Tribuna Expresso

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A casa às costas

“Equipava-me, ia pelo corredor e se visse o Artur Jorge a vir de frente para mim, entrava em qualquer porta, escondia-me, tinha vergonha"

Foi chamado de rato Mickey, baixinho, formiga atómica, pequenino, mas o que não gostava mesmo era que o tratassem por meia leca ou anão. Do alto do seu 1,60m, Rui Barros, 53 anos, desfia o fio da vida, desde a altura em que tinha de dar três ou quatro voltas aos calções para lhe servirem, até ao dia em que a mãe lhe colocou um salpicão na mala, quando partiu para a Juventus, passando pelos anos de glória no seu FCP, a casa onde continua a trabalhar, agora como treinador da equipa B

Alexandra Simões de Abreu

FERNANDO VELUDO / NFACTOS (EXCLU

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Nasceu em Santo Amaro de Lordelo, Paredes, no seio de uma família numerosa. É verdade?
Sim, somos oito irmãos. Cinco raparigas e três rapazes. Sou o terceiro mais novo. A minha mulher também tem sete irmãos como eu. Cinco raparigas e três rapazes. Só sobrinhos são 18.

Como se chamam e que ocupação tinham os seus pais?
Marcílio de Barros e Lucinda Soares. A minha mãe era doméstica e o meu pai trabalhava numa fábrica de móveis, em Lordelo. Fazia mobílias de sala, de quarto, tudo o que era móveis de casa.

O futebol começou obviamente na rua.
Sim. O meu pai tinha um terreno onde fez uma casa modesta mas simpática. Ali à volta era tudo assim. Vivíamos todos juntos, os meus primos também estavam por ali. E logo muito cedo, com quatro, cinco anos, procurávamos um terreno onde pudéssemos jogar. Quando o milho era cortado, ficavam os campos limpos e dava para jogar. Quando o milho começava a crescer tínhamos de ir para a estrada junto a casa. Na altura não passavam muitos carros.

Qual o primeiro clube onde joga?
O Aliados do Lordelo. É o clube da minha terra, onde todos os miúdos começavam. A partir dos 12 anos éramos iniciados, antes dos 12 havia o futebol de salão, jogávamos cinco contra cinco. Eles escolhiam os miúdos que jogavam melhor na escola para irem a esses torneios de futebol de salão.

Começou então por jogar futebol de salão?
Sim, no Vinhal, na altura do Verão, havia muita gente.

Mas foi para os iniciados do Aliados ainda antes dos 12 anos não foi?
No Lordelo não havia os infantis e só a partir dos iniciados é que havia equipas federadas. Fui para o Aliados um ano mais cedo. Treinava com eles e era o mais pequenino. Ainda hoje sou baixo [risos].

Os seus irmãos também são da mesma estatura?
As irmãs são todas mais baixas do que eu. Os rapazes é que são mais altos um bocadinho. Eu tenho 1,60m, eles 1,65m, 1,67m, por aí.

Rui Barros em criança, à frente com a bola debaixo do braço

Rui Barros em criança, à frente com a bola debaixo do braço

D.R.

É verdade que adorava ouvir relatos de futebol?
De futebol e do hóquei em patins. Seguia o FCP e o hóquei em patins da seleção nacional. Na altura só havia rádio e eu e o meu pai gostávamos do Aliados, claro, e do FCP. E quando havia aqueles europeus de hóquei em patins eu delirava com aquilo.

Nunca quis experimentar o hóquei?
Não, porque só havia no FCP e de Paredes ao Porto ainda são 25km, naquele tempo era uma distância enorme.

Quem eram os seus ídolos em criança?
Nós procurávamos os ídolos da “casa”, os jogadores que eram da zona do Lordelo. O Aliados na altura jogava na II Divisão. Mas não tinha um ídolo propriamente. O único ídolo que eu dizia “um dia quero ser assim” era o Cruijff do Ajax, era a grande figura.

Gostava da escola?
Nem por isso. Gostava de ir para a escola para jogar à bola [risos]. Estive na escola só até ao 5º ano, saí com 12, 13 anos e fui logo trabalhar com o meu pai e com o meu irmão mais velho, o António, que na altura já tinha os seus 19, 20 anos. Ele também jogou no Aliados do Lordelo, era conhecido por Soares. Jogou até aos seus 24, 25 anos.

Desde pequeno sonhava ser jogador de futebol, ou quis ser outra coisa?
Não, sempre quis ser jogador. O meu pai dizia que era sempre eu quem levava a bola para a escola. Tinha uma paixão louca. Sabia que seria um jogador de futebol mas nunca pensei chegar ao patamar onde cheguei. Queria jogar no Lordelo, no Rebordosa, agora chegar ao FCP e jogar onde joguei, isso não passava minimamente pela minha cabeça.

Quando foi trabalhar para a fábrica onde estavam o seu pai e irmão, o que fazia?
Era entalhador. Os móveis eram desenhados e trabalhados em peças. Eu fazia aquelas figuras que se fazem na própria madeira. Fazia peças de cama, peças de cadeiras. As florzinhas que se fazem nas cadeiras de madeira. Aprendi com o meu irmão.

Gostava?
Gostava, gostava de trabalhar.

Ainda tem alguma peça feita por si?
Não. É pena.

Estava a contar que começou a jogar nos Aliados e que era o mais pequenino. Isso criava-lhe algum constrangimento?
A treinar e a jogar não. Tinha vergonha era nos jogos, ao domingo. Tinha que dar umas quatro ou cinco voltas aos meus calções. Hoje já não, mas naquele tempo os calções podiam ser meus num dia e amanhã de outros, não era tão personalizado como agora. Então tinha que dar voltas e voltas aos calções porque eu era muito pequenino [risos] e sentia muita vergonha.

O que lhe chamavam nessa altura, tinha alguma alcunha?
Não. Era o pequenino, o baixinho. Depois mais tarde chamavam-me rato Mickey, formiga atómica, muitos nomes.

Ficava chateado?
Não.

Qual o que achava mais engraçado?
Rato Mickey.

Em casa era tratado como?
Por Rui. Olhando agora para trás posso dizer que eu era um privilegiado. Privilegiado pelos meus irmãos, mesmo na comida. Por exemplo, ao domingo havia o tal frango assado, nós éramos oito, e eles guardavam-me a coxa para eu comer.

Por ser o mais pequenino e franzino?
Sim, se calhar porque eu era muito magrinho, só queria correr, só queria jogar. Quando eu andava na escola, que ficava a uns 500 metros da nossa casa, a minha mãe a meio da tarde levava-me um café com leite e um pão para eu comer no recreio, porque sabia que eu ia para o recreio jogar e nem comia.

Quanto tempo esteve no Aliados?
Só um ano. Porque acabaram os iniciados no Lordelo no ano a seguir. Quando a época acabou os miúdos que eram iniciados passaram todos para juvenis, só eu, o Moreira e o Ginho, que éramos os mais novos, fomos para o Rebordosa. O clube ao lado, vizinho.

Que era o clube rival.
Era e é.

Como é que lidou com essa situação?
Na altura foi tranquilo. O meu pai é de Lordelo e a minha mãe é da Rebordosa e vivíamos na fronteira entre Lordelo e Rebordosa, pertencendo ao concelho de Paredes. Passei para o Rebordosa, onde estive nos iniciados e nos juvenis. Treinávamos três vezes por semana. Quando lá cheguei era rápido, pegava na bola, fintava e comecei logo a ser capitão de equipa.

Rui Barros com os pais

Rui Barros com os pais

D.R.

Foi por aí fora até que é convidado pelo Paços de Ferreira.
Exatamente, o Paços que era um clube já com outra dimensão.

