Tribuna Expresso

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A casa às costas

“No Benfica, aos 18 anos, senti que estava a entrar no deslumbramento estúpido. Ia aos bailes, deitava-me tarde, comprei carro e bati logo”

António Simões nasceu em Corroios, tem um irmão gémeo que desertou, perdeu o pai aos 13 anos e logo a seguir iniciou a sua carreira no futebol, num percurso do qual se destaca o Benfica, Eusébio e os EUA, além dos títulos. Porque esta não é uma entrevista sobre futebol mas sobre a vida, que foi passada em grande parte a jogar futebol, o mítico jogador do Benfica relata como viveu o golpe mais duro de todos: a morte de um filho acabado de nascer depois de já ter três filhas. E como o falecimento do grande amigo Eusébio lhe mudou a vida. Simões também fala de política, e de como esta afetou a sua saída do Benfica, das duas vezes que foi chamado pela PIDE, e por que razão foi candidato pelo CDS, embora se mantenha independente e sem se filiar (Esta é a primeira de uma entrevista com duas partes: amanhã será publicada a segunda)

Alexandra Simões de Abreu

Ana Brigida

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Nasceu em Corroios há praticamente 75 anos. Apresente-nos a sua família.
O meu pai foi emigrante nos EUA durante 14 anos. Tanto que os três primeiros filhos têm quatro anos de diferença, porque ele vinha cá de quatro em quatro anos. Foi um homem de grande força física e mental, trabalhou nas profissões mais difíceis. Casou e foi-se embora para os EUA ganhar a vida. Era estivador no porto de Nova Iorque, em 1930. E depois foi parar à Califórnia onde trabalhou nos caminhos de ferro, a carvão. Na altura era proibido as mulheres irem, quem muda isso é o grande estadista John Kennedy, que eu muito admiro. A minha mãe ficou cá, na aldeia do Colmeal a tomar conta de umas terras e dos filhos.

Tem quantos irmãos?
Eu sou gémeo e nós somos os mais novos de seis. Quatro rapazes e duas raparigas. Rapaz, rapariga, rapaz, rapariga e depois os dois malandros pequenitos, os gémeos. Os dois mais velhos infelizmente já faleceram. Se fosse vivo o mais velho teria 91 ou 92 anos.

Quando o seu pai regressa, para onde vão viver e o que vem ele fazer profissionalmente?
Ele regressa e estabelece-se como comerciante. Tinha uma casa de pasto, que era também mercearia, depósito de pão, fazia vinho, tinha uma adega. Torna-se um grande comerciante, em Corroios e constrói a casa onde eu nasci e que ainda existe. Depois vai para a Cruz de Pau e faz a mesma coisa. Constrói dois prédios no coração da Cruz de Pau, tudo isso existe e ainda hoje recebo algumas rendas. Ele é o homem que cria o Clube Recreativo da Cruz de Pau, que patrocinou durante largos anos as festas populares do verão. Lembro-me de ser pequenito e ver a chegada do carrossel oito, que era uma novidade grande porque os carrosséis até àquela altura eram só em círculo. O primeiro coreto também foi construído por ele. Tudo aquilo é Manuel Simões, que se torna uma referência na comunidade. Com uma particularidade, que os meus irmãos mais velhos me contaram.

Qual?
No tempo da guerra a minha mãe cozinhava na casa de pasto onde vinham os camionistas comer e a determinada altura começa a perceber que não está a entrar o mesmo dinheiro em casa. Questiona o meu pai: "Ó Manuel, há qualquer coisa que não está bem. Não está a chegar aqui dinheiro". O meu pai respondia de forma fugida: "Não te preocupes". Como é que descobrimos o que estava a acontecer? Quando ele faleceu fizemos o trespasse do negócio e quando se começa a mexer nas mobílias vamos dar com dois rolos de papel atrás de um frigorífico, eram os fiados. Eram contos e contos de reis que o senhor meu pai nunca pediu a ninguém, porque as pessoas tinham dificuldades naquela altura em pagar a conta. Bem tinha razão a minha mãe.

António Simões e o irmão gémeo no casamento do irmão mais velho

António Simões e o irmão gémeo no casamento do irmão mais velho

D.R.

O António sempre torceu pelo Benfica, mesmo em pequenino?
Os meus irmãos mais velhos, Américo e Eugénio, eram ambos do Benfica. O Eugénio jogou muito bem futebol, no Amora, era um esquerdino fantástico. Curiosamente o meu pai tinha simpatia pelo Sporting. E a minha irmã mais nova também. Quando era pequenino, tinha uns oito, nove anos, o Barreirense estava na 1ª divisão e o Benfica quando ia lá jogar tinha sempre de passar pela Cruz de Pau e eu ia a correr para ver passar o autocarro do Benfica. Aquilo para mim era um delírio. Lembro-me de ver o Costa Pereira à frente com o sr. João, o motorista. E o mais engraçado é que andei naquele autocarro com eles todos.

Passava o tempo a jogar à bola da rua?
Todos os dias. O meu pai nunca me proibiu de jogar futebol na rua, estava era proibido de jogar com os sapatos. Éramos seis, era uma despesa enorme e estragar sapatos a jogar à bola, nem pensar. Embora tenha tido uma infância abundante, não havia nada de estrago. E foi uma infância abundante também no afeto, como éramos os mais novos tivemos o afeto não só dois pais como dos irmãos. O primeiro carro de bebé com dois lugares que aparece naquela altura era o destes dois malandros [risos].

O seu irmão gémeo é idêntico?
Completamente diferentes, sacos diferentes. Vive no Brasil há 40 anos. É um irmão muito interessante, fez carreira no ramo automóvel na área do marketing, chegou ao topo, mas está reformado. Ele foi-se embora para fugir da tropa. Foi desertor. Desde muito jovem que me dizia: "Eu não vou para o Ultramar. Recuso-me". Um dia foi embora.

