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A casa às costas

“O treinador era muito religioso, levava um padre ao balneário e aquilo era para mim, por ser agnóstico: 'O Satanás está aqui dentro'”

Está há pouco mais de um ano em Portugal, é treinador adjunto do Vilafranquense, comentador da SIC e escreve no jornal "A Bola". Aos 39 anos, depois de ter passado 15 anos fora, maioritariamente em Itália, Vasco Faísca revela-se um homem de esquerda, que segue a política mundial, um amante de música rock e confessa sentir-se um pouco italiano. Entre histórias como a de um jantar romântico que lhe custou €600, fala sobre os treinadores portugueses - e sobre um grego, agora selecionador, que não deixa saudades nenhumas - que teve e explica por que razão crê que vai haver sempre erros de arbitragem, mesmo com o VAR

Alexandra Simões de Abreu

José Fernandes

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Nasceu em São Sebastião da Pedreira, mas ao que sei só veio nascer a Lisboa.
Sim. O meu pai é algarvio, a minha mãe é alentejana e viviam os dois em Faro. A minha mãe foi estudar para Faro e conheceram-se lá. Eram ambos professores quando nasci. O meu pai era professor primário e a minha mãe era professora de trabalhos manuais no secundário. A razão de eu ter nascido em Lisboa tem a ver com o médico que acompanhou a minha mãe na gravidez. Ele veio para Lisboa. A minha mãe queria ser seguida por ele, o meu pai teve que a trazer (risos). Por isso só vim nascer a Lisboa, passados dois ou três dias fui logo para Faro.

Tem irmãos?
Tenho um irmão mais velho quase quatro anos, o João Faísca. Ainda jogou nas camadas jovens, mas nunca a nível sénior. Formou-se também como professor, exerceu a profissão durante dez anos e depois dedicou-se à sua paixão, a música. Hoje vive da música em Lagos.

O futebol começa onde?
Começa na rua. Em frente à minha casa havia uma escola primária onde andei, a Escola do Carmo e havia um jardinzinho ali ao lado, em frente à igreja do Carmo onde jogávamos. Mas comecei a jogar na Escola do Carmo.

Quando era pequenino torcia por que clube?
Torcia sempre pelo Farense, ainda hoje, e pelo Sporting.

Quem eram os seus ídolos ?
Numa fase em que já jogava, gostava muito do Paulo Sousa e do Figo. Era com quem mais me identificava e gostava muito.

Vasco Faísca (com a bola), infantil do Farense

Vasco Faísca (com a bola), infantil do Farense

D.R.

Da escola, gostava?
Gostava, sempre fui um aluno mediano. Passei os anos todos, nunca tive problemas, nunca chumbei. Gostava de ir à escola, gostava de estar com os colegas mas não se pode dizer que fosse um aluno excecional e que adorava estudar. Gostava muito mais do desporto, acho que sempre tive uma predisposição para o desporto, não pratiquei só futebol, também fiz basquetebol, atletismo, judo e era onde realmente me sentia bem. Acabei por escolher o futebol porque era o que gostava mais de fazer.

Como e onde é que surge o primeiro clube?
Nessa altura jogava basquetebol no Farense e tinha muito jeito. Era mesmo bom e foi uma decisão difícil na minha vida, escolher entre o basquetebol e o futebol. Eu fiz basquetebol dos sete até aos nove/dez anos. De vez em quando jogava à bola na rua com alguns miúdos que jogavam no Farense e eu achava que jogava melhor do que eles e gostava muito de jogar futebol. Pensava, se eles jogam no Farense, eu também posso e um dia decidi ir fazer um treino de captação no Farense. O treinador logo no primeiro treino disse que eu ficava mas tinha que dizer que não ao basquetebol. Não foi fácil.

Também tinha ídolos no basquetebol?
O Magic Johnson, dos Lakers. Um dia fui aos EUA, estive no Staples Center dos Lakers e tirei uma fotografia ao lado da estátua dele. Gostava muito do Magic Johnson.

Foi então fazer os treinos de captação ao Farense e ficou.
Sim, curiosamente o meu primeiro treinador no Farense foi o senhor António Barão que até há pouco tempo foi presidente do Farense.

Vasco Faísca com um trofeu conquistado nos infantis do Farense

Vasco Faísca com um trofeu conquistado nos infantis do Farense

D.R.

Como vai para o Sporting?
O Farense que era uma clube de I Liga na altura, tinha uma boa formação e assim como senti, quando jogava na escola que podia jogar no Farense, também quando jogavamos contra o Sporting ou contra o Benfica, sentia que podia ter uma palavra a dizer no confronto direto com os miúdos que jogavam nesses grandes. Aconteceu que fui convocado para alguns estágios da seleção de sub-15, ao serviço do Farense, o que é dificílimo. Um jogador estar num clube que não seja um dos grandes, ou no SC Braga e V. Guimarães e ser convocado pelo Farense era mesmo um feito.

É aí que tem a sua primeira internacionalização?
Não, eu não sou internacional mas sou convidado duas ou três vezes, estive no estágio, treinei com eles mas acabei por nunca ser internacional. Só sou internacional em sub-17, já ao serviço do Sporting. A decisão de ir ao Sporting dá-se quando chego ao meu segundo ano de juvenil. Com os meus 15/16 anos meti na cabeça que queria ir à experiência fazer um treino no Sporting. Ninguém me convidou, fui com os meus pais, bater à porta, perguntei se podia ir fazer um treino, nem sabia se havia ou não treinos de captação. Disse quem era, que jogava no Farense, penso que alguém me reconheceu porque eu era é o capitão do Farense. Fiz o treino e também logo naquele primeiro treino acabaram por dizer que ficava.

Ainda se recorda de quem o orientou nesse treino?
O mister Carlos Pereira, irmão do Aurélio Pereira, que é uma referência na minha carreira, uma pessoa pela qual tenho muito carinho. Foi ele que deu o aval. Houve inicialmente algumas reticências que se prendiam pelo facto de eu ser de Faro e de precisar de sítio para ficar. Normalmente no centro de estágios do Sporting ficavam aqueles que eles consideravam mesmo muito bons, aqueles em quem eles apostavam fortemente e que vinham de fora.

Eram mais velhos?
Não, eu era dos mais velhos. O Cristiano Ronaldo chega com 12 anos e fui buscá-lo ao aeroporto. Eu e o Leonel Pontes, que foi treinador adjunto do Paulo Bento. O Leonel Pontes era treinador adjunto dos iniciados juntamente com o Paulo Cardoso, e eram os dois responsáveis pelo centro de estágio. Eu como era um dos mais velhos do centro de estágio e dava-me muito bem com o Leonel, um dia desafiou-me “Epá não queres vir comigo? Vou ali ao aeroporto buscar um craque da minha terra” O Leonel também é da Madeira. Fomos buscar o Ronaldo que já vinha de armas e bagagens, sozinho, com uma carinha de menino terrível, que ele era duro (risos).

Em que aspeto?
Era um miúdo difícil. Era chatinho, era agressivo, era um miúdo que se tu brincavas com ele, ele zangava-se sempre, não aceitava a brincadeira. Já se notava uma personalidade muito forte. Penso que ele hoje está bem melhor.

Vasco Faísca foi campeão da Europa de sub-18, na Suécia. Quando a equipa chegou foi homenageada pelo então PR, Jorge Sampaio. Vasco Faísca é o quarto em cima a partir da esquerda

Vasco Faísca foi campeão da Europa de sub-18, na Suécia. Quando a equipa chegou foi homenageada pelo então PR, Jorge Sampaio. Vasco Faísca é o quarto em cima a partir da esquerda

D.R.

Voltando a si, estava a dizer que havia umas reticências em ficar.
Inicialmente, como eu tenho família em Lisboa, tentamos arranjar uma solução para eu ficar com esses familiares, mas eles deram-me a possibilidade de ficar no centro estágios enquanto essa solução não estivesse definida e acabei por ir ficando no centro de estágio.

A primeira noite no centro de estágio custou-lhe muito?
Por acaso não. Tenho uma excelente capacidade de adaptação, nem me lembro muito bem dessa primeira noite. Lembro-me mais da saída de Faro, de apanhar o autocarro, de despedir-me dos meus pais, da minha mãe a chorar e eu também com a lágrima no olho.

