Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

"Ofereceram-me 10 mil dólares para eu não jogar e convencer o Eusébio e o Nené a não jogar também"

Na segunda parte da entrevista à Tribuna, António Simões fala da sua experiência nos EUA, da fase de treinador, primeiro de futsal e depois como adjunto, e revela por que nunca vingou como técnico principal no futebol português

Alexandra Simões de Abreu

Ana Brigida

Partilhar

Vai para os EUA ainda em 1975. Porquê?
Eu tinha feito contrato um ano antes com o Benfica, até 1977. Vem o 11 de março de 1975 e isso teve influência, porque eu fui candidato à Constituinte pelo CDS, do círculo de Setúbal. E há uma manifestação contra. Em 1976 sou eleito como independente. Mas nunca estive filiado num partido, nem nunca estarei.

Vamos por partes. Como surge a política na sua vida e essa candidatura pelo CDS?
A convite do Dr. Freitas do Amaral. Alguém que o conhecia, benfiquista, que resolve dar informação e desafiar o Freitas do Amaral a convidar-me para deputado. Já tem a ver com o facto de eu ser um bocadinho diferente, de ter algumas ideias. É o primeiro reconhecimento de gente fora do futebol para com o António Simões. Esta é a forma de eu interpretar. Vou a casa do Dr. Freitas do Amaral e está também o Amaro da Costa. É aí que tudo começa. Só que percebi bem tarde, e mal no início, que o 25 de abril não tinha sido para todos.

O que quer dizer com isso?
Percebi que me tinha metido numa grande alhada. Mas também percebi que quando temos as nossas convicções devemos lutar por elas. Paguei um preço, eu sei, muito grande. Num Benfica-CUF, na Luz, tive grande parte do público contra mim. Porquê? Porque afinal de contas eu não era de esquerda. E na altura não ser de esquerda era quase um crime. É este entusiasmo exageradíssimo à portuguesa, do 8 ou 800. Antes vivíamos num regime ditatorial no qual sempre me manifestei contra, mas quando resolvi não correr para o lado esquerdo que era o que convinha, e muita gente foi oportunista nessa altura, o António Simões passou a ser fascista. Eu criei um sindicato, lutei pelos meus colegas, fui para a frente, e depois era fascista. Faltou maturidade ao país e a quem mandava, faltou algum equilíbrio mental, o que não surpreende porque ainda hoje somos assim. É cultural. Ainda nos falta aquilo a que eu chamo inteligência emocional. Por outro lado, desde muito jovem percebi, interiorizei e manifestei junto da minha família e dos meus amigos que no dia em que percebesse que faço um bom passe e há silêncio e faço um mau passe e há assobio, é o momento de me ir embora.

Simões com dois dos troféus que conquistou enquanto jogador

Simões com dois dos troféus que conquistou enquanto jogador

Ana Brigida

Como surge a oportunidade de ir para os EUA?
Esse jogo de que falei é logo a seguir ao 11 de março. Anuncio que vou fazer o último jogo pelo Benfica. Vou ter com o Borges Coutinho e digo-lhe "Não vou jogar mais no Benfica". E ele "Você está doido? Fiz contrato consigo o ano passado, tem mais dois anos, tem uma festa no valor de 650 contos (3250€)...".

Festa de 650 contos!
As festas de homenagem que se faziam na altura quando a carreira acabava eram negociadas, nós davamos um valor. Eu tinha aquele valor garantido. Disse-lhe: "Vamos fazer uma coisa, eu não quero dinheiro dos dois anos de contrato, nem quero festa. Só quero que me deixe ir embora". "Mas para onde o senhor vai?"; "Não sei"; "Então não tem clube?"; "Não". Entretanto saiu no jornal que vou fazer o meu último jogo pelo Benfica a 11 de maio. Um grande amigo meu, António Frias, um açoriano que vivia nos EUA, louco pelo Benfica, lê a notícia e telefona-me. Pergunta-me se não quero ir para os EUA. Digo-lhe que não.

Conhecia esse António Frias de onde?
Ele vinha a Portugal ver o Benfica, de vez em quando dava uns prémios do bolso dele. Era um louco pelo Benfica. Ele telefona-me uns dias depois e diz-me que tem um grande contrato para mim e para o Eusébio. Eram 1500 dólares (1320€) por jogo em dinheiro para mim e 2000 dólares (1760€) para o Eusébio. Comecei a pensar (risos).

Vai para o Boston Minutemen. Leva a família consigo?
A família fica porque as miúdas estão a acabar a escola. Mais tarde à medida que fui ficando elas vão, acabam lá o high school e fazem o college. Comecei a ver o potencial também para elas. Fico lá aqueles primeiros três meses sozinho, entretanto vêm as férias grandes e faço uns meses no Estoril Praia, porque lá só se jogava seis, sete meses e eu não podia estar tanto tempo parado. O treinador no Estoril era o António Medeiros e joguei com o Fernando Santos nessa altura, fomos colegas de equipa.

Quando regressa aos EUA vai para o San Jose Earthquakes.
O Boston Minutemen está com dificuldades de dinheiro, não me paga e nos EUA se um clube não cumpre o jogador fica disponível para ser contratado. Surgem vários clubes interessados em mim, mas eu tinha estado em San Jose da Califórnia com o Benfica e tinha ido lá com o Boston. Queria ir viver para a Califórnia, fui e adorei.

