuguesa e acabou por ir para o estrangeiro à procura de novas experiências e melhores condições financeiras para a família. Aos 32 anos, já se obriga a pensar no final da carreira, que gostava de terminar onde começou, o Amora, mas confessa que ainda não sabe o que vai fazer a seguir, só que terá de ser ligado ao futebol

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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O João é provavelmente o segundo português mas conhecido de Santa Comba Dão…
(Risos)... Eu estou registado em Santa Comba Dão, mas nasci em Viseu. A minha mãe fez questão porque os meus pais são ambos do Vimieiro, acho que ainda são primos em quinto grau ou coisa assim (risos). Viviam a 500 metros um do outro. Toda a minha família é de lá, de Santa Comba Dão, por isso fizeram questão que eu nascesse lá. Por acaso foi em Viseu porque temos uma familiar que era ginecologista obstetra. Foi ela que fez o parto da minha irmã, a Joana, que é mais velha três anos, e o meu. Mas os meus pais já estavam a viver em Lisboa, na Amadora, quando eu nasci.

O que faziam os seus pais?
O meu pai é oficial do exército, reformou-se este ano como tenente-coronel. Na altura em que nasci devia ser sargento ou assim. A minha mãe é professora de matemática.

A infância foi passada onde?
Os meus pais viviam na Amadora. mas uns meses depois de eu nascer foram viver para a margem sul, para a Cruz de Pau, na Amora. A minha infância foi toda na margem sul e o verão em Santa Comba Dão.

Quando se fala de infância qual é a primeira memória?
É fácil, a bola. Andava sempre com uma. A rua onde morava era fechada e jogava lá com os amigos. Fazíamos balizas com paus e pregos. Essa é a imagem que me marca mais, a alegria de jogar na rua.

João Coimbra em criança

João Coimbra em criança

D.R.

Recorda-se quando recebeu a primeira bola?
Não sei se foi a primeira, mas lembro-me de um natal em que me ofereceram um kit que tinha uma bola, duas luvas e a bomba para encher a bola. Devia ter uns seis, sete anos. Aliás, primeiro até comecei a ir à baliza porque o meu pai era guarda-redes. Ele ainda jogou, não a alto nível, lá por Santa Comba Dão. Recordo que gostava muito de ser guarda-redes quando me deram essa prenda. Mas felizmente não fui por esse caminho.

Por que diz felizmente?
Pois, se calhar até podia ter sido melhor como guarda redes (risos). Felizmente porque eu sempre fui benfiquista, o meu pai é um grande benfiquista, e a verdade é que consegui o sonho que tinha de criança que era jogar no Benfica.

Antes do Benfica, há o Amora. Como lá foi parar?
Era o clube mais conhecido da zona e o mais perto de casa e eu quando fazia anos dizia sempre. “Oh mãe eu não quero prenda nenhuma, a única coisa que quero é que me metam a jogar no Amora”. A minha mãe nunca gostou muito da ideia. Os meus amigos iam todos bater à porta: "Deixe-o lá ir, ele até tem jeito", mas nada. Até que um dia ela e o meu pai deixaram-me fazer um treino no Amora e logo no primeiro dia fiquei. Lembro-me que tive de ir tirar o B.I. para poder ser inscrito. Tinha nove anos.

O Benfica surge logo de seguida. Como?
Eu entrei a meio da época no Amora. O meu pai foi ver o meu primeiro jogo, virou-se para a minha mãe e disse-lhe: "O puto até tem jeito". Desde aí a minha mãe que não gostava de futebol passou a ser a minha melhor e maior adepta. Não perdia um jogo. Tive alguma sorte porque o Benfica tinha um acordo com o Amora e no fim dessa época fomos cinco miúdos fazer treinos de captações ao Benfica. E dos cinco ficámos três.

Eram os seu pais que o levavam aos treinos no Benfica?
Sim. Também tenho muito a agradecer a eles. O meu pai nessa altura trabalhava em Lisboa. Todos os dias de manhã ia para Lisboa, voltava para vir buscar-me e levar novamente para Lisboa para o treino. E lá vínhamos outra vez à noite, depois do treino, para a margem sul. Isto três, quatro vezes por semana.

Eles alguma vez colocaram a condição de não parar de estudar?
Nunca foi bem imposto, mas davam a entender que caso as notas não fossem o esperado o castigo podia passar por deixar de jogar futebol. Mas sempre fui bom aluno, apesar de ser irrequieto e falador nas aulas, por isso não havia problema.

João (à direita) no Amora com o amigo Kiko (Rodrigo Tomasini).

João (à direita) no Amora com o amigo Kiko (Rodrigo Tomasini).

D.R.

A sua formação foi toda feita no Benfica. Quem são os maiores amigos desses anos?
O Tiago Gomes, que está no Feirense, o João Pereira, que está na Turquia. Tenho vários amigos que ficaram, uns que também seguiram a carreira, outros nem tanto, como o caso do Luís Zambujo, Manuel Curto. Felizmente criamos um bom grupo, e é o melhor que se pode retirar da vida, não só do futebol, os amigos que criamos desde a infância. E não foram só do Benfica, também do FCP e do Sporting, como o Ivanildo, o Paulo Machado, o Vieirinha, amigos que ficaram e com quem ainda hoje falo.

Quando é chamado pela primeira vez a uma seleção?
No Benfica comecei logo a ser chamado às seleções de Lisboa. E era capitão. Entretanto houve um Torneio Lopes da Silva, com todas as equipas do país, que acabámos por ganhar e na sequência disso fui chamado aos sub 15, foi a primeira chamada às seleções.

Também criou uma amizade especial com o Bruno Baião…
...Sim, sim, há bocado quando falámos de amizades foi um dos nomes que me veio logo à cabeça.

Estava presente quando ele teve o ataque cardíaco?
Não, eu estava lesionado e não estava no treino. Mas foi um momento muito delicado, um dos momentos mais negativos da minha carreira e da minha vida.

João Coimbra (o segundo jogador em pé à esquerda) com a sua equipa do Amora

João Coimbra (o segundo jogador em pé à esquerda) com a sua equipa do Amora

D.R.

O João também passou por uma situação complicada, sofreu um traumatismo crânio encefálico com uma paragem cardíaca e foi hospitalizado em Espanha.
É verdade.

