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A casa às costas

Mário Silva: “Quando os trigémeos nasceram a minha mulher teve síndrome de Hellp. Ia ficando viúvo. Foi um milagre ela ter sobrevivido”

Cresceu com a bola nos pés, no Bairro do Bom Pastor, no Porto, e cedo rumou ao Boavista, onde fez toda a formação até se estrear como sénior. Mas foi no FC Porto que Mário Silva viveu os melhores anos da sua carreira, tendo feito parte da equipa que conquistou a Taça UEFA e a Liga dos Campeões, com José Mourinho. Nesta viagem ao passado, o atual treinador dos juniores do FC Porto recorda como aos 23 anos esteve quase para ficar sem um rim, fala de Mourinho, assume que não foi muito feliz além-fronteiras, revela como foi difícil ser pai e como quase ficou viúvo no dia em que os filhos nasceram

Alexandra Simões de Abreu

FERNANDO VELUDO / NFACTOS

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Nasceu no Porto. Fale-nos um pouco da sua família.
O meu pai chama-se Artur, a minha mãe Norberta, são ambos da cidade do Porto. Eu nasci na maternidade Júlio Dinis em Massarelos. A minha mãe foi empregada de escritório e o meu pai era serralheiro mecânico nos STCP. As minhas origens são humildes, mas, felizmente, tanto eu como a minha irmã Cátia, mais nova do que eu, tivemos a riqueza de uma boa educação.

Cresceu onde?
Primeiro vivi na zona da Circunvalação, mas aos cinco anos mudámo-nos para perto do Bairro do Bom Pastor, onde passei a minha infância e cresci juntamente com o Petit e outros colegas. Fui para a Rua Vale Formoso, para uma habitação camarária que era mesmo pegada ao bairro.

Quando se fala da infância, qual é a primeira coisa que lhe vem à memória?
É o futebol no ringue do bairro. Eram dias inteiros unicamente focados e concentrados em jogar à bola.

Torcia pelo FC Porto?
Sim. Os meus pais também são portistas. Mas tenho uma grande parte da minha família que é boavisteira. Outra parte é portista.

Quem eram os seus ídolos em criança?
O Paulo Futre, que era um esquerdino fantástico. Era, sem dúvida, o meu grande ídolo. Lembro-me de ter o cartão de atleta do Bom Pastor quando jogava já federado e com o cartão da Federação de Atletas do Porto ia ver os jogos do FC Porto e o meu objetivo era ver o Futre. Tentava imitá-lo, o cabelo, a maneira de jogar.

O Mário também é esquerdino.
Mas escrevo com a mão direita. Os meus pais contam que quando eu era pequeno tinha a tendência de usar a caneta na mão esquerda e como havia aquele estigma de que quem é esquerdino depois ficava com a letra feia, eles estimularam-me para escrever com a mão direita. Mas de resto faço tudo com a mão esquerda.

Mário Silva com os pais

Mário Silva com os pais

D.R.

Estava a dizer que foi para o clube Bom Pastor?
Para o Núcleo Desportivo do Bairro do Bom Pastor, exatamente o mesmo do Petit.

Quando vai para lá?
Com cinco anos. Passávamos as horas livres a jogar futebol no ringue do bairro e era assim que normalmente se recrutavam os jogadores para o clube, eram com os meninos do bairro que tinham jeito, uns mais, outros menos, que se formavam as equipas.

Gostava da escola ou nem por isso?
Fui sempre um bom aluno, nunca reprovei até ao 9º ano. Andei na escola do bairro, no preparatório mudei-me para a escola de Paranhos e estive aí até ao 8º ano, quando me transferi para o Fontes Pereira de Melo, porque entretanto a minha formação foi feita no Boavista e eu, para ter a capacidade de estudar e jogar, tinha de frequentar uma escola perto.

E como surge o Boavista?
Surge num jogo que nós do bairro fazemos contra o Boavista e que surpreendentemente ganhamos. Eu e o Petit destacmo-nos nesse jogo e o Boavista interessou-se por nós, quis que fossemos para lá, a troco de chuteiras, equipamento e bolas, fomos eu e o Petit.

Que idade tinha?
Fomos para os infantis, tínhamos 11 anos. Ou seja, dos seis aos 11 joguei no bairro, e depois no Boavista.

Nessa altura em casa era ponto assente que podia fazer da sua vida futebol, era isso que o Mário queria também?
Ainda antes deste episódio do Boavista tinha surgido o FC Porto, eu e o Petit também nos destacámos e na altura num jogo com o FC Porto e o clube convidou-nos a ir lá treinar, andávamos lá mas jogávamos na mesma pelo Bom Pastor. Ao fim de duas semanas como não nos davam nenhuma resposta decidimos não ir mais, até porque o FC Porto já tinha meninos com muita capacidade, como é normal, e se calhar passámos um pouco despercebidos.

Foi uma grande desilusão?
Não foi tanto desilusão, porque não nos mandaram embora, nem nos disseram que não nos queriam, mas como não nos diziam nada e ao mesmo tempo olhávamos à nossa volta e víamos meninos com muita qualidade, decidimos voltar ao bairro, porque para nós o mais importante era jogar futebol. Pouco tempo depois é que surge o convite do Boavista.

Mário Silva na escola primária

Mário Silva na escola primária

D.R.

Quando começa no Boavista, ainda com 11 anos, não lhe pagavam nada.
Não, só me pagaram depois, salvo erro com os meus 17 anos, porque já era um jogador das seleções jovens. Foi aí que comecei a ganhar algum dinheiro. Antes o que nos davam era um subsídio para o passe mas como o meu pai era trabalhador dos STCP eu tinha passe grátis.

Nunca quis ser outra coisa senão jogador de futebol?
Não, desde que me lembre e até hoje a minha vida tem sido o futebol.

Quando é chamado pela primeira vez a uma seleção?
Aos 15 anos. Fiz o meu percurso todo nas seleções nacionais, desde os sub-15 à equipa principal. Tive a felicidade de ser internacional A, mas a infelicidade de ter sido só uma vez.

Em que jogo?
Num Portugal–Finlândia, um jogo particular no estádio do Bessa, antes do Mundial 2002. Fui chamado mas as coisas não correram muito bem. Perdemos esse jogo e as opções naquela altura eram outras e nós temos que as respeitar. Nesse jogo as coisas não saíram como eu queria.

Estava muito nervoso?
Não, por acaso não estava, até estava atravessar uma fase boa no clube, na altura já jogava no FC Porto. Mas nesse jogo as coisas não correram bem coletivamente, foi a primeira vez que fui chamado e depois disso nunca mais surgiu a oportunidade. Só mais tarde com o Scolari, mas entretanto no jogo anterior a ter sido chamado, fui jogar pelo FC Porto com o Panathinaikos, à Grécia, para a Taça UEFA e lesionei-me. A vida também é isto, é termos a sorte de nos momentos certos, as coisas correrem bem. Lembro-me que quando subi a sénior e me deram a oportunidade para jogar, no Boavista, tive o mérito, a felicidade e a sorte também de as coisas me correrem positivamente. Existe um momento nas nossas carreiras, principalmente na passagem de júnior para sénior, em que precisamos também de sorte.

Mário Silva com a irmã

Mário Silva com a irmã

D.R.

Quem o chama à equipa sénior é o Manuel José?
Sim, estreei-me na I Divisão, na altura, com o Manuel José, ele apostava muito em nós, os que passávamos da formação para o futebol sénior. Depois tive outros treinadores que deram continuidade.

Voltando às seleções jovens, conquistou algum titulo?
Fui campeão europeu de sub-18, em Mérida, Espanha, e sobre isso tenho uma história curiosa.

