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A casa às costas

“O clube de sonho que gostava de treinar é o Benfica, mas espero voltar a trabalhar com José Mourinho”

Na segunda parte da entrevista, José Morais, que esta semana assumiu a liderança de um clube sul-coreano, revela alguns pormenores dos anos em que esteve como adjunto de José Mourinho, conta como foram as passagens como treinador principal por clubes da Arábia Saudita, Turquia, Grécia, Inglaterra e Alemanha e como o AVC, sofrido há dois anos, lhe mudou a vida, tornando-o numa pessoa mais calma e tolerante com os outros

Alexandra Simões de Abreu

João Silva

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Como surge o convite para trabalhar com José Mourinho?
Estava no Espérance de Tunis quando recebo a chamada do Zé Mourinho. “Zé, como é que estás? Sabes quem é que está a falar?”; “Claro que sei, reconheço a voz. Conta ai”; “Queres vir trabalhar comigo”;“Trabalhar contigo?!”; “Eh pá estou farto deste gajo aqui, ele está maluco e vai-se embora no final da época, tenho dois mil gajos para virem trabalhar comigo, mas quero que sejas tu. Já falei com o resto do pessoal que vai ficar cá, a equipa técnica, sabem já o que é que se vai passar e eu quero que tu venhas. Sei que as coisas aí estão a correr bem...” . Já tínhamos ganho a Taça das Taças do Norte de África, qualificados para os quartos de final da Taça da Tunísia, estávamos nas meias-finais e já tínhamos jogado uma eliminatória em casa contra o Ismaeli e tínhamos ganho, e estávamos em 1º lugar na Liga da Tunísia. “Sei que as coisas aí estão a correr bem e se quiseres continuar aí, amigos como dantes, há-de haver outras oportunidades, mas se quiseres vir, vens ter comigo para a gente conversar”. Não pensei em mais nada. Cheguei ao pé deles e disse: “Desculpem lá, mas tenho de ir” [risos].

Nem pensou duas vezes. O que o levou a aceitar?
Não pensei duas vezes porque já viu todo este envolvimento de clubes: seis meses aqui, seis meses ali... No fundo tinha estado em países em que não existia estabilidade. A possibilidade de poder ter a família junta não se viabilizava.

Mas ainda não tinha a sua filha.
Ainda não, a minha filha foi precisamente fruto da estabilidade. Então de facto não pensei duas vezes. Desde aquela altura em que ele era para ter ido para o Sporting, mas não foi, ficou sempre aquela vontade. Nunca pensei que acontecesse mas gostaria muito. É um nível de competitividade diferente e gostava de ter a experiência de trabalhar ao mais alto nível. Ainda por cima com ele, uma pessoa que admirava como treinador desde o dia em que nos conhecemos e pelo caminho de sucessos consecutivos que construiu.

Uma coisa é admirar o José Mourinho e o estilo dele, outra coisa é lidar com ele todos os dias. O que mais o surpreendeu nele?
Primeiro, a forma como ele é próximo dos seus colaboradores, como ele se preocupa com o bem-estar deles. O tipo de ambiente que cria à volta dos seus colaboradores e da equipa de trabalho. Ele cria sempre um ambiente de harmonia e de boa disposição. Isto foram as coisas mais surpreendentes. Depois, a capacidade que tem de construir, às vezes em equipas que nem sempre são as melhores. Nós encontrávamos sempre equipas cuja qualidade individual acabava por ser, em determinados momentos, superior às equipas que ele treinava e mesmo assim ele conseguia ganhar. Fazia com que os jogadores se superassem.

José Mourinho e José Morais

José Mourinho e José Morais

sampics

Acha que o ponto forte do Mourinho é a gestão pessoal e coletiva dos jogadores?
Acho que é um dos pontos fortes, um. Porque ele na minha perspectiva tem outros. Sob o ponto de vista estratégico não conheço nenhum treinador com tanta perspicácia como ele. Costumo dar sempre este exemplo, e foram vários, lembro-me de um célebre jogo, no ano em que ganhámos a Champions League com o Inter, contra o Dinamo de Kiev. Ao minuto 80, 80 e tal estávamos a perder por 1-0, em Kiev. O empate dava-nos alguma esperança mas dependíamos de outros e a derrota afastava-nos completamente de passar. E ele mexe com a equipa, altera a organização de uma tal forma que o Millito e o Sneijder fazem golo. Ganhámos 2-1, nos últimos minutos.

Nessas situações ele pergunta opinião a alguém?
Não, é o instinto dele. Ele de repente ele toma decisões que surpreendem.

Quais eram as suas funções em concreto, o que lhe pediu?
Foi mais ou menos isto que ele me disse: “O Villas Boas vai sair e ele é responsável pelo material para preparar o jogo, pela observação dos adversários e tu como tens experiência enquanto treinador principal, vais fazer isso, essa é a tua tarefa principal. Depois, desde que garantas isso, tens toda a liberdade para estar connosco no campo. À partida tu podes dar uma mais-valia que outros não podem dar pelo facto de já seres treinador e teres a experiência que tens. E à medida que te fores sentindo mais à vontade, vais-te libertando e vais tendo mais tempo para estar no campo e fazeres o que gostas”. Foi isto.