Foi praxado quando chegou ao centro de estágio?
Não. Tive sorte porque no ano em que entrei era dos mais velhos, só havia um mais velho, o Rui, um rapaz de Seia. O pessoal que tinha mais fama de praxar já tinha ido todo embora.

Que partidas costumavam fazer uns aos outros?
Sustos. À noite quando voltávamos à nave, tinha que se ir à porta 10A e dar a volta porque o pavilhão estava fechado. Quando vínhamos por aqueles corredores à noite, com as luzes todas desligadas, dava para pregar com cada cagaço (risos). Lembro-me de um susto que pregamos a um rapaz africano, muito crente nos espíritos, a malta cobriu-se com uns lencóis e pôs-se a chamar “Carel, Carel”, o nome dele, e ele começou a correr assustado (risos). Fartamo-nos de brincar às escondidas, já éramos miúdos grandes, era espetacular, aquilo era escuro. Jogávamos à bola, à noite, com pouca luz, no campo de andebol.

Faísca no dia da entrevista a Tribuna

Faísca no dia da entrevista a Tribuna

José Fernandes

Continuou a escola em Lisboa, obviamente.
Sim e fiz história no centro de estágio. Fui o primeiro jogador a viver no centro de estágio e a passar para o 12.º ano. É uma coisa de que me orgulho, porque não é fácil. Quando tu te levantas e vês os outros colegas todos que ficam a dormir, ninguém ia à escola, havia pouco controle...E lá ia eu resistindo a uma série de tentações.

Ia por si ou porque os seus pais estavam em cima?
As duas coisas. Claro que o background dos pais é fundamental, a insistência deles para que acabasse a escola. E depois também algum sentido de obrigação, sentia esse dever para comigo mesmo e para com os meus pais porque tinha sido esse o acordo.

Entretanto vai para o Lourinhanense. Isso acontece quando?
Faço o segundo ano no Sporting, que é o primeiro de juvenis, depois faço um ano de juniores no Sporting e no segundo ano de júnior vou para o Lourinhanense, que era o clube satélite do Sporting, era a equipa B do Sporting.

Foi viver para a Lourinhã?
Fui, eu e os outros jogadores todos que lá estavam. 95% eram jogadores do Sporting, só lá estavam dois ou três que já eram jogadores da Lourinhã. Todos os outros eram do Sporting, o staff era do Sporting, era o mister Jean Paul.

Está a idade em que começam as saídas à noite. Como é que se safava?
De vez em quando dávamos umas escapadas a Lisboa, e às vezes também íamos a Peniche. Mesmo na Lourinhã a praia da Areia Branca tinha algum movimento. Uma vez abusamos, esticámos a corda. Tínhamos jogo no dia seguinte e decidimos sair à noite na véspera, coisa grave. Viemos para um discoteca em Lisboa e quem é que lá estava? O José Couceiro, que na altura era dirigente do Sporting e era um dos mais próximos do projeto do Lourinhanense. Nós vimo-lo mas ele não nos viu (risos). Viemos logo embora e no dia seguinte ele estava lá no nosso jogo e nós com medo que ele nos tivesse visto e nos dissesse alguma coisa. Mas não se passou nada.

Esteve quando tempo no Lourinhanense?
Duas épocas.

Vasco Faísca recebeu o Prémio Stromp por ter sido campeão europeu de sub-18 ao serviço do Sporting

Vasco Faísca recebeu o Prémio Stromp por ter sido campeão europeu de sub-18 ao serviço do Sporting

D.R.

Lembra-se do valor do seu primeiro ordenado?
Uns 120 contos (600€). Comecei logo a juntar para tirar a carta e comprar um carro. E foi o que fiz, tirei a carta na Lourinhã.

Qual foi o seu primeiro carro?
Um Peugeot 106 GTI, adorava o meu pópó. Era cinzento metalizado. Fui comprá-lo a uma feira de carros usados, mas estava novinho.

Chega a ser chamado à equipa A do Sporting?
Nunca fiz um jogo oficial pela equipa A, mas treinei muitas vezes com eles. Aliás fui durante muito tempo o único jovem da formação, no plantel do Sporting. Muitas vezes treinava em Alvalade e ia jogar à Lourinhã. Fui para o banco uma vez na Liga Europa, com o Inácio, mas nunca cheguei a entrar num jogo oficial. Só amigáveis.

Recorda-se como foi quando chegou pela primeira vez ao balneário sénior?
Teve o seu impacto. Lembro-me do Schmeichel, sentava-me ao lado dele. Orgulhava-me muito de dizer que me equipava ao lado do Peter Schmeichel. Depois havia outras figuras, o Pedro Barbosa, o Rui Jorge, o Vidigal, grandes líderes e também grandes jogadores .

Gostou do Inácio?
Não muito. Antes dele tive o Materazzi, foi quem começou a época. Durou dois meses se tanto, depois veio o Inácio. Acho que nem um nem outro são grandes treinadores. Como pessoas também… . O Inácio não apostou claramente em mim, mandou-me de volta para a Lourinhã. Só volto a treinar com alguma consistência com a equipa principal quando o Luís Duque vem para o Sporting e quer que esteja algum jogador da formação no plantel, uma jovem promessa, coisa que o Inácio não queria.

Como é que vai parar a Itália?
Quando sou sub-18 vou à seleção. Somos campeões da Europa de sub-18, em 1999, na Suécia e sou considerado um dos melhores jogadores da altura.

A final foi contra a Itália não foi?
Foi e aí houve logo o interesse de vários clubes. Digamos que se abriram as portas do futebol profissional para mim. Ligaram-me uma série de empresários, na altura não tinha nenhum, ligaram todos, o José Veiga, o Jorge Mendes, tudo e mais alguma coisa. Foi quase só escolher com quem é que queria ficar, para que clube é que queria ir.

Vasco Faísca (à direita) vai para o Vicenza no ano 2000

Vasco Faísca (à direita) vai para o Vicenza no ano 2000

D.R.

Porque é que não ficou em Portugal?
Eu gostava de ter ficado em Portugal e no Sporting. Acontece o Europeu, começa logo a haver o interesse do Inter de Milão. Vamos falando, só que eu ainda tinha mais um ano de contrato com o Sporting. E todos esses clubes para não estarem a pagar dinheiro nenhum ao Sporting quiseram esperar um ano para eu terminar o contrato. Entretanto o Sporting também foi tentando renovar o contrato comigo.

Mas não aceitou.
As propostas que o Sporting me fazia, e isto sem hipocrisia nenhuma, a nível económico, porque também conta, eram muito inferiores aquilo que me ofereciam no Inter, mas mesmo muito. E a nível desportivo eles queriam que eu ficasse outro ano na Lourinhã. Ou seja eu ia ficar um terceiro ano na Lourinhã, sabendo de antemão que até tinha clubes na I Liga que estavam interessados. O Campomaiorense queria-me emprestado, o U. Leiria e o Alverca também. Perante isto, de ter vários clubes interessados, a melhor proposta era a do Inter que me dava um contrato economicamente muito superior e queria emprestar-me a um clube da I Liga, em Portugal ou em Itália. Na altura quem tratou de tudo foi o empresário Paulo Barbosa, que tinha muitas ligações ao Alverca, na altura liderado pelo Luís Filipe Vieira. E eu pensei, ótimo vou para o Alverca, não é um passo maior do que as pernas, era melhor do que ir diretamente para a série A italiana, que foi o que aconteceu.

E aconteceu porquê?
Acabo por assinar pelo Inter e o Inter em vez de me emprestar ao Alverca, faz o sistema de copropriedade que eu não sabia o que era, não existia sequer em Portugal, e ninguém me explicou. O empresário Paulo Barbosa enganou-me, claramente. Disse-me que eu ia emprestado, mas na verdade não fui emprestado. Fui nesta vertente que já deixou de existir, em que o passe era 50/50, e fica acordado que eu iria para o Vicenza. Vou e ficou lá quatro anos.

A seleção de sub-21 que participou no Europeu da Suíça. Vasco Faísca é o segundo à esquerda, em cima

A seleção de sub-21 que participou no Europeu da Suíça. Vasco Faísca é o segundo à esquerda, em cima

D.R.