Conte.
Eu era sub-17 mas fui chamado a treinos dos sub-18, as coisas até me correram bem, mas quando saiu a convocatória final, o meu nome não estava lá, não fui convocado. Entretanto lesiona-se um jogador. Eu estava de férias com os meus amigos do bairro, a acampar em Vila Praia de Âncora. Na noite anterior fomos divertir-nos, como faz parte da adolescência, e, porque estava de férias, tinha ido beber um copo e deitei-me tarde. Quando já estávamos nas tendas, de repente começo a ouvir chamar o meu nome, pensei: “Devo estar a sonhar”. Os meus amigos: “É o teu pai, é o teu pai”. E eu: “Ui, o que é que se passou? O meu pai aqui?!” O meu pai nem sequer tinha carro, andávamos de transportes públicos. Não havia telemóveis, nem nada e ele tinha recebido uma chamada da seleção em como eu tinha sido convocado à última hora para colmatar a baixa do colega que se tinha lesionado. Então foi com um primo nosso que tinha carro chamar-me. Foi dessa forma que me tornei campeão europeu.

Foi praxado?
Não, eu já tinha feito parte dos treinos daquela seleção, apesar de ser sub-17. E por acaso nunca fui praxado, safei-me sempre.

Mesmo no FCP?
[risos] Não. Nunca me sentei na cadeira que eles tinham preparada para os novos.

Porquê, já sabia?
Não, não sabia, mas éramos vários novos e tive sorte de não me sentar lá. Acho que foi o Clayton quem se sentou lá, mas não tenho a certeza. Lembro-me que quando passei a sénior no Boavista, não havia nenhuma praxe mas todos os jogadores tinham o seu cacifo e nós, os que acabávamos de chegar, tínhamos ao fundo do balneário, num canto, uns cabides sem direito a cacifo. Tínhamos primeiro de ir para ali e só depois de algum tempo é que podíamos passar para os cacifos, mas praxe não me lembro.

Mário Silva começou a praticar futebol no Clube do Bom Pastor

Mário Silva começou a praticar futebol no Clube do Bom Pastor

D.R.

Quantos anos tinha quando se estreia na equipa principal com o Manuel José?
Tinha 18 anos. Foi num jogo contra o Campomaiorense.

Já ganhava dinheiro.
Sim. Assino o meu primeiro contrato de formação com 17 anos. Entretanto sou chamado ao Mundial de sub-20. Aquela geração que tinha sido campeã europeia em Mérida de sub-18, fez depois o Mundial de sub-20 no Qatar. Fizemos medalha de bronze. Eu era o jogador mais novo, fiz 18 anos precisamente no Qatar.

Teve uma festa diferente. Alguma prenda especial?
Não, na altura eles ofereciam coisas alusivas à Federação, um relógio, um prato com o símbolo da Federação, etc.

Qual foi o valor do seu primeiro ordenado?
Acho que eram 50 contos na altura e depois passei para 80.

Lembra-se do que fez com o primeiro ordenado?
Acho que comprei umas chuteiras da Adidas, que hoje são banais. Era algo que eu queria muito, via os outros terem e eu não conseguia porque infelizmente os meus pais não tinham essa facilidade. Sempre me deram tudo o que precisei mas não havia luxos e isso era um luxo na altura.

Os seus pais permitiram-lhe ficar com o dinheiro?
Sim, sabiam o filho que tinham, ainda hoje falamos nisso. Sabiam que eu não era de esbanjar, se calhar também face a não ter aquelas coisas extra que muitos meninos tinham. Ainda hoje sei dar valor ao dinheiro.

Mário Silva no dia da entrevista com Tribuna

Mário Silva no dia da entrevista com Tribuna

FERNANDO VELUDO / NFACTOS (EXCLU

Já namorava?
Sim, comecei a namorar com a Susana, a mãe dos meus filhos, aos 17 anos. Foi viver lá para o bairro com 15, 16 anos. Conhecemo-nos aí e começámos a namorar com 17.

Foi amor à primeira vista.
Mais ou menos... Mas a verdade é que é até hoje. Casámos com 21, na altura já era profissional, tornei-me profissional aos 18 anos, depois do Mundial do Qatar assinei o meu primeiro contrato por três anos com o Boavista.

Quando se estreia com o Manuel José, lembra-se de alguma coisa que ele lhe tenha dito?
A única coisa que ele me disse foi: “Miúdo, vai jogar”. Deu-me as indicações táticas, desejou-me uma boa estreia e que fosse a primeira de muitas.

Como é que ele era enquanto treinador? Gostava do estilo?
Gostava. O Manuel José era um treinador muito exigente mas de bom relacionamento com os jogadores. Era aquele estilo duro e exigente mas ao mesmo tempo com valores humanos e que apreciava muito os jogadores jovens que vinham da formação, o que para a nossa geração no Boavista foi muito importante. Foi uma vantagem ter um treinador como o Manuel José. Não conseguiu apostar em todos que queria mas apostou em grandes jogadores que depois vieram a ser transferidos para grandes clubes.

Viveu uma época muito conturbada no Boavista, teve três treinadores num ano.
Isso foi quando o Filipovic substituí o Manuel Casaca de forma interina e depois entra o Mário Reis. Esse é o ano em que ganhamos a Taça de Portugal ao Benfica, em Lisboa, com o Mário Reis.

Mário Silva, 12 anos, em primeiro plano, a comemorar uma vitória do Boavista

Mário Silva, 12 anos, em primeiro plano, a comemorar uma vitória do Boavista

D.R.

O que é mais difícil para um jogador quando numa mesma época tem de lidar com três treinadores diferentes?
O futebol é feito de resultados e o treinador depende dos resultados. Lembro-me que com o Filipovic, que era na minha opinião uma excelente pessoa e um treinador que não tinha medo igualmente de apostar nos jogadores jovens, as coisas não correram bem ao nível dos resultados e ele teve que sair. Aí, nós, jogadores, temos que nos adaptar rapidamente à forma de ser, à metodologia. São maneiras diferentes de abordagem no treino, mesmo ao nível de feedback como treinadores, uns dão mais do que outros, e os jogadores têm que adaptar-se o mais rápido possível e acreditar ao máximo naquilo que são as ideias do treinador que vem a seguir, tentando pôr um bocadinho de parte o que está para trás. Muitas vezes a competência existe, pode é não haver resultado, eu pelo menos vejo as coisas assim. O Filipovic por exemplo, identificava-me muito com ele como treinador.

Porquê?
Porque sempre me identifiquei com treinadores que do ponto de vista humano fossem, ou que me parecessem pelo menos, boas pessoas. Existe aquele treinador que é próximo dos jogadores, aquele que é mais distante, eu gostava daqueles que eram mais próximos dos jogadores e, principalmente quando era jovem, que nos ajudavam, aconselhavam e ensinavam. O Filipovic era assim, o Mário Reis também. Tive o Jaime Pacheco também, de uma forma geral tenho uma muito boa imagem dos treinadores que tive.

O Jaime Pacheco marca uma época grande no Boavista. O que é que ele tinha de diferente em relação aos outros?
Todos os treinadores têm a sua ideia e todos são diferentes. Com o mister Mário Reis tínhamos ganho a Taça de Portugal. Ele tinha uma forma de estar muito positiva, era um treinador que a nível de ler o jogo no banco, à assertividade que tinha nas substituições, era diferente de todos os outros. O Jaime Pacheco chegou numa fase em que as coisas não estavam a correr bem com o Mário Reis. Não tive a felicidade de ser campeão nacional com o Jaime Pacheco porque entretanto nesse ano fui para França, fui transferido, mas a imagem que se criou do mister Jaime Pacheco que aquilo era só coças e porrada, não é bem assim. Ele tinha uma metodologia em que acreditava, tinha a forma dele, que era a exigência, o trabalho, o rigor.