Não se despediu?
Despediu-se da mãe. A mãe percebeu. Mas depois quis regressar e foi apanhado em Vilar Formoso, ficou preso. Fui eu daqui com o meu irmão mais velho e com um jogador do Benfica, salvá-lo. Tirei-o de lá para fora. Lembro-me que paguei cinco contos [25€], não sei a quem. "Simões do Benfica"; já era uma marca muito grande. Depois foi-se embora. Quando veio o 25 de abril ficou legal, "legalizou-se" [risos].

António Simões na sua casa, em Lisboa, na semana em que deu a entrevista

António Simões na sua casa, em Lisboa, na semana em que deu a entrevista

Ana Brigida

Como surge o futebol mais a sério na sua vida?
O meu pai teve a visão de que a 4ª classe já não chegava para nós e pensou: "Estes são os meus últimos filhos e da maneira como estou a ver o mundo, estes vão precisar de ter um curso" e manda-nos para escola comercial e industrial de Almada, hoje Emídio Navarro. Ora, isto era uma despesa enorme para ele, só em transportes… Então pensou que o melhor seria estabelecer-se em Almada porque assim já podíamos ir a pé para a escola. Entretanto, para infelicidade de todos nós o meu pai morre de repente.

Como?
Falaram em angina de peito, mas julgo que seria hoje o equivalente a um AVC. Faleceu de repente com 55 ou 56 anos. Foi um choque para todos. Eu tinha 12, 13 anos. E é nessa altura que começo a jogar no Almada, porque queria ser jogador. Eu jogava muito na rua, joguei uma vez por uma equipa de ciganos num torneio popular. Começaram todos a falar de mim, foram ter com o meu irmão mais velho para lhe dizer que eu era bom, diabólico no campo. Porque eu jogava contra os adultos e driblava os homens. Isto começou a ser falado, os meios eram mais pequenos do que hoje. O scouting da altura eram os sócios dos clubes que telefonaram a dizer: "Atenção que há um miúdo assim, assim". Comecei a jogar através de um senhor que foi campeão de Portugal pelo Sporting, chamado professor Rodrigues Dias, é ele que é o meu treinador no Almada. Tudo começa aí.

E aparecem logo outros clubes interessados.
Sim. Começa o Belenenses, o Sporting...Tanto que estou oito meses no Sporting antes de ir para o Benfica.

Não ficou no Sporting porquê?
Porque o Sporting nunca quis pagar 50 contos [250€] ao Almada. Só que 50 contos em 1958/59 era uma fortuna. Mas se eu deixasse de jogar um ano ficava livre. Então fui para o Sporting mas ficava sem jogar. Já ia a caminho de uns oito meses sem jogar e não aguentei. O Benfica entretanto ouviu falar de mim, que estava no Sporting mas não podia jogar porque estava preso ao Almada. Um bocadinho como o Eusébio também.

O Benfica chega à frente com o dinheiro.
Sim. Vai a Almada pergunta quanto querem por mim, falam nos 50 contos e eles dizem "damos 40 [200€]". Foi assim. Custei 40 contos aos Benfica.

A mãe de António Simões

A mãe de António Simões

D.R.

Chega ao Benfica com 15 anos mas a dois meses de fazer 16, por isso começa logo a jogar nos juniores.
Porque o treinador dos miúdos, o argentino Valdivieso, diz ao sr. Caiado, assistente do sr. Béla Guttmann, que não queria que eu jogasse nos principiantes, preferia esperar aquelas semanas para eu jogar nos juniores. Dois meses depois de ter feito 16 anos faço o meu primeiro jogo no Restelo, ganhámos 3-0 e eu fiz um golo.

Nessa altura já estava a viver no lar do Benfica?
Não, ainda estava em Almada. Mas entretanto o Benfica percebe que era uma canseira. Deixaram-me jogar aquela época e depois enfiaram-me no lar. É quando conheço pessoalmente o Costa Pereira, José Águas, Mário Coluna... .

E lá em casa, como reagia a sua mãe a isso tudo?
Sempre muito apreensiva. Tanto que quando vou para o Sporting, sem poder jogar, ela chama os irmãos mais velhos e diz-lhes que queria que eu aprendesse um ofício, além de ser jogador. "Joga, mas tem de ter um ofício". Primeiro fui mecânico de máquinas de escrever, já não me lembro onde, depois trabalhei com material de guerra, no Poço do Bispo. Dois empregos arranjados pelo Sporting.

Ainda estudava?
Estudava à noite. Ainda tirei o 4º ano à noite. Mas jogar, trabalhar e estudar à noite, era muita coisa para mim. Tenho imensa pena de ter mandado os estudos fora porque eu era um aluno excepcional a matemática e física. Nunca consegui 20 valores, por causa da bola. Apanhei sempre 19 valores e qualquer coisa. A professora queria bater-me por causa disso [risos].

Explique lá isso melhor.
Eu fazia o teste em 20 minutos, quando o tempo era de 50. Mas eu queria fazer rápido para poder ir jogar à bola sozinho, contra a parede. A professora via-me pela janela e ficava danada porque ia espreitar o meu teste e via que eu com a pressa lá me enganava numa coisinha ou outra. Ficava doida. O diretor da escola, quando eu vim para o Benfica, chamou-me.

O que lhe disse?
Mandou chamar a minha mãe e disse-lhe "Este seu filho tem um dom. Não me interessa da bola, se é dom ou não é, agora para a matemática e para a física ele tem um dom. Portanto, ele que não saia daqui". A minha mãe só me dizia "Tu estás a ouvir?" [risos].

António Simões quando era júnior do Benfica

António Simões quando era júnior do Benfica

D.R.

Quando chega ao lar, ainda júnior, havia outros jogadores da sua idade a viver lá?
Não, juniores não havia, havia era muitos jogadores solteiros. Eu encontrava o Costa Pereira e os outros só no fim de semana porque eles faziam lá o estágio. O meu primeiro companheiro de quarto era um rapaz chamado Mário João, que ainda é vivo, foi bicampeão europeu, foi ele que me recebeu.

