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A casa às costas

André Santos: “O Rui Vitória tinha uma expressão que ainda hoje imito: 'Ó miúdos, vocês são 'jigadores', para jogadores ainda falta muito”

Faz 30 anos no próximo sábado e já passou por 10 clubes, quatro deles além fronteiras. Traz boas recordações de todos, menos saudades da aventura na Turquia, de onde saiu às escondidas depois de três meses sem receber. Ex-namorado de Iva Lamarão, a apresentadora do Fama Show da SIC, André Santos assume-se como sportinguista de coração, revela que ainda não pensou no pós futebol e apesar de ter investido em vários imóveis, está a viver numa casa alugada

Alexandra Simões de Abreu

Nuno Botelho

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É de Sobreiro Curvo, localidade de Torres Vedras. Fale-nos um bocadinho da sua família e infância.
Vivia numa rua que tinha pouco movimento, agora já tem alcatrão, mas antigamente nem alcatrão tinha. Os vizinhos eram os meus avós que ainda são vivos e os tios da minha mãe, que tinham dois filhos. Um deles é meu padrinho e o outro é padrinho do meu irmão. Quando nasci já tinha um irmão, o Bruno, que vai fazer 32 anos. O Ricardo nasceu pouco depois de mim, tem 28 anos, e anos mais tarde nasceu a nossa irmã, a Marina, que tem 21 anos. O Bruno nunca gostou de jogar futebol, é apaixonado por motas, por velocidades. Faz algumas provas e há pouco tempo foi campeão de uma modalidade nova, o rally raid. Sempre foi apaixonado por isso mas trabalha com os meus pais, não é profissional.

O que faziam os seus pais quando nasceu?
Quando nasci não sei se o meu pai já tinha a empresa de embalagens de madeira e paletes, a Fepal. Ao início era um armazém pequenino perto da minha casa. A minha mãe já estava a trabalhar com o meu pai, nas máquinas, a fazer as caixas. O meu pai também trabalhou aqui em Lisboa, numa empresa de tintas e distribuição e trabalhou no corte de madeira nos pinhais. Mas acho que foi antes de eu nascer.

Começou a jogar à bola na rua.
Sim, com o meu irmão mais novo e com os meus primos, que viviam ali. Costumávamos colocar umas pedrinhas no quintal do meu pai para fazer as balizas e jogávamos dois para dois.

Quando era pequenino torcia por algum clube?
Sempre torci pelo Sporting.

André Santos, em bebé, na praia com uma bola

André Santos, em bebé, na praia com uma bola

D.R.

Sempre sonhou ser jogador de futebol?
Sim. Só que antigamente não era como agora, que há os benjamins, pré-escola, etc. Comecei na rua, com os meus irmãos e os meus primos, havia um ringue na minha aldeia em que os mais velhos jogavam ao bota fora, cinco para cinco, e como eles já sabiam que tinha jeito, convidavam-me. Eles tinham uns 18 anos e eu devia ter uns 6, 7 anos. Uma vez participei num torneio de verão naqueles ringues acimentados e ainda hoje falam disso: “Lembras-te de ter entrado naquele torneio connosco? Eras tão pequeno”.

Da escola gostava ou nem por isso?
Nunca fui um grande aluno. Era o que a minha mãe dizia, era para passar, era para o “3”, satisfaz, satisfaz, satisfaz. A educação física era a nota mais alta.

Como e quando vai parar ao seu primeiro clube, o Lourinhanense?
O Lourinhanense era um clube satélite do Sporting, com melhores condições que o Torreense, que era mais perto de casa. Foi através de um senhor que costumava levar os miúdos de camionete para o Lourinhanense. Ele um dia está com o meu pai no café e diz-lhe: “Um dia vou levar o teu filho André ao Lourinhanense”. E assim foi, levou-me lá a treinar.

Que idade tinha?
Uns 7, 8 anos. Gostaram de mim e fiquei. Só havia uma equipa, estávamos no campeonato nacional e fizemos uma grande época. Ganhámos a fase ali da zona, que era com o Torreense. Depois fomos à fase final em que eram só quatro equipas, o Sporting, o Benfica, o Odivelas e nós. Equipas mais fortes, o Odivelas apanha muita gente de Lisboa, o Sporting e o Benfica nem se fala, apanham os melhores miúdos. Nessa altura joguei contra o Fábio Paim, já falavam dele para o Barcelona. Ele era realmente fora de série.

Esteve dois anos no Lourinhanense?
Sim, no ano seguinte subi e joguei com o meu irmão. O senhor também o levou, começámos a ir de carrinha, ele pegava-nos à porta de casa, íamos treinar, e à noite deixava-nos em casa. Duas, três vezes por semana.

André Santos já com a camisola do Sporting, num jogo dos escalões de formação

André Santos já com a camisola do Sporting, num jogo dos escalões de formação

D.R.

Como é que vai parar ao Sporting?
Como referi, o Lourinhanense era clube satélite. Na primeira vez que jogámos contra o Sporting eu era ponta de lança, nem era médio. Era avançado e fui o melhor marcador da equipa. No ano seguinte o treinador baixou-me para médio, também jogámos contra o Sporting em alguns torneios. Noutro torneio jogámos contra o FCP. E num desses torneios o senhor Aurélio Pereira viu um jogo meu, falou com os meus pais, estava eu no segundo ano. “Queríamos que o André fosse treinar ao Sporting”. O meu pai levou-me, eles gostaram e disseram que depois entrariam em contacto. Entretanto acabou a época e entraram em contacto. Foi na transição de escola para infantil. Havia mais dois jogadores da Lourinhã que eles também queriam. Um era da minha equipa, o Didi e o outro era o Francisco Gomes que também tinha treinado comigo e que agora joga no Amora. Fizeram um pacote e pagavam um táxi, duas vezes por semana, para nos trazer da Lourinhã.

