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A casa às costas

Abel Xavier: “Pintei o cabelo, construí uma personagem e perdi contratos por causa disso: ‘Só vens se mudares de estilo’. Nunca mudei”

Quando hoje passa pelo Vale do Jamor e olha para o relvado dos campos de golfe, Abel Xavier, de 46 anos, não consegue deixar de sorrir e pensar na infância que ali viveu num bairro social, à guarda dos avós, depois de vir de Moçambique, sua terra natal. Nesta primeira parte da viagem que fazemos pela sua vida em forma de entrevista fala-nos da adolescência passada na zona de Queijas, de como foi à boleia tentar a sorte ao Sporting, às escondidas do pai, um homem exigente na educação dos filhos e de como foi determinante a passagem pelo E. Amadora para chegar ao Benfica e daí partir para o estrangeiro. E claro, conta na primeira pessoa como viveu os acontecimentos do Euro 2000 e da injustiça que diz ter sido alvo.

Alexandra Simões de Abreu

António Pedro Ferreira

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Nasceu em Nampula, Moçambique. Tem irmãos?
Tenho duas irmãs e um irmão todos mais novos, estão a viver em Portugal e todos constituíram família. O meu irmão mais novo, o André Xavier, também iniciou a sua carreira como jogador de futebol no Belenenses e neste momento é semi-profissional, está em Évora. Tenho os meus avós ainda vivos, são umas pessoas muito especiais para mim. Houve parte da família que decidiu vir para Portugal, mas outra parte sempre residiu em Moçambique e reencontrei-os agora, embora muitos deles nem conhecia porque saí de lá em 1975. E os três, quatro anos que vivi em Moçambique, vivi à guarda dos meus avós maternos, em Lichinga, Cuamba.

Porque foi criado pelos avós em vez dos pais?
Penso que era normal naqueles tempos que as famílias fossem um pouco disfuncionais. O meu pai é de Tete, a minha mãe é da Beira e, por motivos profissionais, o meu pai trabalhava nos caminhos de ferro e a minha mãe era enfermeira, eles não estavam sempre juntos. O meu pai até tem uma história de igreja. Mas quando conheceu a minha mãe deixou a igreja (risos).

Tem alguma memória da infância em Moçambique, há alguma coisa que o remeta imediatamente para lá?
África sempre teve presente na minha vida familiar, na minha infância e adolescência. Primeiro, porque a inserção da sociedade portuguesa naqueles tempos foi muito complicada e difícil. Posso testemunhar na primeira pessoa a criação dos bairros sociais (ou bairros da lata), porque foi aí que fomos inseridos. O sentido de comunidade foi um pouco fomentado pela aglutinação de pessoas que deram entrada em solo português. Fomos para zonas periféricas, fomentámos os bairros clandestinos e eu fui inserido no Vale do Jamor. De 1975 a 77 tenho uma vida que cresce no Vale do Jamor, com os meus avós. Na realidade, é só em Portugal que conheço e tenho os meus pais mais presentes. Ou seja só conheci a união da família em Portugal.

Os seus pais já cá estavam?
Não, vieram depois, mas concentrámo-nos no Vale do Jamor. Eu, os meus avós, pais e irmãos. Havia pouco poder de escolha na altura, os meus pais tiveram dificuldades em conseguir arranjar trabalho. Mas, de alguma forma, tanto ele como os meus avós conseguiram erguer o conceito de família e integrar-se na sociedade.

Abel Xavier em bebé

Abel Xavier em bebé

D.R.

Do que se recorda mais dos tempos no Vale do Jamor?
Eu era uma criança de rua. Tinha os meus amigos do bairro. Agora já não existe o bairro e existe o golfe, porque era mesmo ali, na colina por trás de Linda-a-Velha. Quando passo pela A5 e olho penso sempre: "vivi ali". Mais tarde conseguimos ir para Queijas, depois os meus pais foram deslocados para um bairro social em Vialonga, mas eu fiquei sempre à guarda dos meus avós, em Queijas. Fiz a escola preparatória em Queijas e a secundária em Caxias.

Gostava da escola?
Há uma coisa que é certa. O facto da minha família ter perdido tudo, porque era uma família de posses em África - nomeadamente os meus avós, que tinham património -, fez com que a educação passasse necessariamente pela escola, era uma educação muito rígida, muito dura. Eu era um bom estudante. Só que depois tinha o lado irreverente da rua, que fez com que muitas vezes fosse indisciplinado na fase da adolescência. Eu gostava muito do futebol da rua e fomentava com os meus amigos muitos jogos de bairro contra bairro, e isso furava um bocado o conceito de disciplina férrea que eu tinha através dos meus pais, sobretudo do meu pai. Para o meu pai, eu e os meus irmãos tirarmos um curso e sermos doutorados numa área específica, era o reconforto daquilo que eles não conseguiram fazer para eles próprios. A escola era uma afirmação.

Havia alguma disciplina de que gostava mais?
Costuma dizer-se que nós nascemos com o desporto e a musica/dança no corpo. Mas eu era um bom aluno em todas as disciplinas.

Como é que vai parar ao Sporting com oito anos?
À margem e revelia dos meus pais, que não aceitavam que fosse à experiência para um clube, eu e mais três amigos do bairro resolvemos ir ao Belenenses, pela proximidade e numa altura em que estavam a fazer captações. Tudo à margem e revelia dos meus pais. Conseguimos arranjar boleia.

Não correu bem.
Nós tínhamos um compromisso entre nós os três: ou ficávamos os três, porque éramos os melhores no bairro e queríamos continuar juntos, ou não ficava nenhum.