Como é que surge esse convite? Tinha quantos anos?
As pessoas do Paços de Ferreira veem-me jogar e convidaram-me para ir treinar lá. Fui e pronto, fiquei. Tinha 15 anos.

Nessa altura já ganhava dinheiro?
Não. Enquanto para o Lordelo e para o Rebordosa ia a pé, no Paços de Ferreira, que era mais longe, uns cinco, seis quilómetros, eles vinham buscar-me.

Mas, não satisfeito, foi às captações do FCP.
Sim. Fiquei no Paços de Ferreira dois anos nos juvenis e nesse período, no verão, havia as captações no FCP. Então eu, esse meu amigo, o Moreira, e mais alguns colegas íamos de autocarro até ao Porto para fazer os treinos na Constituição. Treinávamos oito dias e ao fim desses oito ou dez dias, dependia da qualidade dos miúdos, eles logo viam se estávamos mais uma semana ou mais uns dois ou três dias. Cada dia era uma experiência, era sempre uma oportunidade para nós. Se depois do treino eles nos diziam “amanhã vens”, nós ficávamos contentes e na expetativa, tínhamos mais uma oportunidade. Ficámos sete, oito dias, e depois “tu não ficas”. Foi uma desilusão. Porque estávamos no FCP e víamos outros colegas a ficar.

Acha que não ficou por causa da sua estatura?
Sim, acho que era mais o físico que me prejudicava. Voltei para o Paços de Ferreira e no ano seguinte voltámos novamente a fazer as captações, e não fiquei outra vez. Era o meu segundo ano no Paços de Ferreira, que já tinha uma equipa de juvenis nos campeonatos nacionais, a jogar contra o FCP e contra outros clubes, e por isso decidi nesse ano não voltar mais às captações do FCP. Até que a meio da época o FCP contrata-me, através do senhor Sousa da farmácia, um grande portista que ainda é vivo. Foi ele que me falou e disse que queriam contratar-me para ir para o Porto.

O que é que lhe passou pela cabeça?
Pensava que era mentira, nem acreditava, tinha 17 anos. E quando eu conto ao Paços de Ferreira eles não me queriam deixar sair.

Tinha algum contrato com o Paços de Ferreira?
Não era contrato, mas estávamos ligados, eu podia sair, mas eles não queriam: “Tens de ficar, não sais”. Nunca mais me esqueço, chegaram a ir a minha casa, o presidente e os diretores do Paços de Ferreira. Davam-me um contrato profissional de dois anos. Eu estava com o meu pai em casa, que também não falava muito, e fui eu que disse que não queria: “Não quero, vou tentar a minha sorte no Porto”. Tinha uma coisa segura, um contrato profissional já a ganhar dinheiro, mas naquele momento... Hoje, quando penso nisso, pergunto-me como é que foi possível não ter aceitado aquilo. Não há explicação.

O que é que o FCP lhe oferecia na altura?
Nada. Só me dava o passe para o autocarro, mais nada. Mas arrisquei, disse que queria tentar a minha sorte no Porto e fui.

Os seus pais e os seus irmãos nunca se intrometeram ou aconselharam?
Não. Era tudo pela minha cabeça. Mas tinha a estrela, costumo dizer que tinha uma estrelinha que me seguia. Fui para o Porto e foi a minha felicidade.

Quem foi o seu primeiro treinador?
O senhor Feliciano. Vim para os juniores.

E foi logo campeão.
Sim. Quando chego ao FCP e vejo todos aqueles jogadores, todos aqueles atletas... No Paços de Ferreira tinham-me dito que eu não ia ter hipóteses porque eram todos muito fortes fisicamente. Mas eu lá fui. No início não jogava. Fazia parte do plantel mas tinha dificuldade, pelo tamanho. Havia jogadores que tinham vindo do ano anterior e já eram mais conhecidos do Feliciano. Os terrenos eram pesados, quando começava a chuva tinha alguma dificuldade e quase que não jogava, treinava, treinava mas não jogava. Só a partir de fevereiro, março é que comecei a jogar e a marcar golos e na última parte do campeonato a disputa era entre o FCP, o Benfica, um clube dos Açores, o São Miguel ou o Santa Clara, já não me recordo bem, e um da Madeira, o Marítimo. Ninguém acreditava mas fomos campeões.

E depois?
Faço um ano de júnior e no final desse ano o FCP faz-me um contrato de dois anos.

Lembra-se do valor do seu primeiro ordenado?
25 contos [125€].

O que fez a esse dinheiro?
Entreguei em casa, aos meus pais.

Não houve nada que quisesse comprar para si, umas sapatilhas, nada?
Não, não pensava muito nisso. A gente tinha tão pouco... E não havia tanta oferta na altura.

Rui Barros, com 11 anos (o 3º em baixo a partir da esquerda) na equipa dos Aliados do Lordelo

Rui Barros, com 11 anos (o 3º em baixo a partir da esquerda) na equipa dos Aliados do Lordelo

D.R.

No ano a seguir já é sénior.
Sim. Ou ficava no plantel principal do FCP ou era emprestado. É quando o FCP me empresta ao Sp. Covilhã.

Mas ainda fez a pré-época na equipa principal com o Artur Jorge. Qual a impressão com que ficou dele?
Era um homem muito rigoroso. Foi na altura do rebaixamento do estádio das Antas e nós treinávamos na Maia. Estive com eles mais ou menos um mês. Quem conhece o estádio da Maia sabe que tinha um corredor grande e os técnicos equipavam nos balneários do fundo, os jogadores logo no primeiro ou no segundo. Equipava-me, ia pelo corredor e se visse o Artur Jorge a vir de frente para mim, eu entrava em qualquer porta [risos], escondia-me, tinha receio, tinha vergonha, sei lá. Era um respeito grande pelo treinador, não falava muito e fugia a sete pés [risos].

Eram treinos muito diferentes dos do Feliciano?
Eram. Em termos físicos então... Era aquilo que era preciso para os jogadores profissionais, custou-me mas ajudou-me. Era um passo muito grande dos juniores para os seniores. Agora não é tanto porque os treinadores são todos bem formados, sabem o que é que necessário, acho que houve uma evolução de treino fantástica, mas na altura havia uma diferença muito grande entre juniores e a equipa sénior, principalmente a equipa sénior do FCP, que tinha sido campeã.

Como e quando é que sabe que vai emprestado para o Sporting Clube da Covilhã?
Depois de três semanas de treino com a equipa, começaram a dividir os jogadores, quem ficava e quem saia e o senhor Luís César veio ter comigo e disse: “Tu já não vens mais ao treino, esperas em casa e alguém vai ligar se aparecer algum clube para tu ires”. Estive uns dias sem saber de nada, foi uma ansiedade, sem treinar e sem ter aparecido nenhum clube. Ao fim de oito dias ligam para o café do Carvalho, nós não tínhamos telefone, que era ao lado de casa. Era o senhor Luís César: “Há um clube na Covilhã que te quer. Tens de apresentar-te lá”. Isto era num domingo e eu tinha que me apresentar na segunda-feira à noite: “Ó senhor Luís César e como é que eu vou para lá?” E ele: “Tens de ir para a Batalha, apanhas lá o autocarro e vais que eles estão à tua espera”. Demorei cinco horas para chegar. Sai às cinco da tarde e cheguei por volta dez e meia. Para meu espanto, quando chego não está ninguém à minha espera.

O que é que fez?
Meu Deus, nunca tinha saído de casa, estava sempre muito ligado aos meus pais e aos meus irmãos. O autocarro parou mesmo no centro da cidade, perto da câmara, onde estavam os taxistas. Vou ter com um e pergunto-lhe onde é que é a sede do Covilhã. “É já ali”. Indicou-me o caminho, fui ter à sede, eram quase umas onze da noite.