O que é que aconteceu em concreto?
Não me lembro de nada (risos) e nem me deixaram ver as imagens depois. O que sei é que estávamos num jogo de apuramento para o Europeu de sub-19, a jogar com a França e durante o jogo estava pegado com o Diaby, que jogou no Arsenal. No dia a seguir doía-me o abdominal de um lado porque acho que ele me tinha dado um soco, mas o árbitro não viu e na jogada eu caio e ele, ao tentar passar por cima de mim, dá-me com o joelho na nuca. Quem viu as imagens disse que foi sem intenção nenhuma. Mas eu só me lembro de acordar no hospital e de o médico me dizer: “João estás em Espanha, estás na seleção. Não te preocupes. Aconteceu isto, isto e isto... e já é a décima vez que te estou a dizer isto”. Ou seja ele dizia-me eu voltava a adormecer e quando acordava ele contava outra vez.

Não se lembra de nada mesmo?
Nada. Eu estava no quarto do hotel com o Ivanildo, estávamos lá há uns três ou quatro dias, e quando cheguei do hospital nem do quarto do hotel me lembrava. E achava estranho o Ivanildo quase não falar comigo. Mais tarde ele acabou por me dizer “Epá, tu não tens noção da forma como eu te vi ali no campo”. Sei que ao cair, os olhos começaram a revirar e parece que foi o Paulo Machado que me pôs logo de lado, colocou as mãos na boca para a língua não enrolar. Estive entubado e tudo. O Ivanildo disse que me tinha visto naquele estado no campo e ao ver-me ali estava muito aliviado mas nem sabia o que devia dizer.

João Coimbra (em cima, ao centro) já no Benfica

João Coimbra (em cima, ao centro) já no Benfica

D.R.

Voltemos ao Benfica. Durante a formação no Benfica o que mais o marcou?
Sem dúvida nenhuma o ter sido campeão nacional de juniores e o falecimento do Bruno Baião. Foram o melhor e o pior. Claro que depois há toda a mística que me foi transmitida por colegas, treinadores, o que aprendi com pessoas que me marcaram para o resto da vida.

Quem foram essas pessoas que o marcaram?
Felizmente convivi com antigos jogadores e isso ajudou-me bastante: os irmãos Bastos Lopes, o mister Chalana e muitos mais. Não quero evidenciar uns mais do que outros porque aprendi com todos. Mas ressalvo se calhar os antigos jogadores do Benfica que passavam histórias de vida a nós, miúdos.

Estava há pouco a dizer que tinha sido capitão na seleção de Lisboa. Foi algo que sempre ambicionou ou é um líder por natureza?
Já era capitão no Benfica. Se calhar porque quando era miúdo ouvia os conselhos e seguia o que me diziam, não era muito rebelde, seguia as regras. E se calhar também por aquilo que transmitia dentro do campo, isso também teve importância. A conjugação desses dois fatores.

Não era de pregar partidas?
Não.

Mas foi alvo de algumas.
Sim. (risos)

Qual foi a partida que achou mais divertida?
Sinceramente não sei. Na equipa principal pregaram-me algumas. Já contei a história do Petit que cortou uns boxers meus de marca.

Houve alguma que o tenha deixado verdadeiramente chateado?
Sempre fui de aceitar o que me faziam. Quando integrei o plantel sénior não era tão solto como são os miúdos hoje em dia. Sabia estar no meu canto, fizessem o que me fizessem aceitava porque era miúdo. Mas não ficava chateado. Até porque com figuras tão importantes, não tinha muito moral para isso.

João Coimbra com as avós

João Coimbra com as avós

D.R.

Do plantel principal com quem é que criou maior empatia?
Ainda hoje estive a falar com o Ricardo Rocha, noutro dia falei com o Nuno Gomes e com o Simão, são pessoas que ficaram. E eu só estive no plantel principal ano e meio. Não foi muito tempo e era miúdo, estava a começar. Fiquei muito amigo do Geovanni, foi uma pessoa muito importante. Lembro-me de ter feito a pré época na Suíça e num dia que tivemos folga, o Geovanni virou-se para mim e disse: “Miúdo você vem comigo, vamos dar uma volta”. Fomos passear, ele entrou numa ourivesaria para comprar um anel para a esposa e virou-se para mim: “Escolhe aí um relógio”. “Um relógio para quê?!”, disse-lhe eu. “Para te oferecer”. “Estás a brincar? Agora vais-me oferecer um relógio?!”. “Escolhe”. Obrigou-me a escolher um relógio e ofereceu-me. Um relógio que para mim era caro, uns 300, 400 euros, mas não saímos da loja enquanto eu não escolhi um relógio.

Ainda o tem?
Tenho, é um Tissot. Ele disse que quando chegou a profissional um jogador tinha-lhe oferecido um relógio e que isso o tinha marcado, por isso ele queria fazer o mesmo. Ainda hoje falo com ele. Noutro dia ele pediu-me o número do Nuno Gomes e eu enviei uma mensagem ao Nuno a perguntar se podia e o Nuno: “Claro ele é dos nossos”. Só ele ter dito “ele é dos nossos”, só isso ainda hoje faz-me sentir bem. Sentir que para além do futebol criei uma amizade com pessoas que eram os meus ídolos de criança e que quando cheguei junto deles trataram-me como igual... Isso marca. Lembrei-me agora dos meus tempos de miúdo quando era apanha-bolas.

Apanha-bolas?
Sim. O meu pai ia ver os jogos e quando eles perguntavam quem é que queria ser apanha-bolas, eu aproveitava. Adorava. No fim do jogo lá íamos a correr para ver se alguém dava alguma coisa. Uma vez pedi a camisola ao Michael Thomas que tinha acabado de chegar ao Benfica. Quando ele me deu a camisola, fiquei todo contente. Houve outra vez em que o João Pereira também foi e o Nuno Gomes deu-lhe os calções. É engraçado porque depois acabaram por jogar juntos.

João Coimbra quando chegou ao Benfica

João Coimbra quando chegou ao Benfica

D.R.

Que outros ídolos tinha?
Por ser do Benfica, o Rui Costa, apesar de eu jogar mais a 6. A minha formação até aos juvenis, faço-a a 6. E adorava também o Redondo e o Paulo Sousa. Mas quando o Paulo Sousa foi para o Sporting, aí deixei de gostar dele (risos).