Entretanto chega o Eusébio. Houve logo empatia entre os dois?
Logo. Ele era mais velho do que eu 23 meses e acabámos por ter uma atitude protetora um com o outro, porque os outros são mais velhos. Há logo tendência para ficarmos os dois. Eu sempre fui muito comunicativo. A minha mãe dizia uma coisa muito bonita quando eu entrava em casa: "Lá vem a minha alegria". Porque falava, comunicava, eu não deixava ninguém em silêncio.

Passou a andar sempre com o Eusébio?
É verdade. Embora eu não conhecesse ainda bem Lisboa, sabia ir ao S. Jorge, ao Tivoli, aos cinemas, e como o Eusébio não sabia, eu sou um bocadinho o guia dele. Íamos ao cinema juntos, ajudava-o com a escrita. Naquela altura havia muita gente que escrevia cartas a pedir fotografias autografadas e lembro-me que eu tratava das minhas e das do Eusébio, porque ele tinha algumas dificuldades e eu era mais despachado.

É verdade que teve a alcunha de Rato Mickey?
[Risos] Sim, começam a surgir as figuras do Walt Disney e como eu era pequenino, muito rápido, irrequieto e um malandro no jogo e a figura do Rato Mickey era um bocado isso…

António Simões com 15 anos

António Simões com 15 anos

D.R.

Quando chega ao Benfica é logo campeão de juniores.
Eu faço o meu primeiro jogo em janeiro de 1960, em abril de desse ano estou a ser internacional pela seleção de juniores. Em 1961 sou campeão europeu de juniores. Faço parte da geração que conquistou o primeiro título internacional para Portugal.

Lembra-se quando foi a primeira vez para fora do país?
Lembro, foi um delírio. Tinha 16 anos, meteram-me dentro de um avião para ir para a Áustria. Tanto que ainda hoje adoro a Áustria porque foi o primeiro país que visitei. Lembro-me também dos dirigentes da federação terem-nos levado a assistir a uma ópera.

Gostou?
Foi um grande frete. Não estava preparado. Miúdos com 16 anos a assistir a uma ópera em Viena de Áustria, que era um sonho para uma fatia de gente culta... Hoje gosto imenso de música clássica e de jazz, vou aos EUA de propósito para assistir, mas naquela altura não.

Como se safou com a lingua? Já sabia inglês?
Ninguém falava inglês. Havia um ou outro dirigente que falava umas coisas e nós agarrámo-nos a eles quando queríamos comprar alguma coisa.

A propósito de comprar. Quando começa a ganhar dinheiro com o futebol?
No meu primeiro contrato com o Benfica, ganhava um conto de reis por mês [5€]. Mas a primeira vez que ganho dinheiro ainda é no Sporting, quando estive lá aqueles oito meses. Pagavam 800 escudos [4€] por mês.

O que fez ao primeiro dinheiro que ganhou?
Dei à minha mãe, imediatamente. Todo o dinheiro que ganhei enquanto miúdo entreguei-o sempre à minha mãe. Quando fui para o Benfica, o Benfica teve a gentileza de dar cinco contos [25€] pela minha assinatura. Pequei nesse dinheiro e dei à minha mãe. Ela é que me dava dinheiro para eu gastar, não era eu que ficava com ele. Eu via isso nos meus irmãos, todos fizeram a mesma coisa. Era a mãe que geria.

Lembra-se de alguma coisa que quisesse muito comprar?
Havia uns ténis alpercatas que davam muito jeito, mesmo até para jogar e eu queria ter uns. Na altura ainda não havia os ténis de marca como hoje... E a minha mãe, desconfiada, "Mas tu queres isso para quê?". Mas ela comprou-me as alpercatas, fez-me a vontade.

Da primeira namorada, recorda-se?
Tive uma paixoneta quando fui para Almada. Essa senhora, Maria José, ainda hoje é viva e ainda hoje temos vontade de falar de vez em quando. Era uma jovem muito bonita. Tem havido desde há uns anos um encontro dos alunos desse tempo de escola, ela vem sempre e eu também vou. O namoro acaba porque eu depois vim para Lisboa, as solicitações eram muito maiores e o namoro desapareceu.

Simões junto ao autocarro do Benfica

Simões junto ao autocarro do Benfica

D.R.

Estava a contar que foi campeão europeu de juniores...
E tenho mais um ano para jogar como júnior, só que tivemos uma final, em Lisboa, Benfica-Belenenses, em que ganhámos 3-1, eu fiz os três golos e o sr. Béla Guttmann mandou-me treinar com a primeira equipa na terça-feira seguinte. É aí que percebo que vou treinar com o José Águas, o Costa Pereira, Mário Coluna, etc. Já os conhecia do lar, mas a distância era grande, tanto que eles sentavam-se a jogar às cartas, Costa Pereira em parceria com o Águas e o Coluna com o Cávem, eu pedia para assistir e eles respondiam: "Podes sentar-te aqui, mas não falas".

Começa a jogar como sénior, mas ainda com a idade de júnior.
Exato. Tanto que há o torneio da UEFA, na Roménia, mas eu não fui porque a UEFA não aceitava juniores que fossem já profissionais. Não fui a esse torneio mas curiosamente um ano depois estou a ser campeão europeu de seniores, na final com o Real Madrid, em Amesterdão. Ou seja, num curto espaço de tempo eu sou campeão europeu de juniores e campeão europeu de clubes.

Aos 18 anos, sente que tem o mundo a seus pés?
Sinto. E vou confessar, eu senti que estava a entrar na patetice. Estava a entrar no deslumbramento estúpido.

Como assim?
Eu ia para os bailes lá em Almada, deitava-me tarde, tinha a mania que dominava as miúdas todas, entretanto comprei carro, um Simca mil, e bati logo com o carro. Todas essas coisas começaram a apoderar-se de mim. Comecei armado em parvo.