Não ficou a viver em Lisboa?
Não, ainda não se podia. Só se podia viver nos quartos a partir dos 13 anos, eu só tinha 10, 11.

Faz toda a formação no Sporting?
Sim, mas, na transição do segundo ano de infantil para iniciado, recebo o convite oficial. Tinha feito uma boa época nos infantis e eles queriam que continuasse nos iniciados. Falaram com os meus pais e disseram que tinham interesse que eu fosse viver para a Academia, que tinha aberto nesse ano.

Sai do “ninho”.
Sim, com 13 anos. Nunca falei com os meus pais sobre esse sentimento deles, mas para mim não custou porque era o meu sonho, era o meu clube do coração e poder jogar pelo Sporting…

Andrá Santos nas escolas do Sporting

Andrá Santos nas escolas do Sporting

D.R.

Mesmo à noite, quando não tinha nem os pais, nem irmãos, não lhe custava?
Éramos muitos miúdos na Academia e os meus pais arranjaram-me um telemóvel para poderem falar comigo todos os dias. Mas havia colegas que choravam. O Iuri Medeiros, que tinha vindo dos Açores, pedia para ir embora com saudades dos pais. A mim nunca me aconteceu, não sei se era por ser miúdo. Todas as semanas no final do treino de sexta-feira o meu pai ia buscar-me, dormia em casa e se o jogo fosse sábado o meu pai levava-me e voltava para casa. Só voltava para a Academia no domingo à noite. Os meus pais fizeram muitas viagens, para eu ir passar o fim de semana a casa.

Teve de mudar de escola, sentiu muito a diferença?
No início, como era muito envergonhado, ficava mais calado. Mas no Sporting as encarregadas de educação, a Dina e a Raquel, faziam de maneira que a minha turma também tivesse mais alguém da Academia. Assim era mais fácil, estava sempre acompanhado.

André Santos, ao meio, com os pais e irmãos

André Santos, ao meio, com os pais e irmãos

D.R.

Quando é que assina o seu primeiro contrato, tem ideia?
O primeiro acho que foi com 17 anos.

Lembra-se do valor do ordenado?
Eles ao início tinham subsídios. A partir dos iniciados começam a dar subsídios, não se chamavam contratos, chamavam-se subsídios. Acho que eram 350 euros.

Havia alguma coisa que quisesse comprar com esse dinheiro?
Sempre fui muito poupado, sempre fui de juntar. Os meus pais sempre meteram na cabeça dos filhos que tinham de poupar e sempre trabalharam muito. Só de vez em quando é que se compra uma coisa mais cara mas sempre fomos todos muito poupados. Quando éramos pequenos a minha mãe criou logo contas para todos para criarmos esse hábito de guardar o dinheiro no banco.

Foi o que fez, guardou o dinheiro?
Sim.

Nunca fez uma extravagância?
Sempre tive na cabeça que quando tivesse 18 anos ia tirar a carta e comprar um carro. Assino o primeiro contrato como profissional aos 17, 18 anos e aí começo a ganhar mil e poucos euros. Não tinha grandes gastos na Academia, o autocarro levava-nos e trazíamos para a Academia, comíamos lá.

Qual foi o seu primeiro carro e quando o comprou?
Tinha 19 anos. O meu irmão mais velho que já tinha comprado um carro na Alemanha, tínhamos uns amigos lá que conseguiam bons preços. Fui buscar um Mercedes CLK 270. Mas nos primeiros meses de carta andava com o carro do meu pai. Um carro usado que ele tinha. O CLK durou muito tempo. Quando assinei contrato profissional também meti na cabeça que ia juntar para comprar casa e comprei casa, na Expo. Ainda a tenho a render.

André Santos com a primeira taça conquistada ao serviço do Sporting

André Santos com a primeira taça conquistada ao serviço do Sporting

D.R.

Foi campeão de juniores no Sporting.
Fui campeão de tudo na formação. Nos iniciados não havia nacional, era só distrital e fui campeão distrital de infantis. Iniciados havia dois escalões e fomos campeões em ambos os anos.

Quem foi o treinador que mais o marcou na formação e porquê?
Houve vários que me marcaram. O primeiro foi o Luís Dias, que ainda hoje está no Sporting. Ensinou-me muito, sempre tive uma boa relação com ele, ainda há pouco tempo o encontrei. O mister João Couto, com ele fomos campeões de juvenis. Outro que também me marcou foi o José Lima, com quem fomos campeões de juniores.

Lembra-se de alguma partida que lhe tenham feito ou que o André tenha feito?
Os pais levavam os meninos à Academia carregados de sacos de bolachas [risos], a minha mãe estava sempre preocupada se eu comia e mandava sempre muita comida. Os mais velhos sabiam, agarravam-me, começavam a fazer cócegas: “Dá-me bolachas”. Era a hierarquia [risos]. Os mais velhos iam buscar a comida aos mais novos, eles não gastavam dinheiro em bolachas. Mas é engraçado porque a dada altura aquilo inverte-se [risos]. Quando chegávamos a juniores já éramos nós que pedíamos aos miúdos que chegavam. Não sei se ainda hoje é assim. Também jogávamos muito às escondidas. Nós andávamos pelos campos, o segurança via-nos nas câmaras, aparecia de mota e o pessoal escondia-se.

Fugas, nunca houve?
No lado da equipa sénior havia uma piscina que agora até está coberta, e ao fim de semana, no verão, às vezes, íamos colados às paredes do ginásio, as câmaras nunca apontavam para as paredes, e saltávamos para a piscina, à noite. Claro que tínhamos cuidado com o barulho quando mergulhávamos e muitas vezes o segurança via-nos e tínhamos que começar a correr.