Não era um treino muito baseado no físico?
Ele tinha treinos com bola muito bons, muito positivos, e de que gostávamos muito. Agora, tinha sempre aquela vertente da parte física, porque ele acreditava que uma equipa bem preparada fisicamente conseguia muitas vezes colmatar alguns défices que tivesse noutros níveis. Lembro-me que na altura em que éramos treinados por ele, qualquer equipa que jogava contra nós estava desconfortável porque nós éramos intensos, agressivos, ambiciosos, gostávamos muito de ganhar. Com ele fui vice-campeão. Era uma pessoa que incutia muito isto nos jogadores. O jogador muita vezes estava cansado mas mentalmente sentia-se capaz porque tinha aquele treino de espírito de sacrifício e quando chegava aos jogos conseguia superar-se. Na altura ouvíamos muitas críticas, que era só porrada, que éramos uns caceteiros e que só corríamos, mas tínhamos um jogo de qualidade. Na minha opinião jogávamos bem e estávamos sempre muito bem preparados. Não acredito que uma equipa só bem preparada fisicamente consiga ganhar campeonatos. Tem que ter o seu mérito e jogar com qualidade.

Mário Silva foi chamado pela primeira vez a uma seleção, com 15 anos

Mário Silva foi chamado pela primeira vez a uma seleção, com 15 anos

D.R.

Casa em 1998.
Sim.

A sua mulher continua a estudar?
Ela fez gestão mas não chegou a acabar o curso, deixou algumas cadeiras, porque entretanto nós vamos para França e ela teve que interromper.

Quando vai para o Nantes já tinha filhos?
Não.

A ida para França surge como?
Estivemos um ano na Liga de Campeões por termos sido vice-campeões. Fomos à eliminatória e passámos à fase de grupos. Eu estava numa forma sensacional, sinceramente a despertar cobiça a vários clubes. Entretanto ao serviço da seleção nacional de sub-21, em outubro de 1999, tive uma lesão grave, no jogo Portugal-Hungria, no campo do Estoril. Lembro que o falecido Fehér fazia parte da equipa que jogou contra nós fazia. Fiz uma fratura renal, algo pouco comum no futebol.

Como fez essa lesão?
É quase inexplicável, foi numa queda, como milhentas quedas que tive. Caí mal, não estava a contar com o choque e caí mal. Toda a gente pensava que eu estava a passar tempo, estávamos a ganhar, salvo erro 3–0, quase no final do jogo. Mas eu sentia que algo grave se passava comigo, estava com algumas dificuldades em respirar e fui substituído. Vieram assistir-me, tinha ficado com o braço trilhado na zona das costelas e pensavam que era uma contusão na grande costal. Diziam-me: “Isso não é nada”. Eu que nunca fui um jogador mole, sempre fui rijo, só para ter ideia uma vez fraturei o pé direito, fiquei com o pé virado ao contrário, num treino, sozinho e a minha reação foi endireitar o pé, pôr-me de pé, para tentar continuar. Na verdade não consegui porque estava todo partido.

Isso foi quando?
Foi antes de eu casar, em 1998. Mas faz parte, são as lesões. Fiz uma lesão no perónio com rutura de ligamentos, o meu pé ficou virado ao contrário. Vi toda a gente com as mãos na cabeça quando viram o meu pé, mas eu endireitei-o e disse: “Estou bom, vou-me levantar”, mas depois não consegui, estava todo partido e tive que ser operado. Isto para dizer que eu era rijo, não era qualquer coisa que me abalava. Mas naquele momento eu percebi que não estava bem. Tive que sair. Quando cheguei ao balneário, não sabia o que tinha, na zona das costelas tinha um pequeno hematoma, pensei que tinha sido do choque mas alguma coisa em mim não estava bem. As pessoas viam-me, diziam que não devia ser nada e sem maldade nenhuma qualquer um dizia que tinha sido um lance normal. Eu estava com queixas mas devia ser uma contusão. Mas eu nem conseguia ir tomar banho. Toda a gente tomou banho e eu que devia tomar banho para depois ir com a minha mulher para o Porto, terminava ali o estágio, não conseguia. Na altura o nosso enfermeiro, o professor Leonel, não sei se ainda é vivo, disse-me: “Mário, vais fazer uma coisa, vais pôr água a correr”. Nós no final dos jogos não conseguimos urinar, tanto que quando vamos ao controle, temos que beber muita água para depois conseguir urinar. E ele: “Vais abrir a torneira e vais urinar para um copo para eu ver uma coisa”. Abri a torneira, já estava só com ele no balneário e consegui fazer um pouco. Saiu como se tivesse tirado sangue de uma veia. Ele disse logo “Alto, vamos chamar uma ambulância para ir para o hospital”. Sai direto do estádio para o hospital onde fiz um TAC que acusou a fractura renal e fiquei internado.

Em Lisboa?
Sim, acho que foi na CUF, estive lá 12 dias internado.

Mário Silva chegou a senior ainda no Boavista

Mário Silva chegou a senior ainda no Boavista

D.R.

Obrigou a operação?
Felizmente não. Se for preciso intervenção numa fratura renal é para tirar o rim. No meu caso, o doutor Ferrito, que me acompanhou, quando viu que eu era profissional de futebol, teve o bom senso de esperar. Estabilizei por mim. É como se fosse uma ferida que está a sangrar e ou estanca ou não. Há coisas curiosas, lembro-me que, no sexto dia o cirurgião entrou no meu quarto e veio ver os meus sinais vitais. Até aí eu tinha estado sempre a perder sangue, a minha hemoglobina estava com valores muito baixos, já perto do limite quando ele veio ver-me. Viu a pulsação, os olhos, quis saber como é que eu estava e eu pensei, “Vou ser operado”. Já tinha consciência de que se me operassem nessa altura era para retirarem o rim.

Isso implicava deixar de jogar.
Sim. Tinha 23 anos na altura.

Nessa semana o que é que lhe passou pela cabeça?
Foi horrível. Com 23 anos e numa fase ascendente da carreira. Tinha feito um golo que tinha sido considerado o golo da semana e do mês, na Liga dos Campeões, contra o Feyenoord, pelo Boavista em casa. Claro, só pensava: “E agora? O que é que vou fazer da minha vida?”. Não tinha estudos, tinha deixado a escola no 9º ano. Mas fiquei sempre com aquela esperança de que ia dar certo, que ia correr bem, vamos aguentar mais um dia. Normalmente nestas lesões ou não há hipótese e chega-se a um limite em que já há perigo de vida e tem que se operar, porque se está a perder muito sangue; ou então ela estabiliza por si. Felizmente foi o que aconteceu. O médico nesse dia teve o bom senso de dizer: “Vamos esperar até amanhã de manhã”. E no dia seguinte de manhã, quando urinei para o recipiente, a urina já estava mais clara. Todos os dias me levavam para fazer ecografias e exames, entretanto veio a notícia do médico: “Parece que estabilizou. Os níveis deixaram de baixar, estabilizaram e agora, Mário, é tudo a ganhar, é sempre a subir”. E assim foi, ao 12º dia tive alta.

Esteve quanto tempo sem jogar?
Acho que dois meses, mas eu ao fim de um mês e meio, já me sentia bem, forcei, forcei e voltei a treinar, felizmente. Continuei a jogar, recuperei o meu lugar de titularidade, e no final dessa época, falava-se de alguns pretendentes e surgiu o Nantes que fez uma proposta ao clube. O Boavista chegou a acordo.

Tinha empresário na altura?
Tinha, era o José Veiga. Ele que veio ter comigo quando eu estava no Boavista, pouco antes da minha transferência.

Mário Silva, jogador do Boavista a disputar uma bola com Sérgio Conceição do FCP

Mário Silva, jogador do Boavista a disputar uma bola com Sérgio Conceição do FCP

D.R.

Quando lhe disseram Nantes, França, qual foi a primeira reação?
A primeira reação foi: “Não quero”. Porque olhava muito para o campeonato inglês. Nunca consegui jogar em Inglaterra, infelizmente, joguei em Espanha, em França, mas em Inglaterra não consegui jogar.