Abel Xavier (à direita) com os pais e irmãs

Abel Xavier (à direita) com os pais e irmãs

D.R.

Nessa altura torcia por que clube?
Eu gostava muito de jogar futebol mas não tinha clube. Fomos ao Belenenses, que ficou interessado em mim, mas não nos meus amigos. Como tínhamos aquele compromisso, voltámos outra vez para o bairro. Mas recordo que, para minimizar o impacto de dizer ao meu pai que tinha ido ao Belenenses, perguntei ao clube se podia dar-me um passe social, se não me engano o L123. Eles negaram, porque diziam que naquela idade eu tinha de ir acompanhado dos pais.

E depois?
Passado um ano abrem captações no Sporting. Tentamos lá ir. Como a maior parte da minha família era sportinguista, convenci a minha avó, que me deu algum dinheiro. Fiz a viagem com os meus dois amigos para Alvalade. Só que havia muito mais crianças e havia muito mais dificuldades de ficar no Sporting. Mas encontrei pessoas fantásticas - César Nascimento, Osvaldo Silva - que eram os formadores da equipa de infantis. Gostaram de mim e de mais um colega e acabámos por ficar no Sporting. O meu grande problema era dizer em casa, ao meu pai (risos).

Como foi?
Correu bem, porque houve uma reunião de família à noite e puxámos o assunto. Como os formadores tinham mesmo de falar com os pais, porque o Sporting era muito exigente em relação à assiduidade, à escola, etc., conseguiram convencer o meu pai. Além de ele ser sportinguista, via aquilo também como uma forma de disciplinar, através do futebol, a parte escolar. E comecei a minha formação no Sporting.

Fez lá a sua formação toda dos oito aos 17 anos, altura em que foi dispensado. Custou-lhe ser dispensado.
A dispensa foi dura, foi fria, foi cruel e coincide também com uma reestruturação do Sporting no seu todo. Lembro-me que a equipa principal tinha contratado o Burkinshaw e ele rapidamente tomou a decisão de reestruturar também a formação.

Neste percurso de formação com que outros jogadores que vieram a ter sucesso se cruzou?
O Figo, fomos colegas desde os infantis. No iniciados lembro-me do Paulo Torres, Peixe e outros. Rapidamente fomos para a seleção. Eu com 15 anos já estava a entrar na seleção de sub-15.

Abel (à esquerda) com os três irmãos

Abel (à esquerda) com os três irmãos

D.R.

O que sentiu quando foi chamado pela primeira vez à seleção?
Foi uma alegria imensa. Entrar na formação da seleção nacional deu-nos uma certa bagagem. A formação da seleção foi feita por Carlos Queiroz, Nelo Vingada, Rui Caçador, etc. No Sporting tínhamos o Aurélio Pereira, o João Barnabé que também eram pessoas que estavam muito ligadas ao conceito de trabalho da seleção nacional. Havia uma boa relação entre clube e seleção naquela altura. Portanto, crescemos numa metodologia de trabalho transversal de Carlos Queiroz.

É verdade que chegou a trabalhar com o seu avô?
Sim. Foi quando andava no preparatório. Eu treinava no final do dia no Sporting, de manhã levantava-me cedo para ajudar o meu avô que trabalhava na EDP. Lembro-me que íamos para a central da EDP, no Carregado. Ainda ia à escola e depois aos treinos. Chegava a casa cansado. Além de o ter ajudado no Carregado, depois ele foi transferido para o Museu de Eletricidade. Restaurámos o Museu de Eletricidade, em Belém. Foi na altura do incêndio do Chiado, lembro-me das sirenes dos bombeiros que passavam por ali.

Quando deixa a escola em definitivo?
Fiz o secundário em Caxias, mas tornou-se incompatível com o futebol e fiquei com o 11.º ano. Ainda tentei estudar à noite, mas não consegui completar o 12.º ano. Era mais para satisfazer os meus pais, porque, para o meu pai, acima de tudo era importante que tivesse conseguido tirar um curso.

Abel Xavier e a primeira namorada, numa atuação de um rancho folclórico

Abel Xavier e a primeira namorada, numa atuação de um rancho folclórico

D.R.

Quando foi dispensado pelo Sporting, passou-lhe pela cabeça desistir do futebol?
Eu via-me a chegar à equipa principal e com 17 anos ser interrompido nesse sonho, foi um duro golpe, provoca desânimo. É uma idade de instabilidade, pode dar para os dois lados, até porque eu tinha a essência de bairro enraizada, continuava a ter os amigos de bairro. Se eu não tivesse a estabilidade familiar para me "amarrar" naqueles momentos e continuar a dar-me a direção justa, se calhar podia ir para um outro caminho como foram alguns amigos daquela altura. Sempre fui uma pessoa muito controlada pelos meus pais. Mas essa dispensa provocou-me um dano do ponto de vista motivacional enorme. Se não fosse a minha família naquele momento, possivelmente não teria feito o percurso que fiz.

Como vai para o Estrela da Amadora?
Era um clube periférico que angariava as dispensas dos grandes. O Estrela fomentou uma formação extremamente competitiva com os "rejeitados", com os dispensados dos grandes de Lisboa, do Benfica, do Sporting e naquela altura do Belenenses. Como o clube na zona periférica onde podíamos continuar a competir era o Estrela da Amadora, fui lá. Era uma estrutura próxima da escola, próxima da minha família, e isso era importante porque facilmente a família podia dizer não jogas mais futebol, vais dedicar-te apenas à escola. E eu queria mostrar que a dispensa tinha sido um erro.