Quem é que o faz baixar à terra?
Em primeiro lugar a minha mãe. O Costa Pereira, José Águas, Mário Coluna e companhia. Eles não me deixaram. Mais os dirigentes dessa altura que tinham aquilo que se chama o grande poder da palavra. Era impossível perder-me, tinha uma boa base em casa e no trabalho. Já tinha algum dinheiro, era famoso, comecei a ver a importância que isso tudo tinha, tornei-me num ídolo muito rápido. E isso é perigosíssimo. Não me deixaram, e acho que fizeram muito bem, estou grato a essa gente porque se fui pateta, foi durante pouquíssimo tempo.

Nessa altura andava sempre com o Eusébio. Ele também lhe dava na cabeça?
Muita gente não sabe, falam naquela humildade toda dele, mas eu quando falo do Eusébio eu falo de um homem que tendo dificuldade em exprimir-se tinha uma inteligência emocional incrível. As pessoas não o conheceram muito bem. Diziam: “Gostamos do Eusébio porque ele foi muito humilde”. Não era só isso. Ele não era estúpido, nem burro, ele não era culto, mas isso é uma coisa diferente. Ele era muito inteligente, tinha um inteligência emocional enorme.

A equipa do Benfica campeã europeia (1962), que ganhou 5-3 ao R. Madrid, em Amesterdão. Simões é o primeiro em baixo à direita

A equipa do Benfica campeã europeia (1962), que ganhou 5-3 ao R. Madrid, em Amesterdão. Simões é o primeiro em baixo à direita

D.R.

A primeira grande conquista é a Taça dos Campeões Europeus pelo Benfica em 1961/62...
Antes disso. Os primeiros jogos que fiz a sério na primeira equipa do Benfica foram em setembro de 1961, quando fui para Montevideo, sozinho com o Eusébio, porque o Béla Guttmann chamou-nos. Tínhamos ganho aqui 1-0, mas nós não jogámos. Perdemos lá o segundo jogo, 5-0, e não jogámos. No terceiro jogo ele chama-nos. Fomos daqui os dois sozinhos. Esse é o meu primeiro jogo internacional. O meu primeiro jogo no campeonato nacional é um Benfica-Sporting. A minha primeira internacionalização é num Brasil-Portugal. Que pontaria, não podiam ter escolhido melhor. Isto tudo aos 18 anos. Tudo seguido. Por isso é que há momentos quando se é jovem que são perigosos e hoje mais ainda. Admiro alguns jogadores que se conseguem conservar, cujo comportamento é muito respeitável, porque as solicitações são tremendas. Eu lembro-me de ir na rua e virem miúdos ter comigo e eu jogar com eles. Fiz isso muita vez. Eu senti que era um ídolo. Hoje são estrelas, não são mais ídolos.

Porquê?
Esta grande diferença social, tremenda, em que vivemos e com que temos de conviver, temos de ser inteligentes para poder distinguir o que interessa e não interessa. Por exemplo, o meu primeiro grande ídolo chamava-se Albano e jogou no Sporting. Vi-o uma vez a jogar e fiquei fascinado. Eu queria imitá-lo. Os miúdos hoje não querem bem imitar o Cristiano Ronaldo ou outro grande jogador, querem ter aquilo que o Cristiano tem. É a esta inversão de princípios e de valores que estamos a assistir na nossa sociedade. É terrível.

Muitas vezes são os próprios pais que alimentam isso.
Sem dúvida. Temos pais completamente obcecados, que empurram os filhos para tornarem-se jogadores de futebol apenas com o intuito de ficarem muito bem na vida e não para os fazer ser alguma coisa na vida, através do futebol. Porque é tão legítimo sermos alguma coisa através de jogar futebol, como de outra coisa. Estamos a deformar, não estamos a formar. Estamos por um lado a formatar, porque temos jogadores iguais que nunca mais acaba, e a mesmo tempo estamos a deformar porque estamos a incutir nos miúdos aquilo que se vê na televisão.

António Simões na semana em que deu a entrevista

António Simões na semana em que deu a entrevista

Ana Brigida

É mais difícil ser jogador de futebol hoje?
Hoje é mais fácil ser jogador, mas é mais difícil ser estrela. As condições hoje para um miúdo evoluir e corresponder ao seu potencial são extraordinárias e ele pode aprender não só a jogar, mas também a competir, que é algo que a sociedade exige. Há muitos miúdos que sabem jogar, mas como não sabem competir ficam pelo caminho. Por outro lado, as solicitações que hoje existem de carácter mediático, material, de egocentrismo... É difícil um miúdo de 16, 17, 18 anos que ganhe muito dinheiro não resistir à estrela que já estão a fazer dele. É preciso ter uma base de família e no clube, porque muitos deles perdem-se. Nem todos vão ser estrelas e não se preparam para outra vida.

Esse é outro problema. Mas também acontecia no seu tempo.
É verdade que sim. Mas os recursos materiais eram muito inferiores ao que são hoje. Hoje um jogador de 1ª Liga em Portugal, se for bom com o dinheiro, se perceber que o dinheiro não é de quem o ganha, é de quem o poupa, é capaz de arranjar a sua vida. No meu tempo não. Quem era o jogador no meu tempo que ficava rico a jogar futebol? Em Portugal? Não. Em Espanha, Itália e Inglaterra, sim. Mas hoje a vida é muito mais agressiva no que diz respeito à ânsia de ter.

