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A casa às costas

“Vivi na pobreza no Jamor, convivi com o Beckham, jantei com o Cruise e o De Niro em LA, mas guardo roupa suja do pó vermelho de Moçambique”

Na segunda parte da entrevista o atual selecionador de Moçambique relembra os dois anos passados em Los Angeles, o glamour de conviver com estrelas como Tom Cruise ou Denzel Washignton e de como os LA Galaxy souberam tirar dividendos da sua imagem. Abel Xavier confessa ainda como sempre lutou pela união da família e de como é cioso da sua vida privada, apesar de ser uma figura pública. Evita o tema da sua conversão ao islamismo e defende que pratica a religião à sua maneira. Explica o castigo por doping e a sua inocência e, por fim, fala com orgulho do trabalho que tem estado a desenvolver em Moçambique como selecionador, não só no domínio desportivo, como social também

Alexandra Simões de Abreu

António Pedro Ferreira

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Como passa do Liverpool para o Galatasary?
Jogo a Liga dos Campeões com o Liverpool e, à semelhança do que tinha acontecido quando estava no Benfica, também marco em Leverkusen. Faço um ano muito bom, depois o Gerard Houllier tem um problema de saúde e fica ausente por tempo indefinido. O adjunto toma conta da equipa e resolve dar continuidade a jogadores da academia, da casa; foi quando fui cedido ao Galatasaray.

Que tal?
Foi uma experiência extremamente importante. Fui o primeiro português a abrir portas no mercado da Turquia. Depois houve muitos outros que se seguiram. Simão Sabrosa, Quaresma, Manuel Fernandes, etc. E aconteceu por ter jogado Liverpool-Galatasaray na Liga dos Campeões. Nesse jogo tínhamos cerca de 2000 policiais à espera do Liverpool, quando chegámos a Ataturk, na Turquia, por questões políticas, claro. Era um jogo com grau elevado de risco. E não me esqueço que, quando chegámos ao balneário, começámos a ouvir um ruído como se fosse o império romano (risos). Três horas antes os turcos já estavam dentro do estádio. Completamente lotado. Foi a primeira vez que vivi uma situação tão forte, tão marcante e vi uma forma de estar no futebol diferente, pela paixão que os turcos têm pelo jogo e pelas equipas. De tal maneira que quando chega o intervalo, no balneário, ponho a toalha em cima da cabeça e tenho uma reflexão muito rápida "Quem me dera um dia jogar aqui no Galatasaray". Eu estava jogar numa das melhores ligas da Europa e num grande clube, mas tenho esse pensamento por aquilo que estava a viver, toda aquela dinâmica da envolvência, foi uma coisa que me fez desejar isso.

Foi o que aconteceu. E gostou?
Adorei. É lógico que a vida social fica muito mais limitada porque os jogadores de futebol são muito idolatrados na Turquia. A imprensa é muito agressiva. Mas fui aceite de uma forma única em Galatasaray. Tinha milhares de pessoas à espera e lembro-me que um dos primeiros jogos que fiz foi o dérbi com o Fenerbahçe e acabei por ser um jogador marcante pelo meu lado agressivo, do meu comportamento em campo, muito competitivo.

Abel Xavier ao serviço do Galatasaray

Abel Xavier ao serviço do Galatasaray

Matthew Ashton - EMPICS

É nessa altura que nasce o seu segundo filho, o Lucas?
Sim.

Foi um acidente de percurso ou mais uma tentativa de unir a família?
Esta questão do distanciamento da minha família, por razões que a minha ex-mulher evocava, de estabilidade (era filha única e eu compreendo as razões), fez de mim uma pessoa que nos tempos livres vinha constantemente a Portugal. Mas aquilo que queria era de facto juntar a minha família. E isso só vai acontecer de alguma forma, mais tarde, quando ambiciono ir para os EUA.

É no Galatasaray que nasce o seu interesse pelo islamismo?
Esta questão da religião ganha sempre uma grande dimensão quando manifestamos um lado que parece que não é aquele mais normal. Mas eu nasci em Nampula, zona predominantemente muçulmana, tenho família árabe. Depois, eu tive uma orientação a partir do meu pai, católica, em que não tive poder de escolha. Mas o futebol permitiu-me, ao viajar tanto, perceber outras mentalidades, e viver nos países é diferente de passar pelos países. Gostei muito de ter partilhado vivências com as pessoas na Turquia. Mas dizer assumidamente que foi por isso que divulguei uma certa orientação religiosa...Mas não acho que seja uma coisa de uma importância grande.

Só assume mais importância porque o Abel converte-se e faz o anúncio oficial disso através de uma conferência de imprensa.
Sim, mas foi feito de uma forma natural. Nos momentos mais difíceis, naqueles últimos seis meses de castigo, eu passei muito tempo no Oriente, nomeadamente nas férias, porque tenho amigos lá. Falávamos de coisas da vida. Se calhar foi mais alimentada pelas relações que tinha nessa altura. Embora neste tipo de coisas ninguém convence ninguém. Agora acho que devemos ter o poder de escolha. Da mesma forma que respeito outras crenças e orientações, espero que respeitem. É algo meu, é algo pessoal, no qual me manifesto da minha forma.

David e Lucas, os filhos de Abel Xavier

David e Lucas, os filhos de Abel Xavier

D.R.

Mas revê-se mais no islamismo do que no catolicismo?
Não. Vamos lá a ver, se recuarmos um pouco na história, alguma coisa nos fez divergir em vários aspectos que no passado não divergíamos. Se formos à essência tribal, havia muitos mais pólos que nos uniam em termos de uma crença de algo que é único, que é partilhado e expressado de uma ou de outra forma, mas que é único. Muitas das infiltrações que levaram a múltiplas interpretações e à utilização muitas vezes da religião para outros atos, deu-nos uma perceção muito diferente daquilo que é de facto a sua essência, a essência da partilha, do pensamento de ajuda ao próximo, do bem-estar. Mas não posso excluir outras orientações porque também me revejo nelas, há linhas comuns, a raiz é comum.