Quem eram os seus ídolos nessa altura?
Os jogadores seniores do Sporting. Visto que fui formado na zona central, gostava do Venâncio, do Carlos Xavier, do Silas, do Douglas.

Faz a segunda época de juvenil já no Estrela Amadora?
Sim, e na primeira época júnior sou chamado aos seniores, pelo Manuel Fernandes, cujo adjunto era o José Mourinho. Depois foi muito rápida a minha ascensão porque de facto eu tinha talento e precisava de ser potencializado. Comecei a jogar muito cedo no Estrela Amadora, foi isso que chamou a atenção.

Abel Xavier no dia do seu baptismo

Abel Xavier no dia do seu baptismo

D.R.

Quando começa a ganhar dinheiro com o futebol, ainda é no Sporting?
O Sporting dava ajudas de custo, mas sempre muito controladas pela minha família. Eu cresci com pouco e tudo o que podíamos retirar para ajudar a família era extremamente importante. Ajudas de custos eram mesmo para ajudar os demais. O primeiro semi-contrato profissional foi no E. Amadora.

Lembra-se do valor do seu primeiro ordenado?
Acho que eram 100 contos (500€).

Houve alguma coisa que quisesse ter e que com esse dinheiro tenha comprado?
Eu, entretanto, fui viver para a Amadora com um colega de equipa, partilhámos um apartamento. É nessa altura que largo a escola. Porque profissionalizo a minha carreira. O primeiro clube pelo qual joguei internacionalmente foi o Estrela da Amadora, nomeadamente a Taça UEFA. Tinha 18 anos e aí já tenho um contrato profissional porque acharam que eu era um jogador que podia dar retorno e foi isso que aconteceu.

Lembra-se da primeira namorada?
Lembro. A minha primeira namorada até surge pelo hábito da minha família de irmos à Igreja. Eu fiz tudo, o catecismo, a primeira comunhão, tudo. O meu pai era férreo nisso. A minha primeira namorada conheci na igreja. Também frequentei os ranchos folclóricos de Queijas (risos). Mas o engraçado é como conheço a mãe dos meus filhos.

Conte.
Os meus pais, já com a minha ajuda, conseguem entretanto fazer um empréstimo para comprar um apartamento em Queijas, que estava próximo dos meus avós. Lá está, a ideia de reunir a família. Foi quando comecei a subir na carreira e, como às vezes ia lá ter com eles, começo a frequentar uma determinada zona de Queijas onde reencontro a minha ex-mulher. Eu explico: quando era miúdo e ia com os outros miúdos jogar futebol na praça em frente à Igreja, lembro-me de a ver passar com uma amiga e de dizer "um dia ainda vou namorar aquela loira que está ali a passar" (risos). Quando fui para o Benfica, a partir daí, como a maior parte dos meus amigos eram de Queijas e eram do Benfica, começaram a ir ver os jogos e comecei a cimentar a minha relação com a Sónia.

O que fazia ela?
Ela estava a tirar um curso de artes gráficas que depois ficou interrompido. Acabámos por nos envolver e fui pai muito novo.

Abel Xavier conquistou o Europeu de sub-16, ao serviço da seleção nacional

Abel Xavier conquistou o Europeu de sub-16, ao serviço da seleção nacional

D.R.

Já lá vamos. Como surge a ida para o Benfica?
Quando comecei a despontar como um talento na Amadora, havia clubes que tentavam angariar os jovens a essas equipas de menores condições digamos assim. Lembro-me que o Vitória de Guimarães do Pimenta Machado esteve interessado em mim, o Boavista do Valentim Loureiro também. Mas o Estrela da Amadora foi sempre muito resistente e não quis ceder, porque achava que ia aparecer um grande mais tarde ou mais cedo, e com isso os dividendos seriam maiores. E tenho um possível regresso ao Sporting.

Como assim?
O Sporting manifesta interesse, neste caso o Sousa Cintra. Temos uma reunião no restaurante Lagosta Real, com o Sousa Cintra, onde estava também o Paulo Bento e o Abílio Fernandes. Estava praticamente consumado o regresso e a ida do Paulo Bento. E alguma coisa inesperadamente não corre bem e passado dois dias assino pelo Benfica.

Mas o que é que não corre bem?
Naquela altura eu era um jovem e quem estava a controlar toda a situação era o meu clube, o Estrela. Há a passagem do Jesualdo Ferreira do Estrela para o Benfica para ser adjunto do Toni e foi um procedimento rápido.

Gostava de ter voltado ao Sporting?
Eu fiquei sempre com aquele sentimento de injustiça por ter sido dispensado. Mas o percurso é o que é. Se não aconteceu foi por alguma razão. Eu queria chegar a um clube grande, eu queria trabalhar em melhores condições. Era a minha ambição máxima naquela altura. E desde que o Estrela também fosse salvaguardado...Se calhar o Estrela teve melhores condições em relação à oferta do Benfica do que aquela que estava prevista no meu regresso ao Sporting. A minha vontade era uma vontade menor porque não deixo de ser um jovem, tinha 19 anos. Continuava na seleção. Eu estive nos sub-15, fui campeão da Europa de sub-16, vice-campeão europeu de sub-17, vice-campeão da Europa de sub-18 e sou campeão do mundo de sub-20, em Lisboa. Fiz essas etapas todas, com Carlos Queiroz. Por isso era natural que um dos grandes mostrasse interesse.

Abel Xavier jogou no E. Amadora depois de ter iniciado a formação no Sporting

Abel Xavier jogou no E. Amadora depois de ter iniciado a formação no Sporting

D.R.