Quando é que desiste da escola?
Nos juniores de primeiro ano não desisti mas tive que eliminar algumas disciplinas porque já tínhamos treinos às terças e às quintas-feiras de manhã e de tarde. O autocarro ia buscar-nos à escola e das dez ao meio-dia e meia nós não conseguíamos fazer essas aulas. Fui até ao 12º ano, mas nos exames nacionais não consegui passar a matemática. Houve uma altura em que me inscrevi nas Novas Oportunidades, estava a fazer, mas entretanto acabaram com aquilo. Como foi numa altura em que eu já andava com a casa às costas, entre Portugal e o estrangeiro, acabei por não conseguir acabar a matemática. Mas estou a pensar terminar.

As primeiras saídas à noite começam quando?
A primeira saída foi com o meu irmão mais velho. Ele vinha muito a Lisboa e uma das vezes convidou-me. Tinha 16 ou 17 anos. Levou-me ao Lux. Mas eu só saía nas folgas, nunca tive problemas por causa de saídas.

André Santos numa prova distrital

André Santos numa prova distrital

D.R.

Com é que sabe que vai emprestado para o Fátima e qual foi a sua reação?
No final de juniores, o Paulo Bento, que era o treinador da equipa A, chamou os jogadores que iam ser emprestados. Disse-me: "O melhor para ti é seres emprestado, ires rodar". Eles já tinham clubes escolhidos porque disse logo: "Acho que para ti o melhor é ires para Fátima, quem está lá é o mister Rui Vitória, aposta em jovens, é bom para ti". E eu, sem ouvir mais opiniões, aceitei.

Foi viver para onde?
Nós jogávamos e treinávamos no estádio municipal, mas havia no centro de Fátima um estádio onde eles tinham uns quartos. Eram quartos individuais com casa de banho partilhada. Vivia aí sozinho. Mas foi fácil porque tínhamos lá uma senhora que nos fazia as refeições na cantina, que ficava em baixo. Estavam lá outros colegas da formação do Sporting. Era uma equipa jovem.

O que fazia nos tempos livres?
Cheguei a sair com esses colegas, quando tínhamos folga às vezes íamos a Leiria. Jogava computador, era um vício, passava horas e horas no quarto a jogar e a ver séries como o "Prison Break".

Com que opinião ficou de Rui Vitória?
Ele gostava muito de apostar nos miúdos mas quando tinha de dar umas duras, dava. Um dos primeiros jogos que tivemos na Taça, fomos jogar com o Coimbrões, ao intervalo estávamos a perder e, no balneário, ele utilizou uma expressão, que ainda hoje me lembro e digo a brincar: "Ó miúdos, vocês pensam que são jogadores? Vocês são 'jigadores', para serem jogadores ainda falta" [risos]. Depois no campo, incentivava. Tínhamos uma boa equipa. O meu central da altura é o treinador adjunto do Benfica agora, o Veríssimo.

André Santos com o troféu de melhor jogador, enquanto jogador da formação do Sporting

André Santos com o troféu de melhor jogador, enquanto jogador da formação do Sporting

D.R.

Depois vai para o U. Leiria.
Na altura foi um bocado complicado. Em janeiro, dizem-me que vou para Leiria e fui falar com o Rui Vitória. Ele não queria que eu fosse. Saca de um papel e mostra-me. "Olha quem é que está a meio-campo. Pateiro, Marco Soares, Pedro Cervantes, Tiago... Tu chegas lá e não jogas. Ficas aqui, é melhor para ti". Mas disse-lhe que queria ir, que era II Liga, era uma oportunidade. "Pronto, tu é que sabes". Deixou-me ir. Chego a Leiria, correu tudo muito bem a equipa subiu para a I Divisão e o treinador era o mister Manuel Fernandes, que me pergunta se quero continuar no U. Leiria. Disse que ia falar com o Sporting para ficar em Leiria. Marcou-me muito. Em Leiria é a primeira vez que vivo sozinho mesmo.

Que tal?
Já tive de ser eu a tratar de tudo, fazer contrato da água, da luz, etc. Já era eu que tinha de ir ao supermercado. A primeira vez que faço arroz foi lá [risos]. A minha mãe diz-me: "Pegas numa chávena pequenina". Só que eu achei que era pouco, fui buscar uma chávena do leite. Resultado, fiz uma panela gigante de arroz [risos] e mandei o arroz todo fora porque estava empapado. Fiquei com um trauma na altura, mas agora já consigo fazer arroz. Mas telefonava-lhe para tirar dúvidas culinárias.

Nessa altura já tinha 20 anos. Lembra-se da sua primeira namorada?
Sim. Era de uma aldeia perto da minha. Acho que tinha 17 anos quando começámos a namorar. Chama-se Mélanie. Depois ficamos amigos. Falamos de vez em quando. Ela trabalha na TAP.

Disse que o Manuel Fernandes o marcou. Porquê?
Ele era muito engraçado, vivia muito aquilo, às vezes nas palestras ele pensava ainda que era jogador. Dava sempre muitas dicas aos avançados e dizia "nós avançados" temos de fazer isto e isto, como se estivesse ainda a viver aquilo. Punha-se a mexer os pés, a pôr-se nas posições. Entretanto subimos de divisão, o Silas é contratado para a equipa da I Liga do U. Leiria. E à 5ª ou 6ª jornada, estava tudo a correr bem, o Manuel Fernandes é despedido do nada. É aí que vem o Lito Vidigal.

Na sua segunda época no U. Leiria joga com o Silas, o seu atual treinador.
Sim, ficámos sempre com uma boa relação.

Foi estranho apanhá-lo agora como treinador?
Nós tínhamos uma boa relação. Depois do U. Leiria volto para o Sporting e jogo contra ele. Ele dizia: "Vou rebentar contigo hoje" [risos]. Depois nunca mais joguei contra ele. Há dois anos joguei contra ele novamente para a Taça, ele estava no Cova da Piedade e eu em Arouca. Sempre tivemos muito contacto telefónico. Sempre brincamos muito os dois. Chamavamos “corninho” uma ao outro, lá em Leiria [risos]. Por nada em especial. Claro que agora é estranho tratá-lo por mister. Não consigo tratá-lo por mister, é Silas, só de vez em quando meio envergonhado é que digo mister [risos].