Deu-lhe prazer esse trabalho?
Muito, muito.

Mais do que ser treinador principal?
Vamos lá ver, ser treinador principal é diferente, é como tu seres dono de ti próprio e tomares as tuas próprias decisões e conduzires o processo como tu entendes.

O que ganhou enquanto treinador principal, dos anos em que trabalhou com Mourinho?
Muitas coisas. Desde capacidade de organização, a uma visão mais criativa das situações, a método, rigor, liderança.

Pode dar exemplos relacionados com esses pontos? O que quer dizer com método?
Todo o exercício que ele faz, é um exercício pensado em função da forma de jogar da equipa. É no fundo quando tu tens um sistema de jogo e crias exercícios que servem o propósito de continuar a dar a dinâmica que tu queres desse sistema de jogo. Método no sentido lato, também tem a haver com a organização em si. Como tu começas o treino, como geres o treino, como fazes a transição de exercícios, a intensidade que dás na liderança do exercício. A dinâmica que tu pretendes, aquilo que exiges dos jogadores em termos de aplicação.

Trabalhar com ele obrigou-o a estudar mais?
Sim, a ir buscar mais porque o nível em que estás a trabalhar é tão alto... E ele não repete exercícios, cada treino era diferente e para o treino ser diferente tens formas diferentes de chegar ao mesmo objetivo. E estavas sempre mentalmente predisposto a ir buscar e investigar, para poder sugerir alguma coisa. Para sugerir alguma coisa a um chefe que é assim, que tem esta dinâmica, tens de estar sempre a estudar para poderes estar à frente, mas não conseguias porque estavas a pensar numa coisa e ele já estava a pensar naquilo e noutro passo à frente.

José Morais conversa com Mourinho durante um treino do Real Madrid

José Morais conversa com Mourinho durante um treino do Real Madrid

PIERRE-PHILIPPE MARCOU

Esteve um ano em Itália, certo? A sua mulher foi lá ter, viveu lá?
A minha mulher esteve sempre comigo a partir do momento em que fui para Itália.

O que fazia no dia-a-dia?
Ela tinha uma paixão pelo design e nessa altura começou a estudar design pela universidade dos EUA, mas como estávamos em Roma, e volta e meia vinham um ou outro familiar e amigos, e ela própria, utilizando o gosto e os seus dotes, fazia de guia turística.

A seguir foram três anos no Real Madrid, também com Mourinho.
O Real Madrid foi fantástico, top, não há igual. Real Madrid é... é Real. É difícil haver um clube no mundo, na dimensão, na organização, no interesse que suscita nas massas, a paixão que existe pelo clube, o número de simpatizantes que o clube tem é fantástico.

Mas era um clube com um balneário mais difícil do que o do Inter, ou não?
Vou dizer com franqueza: creio que todos os balneários têm as suas barreiras, para não chamar outro nome. Não quero chamar ovelhas negras porque nunca senti que houvesse em nenhum dos balneários, mas em todos os balneários existem as suas, como dizer...

Resistências?
Resistências. Acho que o termo é mesmo esse. Obviamente que eu como treinador adjunto não sinto as coisas da mesma forma que o treinador principal.

Mas via.
Posso garantir pela experiência que tenho que é difícil e é impossível sentir as coisas da mesma forma enquanto treinador adjunto. Enquanto treinador adjunto o que tu fazes é sentir aquilo que o teu líder é, e em determinados momentos, porque é necessário manter a mesma linha, tentar minimizar o atrito que pode ser criado na dificuldade ou distância da comunicação que possa existir momentaneamente entre jogadores e treinador.


Alguma vez aconteceu o José Morais dizer ao José Mourinho: “Estiveste mal, não agiste bem”?
Não, nunca aconteceu dessa forma. Ele, enquanto líder, a partir do momento em que tomava a decisão, a decisão era aquela.

E tem capacidade de assumir quando não tem razão?
Acho que o Mourinho tem capacidade de assumir quando não tem razão, o problema é que ele tinha sempre razão. Como líder tens que seguir um caminho, liderança tem a ver com estas coisas.

Tem capacidade para ouvir?
Tem.

E poder de encaixe?
Depende de como é que tem de encaixar. No fundo existe uma hierarquia, ou seja, há um treinador e há jogadores. Há um responsável que tem que tomar decisões e há quem tenha que acatar decisões. E é um meio onde em determinados momentos tu não podes ser democrático porque é um meio extremamente competitivo, com níveis de agressividade extremamente elevados, por isso tens que agir em conformidade.

Ele foi sempre justo?
Na intenção sim, sempre teve a intenção de ser justo. Para ele a intenção de ser justo tem a ver com um aspecto único, que é beneficiar toda a organização e a organização que ele tem que beneficiar é a equipa, o conjunto. A justiça dele não é para com uma pessoa, mas sim para com um todo, isso por vezes pode provocar um sentimento de injustiça para o indivíduo.

José Morais com a mulher

José Morais com a mulher

D.R.

Mourinho e Ronaldo têm personalidades fortes. Houve alturas de choque entre ambos?
Assim como às vezes não é fácil uma relação entre pai e filho. São pai e filho, mas em determinado momento alguém tem de dizer que o caminho é este, e quem manda pode.

