Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

“Naquele instante, acho que qualquer coisa saiu do meu corpo, foi como se a minha alma saísse e estivesse a observar”

Eder confessa que realizou há seis meses o maior sonho da sua vida, ser pai. Aos 31 anos, o herói do Euro 2016, volta a recordar momentos da final que ficou gravada na memória dos portugueses, fala do seu percurso de vida e de alguns dos seus treinadores, assume que gosta de jogar badminton e não percebe porque toda a gente se ri disso e confessa que se pudesse voltar atrás no tempo não tinha dado tantas entrevistas em 2016. Sobre o futuro, ainda é uma incógnita, mas revela que gostaria de ficar a viver entre Bélgica e Portugal.

Alexandra Simões de Abreu

MIGUEL MEDINA

Partilhar

Nasceu na Guiné Bissau mas veio para Portugal muito pequenino, com a mãe. O pai já cá estava. Foi viver para onde e com quem?
Vim com 3, 4 anos e fiquei inicialmente a viver em Lisboa com a minha mãe, em casa de uns familiares. Os meus pais já estavam separados. Passado algum tempo, não sei precisar quanto, fui viver com o meu pai, também em Lisboa.

Não se recorda nada da Guiné?
Não. Claro que há cheiros que me remetem à cultura africana porque os meus pais trouxeram isso, como o cheiro de alguma comida e especiarias, mas é só.

Entretanto foi viver para um colégio interno "Obra de Frei Gil", em Braga. Porquê?
Os meus pais trabalhavam e não tinham tempo para cuidar de mim, estavam muito ocupados. Quando eu saía da escola acabava por ir brincar para a rua com os meus colegas. Um dia, o meu avô veio a Portugal visitar o meu pai e eu andava a brincar na rua - cheguei tarde a casa nesse dia. O meu avô disse ao meu pai que era preciso ter atenção por causa dos perigos da rua, as más companhias, e o meu pai resolveu meter-me no colégio em Braga, devia ter uns 5, 6 anos.

Calculo que tenha ficado triste e revoltado com a situação, sem perceber muito bem as razões do afastamento.
Para dizer a verdade não me lembro bem se fiquei triste ou não. Mas calculo que sim.

Éder em criança

Éder em criança

D.R.

Quais as primeiras memórias que tem do colégio?
Lembro-me de ver muitos miúdos, ainda não tinha caído em mim em relação ao que estava ali a fazer. Disseram-me que ia ficar, que era uma escola. Acho que nem chorei nem nada, fiquei.

Não chorava à noite com saudades de casa, da família?
Se calhar fiquei triste, mas não me lembro de ter chorado. Normalmente não costumo chorar (risos). Mas de certeza que fiquei triste com saudades do meu pai e da minha mãe.

Eles iam visitá-lo?
O meu pai foi lá na minha primeira comunhão e ia lá algumas vezes quando tinha tempo.

Depois vai para Coimbra, para o "Lar Girassol". Porquê a mudança?
Vou para lá com 8, 9 anos. Julgo que havia uma amiga ou familiar do meu pai que tinha um filho nesse colégio e falou-lhe bem daquilo. Mais uma vez por razões do meu pai andar ocupado com o trabalho, fui para lá.

O que faziam os seus pais profissionalmente?
O meu pai trabalhava nas obras e fazia instalações elétricas. A minha mãe era empregada doméstica, fazia limpezas. Sabe como é a vida de emigrante, estavam ocupados em ganhar dinheiro para ajudar a família e acabaram por achar que era melhor eu ir para um colégio.

Esteve quanto tempo no "Lar Girassol"?
10 anos.

Éder (ao centro) com a sua turma da primária

Éder (ao centro) com a sua turma da primária

D.R.

Gostava da escola?
Sempre gostei da escola, mas para jogar futebol (risos). No 4.º ano até era bom aluno. Quando cheguei a Coimbra as coisas correram muito bem, porque acho que estava avançado na matéria. Lembro-me que até ao 4.º ano gostava muito de matemática. Depois, era tudo o que tivesse a ver com o desporto, Educação Física, e também geografia.

Quando termina a sua escolaridade?
Fiquei com 12.º ano incompleto.