Afirmou que agora os jovens têm de aprender a competir desde muito pequenos. Quando era jovem não havia competição entre os jogadores?
Havia alguma coisa, mas não tinha a dimensão que tem hoje. Hoje ganhar parece ser a única coisa. E aí estamos a correr o risco de aqueles que porventura não consigam ganhar não são nada. Não estou a exagerar. Há muitos jovens com valor que não podem jogar num dos três grandes, mas podem fazer uma carreira muito interessante noutros clubes e obviamente que nesses outros clubes ganham menos jogos e menos dinheiro. Não podemos é deitar fora gente que tem valor e que pode ser útil até mesmo depois de deixar de jogar. Há 10 anos eu já dizia que era incrível como não se aproveitavam esses jovens jogadores, que não vão fazer carreira profissional e jogam nas divisões inferiores, e que podem tornar-se excelentes árbitros. Porque têm a experiência do jogo. E hoje é possível fazer carreira de árbitro. Quem teve a experiência de jogar com certeza que isso vai ajudar a interpretar a lei.

Simões levanta a Taça de Portugal conquistada pelo Benfica, em 1968, no Estádio Nacional

Simões levanta a Taça de Portugal conquistada pelo Benfica, em 1968, no Estádio Nacional

D.R.

Teve vários treinadores no Benfica. Consegue dizer qual o marca mais e caracterizar, em poucas palavras, cada um deles?
Quem me marcou mais foi o Fernando Riera.

Porquê?
Vi que estava perante um homem extremamente culto e muito avançado no tempo. Ele pagou o preço de estar à frente do tempo. Todos nós pagámos um pouco o preço de estar para trás e esse é terrível, mas ter de pagar um preço por estar à frente é de uma grande injustiça. Assistimos a isso com Cruijff primeiro e Pep Guardiola depois, no Barcelona do tiki-taka. O sr. Riera chegou a Portugal e quis jogar tiki-taka. O problema é que veio depois de Béla Guttmann, que era passa e repassa, centro e golo. E a massa associativa, se tocássemos seis vezes na bola antes de entrar na área do adversário, já estava a assobiar. O Fernando Riera sabia que o futebol ia lá parar àquele modelo. Aconteceu muito tempo depois, mas ele quis fazer isso. O Benfica fez jogos brilhantes com ele a fazer isso, mesmo assim houve sempre uma certa intolerância.

E os outros treinadores?
Tentando definir todos os treinadores com quem trabalhei através de uma palavra posso dizer que Béla Guttmann era o astuto. Fernando Riera, o culto. Depois, o Lajos Czeizler era o reformado, ele veio aqui reformar-se, ficava na bancada a apanhar sol e a cantar o "Sole mio", enquanto o Caiado dava o treino. Chegávamos ao intervalo e discutíamos o jogo, que os outros estavam assim e assado e que tínhamos de ter cuidado e ele dizia "senhor, vida bela, 'nós ganhar' 3-0, no problema" [risos]. O Elek Schwartz era o divertido, para ele treinar diariamente era uma alegria, contagiante, fantástico, divertia-se com aquilo tudo. O Otto Glória era afeto. Era o que faltava se não viesse dos brasileiros, Scolari é outro, dos afetos, têm um jeitão para isso, são melhores do que nós. O sotaque também ajuda. O Jimmy Hagan era o rigor. Ele veio demonstrar ao jogador português profissional que a vida do futebolista profissional é muito mais dura do que nós estávamos habituados. O sr. Milorad Pavic, era o bon vivant. Um homem bonito, sempre muito bem vestido e bem cheiroso, em que primeiro é preciso desfrutar da vida, depois é que está o trabalho.

Algum deles deu-lhe uma dura, um puxão de orelhas?
Não digo puxar as orelhas, mas o Béla Guttmann foi uma peça fundamental no meu crescimento quando comecei, porque nunca mais esqueci o que eram as quartas-feiras de treino. Naquele dia havia treino de finalização e uma bola nova para cada avançado, sempre. E quando terminava e estávamos a fazer exercícios respiratórios ele dizia a todos nós: "Senhor, pôr dinheiro na banca. Senhor, fare amor una volta no mais (ou seja, ter relações sexuais apenas uma vez). Senhor, bebe una cerveja, una, no mais que una. Senhor, compra palácio para menino (comprar casa)". Todas as quartas-feiras ele repetia aquilo. Estou a falar isto depois de quase 60 anos e vou dizer-lhe, é marcante para um miúdo como eu estar a ouvir isto. Imagine o que é um miúdo com 16, 17 anos e estar a ouvir "fare amor a una volta", fazer amor apenas uma vez [risos]. Mas eu levava aquilo comigo.

Isso virou um mito, se os jogadores devem, podem ou não ter relações sexuais na véspera dos jogos. O que é que a sua experiência lhe diz?
A minha experiência diz que não devia fazer porque eu nunca fiz. Mas admito que possa ser um mito. Há quem defenda que ajude. Acredito que sim, com toda a sinceridade, mas eu estava agarrado à mensagem que me estavam a dar e em que eu acreditava.

A seleção dos "Magriços", que jogou o Mundial de 1966. Simões é o primeiro em baixo à direita

A seleção dos "Magriços", que jogou o Mundial de 1966. Simões é o primeiro em baixo à direita

D.R.

O António Simões apanha duas gerações completamente diferentes no Benfica. A geração do Coluna, do Eusébio, e a outra do Nené, do Artur Jorge...
Uma é o prolongamento da outra. No meu caso, quando estou com o Nené, Toni, Artur Jorge e por aí fora, já não estão os outros todos. Eu comecei muito novo, por isso posso dizer que pertenci a três gerações. À do Costa Pereira e companhia, a minha e àquela última que lá ficou quando saí. Estive no Benfica 16 anos. O Ângelo com quem joguei tem 88 anos e se o Costa Pereira fosse vivo tinha 90 anos. Os Nenés, o Jordão, Humberto Coelho, vieram dos juniores do Benfica e apanham o meu auge em que já sou o portador daquilo que me deixou o José Águas e o Mário Coluna. Há um ligação muito forte que obedece a uma matriz comportamental que tem a ver com a cultura do clube, que recebi e que tive o privilégio de dar aos outros.