Tirou vários cursos lá, certo?
Sim. Tirei o curso de speech, aprender a discursar. O manager que me contratou disse que o meu inglês era bom mas que tinha de saber como vender o business. Percebi logo a ideia. Comecei a ir a empresas falar do season ticket, do próprio jogo, etc., porque tinha atrás de mim um prestígio enorme e as pessoas tinham curiosidade em ouvir-me. Depois tirei outro pequeno curso para saber como comunicar com os media. Ainda tirei outro na área do management para aprender com trabalhava o marketing, o merchandising, etc. Tanto que há uma história engraçada.

Conte.
Em 1989 venho cá ver o jogo Marselha-Benfica em que há o tal golo com o braço do Vata. O Manuel António que era um jornalista d' "A Bola" fez-me uma entrevista. Eu perguntei-lhe se ele conhecia algum clube português com departamento comercial. Ele diz que não. "Então como é que se vendem as coisas? Porque é que não se põe o nome nas costas da camisola dos jogadores toda a época? Porque é que não se vendem bilhetes de temporada? Porque é que não há equipamentos alternativos?". Comecei com esta conversa toda e diz ele assim "Desculpa lá mas tenho de te dizer uma coisa: estás todo americanizado" (risos). Eu respondi: "Ai é, e tu estás totalmente atrasado" (risos). Hoje temos tudo mas veja o tempo que levou. Ou seja, eu já estava a cavalgar outra onda.

Simões (à direita), com Pelé

Simões (à direita), com Pelé

D.R.

Íamos em San José...
Vou para San José, recebo o dinheiro que estava em atraso. Com quem vou jogar na equipa? Com o sr. Miro Pavlovich, que tinha jogado comigo na seleção da Europa. Fui para San José reviver aquilo que eu era aqui no Benfica. Sucesso e centenas e centenas de pessoas, portugueses e americanos, à minha espera depois do jogo. Foi um momento feliz.

Na altura o soccer, como eles chamam, não estava muito desenvolvido, também era fácil para si brilhar.
Claro que sim. Embora naquele tempo todos os grandes jogadores da Europa e do Brasil tenham ido para lá. Pelé, Bobby Moore, George Best, Cruyff, Beckenbauer, Eusébio, joguei com todos eles. Fui conviver com todos aqueles com quem já tinha convivido na Europa enquanto estive no Benfica.

É em 1976 que é eleito deputado, mas nessa altura já está a jogar nos EUA.
Eu jogava lá e cá. Fazia lá os tais sete meses e fazia cá a outra metade da época. Passei pelo Viseu e Benfica e União de Tomar também. Quando estava nos EUA vinha sempre cá para não perder o mandato.

O que achou do parlamento português?
Gostei muito. Posso nomear pessoas de quem gostei, Carlos Brito, do PCP, Amaro da Costa, Lucas Pires e Freitas do Amaral, o António Arnaut, do PS, e tive oportunidade de estar várias vezes com Sá Carneiro também. Convivi com eles. Estive na AR várias vezes, muito mais do que alguns dos que andam por aí agora.

Interveio em que área?
Sempre na área do emigrante. Consegui várias coisas para os emigrantes, não foi difícil devo dizer porque eles não tinham nada. Naquela altura se um emigrante trouxesse um frigorífico para cá tinha de pagar impostos de alfândega. Quer dizer nós andamos de roda dos emigrantes por causas das remessas, porque precisávamos do dinheiro de fora, e depois tinham de pagar, não lhes dávamos facilidades? Tudo isso foi conseguido na altura em que eu era deputado. É mérito de uma justiça que não existia, não é mérito de uma pessoa. Mas, voltando à questão, devo dizer que ficava fascinado com os debates, porque o tempo que levavam a levantar-se e a abotoar um botão do casaco era o tempo suficiente para pensarem na resposta que iam dar. Vi, assisti a isso. Foi para mim um momento muito especial. Fazer política era uma coisa nova e tive sorte de ter esses grandes professores, gente que sempre respeitei, não me interessa de que partido, gente inteligente e que esteve na política desinteressadamente, ao contrário do que hoje vemos. Aquela gente não foi para a política para fazer carreira, foram para a política para servir o país através do parlamento, e fizeram-no.

Foi convidado por Paulo Portas para integrar as listas do CDS, nas últimas legislativas. Como é que ele o convenceu?
Através do Telmo Correia, que está muito ligado ao Benfica. Perguntou-me se podia tomar o pequeno-almoço com o Paulo Portas, disse que sim. Mas confesso que fiquei ligeiramente desiludido, porque deixei que se servissem de mim. Não gosto que me façam isso.

Teve noção disso na altura?
Não, fiz de boa fé. Se pudesse voltar atrás não teria aceitado. O que vejo hoje é que essas pessoas só se interessam por alguma coisa quando sentem que têm interesse nela. A partir do momento em que sentem que não têm interesse nelas, desaparecem completamente, vão vender a manta para outro lado. Não gosto, tenho o direito de não gostar e vou sempre denunciar. Tanto faz que seja da esquerda, da direita, seja quem for.

Sente-se mais um homem de direita do que de esquerda ou já não faz essa distinção?
Quantos mais anos se percorrem na minha vida mais apreço tenho por gente que pertence ao Partido Comunista.