Significa que não sente obrigação de rezar cinco vezes ao dia, de fazer o Ramadão…
...Eu sigo uma convicção minha, pessoal, sobre a forma de pensar a questão da religião. A forma de estar, de manifestar, de pedir e agradecer, é tudo muito pessoal. Rezo à minha maneira, faço os agradecimentos à minha maneira, peço à minha maneira.

A comunidade islâmica não o leva a mal por isso, por não cumprir os rituais?
Não. Acho que a essência da religião em si, seja ela qual for, é a da aceitação, deve ser de aceitação.

Abel Xavier na altura em que se apresenta em Hannover, na Alemanha

Abel Xavier na altura em que se apresenta em Hannover, na Alemanha

Martin Rose

Fica um ano e meio no Galatasaray. Não fica mais tempo porquê?
Eu queria ficar mais tempo, mas o Liverpool não me libertou. Estava na condição de emprestado, voltei ao Liverpool para me libertar da situação contratual e assinar um contrato de três anos com o Galatasaray, mas o Liverpool não me deixou sair. Acabei por ficar e isso coincidiu com o regresso do Gerard Houllier. Mas seis meses depois acabo por sair e é aí que vou para Hannover.

Gostou dessa experiência na Alemanha?
Depois da minha saída do Liverpool era para ter ido para um grande clube europeu em janeiro, mas as coisas não aconteceram até ao último dia de mercado. E no último dia de mercado, quem me ajudou a encontrar clube, para não ficar seis meses sem jogar, foi o Jorge Mendes. Foi ele que me ajudou naquele momento a dar seguimento à minha carreira, nomeadamente no Hannover, no qual tinha um contrato curto, basicamente de catorze jogos. Mas foi uma experiência que não foi muito boa do ponto de vista desportivo porque joguei quatro ou cinco jogos, depois houve uma mudança técnica, veio um treinador com uma personalidade muito marcada, não queria jogadores estrangeiros, o Ewald Lienen, que só queria jogadores que falassem alemão. E na altura tanto eu como o Jaime, um jogador que estava emprestado pelo Real de Madrid, mais o capitão da Grécia, fomos excluídos do plantel. Portanto fiquei ali três meses meio parado.

Abel Xavier durante um jogo pelo Hannover 96

Abel Xavier durante um jogo pelo Hannover 96

Martin Rose

Como é que no meio disso surge a Roma?
A Roma... foi engraçado. Tive pessoas sempre pessoas na estrutura italiana que estavam interessadas que eu fosse para Itália. Uma das pessoas que gostava do meu trabalho era o Franco Baldini, que na altura era o diretor desportivo do Roma. E é engraçado que a situação da Roma coincide com a saída do Del Neri do FCP para o Roma. Houve uma conjugação de interesses e vontades.

Adaptou-se bem a Del Neri?
Gostei da filosofia dele, gostei do trabalho, da metodologia. A única coisa é que naquela altura a Roma estava num período de grande instabilidade. Penso que tivemos quatro técnicos. A Roma teve problemas em manter-se na Primeira Divisão e o Del Neri também acabou por sair. Foi uma passagem fugaz e o meu pensamento era voltar a Inglaterra.

Consegue, vai para o Middlesbrough.
Sim, mas foi uma curta passagem também. Mas pelo que representa o Middlesbrough em Inglaterra, a classe laboral, foi extremamente positivo.

Abel Xavier (à direita) em ação pelo Middlesbrough

Abel Xavier (à direita) em ação pelo Middlesbrough

John Peters

Tem um problema de doping quando está no Middlesbrough.
Isso é uma história surrealista, surrealista. Só quem não está no mundo do futebol é que não consegue entender, porque o jogador está sujeito semanalmente aos controlos anti-doping. Quando joguei em Inglaterra, no Everton, tinha-me sido identificada uma insuficiência em determinado grupo de vitaminas. Não sei se foi causado por questões climatéricas ou de falta de absorção de sol, mas tinha uma insuficiência e durante os meus tempos em Inglaterra tomava sempre uma suplementação que era obviamente prescrita pelos departamentos médicos que já sabiam e não havia problema nenhum.

Tomou no Everton e no Liverpool?
Sim, só deixei de tomar quando fui para a Alemanha e para Itália. Mas quando voltei para Inglaterra, nos registos e nos testes, eu teria que voltar a repor esse suplemento, sob a supervisão do departamento médico do Middlesbrough. Tudo comprovado, estamos a falar de futebol de alto nível, não havia problema nenhum.

Então o que é que aconteceu?
Temos competições europeias, vamos jogar com o Xanthi da Grécia para a Taça UEFA, e o que foi evidenciado é que o lote da suplementação que tomei, tinha películas, fragmentos de uma substância que era proibida. Não estava inserida no grupo das substâncias que estimulava o aumento competitivo ou de massa muscular, mas estava lá. A partir do momento em que saiu o relatório deste controlo que deu positivo, a primeira decisão do clube, do departamento médico e do presidente, que sabiam do meu profissionalismo, foi: “Nós vamos estar contigo. Essas matérias de controlo positivo em Inglaterra são muito delicadas. É mais fácil sair do país do que suportar um atleta em matéria de controlo de doping, mas nós sabemos o tipo de atleta que temos e o exemplo que tu és aqui dentro e vamos dar-te todo o apoio. Moralmente, estamos a teu lado e tu vais fazer a tua defesa”.

Abel Xavier e o filho mais velho, David

Abel Xavier e o filho mais velho, David

D.R.