Nesses três anos de Madrid, deve ter muitas histórias de balneário. Não pode revelar nenhuma?
Nós vemos os jogadores como indivíduos que são grandes atletas e num balneário como o do Real Madrid encontrares jogadores cuja sensibilidade lhes permite chorar num balneário...Vi jogadores a chorar como se fossem crianças porque o sentimento daquilo que se está a passar, acaba por ser superior à capacidade que eles têm de manter a estabilidade emocional.

Por estarem a levar uma dura?
Sim.

Isso marcou-o?
Marcou-me pela positiva. Eles são tão sensíveis como os nossos próprios filhos. São humanos e necessitam em determinados momentos que a gente chegue e lhes dê uma palmada nas costas ou lhes passe a mão pelas costas e lhes diga: “Eh pá, tranquilo”. Necessitam de sentir que têm reconhecimento, independentemente de serem indivíduos pagos milionariamente.

Houve alguma atitude que o tenha deixado de boca aberta?
Acho que a única coisa que me deixou de boca aberta foi a capacidade que estas equipas e que estes jogadores têm de um momento para o outro mudar o curso do jogo. São de uma qualidade extraordinária, alguns deles. E neste percurso todo, daqueles com os quais trabalhei, digo que o Cristiano é uma máquina. Eles chamavam-lhe máquina e ele era mesmo uma máquina.

Demasiado obcecado?
Obcecado mas pelo que era importante: ser o melhor. E com isso ajudava a que a equipa e o clube subissem à dimensão em que ele queria estar sempre, o melhor do mundo. Ele concilia isso com a capacidade individual. Ele individualmente pensava: “Eu sou e eu quero”, mas com esse tipo de atitude ele beneficiava a equipa porque ele tinha noção de que sozinho não conseguia, a equipa era um suporte para ele e tinha consciência de que quando a equipa funcionava ele tinha melhores resultados.

Nunca lhe fizeram nenhuma partida?
A mim, que me lembre, não.

E ao Mourinho fizeram alguma?
Ao Mourinho não se podia fazer partidas.

Não?!
Como é que íamos fazer uma partida ao chefe?

Ele não tem sentido de humor?
Tem sentido de humor, mas não convém arriscar [risos]. Além de que ele é o rei das partidas, acho que ele prega mais partidas aos outros.

A sério? Dê lá um exemplo?
Eh pá, várias [risos], desde esconder coisas... Ele é um indivíduo engraçado. Uma vez fez uma brincadeira no balneário, juntou os jogadores e o staff e começou a contar uma grande história, de que estavam num avião, colocou-os em fila, com o Rui Faria à frente a fazer de piloto e ia contando uma grande história e nós sabíamos que a partir do momento em que ele dizia “mayday, mayday”, era porque havia fogo nos motores, e eu e o Silvino vínhamos por trás com um balde cheio de água, o Rui fugia, e atirávamos com os baldes de água para apagar o fogo [risos]. Molhávamos o pessoal todo [risos]. Ele é que inventava estas coisas. É um tipo com muito sentido de humor.

José Mourinho, Steve Holland, Jose Morais e Rui Faria durante um treino no Chelsea

José Mourinho, Steve Holland, Jose Morais e Rui Faria durante um treino no Chelsea

Darren Walsh

É em Espanha que nasce a sua filha.
Sim, nasce em setembro de 2010, na primeira época no Real Madrid.

Mudou a sua vida?
Olhas para a vida de forma diferente, sentes de forma diferente. O amor de uma filha é sentido de forma diferente pelo pai, em termos de afetividade e aproximação é diferente dos rapazes. Tu acabas por perceber que o teu coração tem muito mais para dar quando tens uma filha.

O José também já estava numa outra fase da sua vida, tinha outra maturidade.
Sim, talvez. Outra maturidade, uma perspetiva diferente da vida em termos de futuro. Em casa, ainda hoje quando falamos em sítios onde estivemos, dizemos sempre que se pudéssemos reviver momentos do passado, seria o tempo de Madrid. Tive imensa pena de vir embora. Aliás ainda hoje quando falo, a voz treme, porque sinto que foi dos períodos de que mais gostei dentro do futebol e da minha própria vida. Se pudesse dizer qual é o ideal de clube e o ideal de ambiente que gostaria de ter sempre, acho que foi o do Real Madrid, apesar de no Inter também ter sido muito bom, mas sem dúvida o do Real Madrid.

De todas as vitórias conquistadas ao serviço do Real Madrid qual foi a que o marcou mais?
A conquista da Liga dos Campeões não tem igual. Mas há uma que também me marcou, no nosso primeiro ano em Espanha, a conquista da Taça do Rei. Porque era um jogo extremamente difícil, o adversário era o melhor Barcelona de todos os tempos e termos conseguido ganhar da forma como ganhámos, 1-0, em Valência, com o golo do Cristiano, foi de facto um ponto de viragem emocional que nos fez conseguir ganhar o campeonato no ano a seguir.

Segue com Mourinho para o Chelsea. A saída de Espanha para Inglaterra custou-lhe?
Era futebol inglês e tinha curiosidade em conhecer por dentro o futebol inglês, mas depois revelou-se... Gosto do futebol inglês, gosto da organização, de toda aquela festa, daquela dinâmica mas continuo a achar que o campeonato espanhol é vivido com outra emoção.