Não tinha o sonho de jogar no FC Porto, Benfica ou Sporting?
Tinha, principalmente no FC Porto. Foi um clube de referência para mim, que sempre admirei desde pequenino.

Mas não surgiu nada na altura.
Não. Falava-se do interesse até do Benfica, mas nunca me chegou nada. Concretamente só a proposta do Nantes. Eu tinha estado num torneio em Montaigu, que por acaso até não fica muito longe de Nantes, e não tinha gostado de França. O país em si, a comida.... Tinha essas memórias e o campeonato francês não era divulgado. Eu queria era Espanha e Inglaterra, Alemanha, Itália, mas o clube já tinha chegado a acordo e era uma proposta irrecusável. Se não fosse também não fazia sentido e parti para a aventura.

Quando partiu, foi com a ideia da Susana já ir consigo?
Sim, sem dúvida, ela teve que abdicar do curso, já estava na faculdade. Mas no início fui sozinho, nem fui logo para Nantes, fui do Porto para a Áustria, ter com a equipa, que já tinha começado o estágio.

Mário Silva saiu do Boavista para o Nantes. Foi a primeira aventura fora de Portugal

Mário Silva saiu do Boavista para o Nantes. Foi a primeira aventura fora de Portugal

D.R.

Como é que foi conhecer a equipa?
Foi duro porque a barreira linguística foi grande. Eu era mais inglês. Francês era zero. Era chinês. E era a primeira vez que saía da cidade do Porto. Era um novo clube, um novo país, uma língua que para mim era difícil. Ao princípio foi duro e os franceses não são bons acolhedores, não são como nós que tentamos logo ajudar. Eles não. Ainda por cima na altura era um clube que apostava muito na formação e fomos campeões nacionais esse ano com 22 jogadores formados no Nantes. Depois havia o Moldovan, que era romeno, um argentino, o Olembé, que era camaronês, eu... Éramos quatro ou cinco estrangeiros, mas de resto era tudo da carteira do Nantes.

Foi um embate grande.
Foi duro e naquela pré-época, na Áustria, falavam do Jaime Pacheco, mas lá os treinos eram muito duros, eram em altitude e da parte da manhã era só a vertente física, muito duro mesmo, e o facto de eu ter ido direto de férias para lá… Foi duro em termos fisicos e em termos emocionais porque era a primeira vez que estava sozinho. Dei por mim algumas vezes a pensar: “O que é que eu estou aqui a fazer? Mas é isto que eu quero, tenho que lutar”. Via os outros jogadores todos juntos e eu ficava sozinho.

Não estava lá nenhum português?
Estava o Fréderic da Rocha, que é um luso francês, mas também estava envolvido com eles, não é por maldade, ia tentando ajudar-me. Naquele momento foi mais o choque, ficava mais no quarto, até porque estava muito cansado. Quando chegamos a Nantes do estágio, as coisas melhoraram porque entretanto também chegou a minha esposa.

Ficaram a viver onde?
No primeiro mês ficamos a viver num hotel e depois encontrámos uma casa perto do centro de treinos.

A adaptação da sua mulher foi boa?
Também foi difícil porque também era a primeira vez que saía da cidade do Porto. Nós vivíamos naquele ambiente do bairro, depois casámos, vivíamos muito perto dos pais e dos sogros e por isso para ela foi duro, não tinha ninguém lá. Foi muito mais duro para ela do que para mim. Ao princípio foi algo deprimente porque não tinha o que fazer. Ela ficava no hotel o dia todo, eu tinha treinos bidiários e deslocações para aqui e para ali. Passava muito tempo sozinha. Quando tivemos casa ela já se ocupava de coisas do jardim, fazia o almoço e o jantar, ia ao supermercado. Foi lá que comi raclette pela primeira vez, crepes salgados, moules...

Mário Silva , no Porto, no dia da entrevista a Tribuna

Mário Silva , no Porto, no dia da entrevista a Tribuna

FERNANDO VELUDO / NFACTOS (EXCLU

Esse ano correu bem?
Sim, fomos campeões nacionais, fiz 26 jogos, mais os jogos das competições europeias, foi uma época positiva. Ainda hoje tenho amigos franceses.

Aprendeu francês?
Tive um professor quando lá cheguei, o clube já tinha esses recursos. Saí daqui do Boavista que tinha um estádio com um campo de treino e nada mais e chego lá e dou de caras com um centro de treinos, com 10, 12 campos, escola, residência e refeitório para os jogadores da formação, estamos a falar de 2001. Ou seja, dei de caras com uma realidade completamente distinta. Esse professor, que falava espanhol, durante 15 dias andou comigo e com a minha mulher de manhã à noite. Foi uma grande ajuda no início.

Há alguma amizade maior de que se recorde?
Depois de passar aquela barreira inicial, eles são muito dos beijinhos entre homens. Nós normalmente esses beijinhos é com o pai e com o irmão, mas lá depois de se conseguir chegar à pessoa e ser amigo dão-se beijos. Eu consegui fazer a amizade de beijinho com alguns, o Fréderic da Rocha e o Nicolas Gillet, pelo menos com esses dois. Também fiquei com boa amizade com o diretor geral do clube, o Henri Leport. A esposa dele ajudou bastante a minha e pelos menos esses três são pessoas que ficaram.

Mário Silva e Pinto da Costa na altura em que o jogador assina pelo FCP

Mário Silva e Pinto da Costa na altura em que o jogador assina pelo FCP

D.R.

Vem embora porquê?
A época tinha corrido muito bem e eu tinha assinado contrato por quatro anos. Fomos campeões nacionais, íamos jogar a Liga dos campeões no ano a seguir. Tínhamos ganho a Liga Europa, a antiga Taça UEFA na altura, porque eles tinham ganho a taça antes de eu chegar e no ano a seguir íamos jogar a Liga dos Campeões, mas no ano a seguir, surgiu o interesse do FC Porto.

Mas a proposta do FC Porto não veio via José Veiga, ou veio?
Não. O FC Porto fez uma proposta ao Nantes e eles aceitaram. Já havia acordo de clubes e eu depois cheguei a acordo com o FC Porto.

Teve que se desvincular com o Veiga porque ele não tinha relações com o FC Porto.
Sim.

Isso foi complicado?
Não. Eu queria muito o FC Porto e fiz o que tinha que fazer. Ainda hoje penso nisso, um agente de um jogador tem que ser um agente que esteja para ajudar. Eu se quero ir para um sítio, o agente nunca pode, penso eu, complicar. Ou seja, a vontade maior e a que deve prevalecer deve ser e tem que ser sempre a do jogador. E na altura como o José Veiga e o FC Porto não tinham relações, tive que rescindir com ele porque eu queria muito ir para o FC Porto e se fosse com o José Veiga não conseguia.

Teve de pagar-lhe alguma coisa?
Não. Na altura os advogados que trataram do assunto disseram que tive motivo para a rescisão. Os advogados é que trataram do assunto e ficou tudo acordado.

Mário Silva já com as cores do FCP

Mário Silva já com as cores do FCP

D.R.

Quanodo chega ao FC Porto ainda apanha Otávio Machado como treinador. Que tal?
Guardo muitas boas recordações do mister Otávio Machado: a exigência, o rigor. Ele era uma pessoa que gostava de mim e como era treinador e responsável foi ele até que fez com que a minha transferência fosse viável, porque se ele dissesse que não queria, de certeza absoluta que o presidente não me ia contratar.