André Santos no dia da entrevista à Tribuna

André Santos no dia da entrevista à Tribuna

Nuno Botelho

Quando o Lito Vidigal chega a Leiria, os treinos são muito diferentes?
Sim, os treinos do Lito eram muito intensos. Eram treinos de duas horas e meia, com minuta carga física. Estávamos a treinar e o Lito gostava de chamar os jogadores à parte para irem falar um bocadinho com ele. Era um treinador jovem e gostava de saber como é que o jogador estava, se precisa de alguma coisa. Sempre foi motivador, dizia: "Tens muita qualidade, tens de pensar mais alto, trabalha bem para voltares ao Sporting". A verdade é que a meio da época surge o convite do Sporting. O Sporting estava mal na altura, o diretor era o Sá Pinto e o treinador o Carlos Carvalhal. Falam com o Bartolomeu, que também tinha o seu feitio. Eu quero ir, mas havia uma cláusula e o U. Leiria nunca devolveu o papel para eu poder voltar quando o Sporting quisesse. O Lito Vidigal até brincou com a situação, disse: "Ainda vais entrar para a história. Estás emprestado e ainda te vão comprar para poderes jogar no Sporting". Acabo por não sair. Entretanto o Sá Pinto sai, o Carvalhal também e no final do ano troca tudo, diretores, treinador. É aí que entra o Bettencourt para presidente, Costinha para diretor desportivo e Paulo Sérgio treinador. E volto ao Sporting.

Como foi voltar ao Sporting?
Foi um sonho. Fizeram uma apresentação e tudo. No mesmo dia fui eu, o Evaldo e o Maniche. Nem estava à espera porque eu estava a voltar de empréstimo. Na altura deram-me cartão de sócio, deram-me tudo. Claro que foi um sonho tornado realidade.

Quem eram os seus concorrentes diretos na equipa?
Os médios eram eu, Pedro Mendes, Maniche, Zapater, Matías Fernández, o Veloso, que ainda não tinha sido vendido, e o Moutinho, que estava naquele impasse e entretanto vai para o FCP. O Miguel Veloso faz o primeiro jogo da pré-eliminatória da Liga Europa e vai para Génova. Depois jogaram Pedro, Maniche e julgo que Matías, mas surge uma oportunidade para mim, agarrei-a e a partir daí comecei a jogar sempre. Umas vezes com o Pedro outras com o Maniche, chegamos a jogar os três.

André Santos em primeiro plano, na seleção nacional

André Santos em primeiro plano, na seleção nacional

D.R.

Nessa época, 2010/11, ainda apanha o José Couceiro.
Sim, o Costinha sai, entra o Couceiro para diretor, entretanto o presidente despediu o Paulo Sérgio e o José Couceiro assume a equipa. Também gostei muito dele. O Paulo Sérgio também era boa pessoa, não teve muita sorte.

Na época seguinte...
Muda a direção, sai o Bettencourt, o Couceiro e entra a direção nova do Godinho Lopes. Muda tudo outra vez. É aí que vão buscar uns 15 jogadores novos. E veio o Domingos Paciência para treinador.

Quando volta ao Sporting foi viver para o seu apartamento do Parque das Nações?
Não, esse esteve sempre a render. Na altura fui viver novamente com os meus pais, em Torres Vedras.

Como corre essa segunda época em Alvalade?
Estava tudo a correr bem, sou chamado à seleção, mas há uma altura em que compram o Elias e passei de titular para o banco. Logo. O Domingos a partir daí começou a jogar sempre com a mesma equipa e deu-me poucas oportunidades. Sentia-me revoltado, frustrado. Porque no ano anterior jogava sempre, estava na seleção e de repente deixo de jogar no Sporting, sabendo que não estando a jogar não sou convocado para a seleção...

O Domingos teve alguma conversa consigo ou o André foi ter com ele?
Não, nem uma coisa nem outra. Sempre fui uma pessoa tímida e envergonhada e não gosto de ir falar com as pessoas para pedir satisfações. Deixava-me estar na minha. Em janeiro sai uma notícia a dizer que eu queria ir-me embora e eu sem saber de nada. É a única vez que o Domingos me chama e e pergunta o que é aquilo. Eu não sabia de onde aquilo tinha vindo, disse-lhe que eram os jornais.

André Santos durante um treino da seleção

André Santos durante um treino da seleção

D.R.

Quando é chamado a primeira vez à seleção?
Fui à de sub-21 e de sub-23 antes de ser chamado à A. Fui chamado à seleção principal quando se lesiona o Manuel Fernandes, no estágio. O Paulo Bento chama-me, estava eu a regressar de um jogo da seleção sub-23. Aterrei e no outro dia apresentei-me em Óbidos. Íamos ter dois jogos amigáveis. Em Leiria, onde não me estreei, contra o Chile. Passados três dias tínhamos jogo em Aveiro. É aí que me estreio contra a Finlândia. Só fiz dois jogos. Fui chamado várias vezes, fui convocado para jogos para o Europeu 2012 mas como não entrava não conta a internacionalização. Depois volto a jogar outro jogo amigável contra o Luxemburgo.

Entretanto no Sporting sai o Domingos e entra o Sá Pinto, certo?
Sim, e logo no primeiro jogo entro e marco. Foi com o Legia, estávamos a perder 2-1 e fiz o 2-2. Passamos essa eliminatória. Mas nos jogos a seguir, banco, banco, banco. E também nunca percebi. Acaba a época e vou para o Deportivo.