O que fez?
Pedi à UEFA que designasse um laboratório para que se fizessem análises aos respetivos produtos e eu próprio submeti-me a uma análise. Assim aconteceu e percebeu-se o que tinha acontecido. Depois, levantou-se outra questão, que fez mudar um bocadinho o rigor da suplementação dos clubes. Muita coisa foi alterada. Porque boa parte dos produtos que existia em casas de produtos naturais, ginásios, e isto foi documentado, para fidelizar as pessoas ao hábito de comprar um produto que supostamente lhes faz bem, continham uma contaminação implícita à adição do mesmo produto. Esse rastreio foi um avanço que se deu na qualidade do produto, na distribuição, na idoneidade das empresas, porque de facto estava a existir uma alteração dos produtos.

Mas chegou a ser castigado.
Fui castigado, estive parado seis meses, mas depois ganhei a causa.

E continua no Middlesbrough ou vai logo para os EUA?
Voltei a Middlesbrough, o meu contrato foi reativado, voltei a jogar, acabo a época lá, eles ainda querem que faça mais um ano de contrato, mas é quando tomo uma decisão a pensar mais nos aspetos da família, e vou para os EUA. Porque entendi que lá poderia refazer e integrar toda a minha família.

Abel Xavier e David Beckham, jogdores dos LA Galaxy

Abel Xavier e David Beckham, jogdores dos LA Galaxy

D.R.

Como é que surge o interesse dos LA Galaxy?
É mais uma daquelas histórias incríveis. Depois de todas essas questões por que passo, ponho na minha cabeça, aos 33 anos, que tenho de ter uma outra experiência e tenho de ir para um país onde possa juntar a minha família. Estou no Middlesbrough e recebo uma chamada de Alexi Lalas, que tinha sido um jogador do Padova. Era um countryman do futebol americano, tinha uma barba muito grande e ia para os estágios da seleção da América com uma guitarra. Nós tínhamos jogado um Bari-Padova com 20 anos, e depois desses anos todos, ele liga-me. É o administrador do Galaxy. Ou seja, houve sempre ao longo da minha vida, alturas em que pensava nas situações e elas surgiam-me de uma forma ou de outra.

O que ele lhe propõe?
Ele diz-me que já tinham contratado o David Beckham e, embora não fosse ainda público, ele seria a imagem global da nova MLS. A estrutura do Galaxy e de todas as equipas franchising, seria a de terem dois jogadores de marketing, por equipa. Como iam ter o David Beckham, ele pergunta-me se eu, como afro-latino e com uma imagem particular, não me queria juntar ao projeto.

Aceitou logo?
Sim. Era aquilo que eu queria de certa forma. Ter uma experiência diferente e poder juntar a família. Aceito ser o segundo jogador de marketing na estrutura do Galaxy só que jamais pensei que eles já tivessem uma estratégia perante a minha imagem. Ou seja, eles tinham estudado a minha imagem ao longo do tempo, e como tinham dentro da estrutura empresarial de Los Angeles, um jogador de basquetebol muito considerado e também com uma imagem muito irreverente, o Dennis Rodman, eles queriam também um personagem dessas na estrutura do futebol. Como eu dominava espanhol, porque tinha jogado em Espanha, e a comunidade mexicana representava 20% da classe trabalhadora de Los Angeles e é apaixonada por futebol, eu seria a pessoa certa. Numa perspetiva de cruzarem indústrias, de acrescentar valor. Era uma outra forma de pensar. Foi uma aventura surrealista a dos EUA.

Abel Xavier com o filho mais novo, Lucas

Abel Xavier com o filho mais novo, Lucas

D.R.

Mas a família não o acompanha.
Infelizmente é quando se dá a separação definitiva.

O que mais destaca da sua passagem pelos EUA?
Primeiro, o lado organizacional das estruturas americanas; aquilo é de outro nível. Hoje em dias falamos dos direitos de imagem no futebol, mas isso é um acontecimento com 10, 15 anos. Só quem está ou esteve nos EUA é que percebe o impacto da imagem. Quando acabava o treino tinha logo a relações públicas do Galaxy a perguntar-me: “Abel temos aqui uma lista de eventos. A qual é que tu queres ir hoje?” E os eventos eram de outras indústrias, podiam ser eventos de red carpet, de música, de Hollywood. A partir do momento em que eu estava posicionado como estratégia nesses eventos, havia curiosidade em conhecerem-me. E essa curiosidade era traduzida em mais valia para o Galaxy. De alguma forma, movimentei-me nos maiores eventos que só via nas revistas e no cinema. Estive com celebridades que jamais na minha vida poderia imaginar.

Com quem, por exemplo?
Estive perto e convivi com o Tom Cruise, Denzel Washington, Robert de Niro, em jantares, em que falávamos, porque tinham curiosidade de perceber o soccer. Basicamente eram momentos de oportunidade de troca de informações. Também ia a algumas festas temáticas em casa de algumas personalidades. É um mundo muito próprio de relacionamentos, muito dinâmico e que faz as coisas acontecerem, mas que precisa de ser entendido, porque é um mundo aditivo e pode ser perigoso.

É um mundo de sexo, drogas e rock and roll?
É um mundo de muito glamour. É um mundo em que poucas pessoas entram, independentemente do dinheiro que possam ter. Poucas pessoas convivem dentro de um determinado circuito. Eu tive a oportunidade de conviver dentro desse circuito. Mas era apenas um momento.

Sentia-se como peixe na água?
Tive ‘ene’ abordagens para fazer coisas relacionadas com a imagem. Há um determinado momento em que quero estabilizar-me em Los Angeles, porque nesses contatos houve muitas pessoas que tentaram posicionar-me para várias áreas, o que de alguma forma me suscitou interesse. Estamos a falar do mundo das artes, da moda, da música e não há cidade melhor do que Los Angeles nesses aspetos todos. Uma das minhas ideias era poder ter alongado a minha permanência nos EUA para além da minha carreira desportiva.