Porquê?
Estou saturado de tanta competência, tanta falta de honestidade. Não me dêem mais competência, dêem-me honestidade que já fico satisfeito.

Da competência ou da incompetência?
Não, não, é sempre na base da competência. Eu prefiro menos competência mas mais honestidade. É onde me encontro. E sobre esse aspecto, o Partido Comunista pode não ser tão competente, mas tem gente mais honesta. Mais coerente. Basta olhar para as Câmaras Municipais. Eu vejo o trabalho que é feito nas Câmaras comunistas e vejo o dos outros.

Foi por esse motivo que apoiou Bernardino Soares nas últimas autárquicas?
Exatamente. Já é um reflexo daquilo que penso sobre as políticas.

A direita desiludido-o?
Desiludiu-me porque há uma grande incoerência e há uma direita excessivamente interesseira. Falam muito melhor, mas fazem muito menos.

As três filhas de António Simões, em Nova Iorque

As três filhas de António Simões, em Nova Iorque

D.R.

Em 1977/78 joga pelo União de Tomar.
Novamente para não ficar inativo durante um longo período de tempo, enquanto não voltava aos EUA. Uma coisa é ter 25 anos outra é ter quase 35, se estamos três meses sem jogar depois como é que apanhamos outra vez o andamento? E lá fomos, eu e o Eusébio.

Depois vai para Dallas.
É o primeiro grande desafio que se me põe. Estou a perceber que a minha carreira está a acabar. Há um português chamado Francisco Marcos, do Bombarral, que constrói uma liga nos EUA, uma espécie de II divisão profissional de homens e mulheres, e desafia-me para ir para Dallas para trabalhar com o sr. Al Miller, um grande treinador que me deu conhecimentos fantásticos não só de futebol, mas da vida. Termino a carreira com ele. Fui para lá para ser assistente dele.

Foi uma espécie de jogador/treinador?
Era para ser apenas assistente, mas passadas umas semanas ele começou a ver-me treinar, pediu-me para jogar e ainda fiz 19 jogos.

Foi muito difícil pendurar as botas de jogador?
Não. Se fosse aqui teria sido mais complicado. Foi mais difícil quando saí do Benfica do que lá.

Quando vai para Detroit já é para treinar futsal.
Fui contratado para treinar uma equipa, a ganhar muito bom dinheiro e é aí que se dá o meu primeiro contacto com indoor soccer, que lá funciona como hóquei no gelo, com tabelas e com balizas são imputadas na parede. É um jogo de grande exigência física, em que jogam dois, três minutos e têm de sair, porque a bola nunca sai. Gostei muito.

Podia ser treinador sem curso?
Eu tirei o curso de treinador nos EUA. E vi-me aflito para passar, por causa da anatomia (risos). Tive que pôr um explicador, italiano, em casa a dar-me aulas só sobre anatomia. Aqueles nomes... (risos) Mas passei.

Em 1982 vai para Phoenix e fica lá até 1984 com a família.
Exato, mas só foram duas filhas, a mais velha já trabalhava na TAP cá em Portugal e não foi.

Em que é que se sente americano?
Quando olho para trás, há 40 anos, recordo que, em primeiro lugar nunca senti a mais pequena discriminação. Percebi que havia racismo, que é outra coisa, isso percebi. Mas no que diz respeito ao emigrante, zero. E tive a minha primeira grande experiência de democracia. Vi coisas nos EUA de verdadeira democracia. Basta olhar ao que aconteceu ao Nixon naquela altura, há 40 anos. Se de facto existia democracia, a América era o grande exemplo. Segundo aspecto, era de facto o país das oportunidades, para todos. Eu assisti e vivi isso. Não conheço nenhum outro país tão rico nesse aspecto. Terceiro, percebi que havia a América evoluída, avançada, de vanguarda e uma outra América extremamente fora do contexto, atrasadíssima culturalmente falando. Isto para mim foi uma lição, deu-me um conhecimento que ainda hoje alicerça muito aquilo que é a minha opinião sobre muitas coisas.

Não lhe espanta então a eleição de Trump.
Não, de maneira nenhuma. Tem a ver com as várias Américas que conheci. E é o conhecimento das várias realidades desse país que me dá o mundo que infelizmente falta muito a Portugal. Para mim a América foi um passo difícil, porque quando saí do Benfica não tinha clube, não sabia o que ia ser a minha vida, mas tive a mesma visão que o meu pai teve há 100 anos quando disse: "Estes dois filhos vão estudar". Eu pensei: "Eu vou para a América para aprender". Foi isso que fiz, aprender. Não a jogar, fui aprender a vida.

António Simões abraça e beija Eusébio no lançamento do livro “António Simões – personalidades e reflexões do mais jovem campeão europeu da história”, em 2013

António Simões abraça e beija Eusébio no lançamento do livro “António Simões – personalidades e reflexões do mais jovem campeão europeu da história”, em 2013

SERGIO MIGUEL SANTOS

Pelo meio ainda veio treinar o Sp. de Espinho.
Sim, em 1986, mas não correu bem, estive pouco tempo, não gostei.