Quando lhe dizem que vai para o Vicenza qual foi a sua primeira reação?
Foi um misto de entusiasmo e de desilusão e até de algum receio porque achava que sair do Lourinhanense para ir para um clube da I divisão italiana...Por um lado dá-te entusiasmo, gostas, é giro, é uma aventura. Por outro, é demasiado, é um passo demasiado grande e para mim foi, tanto que nessa primeira época praticamente nem jogo.

Isso não o desmoralizou?
O primeiro ano foi bastante duro desse ponto de vista.

Foi sozinho?
Fui.

Os seus pais quando perceberam que ia para Itália, o que disseram?
Nada de mais. O contrato que assino com o Inter do ponto de vista económico, para um miúdo daquela idade, era muito bom. E eu tenho sempre a tendência de ver o copo meio cheio, do que meio vazio, eu estava contente, não estava triste. Agora claro que havia aquele receio, será que isto estrategicamente para a carreira é bom? Não é demasiado arriscado?

Estava com quantos anos?
19, 20 anos quando fui e com uma bagagem de futebol profissional que era zero. Estava na Lourinhã e a verdade é que o campeoanto de uma II divisão B, não é um campeonato profissional.

Vasco Faísca num jogo da seleção de sub-21

Vasco Faísca num jogo da seleção de sub-21

John Walton - EMPICS

Quais foram as maiores dificuldades que encontrou em Itália a nível de futebol e de balneário?
Foi chegar e sentir que ninguém me conhecia, nem o treinador. A única pessoa que já me tinha visto jogar era o diretor desportivo. Para o treinador, eu era só mais um. Os colegas, era normal que não me conhecessem. Mas senti que caí de paraquedas, ninguém estava à minha espera. Claro que ainda não tinha feito nada, mas para quem vem de um clube como o Sporting e é visto como uma promessa, chegar lá e ninguém te conhecer e ninguém te dar importância nenhuma... E nem para o banco vais. E mais, o Vicenza em termos de dimensão comparado com o Sporting, é um clube muito mais pequeno. Quando cheguei, aí é que o impacto foi mau, fiquei desiludido, a única coisa que me acudia um bocadinho era o fato de lá estar o Marco Aurélio, o brasileiro que tinha sido capitão do Sporting. Ajudou-me bastante na adaptação. Isso foi outra coisa que me deixou magoado com o meu empresário, o Paulo Barbosa. Houve vários episódios em que não me acompanhou como deve ser, tanto é que passado pouco tempo deixei-o. Aconteceu essa questão da co propriedade e aconteceu outra grave. Eu tinha assinado contrato com o Inter com um valor, e com o Vicenza o valor era outro. Na assinatura lembro-me de ter-lhe dito “Senhor Paulo, os valores são diferentes” e ele “Ah, mas é assim, tudo bem, não te preocupes”. Aquilo tudo escrito em italiano, eu não percebia o que estava escrito, só percebia os valores e os números eram diferentes.

Mais baixos.
Mais baixos, apesar de ser sempre um contrato muito bom para a minha idade. Mas aquilo que tínhamos combinado não era aquilo que lá estava. O que é que aquilo queria dizer? Ninguém me explicou. Ou seja, se ficasse no Inter era um valor se ficasse no Vicenza era outro. O que me foi dito foi “Assinas este e vais emprestado para aqui”. “Então, mas este valor é diferente?”, “Ah, não te preocupes, isso não é assim, é só para assinar”. Enganaram-me assim e eu ingénuo, assinei. Depois quando estou para ir para Vicenza ele não vem comigo. Normalmente o empresário acompanha o jogador. Ele mandou um advogado da confiança dele, que sabia falar italiano. Tratou das últimas burocracias do contrato, ficou um dia ou dois e veio embora. Fiquei lá sozinho. Os meus pais depois rapidamente foram ter comigo. Até foram de carro, o meu pai adora andar de carro.

Vasco Faísca no Padova, de Itália

Vasco Faísca no Padova, de Itália

Dino Panato

Não lhe passou pela cabeça desistir e vir embora quando se viu lá sozinho?
Não. Tinha o Marco Aurélio que falava português. Tinha mais dois miúdos da minha idade, tinham um ano a mais do que eu. Fiquei muito amigo de um deles até, o Jeda. Também tinha um rapaz croata com quem falava inglês e com quem me dei logo bem no estágio.

O que fazia nos tempos livres?
Para aprender a falar italiano ia muitas vezes ao cinema e tentei ver televisão italiana. Nos meus primeiros quatro anos de Vicenza vivi la dolce vita, como se diz em Itália (risos).

Nunca foi castigado?
Não. Sempre fui um bom profissional, saía por norma depois dos jogos, no dia seguinte era dia de folga. Como Vicenza é relativamente perto de Veneza, nos dias livres íamos muitas vezes a Veneza, a Milão, Florença, e recebi muitas pessoas. Vinha muita gente visitar-me, os meus pais, o meu irmão, as minhas primas, amigos, esteve lá muita gente.

A nível de futebol notou muita diferença?
Sim. Sobretudo a nível de exigência tática. E eles viviam os jogos de uma maneira muito mais estressante do que nós. Nós portugueses no dia dos jogos levamos aquilo de forma menos dramática. Em Itália, no autocarro, é um silêncio, no balneário ninguém se ri porque vais para a “guerra”. Aqui é menos, apesar de que estamos a caminhar um bocadinho para aquilo que havia em Itália, o que não gosto muito. Mas acima de tudo realço a exigência tática, porque eu não tinha experiência como jogador profissional, ainda estava numa aprendizagem.

Já ia com a sua posição definida?
Já, era defesa central. No Farense era médio centro. Quando vou para o Sporting ainda joguei alguns jogos como médio centro e o treinador, o Carlos Pereira, a certa altura como eu não era titular indiscutível, chama-me e diz “Vasquinho tenho que te arranjar uma posição para tu jogares. Estava a pensar por-te ali atrás, a líbero”. O que é que tu achas?”, disse-lhe que estava bem e nesse momento passei a jogar a líbero, que depois foi passando para central e fui campeão da Europa como central.

O músico João, irmão de Vasco Faísca

O músico João, irmão de Vasco Faísca

D.R.

Em Itália os treinos eram mais duros?
Do ponto de vista físico eram muito mais duros. Havia mesmo uma separação muito grande do que era o treino físico, do treino com o treinador. Muito ginásio, muito fundo, muita corrida nos primeiros anos. No início das épocas o estágio era um sofrimento. Lembro-me de ter telefonado uma vez para os meus pais a dizer que já não aguentava mais, ia deixar de jogar futebol (risos). Era um sofrimento grande. Havia uma diferença da metodologia do treino muito grande.

Não jogou muito no Vicenza.
Nesse primeiro ano, não. Nos três anos seguintes já joguei com alguma frequência. Fiz a minha estreia na série A num Vicenza-Milan, ganhamos 3-1. Entrei a dez minutos do fim, levei a camisola do Maldini para casa e fiquei todo contente. No segundo ano já fui titular muitas vezes, no terceiro e quarto fui titularíssimo.

Durante os quatro anos em que esteve no Vicenza teve quantos treinadores?
Cinco.

Para si quem foram o melhor e o pior, e porquê?
O melhor o Giuseppe Iachini. O que gostei menos, talvez o primeiro, o Edy Reja, que é um treinador já com alguma idade. Achei-o “old school” e muito banal em termos de treino. Em termos pessoais não o considero má pessoa mas acho que a maneira como me tratou não foi a melhor. Achei o Iachini melhor porque na altura eu tinha 23, 24 anos, e apercebi-me quanto um treinador pode ter influência positiva na performance individual do jogador e da equipa. A partir desse momento despoletou em mim o interesse pelo treino, pelo treinador, o começar a pensar que gostava de vir a ser treinador. Ele era muito bom do ponto de vista tático, eu sentia que aquilo que treinávamos acontecia no jogo e isso beneficiava a minha performance e a equipa.

Vasco Faísca no Ascoli

Vasco Faísca no Ascoli

Giuseppe Bellini

E à seleção A? É chamado?
No penúltimo ano no Vicenza eu estava a fazer uma grande época e vem para selecionador nacional o Luís Filipe Scolari cujo primeiro jogo é um amigável com Itália, em Genova. Ele começa a fazer um bocadinho de prospeção dos jogadores que tem à disposição. Tentou conhecer outros para além dos famosos e veio a Vicenza ver-me. Recebo uma pré convocatória. E para esse jogo amigável da seleção, no dia em que vai ser anunciada a convocatória, em direto na televisão, liga-me o Paulo Barbosa, com quem eu já não falava há não sei quanto tempo e um jornalista da SIC. Ligam-me ambos a dizer que vou ser convocado, que eu era a surpresa da convocatória. Não fui convocado. Foi maior a desilusão que tive porque eles convenceram-me de que ia ser convocado.