Tem mais salero.
É, acho que tem mais jogo, para quem gosta do jogo, o jogo é trabalhado. Tem outro sentido tático, tem outra estratégia, tem outra qualidade técnica.

Dois dos três filhos de José Morais

Dois dos três filhos de José Morais

D.R.

É por isso que se vai embora para a Arábia Saudita ou zangou-se com o Mourinho?
Vou para o Al-Shabab por causa de uma brincadeira

Como assim?
Primeiro porque me convidaram. Na altura o Al-Shabab precisava de um treinador, mudou de presidente e o presidente era um príncipe que me conhecia já do tempo em que lá tinha estado. Faz-me uma oferta financeira bastante alta e eu como ganhava menos no Chelsea do que ali, disse ao Mourinho: “Zé, os gajos lá da Arábia estão a chatear-me para eu ir, é o príncipe que vai ser o novo presidente, quer que eu volte e paga-me um balúrdio”; “Eh pá, isso é bastante dinheiro”. Ele olhou para mim e: “Olha, faz assim, quando ele voltar a ligar, tu pedes-lhe este dinheiro” - era o dobro daquilo que ele me estava a oferecer e que já era bastante. “E se ele te pagar isso, eu deixo-te ir e no ano seguinte voltas”. E não é que ligo ao príncipe, explico-lhe a minha situação e ele: “OK, está feito”; “O quê?”; “Está feito”. Ligo ao Mourinho: “Zé, os homens aceitaram” [risos]. “Eh pá então vai, vai que eu vou falar com o clube, vamos ver como é que vamos fazer. Tu vais, manténs aqui o teu contrato na mesma e voltas. Eles deixam de pagar-te e é como se fosse um empréstimo”. Foi isto.

Chegou a fazer alguma coisa de relevante no Al-Shabab?
Ganhei a Supertaça contra o Al-Nassr, que tinha sido campeão com 20 pontos de avanço. O Al-Shabab normalmente é o 5º clube no ranking da Arábia Saudita. Excecionalmente pode fazer um bocado melhor, mas ganhámos a Supertaça logo no início e ganhámos os cinco primeiros jogos e empatámos um. Depois o príncipe quis que eu treinasse com uma pessoa que ele achava que devia ser meu adjunto, porque merecia uns adjuntos com mais qualidade do que aqueles que tinha.

Que tinham sido levados por si quando foi para lá?
Exatamente.

Quem eram?
O Baltemar Brito e o João Cunha, que ainda hoje trabalha comigo, e um analista espanhol, que era o Jaime. Levei estas três pessoas e ele achava que havia um indivíduo alemão que ele conhecia que devia ser meu adjunto. Disse-lhe que não. Numa paragem disse para eu tirar três ou quatro dias e ir a casa descansar. Quando voltei ele tinha despedido os meus três adjuntos e queria que eu fosse treinar com os novos. Disse-lhe que não e vim embora.

Teve de pagar alguma coisa?
Não, depois falei com ele e chegámos a um acordo. Enquanto estou à espera (eu ia voltar no final da época ao Chelsea), é quando os tunisinos do Espérance de Tunis, que estavam lá para o 5.º ou 6.º lugar, com dificuldades, pediram para eu voltar. Voltei mas só até final da temporada.

Depois vai para o Antalyaspor da Turquia. Como é que surge o convite?
Surge quando terminamos o contrato do Chelsea. O Samuel Eto'o, que tinha sido nosso jogador e que jogava nesse equipa, ligou-me a perguntar se estava livre e se não queria dar uma ajuda, porque o clube estava com problemas.

Nessa altura o que lhe disse o José Mourinho? Ficou com pena de deixar a equipa dele?
Falei com ele. Eu gostava de fazer essa experiência e ele disse-me para eu ir, compreendia, mas desta vez achava que não seria possível fazer como aquando da minha saída temporária do Chelsea para o Al-Shabab. E eu tinha que decidir. O primeiro ano no Antalyaspor foi muito bom. Foi também um marco, um ponto de viragem relativamente à minha forma de estar na vida e na minha forma de pensar.

Porquê?
Porque tive um problema de saúde, tive um AVC durante a minha estadia na Turquia.

José Morais foi treinador do Antalyaspor em 2015/16

José Morais foi treinador do Antalyaspor em 2015/16

Anadolu Agency

Como é que aconteceu?
Eu creio que foi um acumular de situações que estava a viver naquele momento, no fundo um conjunto de contradições que estava a viver na liderança da equipa e do próprio projeto de trabalho e que me levaram a um momento de stress. Não tinha nada a ver com a família, tinha a ver com o trabalho.

Começou a haver interferências?
Exatamente, muitas interferências que criaram um estado de contradição entre aquilo que tinha que fazer e aquilo que podia fazer. E gerou um estado emocional difícil para mim.