Porquê?
Nós estávamos em pleno desastre daquilo que era a influência da arbitragem. A quantidade de coisas que aconteceram em Portugal nessa altura, felizmente eu não estive cá durante todo esse tempo, estive só esses seis, sete meses e chegou-me perfeitamente para perceber que já não era o futebol onde eu queria estar. Tive um jogador, que vou evitar dizer o nome, em Espinho, o jogador mais experiente que veio ter comigo. Nós estávamos com dificuldade em ter bons resultados e um dia esse jogador bateu-me à porta: "Mister, posso falar? Vou-lhe dizer uma coisa, nunca treinei tão bem na minha vida, nunca tive um treinador com tanta qualidade de treino como o mister, mas sabe uma coisa? Temos de saber quem é o árbitro no domingo. Se a gente não sabe, o mister nunca vai chegar a lado nenhum". Nunca mais me esqueci disso. Ele não resistiu a dizer-me aquilo porque percebeu que eu não estava dentro do assunto, era ignorante sobre essa matéria. Isto justifica o meu demérito de não ter conseguido ter sucesso no Espinho? Não, não apenas isso, foi também o estar completamente fora do ambiente, sobre esse aspecto a América não me ajudou.

Volta aos EUA, para Austin e fica lá até 1991/92. De todos os lugares onde viveu de qual gostou mais?
California. E menos Kansas City. Mas estive em sítios fantásticos com uma qualidade de vida ótima e lindíssimos, como Chicago, já lá voltei várias vezes e vou voltar. Adorei viver em Phoenix, Arizona, dois anos. Adorei viver na capital do Texas, Austin. É uma cidade linda, tem tudo o que não tem Dallas e Houston. Vivi um ano em Las Vegas e foi uma experiência fantástica. Tenho até um episódio engraçado.

Conte.
No ano em que o Carlos Lopes ganhou a maratona de Los Angeles, tinha acabado de chegar a Las Vegas, fui para o quarto do hotel Maryland, que era o casino/hotel do dono do clube. Sentei-me no banco aos pés da cama e ali fiquei a ver o Carlos Lopes a correr. Começo a sentir que o Carlos Lopes ia ganhar e fiquei doido, completamente doido, as lágrimas a cair. Eu queria festejar com alguém, queria partilhar: "Eu sou português, o Carlos Lopes ganhou a medalha de ouro". Venho na brasa pelo elevador, desço e está um italiano na recepção que já me tinha falado antes, começo logo aos gritos com ele a dizer que o Carlos Lopes ganhou, eufórico. Nisto começo a andar pelas bancas do poker e há um dealer de cartas que olha para mim: "Simões, estás cá? Não te vás embora, tenho de falar contigo". No intervalo dele veio ter comigo, fui jantar a casa dele nessa noite, com os irmãos, as irmãs, eram todos da Madeira e foi uma noite fantástica em que festejamos a vitória do Carlos Lopes. São momentos bonitos que o futebol proporciona.

Simões, em sua casa, junto da galeria de troféus que conquistou

Simões, em sua casa, junto da galeria de troféus que conquistou

Ana Brigida

Quando chega a Portugal, em 1992 o que vai fazer profissionalmente?
Quando chego não quero fazer muito. Quero olhar. Não estou convencido de que quero voltar ao futebol, mas aí aparece o Carlos Queiroz, através do Toni. Quer conhecer-me melhor. Era o selecionador nacional na altura. E percebe que tenho uma outra visão e sabe que é por causa dos EUA. Começamos a falar do hóquei sobre o gelo, de um livro que eu li e ele diz-me que também já tinha lido. Pensei, este está deste lado. A partir daí criou-se uma relação fantástica. Ele queria por força levar-me para a federação. Não havia lugar, não havia espaço, então criou o futebol feminino e fez-me selecionador nacional. É aí que o futebol feminino se reinicia. Mas com o intuito depois de vir a trabalhar com ele, que foi o que aconteceu.

É muito diferente liderar homens e mulheres.
Foi uma experiência extraordinária. Nos EUA já tinha vivido de perto essa realidade porque estavam muito mais avançados no futebol feminino e tinha amigos com filhas no futebol. Eu dizia já na altura que tinha de haver João Pintos, Figos e Rui Costas nas mulheres. Se há nos homens, tem de haver nas mulheres, porque isto é genético. Saber jogar não tem sexo.

No que é que as mulheres são ou podem ser melhor do que os homens no futebol?
Há uma coisa em que elas são melhores, mas não é só no futebol, é na vida em geral, são muito mais fiéis ao compromisso e menos interesseiras. É indiscutível. Agora, como é lógico, têm outras coisas, até reflexo da própria sociedade. Mas a mulher cometeu um erro. Ao querer ser tanto igual ao homem foi buscar coisas ao homem que não prestam. Não é não ter resistido à tentação de ter os direitos iguais, não é essa a questão que se levanta.

Dê exemplos.
Fuma demais, bebe demais, perdeu algum rigor. Uma das coisas bonitas que a mulher tem é primeiro ser mulher e a partir daí tem o direito de tudo o que o homem pode ter. Os exageros numa mulher parecem pior do que num homem. Às vezes o homem é um bocado grosseiro, já não abre a porta à mulher e a mulher entrou numa de: "Ai é? Então também não abro". Não façam isso. A mulher tem a beleza de saber estar. O carinho e a simpatia da mulher é sempre o sorriso e a mulher não pode deixar isso.

Depois de dois anos na seleção feminina vai com Nelo Vingada para a Ásia.
Sim, ele convidou-me para trabalhar com ele.