Ainda treinou e jogou com o Rui Costa. Como ele era?
Em termos de treino não tinha um feitio fácil (risos). Era da velha guarda. Eu tinha que respeitar. Lembro-me de uma história com ele. Num treino, o Kikín Fonseca que ainda lá estava, faz-me uma entrada por trás e eu virei-me para ele “Kikín, calma!”. O Rui vira-se para mim: “Está mas é calado”. Eu, puto, calei-me (risos). No fim do treino o Rui veio falar comigo: “O senhor João tem que aprender a estar calado porque quando dás também não gostas de ouvir, por isso aprende a estar calado” (risos). Na altura acho que estava um pouco chateado e respondi um bocadinho mal. Arrependi-me e depois as coisas evoluíram de forma normal. A partir de um certo momento ele começou a apoiar-me e a ajudar-me em tudo. Muitas vezes, quando nos sentávamos no banco a ver o jogo, ele vinha para junto de mim explicar o que devia ou não fazer. A partir daí se calhar ganhei a confiança dele. Hoje em dia as coisas são muito diferentes. Ainda me lembro do Moutinho dizer que quando chegou aos seniores do Sporting tratava o Pedro Barbosa por senhor.

Também tem uma história com o Simão Sabrosa.
(Risos). Toda a gente chamava-o de baixinho e eu resolvi fazer o mesmo, até que um dia ele respondeu: “Baixinho é o teu ordenado”. Foi na minha época com o Fernando Santos. Achava que tinha moral e afinal… (risos).

João (à esquerda) com Miccoli durante um jogo na Luz

João (à esquerda) com Miccoli durante um jogo na Luz

D.R.

Lembra-se da sua estreia na equipa principal?
Lembro, foi demais. Entrei a cinco minutos do fim de um jogo com o V. Setúbal e lembro-me que quando ia tocar pela primeira vez na bola o árbitro apitou para acabar. Quando acabou o jogo a bola estava nas minhas mãos (risos).

Estava muito nervoso?
Estava, senti algum formigueiro e o estádio da Luz estava bem composto.

Recorda as palavras de alguém?
Mais ou menos as palavras do mister Koeman, sobre o que tinha de fazer, porque o jogo ainda não estava decidido, estava 1-0. E recordo que a primeira vez que entrei foi para sair um grande jogador, o Miccoli, que tinha uma qualidade enorme. E na primeira vez que joguei a titular saí para entrar o Rui Costa. Já posso dizer que saí para entrar o Rui Costa (risos). Só não posso é dizer que saí aos 30 minutos e já estávamos a perder 2-0 (risos).

Sei que com o Miccoli teve uma história engraçada com a mousse de chocolate. Quer contar?
O Miccoli era muito engraçado. Uma vez no treino veio ter comigo: “Olha João vamos fazer um jogo. Se meter a bola na barra são 3 pontos. Se meter na barra, a bola subir e eu for lá de cabeça e meter golo, vale 5”. Eu não percebia, e ele: “Espera, eu explico”. E pega na bola, mete a bola na barra, a bola sobe e ele vai lá fazer golo de cabeça (risos). Disse-lhe logo: “Eu não quero jogar contigo” (risos).

E a história da mousse?
Foi numa fase em que ele teve muitas lesões musculares. Ele tem tendência para estar mais gordinho, então o fisioterapeuta colocou-o em dieta para ver se a nível muscular as coisas corriam melhor. E ao almoço ele ficava de costas para a mesa dos técnicos, eu sentava-me à frente dele e ele pedia-me para ficar de vigia enquanto comia uma mousse de chocolate às escondidas (risos). E com o Mantorras tinha de ir buscar a salada para todos.

Conte lá essa.
O Mantorras temperava, cortava e temperava a salada, mas eu é que tinha de levantar-me e ir buscar. Mas, lá está, eu era mais novo, tinha que fazer (risos).

João Coimbra troca algumas palavras com o treinador Koeman

João Coimbra troca algumas palavras com o treinador Koeman

D.R.

O Mantorras era divertido?
Era muito engraçado. Uma das primeiras imagens que tenho dele é ele a chegar aos balneários, Angola ia ao Mundial, e todo contente só dizia: “Agora chego a Angola e sou como o Beckham em Inglaterra. É só acenar para as pessoas” (risos). Isto com a pronúncia dele, era demais (risos). Uma vez, depois de uma vitória, eu, o Nelson e o Mantorras fomos dar uma volta. Fomos a uma discoteca africana, na margem sul, que ficava situada por baixo do antigo Barbas, na Costa da Caparica. Estávamos lá a divertirmo-nos, a dançar e às tantas fizeram uma rodinha à volta do Pedro Mantorras, porque ele era muito engraçado a dançar. Só que a certa altura ele pára, o resto do pessoal continua dançar; vem ter comigo e diz-me ao ouvido: “Coimbra vamos descansar que o meu juju já não dá”. Era por causa do joelho dele, que já estava a ficar cansado (risos). Tivemos que nos ir sentar um bocado. Lembrei-me agora de outro episódio…

...Força.
Foi no meu primeiro estágio com a equipa principal. Costumávamos estagiar antes dos jogos em casa no Hotel Solplay, em Linda-a-Velha. Cheguei ao hotel, vi que estava no quarto com o Mantorras e subi. Quando estava a chegar à porta do quarto, o Mantorras olha e diz: “Eh, vamos ficar com o quarto do Simão. Vamos entrar rápido antes que ele venha”. Acho que o quarto era diferente e o Simão costumava ficar sozinho. Ele começou a rir e no momento em que íamos a entrar para o quarto, vem o Simão e põe-se aos berros: “Onde é que vocês vão? Nem pensem, saiam”. E tivemos de sair.

Esteve com o Koeman pouco tempo, depois vem o Fernando Santos.
Sim, o Fernando Santos mais rígido em termos de treino, com um feitio um pouco à velha guarda, sobretudo para os miúdos, metia alguma pressão dentro do próprio treino.

João Coimbra com a irmã, no dia do casamento desta

João Coimbra com a irmã, no dia do casamento desta

D.R.

Começa a ganhar dinheiro com o futebol, quando vai para o Benfica?
Quando fui para o Benfica ainda não ganhava nada, nem pagavam a gasolina para o meu pai me ir lá levar (risos). Assino contrato de formação com 15 anos talvez.

E lembra-se do valor do seu primeiro ordenado?
200 ou 250 euros.

O que fez a esse dinheiro?
Talvez tenha pago uns copos a amigos numa noite mais especial, mas não fiz nada de extraordinário.

Quando é que começam as primeiras saídas à noite?
Por volta dos 15, 16 anos.

Ia com quem e para onde?
Ui (risos). Devido ao futebol acabei por formar dois grupos de amigos. Era o grupo do pessoal da bola, do Benfica e de Lisboa, e o pessoal da margem sul. Com os de Lisboa ou íamos para o Queens, o Docks ou Garage ou íamos para o Parque das Nações.

Nunca foi castigado por causa das saídas?
Não, sabia quando podia ir. Acho que era juvenil e comecei a sair à sexta-feira porque ao sábado não treinávamos. Lembro-me de uma vez ter sido castigado pelo meu pai porque houve um jogo em que eu não tinha jogado muito bem e o meu pai deu-me uma dura. Mas sempre tive a noção de quando é que podia sair.