Mas aconteceu como? Num treino, em casa? Lembra-se de alguma coisa, o que é que sentiu?
Foi antes de um treino, estava a falar com a equipa, antes de um jogo contra o Fenerbahçe, na altura treinado pelo Vítor Pereira. Era um momento importante para a equipa, um momento de viragem, e eu queria que a equipa tivesse uma atitude diferente. E num momento de emoção dei um murro na parede e senti que se tinha passado alguma coisa, senti uma dor de cabeça muito forte. Senti que a minha voz mudou e que eu já não conseguia alterar a tonalidade da voz. Emocionalmente não conseguia alterar o meu estado, fiquei num estado zen. Embora os jogadores não se tivessem apercebido, eu percebi e até pensei que tivesse deslocado qualquer coisa com o murro que dei, eventualmente um disco na coluna, e que isso me pudesse estar a provocar a dor de cabeça forte que estava a sentir.

Já não fez o treino.
Fiz na mesma o treino. Lembro-me que saí da sala de reuniões onde estávamos, terminei a reunião um ou dois minutos depois de ter sentido aquilo. Disse numa voz calma, mais zen: “É preciso tomar atenção a alguns aspetos, agora vamos treinar e vamos preparar o jogo convenientemente”. Apelei mais um bocadinho ao sentido de responsabilidade e à importância de lutar pelas coisas de uma forma diferente e fizemos o treino. Foi um treino muito difícil. Lembro-me de ter apitado para dar um sinal, uma coisa normal de se fazer num treino, e o som do apito parece que fez uma ressonância 50 vezes superior ao normal. Fiz um esforço tremendo para estar de pé, mas terminei. Depois do treino, eu já tinha avisado o médico que não me estava a sentir muito bem, fui com o médico para cima, nem sequer fiz as entrevistas que era necessário e normal fazer antes do jogo. Cancelei e fui para cima. O médico mediu-me a tensão e estava alta, ele percebeu que alguma coisa se estava a passar, deu-me uma injeção para tentar baixar a tensão, disse que aquilo iria passar. Mas não passou. Duas horas depois estava igual, sentia as mesmas dores de cabeça. Disse ao médico: “Isto não é normal em mim. Nunca me aconteceu uma coisa deste tipo, as dores que estou a sentir são muito fortes, nem parece dor de cabeça.” Disse-lhe que devia ter deslocado qualquer coisa na cervical e que o melhor seria fazer uma radiografia ou uma ressonância. Ele ainda me disse que aquilo ia passar, para ir para casa descansar. Insisti, aquilo não era normal. Ele lá chamou a ambulância e fui para o hospital onde detetaram que eu tinha tido um AVC.

Sophie, oito anos, a filha mais nova de José Morais

Sophie, oito anos, a filha mais nova de José Morais

D.R.

Esteve quanto tempo sem saber que estava sofrer um AVC?
Isto aconteceu entre as dez da manhã e as duas da tarde e estive sempre consciente das coisas. Quando estou no hospital começam a chegar pessoas do clube, o presidente, os diretores, depois veio a minha mulher e a minha filha, os treinadores adjuntos. Eu ainda não sabia o que é que se tinha passado. Eles disseram-me que tinha que lá ficar em observação mas eu achei estranho aquele pessoal ter ido todo visitar-me.

Mas quando é que soube que tinha tido um AVC?
Só às onze e tal da noite. Porque entretanto veio um médico cirurgião perguntar-me se eu estava consciente do que podia acontecer no dia seguinte. “Amanhã? Amanhã tenho é que ir para o jogo” [risos]. “Você há-de ir para o jogo mas quando as coisas estiverem melhor. Você teve um derrame de dois centímetros”. Eu não sabia, devo ter feito uma cara que ele fica muito admirado a olhar para mim: “Mas ainda não lhe tinham dito nada?”; “Não” [risos]. E ele: “Sou médico cirurgião, vamos esperar até amanhã, fazemos um exame e vamos ver como é que a situação está. Podem acontecer duas coisas. Ou fazemos um tratamento convencional ou vamos ter que operar. Mas só amanhã depois do exame é que podemos tomar uma decisão”.

Nessa altura o que é que lhe passou pela cabeça?
Depois do médico ter saído é que percebi não ia haver jogo nenhum para mim e que tinha de preparar-me para o que podia acontecer no dia seguinte. Mas tive sempre pensamento positivo, pelo estado em que me encontrava nunca pensei que pudesse ser alguma coisa de outro mundo. Se o médico me punha essas duas possibilidades, tinha que estar preparado para essas duas possibilidades.

A sua mulher e a sua filha estavam conscientes disso?
Estavam num estado diferente porque lhes foi dito que de um momento para o outro eu podia morrer, e por isso estavam muito mais preocupadas do que eu. Desde o momento em que me foram visitar pela primeira vez, que deve ter sido por volta das quatro ou cinco da tarde, que tinham toda a informação.

Como foi o dia seguinte?
Fiz o exame e eles chegaram à conclusão de que o derrame não se tinha propagado e que havia hipótese do organismo absorver, não sendo necessário operar.

Depois da Turquia José Morais treinou o AEK da Grécia

Depois da Turquia José Morais treinou o AEK da Grécia

NurPhoto

Ficou quanto tempo no hospital?
12 dias. Tive todos os tratamentos necessários. Monotorizaram-me para ter a certeza de que o derrame era absorvido e que não havia problemas maiores. Tive todos os cuidados, o clube nesse aspeto foi extraordinário. No dia do jogo os fãs puseram máscaras com a minha cara e foram visitar-me ao hospital. O presidente da câmara foi visitar-me, o próprio Fenerbahçe mandou uma delegação ao hospital com um diretor, antes do jogo.