Entretanto chega José Mourinho. Ele era assim tão diferente como as pessoas diziam?
Sim, sem dúvida. Um treinador de uma geração mais jovem, que vinha com ideias diferentes das que tinha o mister Otávio Machado. Não quer dizer que fosse melhor ou pior, mas era diferente, e notava-se acima de tudo que ele criava uma aura muito positiva à volta de todos, transmitia muita confiança a todos os jogadores. Uma das grandes virtudes que ele tinha era saber chegar aos jogadores, saber tocar naquilo que ele achava importante para tirar o melhor rendimento do jogador. De todos. Normalmente um jogador que não joga é um jogador muito crítico do treinador e eu agora que estou deste lado de treinador dou por mim a perceber isso. Mas com o Mourinho era diferente, ele criava uma atmosfera muito positiva e tanto os jogadores que jogavam, como os que não jogavam o admiravam e acreditavam nele. E a mensagem dele chegava. Notava-se conhecimento e experiência que ele já tinha dos vários anos como adjunto e como treinador principal. Ele dava-nos a segurança da competência, reconheciamos nele essa mesma competência e ao mesmo tempo a empatia que criava com os jogadores era uma coisa fantástica.

Com ele ganha Taça UEFA, Liga, Taça. No ano a seguir a Liga dos Campeões, Liga e Supertaça - ou seja esse espírito de vitória entranhou-se.
Muito, muito. Há um episódio que aliás é público. Nós perdemos com o Panathinaikos nos quartos de final da Taça UEFA, no ano em que até acabámos por ganhar a Taça UEFA, mas tínhamos perdido por 1- 0 em casa e o Mourinho chegou à conferência de imprensa e disse o que nos disse no balneário mal terminou o jogo: “Isto ainda não acabou.”. Num clube como o FC Porto, que estava a fazer uma boa campanha, perder em casa com o Panathinaikos e depois ter de ir à Grécia, e nós sabíamos como é que são os jogos na Grécia, os próprios jogadores estão um bocado frustrados. Mas ele chegou e a primeira coisa que disse foi: “Isto ainda não acabou, estamos no intervalo. Podem escrever e acreditem que nós vamos à Grécia e vamos ganhar 2–0”. Deu-nos logo ali uma lufada de... Aquilo foi novo e logo ali no final do jogo começamos a acreditar que 15 dias depois íamos à Grécia ganhar. Depois ele faz questão de falar isso publicamente e a verdade é que fomos à Grécia e, parece que ele é bruxo, mas ganhámos 2–0, continuamos em prova até que acabámos por vencê-la. São coisas que nos marcam. Ele tinha essa crença, essa convicção, esse optimismo sempre dentro dele e as coisas batiam certo.

Mário Silva com a Taça UEFA conquistada ao serviço do FCP

Mário Silva com a Taça UEFA conquistada ao serviço do FCP

D.R.

Os treinos do José Mourinho também eram muito diferentes daqueles a que estavam habituados?
Fantásticos. Eram 90 minutos de treino porque era o tempo que nós jogávamos, não havia aquelas tareias de duas horas, como outros treinadores faziam. Ele veio mudar isso. Dizia que não precisava de ir para o parque ou para a praia, porque a equipa joga neste retângulo, nestas medidas, com este piso.

Eram sempre com bola?
Era tudo com bola. Tinha a vertente física associada, eras impossível não ter, mas não tinha a vertente física isolada, tinha num contexto de jogo e isso para era motivante. Terminarmos um treino esgotados mas que tenha sido com bola e com exercícios que nos motivem, é diferente de andar no Parque da Cidade a correr hora e meia. Ele veio mudar e revolucionar o futebol por aí.

Esteve num FC Porto cheio de estrelas. Há figuras míticas, como por exemplo o capitão Jorge Costa, o “Bicho”. O que é que ele tinha de tão especial?
O Jorge tinha a mística do clube, tinha aquilo a que nós chamamos muitas vezes um jogador à Porto. Aquele jogador que nos transmitia e nos passava os valores do clube.

Havia mais algum jogador que tenha passado um bocadinho mais despercebido, mas que também tenha era muito influente e um transmissor dessa míitca?
O Paulinho Santos. Era alguém muito importante no balneário, e ajudava o Jorge nessa tarefa. Mas posso falar de de muitos outros, muitas vezes as pessoas não sabiam o que eram enquanto seres humanos e julgavam pelo que viam no jogo. São pessoas excecionais. Nós criámos um ambiente de equipa de coesão e se calhar por isso é que ganhamos tudo o que havia para ganhar.

Essa união e coesão no grupo também acontecia porque vocês conviviam muito para além do futebol.
Sim.

Mário Silva, em baixo à direita, chegou a jogar pela seleção A

Mário Silva, em baixo à direita, chegou a jogar pela seleção A

D.R.

Havia muitos almoços, muitos jantares, o mítico autocarro...
Exatamente, eu vivi isso tudo e acho que foi fundamental. Uma equipa pode ser muito boa, ter muita qualidade, ter um excelente treinador, mas na minha opinião se não existir este espírito, essa união... O capitão dizia que tínhamos um almoço de equipa e não havia ninguém a dizer: “Eh pá não posso”. Toda a gente ia. “Hoje vamos jantar” e toda a gente ia.

Isso não se passa hoje?
A geração que temos neste momento é completamente diferente. Todas estas novas tecnologias e toda esta abertura que existe com estas redes sociais... Acho que se perde um pouco o espírito. Hoje em dia vamos a um balneário e é preciso o treinador principal muitas das vezes dizer: “A partir daqui não há mais telemóvel”. Nós na altura conversávamos uns com os outros. Falávamos, divertíamo-nos no balneário, tínhamos aquelas brincadeiras, aquelas palhaçadas, que é das coisas que tenho mais saudades. Hoje em dia, se não for um treinador ou um responsável dizer: “Eh pá agora parem isso”, para estimular, para fazerem outras coisas, eles não param. Isto mudou muito e cada um vive muito o seu mundo. Nós na altura vivíamos o mundo de todos, agora cada jogador vive o seu mundo, o seu mundo social.

É mais individualista?
É. O jogador sempre foi, é e será egocêntrico, individualista, mas acho que na altura era diferente. Uma vez o Ronaldo disse que não precisava de ir jantar com não sei quem, para que dentro do campo as coisas funcionem. Não, mas se uma equipa conseguir ser dentro do campo, e fora do campo, ter aqueles momentos, e ser unida. Acho que foi um dos nossos segredos. O que fez com que tudo fosse possível, foi isso e provocado pelo mister Mourinho e pelos capitães de equipa que transmitiam essa mesma mística. Criou-se ali algo único, que tem a ver com união, com coesão.

Foram os melhores anos da sua carreira?
Sim, apesar de que nesses dois anos com o José Mourinho, o titular era o Nuno Valente, com muito mérito, era um excelente jogador, com provas dadas que toda a gente conhece e eu se calhar até estava num segundo plano, mas foram sem dúvida os melhores porque sentia-me bem, sentia-me feliz apesar de não jogar. Muitas vezes não jogamos e não estamos felizes, mas eu sentia-me feliz porque sentia que fazia parte de algo único. Hoje reconheço que se calhar na altura nem dei o devido valor às coisas. Para mim foi sem dúvida o maior e melhor momento da minha carreira, não só pelos títulos conquistados porque isso depois fica na vitrine e é um orgulho grande dizer o que está ali e que ganhei, mas porque fiz parte de algo que foi único. O FC Porto teve mais uma geração que ganhou tudo, com o André Villas-Boas, eu essa não conheci, mas a que conheci, senti como se fosse algo único, inesquecível e irrepetível.

Mário Silva representou o Cadiz, de Espanha, em 2005/06

Mário Silva representou o Cadiz, de Espanha, em 2005/06

D.R.