Qual foi o primeiro impacto?
Nas Arábias existe ostentação, é uma coisa que impressiona, é cultural. Por outro lado chocou-me aquilo que é inconcebível ainda acontecer, a mulher não ter a sua própria liberdade na atividade normal.

É o oposto do que estivemos a falar agora.
Exatamente, é uma coisa que não consigo compreender. Parece que aos poucos as coisas vão mudando, agora já podem conduzir, etc. Quando lá cheguei comiam com o véu, levantavam só um bocadinho para meter a comida na boca, não podiam mostrar a cara. Era horrível. No Irão, que foi a minha última etapa profissional, é uma hipocrisia tremenda, há tudo e mais alguma coisa por trás da cortina, à frente não há nada. As crianças começam logo por aprender a mentir porque em casa veem a mãe sem aquilo vestido e quando vão para a rua, vão todas tapadas. É uma mulher em casa e outra mulher fora. A criança começa a confundir. Não estou nada de acordo com isso. Respeito as religiões, as tendências, tudo isso, agora não faz sentido que para cumprir uma determinada religião, um determinado conceito, se retire a liberdade.

O que o chocou mais?
Foi assistir ao chegar de uma carrinha, porque havia umas jovens que não tinham o cabelo bem tapado, e ver a polícia religiosa a enfiá-las dentro da carrinha e levá-las. Fiquei doido, completamente doido. Não pensava que fosse possível.

A seguir vem para o Benfica de Vale e Azevedo. Fazer o quê?
Estive como dirigente e sai. Depois tive a experiência na Madeira que adorei, no Marítimo, como assistente do Nelo Vingada, uma época e meia fantástica. Correu muitíssimo bem. Ele é uma pessoa encantadora.

Simões, em Chicago

Simões, em Chicago

D.R.

Nunca quis ser treinador principal cá?
Uma das razões porque nunca aconteceu foi porque fui tendo convites de gente com quem adorava trabalhar. Carlos Queiroz, Nelo Vingada, Jesualdo Ferreira, etc, estas eram as pessoas que estavam à frente em Portugal quando cheguei e tive sempre muita curiosidade em estar com esta gente. Foi, digamos, uma opção, até foi mais uma opção de continuar a aprender.

Chegou a ter convites para ser treinador principal?
Várias vezes, em Portugal também.

Treinou o Lusitânia dos Açores.
Isso foi o tal amigo, o António Frias que me levou para os EUA, pediu-me o favor de estar lá alguns meses, mas não houve muitas condições.

Depois vai treinar os sub-23.
Mais uma vez o Carlos Queiroz pede-me, aparece a seleção de sub-23 e eu tenho uma experiência muito interessante.

Prefere trabalhar com gente mais nova?
Quando temos um capital de experiência, temos um trajecto, é muito importante aproveitar, sobretudo para os mais jovens. Hoje faço palestras, sou convidado para ir universidades, aqui e nos EUA. Gosto imenso de falar para jovens. Acho que tenho de dar a conhecer aos jovens o meu capital. Não aos da minha idade, esses já não vão lá (risos).

Estava há pouco a contar que vai como adjunto do Carlos Queiroz para o Irão. O que reteve do Irão?
Duas ou três coisas. A primeira, a paixão que o iraniano tem pelo futebol. São doidos por futebol, discutem futebol, vivem de futebol, é uma coisa impressionante. E o regime alimenta isso. Ninguém paga para assistir a um jogo da seleção. Estão 100 mil pessoas no estádio e não há um bilhete vendido. Aí sim, serve-lhes a religião. Mas é extraordinária a paixão que eles têm pelo futebol, é contagiante. Em segundo lugar, tenho de voltar a falar do contraste daquilo que aparenta e daquilo que não é. O Irão é um bom exemplo da hipocrisia. Terceira coisa é a cultura do mártir. Isto existe. É de tal maneira que se dá muito mais valor à morte do que à vida. Não gostei. Por último dizer que não quero dizer com isto que o povo iraquiano não presta. Não é verdade. Presta e há gente culta. Vale a pena conhecer o Irão, mas não vale a pena esconder uma hipocrisia, que é bem visível, e que não tem nenhum interesse para a sociedade.

Simões (à direita) com Eusébio, no Mundial da África do Sul, em 2010

Simões (à direita) com Eusébio, no Mundial da África do Sul, em 2010

D.R.

Assume que gosta de viajar. Qual o local que mais lhe encheu as medidas?
Não consigo ver o mundo sem os EUA. Marcou-me. Mas vou dizer com toda a sinceridade, se a Escandinávia tivesse mais sol, era para onde eu gostava de ir viver.

Porquê?
Porque as pessoas são cultas, são honestas, educadas, têm o sentido de servir o país, são patriotas. Todos têm uma missão para cumprir em prol do todo, revejo-me nessa sociedade. Só que o frio é tanto que me arrefece o desejo (risos).

Depois de vir do Irão, e já explicou que teve a ver com a morte do Eusébio, o que tem feito? Consegue resumir a sua vida até agora?
Leio muito. O último livro que li foi sobre o Messi e o Cristiano Ronaldo. Continuo interessado nisso.

Um é melhor do que o outro?
São diferentes. Um é a essência do jogo, o Messi. O outro é o objetivo do jogo, Cristiano Ronaldo. É assim que vejo. Se me perguntar se prefiro mais a essência, eu digo que sim. Mas se me perguntar se é o mais importante, digo-lhe que não. Os dois juntos fariam o jogador que está para vir daqui a 100 anos.