Percebeu por que razão não foi convocado?
Não sei, na altura ficou só a desilusão. Não sou daquelas pessoas que guarda rancor. O selecionador provavelmente considerou que havia jogadores melhores do que eu para aquela posição. Tenho pena porque possivelmente ia apanhar o “comboio” que depois deu acesso ao Europeu 2004, que foi um marco histórico para o futebol português. Gostava de ter podido participar neste evento e eventualmente ser internacional por Portugal.

Depois vem para a Académica. Quer regressar a Portugal ou vem porque surge a proposta da Académica?
Sou eu que quero à força toda voltar para Portugal.

Porquê?
O Vicenza era um clube que na altura jogava para subir de divisão, havia artigos a dizer que o Vicenza era a Juventus da série B, éramos uma equipa forte e eu joguei bem, tive boas prestações. Por isso pensava que se não desse o salto naquela altura, com aquela idade, a jogar a titular numa equipa que até é muito seguida, ia ser difícil dar o salto mais à frente. E aí surge um empresário a tentar encontrar uma equipa em Portugal.

Quem era?
Nessa altura já tinha deixado o Paulo Barbosa e fiquei com um empresário italiano e através dele entro em contacto com um empresário português, o Joca, que arranja a possibilidade da Académica. Vou um ano emprestado para a Académica. Para o Belenenses é que já vou a título definitivo.

Notou uma grande diferença do Vicenza para a Académica?
Principalmente na metodologia do treino. Na questão da parte física, passo de um tipo de treino pesadíssimo, que parecia que íamos fazer a maratona, para uma coisa completamente diferente. Porque nessa altura surge o José Mourinho que revolucionou um bocado a metodologia do treino em Portugal. O João Carlos Pereira era um jovem treinador, seguidor da periodização tática que é como isso se chama, essa metodologia, e quem nem é criada pelo José Mourinho, é criada pelo professor Vítor Frade, e passo para um treino muito mais leve desse ponto de vista. Rico do ponto de vista tático, mas não tão rico como em Itália. Do ponto de vista emocional e como há pouco referi, em Itália o jogo é vivido com um stress excessivo, parece que vais para a guerra, aqui em Portugal é um pouco menos e disso gostava mais. Essencialmente eram essas as diferenças.

Vasco Faísca esteve três épocas no Ascoli

Vasco Faísca esteve três épocas no Ascoli

D.R.

Ficou a viver em Coimbra?
Sim, sozinho. Nesse ano conheci a Diana Parente, que vem a ser a minha mulher. Ela vivia em Lisboa, eu em Coimbra e o meu melhor amigo de infância, o Miguel, estava a estudar e a viver em Lisboa e na mesma rua dele, vivia a minha mulher.

O que é que ela fazia?
Foi modelo durante 15 anos. Ela devia ter uns 22, 23 anos, na altura, trabalhava para a Central Models, andou pelo mundo inteiro.

Como se conheceram?
O Miguel conhecia-a, de vez em quando ia a casa dela, ao lado dela vivia outro rapaz que também era de Faro. Um dia fomos jantar fora todos, conhecemo-nos e a partir daí…

Foi treinado pelo professor Nelo Vingada, em Coimbra. Que tal?
Gostei muito como pessoa. Se calhar um dos melhores treinadores do ponto de vista humano que tive. Do ponto de vista do treino, normal, mas do ponto de vista humano gostei muito e quando saio da Académica, por decisão própria, tive muita pena, ele queria que eu ficasse lá. Disse isso publicamente, que a prioridade dele era que o Vasco Faísca ficasse.

Porque quis sair? Queria vir para perto da Diana?
Um dos motivos era esse [risos]. Era a possibilidade de vir para Lisboa, gosto muito de Lisboa, a Diana estava cá, o Belenenses tinha um projeto mais ambicioso do que a Académica, estava a fazer uma grande equipa nessa altura. O treinador era o Carlos Carvalhal, que me telefonou, galvanizou-me com o discurso dele e foi esse conjunto de fatores que fez com que eu escolhesse o Belenenses. Apesar da coisa depois não ter corrido muito bem por outros motivos, não estou arrependido de ter escolhido o Belenenses, mas deu-me pena ter que dizer que não ao Nelo Vingada.

Porque é que as coisas não correram bem?
Não correu bem para todos na primeira época porque era uma equipa construída para chegar às competições europeias e é uma equipa que acaba por descer de divisão. Há coisas que são difíceis de explicar no futebol. A equipa era muito boa, as coisas inicialmente correram mais ou menos, sempre acima das zonas de despromoção, mas também não muito próximo da zona de liga Europa. Entretanto o clube decide mandar embora o Carlos Carvalhal e vem o José Couceiro e com ele a bitola mantém-se mais ou menos na mesma, mas fomos piorando. Na última jornada quando vamos jogar a Barcelos se perdêssemos desciamos de divisão. Foi o que aconteceu.

Consegue arranjar uma justificação?
A culpa não é só do treinador ou só dos jogadores. Foi culpa nossa. Quando tu começas a perder muitas vezes e os objetivos que tens são muito superiores aquilo que estás a fazer, a ansiedade apodera-se de ti, penso que foi muito por aí. Não tivemos capacidade de reagir a um mau momento e fomos piorando cada vez. Foi uma bola de neve que foi crescendo. No ano seguinte praticamente com o mesmo grupo, com pouquíssimas diferenças, entra o Jorge Jesus e praticamente a mesma equipa vai à final da Taça de Portugal, vai à Liga Europa. So que o clube do ponto de vista económico tem mais dificuldades, há conflitos com alguns jogadores, entre os quais eu porque queriam que baixasse o contrato e por aí fora, e acabo por jogar muito pouco com o Jorge Jesus.

Vasco Faísca com a mulher, Diana

Vasco Faísca com a mulher, Diana

D.R.

Gostou do Jorge Jesus?
Eu fui treinado por ele seis meses, porque volto para Itália em janeiro. O Jorge Jesus, do ponto de vista tático, em campo, é o melhor treinador português que tive, de longe. Do ponto de vista da liderança, da gestão, não gosto muito, sinceramente, da maneira dele liderar.

Quando foi viver para Lisboa, começa logo a viver com a Diana?
Não. Nos primeiros seis meses nem sequer vejo a Diana, porque estivemos um bocado afastados. Eu andava um bocadinho desiludido, porque quando eu estava em Coimbra vinha muitas vezes a Lisboa, mas a coisa não desenrolava. Depois decidi afastar-me. Entretanto venho jogar para o Belenenses, passa-se a primeira metade do campeonato, em dezembro ou janeiro estava com um amigo de Faro que estava cá a estudar, fomos dar uma volta e eu estava num daqueles dias em que a Diana me veio à cabeça, estava a bater um bocadinho mais aquela frustração da coisa não acontecer e digo a esse amigo: “Vamos tomar um café junto ao mar onde eu costumava ir com a Diana”. Vamos, eu já não a via há quase um ano, e nesse dia, nessa tarde, ela estava lá. Falámos cinco minutos. Voltámos a combinar falar ao telefone e a partir daí a coisa desenrola-se muito rapidamente. Começámos a namorar a sério e passados uns meses já estávamos a viver juntos.

E como surge de novo a Itália?
Eu não estava a jogar, estava deprimido com essa situação, triste com o clube por estar a fazer uma guerra sem justificação. Inicialmente ameaçaram-me pôr-me a treinar à parte, sozinho, se eu não baixasse o contrato. Disse que não baixava. Depois aconteceu uma coisa bonita, os capitães, Marco Aurelio, Sousa e Silas disseram ao clube, “Se ele não treinar connosco, ninguém treina”. E o clube fez marcha atrás. Mantive-me a treinar com o grupo mas com um clima hostil, não era convocado. Isto com o Jesus. Se ele me pôs de lado por ser uma ordem da direção ou porque não gostava de mim, penso que no fim se arrependeu porque percebeu que eu até era bom jogador e um profissional sério. O Jesus tinha uma coisa engraçada. No primeiro treino depois dos jogos, ele fazia uma votação secreta, sobre quem considerávamos ter sido o melhor em campo no jogo. O próprio Jesus também dizia qual era a escolha dele. E eu fiz um jogo na Amadora, a titular, os jornais votaram em mim como o melhor em campo, os colegas também e ele próprio. Aliás, nos treinos chegou a elogiar-me, mas depois eu nunca jogava. Fiz esse jogo e voltei a ficar no banco ou a nem sequer ser convocado.