Como foi passar de uma estrutura e de um balneário com o do Estrela para o Benfica?
Foi um impacto tremendo. Até porque eu tinha um jogador no Benfica que para mim era não só do ponto de vista do perfil, forma de jogar, presença em campo, alguém que sempre admirei, e tinha o poster dele no meu quarto, o Carlos Mozer. Lembro-me de muitas vezes passar na 2ª circular na zona de Benfica e pensar "um dia vou jogar aqui". Alimentava o desejo de um dia jogar no Benfica e aconteceu. Voltando ao Benfica, estamos a falar de tempos em que os balneários tinham jogadores marcantes, míticos. Eu era um miúdo que chegava ali.

Teve ajuda de alguém em especial na sua integração.
Do Eusébio, porque eu era mais um moçambicano que ia para o Benfica. Eu via no Eusébio uma figura paterna. Ele amparou-me, dava-me conselhos. Já tinha sentido isso no Estrela com Augusto Matine, que também foi uma figura paternal. Sempre tive à minha volta pessoas que tiveram um carinho especial por mim, por sermos moçambicanos ou por termos uma vida semelhante, de virmos de bairros mais pobres e tentarmos afirmar-nos nos clubes grandes. E também havia o meu lado competitivo. Adorava o treino, era muito competitivo.

O facto de ter ido para o Benfica tão novo, a ganhar mais, não levou a um certo deslumbramento?
Não posso dizer que tenha tido um deslumbramento com o dinheiro. É lógico que a vida ganha outros contornos porque podemos ter uma vida mais confortável e isso acontecendo, vamos vivendo de acordo com o que conseguimos.

Qual foi a primeira extravagância que fez?
No bairro o meu sonho era ter uma bicicleta BMX com pneus amarelos. Acabei por ter, dada pela minha avó, como prémio de ter tido boas notas. Era tudo como compensação de ter conquistado alguma coisa. Quando fiz esse semi-contrato com o Estrela o meu sonho era ter um carro e consegui depois comprar um carro, um Suzuki branco. Tinha também como sonho ajudar a minha família, daí que tenha contribuído para o apartamento de Queijas, porque queria dar estabilidade e unir a minha família. Depois foi a evolução normal das coisas. Claro que fui para o Benfica com outro tipo de condições que me permitiram crescer.

Abel Xavier com uma das primeiras camisolas que vestiu da seleção nacional

Abel Xavier com uma das primeiras camisolas que vestiu da seleção nacional

D.R.

Entretanto nasce o seu primeiro filho.
Sim, o David nasceu em 1993. Recebi a notícia de que ia ser pai na primeira época, no primeiro estágio que fiz com o Benfica, na Suíça. A minha relação com a minha ex-mulher na altura era uma relação de namoro, éramos miúdos, éramos jovens. Ela telefona-me a dar a notícia e eu assumi. Não estava à espera.

Viviam juntos?
Não necessariamente. Tivemos aconselhamento dos pais de ambos, porque eram decisões que marcaram o percurso de uma vida. Quando voltei do estágio da Suiça pedi ao Benfica que procurasse uma casa para nos unirmos e vivermos em conjunto. A partir daí foi no Estoril que fiquei a viver. Assisti ao parto do David. Em termos desportivos estamos a falar da época 1993/94, que foi a época que coincidiu com Toni e Jesualdo, e em que fomos campeões. Mas foram momentos difíceis, porque eu era o jogador mais novo - eu e o Rui Costa -, e lembro-me de, no antigo estádio da Luz, ter sido um dos jogadores muito criticado pelos adeptos nos primeiros seis meses.

Porquê?
Eu acho que houve sempre ali, para algumas posições... Quando fui para o Benfica, foi para jogar a lateral direito. O lateral direito na altura era o Veloso, que passou para lateral esquerdo. Depois como tinha uma certa polivalência, joguei no meio campo, joguei a central também, e isto era um lado muito rico para qualquer treinador quando havia problemas de balneário em termos de lesões. Mas os primeiros seis meses foram extremamente difíceis, porque passar do Estrela para um clube grande como o Benfica não é fácil e o clube também vivia alguma instabilidade. Mas lá consegui dar a volta ao contexto.

Em 1993 é chamado à seleção A pela primeira vez.
Essa é outra coisa que nunca se fala. Eu talvez seja o primeiro jogador, ou um dos poucos jogadores, que tenham sido chamados à seleção A, estando na II divisão, por ainda estava no Estrela. Por conhecimento do Carlos Queiroz da minha formação. sou convocado ao Suiça-Portugal, jogo como titular e fui eu que fiz o cruzamento para o Semedo marcar o golo de Portugal. Se não me engano, empatámos. Tinha 19 anos e passados seis meses é que vou para o Benfica. Mas a estreia ainda é como jogador do Estrela.

Abel Xavier durante a entrevista a Tribuna, em Lisboa

Abel Xavier durante a entrevista a Tribuna, em Lisboa

António Pedro Ferreira

Na segunda época do Benfica apanha o Artur Jorge, certo?
Sim. Eu nesse ano sou considerado inegociável porque tivemos um impacto muito grande na Taça das Taças. Lembro-me que havia três equipas do grupo Parmalat: o Benfica, o Marselha e o Parma. Tínhamos chegado às meias-finais com o Parma e, depois da expulsão do Mozer, eu passo a jogar a central nesse jogo e o diretor-geral do Parma queria que eu fosse para Parma. Mas como era inegociável...