Estava lá alguém a essa hora?
Ainda bem que estavam em reunião. Se não estivessem não sabia como é que havia de fazer, não tinha contactos, não tinha telefone, não tinha nada. Bati à porta, vieram abrir, olharam para mim: “O que é?”; “Vim do Futebol Clube do Porto”. Eu muito baixinho, ele olhou para mim: “És tu que vens do Porto?! Espera um bocadinho”. Entrou para a sala, deve ter ido contar ao presidente que estava ali um pequenito do Porto [risos]. Voltou a aparecer e disse: “Espera aí que alguém vai levar-te à residencial e amanhã vais ao treino”.

Estava alguém na residencial à sua espera?
Não. No outro dia de manhã, levantei-me cedo, ninguém me vinha buscar. Fiquei na receção à espera. Nada. Comecei a pensar, se calhar há mais alguns jogadores aqui. E estavam lá três brasileiros e um rapaz português. Quando desceram perguntei se iam para o campo, disseram que sim e pedi-lhes boleia. Quando lá cheguei como não tinha autorização para estar no balneário fiquei na bancada à espera que aparecesse o treinador. A minha ideia dos treinadores na altura era de homens como o Feliciano, já de uma certa idade. Passou uma hora e nada.

E?
Eram quase umas dez horas quando resolvi ir até ao balneário. Eles já estavam em palestra com o Vieira Nunes. Estava calor a porta estava aberta eu acenei e ele: "Que é?". "Vim para treinar". "Vens treinar? Quem é que te mandou?". "Foi o FCP". Ele assim: "Ai és o rapaz que vem do Porto?". Nem sabia o meu nome nem nada [risos]. "Vai buscar o cesto ao roupeiro e vem-te equipar". Pronto, foi assim. Mas eu ainda não tinha assinado contrato com o Sp. Covilhã. Se eu não correspondesse às expectativas eles devolviam-me ao FCP.

Mas o treino correu-lhe bem.
Correu. No outro dia havia um jogo com a Guarda, meteu-me a jogar e assinei logo o contrato. Os senhores da Guarda também queriam que eu ficasse na Guarda, mas assinei logo com o Sp. Covilhã. Tinha 19 anos.

Rui Barros (o 4º em baixo a partir da direita) nos juniores do FCP, na época 1982/83

Rui Barros (o 4º em baixo a partir da direita) nos juniores do FCP, na época 1982/83

D.R.

Já namorava?
Sim, com a minha atual mulher.

Como é que se conheceram?
A Luísa era minha vizinha. Eu já andava a segui-la só que ela não podia namorar porque era quatro anos mais nova do que eu. Eu tinha 19, ela 15, não foi bem namorar. Comecei a falar mais com ela nas festas. Trocávamos olhares, conversávamos, só quando ela fez 16 anos é que começámos a namorar, sem dar conhecimento aos pais, nada à porta de casa [risos].

O Sp. Covilhã subiu de divisão e a seguir vai para o Varzim. Porquê?
Como tínhamos subido de divisão o meu interesse era ficar. Mas eu só tinha assinado um ano, depois regressei ao Porto e o FCP renovou mais um ano comigo. Fiquei outra vez com dois anos de contrato. Eu queria ficar na 1ª divisão, no Sp. Covilhã, mas o FCP não deixou. Comecei a ser notícia, fiz bons jogos, então o FCP mandou-me para o Varzim, que era a primeira filial. O presidente do Sp. Covilhã, Sr. Álvaro ainda veio cá duas ou três vezes para me levar para a Covilhã, mas não deu.

Gostou da Covilhã.
Muito. Pelas pessoas, pelo carinho.

Vai para o Varzim, onde estava o Félix Mourinho como treinador.
Sim, os primeiros seis meses foram com ele. O Varzim estava na 2ª divisão, a meio da época estávamos em 3º ou 4º lugar mas só subia o 1º e o 2º ia a uma liguilha. Ele sai e entra o Henrique Calisto.

Como era Henrique Calisto?
Era do género do Artur Jorge. Ainda mais rigoroso. O sr. Félix era mais simpático e carinhoso. O Calisto era mais severo, castigador. Aprendi com os dois.

Nunca foi castigado por causa de noitadas?
Não. Eu sou muito frágil em termos físicos, se eu não recuperasse bem para um treino, se não me deitasse cedo, se bebesse muito álcool não ia aguentar. Eu encontrava pessoas fisicamente muito mais capacitadas do que eu, então eu tinha que saber proteger-me.

No Varzim ficou a viver onde?
O Varzim deu-me um apartamento, onde fiquei eu e o Soares, um amigo que era do FCP também, tínhamos sido os dois emprestados. Almoçávamos e jantávamos sempre em restaurantes pagos por eles.

Não se desenrasca na cozinha?
Zero [risos].

Volta ao FCP.
Subimos de divisão. Regresso outra vez ao FCP, mas ainda não fico. Voltei outra vez ao Varzim e faço um ano na 1ª Liga e é aí que dou o grande salto. Quando regresso ao fim desses três anos de empréstimo, também muda o treinador, vem o Tomislav Ivic para o FCP. Vem para um plantel que praticamente não conhece, então foi pelo treino, ele viu-me a treinar e ao fim de 15 dias disse-me: "Não te deixo ir para lado nenhum. Tu ficas no plantel, não és emprestado". Fogo! Espectáculo. Fiquei maravilhado.

Rui Barros (o 1º em baixo à esquerda) na equipa de juniores do FCP

Rui Barros (o 1º em baixo à esquerda) na equipa de juniores do FCP

D.R.

Aí já não tinha dúvidas de que ia ser jogador de futebol e ia ter sucesso, ou tinha?
Ainda tinha. Fiquei no plantel naquele ano em que o FCP foi campeão europeu, ou seja, eu entro com uma equipa campeã europeia, portanto, pensei que ia ter dificuldade. Quando ele me diz que fico no plantel, aquilo já era uma vitória para mim. Agora saber se ia jogar naquela equipa... Era quase impossível. Treinar e ser convocado já era satisfatório para mim.

Mas a época correu-lhe muito bem.
Quando começa o campeonato eu entro ao intervalo do primeiro jogo, ganhámos 7-0 ao Belenenses. Faço um golo e partir dali nunca mais saí. Fui sempre titular até ao fim.

Até que há o mítico jogo com o Ajax, no dia dos seus anos.
Exato. Já tinha jogado a eliminatória da Liga dos Campeões e é o jogo que vale um título. Foi um jogo memorável, pelo golo que marquei, pela taça que ganhamos [Supertaça Europeia]. Nesse ano somos campeões nacionais, ganhamos a Taça de Portugal, A Supertaça e a Intercontinental. Foi um ano fantástico.

Nessa altura vivia onde?
Viva com os meus pais ainda.

Pensava que ia ficar no FCP.
Sim, não imaginava sair.

Como e quando é que sabe que vai para a Juventus?
Acaba a época, vamos de férias, ao fim de um mês volto para começar a época do FCP. Faço o primeiro treino, tinha saído o Ivic, tinha vindo o Quinito. Vou para casa e, eram dez da noite, ligam-me para o café, ainda não tinha telefone. O sr. Luis César diz-me para ir ter ao Sheraton, no Porto. "Mas para quê?". "O presidente [Pinto da Costa] quer falar contigo, tens de vir ao Sheraton". Chego e estão lá o Luciano d’Onofrio, Teles Roxo, o Sr. Aguiar. O Luciano vem ter comigo e diz que há um clube muito importante que me quer. Pergunto qual é, mas dizem-me que temos de esperar pelo presidente. Não me diziam o nome. Disseram-me para ir dar uma volta. Fui até à Foz, sozinho, já tinha carro.