Portava-se bem ou era castigado muitas vezes?
(risos). Nós jogávamos futebol no pátio do colégio, o campo de futebol ficava um bocado distante, e cada vez que chutávamos e marcávamos golo, como não tínhamos balizas, as nossas balizas eram uma árvore e um caixote do lixo, acertávamos nos vidros das salas de aulas ou do refeitório. Partimos muitos vidros (risos).

Qual era o castigo?
Dependia. Aquilo eram vários colégios e o senhor padre estava mais no colégio de S. Martinho só vinha ao nosso duas vezes por semana. Se tivéssemos a sorte de ele não estar lá pelo menos nos 2, 3 dias seguintes a termos partido o vidro, às vezes passava; se não, havia castigo que era ficar a ajudar na cozinha, levar o lixo, coisas assim.

À noite o que faziam para se divertir, fugiam?
Jogávamos à apanhada. Eu e o meu colega de quarto saiamos do nosso quarto, íamos a outro quarto tocar num colega, depois vínhamos a correr para o nosso quarto e os outros tinham que nos apanhar. Havia sempre vigilantes e tínhamos de fazer tudo para que não nos vissem, senão levávamos um puxão de orelhas.

Nunca tentou fugir do lar?
Fugir para ir ter com os pais, não. As únicas alturas em que fugi foi mais durante o fim de semana, para ver algum jogo de futebol no café. Nós não tínhamos autorização para sair do colégio, então saíamos pelas janelas e saltávamos o muro para ir ver futebol. Corríamos sempre o risco de na estrada sermos apanhados (risos).

Éder (em baixo à esqierda) começou por jogar no ADC Adémia

Éder (em baixo à esqierda) começou por jogar no ADC Adémia

D.R.

Sonhou ser outra coisa além de jogador de futebol?
Sempre quis ser jogador de futebol.

Quando era pequeno por que clube torcia e quem eram os seus ídolos?
O meu pai era benfiquista, a minha família torcia pelo Benfica. Eu, não vou dizer (risos). Lembro-me que já na Guiné tinha um ídolo, o Makukula. Quando o meu pai via futebol na Guiné eu passava o tempo todo a gritar Makukula, Makukula. Mais tarde, gostava muito do Figo.

Como é que começa a jogar no ADC Adémia e com quantos anos?
Eu jogava futebol na escola, no desporto escolar. Houve um rapaz que veio ter comigo perguntar porque é que eu não jogava futebol de 11 (o desporto escolar era futebol de 5). Disse-lhe que no colégio não deviam deixar porque os treinos eram à noite. Ele foi falar com o treinador, o treinador veio falar comigo e resolvi lá ir experimentar, sem o colégio saber. Tinha uns 12 anos. Eles não tinham infantis, fui diretamente para os iniciados. Fiz uns testes e fiquei.

E no colégio?
Só disse lá no colégio na altura em que era preciso inscrever-me mesmo. Acabaram por deixar-me ir porque entretanto o treinador foi lá falar. Passei a treinar 2, 3 vezes por semana ao final do dia.

Qual foi a reação da família?
O meu pai ficou contente. Ele na Guiné também jogava futebol. O meu nome até vem daí, porque o meu pai jogava bem e havia um jogador no Brasil que se chamava Éder, então meteram a alcunha de Éder ao meu pai. O melhor amigo do meu pai chamava-se Zito, quando eu nasci ele juntou os dois nomes, por isso o meu nome é Ederzito. O meu pai depois teve um problema no joelho e deixou de jogar.

Quantos anos tinha quando o seu pai foi viver para Inglaterra, tendo sido preso pouco depois?
12, 13 anos. Depois comecei a passar mais tempo com a minha mãe, sobretudo nas férias. Mas não quero falar disso.

Éder (o 5º em cima a partir da esquerda) com uma das equipas do Adémia

Éder (o 5º em cima a partir da esquerda) com uma das equipas do Adémia

D.R.

Começa a jogar no Adémia logo como avançado?
Sim, e atrás do avançado. Na altura eu era muito mais pequenino, era mais rápido, tecnicamente era diferente porque tinha o centro de gravidade muito mais baixo, era um jogador completamente diferente. Por isso jogava a avançado e atrás do avançado.