Tinha empresário?
Naquela altura podemos dizer que os clubes é que tinham empresários. O Benfica tinha uma relação privilegiada com Manuel Barbosa e mais tarde com José Veiga. Toda a minha geração de jogadores eram orientada pelo Veiga.

Quando sai do Benfica para o Bari, de Itália, saiu magoado com o Veiga?
Não necessariamente. O Veiga foi meu amigo, como também foi de grande parte da minha geração. No princípio de época fiz uma artroscopia no joelho, no estágio da Suiça, e fiquei no Benfica. De inegociável no ano anterior a questionável e dispensável, porque veio Artur jorge, que fez algumas contratações e reestruturou o plantel, e ele não contava muito comigo numa fase inicial.

Ouvi dizer que o Artur Jorge o castiga por causa de algumas saídas noturnas.
Não. Houve muita instabilidade naquele período de afirmação do Artur Jorge, houve muita entrada de jogadores, a saída de muitos campeões nacionais. Eu acabei por ficar no plantel e fui sempre um grande profissional, mesmo não jogando. A prova disso é, que no final da época, quando fui manifestar interesse em sair, porque tinha tido uma época que não estava de acordo com as minhas expectativas, dá-se o empréstimo para Bari, mas sempre numa tentativa de resgatar o interesse do Parma. Aquilo que era para ter acontecido no ano anterior, não aconteceu; o Benfica só viabilizou na altura a saída de Rui Costa para a Fiorentina, não viabilizou a minha saída para Parma.

Abel Xavier em ação pelo Benfica onde jogou duas épocas

Abel Xavier em ação pelo Benfica onde jogou duas épocas

Mark Leech

É o Benfica que lhe oferece a hipótese Bari.
Sim. De alguma forma foi a intervenção do Veiga, que tinha relações privilegiadas em Itália, que consegue essa solução.

É a sua primeira aventura fora...
...Muito dificil.

Queria ir para fora?
O que eu não queria era estar numa situação de não me sentir importante. Acho que isto sempre marcou o percurso da minha carreira. Não foi uma questão de contrato, era acima de tudo uma questão de "eu estou aqui, trabalho, sou válido e quero ser importante, quero jogar". Foi isto que me fez sair do Benfica, porque naquela altura eu não pensava sair do Benfica. Acabei por ser forçado a sair do Benfica.

O que encontra em Bari?
Vou para Itália sem muito conhecimento da zona. O Bari era um clube na zona do sul, com rivalidades muito fortes, entre Bari, Lecce e Nápoles. Numa zona onde havia alguma violência, uma forma de abordar o futebol completamente diferente daquilo que eu estava habituado em Portugal. Tive um choque muito grande com o que encontrei. Na altura, a minha contratação gerava grande expectativa, mas eu fico um ano e a experiência do ponto de vista desportivo não me correu muito bem.

Porquê?
O meu primeiro treinador no Bari, que foi mais tarde treinador no Sporting, o Materazzi, era um treinador muito duro e a componente física e do trabalho não me agradava. Eu senti que o aumento da massa muscular que me queriam incutir naquele momento me deixava muito bloqueado. Depois, a minha mulher que foi durante três ou quatro meses, não se adaptou. Ela nunca teve um espírito, digamos, nómada, tanto que depois nunca mais saiu de Portugal. Isto também teve uma grande influência em mim, porque tínhamos o David muito pequeno e viver em Itália sozinho, naquelas circunstâncias que basicamente era futebol, futebol, futebol... Por isso foi muito difícil naquela fase, naquela idade. Foi difícil eu expressar o meu futebol, o meu potencial.

António Pedro Ferreira

Acabou por voltar ao Benfica?
Sim. Na altura penso que Toni regressa num outro cargo e está Paulo Autuori a refazer o Benfica. Havia a perspectiva de que eu poderia integrar o plantel de Autuori, mas depois o Benfica cede-me, neste caso a título definitivo, ao Real Oviedo.

E que tal?
O Real Oviedo foi talvez o oxigénio que eu precisava. A Sónia estava mais próxima e eu conseguia vê-los mais vezes e aí recuperei os meus estímulos para voltar a jogar com alegria. É um principado muito bonito, as pessoas são muito acolhedoras e esse carinho fez com que eu expressasse um futebol de muito boa qualidade. Daí que surge o interesse do PSV de Eindhoven, com o Bobby Robson, que era uma das figuras que eu apreciava muito.

Como foi a experiência na Holanda?
Gostei muito. Um clube de outro nível, com uma formação muito boa. Um clube de Liga de Campeões. Fiz um contrato de três anos. Era uma subida de patamar na minha carreira e trabalhar com o gentleman do futebol, Bobby Robson, é um estímulo muito grande.

O que gostou mais de sir Bobby Robson?
O lado pedagógico dele, o entusiasmo com a idade que tinha, a nível do treino. Ele exemplificava as coisas que queria dos jogadores. Era uma beleza ver a manifestação dele, o comportamento técnico dele, com a idade que tinha, era um exemplo, era estimulante, um senhor. E depois foi também perceber a organização, o método, as condições, não faltava nada.

Joga Liga dos Campeões no PSV...
...E jogo contra o Benfica. Tenho uns cruzamentos muito interessantes com a camisola vermelha como costumo dizer (risos). A única camisola que vesti e não era vermelha foi a do Everton, que era azul, de resto todos os clubes por onde passei de alguma forma as camisolas eram vermelhas.