O facto de ser jogador do Benfica atraía mais raparigas? Costumava dizer que era jogador do Benfica?
Para conhecer, não. Nas saídas nunca fui de dizer que era isto ou que era aquilo. Se bem que quando se joga num clube grande as coisas sabem-se mais facilmente. Em termos de noite tínhamos algumas facilidades, na entrada quando a casa estava cheia, lá dentro quando queríamos alguma coisa. Na verdade, apesar de eu só ter jogado na equipa principal do Benfica, um ano e pouco, criou logo em mim uma áurea de jogador diferente porque jogava no Benfica. Ainda hoje aqui no Luxemburgo sou conhecido por ter jogado no Benfica, mesmo que já tenha sido há 12 anos.

Isso incomoda-o?
Não, sinceramente não, tenho orgulho de lá ter jogado, mas também me faz sentir um pouco... Faz-me lembrar que estive nesse patamar e que se calhar podia ter continuado mais tempo nesse patamar… .

João Coimbra (à esquerda) com Manuel Bento e Rui Costa

João Coimbra (à esquerda) com Manuel Bento e Rui Costa

D.R.

E porque é que não continua e vai para o Nacional?
Porque nesse ano em que joguei com o Fernando Santos, fui convocado para 15 ou 16 jogos, mas na maior parte deles nem entrava. Fiz um a titular no campeonato, um para a Taça de Portugal e dois para a Liga Europa se bem me recordo. Na altura o Nacional mostrou interesse, eu queria jogar e queria ver como era fora daquele ambiente, já eram 11 anos naquela casa. Achei que era a melhor opção para jogar e para poder ver como é que eu próprio reagia fora.

Tinha empresário?
Sim, o Carlos Gonçalves. O meu primeiro empresário foi o José Veiga. Tinha uns 15, 16 anos e ele liga ao meu pai, ou ele ou o Carlos Janela que trabalhava com ele. Quando reunimos ele conta: “Então não é que estou em Espanha a assistir a um Real de Madrid-Barcelona e o director do Real Madrid chega, pergunto-lhe por bons jogadores e ele responde 'então tu com tantos jogadores bons em Portugal e vens para aqui?'” e fala o teu nome?”. E pronto, desde essa altura passou a ser ele o meu empresário. Quando chego ao plantel principal, é quando as coisas não lhe correm muito bem pessoalmente, até mostraram na televisão quando lhe foram buscar as mobílias a casa… Uma vez até chorou em frente do nosso grupo, foi no momento em que saiu do Benfica. Nesse momento fiquei sem empresário e o Carlos Gonçalves estava a aparecer, já tinha um ou dois jogadores, lembro-me que tinha o Hélio Roque que estava comigo na equipa B, falou comigo e eu aceitei.

É o João que vai ter com ele a dizer que quer sair do Benfica ou é ele que lhe aparece com a proposta?
Por acaso foi uma pessoa minha amiga que conhecia o presidente do Nacional e que me falou. Depois acabou por falar também com o Carlos Gonçalves. Achámos os dois que seria uma boa opção, o que acabou por não ser.

João Coimbra com os pais

João Coimbra com os pais

D.R.

Foi sozinho para a Madeira?
Na altura namorava e a namorada desse tempo foi comigo.

Como é que foi sair da zona de conforto, de casa dos pais?
Eu adapto-me bem a qualquer sítio. Já era independente, não foi uma mudança brusca porque já tinha alguma liberdade em casa. Mas claro que por um lado gostei da minha total independência e acho que me fez bem também sair do “colinho da mamã”. E a ilha da Madeira é fantástica para viver. Gostei do clima, da comida, de tudo. O que me custou foi estar longe da família e ter jogado pouco. Estar longe já custa e não estar a produzir o que devia, ainda custa mais.

Quem era o treinador na altura?
O Jokanovic.

Que tal?
Sinceramente, não tenho muito a dizer sobre a pessoa, simplesmente no início fui opção, depois deixei de o ser, voltei a ser um bocado mais tarde e depois voltei a deixar de ser outra vez. Tive um problema com ele.

Que problema?
Ele era um pouco intempestivo, reagia muito a quente. Uma vez íamos receber o Sporting, ele vem ter comigo e diz-me que vou jogar, que o Miguel Veloso ia jogar a trinco e ele tinha pensado colocar-me a 10 para eu o condicionar um pouco. Disse-lhe que já tinha jogado com o Miguel Veloso, no Benfica, que era um jogador que conhecia bem. Chega o dia do jogo, ele dá a equipa e eu não estou, fico no banco. Claro que fiquei com azia. Ele deu a palestra, eu saí para os titulares se equiparem e quando chego ao relvado, sento-me no banco para respirar um pouco, estava tranquilo. O Sporting entra para aquecer e o Moutinho e o Miguel passam por mim, cumprimentámo-nos, ficámos um pouco a falar e depois volto para o balneário. Na passagem do túnel encontro-me com o treinador e ele diz que não me vai pôr a jogar porque o Miguel Veloso ia jogar a central. Eu comecei a rir e disse-lhe: “OK mister, você é que sabe, você é que manda, só acho é que não está a confiar em mim só porque o Sporting vai mudar um jogador de posição. Mas tudo bem, você é que manda e eu só tenho que respeitar”. Ele ficou doido, começou aos gritos: “O quê? Eu não devia ter-te dito nada, nem vais para o banco, vais para a bancada”. E eu: “Estou-lhe a dizer que você é que sabe, você é que manda. Posso é achar que você não está a confiar em mim”. Ele continuou: “Vai embora, se quiseres vai para casa ver o jogo”. Até as lágrimas me vieram aos olhos, fiquei na bancada a ver o jogo. A partir daí as coisas começaram a ficar um pouco tensas. Era janeiro, poderia ter procurado um outro caminho, mas comecei a jogar outra vez, voltei a merecer a confiança dele, mas para o fim voltei a não jogar novamente.

João Coimbra (à esquerda) com João Moutinho, num treino da seleção.

João Coimbra (à esquerda) com João Moutinho, num treino da seleção.

D.R.