O jogador perfeito.
Exatamente. Mas tenho mais inclinação para o Messi, porque algumas coisas que ele faz, fiz eu em menor escala, mas lembro-me de as fazer.

Ronaldo é o melhor jogador português de sempre?
É o jogador de futebol com os melhores números de sempre. Quando se falar em números é o Cristiano. Quando se falar no jogo, para mim, continua a ser o Eusébio.

Para si o Eusébio vai ser sempre o melhor.
Até hoje. No conceito do que é o jogo para mim. O Cristiano jamais será um jogador de meio-campo, nunca. Nunca será o grande pensador do jogo. Eu vi o Eusébio ser o grande goleador e depois passar a ser o grande pensador. Não acho que o Cristiano tenha essa capacidade que o Eusébio teve. O Cristiano é um jogador para jogar o jogo, não todo, nem em todo o tamanho do campo. Não tem todo o tamanho do campo com ele, nem tem todo o tamanho do jogo com ele. O Eusébio teve. É por isso.

É comentador na televisão. A primeira vez que o convidam para ser comentador era o que estava à espera ou não?
Eu ainda estava no Irão e foi o próprio Toni que me ligou a dizer que a SIC Notícias estava a pensar em convidar-me para o "Play-off". Aceitei. A maior parte das pessoas que fala sobre o jogo não tem nada a ver com o jogo, e as que tiveram a ver com o jogo são muito pouco pedagógicas. Acho que se quisermos mudar o paradigma da cultura desportiva em Portugal, que não existe, tem que ser iniciado por quem jogou. Não é possível ter uma cultura desportiva se o discurso na televisão não for pedagógico.

Considera que há programas a mais, com comentadores a mais?
Excessivamente a mais.

Choca-o ter comentadores que não foram jogadores ou treinadores?
Não, não me choca nada porque pode haver gente que nunca jogou mas tem a cultura do jogo, tem o relacionamento com o jogo e é capaz de dar uma opinião interessante. Conheço gente que jogou, que não tem muito boa relação com o jogo, e que não está para ser pedagógico, está apenas para servir, não quem o contratou, mas quem ele representou. E isso é muito mau. Tem de haver uma independência naquilo que é a obrigação pública de dar uma opinião educativa, de conhecimento e não tentar agradar os que estão no clube a que ele pertenceu ou pertence. Jamais vou hipotecar os meus princípios e valores, por causa do meu benfiquismo. Aprendi a respeitar uma cultura desportiva porque ela existe, nos EUA. Se alguma vez tivesse tido dúvidas de como devo atuar baseado numa cultura desportiva, nos EUA tirei as dúvidas todas, porque lá respeita-se e exercita-se uma cultura desportiva. Aqui não. Aqui vejo nos canais de televisão um hipotecar terrível da cultura desportiva, para servir o patrão. E não é o patrão da televisão que lhe paga, é o patrão de que ele veio recomendado, esse é que é o problema.

António Simões com as três filhas

António Simões com as três filhas

D.R.

Há pouco passou por cima dos sete meses em que foi dirigente do Benfica no tempo de Vale e Azevedo. Foi ele que o abordou? Como é que lá foi parar?
Através de um amigo dele. Eu estava na Arábia Saudita com o Nelo, fui desafiado para um grande projeto e acreditei.

Quando é que se apercebeu que o projeto e Vale e Azevedo não era como lhe tinham “vendido”?
Logo passados dois ou três meses comecei a perceber que o homem mentia. Dizia uma coisa, depois dizia outra. Eu ficava doido. Levei o professor Nelo Vingada para tomar conta da área da formação, começamos a falar e eu dizia-lhe: “Ó Nelo, este gajo é doido, este gajo mente. Não podemos estar aqui muito tempo, temos que ir embora, pá”. Entretanto começo a ver a chegada dos jogadores ingleses com o Souness e por aí fora. No final da época fui embora.

Mas voltou ao Benfica como dirigente.
Voltei com o Vilarinho. Numa situação muito difícil, reflexo daqueles quatro anos do Vale e Azevedo. Aí foi uma situação extremamente complicada porque não havia meios, o Benfica estava quase na bancarrota, foi um sacrifício tremendo para se conseguir jogadores, depois veio o Luís Filipe Vieira que deu uma ajuda preciosa e aos poucos lá se foi endireitando. E eu estive até um determinado momento quando percebi que se começa a admitir a vinda do José Veiga, tomei imediatamente a minha decisão, com o José Veiga não, e vim embora.

Porquê?
Porque não são essas as pessoas que são referência na minha vida. Cheguei a um momento na minha vida, em que eu falo e trabalho com quem quero. É um direito que me assiste. Sou um homem livre, como tenho uma independência financeira, permite-me ter uma independência intelectual. Quer isto dizer que estou certo e o outro é que está errado? Não. Quer isto dizer que sou importante e o outro não? Não. Quer isto dizer que quero ser um exemplo para alguém? Não. Quer isto dizer que eu sou um cidadão exemplar? Não. Quer isto dizer que tenho de desfrutar da minha independência? Sim.