Ficou uma magoa com o Benfica, não ficou?
Não, mas é verdade que eu queria continuar no Benfica. Percebe-se que aquela equipa estava formatada para ganhar uma competição europeia e foi um pouco desmembrada pelas decisões que foram tomadas. Nunca pensei sair do Benfica e tive de refazer a carreira de uma outra forma. Mas sempre senti um carinho dos adeptos do Benfica. Acho que guardam boas memórias minhas, acima de tudo porque era competitivo.

Abel Xavier também jogou pelo Real Oviedo, de Espanha

Abel Xavier também jogou pelo Real Oviedo, de Espanha

D.R.

Como acontece a ida para o Everton?
Eu tenho um contrato de três anos com o PSV. Depois do primeiro ano, Bobby Robson começa a ter problemas, sai e entra o belga Eric Gerets. Ele toma decisões de contratações que me fazem perder espaço. E há possibilidade de ir para Inglaterra. Na altura, tenho duas equipas interessadas, uma de Londres, o West Ham, de que gostava muito, mas acabo por ter a intervenção de um amigo que era muito próximo do Walter Smith, o treinador do Everton, e tenho uma reunião com ele em Londres.

Gostou do futebol inglês?
Os meus sete anos de futebol inglês acabam por personalizar as minhas capacidades atléticas, físicas. Acho que o campeonato que se ajustou mais, em que eu criei mais empatia, pelo meu lado atlético, de intensidade, de entrega, de paixão, foi o campeonato inglês. Senti isso de uma forma muito diferente dos outros países. A historia do Everton é engraçada e é preciso perceber as diferenças visto que joguei no Everton e no Liverpool. Eu fui um dos primeiros jogadores negros a jogar no Everton. Havia poucos negros dentro da cidade de Liverpool que eram adeptos do Everton, e nomeadamente jogadores, porque o Liverpool era um clube muito mais multirracial. Mesmo na cidade, a zona de Anfield e a zona de Everton também têm essa história. Ter sido tão aceite no Everton, da forma como fui, foi muito bom.

Alguma vez sentiu ou foi alvo de racismo?
A questão do racismo no futebol é complicada. Temos de saber dissociar porque é um campo muito fácil de manifestação, às vezes de frustrações pessoais, profissionais. O campo apresenta-se quase como um estado livre de manifestação dos adeptos, buscando alvos. Mas isso também se pode chamar clubite. Pessoalmente não posso dizer que tenha sentido racismo. Vejo mais como clubite e forma de provocar uma reação.

E fora de desporto nunca foi alvo de racismo?
Se calhar a forma mais silenciosa do racismo é a inveja.

Abel Xavier durante um jogo pelo PSV

Abel Xavier durante um jogo pelo PSV

Bob Thomas

Nunca se sentiu refém da sua imagem ou que houvesse um pré julgamento por causa da sua imagem?
Quando adotei uma certa irreverência, da imagem, que suscita nas pessoas um pré-julgamento, há coisas boas e coisas más. Eu quebrei uma regra de uma mentalidade conservadora que existe no futebol, por ter pintado o cabelo. As regras do futebol às vezes não permitem o gosto pessoal. Deixei de ir para vários clubes só pelo meu cabelo. Tive propostas de clubes que punham em cima da mesa uma condição: que eu alterasse o meu estilo.

Pode dizer que clubes?
Não. Clubes europeus. E a única coisa que acontecia na mesa de negociações era isto: eu apertava a mão às pessoas e dizia nós vamos encontrar-nos um dia como adversários. Literalmente. Essa resistência de ter permanecido refém de uma determinada imagem tem um motivo. E o motivo é o Euro 2000.

É quando surge pela primeira vez de cabelo pintado.
Sim. Eu era uma pessoa de grupo, gostava de alimentar a empatia de grupo. Faço uma coisa espontânea para uma brincadeira de grupo. Fui a uma cabeleireira amiga de muitos anos, na zona de Algés, e disse-lhe: "Eu quero mudar a minha imagem e pôr uma cor no cabelo". Foi uma brincadeira. Aquilo que sei hoje é que quem me dera que há 18 anos tivesse uma maquinaria por trás que me tratasse da imagem porque podia ter tirado muitos mais dividendos. Criei uma personagem, contraditória à minha forma de ser, porque até serviu um pouco de escudo, que resultou por um lado. Mas aconteceu apenas como uma brincadeira de balneário. Quando fomos para estágio eu apareci com o cabelo pintado. Foi uma gargalhada entre os nomes e os apelidos que me colocaram (risos).

Recorde lá alguns.
(risos). Eu tinha o cabelo todo espetado e havia quem me chamasse "o Ananás" (risos).

E o selecionador, o Humberto Coelho, o que lhe disse?
Ele era uma pessoa que dominava bem os balneários, achou normal. Agora dentro do grupo aquilo foi uma risada.

Abel Xavier aparece de cabelo pintado pela primeira vez na seleção nacional

Abel Xavier aparece de cabelo pintado pela primeira vez na seleção nacional

Popperfoto

A verdade é que nunca mais largou esse visual. Porquê?
Vou dizer qual foi o lance e talvez o momento mais importante da questão de manter-me com o mesmo visual. Eu fui castigado injustamente depois dos acontecimentos do Euro 2000. Porque se falarmos no aspeto desportivo, que é aquela pergunta intemporal, se foi penalti, se não foi penalti; se fosse na área francesa marcava ou não marcava, etc. De facto eu sou a única pessoa que posso dizer que não foi intencional, mas que a bola bateu-me na mão. Depois, podíamos entrar noutras considerações, se fosse na área francesa se se marcava, se o árbitro viu o lance, se não foi pressionado pelos jogadores franceses, etc.