Acha que essa matriz ainda existe?
Existe de outra forma. O Benfica nunca terá outra matriz que não a matriz popular, do povo, mas tornando-se naquilo que é hoje, uma grande empresa. O grande desafio hoje para quem manda é combinar e nunca minimizar a importância popular, da paixão do clube, a sua massa associativa, com a empresa de sucesso. Não pode é, pensando que agora é uma empresa, que a matriz já não é importante. É. Cada vez mais.

A cumplicidade que tinha com o Eusébio fora de campo refletia-se em campo, no jogo?
A cumplicidade dentro refletia-se fora e cá fora refletia-se lá dentro. O meu conhecimento do Eusébio como jogador e como homem foi de tal maneira que eu até sabia os momentos em que ele não queria a bola. Raramente ele não queria, mas eu sabia quando não era o momento para lhe dar a bola. Eu gritava com ele. "Está 0-0, os índios já estão a berrar, como é que é, achas que eu é que vou ganhar o jogo, ou és tu?". Isto ao intervalo. Mesmo durante o jogo gritava-lhe "Estás escondido. Mas o que é isto, quero passar a bola". Mas os génios são assim. Os génios também não estão prontos todos os dias. Neles está mais acentuado, porque são génios. E eu sabia isso, percebi sempre que ele era um génio. Bastava ele dar-me um sinal. Às vezes bastava ele dizer: "És um chatinho de merda” [risos]. Percebia-o muito bem. Tive momentos em que sabia que o tinha na mão. No bom sentido. E aquilo acabava quase sempre da mesma maneira.

Como?
Ganhávamos, ele fazia golos, e depois dos jogos, ainda na cabine, punha-me o braço por cima e dizia: "És um chatinho, mas está bem. Vamos jantar?". E íamos jantar.

António Simões com a camisola da seleção nacional

António Simões com a camisola da seleção nacional

D.R.

Fez a tropa?
Fiz, muitos anos [risos]. Fui chamado aos 18 anos, embora a chamada fosse aos 20.

Explique-nos isso.
Havia a seleção militar. Eu e o Eusébio fomos jogar para a seleção militar. Como eu tinha menos dois anos deram-me licença registada e uma farda para ir jogar, mas não ia ao quartel porque eu ainda não estava na tropa. Fiz dezenas de jogos. Depois assentei praça com 20 anos e estive até aos 23 anos.

Onde?
Fiz cabo de milicianos nas Caldas da Rainha, depois fui para a administração militar no Lumiar e acabei no Ministério do Exército, no Terreiro do Paço. Era um furrielzinho. Fiz uma recruta terrível nas Caldas da Rainha, tive de mudar-me para lá. Não fiz alguns jogos por causa da tropa. Por isso é muito engraçado quando dizem que o Benfica era o clube do regime. Nos três meses que fiz de especialidade eles "matavam-me". Fazia marchas de Lisboa para Sintra e de Sintra para cá, mas pela serra. E depois estive mobilizado para ir para a Guiné.

Pagou a alguém para ir por si? Já vários colegas seus admitiram que o fizeram.
Uma fortuna. Em fevereiro de 1966 sou mobilizado para a Guiné, estava na especialidade de Intendência. Éramos 21 e fomos os 21 chamados. Arranjei um rapaz chamado Ivo, que já tinha feito comissão no Ultramar. Mas a lei entretanto tinha sido alterada, dizia que eu não podia trocar com ele, uma vez que se tinha de trocar dentro do mesmo curso, do mesmo ano, blá, blá. Ele não era. Mas como eu tinha estado de licença registada dois anos antes, altura em que a lei ainda permitia trocar com outro qualquer, o coronel José Catela, que era dirigente do Benfica, agarrou-se a essa lei anterior, uma vez que entrei na tropa com ela em vigor, e acabei por conseguir trocar com esse tal Ivo.

Alguma vez voltou a encontrá-lo?
Encontrei-o anos mais tarde, em Moçambique, por lá andava, em África. Custou-me 150 contos [750€]. Era uma fortuna.

Quem pagou?
Antes que o Benfica tivesse alguma coisa, disse logo "Eu pago metade". Custou-me 75 contos [375€], e eu ganhava 250 contos [1250€] por ano. Ou seja, 30% foi o que eu dei para essa pessoa ir no meu lugar. Estou hoje convencido de que, se não tivesse dito que pagava metade, o Benfica pagava-me tudo. Isto em fevereiro de 1966, ou seja, quatro meses depois estou no Campeonato do Mundo. Sei que esse tal Ivo comprou um andar na Av. de Roma nessa altura [risos].

Campeonato do Mundo esse que ficou para a história, ficámos em 3º lugar. Aposto que sei qual é a primeira coisa que lhe vem à memória quando se fala nesse mundial...
O golo que eu marquei ao Brasil [risos].

Foi de facto especial.
Foi. Nunca fiz muitos golos de cabeça na minha vida. Ser no Campeonato do Mundo, ser de cabeça e ser contra o Brasil, é preciso dizer mais alguma coisa ou ficamos por aqui? [risos] Há muita gente que vem ter comigo ainda hoje e fala disso. Gente até jovem, que vai ao YouTube ver. Como apareço na televisão eles acabam por conhecer-me. Sabe, é bom quando temos tanta gente nova a vir ter connosco e a dizer: "Ó sr. Simões, eu revejo-me no que o senhor disse". Fico muito contente.

Simões (de costas), com Pelé

Simões (de costas), com Pelé

D.R.

Quando foi para a tropa já era casado?
Já. Eu conheci a Maria Julieta no metro. Olhei e vi no vidro o reflexo dela, não me virei, mas vi-a. Tudo começou aí. Depois conversámos, havia ainda aquela história de pedir namoro. Tinha os meus 17 anos e ela 15. Casei com 19 e ela 17. Era pai aos 20 anos. Tenho uma filha, a Ângela, que tem 54 anos [risos]. A Ana Teresa nasceu em 1966 e a Mónica Sofia em 1969.

Quando compra a sua primeira casa/apartamento?
Eu primeiro comprei alguma coisa para rendimento. Terrenos, etc. Fiz um pouco ao contrário. Quis investir para ter um pezinho de meia. Só comprei casa para habitar em 1969, em Linda-a-Velha.