Vasco Faísca (à direita) tambem jogou na Grécia, no Platanias

Vasco Faísca (à direita) tambem jogou na Grécia, no Platanias

D.R.

E Itália?
Como estava a dizer estava triste com essa situação de não jogar. Tinha mais mercado em Itália do que em Portugal. No Padova estava um treinador que eu tinha apanhado no Vicenza, o Mandorlini, e que gostava muito de mim como jogador.

Foi para a Série C. Não sentiu que estava a andar para trás?
Foi uma escolha difícil. Nunca tinha jogado na série C e estava numa idade em que podia estar num nível superior. Mas falou mais alto a vontade de jogar e de me sentir protagonista numa equipa. Sabia que era um clube que investia para subir de divisão, ficava numa zona de Itália que conhecia bem e portanto voltou a satisfação de jogar.

Foi sozinho ou com a Diana?
Fui com a Diana, que estava grávida. A Sara nasce em 2007.

A sua mulher adaptou-se bem a Itália?
Inicialmente foi difícil, ela não dominava a língua, como estava grávida, não trabalhava, e ela estava habituada a trabalhar. Ficava muitas vezes sozinha em casa num período de alguma sensibilidade. Não foi fácil para ela. Na fase final da gravidez ela ficou em Portugal. A Sara nasceu em Viana do Castelo, a cidade da minha mulher. Eu já estava a fazer a pré-época, mas tive sorte porque a Sara decidiu nascer só no dia em que foi programado e pedi autorização para vir cá.

Assistiu ao parto?
Sim. A minha mulher insistiu. Pus-me de lado, sem ver muito sangue e aguentei-me melhor do que estava à espera [risos]. É um momento que muda a vida. Muito mais do que um casamento. Um filho traz muitas coisas boas mas também traz muitas responsabilidades, tira-te tempo para coisas que gostas de fazer. Mas estamos muito felizes.

Não tem nenhuma história dos tempos do Vicenza?
Tenho. Logo no primeiro ano em Vicenza, a equipa estava na luta pela manutenção. Andávamos sempre ali com a corda no pescoço e os italianos são muito supersticiosos, mas nesses momentos ainda se agarram mais a essas crenças. Aconteceu um episódio, com um guarda-redes, que é o Massimo Taibi, que estava no Reggina, onde na época jogavam os portugueses Caneira e Paulo Costa. O Caneira ofereceu uma braçadeira de capitão da seleção portuguesa, porque ele era o capitão da seleção de sub-21, ao guarda-redes, que era o capitão da equipa da Reggina. E nos últimos segundos de jogo, porque a Reggina estava a perder, o Taibi foi à área adversária num canto e de cabeça marcou golo. Com a braçadeira de capitão da seleção portuguesa. Então o meu diretor desportivo andou semanas a chatear-me a cabeça para eu arranjar uma braçadeira da seleção portuguesa porque dava sorte. Eu ria-me com a conversa dele, mas ele chateou-me tanto, tanto, tanto que acabei por ligar para a FPF, para o Sr. Cravinho, e pedi-lhe para me enviar uma braçadeira. O primeiro jogo que temos, já com a tal braçadeira, foi com a Fiorentina, onde jogava na altura o Rui Costa e perdemos o jogo, mesmo com a braçadeira de capitão da seleção portuguesa [risos].

Vasco Faísca (o segundo à direita) no Maceratese

Vasco Faísca (o segundo à direita) no Maceratese

D.R.

Entretanto vai para o Ascoli.
Eu tinha ainda um ano de contrato com o Padova. Fui capitão nos últimos dois anos, era um jogador importante, subimos de divisão. Cheguei à conclusão de que prefiro jogar numa divisão abaixo e jogar para ganhar do que jogar numa divisão superior e jogar para não descer. Gostei imenso da experiência, muito público, boa qualidade de jogadores e de treinadores, foi muito bom. Mas chegou uma fase em que era o meu quarto ano no Padova e comecei a sentir: "Se fores embora, se calhar até é melhor para todos". As pessoas começam a fartar-se, começam a cansar-se de ti, deixas de ser uma figura. E também para o jogador, sair é o reencontrar de novos estímulos e motivação. Antes de ser totalmente empurrado, como tinha essa possibilidade… Foi mesmo no último dia de mercado, 31 de janeiro, nem tinha a certeza de que tinha sido inscrito ou não, mas acabo por ir para o Ascoli. Era um bom clube da série B, queriam-me lá.

Vai mais para o centro de Itália. Gostou?
A minha mulher gostou mais. Ela esteve mais anos em Ascoli, ficou muito ligada. Viveu lá mais ou menos seis, sete anos, porque eu depois saltei de um lado para o outro e ela ficou sempre lá com a miúda na escola.

Ela voltou a trabalhar?
Conseguiu fazer alguma coisa enquanto modelo. Depois começou a trabalhar numa empresa onde entrou na área do fashion design, despertou-lhe o bichinho e foi tirar um curso de fashion design. Entretanto fez uma marca dela. Atualmente está em Portugal e abriu uma loja de roupa de mulher. Está no mundo dela. Mas ficou muito ligada a Ascoli, porque quando vai para lá já domina a língua e Ascoli é uma cidade muito bonita, onde se vive bem. Fez boas amizades. Sentiu-se mais integrada. Ascoli para nós enquanto família é a cidade que mais nos marcou.

Porque vai para a Grécia depois?
Exatamente pelo mesmo motivo do Padova. Eu gosto de sentir que as pessoas ficam contentes que eu fique. E naquele momento no Ascoli já não estava a sentir muito isso. Entretanto apareceu essa proposta da Grécia. A parte economia era melhor e era na 1ª liga grega. Voltar para uma 1ª liga era interessante. Depois era na ilha de Creta. Pensei, deve ser giro. Tentamos ir os três, andei a procura de escolas internacionais para a Sara. Havia uma mas era a mais de 100km da cidade onde eu estava. Informei-me melhor vi que havia vários voos semanais entre Roma e Chania, a cidade onde eu estava, e decidimos experimentar ficar separados, elas vinham ter comigo de vez em quando e vice-versa.

Vasco com a mulher e a filha

Vasco com a mulher e a filha

D.R.

Gostou da Grécia?
Adorei. Estive lá um ano, mas enquanto família percebemos que estar outro ano longe não fazia muito sentido e acabei por voltar para Itália.

Adorou a Grécia mas não o treinador, certo?
Não gostei de um dos três que tive.

Do Angelos Anastasiadis, que se tornou recentemente selecionador da Grécia e a quem teceu duras críticas publicamente.
Sim. Em primeiro lugar gostava de sublinhar que fui um bocadinho contra a minha natureza porque quem me conhece e acompanhou a minha carreira sabe que nunca tive conflitos com nenhum treinador e com nenhum clube; nunca tive um cartão amarelo por protestar com um árbitro, nem um vermelho direto. Sou uma pessoa calma e tranquila, mas também me considero uma pessoa corajosa e, sobretudo quando vejo situações muito injustas, com pessoas que abusam, são prepotentes, arrogantes e ainda por cima são vistos como uns anjinhos, incomoda-me. Quando me atacam também sei reagir.

Porquê só agora, uma vez que ele foi seu treinador no Platanias em 2013/14?
Se calhar a minha reação foi tardia, mas foi porque eu esperei pelo momento certo para o atacar. E decidi sujar as mãos um bocadinho até a minha imagem, porque acho que essa pessoa merece ser castigada, merece que alguém diga a verdade.