Abel Xavier (à esquerda) num jogo pelos LA Galaxy

Abel Xavier (à esquerda) num jogo pelos LA Galaxy

Sara Wolfram

Isso não acontece porquê?
Um dos motivos foi a entrada de um novo treinador, no último ano, o Ruud Gullit. Eu não tive uma boa relação com ele. Surpreendentemente, foi o único treinador com quem não tive uma boa relação. Não por ter deixado de ser profissional. Penso que quando entrou na estrutura que já existia, queria profissionalizar as coisas de tal maneira... Ele tinha uma forma de liderança muito dura para com os jogadores mais experientes. Oprimindo e falando de uma certa maneira aos mais velhos, para serem exemplo para os mais novos. Acabou por ter consequências. Saí do Galaxy mais cedo do que previa, ele também saiu passado três ou quatro meses.

O David Beckham já tinha saído?
Saiu no final da época, mas o caso dele era diferente porque ele tinha um compromisso que penso ser o projeto que ele vai desenvolver, o franchising de Miami. Era um dos sonhos que ele tinha e que penso vai concretizar no próximo ano.

Gostou do Beckham?
Gostei. Pela figura marcante que é, por aquilo que movimenta, por aquilo que arrasta, acho que não há nenhum jogador no mundo que não gostasse de ter partilhado o balneário com ele. E não só partilhei esse balneário com o Beckham, como partilhei um pouco da vida de família dele, ou seja, aquilo que há atrás do grande cenário.

E o que é que há atrás do grande cenário?
Uma família muito mais simples do que se imagina. Se há um dado que posso retirar também dentro desse glamour de que falámos, e que muitas vezes tem a ver com o vender um determinado produto ou estar com uma determinada pose, aparecer com uma determinada representação, é que há pessoas muito genuínas, muito puras, muito humildes e a família Beckham é uma delas. Gostei do meu relacionamento com ele e com a família. O Beckham também tem a sua história de vida, de percurso, de crescimento e de afirmação. Agora é indiscutível a sua presença e a imagem que arrasta.

Estava a dizer que não fica no Galaxy por causa do novo treinador...
A minha ideia era de adquirir o green card, mas não aconteceu. Embora tenha um visto de longa duração, e continuo a ter as minhas relações e contatos no Galaxy.

Abel durante a entrevista a Tribuna, em Lisboa

Abel durante a entrevista a Tribuna, em Lisboa

António Pedro Ferreira

Voltou porquê?
Talvez pela minha família, pelos meus filhos. A outra razão foi porque entendi que queria iniciar a minha formação como treinador. Queria voltar a Portugal e queria voltar ao futebol mas em outras áreas.

Foi muito difícil pendurar as chuteiras?
Da forma como a minha carreira evoluiu e cresceu, acho que me preparei para o após. O após é difícil e existem colegas meus que até ficam em estado depressivo e perdem um pouco a orientação de todo o rigor e da disciplina de uma carreira. Acho que, no meu caso, sempre tive consciência de que iria chegar o momento em que era natural ter de pendurar as botas.

Quando regressa a Portugal vem já com a ideia de fazer o curso de treinador ou tencionava iniciar carreira noutra área?
Quando saio dos EUA tenho claramente o objetivo de iniciar a minha carreira dentro da área do futebol. E na altura vou para a Alemanha fazer o curso. Depois, quando volto a Portugal, existe um momento em que grande parte de colegas meus da minha geração conseguem regressar ao futebol como treinadores, e tenho a mesma ambição, entrar como treinador mas com um projeto associado à minha experiência e vivência.

Abel Xavier num evento social de red carpet, nos EUA

Abel Xavier num evento social de red carpet, nos EUA

Gregg DeGuire

É quando vai para o Olhanense.
Eu queria comprar o Olhanense com um grupo de investidores, porque entendi que só poderia ter estabilidade verdadeiramente se pudesse identificar um clube, uma região para desenvolver aquilo que eu chamo de projeto. Em que eu estivesse dentro do projeto como garante do seu desenvolvimento e com um investidor que fosse forte. Só que o Olhanense já tinha iniciado as negociações com o grupo italiano, para este tomar posição com a constituição da SAD. Eu chego com outro grupo e faço uma oferta de recompra.

Esse grupo era de onde?
Era uma grupo africano das minhas relações. Fizemos uma oferta de recompra das ações, mas o grupo italiano não aceitou porque tinha a sua visão para o Olhanense. Mas fez-me a proposta de ser eu o treinador da estrutura deles. E vejo ali uma possibilidade de entrar na primeira divisão, como treinador. Acautelo as relações com o meu investidor, como é óbvio. Se porventura, ao longo do projeto acontecesse alguma coisa, teria o meu investidor para ajudar. Ou seja, o presidente da SAD é o Igor Campedelli, o diretor geral era o Miguel Pinho e começámos a estruturar o Olhanense. Tivemos 15 dias para consolidar a constituição da SAD, três semanas para preparar um plantel e mais quatro semanas para fazer uma pré-época na I Divisão. Sou o primeiro treinador do Olhanense nestas condições difíceis. Na altura, tínhamos quatro jogadores com contrato, tivemos que fazer um scouting, e naquela altura era extremamente difícil aliciar jogadores porque já estavam noutras equipas, por isso vieram muitos estrangeiros através da gestão da estrutura italiana. Tenho 20 jogadores que vêm do estrangeiro.

Gerir tantas nacionalidades não deve ter sido fácil.
Nacionalidades diferentes, personalidades diferentes num ano que era o ano zero, de afirmação do Olhanense, numa zona em que se tem de entender bem a relação entre clube e SAD. Todas essas questões têm que estar muito bem niveladas, coisa que nunca aconteceu.