O Vítor Pereira não foi visitá-lo?
Ele não podia porque tinha jogo no dia a seguir, mas foi uma delegação do clube, em nome do presidente.

Nesses dias em que esteve no hospital o que fazia para passar o tempo?
Nos primeiros dias aconselharam-me a não fazer grandes esforços, nem leituras, nada, tinha de descansar completamente. Passados dois ou três dias já estava a preparar treinos e a passar coisas aos meus adjuntos.

Esse episódio alterou a sua maneira de estar na vida?
Alterou porque de repente o sentimento que se apoderou de mim foi que havia que relativizar coisas, havia de estar disponível para colaborar com aquilo que podia constituir também a satisfação dos outros, no fundo fez-me olhar para mim mais no sentido do que é que eu posso fazer para que os outros sejam felizes.

Apercebeu-se que se calhar era uma pessoa um bocado intransigente e passou a ser mais flexível?
Encontrei um outro sentido na vida. É um bocado a flexibilidade de entender que na felicidade do outro pode estar a tua felicidade também. E fazer as coisas não só pensando exclusivamente em ti, mas também no impacto que pode criar no outro. É difícil de explicar porque são muitos aspetos.

Dê exemplos de coisas que tenha alterado.
Passei a olhar para as coisas de forma muito mais positiva, a olhar para os outros como seres que também necessitam de ti para poderem atingir os objetivos deles. Olhar para mim como alguém que pode fazer a diferença na vida dos outros dessa forma e aí permitia-me olhar para o outro não como alguém que tenho que domar ou alguém que tenho que liderar, mas que tenho mais de convencer a fazer do que eventualmente forçar a fazer.

A diferença entre um chefe e um líder. Antes era chefe e passou a ser líder.
Exatamente. Embora não fosse um indivíduo mandão. Mas sim, utilizar o poder de uma forma mais positiva, relativizando um pouco mais, percebendo que do mesmo modo que eu tinha uma intenção positiva para as coisas e para os outros, os outros também teriam uma intenção positiva, e no fundo era tentar entender melhor as intenções dos outros para conciliar e encontrar uma harmonia que permitisse chegar às coisas.

Foi confrontado pela primeira vez com a noção da finitude da vida.
Exato. Levou-me a encontrar uma perspetiva diferente da vida. Passei a pensar que tinha de encontrar a satisfação de viver o dia-a-dia, que a vida tem a ver com viver momentos de felicidade e tirar o máximo desses momentos. Porque o amanhã pode não existir. O amanhã tem que ser vivido na felicidade que sentes hoje, de criares os momentos hoje.

Tornou-se uma pessoa mais calma?
Muito mais. Calmo no sentido de mais controlo sobre aquilo que pretendo dos meus comportamentos emocionais. Mais conhecedor do que é o aspeto emocional da vida e o que pode provocar. Antes era um bocadinho mais reativo, provavelmente até um bocadinho mais agressivo.

José Morais com a filha

José Morais com a filha

D.R.

Durante esse período o José Mourinho foi visitá-lo ou telefonou?
Ele esteve sempre em contacto com a minha família, preocupado com os meus filhos, sempre a ligar para saber como é que eles estavam. Ligou para mim, enviou mensagens, nos primeiros dias eu também não podia falar. Mas foi como se de um irmão ou um elemento da família se tratasse.

E o jogo com o Fenerbahçe, ganharam ou perderam?
Ganhámos 4-2. Foi importante porque foi um jogo de viragem, até para o comportamento da equipa, que a partir daí foi tendo uma atitude diferente. Saí do hospital e acabámos o campeonato em 9.º lugar, mas fizemos um bom campeonato a partir daí, houve uma viragem na equipa.

Gostou da Turquia?
Gostei, gostei muito das pessoas. A partir daí também percebi que as pessoas estavam muito mais comigo do que eventualmente poderia imaginar. O movimento e a onda de solidariedade que se levantou ao redor da minha pessoa fez-me perceber que afinal há muito mais gente ao teu lado do que contra. Quando por vezes pensava: "Mas o que é que estes gajos querem? Querem a mesma coisa do que eu?" Creio que é gente extraordinária, gente com um sentido de solidariedade muito grande, muito apaixonada pelo jogo mas também com uma sensibilidade muito grande em relação aquilo que é ser solidário.

Nesse período em que esteve na Turquia deu-se a tentativa de golpe de Estado.
Sim. Na temporada seguinte. Foi uma situação até um pouco caricata. Nós estávamos numa festa, lembro-me que estava lá o Samuel Eto’o e outros jogadores que tinham sido convidados por ele para fazer um jogo de solidariedade e estávamos todos no hotel porque o jogo iria ser no dia a seguir. E há um momento em que se começa a ouvir um burburinho na sala, pessoas a levantar-se e a ir embora. Havia gente da classe política que estava no evento. Começaram a sair, um burburinho e o evento acabou por ser interrompido e ninguém sabia muito bem porquê. Ao sair tomamos contacto com a realidade. Os tanques estavam na rua, a televisão já tinha lançado alguns comunicados. Nós estávamos longe, em Antalya e o golpe aconteceu em Istambul. Ainda são duas horas de voo, é longe, mas de qualquer modo as pessoas que estavam ligadas ao presidente, ao Erdogan, ficaram preocupadas.