Estava emprestado pelo Benfica?
Sim, antes de sair, assinei por três anos.Tinha um contrato profissional de três anos e o primeiro ano desse contrato é no Nacional, por empréstimo. E uma das coisas que me deixou triste com o Benfica, foi eu ter saído, ter estado um ano fora e não houve acompanhamento. Estive um ano inteiro sem uma mensagem, sem uma chamada de ninguém do clube, depois de ter passado tantos anos naquela casa e ser benfiquista como sou, magoou-me bastante. Mas faz parte. Entretanto, depois da época terminar recebo uma mensagem do mister Shéu a dizer para me apresentar um mês depois na equipa principal. Ou seja, nesse ano todo, foi o aconselhamento que tive, uma mensagem no fim da época a dizer para me apresentar.

Mas vai para o Marítimo.
Sim. Na altura o Benfica tinha uma dívida com o Marítimo, do Manduca acho eu, e vou eu, o Manú e o Paulo Jorge para o Marítimo.

Chegou a jogar no Marítimo?
Não. Fizemos a pré-época na Venezuela, mas quando lá cheguei lesionei-me. Quando regresso treino uma semana ou duas, faço um jogo treino, e o treinador (Lori Sandri) diz que não conta comigo. Surge a hipótese de ser emprestado ao Gil Vicente.

Quando vai para Barcelos como foi a adaptação às gentes do norte?
Quando chego ao Gil, eles já estavam a fazer o primeiro ou segundo jogo da época oficial. Na semana a seguir a ter chegado faço um jogo na Covilhã, para a Taça de Liga acho eu, lesiono-me no tornozelo e estou três meses parado. Era o professor Neca o treinador na altura. Só recomecei a jogar em janeiro. Mas esse final da época pessoalmente correu-me bem e quando volto a casa aparece a oportunidade do Estoril.

Na seleção, João Coimbra a festejar um golo com Nani

Na seleção, João Coimbra a festejar um golo com Nani

D.R.

Nessa altura já estava na faculdade de Medicina?
Já, entrei para a faculdade ainda no tempo do Benfica.

Porquê medicina?
Sempre gostei muito de fisioterapia e era o que queria seguir. Na altura tinha ganho o campeonato da Europa de sub-17, tinha o estatuto de alta competição e maior facilidade de entrar em qualquer curso. Já tinha boas notas também e optei por medicina, por ser um curso que podia dar-me um futuro melhor.

Foi já a pensar no caso de não singrar no futebol ou a carreira ser curta?
Sim, claramente. Não era o que eu queria, por mim era só futebol, mas a medicina era uma segunda opção.

Já fez três anos do curso. É para acabar?
Continuo a pagar as propinas (risos), mas não é fácil. O curso de medicina é muito exigente, ainda me faltam três anos e para falar a verdade é como se faltassem seis porque o que dei naqueles três, pouca coisa ficou passado tanto tempo. É uma coisa a ser bem pensada no momento em que o futebol acabar. Já tenho o primeiro nível de treinador, mas vai depender muito do que possa surgir no futebol.

Gostava de ser treinador?
Acho que não me ia dar mal. Para ser sincero ia gosta mais de ser adjunto, para tirar-me um pouco a responsabilidade e para poder entrar nas peladinhas com os jogadores e estar com a equipa. Acho que podia dar-me bem, mas tenho a noção que ainda não tenho o perfeito conhecimento do jogo pelo olhar do treinador. No momento em que “pendurar as botas” como se diz, é uma coisa a ponderar bem.

Se resolver terminar o curso de medicina, já escolheu a especialidade?
Gostava muito de medicina desportiva, de ortopedia, para tentar conciliar com o futebol na mesma, porque o futebol nunca vai sair da minha vida, não quero. É o meio onde vivo há mais de vinte anos. Se o futebol sair da minha vida vai ser muito difícil para mim.

João Coimbra com Fábrio Coentrão (à esquerda), no Nacional da Madeira

João Coimbra com Fábrio Coentrão (à esquerda), no Nacional da Madeira

D.R.

Esteve cinco épocas no Estoril.
Sim, na altura o Estoril era treinado pelo Hélder Cristóvão, eu tinha jogado com ele no Benfica e ele liga-me. E volto para casa. Sem a namorada já (risos).

Volta a casa dos pais?
Volto. Estava solteiro, para quê gastar se a liberdade que tinha na casa dos meus pais é a mesma que tinha em casa sozinho? Não fazia sentido nenhum, adoro os meus pais, sou um menino da mamã (risos).

As cinco épocas no Estoril foram marcantes. Subida de divisão, Liga Europa, ascensão de Marco Silva, etc. Relate um pouco esse percurso.
A primeira época é marcada pelo aparecimento da Traffic. O Estoril estava a passar muitas dificuldades, aparece a Traffic e trás muitos jovens brasileiros que desconheciam o futebol português. O Marco Silva era capitão da equipa e foi dos poucos jogadores que ficou. Acaba por ser a época do conhecimento por parte da Traffic. Acabámos a meio da tabela, mas a algumas jornadas do fim ainda assustou um pouco. Na segunda época, já com um treinador brasileiro, Vinícius Eutrópio, continuam a vir muitos jogadores brasileiros, mas mais maduros e experientes. As coisas acabam por correr da mesma maneira que na época anterior. Tínhamos muita qualidade individual, mas como grupo não éramos tão fortes.

É nessa altura que o Marco Silva passa de jogador a diretor desportivo.
Exato. Na terceira época é ele que faz quase todas as contratações. Lembro-me que na segunda época fomos jogar à Trofa, num jogo que acabou com uma invasão de campo, houve uma confusão qualquer, perdemos 2-1. E nesse jogo com o Trofense o Licá entrou na segunda parte e o Marco, que ainda era jogador, na viagem de regresso, diz-me: "Adoro aquele miúdo, acho que ele joga tanto". E a primeira coisa que o Marco faz quando se torna diretor desportivo é ir buscar o Licá. É o ano em que ele faz quase todas as contratações, acaba por assumir a equipa, subimos de divisão e o Licá é eleito melhor jogador da II Liga. Ou seja, o Marco já sentia que estava ali um diamante por lapidar. O Licá para nós nesse ano foi fantástico, era só passar-lhe a bola que ele resolvia.

João Coimbra foi campeão da II Liga pelo Estoril

João Coimbra foi campeão da II Liga pelo Estoril

D.R.

O ano a seguir também corre muito bem.
Pessoalmente nem tanto porque era um ano em que eu podia assumir-me de vez na I Liga , mas não aconteceu. Agora a nível coletivo correram muito bem. Como capitão de equipa tenho um orgulho enorme em ter sido campeão da II Liga pelo Estoril e nos anos seguintes ser o capitão de equipa.

Porque é que as coisas não lhe correm bem pessoalmente?
Por opção também. As coisas poderiam ter continuado ao mais alto nível, poderia e deveria ter-me afirmado muito mais na I Liga. A culpa atribuo-a mais a mim do que a terceiros. Claro que dependo sempre de em alguns momentos o treinador decidir sobre mim ou sobre outro.