Abel Xavier e João Pinto

Abel Xavier e João Pinto

Nuno Botelho

Estreia-se como treinador principal na I divisão, sem passar por outras experiências, como adjunto ou divisões inferiores. Não sentiu falta desse know how?
Somos liderados por muitos treinadores com vários conceitos, várias metodologias, várias formas de trabalhar, em países diferentes. Acabámos por ser treinadores de nós próprios também. Não tenho dúvidas de que há grandes jogadores que podiam ser treinadores, mas às vezes não conseguem porque não sabem transmitir o conhecimento e a experiência aos jogadores. Nesse aspecto sempre soube que tinha capacidade de liderança no que diz respeito a fazer a transição entre aquilo que aprendi e a implementação do que aprendi. Assim como temos treinadores que nunca jogaram futebol, mas estudaram o futebol, e acabam por ser bons treinadores porque conseguem fazer essa transposição. O futebol é uma questão de oportunidade, acima de tudo de oportunidade, depois da estabilidade e das condições. Não é um dado adquirido que alguém que fez uma determinada carreira a nível internacional, não possa pegar numa estrutura e não possa fazer uma carreira a partir de uma I Divisão.

Porque sai do Olhanense?
Há determinadas decisões que podem interromper o percurso daquilo que são os objetivos de uma equipa. Na mentalidade do futebol avaliamos as pessoas pelos resultados imediatos, mas temos que ver as condições. Eu sai à 10.ª jornada porque quis. O Olhanense estava na Taça da Liga, estava na Taça de Portugal e estávamos em 10.º lugar. Eu sabia que, naquele ano, por algumas decisões que foram tomadas administrativamente, iria ser muito difícil a manutenção na I divisão. Tanto que o Olhanense desceu de divisão. Antecipei o cenário. O Olhanense administrativamente toma a decisão de não jogar no Estádio José Arcanjo, ou seja, de não jogar onde as pessoas queriam que o clube jogasse. Toma uma decisão contrária aqueles que eram os meus interesses como treinador. Porque não há nenhum treinador que queira jogar sempre fora de casa, percebendo o que é a zona em si e o que é que significa jogar no estádio do Algarve. Tanto que nessa altura fiz uma conferência de imprensa onde elenquei determinados pontos em relação ao futuro e o futuro veio dar-me razão. O presidente ainda me ligou depois, porque sente que o clube já ia numa direção extremamente difícil para a manutenção na I divisão. Agradeci a oferta de ele ter pensado, mas recusei.

Abel Xavier no seu estilo inconfundível

Abel Xavier no seu estilo inconfundível

Ana Maria Baião Correia

Como surge o Farense?
Eu estava muito atraído pelo projeto das equipas do Algarve, tinha estudado o campeonato português e as equipas estavam quase todas centradas no centro e no norte. Eu queria com o meu investidor tomar uma posição num clube do Algarve, num projeto que passava também pela angariação e fidelização de adeptos estrangeiros a um clube em Portugal. Era um projeto muito interessante e fui falar com o presidente Barão, do Farense. O Olhanense nunca se tinha posicionado nas questões dos direitos televisivos, mas o Farense tinha um contrato com a BTV que obviamente só poderia ser vantajoso se o Farense conseguisse ter capacidade de subir de divisão. Disse ao presidente que tinha um projeto e um investidor, que esse investidor gostaria de tomar uma posição na SAD a negociar, e que poderíamos fazer um modelo a um ano e meio, estabilizando o clube na II Liga e no ano seguinte tentar investir em conjunto com as melhores condições para ver se o Farense poderia subir à I Divisão.

Ele acreditou nesse projeto?
Acreditou e sou treinador do Farense quando o clube estava em 18.º lugar. Naquele ano conseguimos ficar em 9.º lugar. Quando chegámos ao final da época, é quando se devia falar na constituição da SAD. Ou seja, de eu poder trazer o meu investidor para trabalhar a época seguinte. Aí há o posicionamento de que não se pretende fazer a SAD, não se pretende perder a maioria. A partir daí foi inviável continuar no Farense.

Abel Xavier com os filhos

Abel Xavier com os filhos

João Lima

Vai para o Desportivo das Aves à procura do mesmo?
Eu saio e mais tarde vêm os chineses falar comigo para eu estudar um clube e um projeto, não só o seu modelo desportivo, como de sustentabilidade. Das várias equipas que existiam na altura com necessidades de encontrar um investidor, tenho uma reunião com o presidente Armando Silva e o seu advogado. Sento-me com eles, eles apresentam-me o projeto do Desportivo das Aves, um clube que foi sempre gerido por famílias e empresários na zona do norte, onde sempre existiu um rigor no trato com os treinadores, de cumprimento das suas obrigações a nível de jogadores. Foi sempre um clube com referências positivas. Apresento o projeto aos chineses que consideraram a SAD do Aves como o melhor investimento. Vamos para o Aves, sou o primeiro treinador da SAD do Aves. Era um projeto de um ano e meio, teríamos de construir uma equipa. Sou eu que contrato 75% dos jogadores do Aves, não houve nenhuma ingerência. À 5.ª jornada, com dois meses de trabalho, um dos elementos dos investidores chineses veio ter comigo e diz-me que não estavam muito contentes com o trabalho, porque naquele momento deveriam estar na parte alta da tabela, o que é uma coisa surrealista para um clube que tem de gerar empatias com os locais, tem de ganhar o seu espaço. Saí do Aves com dois meses de trabalho. Mas, no cômputo geral num ano e meio, o que é que aconteceu? O Aves organizou-se e subiu de divisão. Ou seja, aquilo que defendia inicialmente como projeto era viável, era possível. O Aves está na 1.ª Divisão

Como é que chega a selecionador de Moçambique?
A minha teimosia, o eu querer fazer um projeto de raiz, porque essa foi sempre a minha ambição em Portugal. Estar dentro de uma estrutura, trazer um investidor maioritário e trabalhar em conjunto um projeto desportivo. Faço uma reflexão e aproveitei a vinda do presidente da Federação de Futebol Moçambicana a Portugal. Fui à embaixada moçambicana e pedi para estabelecerem contacto com ele. Tive uma reunião em Lisboa, no hotel Tivoli, e existiu uma comunhão de interesses, entre vontade e necessidade, porque ele estava à procura de um selecionador nacional. Eu tinha conhecimento da realidade moçambicana porque nunca me dissociei do futebol moçambicano e das condições que havia em Moçambique; tinha lá família, nunca deixei de ir a Moçambique de forma anónima, sabia dos problemas que existiam.