Mas continua a garantir que não teve intenção?
Aí é que está. Posso dizer assumidamente que a bola bateu-me na mão, mas eu nunca tive intenção de tocar. Mas bateu-me na mão, é um facto. A questão de intencionalidade. Se eu pegar numa bola e estiver a 10 metros e simular que vou chutar contra o corpo de uma pessoa, sabendo que a deslocação da bola é mais de 100km/hora, a pessoa tem de ter um instinto, um reflexo. Agora, na envolvência do jogo, no meu posicionamento de tentar interferir e tapar o ângulo de golo iminente, sabendo que a disposição dos braços é ao longo do corpo, porque naquele momento não temos nenhum pensamento de colocar as mãos atrás das costas, os calções não têm bolsos, portanto é normal que as mãos fiquem ao longo do corpo, foi penálti. Para mim, foi uma má decisão, influenciada por outros interesses. Mas o que foi mais grave é o que vem depois. Temos uma ação em campo desportiva, que é o penalti, e temos duas ações disciplinares que neste caso têm a ver com Paulo Bento e Nuno Gomes, que são atos visíveis e punidos perante a disciplina. Temos três castigados. Depois do rescaldo do jogo foi visível para toda a gente que os jogadores portugueses, à boa maneira latina, foram protestar com árbitro. É lógico que os meus protestos com o árbitro são em português, e na linguagem normal de futebol, porque nós estávamos a sair do Europeu naquelas condições. Repare, a UEFA tinha alterado o regulamento e estava em vigor o golo de ouro, que nem deixa podermos recuperar o resultado. Uma regra que nem teve seguimento sequer, acabando por ser retirada.

Considerava-a injusta?
Era uma regra demasiado cruel. Mas o mais engraçado é que aquelas manifestações todas se arrastam para a parte não visível, que é o túnel. Houve confusão de túnel. Hoje em dia nós sabemos que temos as câmaras nos estádios e houve uma grande evolução da tecnologia para identificar as ações. Eu não estou em nenhum momento, em nenhuma ação de túnel. Eu estou na ação visível de campo e nada mais. À partida só posso ser julgado por aquilo que se viu em campo. Penálti ou não. Porque eu sou o primeiro jogador que sai a correr depois e vou fechar-me na casa de banho a chorar pela forma como as coisas aconteceram.

Abel Xavier no jogo da meia final do Euro 2000, com a França

Abel Xavier no jogo da meia final do Euro 2000, com a França

PHILIPPE HUGUEN

Não esteve na confusão do túnel?
Se me perguntasse a mim quem esteve na confusão eu poderia dizer, mas eu nunca o disse. Porque se há alguma pessoa que pode falar do processo na íntegra, do princípio ao fim, sou eu. Eu fui até ao fim e foi-me dada razão, foi feita justiça, porque recorri da sentença. Lembro-me que estava no Algarve quando me notificaram, dizendo que ia ser castigado. Eu fiquei surpreendido. Porque jamais na minha vida pensei que podia ser castigado por ter feito o penálti. Como é que posso ser castigado por ter feito o penálti? Já fomos punidos.

Mas esteve a discutir com o árbitro.
Foi visível. Todos nós estivemos a discutir com o árbitro. Mas o que é engraçado é que o árbitro alega no seu relatório que houve agressão no túnel.

E não esteve nessa situação?
Não. Mas sei que houve, sei quem esteve, sei quem participou e também sei quem agrediu, mas não fui eu. O árbitro fez o relatório do ato disciplinar do Paulo Bento, o do Nuno Gomes e fez o relatório daquilo que aconteceu no túnel. Eu não estava no túnel, portanto não posso ter agredido o árbitro. Estou no Algarve de férias e ligam-me dizer que tenho de ir à sede da FPF para uma reunião de emergência porque tinha sido castigado com nove meses de suspensão. "O quê? Desculpe lá mas devem ter-se enganado no jogador ou nos jogadores. Como é que eu posso ser castigado? Fundamentado em quê?". Venho a Lisboa, tenho uma reunião na FPF com o presidente Madaíl e respetivos advogados. E quem se faz presente? O Nuno Gomes, que naquela altura estava em Itália, mas sem representação da Fiorentina; o Paulo Bento, que estava representado com o Sporting e eu. O Everton não quis participar, embora moralmente estivesse a apoiar-me. O Paulo Bento e Nuno Gomes apanharam sanções de seis meses.

O que aconteceu nessa reunião?
Daquela reunião entendi que a defesa ia ser muito difícil, mas também assumi que iria até às últimas consequências. Foi quando um grande advogado internacional, que mudou o futebol com a Lei Bosman, o Jean-Louis Dupont, me liga. É uma pessoa conhecedora do aparelho da UEFA. Diz que quer defender-me. Tenho dois recursos dentro da jurisdição da UEFA, nos quais a pena se manteve. Fomos ao TAS (Tribunal Arbitral do Desporto) em Lausanne, a última instância, onde basicamente depois de seis meses, de alguma forma foi feita justiça. Ou seja, a pena foi suspensa. Basicamente foi dar-me razão, que de facto não fiz rigorosamente nada à margem daquilo que foi o jogo. E na altura o árbitro também se fez presente, arrolou-se como testemunha, e ele próprio falou sobre as circunstâncias da situação. Só que entre a justiça que foi feita e o dano causado em termos de imagem, em termos contratuais, porque eu não deixei de ficar inviabilizado de jogar a nível internacional... Porque dos jogadores daquela seleção, daquela geração, depois da grande prestação do Euro, 14 deles foram para clubes e com contratos mais valorizados, pela prestação da equipa. E eu fui o único jogador que não fui, porque nenhum clube que estava interessado em contratar um jogador que estava castigado.