É pai de três raparigas. Sei que chegou a ter um rapaz. Quer contar o que aconteceu?
É uma história dramática. Nasceu-me um filho, que seria o quarto, teria hoje 46 anos e a notícia espalhou-se rapidamente. As rádios, os jornais, tudo deu a notícia. Ele nasceu de sexta para sábado e eu vou para Tomar para jogar nesse domingo. No sábado de madrugada sou acordado com a notícia de que o miúdo faleceu, devido a uma complicação cardíaca. O que vou fazer? Jogo, não jogo? Lembro-me que o Eusébio e o José Torres estavam magoados e estávamos interessados em ganhar esse campeonato sem perder nenhum jogo. Fiquei com uma dúvida terrível. O Borges Coutinho liga para o hotel, diz-me que já esteve com a minha mulher, já tinha ido à clínica, que havia compreensão daquele lado, e que eu é que tinha de decidir se queria jogar ou não. Joguei.

Como correu?
No altifalante do estádio anunciaram a morte do meu filho, foi uma coisa horrível, o estádio cheio. Começa o jogo e logo no primeiro minuto o Nené vai pela direita, centra, o Nascimento que era o guarda redes do U. de Tomar dá um soco na bola para fora da área, eu apanho com o pé esquerdo e PUM! Foi um golo, uma coisa fantástica. Ganhámos o jogo com esse golo. Acho que fui miserável a jogar. E quando o jogo acabou fui no carro do Borges Coutinho para Lisboa, direto à clínica.

Foi o golpe mais duro da sua vida.
Foi. O falecimento do meu pai, que foi repentino, o falecimento da minha mãe e dos meus dois irmãos, eu era jovem, mas são pessoas que já tinham uma certa idade. Houve dois momentos terríveis, diabólicos. Este que tem a ver com o falecimento do meu filho...

Já tinha nome?
Já. Nuno Ricardo. Foi um um momento terrível que me obrigou a pensar noutras coisas. Afinal de contas o que é que vale mais? O que queremos ser? O que queremos ter?

Simões com Eusébio, em 1967, foto premiada de Eduardo Gageiro

Simões com Eusébio, em 1967, foto premiada de Eduardo Gageiro

D.R.

É um homem de fé?
Sou, mas muito pouco religioso. Ainda hoje tenho dúvidas. Criam-se duvidas nessas alturas. A outra coisa que marcou a minha vida foi fora do âmbito da família, mas nem sei explicar o que me custou. Foi a morte do Eusébio. A morte do Eusébio fez com que eu quisesse alterar a minha vida.

Em que sentido?
Estava a trabalhar no Irão e não quis trabalhar mais. Vim embora. Percebi duas coisas. A primeira: quem é que está a seguir? Foi a primeira vez que pensei na morte. Nunca tinha pensado nela, até ao dia em que o Eusébio desapareceu. Aí eu pensei: "Eh pá, o que é isto? Este gajo foi-se-me embora? Então, quem é que está a seguir? Sou eu! Irão? Não". Cheguei lá e tratei de tudo para me vir embora. Na viagem daqui para lá, Lisboa-Istambul, Istambul-Teerão as lágrimas nunca me deixaram. Nunca. Nunca. Entrei no meu apartamento sozinho e disse: "O que é que eu estou aqui a fazer?". No outro dia reuni com o Carlos Queiroz e disse-lhe: "Não quero estar mais aqui, vou para casa, vou viver a minha vida, vou estar com os meus amigos, vou estar com a minha família porque eu já não tenho muito tempo".

O Carlos Queiroz compreendeu?
Perfeitamente. Digo-lhe, nem vale a pena falar das outras coisas. As outras coisas tiveram importância mas estas duas, estes dois acontecimentos na minha vida, foram decisivos na minha forma de olhar e alterar coisas a que eu nunca tinha dado a devida importância. Não me esqueço daquele telefonema às seis e meia da manhã, ser confrontado com a morte do Eusébio e sentar-me na cama e só pensar: "Este gajo morreu? Este gajo morreu? Mas o que é isto?". Eu não vou dizer que todos os dias penso no Eusébio, mas é rara a vez que não penso nele. Quando se fala de alguma coisa, ele vem-me à memória; às vezes vou sozinho a conduzir no carro e, pá [bate com a mão uma na outra], ele vem; às vezes estou a ver um jogo e tenho saudades de estar a discutir com ele, ele a ver coisas fantásticas no jogo. Eu já não o tenho para falar disso tudo. E às vezes vejo-me aflito porque penso, se eu for dizer isto ninguém me liga nenhuma ou vai entender, mas se ele estivesse aqui…

Nunca se zangaram?
Ui, várias vezes. Ele era muito teimoso e à medida que os anos foram passando ainda ficou pior. Às vezes eram coisas simples, no carro, eu dizia vamos por aqui que é melhor, e ele atirava-se ao ar: "Não vamos nada por aí, tens que vir por aqui". Eu tinha que lhe fazer a vontade. Ele era assim. Uma vez estava no Irão, ele fez anos e um jornalista do jornal "A Bola" perguntou-me que mensagem é que eu lhe mandava e eu respondi: "Põe só uma coisa 'I love this guy' ". É isto.

Pelos vistos era recíproco porque ele chamou-o de "irmão branco".
É qualquer coisa. O filho da mãe guardou essa coisa para me dizer quase no final da sua vida. É logo a seguir ao 17 de dezembro em que lanço um livro sobre várias personalidades, e em que eu tenho uma conversa com ele sobre isso, essa eu não vou contar, e ele diz-me aquilo: "Tu és o meu irmão branco". Eh pá, meu Deus.