Para si, qual foi o momento mais alto?
O primeiro, a Taça UEFA, foi uma competição internacional. Ser campeão nacional num clube como o FC Porto é algo muito importante mas é algo que não é só uma vez e na Taça UEFA, até pela forma como foi aquela final, sentimos ali algo indescritível, a comunhão entre a massa associativa e a equipa. Esse foi um ano fantástico a todos os níveis. Depois ainda ganhámos uma Taça de Portugal no Jamor ao U. Leiria. A Liga dos Campeões vem no ano a seguir. Se tivesse sido a Liga dos Campeões primeiro, se calhar falava da Liga dos Campeões mas acho que a Taça UEFA foi algo com um sabor muito especial. Por outro lado, a Liga dos Campeões não está ao alcance de muitos jogadores e terminar uma carreira e dizer: "Ganhei uma Liga dos Campeões", mesmo não sendo um jogador preponderante, joguei, fiz parte, estive lá…

Porque é que vai para Espanha?
Entretanto o Mourinho sai, e foi-me comunicado pela administração que o Luigi Delneri, o novo treinador, não contava comigo.

Já tinha filhos?
Não, na altura a minha mulher estava grávida.

Já sabiam que eram trigémeos?
Sim.

O que pensou quando lhe deram a notícia de não era um, nem dois mas três?
Isso é uma história… Houve uma altura em que a Susana engravidou e perdeu o bebé de forma natural, teve um aborto espontâneo. A partir daí ela não conseguiu engravidar mais. Estivemos quatro anos a tentar, fiz exames, ela fez exames e não havia nada, nem uuma razão aparente para não conseguir. Entretanto começa uma fase de tratamentos, a madrinha de um dos meus filhos, que é a doutora Manuela Fontoura, que é nossa amiga, aconselhou-nos um médico especialista, o professor Alberto Barros, que Deus o guarde. Foi preciso uma luta muito grande, foram muitos tratamentos que a Susana fez, desde a indução da ovulação até à inseminação in vitro, foi assim que nasceram os nossos meninos. Nós começamos a tentar com 23 anos e fomos pais aos 27.

Depois de terminar a carreira de jogador Mário Silva tornou-se treinador

Depois de terminar a carreira de jogador Mário Silva tornou-se treinador

D.R.

Mas quando lhe disseram que eram trigémeos, qual foi a sua reação?
Fiquei... A minha mulher é magra, não é muito alta, e assustei-me um pouco, sinceramente. Imaginei três de uma vez. Foi uma gravidez de risco. Entretanto sou dispensado e vou para o Recreativo do Huelva, um clube que na altura estava a apostar forte para subir à I Liga. A Susana foi comigo. Sabíamos que era uma gravidez complicada mas estava tudo bem, não havia sinais de poder haver algum problema. Mal chegámos lá, começaram os problemas. Teve duas ou três vezes ameaça de aborto, com sangramento. No último desses ficou internada e os médicos aconselharam a fazer uma gravidez em repouso absoluto. Ou seja, teve que ser transportada para o Porto e eu fiquei Espanha.

Foi duro?
Foi, muito duro. Tinha ido para Espanha porque queria jogar, ainda era novo e queria voltar a ter a alegria de jogar. Naqueles dois anos no FC Porto, apesar de terem sido dois anos fantásticos, tinha jogado pouco. Chego a Espanha e surgem estes problemas todos, foi duro, não foi um ano muito fácil para mim. Fiz muitas viagens para o Porto, para visitar a Susana. Eu em Espanha, ela cá, gravidez de risco, não foi fácil. Mas felizmente terminou tudo bem.

Como se chamam?
É o Martim, o Miguel e a Matilde. Nasceram no dia 22 de fevereiro de 2005.

Veio a correr?
Numa gravidez de risco nunca se sabe quando é que vai acontecer o parto. E houve uma altura em que ela já estava no seu limite e teve que ir para o hospital, eu tive um jogo e depois viajei para assistir ao nascimento dos meus filhos.

Mas não assistiu.
Não, era um parto de alto risco e depois disso ela teve graves problemas.

Os trigémeos de Mário silva. Martim, Miguel e Matilde

Os trigémeos de Mário silva. Martim, Miguel e Matilde

D.R.

Pode contar?
Ela teve os meninos, nasceram muito bem, só que depois teve uma das complicações mais graves que podem existir, o síndrome de Hellp. Ela esteve nos cuidados intensivos e segundo o médico que na altura falou comigo depois das coisas estabilizarem nos cuidados intensivos, foi um milagre ela ter sobrevivido, porque normalmente situações como a da Susana acabam muito mal.

Viveu momentos muito intensos.
Foi muito difícil. Primeiro a alegria de ver os três a passar na incubadora, tão pequenininhos, perguntei se estava tudo bem e eles que sim, que estava tudo bem. Depois pergunto pela Susana, disseram que tudo óptimo. E quando ela sai do recobro para a enfermaria começaram as complicações.

Quer explicar o que é o síndrome de Hellp?
O síndrome de Hellp é a falência dos orgãos, ou seja ela começou a esvair-se em sangue porque o útero não fechou. Depois do parto estava tudo bem e ela vai para o recobro. No recobro estava tudo bem, não havia nenhum sinal aparente e quando ela sobe para a enfermaria, começam os problemas. Eu tinha ido buscar umas camisas de dormir que me tinham solicitado e ficou o meu cunhado com ela, o irmão dela. Ele de repente notou que alguma coisa estava mal e chamou a enfermeira várias vezes que lhe disse que era da anestesia, para ele não se preocupar. Mas ele chegou a um ponto em que foi mesmo malcriado, eu ainda hoje lhe digo muitas vezes: “Tu salvaste a tua irmã”. Agarrou na enfermeira e disse-lhe que tinha de ir ver a irmã, porque ela não estava bem e quando vão lá e destapam o lençol ela estava cheia de sangue. Depois aquilo foi do género daqueles filmes que vemos das urgências. Quando chego está ela a ser transportada na maca, em convulsões. Eu vou atrás da maca a pensar que ia ficar um pai com três meninos sem mãe. Percebi logo que aquilo era grave.

Ficou cá ou teve de voltar para Huelva?
Não, fiquei. Eles sabiam que eu vinha para o parto e depois voltava para baixo mas eu disse-lhes que não estava em condições, expliquei o que se tinha passado com a minha mulher, que não podia sair dali. Não queria saber do futebol para nada. Veio um dirigente, tentaram convencer-me a ir numa fase em que ela até já estava estabilizada, mas eu sentia... A minha mulher era magra e quando volta para a enfermaria, estava quatro vezes mais, por causa de toda aquela medicação que lhe deram para sobreviver, cortisona, etc. Eu disse-lhe que só saía dali quando ela estivesse mais estabilizada.

Esteve em Portugal quanto tempo?
Um mês. Ela esteve dezoito dias internada no hospital e nesses dezoito dias eu enquanto pai é que ia para a pediatria, é que estava lá com as enfermeiras a ver os meninos.

Eles eram prematuros de quanto tempo?
34 semanas.

A dar um treino no FCP

A dar um treino no FCP

D.R.

Quando vai para Espanha a sua cabeça já está no futebol?
Não, naquele momento não está. Terminei a época mas andava sempre para cima e para baixo, eles eram pequeninos. Só na época seguinte quando vou para o Cádiz, que tinha subido de divisão, é que volto a focar-me.

São eles que o convidam?
Nós tínhamos jogado contra eles, eles gostaram do que viram e contrataram-me no ano a seguir.

Mas fez pouco jogos.
A equipa que subiu de divisão estava muito rotinada e o treinador, um uruguaio, Víctor Espárrago, acreditava muito naqueles jogadores. Eu e outros jogadores, como o Eduardo Berizzo, que foi recentemente treinador do Sevilha, jogámos pouco. Eu acho que não foi por falta de qualidade nossa mas porque o treinador acreditava naquela equipa que o levou à I Liga.

A sua mulher e filhos foram ter consigo?
Foram para lá mas foi muito difícil. Porque eram três, eu estava muitas vezes fora.