Qual foi o seu primeiro carro?
Um Opel Corsa, vermelho [risos]. Comprei-o na altura em que fui para o Varzim, comprei ao sr. Álvaro, o meu presidente do Sp. Covilhã. Mas estava a dizer, saí do Sheraton e fui ter a casa do Jaime Pacheco, para pedir uma opinião. Estive lá 20 minutos. Diz ele: "Não desperdices essa oportunidade, vai, aproveita". Ele era meu vizinho em Lordelo, houve uma altura em que ele era o nosso ídolo da nossa zona ali em Paredes.

Rui Barros na Juventus

Rui Barros na Juventus

D.R.

Quando lhe disseram que era para ir para a Juventus, qual foi a sua reação?
Não queria acreditar. Fiquei assustado. Saí da reunião à uma da manhã. Disseram-me amanhã às sete e meia temos de estar no aeroporto. Cheguei a casa e fui acordar os meus pais. A minha mãe a chorar, coitada. Não dormimos nada nessa noite. No dia seguinte, lá fui às Antas buscar as minhas botas. Ia com uma saca de plástico. As pessoas até se riram. Lá me arranjaram um saco de estágio.

A saca de plástico onde levava o salpicão e as bolachas que a sua mãe lhe deu?
Sim [risos]. Chegamos ao aeroporto, estava lá um avião privado à nossa espera. Ia o presidente, o Luciano, o Dr. Aguiar e o Teles Roxo.

O que lhe passou pela cabeça durante a viagem?
Passou tudo. Só pensava, se eu não correspondo... Ainda havia fronteiras, passaportes, eles ainda me fazem mal. Estava mesmo assustado. Quando chego fomos diretamente para o gabinete do presidente da Juventus. Ficou a olhar para mim, devia ter visto alguns vídeos mas se calhar não pensava que eu fosse tão baixo, tão pequeno [risos]. A primeira coisa que me disse foi, vais ser contratado mas antes de fazermos a apresentação tens de ir ao meu peluquero, era o barbeiro [risos]. Discutimos o contrato e depois meteram-me num carro privado para ir ao barbeiro dele.

Ia passar de um ordenado de 400 contos [2000€] para 80 mil contos [400.000€].
Por aí.

O que lhe passou pela cabeça?
Eu acho que naquela altura não tinha noção do dinheiro. Não imaginava, sabia que ia receber muito, mas não dava o valor que se dá nesta altura.

Mas quando começou a receber aquela quantidade de dinheiro fez algum investimento logo?
Fiz uma casa melhor para os meus pais e no resto do terreno fiz mais cinco apartamentos onde ainda hoje vivem os meus irmãos. Há dois que estão fora, comigo três e os outros cinco vivem lá.

Como foi a receção do Dino Zoff, o treinador da Juventus?
Fantástico. Depois de assinar, de cortar o cabelo, quando chego ao campo tinha 3000 pessoas à espera. Nossa Senhora! As pernas tremiam... Estava mesmo assustado. Mas encontrei um grupo fantástico.

Percebia italiano, como fazia para se fazer entender?
Ao fim de dois meses já dá para perceber o italiano. E quando se está muito focado naquilo e apaixonado pelas coisas... Como fomos logo 15 dias para estágio na Suíça, fiquei no quarto do Napoli, um amigo, e ele começou a ensinar-me a falar italiano.

Depois do estágio ficou a viver onde?
O primeiro mês fiquei num hotel, no mês seguinte fiquei num apartamento com um colega e depois deram-me um apartamento. Os meus pais foram ter comigo em novembro, juntamente com a minha mulher.

A equipa da Juventus com a Taça de Itália e a Taça UEFA, conquistadas em 1989/90. Rui Barros é o 4º em baixo a partir da esquerda

A equipa da Juventus com a Taça de Itália e a Taça UEFA, conquistadas em 1989/90. Rui Barros é o 4º em baixo a partir da esquerda

D.R.

Já era casado?
Não. Foi o escândalo lá da terra [risos]. Coitada da minha mulher. Pedi ao meu pai e à minha mãe para irem falar com os pais dela e eles lá a deixaram vir. Eu tinha 22 anos e ela 18 anos.

Ela já não estudava nessa altura?
Não, trabalhava em confeções. Ao fim de oito, dez dias, percebi que os meus pais estavam a sentir a falta da casa, do campo e dos meus outros irmãos. Falei com eles, disse-lhes que ficávamos até ao Natal. No Natal viemos todos a Portugal e os meus pais já não voltaram a Itália. Voltei com a Luísa e levei uma irmã minha. Depois foi a minha cunhada, o meu irmão, eu queria ter sempre gente ao pé de mim.

Quando é que casa?
Casei em junho do ano seguinte, pelo civil, para os pais ficarem tranquilos [risos]. E, no ano seguinte, quando vou para o Mónaco, é que faço a festa de casamento.

Qual a memória mais forte que tem das duas épocas na Juventus?
Ganhámos a Taça UEFA, a Taça de Itália. Mas o ambiente... Nós entrávamos naquele campo de futebol e os jogos... era apaixonante, cativante, estava sempre completamente cheio, era uma emoção. Uma realidade diferente. Fiz logo um golo à segunda jornada e as coisas foram correndo.

Gostou de viver em Itália?
Muito. Claro que Turim era uma cidade muito fechada, muito escura, muito industrial, mas gostei das pessoas, dos restaurantes, a massa, que ainda hoje adoro. Ainda hoje vou muitas vezes a Itália.

Como surge o Mónaco?
Na altura as equipas só podiam ter três estrangeiros e só podiam jogar dois. Ao fim de dois anos, aquilo muda sempre. A Juventus foi fantástica. O presidente, que era o Boniperti, ia sair, o Zoff também. Vinha uma direção e treinador novos. Reunimos, disseram-me que o treinador que vinha já não contava comigo e que tinham duas hipóteses, Inglaterra e França. "Mas eu quero ficar em Itália". Mas não me deixavam ficar em Itália. O Dino Zoff ia para a Lazio, eu sabia, ele já me tinha dito: "Vens comigo". Mas não me deixaram ir. É quando aparece o Mónaco, o West Ham e o Celtic.

Optou pelo Mónaco porquê?
Eu nem imaginava o que era o Mónaco, o principado, não conhecia. Optei mais pela distância, de Turim a Mónaco, eram pouco mais de 200km, estava perto de gente que conhecia, tinha amigos ali, podia visitá-los. Antes de assinar tenho uma reunião com o Arsène Wenger, porque é ele que me quer. Estamos numa sala, com um quadro grande, sozinhos, eu eu ele, ele começa a fazer uns desenhos, uns riscos e diz-me: "Eu vou contratar-te porque preciso de um jogador para esta posição, consegues fazer?". Era a ala direito. "Ó mister, consigo, sabe que eu jogo nesta posição". “E aqui também consegues jogar?". Era atrás do ponta de lança: "Jogo". Eram as posições onde eu gostava de jogar, como médio ofensivo. E pronto, assinei.

Rui Barros já com a camisola do Mónaco

Rui Barros já com a camisola do Mónaco

D.R.

Quando chegou ao Mónaco, qual foi o impacto?
Paraíso. Sensação de alívio. Porque em cada treino da Juventus, além de muita gente, acabávamos o treino e quando saíamos tínhamos sem exagero, 10, 12, 15 jornalistas à espera. Televisões locais, rádios, jornais, era incrível. E tínhamos de dizer qualquer coisa. Eu não gostava muito, mas via que o Zavarov, o russo, nunca falava e davam-lhe sempre porrada, escreviam tão mal do rapaz, coitado, e era uma jóia de miúdo. Por isso, eu falava de vez em quando. Quando cheguei ao Mónaco, tínhamos um jornalista de mês a mês.