Abel Xavier como treinador do Olhanense

Abel Xavier como treinador do Olhanense

AFP

Quando regressou a primeira vez a Moçambique depois de ter saído em 1975?
Quando estou no PSV. Vou ver os meus avós que tinham lá ido de férias. Ou seja os meus avós também têm um regresso a Moçambique depois de 23 anos.

O que que sentiu?
Foi um impacto tremendo; uma coisa é o que se ouve outra é a coisa vivida. Antes de mais, senti um bem estar inexplicável. Vi a minha vida a passar. Saí de Moçambique, vivi nos bairros como o do Vale do Jamor, vivi com dificuldades, vivi no meio da pobreza; voltei para Moçambique vejo um país também com problemas e dificuldades. Posso dizer que estive em Los Angeles, onde há glamour, fato e gravata e salto alto, mas esta tranquilidade... Eu sinto-me bem onde estou atualmente. Quando ouvia os meus avós dizer que a essência e o cheiro de África é uma coisa que fica enraizada... Por muitos países que uma pessoa conheça, África é sempre algo muito especial. Viajei na LAM de Lisboa para Maputo. De Maputo para Nampula apanhei um avião que parecia o avião do Casablanca, com as hélices. Dentro do avião não havia segurança, completamente diferente ao que estava habituado. Quando cheguei, o meu avô veio buscar-me e fizemos uma viagem de 10 horas numa carrinha de caixa aberta. Para mim foi surrealista, não imaginava a condição das estradas, jamais imaginava que depois de escurecer pudessem cair chuvas torrenciais e ouvir ruídos nas zonas circundantes que uma pessoa nem sabia se eram pessoas ou se eram animais. Aquilo para mim foi algo novo. Lembro-me que, quando o meu avô chegou ao aeroporto, estava cheio de pó vermelho. Depois de todas as viagens que fiz, ainda tenho a roupa dessa primeira viagem a Moçambique e não está lavada. Toda cheia de pó, de terra vermelha, ainda a tenho para recordar.

Recebeu o convite para treinar a seleção moçambicana naquela reunião?
Passados dois meses e meio da reunião ele liga-me: “Abel, lembras-te da conversa que tivemos, em Lisboa? Vamos dar continuidade. Gostava que fosses o selecionador nacional”. Disse que não tinham condições e eu respondi: “Presidente depois da conversa que tive consigo, há dois pilares, o sentimental e o desportivo. Ser o selecionador do país que me viu nascer e com as coisas que posso aportar acho que não tem necessariamente a ver com as questões económicas. Eu vou poder implantar algo que acho que faz sentido, vou tentar recuperar a crença do povo moçambicano em relação à seleção nacional. Vou introduzir um modelo com o qual me identifico e vamos fazer um contrato de objetivos”.

Abel Xavier com os filhos e na companhia de dois sheikhs do Ras al-Khaimah, um dos Emirados Árabes Unidos

Abel Xavier com os filhos e na companhia de dois sheikhs do Ras al-Khaimah, um dos Emirados Árabes Unidos

João Lima

Conseguiu fazer o que sonhava?
Neste momento, podemos dizer que Moçambique não será o mesmo em relação ao futebol ou ao espaço da seleção, porque descobrimos uma geração nova de moçambicanos. Consegui mapear o país. As seleções são nacionais, não são seleções da capital, esse era um grande problema. Muitas vezes falamos em seleção nacional, mas os clubes da capital fazem refém o aparelho da seleção, portanto não eram seleções nacionais e neste momento já são. Descobri talentos nas províncias e implantei direito de igualdade para os jogadores das províncias poderem representar o país.

Como é que o fez?
Nos primeiros dois anos mexi na estrutura principal. Porque quando as pessoas têm mentalidade resultadista, parece que a formação não existe, querem é o resultado cimeiro da seleção principal. Então, num primeiro momento, tinha que me focar na seleção principal. Tinha de aumentar a competitividade, a seleção tinha de ser forte. A federação tinha os seus problemas por falta de capacidade financeira, condições estruturais, visão de planeamento, então tive que reconstruir tudo. A minha primeira medida de há dois anos foi descentralizar. Era uma medida muito importante porque a seleção jogava só na capital e era preciso envolver as pessoas todas. Reduzir a faixa etária dos jogadores para poder trabalhar durante mais tempo. Neste segundo ciclo fiz a introdução do modelo transversal, ou seja, sou selecionador nacional mas também sou coordenador geral de todo o programa da formação. Porque entendia que se não houvesse sustentabilidade e continuidade não se constrói nada. As seleções de sub 17, sub 20 e sub 23 estão dentro da mesma metodologia. Neste momento temos sete técnicos, eu formei o técnico moçambicano para que ele pudesse entender a metodologia. Os técnicos da formação são meus adjuntos directos na seleção principal.

São todos moçambicanos?
Dois são técnicos que levei aqui de Portugal e os outros quatro são de lá. Entendo que independentemente do resultado, se porventura um dia tiver de sair, porque nada é eterno, que seja um técnico qualificado moçambicano a dar continuidade.

Abel Xavier com a seleção nacional de Moçambique numa doação ao Hospital da Beira

Abel Xavier com a seleção nacional de Moçambique numa doação ao Hospital da Beira

D.R.