Mas o que aconteceu em concreto consigo?
Ponto um: ele é realmente muito fraco como treinador. É uma coisa que roça o ridiculo, portanto, já só por si, poderíamos comentar isso, mas nunca iria por aí se fosse só isso. E se comentar com jogadores gregos eles sabem-no, se calhar não têm é coragem de o dizer publicamente e eu percebo. Agora, o problema é que ele é muito, muito má pessoa. Mas como é uma pessoa extremamente religiosa, nas conferências de imprensa está sempre a falar de Deus, as pessoas vêem-o como um santo. E não é por uma pessoa ser religiosa ou ir todos os dias à missa que faz dela boa pessoa. Eu não sei exatamente porque é que ele embirrou comigo, mas desconfio que fosse por eu não ser uma pessoa religiosa. Não rezo, não vou à missa, não sou crente.

Vasco Faísca com a mulher, no final da carreira, quando estava lesionado com uma rotura total do tendão de Aquiles.

Vasco Faísca com a mulher, no final da carreira, quando estava lesionado com uma rotura total do tendão de Aquiles.

D.R.

Demonstrou essa sua forma de estar quando estava no Platanias?
Não tenho nada contra quem seja crente. O que acontecia é que ele dava-nos todos os dias uma "missa" e falava sempre de Deus, dizia que o Satanás estava dentro do balneário e todas as semanas tínhamos lá um padre. Eu respeitava, nem criticava, agora, não estou lá a rezar, nem a fazer nada. Esperava no meu cantinho e se calhar ele viu alguma coisa que o incomodou, se calhar apercebeu-se que sou agnóstico e isso incomodou-o. Fazia aqueles discursos do Satanás, que acho que eram para mim. "O Satanás está aqui dentro e enquanto não encontrar a luz... Enquanto Nª Srª não entrar nos vossos corações esta equipa nunca irá sair deste momento", porque estavamos na luta para não descer. Ele tratava mal as pessoas, com uma arrogância enorme, falava mal com os jogadores, com as pessoas que trabalhavam no clube. Comigo nunca se esticou muito, até um dia.

Como?
Nós fomos jogar a Atenas contra o Atromitos e nesse jogo os habituais capitães não estavam. Quem é que vai ser o capitão de equipa? Surgiu ali uma confusão. E eu que era um dos jogadores mais velhos da equipa, ouvi-os a falar em grego, percebia pouquíssimo do que diziam, mas de vez em quando ouvia o meu nome. Aquilo foi muito mal gerido da parte dele, porque ele lançou para o ar: "Então e agora quem vai ser o capitão da equipa?" Em vez de dizer: "O capitão de equipa é este". Passou a bola para os jogadores gregos. Eu estava a equipar-me, estava de costas para eles, não abri a boca, não disse nem A nem B e os jogadores acabam por decidir. Ou seja, ele primeiro faz uma sugestão mas não impõe a sua opinião e a malta começou a falar de mim, porque era um dos mais velhos. O guarda-redes, que era guarda-redes da seleção do Chipre e que era um dos mais velhos também, começa a insistir mais no meu nome. E eu não tinha nenhuma relação especial com ele, aliás, nem com ninguém. Resumindo, acabam por dar-me a faixa de capitão. Perdemos o jogo. Treino do dia seguinte, com este treinador não existam folgas, outra coisa ridícula no mundo do futebol profissional, mas OK, e ele começa a discursar em grego, com o preparador físico a traduzir para inglês e começa a apontar para mim. Eu estava numa zona do balneário onde estava também o Vasco Fernandes, o Emídio Rafael, ambos portugueses, e mais quatro espanhóis. Em todos os balneários por norma a malta que fala uma língua comum ou semelhante junta-se. E ele começa: "Esse aí, com esse grupinho, a culpa foi vossa daquilo que aconteceu ontem... do capitão... vocês fazem o que querem" E há uma frase que é de onde nasce a discussão: "A culpa foi tua". Eu respondi: "A culpa foi minha, não, a culpa foi tua". Ele passou-se completamente, começou a discutir em grego, veio para junto de mim com um ar ameaçador, quase como se fosse bater-me, a espumar da boca. Eu calei-me. A partir desse momento nunca mais fui convocado. Aquilo que o Belenenses queria fazer-me, passei lá, encostado completamente, nunca mais fui convocado. No final da época ele queria mandar-me embora. Uma pessoa que faz isto e que trata as pessoas assim... Merecia um "facadinha", agora eu esperei o momento certo. Nunca acreditei que ele alguma vez voltasse a ter uma oportunidade deste género, como ser selecionador grego.

Vasco Faísca (ao meio), durante o curso de treinador UEFA B que tirou em Coverciano, Florença, Itália

Vasco Faísca (ao meio), durante o curso de treinador UEFA B que tirou em Coverciano, Florença, Itália

D.R.

Depois da Grécia vai para FC Matera, no sul de Itália.
Sim, gostei muito de Matera, é uma cidade muito particular. É Património da Unesco e é capital Europeia da Cultura este ano. Uma cidade pequena mas que tem história pré-histórica. Tem casas feitas numas rochas que ainda hoje lá estão. A cidade nasceu toda à volta daquela cidade pré-histórica e é muito gira.

E ao nível do futebol?
Gostei porque apanhei aquele que se calhar para mim é a causa de eu querer ser treinador. Chama-se Gaetano Auteri. Gostei muito de trabalhar com ele do ponto de vista do campo. Do ponto de vista da liderança dele faz-me lembrar o Jorge Jesus, não gostava muito, mas gostei muito daquilo que aprendi, da maneira como jogavamos e foi um campeonato estimulante, porque queríamos subir de divisão e fomos até às meias finais, fomos eliminados nos penaltis.

Fica só uma época e passa para o Maceratese porquê?
Nessa fase final da carreira fazia sempre contratos de um ano, o que me dava a possibilidade, se a época corresse bem, de poder escolher. Maceratese é perto de Ascoli, portanto poderia voltar a estar em casa. O clube era pequenino, tinha subido de divisão nesse ano, era um clube com pouca história, mesmo a nivel de serie C. O treinador era jovem, já tinha jogado contra ele algumas vezes. Foi outro ano espetacular, eu era o capitão de equipa e as pessoas adorava-me. Fiquei muito amigo desse treinador, o Cristian Bucchi.

Acaba a carreira como jogador num clube do sul de Itália, o Virtus Francavilla.
Outro clube à imagem da Maceratese. Nesse último período de carreira fui muito atrás do projeto para ganhar. Apaixonei-me por jogar para ganhar, porque é muito mais estimulante do que jogar no sofrimento para não descer. E depois também porque do ponto de vista económico podia ir melhorando. Não gosto dessa hipocrisia de que o dinheiro não interessa. Também fui porque do ponto de vista económico pagavam-me bem. Não regressei a Portugal porque em Itália pagaram-me sempre mais. E eu gostava de viver em Itália.

Vasco Faísca (à direita) com o amigo de infância, Miguel

Vasco Faísca (à direita) com o amigo de infância, Miguel

D.R.

Quando começa a sentir que a carreira estava a chegar ao fim?
Não comecei a sentir, eu decidi. Em Francavilla já tinha praticamente decidido que aquele seria o meu último ano.

Porquê?
Porque o estímulo de ser treinador já andava aqui há muito tempo. Nas últimas épocas pensava, se calhar esta é a última porque eu quero ser treinador.

Não teve nenhuma lesão?
Sim, tive uma lesão que acelerou, mas eu já tinha decidido. Lesionei-me em março e foi grave. Tive a sorte durante a carreira de nunca ter tido uma lesão grave e no último ano, no ano em que já tinha decidido parar, fiz uma rotura total do tendão de Aquiles. No meu caso ainda foi pior, porque por norma o tendão parte, é grave mas é menos grave do que aquilo que me aconteceu, em que o tendão descolou do osso. A recuperação é mais lenta.

Quando percebeu que ia parar mesmo, já tinha decidido voltar a Portugal?
Já. Foi uma decisão ponderada. Na minha cabeça desde sempre que tinha pensado em voltar para Portugal, apesar de, e reforço sempre, eu adoro a Itália, sinto-me até um pouco italiano em muitas coisas, porque absorvi muito da cultura deles.

Em que se sente mais italiano?
A própria língua. Lá em casa muitas vezes falamos em italiano entre nós. Com a minha filha falo sempre em italiano porque não quero que nem ela nem eu percamos o italiano. Para mim é a língua mais bonita de todas, têm que me perdoar os portugueses. Na alimentação também comemos muito italiano, já gostava de massas então agora... Como estava dizer desde sempre que tinha tomado a decisão de voltar. A minha mulher também, quando partiu, mas depois ficou um pouco agarrada a Ascoli, às amizades que fez e à qualidade de vida que tínhamos lá. Ela abanou um bocadinho. Consegui convencê-la e acabamos por voltar.