Depois de cometer penalti Abel Xavier foi falar com o árbitro, no jogo da meia final do Euro2000, com a França

Depois de cometer penalti Abel Xavier foi falar com o árbitro, no jogo da meia final do Euro2000, com a França

Nick Potts - EMPICS

Sentiu-se revoltado.
Há uma revolta interior que fez-me estar focado em querer justiça, e que levou à minha passagem para o Liverpool. Quando passo para o Liverpool sou novamente chamado à seleção nacional.

Disse que o árbitro esteve presente no TAS, ele continuou ou insistir na versão dele?
Não, ele depois aceitou que me tinha confundido. Só que esse árbitro nunca mais apitou. Também é um dado interessante.

Chegou a perceber o que se passou em concreto? Foi mesmo um engano ou foi um engano propositado?
Até pela pessoa em causa que me defendeu e pelas informações que eu ia tendo, é óbvio que houve algo que não correu tão bem. Mas é uma situação sobre a qual jamais irei falar concretamente.

Sente que foi prejudicado para outro jogador não ser prejudicado?
Não. O que eu sei é que quem cometeu esses atos não foram castigados. Mas sempre preservei para mim que, o maior significado, é quando durante quatro minutos tudo para para cantarmos o hino. Eu sempre respeitei, independentemente de pessoas, o significado de jogar pelo país; perante isso, jamais irei falar nos acontecimentos, da verdade do Euro e dos castigos objetivamente. Já passou.

Mas, como disse, prejudicou-o.
Temos de saber dar a volta a alguns momentos negativos na carreira ou na vida, feitos por outros ou por nós próprios. Não temos outra solução. E buscar soluções não têm necessariamente com atingir outros.

Houve alguém do meio que lhe tenha dado um apoio maior?
Eu tive uma pessoa, que respeito muito no espaço da seleção, o Carlos Godinho, que foi a pessoa que durante o processo teve a consideração de ligar-me e perguntar como estavam as coisas e confortar-me em alguns momentos. Isso foi importante. Foi o único durante o processo. Por outro lado, no meu regresso à seleção foi muito engraçado ver e sentir os abraços.

Sentiu hipocrisia?
Não, foi muito engraçado, porque eu não deixei de cantar o hino 75 vezes, em todas as camadas da estrutura da federação. Quando voltei, eu também sorri. Sorri porque para mim a minha maior alegria com 27 anos era dar continuidade à minha carreira internacional, que coincidiu neste caso com a preparação do mundial 2002. Eu sempre quis voltar à seleção. A travessia solitária que vivi na minha defesa, o meu único objetivo, o meu único foco, era voltar à seleção nacional. Era chegar a um clube e voltar à seleção. E voltei.

Abel Xavier no Everton

Abel Xavier no Everton

Clive Brunskill

Foi ao mundial da Coreia e do Japão. Que memórias tem dessa fase final?
Há sempre ilações e reflexões que devemos tomar a vários níveis. A nível estratégico, de planeamento, de lideranças, até os próprios jogadores, todos, todos os agentes que estão envolvidos no futebol devem tentar perceber porque é que uma geração campeã do mundo em 1989 e 1991, levou nove anos, até 2000, para chega a uma meia-final. Enquanto a grande rival, em termos de formação, que foi sempre a França, nos mesmos nove anos ganhou dois europeus e um mundial. Quando falamos em rivalidade, que vem desde a formação, que existe e que existiu e que de alguma forma a vitória desta geração de Fernando Santos vingou... há um histórico, há um passado. E é perante esse passado que não tenho dúvidas de que a estrutura atual cresceu, aprendeu seguramente de muitos erros que foram feitos aos mais diversos níveis. Agora, acho que se perdeu um momento muito importante com a nossa geração. Porque a nossa geração gerou uma enorme empatia com o povo português, mas não ganhámos nada. Éramos uma geração extremamente competitiva, e a gestão de um grupo tão competitivo era muito difícil, porque a maior parte dos jogadores naquela altura jogava nas maiores equipas a nível de clubes, mas verdadeiramente como seleção falhamos.

E consegue explicar o falhanço no mundial de 2002?
É uma pergunta difícil, porque está a fazer uma entrevista a uma pessoa que passou por todos os momentos mais polémicos do futebol na primeira pessoa, dentro das estruturas. Acho que todos falhámos no processo. Há uma coisa que é indiscutível no mundo do futebol: os grandes protagonistas e a parte mais visível, que faz as coisas acontecerem são os jogadores, mas isso não quer dizer que por trás, a nível estrutural, de planeamento, a nível organizacional, das lideranças, várias, não tenham de estar todos em concordância. Não estivemos à altura por um conjunto de fatores. E um dos mais importantes para mim, em busca de objetivos, é seguramente o planeamento.

Em qual dos clubes de Liverpool se sentiu mais confortável?
São dois clubes centenários. Da forma como foi feito, muitos não aceitaram que fosse jogar para o rival no mercado de janeiro, mas a postura e o trato que tive com a direção do Everton foram os mais corretos possíveis. O Everton estava a passar por um período extremamente difícil a nível financeiro, eu estava a acabar o meu contrato, faltavam seis meses, e basicamente entre o Everton receber uma comparticipação dos seis meses de contrato e eu sair livre porque não conseguia renovar o contrato pelos problemas financeiros, o processo foi linear, correto.