Não estranhou sair debaixo dos holofotes?
Eu não gosto muito dessa parte, de ser apaparicado e de falarem de mim, eu gostava era de treinar e de jogar. Mas claro que estranhei, porque já não havia tanta gente, tanta pressão e uma pessoa vai-se habituando, é uma adrenalina à pressão, ver o nosso nome e foto nos jornais, mas adaptei-me bem.

Do principado, gostou ou achou demasiado faustoso?
Gostei, porque era uma pessoa normal, comum. Enquanto em Itália, para ir jantar fora, se soubessem que estávamos no restaurante, no final do jantar tínhamos umas 30 pessoas à nossa espera, fotografias para assinar, por isso raramente saíamos. No Mónaco estávamos à vontade, víamos pessoas mais importantes, da F1, do cinema e andávamos ali tranquilos.

Com que celebridades se cruzou?
Roger Moore, Nelson Piquet, Pete Sampras, etc.

A sua mulher acompanhou-o sempre?
Sim. O nosso primeiro filho nasce em janeiro de 1990, na última época de Itália. Ele veio nascer a Portugal. Só vi o meu filho passado 15 dias de nascer. Primeira vez que era pai, estava aflito, a minha preocupação era tal que pensava que o miúdo podia ser roubado, dizia para andarem sempre atrás dele [risos]. Depois pensava que podiam estar a esconder-me algum problema de saúde, perguntava se era mesmo saudável, foi terrível. Recebi fotografias, mas estava sempre preocupado. Em junho fui para o Mónaco.

O que achou do Arsène Wenger?
Muito conhecedor de futebol. Foi uma evolução. Passava longas horas no seu gabinete a estudar os adversários. Dava treinos muito táticos. Em Itália tínhamos treinos mais físicos, com o Wenger já era mais tático, mais posicional.

Gostava mais desse tipo de treino?
Sim. Já era altura de começar a ver cassetes, víamos os adversários. Na Itália no segundo ano já víamos um pouco mas com o Wenger já era tudo estudado, víamos as cassetes dos adversários, levava muito aquilo a sério. Como treinador o Wenger era fantástico.

O primeiro ano no Mónaco correu-lhe muito bem, mas no segundo aparecem as lesões.
Magoo-me no final do segundo ano, lesiono-me duas semanas antes da Taça das Taças. Faço um carrinho, o pé fica preso na bola e o meu pé rodou. Senti logo no tendão de Aquiles uma fissura qualquer. Joguei mais cinco minutos, saí fora. Só que passadas três semanas como havia a final da Taça das Taças no estádio da Luz contra o Werder Bremen e eu queria estar presente. Naqueles três semanas praticamente só fiz um pouco de ginásio, bicicleta, corria devagarinho e depois fui infiltrado, joguei o jogo infiltrado. Acabei o jogo passadas duas semanas fui operado.

E ficou bem?
Não. O tendão não rompeu todo, mas depois foi um ano de lesões.

Rui Barros com a mulher e os quatro filhos ainda pequenos

Rui Barros com a mulher e os quatro filhos ainda pequenos

D.R.

É por causa dessas lesões que sai para o Marselha?
É. Mas é engraçado. Antes dessa lesão o Mónaco fala com o Luciano d’Onofrio. Antigamente os empresários trabalhavam mais para os clubes do que para o jogador. A Juventus precisava de um jogador que era o Rui Barros então o Luciano ia diretamente ao FCP; tanto que é ele que faz depois da Juventus para o Mónaco e do Mónaco para o Marselha. Como estava a dizer, 15 dias antes da minha lesão o Mónaco tem uma proposta fabulosa para mim, renovação de mais três anos. O Mónaco nunca tinha estado numa final da Taça das Taças. Eu marquei o golo nos quartos de final e nas meias-finais. E o Luciano diz-me: “Não assines que há outro clube potente que te quer”. Passado três semanas magoo-me, passadas duas semanas fui operado, em junho. O Mónaco já não me quis.

Então e o clube fantástico que ele tinha era qual?
Não me disse. O Luciano era assim. Para não meter pressão, ele só dizia: “Trabalha, treina, há um clube muito grande interessado”.

Mas quando vai para o Marselha já estava o FCP por trás, não estava?
Sim. Do Mónaco para o FCP tinha que se pagar. Na altura, em França os jogadores que saíam de um clube para outro clube francês pagavam zero. Não era permitido pagar transferências entre os clubes franceses. Então aparece o Marselha. O Mónaco não quer renovar comigo, anda ali a fazer um impasse e quer vender-me ao Sporting.

É quando surge uma foto sua ao lado do Sousa Cintra.
Pois. Os clubes estão de acordo, menos eu. Ligam-me do Mónaco no verão: "Olha, tu vais assinar pelo Sporting, que já chegamos a acordo". Dois ou três dias depois liga-me o Sousa Cintra: "Vais ser jogador do Sporting, tens de vir falar comigo". Eu não queria, mas, com o devido respeito, fui a Lisboa. Da primeira reunião ninguém soube, foi em casa dele. Tivemos a reunião e eu disse-lhe: "Ó sr. Sousa Cintra, eu não quero vir para o Sporting. Não quero. Olhe, eu tenho problemas no pé, deixe-me estar no estrangeiro, eu não quero vir para Portugal já. Se tiver problemas vão dizer que eu venho todo roto, não quero".

Nessa altura já sabia do interesse do FCP?
Não. Não queria mesmo vir. Mas é nessa altura que o Luciano sabe, eu ligo-lhe, e o Luciano liga para o presidente [Pinto da Costa]. Na segunda reunião, estava eu no hotel, e o presidente [Pinto da Costa] liga para mim: "Nem penses assinar com o Sporting. Não te preocupes nós vamos fazer um negócio". Ligo ao Sousa Cintra e digo-lhe outra vez que não quero assinar pelo Sporting: "Ó Rui, não me faças isso". O homem dava-me tudo, era uma jóia de homem, dava-me um contrato fabuloso: "Ó Rui estão os jornalistas todos no hotel". Ele, esperto, mandou os jornalistas todos lá ao hotel onde ia reunir comigo a segunda vez: "Não assino. Desculpe lá mas eu não quero vir para o Sporting"; "Mas tens de assinar, os jornalistas estão ali, fiquei de dar uma conferência de imprensa"; "Ó Sousa Cintra, mas eu não posso fazer isso, não é do meu agrado. Não é pelo Sporting, nós somos profissionais e temos de aproveitar, mas não é isso, não quero ficar aqui". Ele já sabia que alguém estava por trás e perguntou logo: "É para o FCP?"; "Eu não quero ficar aqui no Sporting, eu tenho de regressar outra vez a casa, ao FCP".

E faz o contrato com o Marselha…
Com uma cláusula em que se o Marselha não renovasse contrato, por exemplo, até dia 1 de abril, eu vinha automaticamente para o FCP, livre de encargos. No dia 22 de abril, que é o dia de anos da minha mulher, vou a Bruxelas ter com o presidente [Pinto da Costa] e assinamos o contrato de quatro ano pelo FCP. E pronto, regresso no ano a seguir.

Rui Barros (3ª à esquerda) festeja com colegas da equipa do Mónaco a conquista da Taça de França, em 1991

Rui Barros (3ª à esquerda) festeja com colegas da equipa do Mónaco a conquista da Taça de França, em 1991

Onze

Era o que queria, voltar ao FCP.
Era. Ao fim de seis anos no estrangeiro, olhava para a equipa do FCP e ainda tinha uns 10 jogadores que jogaram comigo. Agora é impossível, ao fim de dois, três anos já não conheces ninguém. Mas eu ainda tinha a maior parte dos meus colegas no FCP. Até me custava jogar contra o FCP. Eu queria vir. No Sporting se calhar ia ter mais responsabilidade porque vinha do estrangeiro, ia ter mais exigência, e o FCP foi uma casa que me acolheu, tinha os meus colegas e qualquer problema que me acontecesse, eles estavam aqui para me ajudar também.