Voltaram para onde?
Para Viana do Castelo, a terra da minha mulher. Nunca tínhamos vivido lá como família. Quis que fosse Viana porque sabia que a vida de treinador, tal como a de jogador, é de saltar de um lado para o outro, principalmente nesta primeira fase de transição. Não é possível agora vir aqui para o Vilafranquense e trazê-las comigo, porque neste momento é um trabalho/formação. Mas daqui a uns tempos, esperando que as coisas corram bem, penso que voltamos a estabilizar. Por outro lado, também pensei que numa fase inicial seria bom estar no Minho e na zona norte porque é onde há mais clubes e poderia ser mais fácil encontrar trabalho enquanto treinador.

Vasco Faísca já na veste de treinador-adjunto do Vilafranquense

Vasco Faísca já na veste de treinador-adjunto do Vilafranquense

D.R.

Quando regressou já tinha algum nível do curso de treinador?
Eu tirei o primeiro e segundo nível em Itália. Foi a última coisa que fiz lá, ligada ao futebol, ainda estava a recuperar da lesão.

Quando veio já tinha trabalho garantido?
Não. Mas fruto de alguns contactos e da sorte surgiu logo uma oportunidade. O treinador de juniores do Vianense, que estava na II divisão, foi dar aulas para os Açores, eles estavam à procura de um treinador e eu disse presente. Decidiram por mim e aceitei.

Era o que estava à espera?
Como disse, eu já queria ser treinador há muitos anos. O Vianense foi uma experiência rápida porque houve coisas que não correram muito bem e quis parar. Mas deu-me a certeza de que era aquilo que eu queria fazer. Tinha aquela pequena dúvida: "Será que eu estou a idealizar uma coisa e depois na prática vai ser um bocadinho diferente?" Confirmei que era aquilo que queria.

Não gostou do quê então?
Houve algumas situações, não com o clube, mas com os jogadores, com a equipa. A minha experiência futebolística foi praticamente sempre profissional desde os infantis até sénior, embora não possamos considerar um infantil um profissional. Cheguei ali, para treinar miúdos de 17,18, 19 anos, alguns deles muito interessantes, bons jogadores, mas não gostei da mentalidade deles.

Muito diferente da sua com a idade deles?
Bastante. O Vianense está na distrital agora, mas os juniores estavam na II divisão. A cultura da exigência, da vontade de querer aprender, de querer melhorar, da ambição de querer ganhar….Dava-me a sensação de que estavam ali como se aquilo fosse somente um hóbi. Eu respeito, na formação o futebol tem que ser um passatempo, mas tem que ser com alguma seriedade, com vontade, com ambição, e via neles uma tranquilidade de quem estava num grupo de amigos que vai ali jogar à bola, quase como quando eu era pequenino e ia jogar à escola do Carmo em frente a casa. E em juniores, no campeonato nacional, a exigência é outra, por isso disse ao presidente: "Eu acho que não sou o treinador ideal para este contexto".

Prefere lidar com homens feitos e profissionais?
Mesmo que sejam juniores, tem que ser num contexto diferente, num contexto de miúdos que sonham em ser jogadores de futebol, que querem ganhar jogos, querem ganhar campeonatos. Ali era quase um andar por andar e desmotivou-me.

Vasco Faísca com o irmão, pais, mulher e filha

Vasco Faísca com o irmão, pais, mulher e filha

D.R.

Como surgiu a oportunidade de se tornar entretanto adjunto do Vilafranquense?
O treinador, Vasco Matos, é meu amigo há muitos anos. Jogámos juntos nos juvenis e juniores do Sporting. Fomos mantendo contato. Ele tinha acabado a carreira no Vilafranquense, começou por ser adjunto de outro treinador que depois foi embora e o clube convidou-o para ficar. Isto o ano passado. Ele assumiu a equipa, foram às meias-finais, perderam contra o meu Farense. Íamos falando, eu vi alguns jogos dele, e ele já me tinha falado da possibilidade. Fui esperando, até para ver se apareciam outras coisas e passado um tempo acabei por aceitar trabalhar com ele. Está a correr bem. Temos estado o campeonato todo em 1º, 2º, 1º, 2º.

Isso obrigou-o a deixar Viana do Castelo para viver na área de Lisboa.
Sim. Estou na casa de uma prima minha. Somos muito próximos e por isso fui para lá. Tive de sacrificar um pouco o lado familiar, a minha mulher e filha ficaram em Viana.

Ganha algum dinheiro?
Muito pouco. Mas estou a levar isto um pouco como uma formação e ao mesmo tempo um reentrar no mundo do futebol, porque estive muitos anos fora.

Vasco (à esquerda) com um amigo e ex-colega do Sporting, Cuvilito Gomes, o treinador Vasco Matos e o diretor desportivo Nelson Veiga

Vasco (à esquerda) com um amigo e ex-colega do Sporting, Cuvilito Gomes, o treinador Vasco Matos e o diretor desportivo Nelson Veiga

D.R.

A propósito de ter estado fora tanto tempo, quando chegou encontrou uma realidade muito diferente da que deixou ou nem por isso?
Sim, há algo diferente. Mas, culpa minha, eu desliguei-me do futebol português, portanto para mim muita coisa ainda hoje é novidade. Desde jogadores, treinadores, saber bem o background deles, o que fizeram. Porque italianizei-me muito. Praticamente só via o campeonato italiano, pouco mais. Em casa decidimos tirar a televisão portuguesa e passamos só a ter a italiana, porque era uma sobrecarga de televisão e na escola da nossa filha, na pré-primária, disseram-nos que era importante falar mais com ela em italiano para que a introdução no grupo dos miúdos fosse melhor, porque ela falava uma mistura muito grande de português e italiano, os miúdos não a percebiam e gozavam com ela.

Como é que está a ser a adaptação dela agora a Portugal?
A principal dificuldade é na escola, a questão da língua. A Sara fala português mas não aprendeu a escrever português. No fundo é uma italiana que fala português, embora tenha nascido cá. Já cá está há um ano, está no 6º ano. O ano letivo passado foi complicado, principalmente na escrita. E também foi difícil ter deixado o grupinho dela em Itália, ela tinha aquela turma desde a pré-primária, cresceram todos juntos até à 4ª classe. Mas ela não é de se queixar muito.

Vasco como comentador na SIC Notícias

Vasco como comentador na SIC Notícias

D.R.

O Vasco deixou a escola quando foi para a Lourinhã. Chegou a terminar o 12º ano?
Só acabei o 12ª ano recentemente, em Viana do Castelo. Desafiaram-me para me inscrever no curso de desporto no instituto de Viana. Disseram-me que havia um programa especial para quem tem mais de 23 anos e que com o meu currículo profissional não teria problema em entrar porque era um curso de desporto. Só tinha de fazer um exame de português. Foi o que fiz. Passei. Acabei por ficar com o 12ª ano e entrar no curso que agora está "congelado" porque entretanto vim para Lisboa.

Também foi convidado para ser comentador na SIC.
A primeira vez que fui comentar foi no verão, no dia em que o Ronaldo assina o contrato com a Juventus. A SIC lembrou-se que eu tinha jogado muitos anos em Itália. A coisa correu bem e um ou dois meses depois ligaram-me para perguntar se queria ser comentador permanente ou regular. Estou a gostar, mas o meu objetivo é ser treinador.

Quando vai tirar os outros níveis do curso?
Quando puder. No meu caso que já vim com o II nível feito de Itália, não tenho que fazer o estágio, mas tenho que ter um ano de experiência e só depois posso inscrever-me, se houver curso. Nem todos os anos há curso. E se há vaga... Há um número limite de inscrições e toda uma pontuação com pessoas que têm prioridade, nomeadamente adjuntos que estão numa 1ª ou 2ª Ligas a e posso eventualmente não ter pontuação para entrar. O que me disseram na FPF é que mesmo que eu quisesse tirar o 3º nível no estrangeiro, neste momento já não o poderia fazer, porque já não sou residente em Itália. Apesar de eu continuar a ver gente que vai ao estrangeiro e faz os cursos. Fica esta dúvida.