Acha que a qualificação para o CAN ainda é possível?
Sim. Temos jogo em março contra a Guiné Bissau e é decisivo para ambas as equipas. Só que há um elemento que poderá de alguma forma influenciar o resultado nacional: nós conseguimos eliminar a Zâmbia do CAN, que é um feito histórico. Nunca tínhamos ganho um jogo contra a Zâmbia, quanto mais eliminar a Zâmbia de um CAN. Foi muito importante e a Zâmbia tem um último jogo com a Namíbia em casa. Por isso se a Zâmbia ganhar à Namíbia, o nosso resultado com a Guiné Bissau poderá colocar as duas equipas no CAN. A nossa vitória ou eventualmente um empate. Mas é um jogo final.

Há muitos jogadores moçambicanos a jogar no estrangeiro?
Neste momento, temos 15 jogadores moçambicanos a jogar fora e 80 jogadores novos selecionáveis.

Independentemente de conseguir ou não a qualificação, a sua perspetiva é continuar?
O meu contrato termina em junho. Neste momento, há outras federações que também manifestaram interesse. É lógico que a minha prioridade será sempre Moçambique, independentemente de chegarmos ou não ao objetivo da qualificação. É sempre um projeto de continuidade. Agora, cabe à federação moçambicana pronunciar-se. Acho que eles estão à espera dos acontecimentos de março, porque se nos qualificarmos será um feito muito importante para o país, num ano em que existem eleições no país e na federação. Mas há aqui um dado que gostava também de dizer.

Força.
O futebol são resultados, mas o impacto do futebol na sociedade é extremamente importante. Procurei que o povo reconhecesse que a seleção é sensível às causas sociais. Nunca a seleção moçambicana tinha ido a orfanatos, hospitais, universidades. Estamos a fazer isso. Essas medidas em África são extremamente importantes para o reconhecimento de que o futebol está inserido na sociedade e conhece os seus problemas. Quando vamos a um hospital fazer doação aos incapacitados e às pessoas que sofrem, nós envolvemos personalidades de outras áreas, dos ministérios. Penso que é uma alteração de mentalidade e uma maneira de ver o futebol e de usar, neste caso o futebol também, em prol de outras questões.

É disso que mais se orgulha no trabalho que está a fazer?
Sim. O crescimento competitivo tem a ver com isto tudo. Conseguimos fazer a descentralização e a internacionalização. Fizemos um jogo em espaço neutro, em Portugal, no ano passado, o Moçambique-Cabo Verde. Pela primeira vez 17 jogadores da seleção de Moçambique vieram a Portugal. Conheciam Portugal só pela televisão, pelo campeonato nacional português. Benfica, Sporting, FCP vive-se exatamente a mesma clubite em Moçambique. Conseguimos vir estagiar em Portugal, consegui trazer os jogadores para virem conhecer a história do Benfica, por onde passaram moçambicanos, como uma via motivacional de treino. Fomos ao Sporting e fizemos o mesmo feito. Para mim, é um dado que me enriquece do ponto de vista humano. Jamais a empatia que tenho com os jogadores poderá ser quebrada pelo mau resultado, vai haver sempre o reconhecimento. Acho que é aí que nasce a força de um grupo, é aí que nasce a força de uma estrutura. Se entendermos que é só o resultado que nos valoriza…

Abel Xavier com o Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi

Abel Xavier com o Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi

D.R.

Qual é neste momento a sua maior ambição profissional?
Gostava muito, com uma estrutura africana, de fazer impacto no Mundial. Quando estamos a falar em grandes jogadores nas equipas internacionais, quando vêm para os países muitas vezes vêm sem humildade, vêm com sentimento de superioridade precisamente porque estão afastados das questões sociais dos seus países, dos problemas, da pobreza que existe nestes países.

Onde é que ganhou mais dinheiro?
O dinheiro é tão subjetivo... Mas foi nos meus anos em Inglaterra. Foram os meus anos mais produtivos.

Qual foi a maior extravagância que fez até hoje?
É verdade que já tive um Lamborghini, já tive alguns carros bons, mas as maiores extravagâncias se calhar foram outras. Eu gosto de tratar muito bem as pessoas de quem gosto e que estão a meu lado e não vejo limites quando gosto de uma pessoa. As coisas que gosto de fazer verdadeiramente tem que ser com alguém.

Abel Xavier ofereceu ao PR Marcelo Rebelo de Sousa uma camisola da seleção de Moçambique no jantar da cimeira luso-moçambicana

Abel Xavier ofereceu ao PR Marcelo Rebelo de Sousa uma camisola da seleção de Moçambique no jantar da cimeira luso-moçambicana

D.R.

Quantas paixões teve na vida?
A fase do enamoramento suscita sempre paixão, portanto todas as relações que tive, tiveram paixão. Agora se me perguntar se dentro das minhas paixões tive uma que foi uma história de alguém que me tocou verdadeiramente. Só posso dizer uma. Mas não vou dizer o nome.

Vive com alguém neste momento?
Neste momento, tenho um relacionamento mas vivo sozinho.

O que fazem os seus filhos atualmente?
O Lucas tem 15 anos e joga na formação do Estoril. Tem qualidades mas obviamente sou suspeito para falar sobre isso. O mais importante é que ele tenha estabilidade escolar.

Revê-se nele?
Em muitos aspectos, sim. Ele tem ali alguma coisa. Mas é muito difícil chegar a determinado patamar e hoje em dia é mais difícil ainda. Quando falamos dos miúdos da formação, a formação está tão descaracterizada em relação a determinados valores do passado que muitas vezes tem que se formar também a cabeça dos pais. Muitas vezes os pais pensam que os filhos vão ser a solução dos seus próprios problemas e não é fácil. E eu sabendo que não é fácil tento ajudar o meu filho para que as coisas sejam equilibradas dentro do panorama da estabilidade familiar. É um excelente aluno.