Não tinham ajuda de ninguém?
Tínhamos uma pessoa, só que as empregadas... Três bebés dia e noite não é fácil. Aquela foi também uma fase difícil na nossa vida por isso, apesar de ter ainda mais um ano de contrato com o Cádiz decido não continuar e rescindo.

Vem sem alternativa?
Sim, rescindi e vim embora sem nada. Entretanto depois surge o Boavista. Fui contratado pela administração que já me conhecia, o dr. João Loureiro.

Mário Silva como troféu de um torneio de sub-17 na Republica Checa, onde foi também eleito melhor treinador, ao serviço do FCP

Mário Silva como troféu de um torneio de sub-17 na Republica Checa, onde foi também eleito melhor treinador, ao serviço do FCP

D.R.

Foi bom o regresso ao Boavista?
Foi o ideal, porque era voltar novamente para casa. A Susana e eu já tinhamos o apoio da família, porque a nossa família está toda por aqui.

Essas duas épocas como é que foram?
Foram duras pela situação em que se encontrava o Boavista. Financeiramente as coisas não estavam fáceis e depois com aquela descida de divisão, daquele célebre momento que foi errado e que só agora voltou a ser feita justiça. Na altura o Boavista acabou por cair na II Divisão.

É por isso que vai para o Chipre?
Estive muito tempo sem receber no Boavista, disse-lhes que gostava muito de lá estar mas...

Foi vivendo das economias que tinha feito?
Sim. Mas seis meses sem receber… Chegou um ponto em que disse: “Sou profissional. Quero estar aqui, quero ajudar, mas estar sem receber, não faz grande sentido”. Qualquer profissional tem que ter direito ao seu salário.

Como aparece o Doxa? Tinha empresário?
Tinha, o Sérgio Leite. Fui, mas não gostei e ao fim de dois meses vim embora.

Foi sozinho?
Fui, mas na altura estavam muitos portugueses no Chipre. Fui para um clube de média dimensão e era tudo muito amador. Nunca mais me esqueço que quando chego, vou a uma consulta médica, num gabinete normal, e tiram-me sangue logo ali. Eu estava habituado a ir a um sítio de análises clínicas, com tudo direitinho, enfermeiros e tudo. Quando chego ali era o médico que me estava ver que me tira o sangue. Se um jogador se lesionasse tinha a clínica, não havia departamento médico. O roupeiro chegava ao balneário e punha a roupa em monte… Ou seja, era tudo muito diferente daquilo a que estava habituado. Depois a distância dos meus filhos era difícil, sempre que falava com eles, sentia saudades. Eles eram pequeninos, tinham uns quatro anos. Tinha muitas saudades e lá não me sentia bem.

Estava num hotel?
Sim, vivi num hotel. Mas não me sentia bem, não me sentia motivado.

Veio embora.
Sim. Tinha assinado três meses, mas ao fim de dois disse que não queria mais nada e que queria vir embora. E acabei a carreira.

Mário Silva com outro troféu dos sub-17, conquistado em Nantes

Mário Silva com outro troféu dos sub-17, conquistado em Nantes

D.R.

Esse passo foi dado com a consciência “vou acabar” ou ainda veio com a ideia de continuar se arranjasse alguma coisa em Portugal?
Não, era para acabar.

Sabia o que queria fazer a seguir?
Houve uma fase em que não. Na minha opinião ainda tinha capacidade, mas ao mesmo tempo já estava a ficar cansado face às lesões e a todas estas coisas atribuladas da minha vida. Por isso, com 32 anos disse que ia parar e que iria dedicar-me principalmente aos meus filhos e à minha família. Estive um ano sem fazer nada e depois o Boavista convida-me para ajudar na formação.

Já tinha algum curso?
Tinha o nível I de treinador, mas não tinha grande intenção de ser treinador.

Esse ano em que esteve parado, o que fazia no dia-a-dia?
Acompanhava os meus filhos, ia fazer o meu ginásio, ia jogar à bola com os amigos.

Estava a dizer que teve o convite do Boavista para ir dar formação.
Não como treinador mas acompanhando principalmente o escalão dos sub-19 e fazendo a ponte entre esse escalão e a equipa sénior que na altura estava na II B, foi aí que comecei.

Gostou de imediato?
Comecei a gostar. Comecei a ter novamente aquilo de que gostava como jogador, o campo e o balneário. As coisas nos juniores não estavam a correr muito bem e a direção queria substituir o treinador. Eu estava ali como conselheiro por isso aconselhei um treinador que ainda hoje é treinador, o Filipe Gouveia. Ele disse que aceitava treinar os juniores, mas precisava que eu lhe desse uma ajuda. Aceitei e comecei a ir com ele para o campo. Ele como treinador principal e eu como ajudante, nem era adjunto, era ajudá-lo no que sabia e que podia. Entretanto as coisas correm mal na equipa sénior, a direção decide mudar de treinador e promove o Gouveia, que estava a fazer um bom trabalho nos juniores. Ele aceitou mas queria que eu fosse na mesma com ele e ao mesmo tempo ficasse com os juniores. Ou seja, fiquei como treinador principal nos juniores e dava ajuda como treinador assistente da parte da manhã, aos seniores.

Fez mais algum nível do curso de treinador?
Sim, tenho o UEFA A, ainda não tive oportunidade de fazer o UEFA Pro, mas em breve quero ver se o consigo fazer.

Mário Silva jutno do 4º árbitro num jogo de sub-19 da Youth League

Mário Silva jutno do 4º árbitro num jogo de sub-19 da Youth League

D.R.

Na época de 2011/ 2012 foi treinador principal.
Sim, só que as dificuldades financeiras eram imensas, os jogadores não recebiam, eu já tinha passado por aquilo antes.

Foi muito difícil passar de treinador adjunto e treinador de juniores para um plantel sénior?
É diferente. Como adjunto existe uma grande proximidade ao jogador, existe uma confiança com o jogador, que como treinador principal não é tão grande. Mas acima de tudo, acho que apanhei um grupo de jogadores bom, que apesar das dificuldades todas souberam respeitar-me e manter a distância que ia do treinador assistente do ano anterior para o treinador principal.

Em que é que mudou a sua atitude?
Tentei ser igual a mim próprio, mas houve algumas coisas para as quais me distanciei um pouco mais. Por exemplo, eu como adjunto se calhar entrava e jogava com eles nos exercícios, se faltava um eu jogava. Como treinador principal, já não devo fazer isso, pelo menos eu penso assim.

Foi treinador principal do Boavista durante pouco tempo. O que aconteceu depois?
Os jogadores não recebiam e chegou uma determinada altura da época em que o tema não era o treino, não era o jogo, era o não recebemos, era o vamos fazer greve. Fui ter com os responsáveis e disse: “Se não há nenhuma solução, eu não tenho condições para continuar.” As pessoas aceitaram e eu saí. Na época seguinte surge o convite do FC Porto.

Como?
O FC Porto convidou-me para participar no Vintage, uma competição ibérica de veteranos. Éramos só nós, jogadores de várias gerações do FC Porto, a representar os portugueses, juntamente com as equipas espanholas. E esse contacto surgiu por intermédio do Jaime Teixeira, que me perguntou o que é que eu estava a fazer. Disse-lhe que não estava a fazer nada, mas que gostava muito de continuar aquilo que tinha começado como treinador. Logo a seguir convidaram-me para fazer parte da formação. E já lá vão sete anos.

Mário Silva com a mulher e os três filhos

Mário Silva com a mulher e os três filhos

D.R.