Atribui a culpa a si porquê?
Porque em determinados momentos devia ter-me assumido mais, em termos de jogo, em termos mentais. Houve momentos em que vim abaixo e tenho essa noção.

Porque é que isso acontecia?
Não sei. Se calhar porque não sou tão forte mentalmente como devia ser. Fiz grandes jogos, mas noutros tenho a noção de que "desaparecia" um pouco ou revelava-me inconstante, principalmente na I Liga. Tenho a noção de que fiz uma época muito boa na II Liga, mas na I Liga nunca fui tão constante. Mas também tem a ver com as opções. Porque fiz o primeiro jogo a titular e depois deixei de o ser, quando no ano anterior jogando bem ou mal era sempre titular. Os jogadores que depois entraram também corresponderam e o Marco achou que as coisas deveriam passar por outro.

João Coimbra (à direita) com Marco Silva

João Coimbra (à direita) com Marco Silva

D.R.

Na cabeça de um jogador pesa muito o facto de ser titular ou não?
Eu era jogador titular e capitão. Na estreia da I Liga, perdemos fora 2-1 e no segundo jogo o Marco tira-me logo, acho que isso afetou-me psicologicamente. Tirou-me confiança. Mas lá está, depois surge um jogo com o FCP, em casa, temos o Diogo Amado e o Hugo Leal lesionados, entro no jogo, faço um grande jogo e depois faço seis jogos seguidos a titular. Eu acho que um jogador é 70% mental e 30% o resto. O jogador que vai lá para dentro, que assuma, que esteja a jogar com seis mil ou sessenta mil a assistir, só por aí tem uma vantagem enorme sobre todos os outros. Eu se calhar em determinados momentos não tive esse à-vontade ou essa confiança. Mas acabamos o ano bem, eu terminava contrato com o Estoril e tive uma conversa muito séria com o Marco.

O que lhe diz?
Ele diz que conta comigo, nem punha outra hipótese, mas para eu ter bem a noção de que queria uma equipa ainda mais competitiva, e por isso eu tinha de ter a noção que poderia jogar ou não. Disse-lhe que me sentia em casa e pedi-lhe que quando me escolhesse pensasse o melhor de mim, depois se eu não correspondesse, aí eu já não podia dizer nada. Lembro-me ainda hoje dessa conversa. Só que no final da época sou operado ao menisco do joelho esquerdo e passo as férias a fazer recuperação. Perco as primeiras semanas da pré-época. Quando volto, volto bem a sentir que aquela podia ser a minha época, porque a conversa com ele fez-me muito bem.

Mas…
...Num dos jogos da pré-época jogamos com a equipa B do Sporting e quando o jogo acabou o meu joelho começou a inchar. Tive de ser operado outra vez e fiquei a época toda parado, só joguei no último jogo. Perdi a minha oportunidade de brilhar.

João Coimbra (ao centro) com dois dos melhores amigos, Cajo e Ruben

João Coimbra (ao centro) com dois dos melhores amigos, Cajo e Ruben

D.R.

E vai para o Académico de Viseu.
Tinha ainda dois anos de contrato com o Estoril, esse em que estive parado, e mais um. E o Marco sai, entra o Couceiro e no verão ele chamou-me para dizer que se me aparecesse alguma boa proposta era melhor pensar nisso, porque só tinha mais um ano de contrato. Na primeira ou segunda semana de trabalho comecei a ver que não ia contar muito, fui ter com o diretor desportivo, o Mário Branco, e com o presidente, e chegámos a acordo para eu sair. Mas o Estoril é a minha segunda casa. Lembro-me que no dia da rescisão custou-me muito subir aqueles andares. E já agora gostava de deixar aqui a minha pequena homenagem à Sónia, uma secretaria do clube, que acabou por falecer com cancro, e que quando lhe anunciei que me ia embora, até deixou cair um molho de canetas que tinha na mão, surpreendida. Lembro-me que desci aqueles dois andares a pé e a chorar que nem um menino, no dia em que rescindi. Fiquei a adorar o clube. Ainda a época passada, eu estava no Trofense, a época acabou mais cedo e eu fui ver o último jogo do Estoril. Ficou no coração.

Como surge o Académico de Viseu?
Entretanto, venho para casa, felizmente apareceram-me duas ou três coisas, mas tudo de II Liga. O treinador do Académico era o Alex, com quem eu tinha treinado no Benfica, e ele liga-me. Chegámos a acordo.

Foi de armas e bagagens para Viseu?
Sim. A minha primeira época do Estoril é também o ano em que começo a namorar com a minha atual mulher, a Carla, e mãe das minhas filhas, Lara e Diana. Foi o início de duas coisas muito boas na minha vida: os cinco anos do Estoril e o início do namoro com a Carla. Lembro-me que nesse meu primeiro ano de Estoril, as minha viagens para o treino eram sempre feitas com o Marco Silva, ele também mora na margem sul, e ele ia aturar-me porque eu ia sempre a falar com a Carla (risos).

João Coimbra com a irmã ao colo

João Coimbra com a irmã ao colo

D.R.

Como conheceu a Carla?
Foi minha colega de escola. Fiquei na turma da melhor amiga da Carla. A Carla tinha acabado com o ex-namorado e pediu a essa amiga o número de uma pessoa que ela achasse que fosse boa para ela. A melhor amiga dela deu-lhe o meu número. Na altura falámos uma ou outra vez, combinámos tomar café, mas acabou por não acontecer. Entretanto vou para o Estoril e a Carla começa a trabalhar na recepção de uma discoteca "O Remédio Santo", e nessa altura comecei a ir todos os domingos depois do jogo a essa discoteca (risos). Passava a noite toda na entrada, na recepção (risos) e consegui conquistá-la.

Foram logo viver juntos?
Não. Começámos a namorar e no fim desse ano peço-a em casamento. Compramos casa em Fernão Ferro, junto aos nossos pais e irmãs, mas esperámos por casar para ir viver para lá, porque o casamento para ela era uma coisa séria.

Quando vai para Viseu ela vai consigo?
Sim. Já estávamos casados, ela estava a trabalhar na altura, mas entretanto fica grávida: a Lara nasce em 2014 e é nesse ano que vou para Viseu. Quando já estou orientado e com casa em Viseu foram as duas ter comigo.

A adaptação correu bem?
Sim, tranquilo, sempre nos adaptámos bem desde que estejamos juntos. Mas foi pouco tempo, porque em janeiro fomos para a Roménia.