Já estava tudo acertado?
[risos] A primeira conversa sobre o Deportivo ainda estávamos a meio da época, foi num dia em que o Jorge Mendes, que era meu empresário desde o U. Leiria, recebeu um prémio de mérito. Ele convidou os jogadores dele a irem ao Hotel Tivoli, estavam lá muitos presidentes de vários clubes e às tantas pega em mim e diz: "Anda cá que vais conhecer o teu próximo presidente". Eu ainda estava longe de saber que ia para o Deportivo. Levou-me a conhecer o Lendoiro. E no final do ano vou para a Corunha.

Vai de bom agrado ou não?
Gostava de ter continuado no Sporting, mas como o Sá Pinto também não me estava a dar oportunidades...

Foi sozinho?
Sim. Nesse verão tinha começado a namorar com a Iva Lamarão e foi um choque para ela.

André Santos (à esquerda) com Cristiano Ronaldo

André Santos (à esquerda) com Cristiano Ronaldo

AFP

Como é que a conheceu?
Foi um amigo meu da rádio, o Paulo Fernandes, que é sportinguista, eu dava-me muito bem com ele, jogava Playstation online com ele e uma vez ele e a namorada, a Lara Afonso, convidaram-me para um jantar em casa deles, onde a Iva estava. Falámos, mas nada de mais. Depois houve uma altura em que fomos ver o César Mourão na Comédia à la Carte. Fomo-nos conhecendo, mas nada. Até que a convidei para jantar, ela não aceitou. Não lhe liguei e mais tarde ela pergunta se o jantar ainda estava de pé. Disse que sim. Começámos a sair, a jantar e começámos a namorar antes de ir para a Corunha.

Quando lhe disse qual foi a reação?
Começou a chorar. Tínhamos começado a namorar há tão pouco tempo e eu ia já para longe. Mas depois ela ia à Corunha de duas em duas semanas e eu também vinha cá abaixo de vez em quando. O ano em que fui para a Corunha foi também a primeira vez na vida que vi o meu pai a chorar. Era a primeira vez que ia sair do país. Ele abraça-se a mim a chorar e eu, que nunca o tinha visto a chorar, emocionei-me e chorámos os dois.

Como foi a adaptação à Corunha?
Muito boa. Aluguei apartamento no mesmo prédio para onde o Pizzi também foi viver. Eu já tinha jogado com o Diogo Salomão no Sporting, ele já conhecia a Corunha, já tinha amigos e restaurantes conhecidos, foi fácil. Estavam lá muitos portugueses, Bruno Gama, Sílvio, Tiago Pinto, etc. Gostei muito da Corunha.

E a época no Deportivo?
Foi muito estranha. Eu chego lá, éramos três portugueses e passadas umas semanas já éramos 10 portugueses. Aquilo foi muito complicado, porque os espanhóis com os portugueses... Não é fácil. Começaram a dizer: "Agora vamos ter é de aprender português", mandavam muitas bocas. A equipa começou a não ganhar e, claro, a culpa era dos portugueses, até os adeptos cantavam para nós "menos portugueses, máis coruneses", tinham uma música mesmo contra nós. Foi uma época estranha, tivemos três treinadores. Um espanhol é despedido e vem o Domingos Paciência.

Curiosamente com o Domingos, na Corunha, já joga.
Quando ele vem eu pedi para ir embora. Ele diz ao Jorge Mendes que não, quer que eu fique. E começo a jogar com ele. Estava a correr bem e em fevereiro o Domingos pede para ir embora. Perdemos dois jogos os adeptos já assobiavam e por decisão dele vai embora. Vem um espanhol, Fernando Vazquez, que não era treinador há sete anos, era professor em Santiago de Compostela. Logo na primeira convocatória, chega ao pé de mim: "Não te vou convocar. Não te conheço". Eu disse: "Não me conhece? Então eu tenho jogado como é que não me conhece?". Não convocou. E a partir daí não joguei mais.

André Santos, à direita, festeja um golo do Sporting

André Santos, à direita, festeja um golo do Sporting

FRANCISCO LEONG

Volta ao Sporting.
Faço a pré-época no Sporting, aí já era o Bruno de Carvalho presidente. Estava em último ano de contrato com o Sporting, já tinha saído o Bruma a custo zero. Ele não queria que saíssem mais jogadores a custo zero. Fiz a pré-época toda, ninguém me disse nada. No dia do jogo de apresentação o Inácio vem ter comigo de manhã e diz que quem está em último ano de contrato não vai ser apresentado. Fiquei surpreso com aquilo. Na pré-época já achava estranho, sempre que havia jogos que passavam na televisão, eu não jogava. Os que não davam na televisão, jogava. Nunca percebi o porquê daquilo. Então e agora, vou ficar aqui? O Inácio disse que tinha uma oferta para o Qatar. Disse-lhe que não queria ir para o Qatar. Ele até ficou chateado. O Leonardo Jardim perguntava: "Então André, eu queria convocar-te, o primeiro jogo é com o Arouca, mas não posso. Como é que está a tua situação?" Nessa altura o Rui Vitória já me tinha ligado. Estava a treinar o V. Guimarães, eles tinham ganho a Taça ao Benfica, iam jogar a Liga Europa. Como eu estava nervoso e revoltado por me terem feito aquilo, pedi para me deixarem sair para Guimarães. Rescindi contrato com o Sporting, eles ficaram com 35% e fui para Guimarães. Assinei por dois anos.

As coisas correm bem.
Sim, jogo, vamos à Liga Europa. O V. Guimarães não tinha um grande orçamento na altura, mas até fizemos uma boa época. E surge a oportunidade de ir para a Turquia, para o Balikesirspor, por um valor muito bom. Penso que é uma boa oportunidade de ir ganhar dinheiro. O clube tinha acabado de subir à I divisão. Decidi arriscar.