Está agora à frente dos sub-19. De todos os escalões qual é o mais complicado?
Os quatro anos de sub-16 foram anos positivos, porque o escalão de sub-16 é o escalão de fazer crescer o jogador. Mas este de sub-19 é o mais complicado sem dúvida. Existem duas competições, a Youth League e o Campeonato de Sub-19. O campeonato nacional por si só é muito competitivo. Por vezes temos três jogos por semana. Ao fim de dois, três meses de competição já temos muitos jogos. Existe a Youth League, existe o campeonato nacional e depois ainda existe, para o treinador de sub-19, a gestão com a equipa B. Temos três jogadores de sub-19 que estão na equipa B desde o início e que normalmente baixam para jogar a Youth League. Existe toda esta gestão que torna as coisas mais difíceis, mas ao mesmo tempo, mais aliciantes. Esta gestão tem-me feito crescer imenso enquanto treinador. Temos que saber gerir os jogadores que vêm, que estão na equipa B. Temos de estar capazes para lhe saber dar estímulos técnicos, tácticos, físicos, mas acima de tudo mentais.

Como é que se prepara? Apoia-se na sua experiência?
Também na minha experiência, mas tenho muita ajuda. Felizmente temos a vantagem de estar num clube desta dimensão, em que temos um departamento de psicologia, com um psicóloga que nos acompanha diariamente. Temos o doutor Ângelo, que é o chefe do departamento de psicologia, que também nos acompanha e nos ajuda, temos o departamento das capacidades individuais.

Ou seja, expõe-lhe um problema que tenha com algum jogador?
Sim, por exemplo. A psicóloga está diariamente connosco, faz o trabalho de desenvolvimento das capacidades psicológicas com os jogadores e ao mesmo tempo com o treinador. É um departamento muito importante para nós.

Como é que a sua experiência de jogador o ajudou mais e menos enquanto treinador?
Ponho-me muitas vezes daquele lado. Tenho essa vantagem de conseguir pensar de lá para cá.

É mais difícil ser treinador do que jogador?
Muito mais difícil.

Porquê?
Enquanto jogadores a nossa única preocupação é com o nosso rendimento individual, em prol de um coletivo, como é lógico. Vamos para o treino, fazemos aquilo que o treinador nos pede, acaba o treino e vamos embora, não pensamos mais. O treinador não. O treinador tem de planear, tem que estudar, tem de pensar, tem que delinear estratégias para conseguir claramente o melhor da equipa e do individual que é o jogador.

FERNANDO VELUDO / NFACTOS (EXCLU

Tem algum modelo de treinador?
Aprecio os treinadores que tive. Mas um dos treinadores que no momento me seduz pela sua forma de estar, pela sua paixão, não o conhecendo a nível de treino sequer, foi meu colega e agora treinador principal da minha equipa: Sérgio Conceição. É alguém que eu admiro. Teve a coragem de pegar no clube no momento em que pegou, acreditou e fez toda a gente acreditar que era possível.

Falou no facto do treinador ter de estudar. Significa o quê?
Ver e analisar jogos, ver vídeos, ler livros. Sempre que posso e o tempo permite, gosto de ler relatos de treinadores, biografias, experiências que têm a nível profissional.

Qual foi o caso mais “bicudo” que algum dia teve como treinador?
Foi ter de prescindir de um jogador, não vou dizer o nome. Na altura era um jogador decisivo mas achei que estava a ser preponderante no aspeto negativo do coletivo. O comportamento não era adequado para aquilo que eu achava normal e benéfico para o bom ambiente e bom funcionamento da equipa. Enquanto indivíduo estive ligado a uma equipa e sempre me identifiquei muito com o coletivo. Agora como treinador o meu interesse é defender sempre os interesses coletivos, a equipa em si, embora nunca esquecendo o indivíduo. Foi um episódio que tive na curta carreira de oito anos que tenho, que me marcou.

O Mário foi jovem e também deve ter feito as suas noitadas. Olhando para esta geração, há uma diferença muito grande? Eles portam-se melhor ou pior do que vocês de portavam?
Hoje existem muitos mais aspectos que podem desestabilizar. Costumo dizer aos atletas que dirijo agora, que deve haver tempo para tudo. Tempo para se divertirem porque estão numa idade em que têm que se divertir, mas esses momentos devem ser bem selecionados. Porque quem quer ser jogador de futebol de alto nível e bom profissional, tem que fazer sacrifícios e um deles é esse. Mas é verdade que hoje há muitos fatores que podem seduzi-los mais do que antigamente. Embora esta geração esteja mais informada sobre o que é a vida pós-treino e pós-jogo e sobre a alimentação.

O facto de ganharem mais e mais cedo já é por si um fator de desestabilização.
Exatamente, têm acesso a mais coisas. Se for preciso vejo um jogador que no seu primeiro ano de sénior é capaz de comprar logo um Mercedes. Eu estive três anos como sénior do Boavista e andava num Opel Corsa. Isto mudou. Ganha-se mais, é tudo muito mais fácil e isso acaba por desfocá-los um bocadinho daquilo que considero ser o mais importante para eles, que é o foco no treino, no jogo e no espírito de sacrifício para poder ser jogador de futebol.

Enquanto treinador qual é a sua maior ambição?
Terminar uma carreira, daqui por muitos anos, com orgulho de que consegui chegar aonde queria. Neste momento ambiciono ser treinador de uma equipa profissional sénior. Sei que tenho de trabalhar, tenho de crescer, mas também sei que estou num bom patamar que me dá todas as condições para preparar-me para a curto prazo poder enfrentar um desafio desses. Acima de tudo espero ser tão feliz que como treinador como fui como jogador.

Os três filhos de Mário Silva, Martim, Miguel e Matilde

Os três filhos de Mário Silva, Martim, Miguel e Matilde

D.R.

Os seus filhos têm agora 13 anos. Algum deles joga futebol?
O Martim joga nos sub-14 do FC Porto e o Miguel joga nos sub-14 do Rio Ave.

Algum deles vai seguir as suas pisadas e ser jogador?
Eu gostava. Costumamos dizer: “Eu quero é que eles estudem”. E eu quero que eles estudem e que percebam que o pai deixou os estudos muito cedo e que foi um risco muito grande, que eles não devem nem podem fazer isso. Mas enquanto pai vou-lhes proporcionar todas as condições para que sigam o caminho que escolherem. Até porque hoje há um acesso mais fácil a coisas que não havia no meu tempo. Nomeadamente às compensações escolares. Enquanto pai vou tudo fazer para que eles a nível académico possam ter uma boa formação. Ambos já manifestaram vontade em ser jogadores. São ambos esquerdinos. O que lhes costumo dizer é desfrutem e divirtam-se porque o futebol não é fácil.

Revê-se neles?
Em algumas coisas, acho que eu era uma mistura dos dois. Apesar de serem gémeos, são dois jogadores com características diferentes.

Onde é que ganhou mais dinheiro?
No Nantes e no FC Porto.

E aplicou-o só no imobiliário ou meteu-se em algum negócio?
Tenho alguns imóveis, alguns arrendamentos, mas não entrei em nenhum negócio porque como nunca dominei nada a não ser o futebol, não quis estar a arriscar o dinheiro em algo que para mim fosse “inseguro”. Meter-me num restaurante, em algo que desconheço, que não tenho experiência, que não tenho sequer perfil para, não.

Ajudou a família?
Sim. A minha irmã é mais nova seis anos e como os meus pais não tinham muita facilidade, fui ajudando a nível dos estudos. Mas eu também nunca ganhei assim muito dinheiro. Existe aquela imagem de que todo o jogador de futebol é rico, tem muito dinheiro e não é assim. Felizmente tive a sorte de passar por um clube grande em Portugal e de ter ido para o estrangeiro, e consegui criar um pé de meia que para mim é bom, mas nunca tive a facilidade de ter os milhões para poder dizer assim: “Pega lá uma casa para ti, uma casa para ti e outra para ti”. Senti sempre que aquilo que conquistei, tinha também que o saber rentabilizar. Ainda hoje tento fazer isso. Agora o meu foco principal não são os negócios, não são os imóveis, o meu foco principal é e sempre foi o futebol.