João Coimbra com a mulher, Carla, no dia do casamento

João Coimbra com a mulher, Carla, no dia do casamento

D.R.

Porque sai logo em janeiro e porquê é a Romênia?
No último ano do Estoril já tinha pensado que poderia tentar uma aventura no estrangeiro. Financeiramente poderia ser melhor e experimentar outros ambientes. Em janeiro surge essa hipótese.

Mas quando pensava em ir para o estrangeiro não era na Roménia que pensava ou era?
Nunca fui de pensar neste ou naquele sítio. Foi o que apareceu, era uma proposta vantajosa financeiramente, apesar de ter feito seis meses e só ter recebido três (risos). Mas faz parte dessa nossa vida.

Como foi a adaptação?
Foi boa. Quando cheguei à Roménia estava um clima um pouco diferente, com neve. Mas Bucareste é uma cidade maravilhosa, tanto eu como a Carla, adorámos. Felizmente também havia mais portugueses na equipa, de quem fiquei amigo, como o Ricardo Alves, que está agora na Rússia, e que é uma das pessoas que ficou para a vida.

As pessoas foram simpáticas?
Fui um bocado receoso, mas não tenho razão de queixa, fui muito bem tratado.

Ia receoso porquê?
Não, sei, a Roménia, os romenos, ouve-se muita coisa, também era a primeira vez que ia para fora. Mas ter jogado no estádio do Rapid Bucareste foi muito bom. Até tenho um episódio curioso.

Conte.
Eu chego ao Rapide o clube está com 11 pontos em 14 jogos, se não me engano. Nesse ano acabaram por descer seis equipas na Roménia porque eles mudaram o campeonato. Estivemos a lutar até à última jornada. Acabámos por descer. Mas nos últimos quatro, cinco jogos estamos ainda a lutar para não descer e os adeptos achavam que o guarda redes tinha alguma culpa nos golos que sofremos. No treino antes do último jogo, já tínhamos descido, aparecem 50 adeptos no centro de treinos. Pedem para falar connosco (risos). Eu já percebia alguma coisa de romeno e o líder da claque começa a falar: "Queremos agradecer-vos porque fizeram-nos acreditar quase até ao fim e queremos agradecer a todos os jogadores, menos a ti" e viram-se para o guarda redes. "Por tudo o que fizeste nestes últimos jogos não tens dignidade para vestir esta camisola. Queremos que tires essa camisola à nossa frente" . Fiquei assustado. Mas tanto o treinador como o Sapunaru, com quem me cruzei no FCP, acalmaram a situação. E no dia do jogo estava o estádio cheio.

Viveu mais algum episódio caricato?
Em Portugal, em dia de jogo ou ficamos no hotel tranquilos ou podemos ir dar uma voltinha de 10 minutos. Lá em dias de jogos, tomávamos o pequeno almoço e o mister mandava-nos duas horas para o centro comercial. E íamos passear para o centro comercial com a camisola do clube, ou seja, podiam estar as duas equipas a passear no centro comercial. Imaginem o Colombo e verem os jogadores do Benfica e do FCP ou do Sporting a passearem lá. Era estranho (risos).

João Coimbra tatuou as datas do seu casamento e do nascimento das suas filhas

João Coimbra tatuou as datas do seu casamento e do nascimento das suas filhas

D.R.

A seguir vai para a Índia e ao que parece não se deu muito bem com a comida.
(risos). Sim, o picante era demais.

Não gosta de picante?
Não desgosto, mas mesmo quando pedia no spicy, aquilo vinha picante (risos). Para eles é normal. É como comerem com as mãos. Agarram tudo com quatro dedos e depois empurram a comida com o polegar para a boca. Também era estranho.

Alguma vez comeu com as mãos?
Lembro-me de ter experimentado, mas uma vez só (risos).

A Carla e a Lara foram consigo?
Não. Aí a Carla já estava grávida da Diana e como era uma experiência curta, foram três, quatro meses, e era um país longe, só eu tive de levar três ou quatro vacinas antes de ir, optámos por elas ficarem.

Ficou sempre em hotel?
Sim. Toda a equipa ficou concentrada em hotéis nesses três meses. Os hotéis eram muito bons. Mas o país em si, choca um bocado.

Viu muita pobreza?
Muita.

Qual foi a imagem ou situação mais impressionante que viu?
Tenho um pequeno vídeo de uma situação. Estou num hotel de cinco estrelas, luxuoso, vou à varanda e à volta era tudo favelas, bairros de lata, tudo muito pobre. Eu e os meus colegas pegávamos em bolachas, em água e levávamos lá ao bairro. Era impressionante ver os miúdos à nossa volta a pedir e a roubar tudo. Um dia estava à janela do hotel, e estavam uns miúdos a jogar críquete, que é o desporto principal da Índia. Eu estava a filmar e de repente há um miúdo que sai do jogo, que decorria num campo descampado, com porcos, macacos e outros animais, e ele sai, baixa as calças faz o que tem a fazer de necessidades fisiológicas, olha para mim, começa a dizer-me adeus, enquanto faz as necessidades. Acaba, puxa as calças para cima e vai jogar outra vez como se nada fosse.

João e a mulher com as filhas

João e a mulher com as filhas

D.R.

E o nível do futebol?
É diferente. Era obrigatório jogarem sempre seis jogadores indianos. Já começam a aparecer jogadores indianos com qualidade e os estrangeiros que vão jogar para aquele campeonato têm muita qualidade. Mas os indianos, nos jogos, estão sempre a correr, ou seja, são jogos que nas segundas partes se partem muito. Havia indianos com muita qualidade mas não se sabia o que esperar porque tanto faziam as coisas bem como mal. O que era impressionante e muito bom era ver os estádios sempre cheios.

Faz esses três meses lá e depois?
Voltei para Portugal e esperei por alguma coisa, pelo menos de II Liga, para poder voltar a casa. Só que não apareceu nada, aliás, apareceu uma outra coisa mas do Campeonato Nacional de Seniores. E fiquei seis meses parado. Mas sou sincero, a Carla estava grávida, a Diana nasceu em abril e eu queria ficar por perto.

O que fazia para se manter em forma?
Ia ao ginásio, jogava à bola com amigos, tenho uma equipa de futebol de 7 em sintético na margem sul e todos os domingos jogava com eles. Era nesses momentos que se calhar não me lembrava do que custa estar de fora e sem clube.

João com a mulher e filhas

João com a mulher e filhas

D.R.

Assistiu ao nascimento da sua filha?
Das duas. Foram dois partos rápidos, felizmente. Estava tranquilo ao lado dela, brincava com ela, filmei e tudo. Foram momentos marcantes sem dúvida.