Antes de irmos aos anos de glória no FCP, no Marselha encontrou-se com o Futre.
Sim, demo-nos muito bem. Ele só esteve lá três meses, mas era um espetáculo, tivemos muito boa relação. No Marselha, o único problema era o presidente, o Tapie. Agora já posso dizer, a equipa não saía enquanto o Tapie não chegasse. O treinador dava a palestra antes do jogo, no final, dava-nos a equipa e quem dava a parte final da palestra era o Bernard Tapie [risos]. E mais. Nós éramos cinco estrangeiros, só podíamos jogar três, durante a semana aparecia lá um diretor e dizia: "Rui, no próximo domingo vais jogar". Eu fazia o treino de conjunto e o treinador nem me metia na equipa que ia jogar, mas eu sabia que no fim de semana a seguir ia jogar [risos]. Era o Tapie que controlava quem ia jogar, dos estrangeiros. Fora jogava eu, o Futre jogava muitas vezes em casa.

No FCP apanha o mítico Bobby Robson. O que tem a dizer dele?
Era um homem muito experiente. Gostava de futebol de ataque, dos treinos de finalização, de pressão, gostava muito que os jogadores jogassem para a frente. Não gostava que jogássemos para trás. Os treinos eram todos virados para o golo, golo, golo. Eram treinos magníficos. Depois era um homem muito sincero. Apesar de não falar português, tinha piada naquelas frases que dizia. Eram as frases certas, gostávamos dele. Eu tive sempre boa relação com todos os treinadores, mas o Bobby Robson foi o único que não tinha um jogador que não gostasse dele. Normalmente, num grupo de 25 jogadores, há sempre os que não jogam tanto e há sempre três ou quatro que não gostam do treinador, com ele era incrível, não havia um que não gostasse do homem. Mesmo os que jogavam pouco.

Dos seis anos em que esteve no FCP, qual foi o título mais especial para si?
Acho que é o ano do pentacampeonato. Fazemos o tri, o FCP não tinha sido tricampeão ainda, mas andávamos à procura dessa história no clube e o pentacampeonato foi um ano inesquecível, por tudo. Pela equipa como jogava, pela união que havia entre nós, pela capacidade de demonstrar cada vez mais em campo que queríamos ganhar esse título.

Rui Barros com a Taça de Portugal na mão, conquistada ao serviço do FCP no ano 2000

Rui Barros com a Taça de Portugal na mão, conquistada ao serviço do FCP no ano 2000

Getty Images

O que é que o FCP tinha de tão especial? O que era o jogar à Porto?
Eu acho que tinha a ver com a responsabilidade que cada um tinha. Nós fazíamos muitas asneiras, depois do treino íamos comer e beber, bebíamos bem, mas havia um compromisso. A união e o caráter, não veio só daqueles anos, mas também dos anos anteriores. Eu tive as duas gerações. A geração que ganhou o penta e a outra de um João Pinto, Gomes, Frasco, Jaime Pacheco, Inácio, aquela geração de 1987. E todos “bebíamos” dos mais velhos, o respeito que nós tínhamos uns pelos outros... E o respeito o que era? A tal mística? Era o campo. Nós entrávamos para dentro do campo e era para treinar. Eu era amigo de A, mas eu tinha de lutar pelo meu lugar, se tivesse de lhe dar uma porrada eu dava, porque queríamos conquistar o lugar, não nos acomodávamos a nada. Hoje em dia boa parte dos jogadores ficam acomodados, se não jogas aqui, amanhã o teu empresário mete-te noutro lado. Nós não, ali era a nossa casa, era o nosso pão, então lutávamos pelo objetivo de jogar. E quanto mais és competitivo no treino, mais ajudas cada um e o treinador. A mística que nós tínhamos era o campo.

Esse espírito de que falou, de a seguir ao treino irem almoçar ou jantar todos, isso desapareceu?
Sim, acho que cada vez é mais difícil. Os jogadores estão muito individuais, é o telemóvel, é o seu empresário, é a sua família (e muito bem, a família muito bem), mas deixou de haver o tal espírito de grupo que tínhamos bastante. E depois havia o compromisso. Se nós fossemos almoçar e bebêssemos um copo, ao outro dia estávamos todos juntos. "Atenção, não podemos falhar, não podemos brincar". Havia mais compromisso entre nós.

Quais foram as maiores amizades que fez?
Da geração de 87, antes de eu sair, era o João Pinto, o Gomes, o Jaime Pacheco, Lima. Depois na outra fase, o Folha, o Domingos, o Jorge Costa, o Vitor, o Paulinho. Praticamente todos os fins de semana estávamos juntos.

Costumavam juntar-se na casa uns dos outros?
Sim. Juntávam-nos muito. De vez em quando juntávamo-nos num hotel, íamos todos fazer um fim de semana fora com as famílias. Férias também. Chegamos a ir vários grupos, de sete, oito casais, para o Brasil. Houve ali oito ou nove daquela geração do penta que ainda hoje convivemos muito.

Rui Barros no Centro de Treinos do Olival, no dia da entrevista à Tribuna

Rui Barros no Centro de Treinos do Olival, no dia da entrevista à Tribuna

FERNANDO VELUDO / NFACTOS (EXCLU

Lembra-se de alguma história que tenha vivido no mítico autocarro do FCP?
Assim de repente não. Era o nosso espaço e os treinadores sabiam disso. Hoje, como treinador, não gosto de ocupar o espaço dos jogadores. E ali era um espaço muito sagrado. Eles sabiam que de vez em quando até podia haver uma cerveja ou outra, sabiam, os treinadores sabem tudo, só que não entravam no nosso espaço, porque sabiam também que nós não éramos bandidos nenhuns, éramos responsáveis pelo que fazíamos.

Foi praxado?
Não. Mas ajudei a praxar muitos [risos].

Quem, lembra-se de algum?
O húngaro Lipcsei, o Mielcarski... Metíamos a cadeira, deixávamos aquele assento livre e havia sempre alguém que caia [risos], lá vinha o balde. Eu entrava no grupo mas não tinha a iniciativa, o Paulinho Santos e o Jorge Costa é que eram os "bandidos" [risos].

Não fez mais partidas?
Nos hotéis, os jogadores vinham dos seus passeios e nós atirávamos com sacos de plástico com água e molhávamos todos [risos]. Mas houve uma vez, quando fui do Varzim para o FCP, estávamos em estágio, eu era um miúdo, estava a chegar e no hotel o João Pinto e o Sousa entraram no meu quarto, foram à varanda e atiraram um saco de plástico com água para um jogador que ia a passar em baixo, só que o meu quarto era no 7º andar, havia um painel em baixo e o saco bate aí e quem vem a passar em baixo? O mister Ivic, o Otávio e outros adjuntos. Molhou o mister. O Otávio olhou para cima, viu a janela e começou a correr para ver de quem era o quarto. Ele entrou no quarto: “Então tu andas a fazer isto? Estás aqui há dois dias... Anda cá para baixo falar com o mister, que se calhar vais embora do estágio”. Eu, atrapalhado, não queria dizer o nome dos meus colegas, estava aflito. Fomos ter com o mister. Ele perguntou quem tinha atirado com o saco, eu não queria dizer porque não queria enterrar os meus colegas, até que o João Pinto e o Sousa vieram e assumiram. “Não foi o Rui Barros, fomos nós, pedimos desculpa, não estávamos a pensar que era o mister que vinha a passar”. E pronto, tudo passou.

A seguir ao Bobby Robson veio o António Oliveira para treinador do FCP. Muito diferente de Robson?
Sim. O Oliveira tinha a particularidade de fazer boas palestras. A maneira como ele incentivava os jogadores antes do jogo, nos treinos, valia pelas conversas dele.