Vasco Faísca no dia em que deu a entrevista a Tribuna

Vasco Faísca no dia em que deu a entrevista a Tribuna

José Fernandes

Como encarou os casos e-toupeira e os acontecimentos em Alcochete o ano passado?
Eu vim de um país que também não prima pela transparência. Não me surpreende, mas entristece-me. Surpreendeu-me mais a invasão à Academia de Alcochete do que os casos dos e-mails. Não estava à espera, apesar de vir de um país onde isto acontece e eu tive situações vividas na primeira pessoa semelhantes, mas em Portugal nunca tinha acontecido e tinha essa esperança de que nunca acontecesse.

Disse que viveu situações semelhantes às de Alcochete. Pode dar um exemplo?
Passei por uma coisa semelhante no Ascoli, na fase final do campeonato, quando já havia uma série de protestos por parte da claque. Andavam sempre em cima de nós e com ameaças. Um dia, depois de um jogo que perdemos fora, nessa mesma noite voltamos para Ascoli, fomos buscar os carros que estavam no centro de treinos e no campo de treinos tinham espetado 11 cruzes, estilo cemitério, como forma de ameaça. Aquilo deu tanto escândalo em Itália, saiu nas primeiras páginas de jornais, inclusive da "Gazzetta dello Sport".

Teve medo?
Tive bastante receio, sim. Nós treinámos dois meses e meio à porta fechada, sempre com polícia, e quando ia para casa ia sempre com um carro da polícia à frente. Tinha receio também pela minha filha e a minha mulher. Não aconteceu nada, mas houve vários episódios.

Que avaliação faz da arbitragem em Portugal?
A arbitragem não é muito diferente também daquilo que se passa em Itália. Fala-se da qualidade dos árbitros em Portugal, mas não acho que sejam piores do que em Espanha, França, Itália, Alemanha, Inglaterra. O erro do árbitro vai sempre existir. Até mesmo com o VAR vai haver erros e vamos discordar. Eu e tu vemos a mesma imagem e tu vais achar uma coisa e eu outra, mesmo com a repetição, só aqui denota logo a grande dificuldade que é ser árbitro. Os clubes têm que aprender a conviver com esses erros e a serem por vezes vítimas desses erros, porque faz parte do futebol. Agora este tipo de reação como vimos recentemente, seja do presidente do Braga seja do Benfica, isto é que em Itália estão melhor. Já foi assim, mas em Itália esta guerra e tipo de clima está a ser combatido há algum tempo, seja pelos intervenientes diretos, os treinadores, jogadores e os dirigentes que têm grandíssima responsabilidade, como pelos jornalistas também. São muito mais contidos e não se alimenta tanta polémica, é vivido de uma maneira muito mais sóbria e soft. Aqui vive-se como se fosse uma grande injustiça que nos fizeram e que nunca fazem aos outros, o que não é verdade.

Vasco Faísca (à direita) a comentar na SIC Notícias, ao lado de Joaquim Letria

Vasco Faísca (à direita) a comentar na SIC Notícias, ao lado de Joaquim Letria

D.R.

Quais são as maiores frustrações enquanto jogador?
Aquela possível convocatória da seleção que acabou por não se concretizar. E depois gostava de ter acabado a carreira no Farense. Tentei que isso acontecesse, mas infelizmente não foi possível.

Onde ganhou mais dinheiro e onde investiu?
No Vicenza. Investi em duas casas e atualmente tenho uma loja de roupa com a com a minha mulher.

Qual foi a melhor extravagância que fez?
Foi um jantar com a minha mulher que nos custou 600 euros. Não foi uma coisa propositada, porque nem sabíamos o preço, mas quando estávamos lá sentados... Era o dia dos Namorados, eu pedi ao meu empresário italiano que me arranjasse uma restaurante giro, em Veneza, para levar a minha mulher, que estava grávida, e andava um bocadinho triste de estar lá sozinha. Queria fazer uma coisa bonita, uma surpresa. Ele avisou-me: "Leva um cartão para pagar que aquilo em Veneza é muito caro". Eu ando sempre com o cartão na carteira, não via problema nenhum, mas nunca me passou pela cabeça que uma sopa pudesse custar quase 100 euros, um prato 70 ou mais não sei quanto. Na mesa ao meu lado, vi três pessoas a pagar 1500€. E não foi um jantar nada de especial, isso é que me irritou [risos]. O sítio era giro e estávamos junto ao gran canale, mas não mereceu aquilo que foi pago.

E carros?
Quando cheguei a Itália compre logo um Z3 descapotável, que era igual ao BMW do James Bond na altura. Tive sempre BMW's. Mas já não dou tanta importância.

Tem algum hóbi?
Não propriamente. O ser treinador, o ser comentador faz com que queria estar sempre atualizado e por isso fico com pouco tempo. O que gosto fora do futebol é de música, fruto da influência do meu irmão.

Qual o género preferido?
Rock. Ao longo da minha vida tive duas bandas em dois períodos diferentes que acompanhei. Na altura da adolescência os Gun and Roses e já em adulto os Pearl Jam. Mas gosto imenso de outros grupos. E gosto de política. Não tenho intenção nenhuma de entrar nessa área, mas sigo o que se vai passando no mundo com atenção e alguma preocupação. Sou um homem de esquerda, mas uma esquerda democrática, sempre. O meu pai foi um homem ligado ao PS e com alguma intervenção política em Faro. Antes do 25 de abril chegou a ter de sair do país, atravessou o Guadiana a nado, para ir para França porque andava escondido da PIDE. Fui educado com esses valores de esquerda, são os valores que acredito serem mais justos e solidários para com todos. E neste momento preocupa-me o que está a acontecer no mundo, nomeadamente com uma série de populistas como Bolsonaros, Trumps e o Salvini, que não é o primeiro-ministro italiano mas é um ministro com uma pasta bastante importante e que está a bloquear os imigrantes que chegam a Itália. São coisas com as quais não estou de acordo e que de alguma forma me preocupam, porque também aqui em Portugal começa-se a ver alguns sinais de pessoas favoráveis a esse tipo de decisões e isso é preocupante.

José Fernandes

O melhor e o pior de Itália.
Itália é um país de extremos. Na sua globalidade consegue ter coisas lindíssimas e ótimas e conseguir ter coisas péssimas. Provavelmente é o país mais bonito do mundo em termos de monumentos e de tanta outra coisa, mas também é o país da máfia, da corrupção.

Alguma vez o tentaram corromper?
No futebol, sim. Vivi situações muito desagradáveis com colegas presos por causa de apostas. Isto no Ascoli. Comparado com Portugal, Itália é muito mais perigosa. É um dado que Itália, a seguir à Colômbia, é o país no mundo que tem mais pessoas protegidas pelo Estado.

Também foi convidado para escrever no jornal "A Bola".
Sim, para a rubrica "O Mister" de "A Bola". Fiquei muito surpreendido com o convite, porque sou ainda uma amostra de treinador. Presumo que o convite tenha surgido porque durante o Mundial, no jogo Brasil-Bélgica, os brasileiros perdem o jogo, mas eu gostei muito da forma como o Brasil jogou e defendeu, mas no dia seguinte no jornal "A Bola" quando vou ver a crónica e as apreciações dos jogadores vejo que um jornalista escreveu que a vitória da Bélgica tinha sido justa. A meu ver tinha sido muito injusta. Ele tinha dado um voto muito baixo a um central do Brasil, o Miranda, que para mim tinha feito um jogo daqueles, que eu enquanto treinador podia pegar nas imagens e dizer a arte de bem defender está aqui. Aquilo irritou-me um bocadinho. Eu não conhecia o jornalista, fui procurá-lo no Facebook e mandei-lhe uma mensagem muito cordial. Mas quis-lhe dizer aquilo que eu pensava e que achava que ele tinha sido muito injusto. Ele levou tudo muito bem, até agradeceu. Ficou por ali. Uns meses mais tarde recebo um telefonema de "A Bola" para me convidar para escrever para aquela rubrica. Julgo que teve a ver com aquele episódio.

Está a gostar da experiência?
Gosto mais de escrever do que comentar ao vivo em direto. Sinto-me mais confortável porque temos mais tempo para pensar e dizer a coisa certa.