Estão a pensar ter mais?
Ela quer três ou quatro (risos). Quer ter três e adoptar um. Eu estou mais cauteloso. Sempre quis ter um rapaz, vieram duas... Se tivesse a certeza de que vinha o rapaz acho que tentava (risos). Mas tenho de ver primeiro como corre esta etapa e o que vem a seguir.

Depois da Índia foi para o U. Leiria.
Nesse mercado de verão procuro outra vez entrar nas ligas profissionais mas a verdade é que não me aparecia nada. Estava com 28, 29 anos. Não sei se é por não ter cabelo, se é por ter aparecido muito cedo ou se as pessoas pensaram que eu já tinha uns 30 e tais (risos)... Apareceu o U. Leiria e o Cata, o treinador, convenceu-me a ir para lá. Fui para o CNS, que era algo que não queria, e tentei demonstrar que ainda estava bem. Acabo por fazer duas épocas seguidas no CNS, mas a verdade é que a hipótese de uma II Liga não voltou a aparecer.

A família muda-se para Leiria?
Não, como era perto, dava para ir e vir..

E para o Trofense?
Aí fomos todos. No Trofense era mais provável estar mais tempo sem as ver e eu não quero perder todas as coisas novas que se vêem diariamente no crescimento das minhas filhas, por isso fiz questão que elas fossem comigo.

João Coimbra (à direita) com Ricardo Rocha

João Coimbra (à direita) com Ricardo Rocha

D.R.

Quando se anda de casa às costas, obviamente não se leva a mobília atrás, mas que objetos faz questão de levar sempre consigo?
A Playstation principalmente.

O que joga?
Jogo FIFA ou Assassin’s Creed, mas com as miúdas acabo por não ter tempo quase nenhum (risos). Apesar de ter trazido a playstation para o Luxemburgo não a tenho utilizado muitas vezes. Mas a playstation anda sempre comigo.

Como correu a época no Trofense?
Começou mal. Tínhamos uma equipa um bocado jovem, tivemos quatro treinadores, mas com o mister Quim Berto as coisas acabaram por estabilizar. Não tirando mérito aos outros. Alguns reforços de inverno ajudaram a melhorar a equipa e conseguimos a manutenção que estava difícil.

Mas por que sai do U. Leiria para o Trofense?
Porque o treinador não me quis lá. Em janeiro tive hipotese de ir para um clube de II Liga. O Baltazar era o treinador do Olhanense e surge essa hipótese. O Cata já tinha saído o U. Leiria, tinha entrado outro treinador e entretanto falo com ele e com as pessoas do Leiria sobre essa hipótese de ir para Olhão. Dão-me a entender que estavam a contar comigo e que era uma peça importante para a época seguinte. Mas a verdade é que chega a época seguinte e o treinador, Rui Amorim, disse que não contava comigo.

João Coimbra com o seu cão, o Movie

João Coimbra com o seu cão, o Movie

D.R.

Como surge a possibilidade de ir para o Luxemburgo?
Quando venho para baixo as coisas ainda não estava bem definidas sobre a nova época, mas eu não queria continuar no CNS. Ou melhor, para estar no CNS prefiro estar perto de casa porque custa-me estar longe da família. Comprei uma casa para mim e para a minha família e raramente lá estamos. A verdade é que gosto da casa que tenho, gosto de estar em casa, gosto da zona onde vivo, gosto de ter os meus pais e sogros, irmã, cunhados e amigos por perto. Havia a hipótese que se veio a confirmar, do Amora subir, voltou a estar no CNS. Falei com o presidente para saber se podia haver interesse da parte deles. Continuar no CNS era o adiar do fim e comecei a pensar, quem sabe, num final de carreira e se calhar acabar do modo como comecei, no Amora. Por isso fui falar com o presidente. Mas entretanto surge o Luxemburgo. Houve interesse, o treinador falou comigo e decidimos vir para mais esta experiência, no US Mondorf-les-Bains.

Como está a ser?
É diferente. Aqui a maior parte dos jogadores trabalham, eu próprio já estive a trabalhar um mês.

A fazer o quê?
Umas entregas. Todos os jogadores trabalham e a maior arte até ganha mais nos trabalhos no que no futebol. Há jogadores que dão mais importância ao trabalho do que ao futebol e que chegam a dizer: "Esta semana não treino porque vou trabalhar à noite". Mas fiquei surpreendido com a qualidade, porque há qualidade e joga-se bem no campeonato, há equipas com muito boa qualidade e condições. Entretanto, o diretor-desportivo perguntou-me se queria trabalhar caso arranjassem alguma coisa. E eu: "Já agora, se toda a gente o faz, eu também faço. Se encontrarem alguma coisa tranquila que não me desgaste para o treino.". E uma vez ligou-me a dizer que houve uma pessoa que meteu baixa e que costumava fazer entregas de produtos, de perfumes e assim, com o carro. Então fiz umas entregas, deu para melhorar o francês e valorizar o jogador que trabalha. Eu fazia só em part time e não era fácil, agora imaginem os que trabalham a tempo inteiro e ainda vão treinar.

João Coimbra (à direita), na festa de casamento de João Pereira (ao centro)

João Coimbra (à direita), na festa de casamento de João Pereira (ao centro)

D.R.

O que está a pensar fazer no final da época?
Boa pergunta (risos). Vai depender muito do que acontecer. Tenho 32 anos, acho que ainda consigo jogar mais alguns aninhos, mas vai depender da forma como decorrer esta época. A nível pessoal está a correr bem. Já tive uma ou outra lesão. Vou esperar para ver o que acontece. Mas estou aberto a tudo, claro.

Já disse que gostava de terminar a carreira onde começou, no Amora…
...Gostava. É um clube que tenho seguido. Tem um projeto muito interessante e está a ficar com boas condições. Acima de tudo é o clube onde comecei e na zona onde sempre vivi.

O pós-carreira ainda está em aberto.
Sim, gostava de continuar ligado ao futebol, já tirei o nível I, já fiz um curso online de dirigente desportivo, da Lusófona. Tenho o curso de medicina para terminar. Tenho algumas portas para abrir, mas só vou decidir mais tarde.

A sua filha mais velha já vai à escola?
Sim. Eu não estou a viver no Luxemburgo, estou a viver em França junto à fronteira. Estou na casa dos meus cunhados, da irmã mais nova da Carla. E aqui em França é obrigatório irem para a escola a partir dos quatro anos. A Lara já foi mas tenho sorte que é mesmo aqui em frente a casa.