Foi uma surpresa?
Não, não sou surpreendido por me dizer uma coisa daquelas, mas eu não estava prevenido. Fui-me abaixo. Levei isso para casa, pensei e pensei, disse a amigos e numa outra situação, em que tenho oportunidade de comentar digo: "Se eu sou o teu irmão branco, tu és o irmão de todas as cores, do amor, do caminho, do compromisso, da cumplicidade, I love you man".

António Simões, no Benfica

António Simões, no Benfica

D.R.

Onde estava quando recebeu a notícia e como viveu o 25 de abril de 1974?
Estava em casa e dei comigo a ver televisão, a ver aquilo tudo. Mas no outro dia havia treino. Lembro de ter saído de casa de manhã e encontrar militares em Monsanto no caminho para o estádio. Até que um dia, mandaram-me parar e obrigaram-me a abrir o porta bagagens. Francamente não gostei nada de me terem feito uma coisa daquelas. Mas é um acontecimento histórico que faz todo o sentido, estava feliz com o que o que aconteceu.

Como era a sua relação com o regime e com a política?
Eu fui chamado duas vezes à António Maria Cardoso [sede da PIDE]. A primeira, porque tive uma relação platónica com uma senhora arquiteta que vivia na antiga Checoslováquia. Nunca aconteceu nada, ela lá e eu cá, mas a verdade é que ela enchia-me o correio com postais e cartas. Ela falava e escrevia italiano muito bem. Muitas vezes para responder-lhe até copiava um bocadinho daquilo que ela me escrevia. E andamos nisto. Um dia acabo o treino e tenho dois senhores à minha espera. Interrogaram-me por causa dessa troca de correspondência, acharam aquilo tudo muito estranho. Lá me expliquei. Ficou assim. A segunda, foi num jogo que se fez em Lourenço Marques, hoje Maputo, um Brasil-Portugal, se não me engano na inauguração do Estádio Salazar. Aquilo foi tudo menos uma equipa de Portugal. Cada um pelo seu lado, nada de controle, cada um fez a vida que quis, etc. E eu confesso que já estava noutra e fiz as declarações que achava que devia fazer. Disse: "Não é desta maneira que se representa Portugal nem o futebol português, tem que haver mais responsabilidade, mais organização". Responsabilizei um pouco a FPF, mas falando da seleção, das quinas, etc. Quando cheguei a Lisboa tinha duas pessoas à minha espera, no aeroporto, para eu explicar por que não fazia nenhum sentido representar Portugal assim. Ou seja, era como se eu estivesse contra Portugal. Lá tive que ir à António Maria Cardoso, desta vez acompanhado por um dirigente do Benfica, e mais uma vez o "Simões do Benfica" salvou-me de ter alguns problemas.

Sentia o peso do regime no seu dia a dia?
Não. Nós se servimos o regime foi de uma forma involuntária. Porque o regime aproveitou-se do sucesso do Benfica, convinha-lhe. Mas eu pergunto: e hoje não se faz? Fico com a sensação que até se faz mais. Mas atenção, eu não sou contra o fazer, eu não estou é de acordo quando se diz que no tempo da outra senhora é que assim ou assado. Não é assim. Não temos que ter complexo nenhum, temos de falar do que é bom, daquilo que somos capazes, das medalhas que conquistamos, do sucesso que conseguimos. Era o que faltava se não o fizéssemos, seria estúpido. Agora não tem que ser aproveitado pela esquerda, pela direita ou pelo centro, não temos de olhar como sendo o aproveitamento do regime, mas o aproveitamento do talento e da capacidade do nosso povo, independentemente de quem está no governo ou não.

Ana Brigida

Tentou criar um sindicato de jogadores.
É verdade. Eu sempre senti um estímulo enorme para valorizar o jogador de futebol como pessoa capaz e não apenas o jogador. Lutei sempre muito por isso, tanto que há uma entrevista dada por mim em 1967 em que o jornalista me pergunta quais são os direitos do jogadores de futebol e eu respondo: "É não ter direitos nenhuns". Tenho 23 anos de idade e eu sabia o que estava a fazer e a dizer.

Quando é que tenta formar o sindicato?
Desde 1967 até 1972 que ando nessa luta. Primeiro sozinho e depois com colegas.

Não consegue logo porquê?
Porque havia dois sindicatos em Portugal nessa altura, o dos vidreiros e dos metalúrgicos. Era uma coisa muito difícil. Jogadores de futebol terem um sindicato, mas porquê? Que direitos é que estes gajos têm? [risos] Nós fazíamos contratos por três anos e era a mesma coisa que fazer por 300. Os contratos acabavam mas os nosso direitos continuavam a não existir, tudo estava daquele lado. E é por causa do meu caso com o Benfica, em que estou para ir para o Boca Juniors e o Benfica não me deixa, que se inicia um processo de valorização profissional dos jogadores de futebol. Aparece pela primeira vez o Dr. Jorge Sampaio, que foi PR. É meu advogado durante muitos anos.

Como chega a Jorge Sampaio?
O Sporting percebe que me pode contratar e ele é sportinguista. É claro que não fui para o Sporting, nem teria condições para ir. Mas é uma decisão minha eu continuar no Benfica. Porquê? Porque o Jorge Sampaio olhando o meu caso percebe que é o momento de alguma coisa acontecer. O Boca Juniors estava interessado e o Benfica estava em atraso com salários. Começa-se a admitir que, não cumprindo o Benfica, eu tenho razão para rescindir. É claro que nada aconteceu. Mas é por causa disto tudo que nasce o direito de opção. Um clube estava interessado num jogador, oferecia mil contos [5000€] e o clube de origem para ficar com ele tinha de pagar 70%. É a primeira pequena grande conquista dos jogadores do futebol, o Jorge Sampaio acompanha-me e tudo se altera. O que dá alguma abertura para anos depois fazermos o sindicato. Depois ganhei mais força com a intelectualidade do Artur Jorge, com o Toni, o José Carlos e o Hilário, no Sporting. E o Eusébio sempre connosco, sempre.

Amanhã será publicada a segunda parte da entrevista a António Simões