E?
O meu pai voltou a chorar. Ia para longe. Para a Iva também foi um choque. Chego a Istambul, tudo muito bonito, tudo top. Assino contrato em Istambul. Vou para o sítio onde estavam a fazer a pré-temporada, também muito calminho, muito bom e quando chego à minha cidade, Balikesir, foi um choque. Campos de treinos não tínhamos, o campo era mais pelado do que relvado, muito duro. Tinha um sintético. Tinham uma mini academia mas os quartos eram muito maus. Foi um choque grande. Mas pagaram casa, carro. Nisso não me queixei. Foram pagando bem. Tínhamos de treinar a horas diferentes do que estava habituado por causa das rezas dele. O pequeno-almoço deles era com batatas fritas, tomate. Isso fazia-me um bocado de confusão porque estava habituado a comer pão, leite, cereais. Estava habituado a comer entre a uma e as duas e às vezes andavam a almoçar às três da tarde.

Esteve sempre sozinho?
Estava lá um português comigo, o Nuno André Coelho, que está a jogar agora no Chaves. Havia também um brasileiro, um venezuelano e acabávamos por estar os quatro juntos. Tínhamos um tradutor porque o treinador só falava turco. O inglês deles era muito fraco. Na altura o meu também. Tinha que usar o telemóvel, punha no tradutor e mostrava em turco. Nos supermercados era sempre assim.

André Santos em ação pelo V. Guimarães

André Santos em ação pelo V. Guimarães

D.R.

Entretanto lesiona-se na Turquia.
Estava tudo a correr bem, em novembro tinha marcado golo, toda a gente a falar de mim na televisão, golo da jornada, tudo ok. Na semana a seguir faço um estiramento. Como o campeonato parava por causa da seleção, vim a Portugal, faço exame, mostro os exames ao atual presidente do Sporting, que tinha sido meu médico no Sporting. E ele diz-me que tinha de ficar parado seis a oito semanas. Liguei para a Turquia expliquei a situação e como sabia que aqui tinha mais condições e estava com a família, pedi para tratar-me cá. Eles não deixaram. Fui para lá revoltado porque sabia que não tínhamos médico, não tínhamos nada. Eles disseram que eu ia ser visto pelo melhor médico da Turquia. Chego lá e levam-me de carro, quatro horas e meia, para Istambul, para fazer factores de crescimento.

Explique lá isso.
Tiraram-me sangue, meteram a filtrar na máquina para depois injetarem no ligamento. Tive mais dores aí do que quando me lesionei. Uma dor horrível. Ligo para o Varandas a explicar o que me fizeram e ele: "Isso não te vai ajudar". Eles disseram que aquilo ia ajudar a acelerar a regeneração. Mas o Varandas disse-me que o médico só ia ganhar dinheiro com aquilo, porque não ia acelerar nada. O médico de lá pediu-me para voltar uma semana depois a Istambul. Ou seja, mais não sei quantas horas de carro para trás e para a frente. Disse-lhes que não queria fazer mais aquele tratamento. No clube o tratamento custou-me muito. Eu não conseguia dobrar o joelho, não tínhamos médico, só um enfermeiro, que era cinco estrelas, ajudava-me a dobrar o joelho, mas eu tinha muita dificuldade. Muitas vezes ele tinha de fazer acompanhamento ao treino e eu é que ficava a fazer-me o tratamento, sozinho, com o laser e o ultra som [risos]. Nas folgas igual, porque eu queria recuperar rápido para voltar a jogar. Como vivia sozinho, não tinha mais nada para fazer, queria era que ficar bom. Quando um jogador esta sem jogar a cabeça fica.... Vamo-nos mais abaixo.

André Santos, com a bola, em ação pelo Arouca

André Santos, com a bola, em ação pelo Arouca

Gualter Fatia

Esteve parado quanto tempo?
Dois meses. Depois volto a jogar lá. O clube tinha trocado de treinador, havia muitos problemas ao nível da organização, as viagens são muito longas, às vezes oito horas de autocarro. Uma vez fizemos oito horas de autocarro, chegámos à outra cidade onde íamos jogar a seguir e o diretor tinha-se esquecido de marcar campo. O treinador não fez mais nada, mandou-nos vestir e ir ter ao corredor do hotel. Como o hotel tinha uma varanda a toda a volta, mandou-nos correr durante 15 minutos ali à volta. Nunca vi isto em lado nenhum [risos]. Entretanto eles deixaram de pagar e aparecem no clube cartas registadas para nós, jogadores, enviadas pelo presidente.

O que eram essas cartas?
Eram cartas onde o presidente fazia uma lista de dinheiro que nós devíamos por perder o jogo "x" ou por mau treino durante o mês [risos]. Ele punha, perderam com clube tal, à frente, 20.000 liras e por ai fora. Ou seja, ele queria que pagássemos ao clube por derrotas e mau treino. Queria tirar 60.000 liras a cada jogador. Eu não assinei, as cartas voltaram para trás, começo a receber notificações em casa para ir levantar mais aos correios, nunca levantei. Meteram-me a treinar à parte. Às tantas já me deviam três meses. Eu não queria ficar lá, mas tinha três anos de contrato.

O que fez?
Liguei para o advogado em Portugal. Se eles me pagassem um mês eu já não podia rescindir porque só ao fim de três meses seguidos sem receber é que podia libertar-me. O meu advogado faz uma carta, eu sempre na aplicação do telemóvel a ver se eles pagavam. Uma dia à noite, pego nas malas meto tudo dentro do carro e arranco para Istambul. Durmo em Istambul, no outro dia vou aos correios, carta para a FIFA, carta para o clube e outra para a federação turca. Fiz tudo o que advogado disse para fazer. Eles ligam-me a perguntar onde estou, digo que estou em casa doente. Apanho avião para Portugal. Quando voltam a ligar digo que já estou em Portugal e que já não voltava mais. E mais, disse que o carro, que era do clube, estava no hotel "x" e que a chaves estavam na receção.