Nunca sentiu medo?
Não. Foi sempre dada uma imagem de que as coisas estariam mais ou menos controladas pelo regime e nunca houve uma preocupação exagerada. Mas houve confrontos em Istambul que foram preocupantes.

José Morais liderou a equipa do Barnsley, em Inglaterra, em 2017/18

José Morais liderou a equipa do Barnsley, em Inglaterra, em 2017/18

Richard Sellers

Essa situação de alguma forma ajudou a que tivesse ido parar à Grécia?
Não propriamente. A Grécia teve que ver com outras coisas que já estavam ligadas ao meu estado de espírito no final da época anterior. No fundo eu queria ter saído e as pessoas convenceram-me a ficar, mas as circunstâncias não eram muito favoráveis.

Porque é que não queria ficar?
Porque a forma como queria conduzir as coisas não era possível.

E como é que surge o convite do AEK?
A partir de uma conversa anterior e que em finais de setembro se concretizou. Perguntaram-me se estaria interessado e pensei, caso as circunstâncias aqui não mudem estaria interessado, e foi assim que aconteceu. Nada mudou em Antalya relativamente aquilo que eu entendia que era melhor e sai.

Foi de armas e bagagens para Atenas com a família?
Sim. No primeiro momento parecia um projeto interessante, mas depois acabou por... Gostei em termos de trabalho e de equipa, do clube, mas depois em termos de organização e de fazer aquilo que verdadeiramente gostaria de fazer, acabou por ser um bocado uma desilusão para mim, porque eu queria construir uma equipa e tinha-me sido dito que podia e que no momento em que se abrisse a janela das transferências, uma vez que cheguei em outubro, poderia eventualmente fazer as mudanças que fossem necessárias para fazer um grupo melhor. Mas acabei por sentir que não tinha autonomia e que não tinha decisão em relação à qualidade dos jogadores que queria. Pedi para me darem mais tempo e autonomia senão pedia a demissão. Pedi a demissão e sai.

Vem para Portugal ou foi diretamente para Inglaterra?
Vim para Portugal. Foi também um momento em que senti que precisava de descansar um bocado e refletir sobre outras coisas. Senti que necessitava de fazer uma paragem e reencontrar-me um bocadinho comigo próprio. Também foi no momento em que a minha filha ia começar a escola. Até essa altura ela podia andar de um lado para o outro, mas como iria começar a 1.ª classe era importante nós criarmos estabilidade. Criámos a nossa base em Cascais.

José Morais no dia da entrevista à Tribuna

José Morais no dia da entrevista à Tribuna

João Silva

Como é que surge o convite do Barnsley, de Inglaterra?
A equipa estava nos últimos lugares e nós sempre acreditamos que somos capazes de fazer qualquer coisa mais. O convite surge em fevereiro, também com a janela de transferências já fechada. O contrato era de fevereiro até maio, se a equipa se conseguisse salvar era óptimo, se não haveria a possibilidade de continuar, mas para mim continuar na League One não era uma opção. Vamos tentar fazer o melhor que pudermos e no final do ano, logo vemos. Conseguimos melhor mas o tempo era curto e a Championship é um campeonato em que tens jogos a cada três dias, quase sem possibilidade de treinar, mas houve de facto muitas melhorias e a equipa até à última jornada ainda estava no fundo em circunstâncias de se poder salvar, mas no último jogo não conseguimos ganhar, era um jogo fora, difícil, contra o Derby County, uma equipa que precisava de ganhar para estar no playoff para poder subir à Premier League.

Esteve com o Mourinho?
Não, ele estava em Manchester. Nem sequer tive tempo de ir ver um jogo dele. Os meus adjuntos, o Dimas e o João Cunha, é que foram. Mas conversávamos por telefone.

Entretanto vai parar à Ucrânia.
Sim, já depois da temporada ter começado. Vou já em finais de agosto do ano passado, para um projeto interessante, mas uma equipa humilde, com poucos recursos financeiros. Era um projeto para durar dois anos, mas acontece que surgiu uma proposta muito interessante para ir treinar o campeão da Coreia do Sul e acabei por optar por sair da Ucrânia. Na Coreia tenho hipótese de começar um projeto desde o início, há uma mentalidade diferente, uma organização e recursos financeiros diferentes. É um projeto que me dá outras possibilidades que não me deram os anteriores.

Vai com altas expetativas.
Vou com expetativas positivas.

Quando é o primeiro jogo?
É só em março. Agora vamos para a pré-época.

A família vai consigo ou fica cá?
Como vou sair daqui no meio do ano escolar, a nossa decisão é que a nossa filha termine o ano escolar. Entretanto vão-me visitar nas férias da Páscoa para ver a escola e as condições que temos.

José Morais ouve José Mourinho

José Morais ouve José Mourinho

Michael Regan

Ao longo da sua carreira onde é que ganhou mais dinheiro?
Creio que foi na Turquia.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Não sou de grandes extravagâncias, mas eventualmente poderá ter sido quando estive no Real Madrid e comprei um Porsche Cayman, desportivo.