E o David?
O David está com 25 anos. Foi desde muito novo um miúdo afastado do desporto, neste caso do futebol. Desde muito novo que constatámos que ele tem uma curiosidade e uma capacidade anormal para memorizar coisas. Ele foi um dos alunos mais brilhantes em termos de tecnologia na sua formação, eu estou orgulhoso por esse facto. Neste momento está a trabalhar no Banco de Portugal, numa área onde está a liderar uma equipa de 10 pessoas. Acho que é um miúdo dotado de uma capacidade, não sei de quem, não foi seguramente nem da mãe, nem do pai (risos). Já está a voar sozinho mas sempre com minha supervisão.

Abel Xavier numa visita a uma escola moçambicana

Abel Xavier numa visita a uma escola moçambicana

D.R.

Qual foi o maior amigo que fez no futebol?
Essa é uma boa pergunta. Há muitos conhecidos como é óbvio. Há muitas pessoas que considero, e talvez eles não saibam que os considero tanto. Sei que também há muita gente que me considera, que me conhece melhor do que aquilo que é público. Mas acho que as amizades genuínas não têm nada a ver com o futebol.

Alguma vez fez algo ao cabelo que não tenha gostado?
Claro (risos). Houve um momento quando exercia em Portugal a minha carreira como treinador, que pintei o meu cabelo de cor natural outra vez. Porque parece que tem que ser um requisito também aqui, na nossa mentalidade, se quero ser treinador em Portugal. Durou 15 dias, depois disse “Não, tenho que ser igual a mim próprio”. Uma vez disse que sou refém daquilo que criei. E de facto é verdade.

E as tatuagens?
Tenho várias e com grande significado. A maior fiz nos EUA, no LA Ink. Não foi filmado, mas fiz com a Kat que aparece no programa de televisão e demorou quatro meses. Teve a ver com a minha separação. Foi a minha terapia da separação. Uma tatuagem que demorou quatro meses.

Que tatuagem é essa?
São umas asas, nas costas, que tem a ver com a liberdade, o voar e paz. Abro os braços e desde os braços até às costas, tenho asas. Também tenho no braço uma frase que representa aquilo que sou “I am what i am”; tenho o nome dos meus filhos abreviado e depois tenho uma história bonita, que tem a ver com uma pessoa.

Abel Xavier e Oceana Basílio

Abel Xavier e Oceana Basílio

Natacha Brigham

Foi público o relacionamento com a Oceana Basílio mas houve vários boatos de que teria um relacionamento com a Bárbara Guimarães e com a ex mulher do Deco. De que forma é que lidou com isso?
Olhe, cheguei há uma semana aqui e tinha a minha avó toda desesperada por causa de uma notícia que é mentira. Os rumores infundados e as falsas notícias e ligações, provocam não só danos pessoais, mas a outros níveis. Às vezes as pessoas esquecem-se de que há filhos, há família. Cheguei numa quinta-feira. A minha avó pegou na revista e havia uma chamada na capa a dizer que eu tinha sido apanhado pela polícia. Depois, abre-se a revista e a notícia está cheia de contradições. Eu nem sequer estava cá em Portugal. Eu não consigo perceber como é que se pode fabricar uma notícia através de fontes. Umas podem ser credíveis e outras não. Hoje em dia qualquer pessoa pode ser uma fonte. Isto pode pôr em causa questões profissionais, questões não só de imagem mas também profissionais. Não ponho em causa a verdade dos factos de algumas situações que acontecem, mas sempre tive mais fama do que proveito. E se eu fosse manifestar sempre o meu desagrado, significava alimentar determinadas coisas e acabava por dar continuidade aquilo que não é verdade.

A notícia recente a que se refere dizia que foi apanhado a conduzir com álcool?
Como é que podem dizer que me viram no Casino de Lisboa? Fui lá pessoalmente, mostrei o passaporte, os vistos de entrada e de saída e provei por A mais B que era impossível. Pediram-me desculpa e que iam fazer um desmentido, uma retificação para sair na próxima revista. Mas o impacto foi feito. Essas histórias que inventaram...Se estou num sítio público e se vou falar com uma pessoa, a partir do momento em que estou a falar com essa pessoa com quem tenho uma relação de amizade, se estamos a rir e a conversar, podemos assumir ao tirar umas fotografias que há ali um envolvimento? Sou muito cioso da minha vida privada.

Foi publicada também uma notícia em 2017 de que estaria numa situação de insolvência, que devia um milhão e meio de euros...
...Está a ver. Eu estou bem com a minha vida, estou bem com o meu património não só pessoal e essa situação só teve essa dimensão de notícia por eu ser uma figura pública, mas objectivamente não é realista e está tudo resolvido.

Leia a primeira parte da entrevista a Abel Xavier AQUI

  • Abel Xavier: “Pintei o cabelo, construí uma personagem e perdi contratos por causa disso: ‘Só vens se mudares de estilo’. Nunca mudei”

    A casa às costas

    Quando hoje passa pelo Vale do Jamor e olha para o relvado dos campos de golfe, Abel Xavier, de 46 anos, não consegue deixar de sorrir e pensar na infância que ali viveu num bairro social, à guarda dos avós, depois de vir de Moçambique, sua terra natal. Nesta primeira parte da viagem que fazemos pela sua vida em forma de entrevista fala-nos da adolescência passada na zona de Queijas, de como foi à boleia tentar a sorte ao Sporting, às escondidas do pai, um homem exigente na educação dos filhos e de como foi determinante a passagem pelo E. Amadora para chegar ao Benfica e daí partir para o estrangeiro. E claro, conta na primeira pessoa como viveu os acontecimentos do Euro 2000 e da injustiça que diz ter sido alvo.