E depois?
O presidente disse para eu voltar que me pagava os três meses. Mas recusei. Fiquei sem clube e nessa altura inscrevi-me num ginásio, com um PT, treinava todos os dias de manhã e de tarde. Quando estou para ir de férias começam a surgir ofertas. Na altura o Belenenses fez um primeiro contacto, reunimos, fazem proposta, mas entretanto o Carlos Freitas liga-me e diz que quer levar-me para Metz. Eu não queria ir para uma II liga, mas ele insiste, que ia ser bom para todos, que iam fazer uma boa equipa e que no ano seguinte estávamos na I liga francesa. Como o ordenado em França, na II liga, era melhor do que aqui, decidi ir.

André Santos, em ação pelo Metz

André Santos, em ação pelo Metz

D.R.

Voltou a ir sozinho?
Sim. Quando volto da Turquia eu e a Iva acabámos durante uns meses e quando vou para Metz não estava a namorar com ela, mas depois voltámos já quando eu estava em Metz [risos].

É um relacionamento intermitente.
Mas agora foi definitivo. Acabámos em novembro passado e é definitivo. Mas em Metz também só durou seis meses. Em março acabámos e estivemos outra vez seis meses sem namorar e quando volto a Portugal, para o Arouca, começámos a namorar outra vez. Agora em novembro acabou.

Voltemos à epoca no Metz.
Vou para França. Entretanto vão mais portugueses, vai o Nuno Reis, Daniel Candeias, Tiago Gomes. Compramos todos bicicletas e nos tempos livres íamos andar de bicicleta. Até janeiro joguei sempre. Até que há problemas entre o presidente e o treinador que era belga. O treinador vai embora. Vem um treinador que já tinha sido jogador do clube, mas que não foi decisão do Carlos Freitas. O Carlos ficou chateado, quis ir embora. Fiquei sem jogar ou jogava pouco. Tinha dois anos de contrato, acaba a época, subimos de divisão, mas o treinador não queria nenhum português, disseram que podíamos arranjar clube. Rescindi.

André Santos (à esquerda) com os pais e irmãos

André Santos (à esquerda) com os pais e irmãos

D.R.

Como vai parar ao Arouca?
O Lito Vidigal todos os anos ligava-me porque me queria, desde que o apanhei em Leiria. Sempre tive boa relação com ele. Ele ligou e decidi ir para Arouca. Tinham feito boa classificação iam jogar a pré-eliminatória da Liga Europa. Vou viver para Arouca.

E que tal?
Muita gente decidiu viver no Porto, mas como eu não queria ter de fazer as curvas do Porto para lá e vice-versa... Eu gosto de dormir a sesta. Treinar de manhã, almoçar e descansar. Dormia a sesta e acabava por passar um bocado da tarde, jogava Playstation, passava algum tempo com os amigos, o Nuno Valente, que joga no Setúbal, ficou um grande amigo, estávamos sempre juntos. E foi assim.

Além do Lito apanhou o Manuel Machado.
O Lito é vendido para o Maccabi Tel Aviv, em fevereiro, e vem o Manuel Machado. Cinco jogos, cinco derrotas. Correu mal ao mister e foi logo despedido. Mas ele era uma pessoa muito calma, muito educado, uma pessoa que não gosta de asneiras. Se disser uma asneira, depois é capaz de vir pedir desculpa. Muito correto. Também dava treinos mais leves, com muitas pausas. Aquilo não correu bem.

André Santos num treino do Balikesirspor

André Santos num treino do Balikesirspor

D.R.

Como aparece a Roménia?
Descemos de divisão. Foi aquela situação muito estranha, descemos com 32 pontos, no último jogo o FCP e o Braga tinham que perder, nós tínhamos que sofrer muitos golos e acabou por acontecer isso tudo. Uma coisa impensável e descemos de divisão. Eu pedi logo para ir embora. Não queria ficar na II divisão, até disse ao presidente que dava dinheiro meu para ficar livre. E ele: "Não. Vai ficar aqui a equipa toda. Vamos ficar todos e vamos subir de divisão". Eu não queria. Entretanto vem o Jorge Costa para treinador do Arouca. Eu não o conhecia, mas adorei-o. Tinha uma ideia diferente dele, porque era aquele jogador agressivo, diziam que era o "bicho"... Mas o Nuno Coelho disse-me: "Vais ver que é uma pessoa top, muito educada, vais gostar dos treinos". Quando ele vem, começou a falar comigo: "Fica aqui para me ajudares. Vai ser bom para todos". Como o Arouca estava a pedir dinheiro para eu ir embora e não estava a aparecer nada de especial. Apareceram equipas da Bulgária, mas para ir receber quase o mesmo... Como o mister tinha falado tão bem comigo, convenceu-me. Fiquei mas também fizeram-lhe a folha porque houve jogadores que não queriam ficar e ele afastou da equipa, depois houve muitos problemas no início do ano, começou a correr mal e o presidente mandou-o embora. Foi numa altura que o mercado tinha fechado. Se é numa altura em que o mercado estava aberto se calhar tinha-me ido embora também. Vem o Miguel Leal para treinador, uma filosofia diferente, não era tanto bola no pé, era mais II Liga, jogo direto, chuto na frente, não gosto tanto. Tinha quatro meses de contrato com o Arouca, não quero estar na II divisão, surge a proposta do Craiova e decidi ir até à Roménia.

Como correu?
A cidade era super tranquila, organizada, com monumentos bonitos. A Iva chegou a ir lá, na altura namorávamos. Tudo muito barato. bons restaurantes, muitos de pessoal que tinha participado nos programas do Masterchefs. Tinha lá outro português, o Tiago Ferreira. Foi bom. É um futebol partido, mais aberto, eles não se preocupam muito com o tático. Não respeitam tanto os treinadores, são filosofias diferentes, eles têm a mania que sabem tudo por isso é que acontece muito com os romenos eles saírem mas no ano a seguir estão a jogar outra vez na Roménia porque nunca se conseguem adaptar fora.