Não era muito supersticioso?
Começámos a notar isso pelo quadro, saía um jogador e entrava outro, de um dia para o outro. Dizíamos uns para os outros: "Olha, já caíste da convocatória" [risos]. Na altura não dava para apagar então íamos vendo os riscos que ele fazia à mão em cima dos nomes. Tenho uma história ótima com ele.

Conte.
Ele era treinador da seleção. Eu apanhei-o na seleção antes dele ir para o FCP. Vínhamos no autocarro de Cascais para Lisboa, íamos jogar contra a Alemanha. Ele não tinha dado a equipa a ninguém. Só que azar dos diabos, o rádio que até estava com interferências, chega a uma fase em que fica bem e logo nessa altura dão a constituição da equipa, corretamente. Ele chegou lá e sacou um jogador, o Cadete [risos], porque deu na rádio.

Rui Barros com três dos quatro filhos, na altura em que festejou o pentacampeonato conquistado pelo FCP

Rui Barros com três dos quatro filhos, na altura em que festejou o pentacampeonato conquistado pelo FCP

D.R.

A seguir ao Oliveira, no FCP, entrou o Fernando Santos. Que tal?
Um homem de muita fé. Era um bom treinador, eu gostava. Também pelas palestras, pelo gentleman que era, pela educação que tinha.

Quando é chamado pela primeira vez a uma seleção?
Nunca nas minhas camadas jovens fui chamado a uma seleção. Nem em sub-15, sub-17 ou 19, nunca. Só fui chamado à seleção olímpica, que se chamava de esperanças, estava no Varzim ainda. Não ficamos apurados para os JO, se não me engano fizemos três jogos. A minha primeira internacionalização A também estava no Varzim, foi com o selecionador Ruy Seabra.

Foi um orgulho especial vestir a camisola da seleção?
Quando estás a trabalhar para um país é algo... E depois o hino nacional é algo que marca mesmo, dá para arrepiar.

Quando é chamado a primeira vez já sabia a letra do hino?
Não [risos]. Depois fui aprender.

Não fez nenhuma fase final de um grande competição pela seleção...
É uma desilusão que levo, não ter estado num Europeu ou Mundial. O Futre ainda esteve porque foi chamado para ir ao México, mas a seguir a 1986 tivemos um vazio de uns 14 anos e a nossa geração não teve essa sorte. Quando já tenho 28 ou 29 anos, o António Oliveira era o selecionador nacional, e chama-me. Fiz a eliminatória toda para o Europeu de Inglaterra 1996, em dez jogos salvo erro joguei oito. E quando sai a convocatória final, ele não me leva.

Já falou com ele sobre isso?
Não, nunca lhe perguntei. Nunca disse nada. Eu na altura tinha vindo de Itália, jogava no FCP, podia ter dito alguma coisa, mas não disse nada. Eu agora sou treinador e desconfio qual possa ter sido a razão dele. É que do FCP já iam uns seis ou sete jogadores, ia muita gente. E eu como era o mais velho do FCP provavelmente foi por isso que fiquei de fora.

Ficou desiludido.
Muito. Custou-me muito. Mas nunca disse nada e ainda bem, porque acaba o Europeu e o treinador que vem para o FCP, é ele [risos]. E jogava sempre, fui sempre titular.

Rui Barros com a mulher e os quatro filhos numa foto recente

Rui Barros com a mulher e os quatro filhos numa foto recente

D.R.

Finaliza a carreira na época 1999/2000. Quando é que percebe que está na altura de pendurar as chuteiras?
Ganhámos o pentacampeonato e o ano a seguir foi o que me custou mais. A meio do campeonato íamos com cinco pontos de avanço e perdemos o campeonato no final. Comecei a ter lesões no tornozelo que demoraram a curar, depois voltei e tive outra entorse chata. Quando comecei a jogar de novo não era a mesma coisa. Eu ia para o treino e já não correspondia aos meus níveis físicos. Se não treino bem, como posso jogar bem? E comecei a pensar que já não tinha capacidade para jogar.

Custou-lhe deixar de jogar?
Um bocadinho. Eu podia ir jogar para outro lado, tive um convite para o Fluminense do Brasil, veio cá o presidente do clube. Mas sair outra vez com a família, tinha três filhos, ia a caminho do quarto e já não tinha aquele espírito de ir outra vez para o estrangeiro. Depois o FCP quis que eu ficasse aqui, ligado sempre ao clube, e com grande orgulho estou cá.

Antes do FCP o convidar e antes de decidir terminar a carreira, tinha pensado no que ia fazer depois de deixar de jogar?
Não. Queria estar ligado aqui ao FCP, mas não sabia.

O que ficou a fazer no FCP quando deixou de ser futebolista?
No primeiro ano fiz scouting, observação de jogadores, de jogos.

Gostava?
Gostava mais da observação dos jogadores. Cheguei a ir muitas vezes ao Brasil, Argentina, Uruguai, viajei muito para ver jogadores. Depois torno-me adjunto do Co Adriaanse.

Foi convite dele, imposição do FCP?
Tinham saído o André e o Aloísio, salvo erro, e falaram-me em ser adjunto. Acima de tudo é o FCP que diz: " É este que vai para aqui". Como eu falava francês e italiano, o FCP precisava de alguém que tivesse ligação com o treinador e entro eu.

Já tinha algum nível do curso de treinador?
Tinha o II nível.

Gostava de ser adjunto?
Muito. Até gosto mais de ser adjunto do que treinador principal. Principal é mais complicado. Claro que vamos ganhando experiência e agora estou a ganhar experiência e a ter noção de algumas coisas, mas, como adjunto, a responsabilidade deixa de ser nossa, é mais do treinador principal, apesar de estarmos ali e de termos de responder também por aquilo que o treinador principal quer. Mas foi uma boa experiência como adjunto.

Que tal o Co Adriaanse?
Rigor a mais. É holandês. Tem as suas ideias e não verga. Fez um trabalho fantástico, foi campeão. Ele sai por isso, pelo seu rigor a mais e por não vergar a determinada situações de jogadores, do treino. Aquilo é pedra é pedra, é pau é pau.

Antes do Co Adriaanse ainda foi o porta-voz de Luigi del Neri junto do plantel, certo?
Sim. Tenho uma história engraçada com ele. Fomos duas semanas para Nova Iorque. No ano anterior o FCP tinha sido campeão europeu, tinha grandes jogadores. À noite, depois de um jantar, ele permitiu que os jogadores saíssem e fossem tomar um copo, mas marcou horas para voltar. 23h. Só que uns chegaram às 23h15, outros às 23h20 e os que chegaram à hora ficaram à espera dos outros. Ele diz-me para lhes dizer que vamos ter uma reunião no hotel. Era para aí meia-noite e um quarto, meia-noite e meia. Ele começa a falar, muito zangado, começa a dizer montes de palavrões e eu, enrascado, não queria dizer os palavrões que ele dizia e tentava tirar as palavras de italiano para português de um modo diferente e os jogadores estavam todos admirados e a rir-se porque sabiam que ele estava a dizer coisas mais malcriadas do que aquelas que eu estava a dizer [risos].

Emil Kostadinov, Rui Barros, Fernando Gomes e Rabah Madjer

Emil Kostadinov, Rui Barros, Fernando Gomes e Rabah Madjer

MJ Kim

Depois veio o Jesualdo Ferreira. Aprendeu muito com o professor?
Muito, muito. Grande treinador. Não só para as pessoas que estão com ele, mas para os jogadores. Ele também começou a treinar camadas jovens, seleções. Ele é muito evoluído no desempenho técnico e tático. Muito. Na explicação do treino. A explicação que o jogador quer, como é que defende, como é que ataca, como é que é o posicionamento do jogador, fantástico. Muitas vezes o treinador esquece-se um bocado dessa parte, olha mais para o global tático, técnico, ele vai ao pormenor, vai ao jogador, fazia treinos muito individuais para cada jogador.