Onde é que tem investido o seu dinheiro?
Tenho duas paixões em termos de negócios: gosto de investir na bolsa de valores e em empresas, não em muitas.

Portuguesas ou estrangeiras?
Gosto da Boeing, porque gosto de aviões e invisto. E a outra é no ramo imobiliário.

A maior amizade que fez no futebol foi mesmo com o Mourinho ou há outras?
Foi com o Mourinho. Para mim ele é família.

Já estava à espera da saída dele do Manchester United?
Confesso que não estava à espera, por duas razões: porque o Manchester não é um clube que por norma mude de treinadores a meio da época; por outro lado, pela qualidade que ele tem como treinador.

Porque é que acha que aconteceu?
Como não estou lá, acabo por não saber. Mas creio que nestas coisas, com ele, passam sempre por ele próprio. Se ele não quer continuar, não continua. Penso que ele poderá não ter querido continuar.

Sabe se ele já tem clube?
Acho que não. Mas ele é uma pessoa tranquila nesse aspeto.

Nota um Mourinho diferente daquele com quem lidou no Real Madrid e no Chelsea?
Para melhor.

Em todos os aspectos?
Noto aquilo que todos notamos, que a vida vai proporcionando experiências diferentes e nós vamos também mudando a nossa perspetiva das coisas.

Não sente que se tornou mais tenso?
Não, não sinto isso.

É supersticioso?
Não, não sou [risos]. E curiosamente esse foi um dos aspetos que me levou a sentir grandes dificuldades na Grécia porque as pessoas eram muito supersticiosas e era tudo muito em função de Deus. Até o padre teve que lá ir duas vezes para abençoar.

É crente?
Nós somos parte da crença e a crença não vem pelo facto de acreditarmos em qualquer coisa de sobrenatural, que irá fazer o trabalho que nós temos de fazer, se não as coisas não acontecem.

Qual era a equipa de sonho que gostava de treinar?
O Benfica.

É esse o seu objetivo?
Digamos que passa por ser. Disse sempre que o Arsenal seria uma equipa que gostaria de treinar, mas na vida e pelo que passei no clube, o Benfica seria de facto essa equipa de sonho.

Tem recebido convites da Liga portuguesa?
Ainda não tive oportunidade de treinar na Liga portuguesa mas creio que um dia vai acontecer. Todo o percurso que tenho feito tem sido importante em termos de experiência. Haverá um dia em que se vai concretizar a possibilidade de estar na Liga portuguesa e, aí sim, creio que poderei chegar a essa objetivo.

Se receber um convite de Mourinho para acompanhá-lo no novo desafio que ele vai enfrentar, está disposto a ser novamente adjunto ou prefere continuar como treinador principal?
Tenho a convicção de que um dia vou voltar a trabalhar com ele, é uma vontade que tenho. Não sei quando é que vai ser, mas quando surgir a oportunidade com certeza que sim.

Qual o jogador que mais o marcou até hoje?
O Cristiano, pela sua capacidade de transformar o jogo, pela sua determinação.

Já superou ídolos como o Pelé, Maradona?
Não posso falar daquilo que não conheço pessoalmente. Conheço o Cristiano pessoalmente, trabalhei com ele, sei o que ele é como atleta, aquilo que consegue e aquilo que provoca na equipa e de facto é o melhor do mundo neste momento. Acredito que o Pelé e o Maradona tenham sido também grandes jogadores e tenham sido os melhores do mundo naqueles momentos, mas atualmente creio que o Cristiano Ronaldo é de facto o melhor.

E Mourinho é o melhor treinador do mundo ou é o José Morais?
Não me posso comparar. Até porque ser o melhor do mundo tem a ver com coisas concretas, com ganhar títulos, e ele de facto tem conseguido tudo. Para mim ele é o melhor do mundo porque ganhar os títulos que ganhou no espaço de tempo em que o fez e nas condições em que fez, não há outro treinador que tenha feito parecido. Ele não o fez apenas com as melhores equipas do mundo, fez até com equipas que ninguém esperava que fossem capazes. Por isso o considero o melhor do mundo. E também porque o conheço.

Última pergunta, qual é a sua maior ambição?
É ser feliz, contribuindo para a felicidade dos outros. Essa é a minha maior ambição.

  • “Na Arábia Saudita, um presidente trouxe um guarda-redes sem avisar. Fui lá acima, atirei o computador dele ao chão e gritei: Eu sou o quê?”

    A casa às costas

    José Morais, 53 anos, ficou conhecido como o adjunto de José Mourinho, mas é como treinador principal que se quer afirmar cada vez mais. Depois de ser forçado a deixar pai e mãe em Angola, cresceu na zona de Vieira de Leiria, onde se tornou jogador, Serviu como voluntário na Força Aérea, para fugir de casa da familia de acolhimento, mas foi no curso de educação fisica que encontrou rumo para a vida. Esteve 10 anos na formação do Benfica, como treinador, até decidir aventurar-se pelo futebol profissional, no Estoril Praia. Casou, teve dois filhos, divorciou-se, apaixonou-se por uma sueca, voltou a ser pai, de uma menina, e andou pela Alemanha, Viseu, Açores, Suécia, Arabia Saudita, Turquia e Iémen, até receber o convite de Mourinho. Esta é apenas a primeira parte do percurso, em entrevista.