Não concorda que os empresários façam parte da vida dos clubes?
Eu compreendo que eles tenham que existir. Quando fui para os EUA, já havia o agent. Eu tive um agente uma única vez na vida. Mas a questão é: uma coisa é haver um agente que representa um jogador, outra coisa é haver empresários que vivem à custa do futebol, mas não fazem nada. Apenas fazem por cumplicidade com os dirigentes, este é que é o problema. imagine: há um jogador que é representado por um empresário e está na altura desse jogador renovar o contrato. As negociações dão-se com o jogador diretamente ou só com o empresário ou com os dois. Porque é que tem que ser o clube a pagar ao agente do jogador? Quem é que tem que pagar ao empresário, não é o jogador? O empresário não está a prestar um serviço ao jogador? Está a prestar um serviço ao clube? Porquê? Em quê? Não estou a perceber. Então e paga-se ao empresário, não há nenhuma razão para isso. Outra coisa é eu pedir ao empresário para fazer três jogos nos EUA e quero 1 milhão de dólares por cada jogo, ele consegue-me isso e eu pago-lhe 10 ou 15% conforme o combinado, porque ele prestou-me um serviço.

Ou se o clube pedir diretamente a um empresário um determinado tipo jogador.
Exatamente. Agora ele representa um jogador e eu dou-lhe comissão. Porquê? Qual é a razão? Não faz muito sentido. Porquê? Eu digo-lhe porquê. Porque sempre que existe esta situação, o dirigente também ganha. Este é que é o problema. Porque é que não há resistência ao comportamento de determinados empresários que vivem à custa do futebol e que não prestam serviço nenhum ao futebol? Porque interessa ao dirigente. Isto é verdade. Hei-de pôr no meu livro de memórias, porque é que um dia um empresário me ofereceu um milhão de dólares, para eu trazer um jogador para o Benfica e não veio. Eu não ganhei um milhão de dólares. É verdade. Um dia conto isto.

Porque é que esse empresário não foi buscar esse jogador diretamente?
Só podia ir buscar se houvesse o sim de alguém que estava no clube. Eu fui convidado para ir ver um jogador e trazê-lo para o Benfica, mas esse jogador não veio porque não prestava para nada. Eu não ganhei um milhão de dólares. Mas sabe para onde é que ele foi? Para o FC Porto. Um dia vou pôr isso nas minhas memórias.

António Simões em sua casa na semana em que deu a entrevista à Tribuna,

António Simões em sua casa na semana em que deu a entrevista à Tribuna,

Ana Brigida

Disse numa entrevista que fica com uma mágoa para o resto da vida ao ver o Benfica acusado no processo do e-toupeira.
Porque já ninguém apaga essa mancha. Mesmo que toda a gente seja ilibada. Uma vez que cai publicamente, não há nada a fazer.

Porque é que foi afastado da Benfica TV?
Porque sou um homem livre. Houve um equívoco tremendo, eu só disse que não me revia em gente que trabalhava no Benfica. Só disse isto. Mas como também disse que o Luisão era o Benfica, e que eu era o Benfica, como são os bicampeões europeus, pegaram nisso, esqueceram-se do resto. A questão é que não me revejo em Pedro Guerras e companhias. E tenho esse direito. Ficaram muito chateados.

Já sabemos que a maior amizade que fez no futebol foi com o Eusébio. E inimigos?
Acho que não. Nunca fui expulso, nunca tratei mal um árbitro, um adversário. Fiz muito para me defender a mim, aos meus e ao meu clube. Às vezes fui um bocado chato com os árbitros, mas em 700 jogos que fiz na vida nunca quis comprometer um árbitro depois de ele ter cometido um erro, nunca. Porque sei perfeitamente que é horrível estar a evidenciar perante um estádio cheio, que ele cometeu um erro. Isso é a pior coisa que se pode fazer a uma pessoa, nunca o fiz. Pelo contrário, passava pelo árbitro e às vezes assoprava “não faça isso outra vez”, mas não ia para lá levantar braços.

Tem superstições?
Só quando jogava.

O que fazia?
Entrava com o pé direito, benzia-me, pedia para não me magoar, essas coisas assim.

O melhor e o pior que o futebol lhe deu?
O melhor é fácil. Vou dizer do quanto a paixão me alimentou. Para mim o futebol ainda continua a ser uma paixão. O futebol deu-me o mundo que tenho e que nunca teria se não tivesse sido jogador de futebol.

E o pior?
Aquilo que ando a assistir todos os dias. O pior que me podem fazer é não haver futebol transparente em Portugal. Nós temos paixão pelo jogo mas estamos sempre desconfiados com qualquer coisa do jogo. Isso é o pior que há.

Não foi sempre assim?
Não, não foi, foi de há uns tempos para cá.

Consegue apontar esse tempo, uma década?
Tudo isto começa com a impunidade do poder político sobre o futebol e vice-versa. E é extraordinário que o poder político ainda não se conseguiu libertar de utilizar o poder, contra o poder do futebol na política. Não consigo perceber como é que a política continua a ter tanto medo do poder do futebol.

António Simões a dar uma palestra sobre liderança

António Simões a dar uma palestra sobre liderança

D.R.

O melhor e o pior na carreira?
O melhor foram os 16 anos no Benfica. O pior, tenho um desgosto enorme, uma dor, do Benfica não ter sido tricampeão europeu. Como é que é possível que em três finais, em 1963, 65 e 68 não se ter feito tricampeão. É a coisa que me está mais atravessada na carreira, é isso.