Fez sete jogos.
Na altura em que cheguei não pude ser inscrito porque quando fiz os exames médicos eles disseram que se passava qualquer coisa com o meu coração, que tinha de fazer uma ressonância. Sempre tive aqueles resultados nos exames de coração, aqui em Portugal sempre disseram que era normal porque como desportista o meu coração é mais musculado e é maior. Mas eles acharam que podia ter um problema e obrigaram a fazer uma ressonância. Perdi logo ai dois jogos. Não tinha nada, claro. Depois comecei a jogar.

André Santos no dia da apresentação no CS U Craiova, da Roménia

André Santos no dia da apresentação no CS U Craiova, da Roménia

D.R.

Nunca teve problemas com adeptos?
Na Turquia uma vez ia tendo. No trânsito apitei a um e ele fez-me uma perseguição. Vi que ele estava a ir para outro sítio e que voltou de propósito para vir atrás de mim. Assustei-me e meti prego a fundo. Comecei a acelerar, a passar por cima dos traços contínuos, mas lá também não há regras [risos]. Aí cheguei a casa assustado.

Como e por que razão veio parar ao Belenenses SAD?
Estava na Roménia, longe de Portugal, a receber o mesmo que podia estar a receber aqui... Na altura o Silas perguntou-me se queria voltar a Portugal, disse-lhe que sim. Ele disse ao presidente. Depois até houve uma situação caricata porque o presidente achou que eu usava o Belenenses para negociar [risos].

Porquê?
Porque eu já tinha tido um proposta do Belenenses há uns anos e o presidente ficou sempre como a ideia de que eu usava o Belenenses para negociar, mas não. Entretanto o Silas falou com ele. Eu já tinha vindo embora, já estava a treinar outra vez com um PT. E vim para o Belenenses.

O facto da vossa equipa estar sem casa, ou seja, sem o estádio do Restelo, afeta o grupo?
Temos um grande grupo, muito unido. Claro que nos sentimos tristes por não poder jogar mesmo no nosso estádio, mas o mais importante são as vitórias, seja onde for.

André Santos com a Taça conquistada pelo CS U Craiova

André Santos com a Taça conquistada pelo CS U Craiova

D.R.

Falemos do futuro. Pensa continuar no Belenenses SAD ou gostava de voltar a sair do país?
Qualquer jogador pensa sempre em melhorar a situação contratual. Se tiver oportunidade de dar o salto para outro sítio em Portugal ou fora, é claro que gostaria. Tenho esta época e mais uma de contrato. Logo se vê.

Vai fazer 30 anos no próximo sábado. Já pensou no pós-futebol?
Não. O dinheiro que fui ganhando fui investindo em imobiliário e tenho algum rendimento. No futuro quero estar ligado a esta área de compra e venda de imóveis, mas também ao futebol.

Ligado ao futebol como treinador?
Nunca pensei muito nisso. Neste momento vejo-me mais como empresário ou diretor, mas não sei, posso mudar de ideias.

André Santos em ação pelo Belenenses

André Santos em ação pelo Belenenses

Gualter Fatia

Ainda tem esperança de regressar à seleção?
À medida que os anos vão passando fica mais difícil. Mas no futebol, como toda a gente sabe, não há impossíveis. Estando no Belenenses sei que é mais complicado, mas se for jogar para o estrangeiro ou para uma equipa maior em Portugal é claro que se fica mais perto. Nunca devemos deixar de sonhar.

Tatuagens, tem?
Não. Gosto de ver algumas em colegas meus, mas quando olho para os meus braços não me vejo com tatuagens. E acho que mais tarde posso vir a arrepender-me de alguma. Gosto de me ver sem tatuagens.

É colecionador de camisolas de outros jogadores, não é?
Sim. Quando me estreei na I Liga colecionei as camisolas de todas as equipas. Em todos os jogos trocava de camisola com um adversário. Agora de vez em quando vou trocando. Tenho até uma história por causa de uma camisola.

A camisola que Pirlo ofereceu a André Santos

A camisola que Pirlo ofereceu a André Santos

D.R.

Conte.
Sempre admirei o Pirlo, desde criança. E numa pré-temporada em que eu estava no Sporting e ele ainda estava na Juventus, fomos ao Canadá e joguei contra ele lá. Na altura pedi-lhe a camisola no final do jogo e ele disse que não, que não podiam dar. Fui para o banho, tranquilo, e às tantas chamaram-me: “André, anda cá que está aqui o Pirlo”. Fui com a toalha à volta da cintura, sem acreditar muito, e quando chego está o Pirlo no nosso balneário com uma camisola para me dar. Foi um gesto que me marcou. Também tenho a camisola do Ronaldo, que na altura em que eu jogava na Corunha ele disse-me para entrar no balneário do Real que me dava uma camisola.

Para terminar não há mais nenhuma história para contar?
Lembro-me de uma, quando era miúdo, devia ter uns 15, 16 anos. Estava na formação do Sporting, tinha havido jogo no Algarve e vínhamos na autoestrada a caminho de Lisboa e às tantas deu-me a vontade de ir à casa de banho. Avisei-os e eles disseram que iam parar na próxima área de serviço. Mas aquilo apertou tanto, tanto que lhes disse que não aguentava até à área de serviço. Um dos enfermeiros pegou num saco, abriu: “Faz aqui” e virou a cara para o lado. Disse: “Não consigo”. Pararam o autocarro na berma da autoestrada, saí, tive de subir o monte ao lado da autoestrada, afastei a erva seca e agachei-me [risos]. Era uma risada dentro do autocarro, todos a bater nos vidros.