Volta a ser observador e quando entra o Lopetegui volta a ser adjunto.
Sim. O Lopetegui era do género do Co Adriaanse. Um homem que percebe muito de futebol, mas também era muito teimoso, o que é pau é pau. Tinha as suas ideias. Depois entra o Peseiro. Uma jóia de homem, percebe também muito de futebol. Muito divertido, ouvia muito, estava muito ligado aos jogadores, falava muito com eles, percebe muito de treino. Era mais sociável, e é um tipo com muita piada, é muito alegre e divertido. Fez um bom trabalho, mas se calhar não teve tanto tempo, teve só meio ano, as coisas não correram bem no final com aquela perda da Taça de Portugal e ele sai. É quando entra o Nuno Espírito Santo. Também gostei. Notava-se que estava ali uma pessoa que ia ter valor e que tem valor e vai fazer uma carreira fantástica como treinador.

Já o Sérgio Conceição não abdicou da equipa dele.
Exatamente.

Ficou triste?
É claro que a gente gosta de estar sempre ligado à equipa principal, mas o Sérgio é um homem da casa. Quando temos um grupo, uma confiança total nos nossos adjuntos, às vezes não queremos ninguém que possa estorvar e ser diferente. É normal. Respeito. Somos amiguíssimos, éramos sócios os dois. Acho que não podemos confundir a amizade, o respeito e o carinho pelas pessoas com o profissionalismo. E o Sérgio nisso é top.

Na época 2015/2016 Rui Barros teve de assumir o comando do FCP num jogo com o V. Guimarães

Na época 2015/2016 Rui Barros teve de assumir o comando do FCP num jogo com o V. Guimarães

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Entretanto é convidado a assumir a equipa B, em abril passado, depois da saída do Folha. Está a gostar da experiência?
Estou. Quando temos a responsabilidade num clube às vezes ficamos um bocado assustados porque, como disse, uma coisa é ser adjunto outra é ser treinador principal e o meu caráter às vezes... Eu não sou muito agressivo, antes quero fazer as coisas de forma mais amigável. Claro que a pessoa tem de ser rigorosa e aquilo porque primo e que me ensinaram é o respeito. Não é difícil ser jogador desde que se cumpra as regras. Aquilo que eu quero é que os miúdos cheguem a horas, respeitem todos os que estão à volta deles, os roupeiros, o balneário onde se equipam e acima de tudo que respeitem o treino. Dentro daquelas quatro linhas é que têm de ser sérios naquilo que fazem. Estão aqui duas ou três horas e depois tem mais 18 horas para se divertir, para brincar. Agora, dentro do relvado, exijo respeito e entrega.

Nota-se uma grande diferença desta geração para a sua ao nível do sentido de compromisso e responsabilidade?
Era muito maior no meu tempo. Depois no nosso tempo em cada grupo havia sempre uns quantos que... Às vezes nem era preciso o treinador dizer porque os colegas conseguiam meter na ordem aqueles mais bandidos ou convencidos de que são os melhores, eles entravam no grupo e eram logo abafados. Agora como é tão individual cada um: "Eu é que sou, eu é que tenho a presença, eu é que sou o melhor". E isso é mais difícil de gerir para um treinador. Depois cada um tem o seu empresário, a sua família e amigos que dizem coisas que às vezes não são as corretas.

Hoje todos os miúdos têm empresário?
Sim, quase todos. E os empresários não convivem com o treinador no balneário e no campo, não sabem como é que o jogador treina, se ele vem chateado, sem chega atrasado, e o treinador é que tem de levar com isso tudo. Mas o empresário é importante, sem dúvida. em aconselhamento, em momentos de discutir contratos, mas querer meter-se na vida dos treinadores, às vezes é que é pior.

Os pais também?
Sim. Eles não veem a semana, o dia, não veem como é que eles treinam e depois querem isto e aquilo. É normal.

Rui Barros com a neta

Rui Barros com a neta

D.R.

Tem quatro filhos. Que idades têm agoa e o que fazem?
O Rui Filipe tem 29 anos, o Ricardo Gil, 25, a Ana Lucinda, 22 e o Tiago Barros, 18. O Rui tirou curso de gestão e está numa empresa nossa, uma residencial universitária na zona onde vivemos. É ele que está a gerir aquilo. O Ricardo fez o 12º ano, também trabalha na residência e joga futebol no Gandra. Não dá para viver do ordenado do clube por isso tem de trabalhar. Diz que vai para a universidade agora, vamos ver. A Ana Lucinda acabou agora o curso de Desporto no ISMAI, vai começar agora a trabalhar. Gosta da dança. O Tiago está no 12º ano e quer ir para Desporto e também joga no Gandra.

Em qual é que se revê mais enquanto jogador?
No Tiago. Em personalidade, no mais velho, o Rui.

Os seus filhos ainda vivem consigo?
Não, o mais velho já casou e sou avô [risos]. Chama-se Stasha, porque o meu filho está casado com uma polaca. A menina vai fazer três anos em agosto.

Que tal ser avô?
É fantástico. É reviver tudo de novo. É um vício. Não vês a menina um dia ou dois, ficas desesperado, queres vê-la. Os filhos é diferente porque eles estão em tua casa, chegamos eles estão lá. A neta, vem lá a casa de vez em quando ou tenho eu de lá ir vê-la. Sou completamente babado.

Onde ganhou mais dinheiro e onde investiu?
Em Itália. Investi na residência universitária, eu e mais dois sócios, e investi em algum imobiliário.

Há pouco disse que o Sérgio Conceição foi seu sócio, meteram-se em algum negócio?
Montámos um pavilhão de aluguer de campos. Eu, o Sérgio, o Folha e o Elias Barros, um vizinho meu. Fizemos um projeto para alugar espaços, tem dois campos de relva sintética e um campo multiusos.

Rui Barros com mulher, filhos e respetivos companheiros

Rui Barros com mulher, filhos e respetivos companheiros

D.R.

Tem algum hóbi, alguma coisa que goste muito de fazer fora do futebol?
Não. Adoro estar com a família e os amigos. A minha mulher, os meus filhos a minha família são as pessoas mais importantes na minha vida, o meu suporte. Gosto de estar com eles.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Estava no Mónaco e comprei o Mercedes 300 SL cabriolet. Ainda o tenho, é da idade do meu filho, 29 anos. Na altura era um carrão e custou uns 20.000 contos [100.000€].

Os seus pais ainda são vivos?
Não. A minha mãe morreu nova, tinha 63 anos, de coração. Já fez 20 anos. Estava eu aqui no FCP, ia para um jogo com o Salgueiros. Ela morreu a meio da semana e no domingo joguei. O meu pai morreu há sete anos. Habituei-me, desde os tempos de jogador, a tirar a primeira semana de junho para ir com a minha mulher, sem os filhos, para França ou para Itália, e estávamos em França quando recebemos a notícia de que o meu pai tinha falecido.

Qual o golo que marcou que considera mais memorável?
Acho que aquele do Ajax. A maneira como foi, como driblei o guarda redes como espero o defesa e driblo o defesa.

De todos os títulos conquistados, qual aquele que mais o emociona, que mais mexeu consigo?
Acho que foi a Taça Intercontinental, na neve. Nunca tinha sido tão longe, era no Japão, com pessoas diferentes, era um jogo visto por todo o mundo, era o meu primeiro grande título. Foi esse, a Taça Intercontinental, em dezembro de 1987.

Qual foi a pior coisa que lhe chamaram?
Meia leca e anão. Não gostava.