É costume dizer-se que há benfiquistas antiportistas e benfiquistas antisportinguistas. Em qual deles se encaixa?
Nós, jogadores, não, nunca. Se os jogadores quer no meu tempo, quer em todo este tempo, fossem atrás do discurso de determinados dirigentes, havia uma batalha campal todos os domingos. Veja o respeito que existe entre eles. Os jogadores sobre esse aspecto, são um grande exemplo para os dirigentes. Tendo em conta a violência verbal constante dos dirigentes, se os jogadores não se respeitassem, imagine o que é que já teria acontecido.

Se não fosse jogador de futebol o que é que teria sido?
Professor de matemática.

Já escreveu um livro sobre outros (“António Simões – personalidades e reflexões do mais jovem campeão europeu da história”), nunca pensou escrever a sua autobiografia?
Agora começo a estar mais inclinado para isso. Acho que devo deixar registado algumas coisas, porque há muita coisa que se passou na minha vida que nunca contei, algumas lindíssimas, outras diferentes e que faria com que os mais jovens soubessem quem é este António Simões que jogou futebol, foi campeão europeu tão jovem. O que ele é o que foi o que fez. Porque acho que tenho mundo, vivi e trabalhei em muito país, visitei mais de 80 países, conheço mais de 400 cidades no mundo e é muito importante que os mais jovens ouçam quem tem mundo.

Não querendo fazer desta entrevista a sua autobiografia, pode revelar uma ou duas dessas histórias nunca contadas?
Num jogo na Grécia, Olympiacos-Benfica, tínhamos ganho cá 2-1, para a Taça dos Campeões Europeus. Fomos jogar a Atenas e sou abordado por um sujeito que queria pagar-me 10 mil dólares para eu não jogar e convencer o Eusébio e o Nené a fazerem o mesmo. O sr. Otto Glória tinha saído do Benfica, estávamos numa época difícil, o treinador era o Sr. Fernando Cabrita. A minha reação foi "eu tenho de contar isto imediatamente ao sr. Cabrita". Era já tarde, eu não consegui dormir e tive de ir lá bater-lhe à porta. Acordei-o, disse-lhe o que se tinha passado e que não conseguia dormir, porque tinha receio que aquilo continuasse, que viesse mais gente ou que ele voltasse a aparecer. Estava a oferecer 10 mil dólares para eu, o Eusébio e o Nené não jogarmos. Foi terrível. Quer mais uma?

Claro. Força.
No ano em que entrou o Vale e Azevedo no Benfica e trouxe um treinador chamado Graeme Souness, eu percebi que o Benfica estava a ser utilizado como um autêntico entreposto de entrada e saída de jogadores. Eu estava tão indignado que nos sete meses que lá estive com ele emagreci seis quilos. Andava completamente doido, impotente para travar aquilo, a ver o meu clube a ir para o fundo. Ao fim de seis meses, saí, mas não fui embora calado, houve outros que ficaram lá, calados, mas eu vim embora e denunciei. E há uma reunião entre mim, Vale e Azevedo e Souness em que eu peguei numa cadeira para atirá-la pelo ar… Fiquei com ela na mão e saí. E há uma senhora chamada D. Olga que foi secretária do presidente durante muitos anos que ouviu tudo. Bati com a porta quando saí, ela vira-se para mim e diz: "O sr. Simões não quer continuar aqui, pois não?". É a primeira vez que estou a contar isto publicamente. Isto para dizer que há coisas que fazem parte da minha vida e da minha própria personalidade, algumas delas deixaram ferida, mas, por outro lado, sinto que fiz aquilo que devia ter feito. Não estou arrependido daquilo que não fiz, estou mais arrependido de algumas coisas que fiz e que não devia ter feito. Acho que aqui e acolá cometi alguma injustiça, excesso de rigor, exigência, pouco tolerante. Acho que às vezes não tratei bem quem devia ter tratado. Mas essas são coisas que fazem parte da nossa vida.

Essas injustiças de que fala foram enquanto dirigente ou enquanto treinador?
Às vezes mesmo até com os amigos. Fui, em certos casos, excessivamente rigoroso, excessivamente exigente, pouco tolerante, acho até que a minha carreira de treinador se prejudicou por causa disso. Porque eu não percebi na altura, quando passo a treinador, que nem todos tinham que ser como eu. E cometi esse grande erro. E hoje estou arrependido.

  • “No Benfica, aos 18 anos, senti que estava a entrar no deslumbramento estúpido. Ia aos bailes, deitava-me tarde, comprei carro e bati logo”

    A casa às costas

    António Simões nasceu em Corroios, tem um irmão gémeo que desertou, perdeu o pai aos 13 anos e logo a seguir iniciou a sua carreira no futebol, num percurso do qual se destaca o Benfica, Eusébio e os EUA, além dos títulos. Porque esta não é uma entrevista sobre futebol mas sobre a vida, que foi passada em grande parte a jogar futebol, o mítico jogador do Benfica relata como viveu o golpe mais duro de todos: a morte de um filho acabado de nascer depois de já ter três filhas. E como o falecimento do grande amigo Eusébio lhe mudou a vida. Simões também fala de política, e de como esta afetou a sua saída do Benfica, das duas vezes que foi chamado pela PIDE, e por que razão foi candidato pelo CDS, embora se mantenha independente e sem se filiar (Esta é a primeira de uma entrevista com duas partes: amanhã será publicada a segunda)