É verdade que o colégio chegou a tirá-lo do futebol como forma de castigo?
Houve uma fase em que não estava tão bem na escola, não andava tão concentrado nos estudos e um dos professores do colégio, que era como meu encarregado de educação, decidiu que eu não ia mais ao futebol enquanto as minhas notas não melhorassem. Mas como não aparecia nos treinos, um dos treinadores começou a ir ao colégio pedir para eu voltar, até pediram para eu ir só aos jogos, não precisava de treinar, ia só aos jogos. O colégio numa fase inicial não deixou; depois, eu comecei a melhorar em alguns testes. Resultou o que eles fizeram (risos). Quando comecei a melhorar, deixavam-me fazer alguns jogos, e quando as minhas notas subiram mesmo, voltei aos treinos e aos jogos.

Que idade tinha?
Uns 13, 14 anos.

Essa altura coincide com a ida do seu pai para a prisão, em Inglaterra.
Sim. Mas não vou falar disso.

Conte lá a história do Sr. Manuel do talho que lhe dava costeletas por cada golo que marcava.
(risos). Como eu era muito magrinho e marcava muitos golos, o senhor Manuel do talho decidiu que ia oferecer-me uma costeleta por cada golo. Depois eu podia fazer o que quisesse com as costelas, podia levar para o colégio. Acho que era também uma forma de ajudar a instituição, não sei. Às tantas, em todos os jogos eu marcava uns 2, 3 golos e quando chegámos ao final da época, o senhor Manuel do talho deu uma série de costeletas e perguntou-me o que é que eu ia fazer com elas. E eu disse-lhe: “Vamos fazer 1 ou 2 almoços com a equipa, porque os meus colegas ajudaram-me a marcar os golos”. Depois disso, começou a dar-me 5 euros por cada golo, mas não durou muito (risos). Só deu duas vezes (risos).

Quando andava no Adémia ainda não ganhava dinheiro?
Não. Só quando fiz 17 ou 18 anos e decidi sair do Adémia, porque tinha a proposta de um clube, o Pampilhosa, que estava na II divisão B. Eles queriam que fosse para lá, iam pagar-me alguma coisa. Disse ao Adémia que não queria continuar mais lá, nessa altura eles decidiram que já podiam pagar-me alguma coisa, mas eu já não queria continuar. Queria ir para uma II divisão B, o Adémia ainda estava na distrital. Disseram que eu não podia sair, então fiquei um ano sem jogar. Se não me deixavam sair, eu também não jogava mais futebol lá. E estive um ano sem jogar.

Tinha algum empresário?
Não. Foram as pessoas do Pampilhosa que vieram ter comigo.

Quais foram as melhores amizades que fez no colégio e com quem ainda hoje fala?
Com o Sérgio Jesus, com o Yau que era a alcunha do Bruno Morais, o “Chouriço” que agora está preso, o Zé Carlos, o João Lima.

Alguma vez se envolveu em alguma coisa mais grave em que corresse o risco de ir parar à cadeia?
Sempre fui calmo, tentava não me meter em grandes aventuras, passava a maior parte do tempo a pensar no futebol e acho que foi o futebol que me afastou disso. Passava o tempo todo a jogar futebol ou a ver jogos de futebol. Na altura era fã do Manchester United e ia sempre para o café ver os jogos deles. Aos fins de semana, o senhor Zé já sabia o que eu ia pedir quando chegava ao café, que podia estar cheio. Pedia sempre para meter a televisão no canal que dava a Liga Inglesa, para ver os jogos do Manchester. Basicamente acho que foi o futebol que me afastou disso.

Perdeu alguns amigos ou colegas para essas vidas?
Tenho colegas que estão desorientados, não conseguiram seguir o seu rumo, precisam de alguma ajuda.

Vieram muitas vezes pedir-lhe ajuda uma vez que se tornou um jogador de sucesso?
(risos). Sim, como é normal, ainda hoje acontece, mas pronto.

Já ajudou e já se sentiu enganado?
Já ajudei pessoas e continuo a ajudar colegas e amigos. Enganado não, porque não tenho grandes expectativas em relação a isso. Quando ajudo, ajudo de coração e depois quando estou a dar sei mais ou menos se vou receber de volta ou não, portanto as minhas expectativas são um bocado controladas.

Éder com alguns alunos e funcionários do colégio onde cresceu, o "Lar Girassol" de Coimbra.

Éder com alguns alunos e funcionários do colégio onde cresceu, o "Lar Girassol" de Coimbra.

D.R.

Estava a contar que ficou um ano sem jogar no Adémia porque eles não o deixaram sair. O que fez nesse ano?
Pensei que não ia jogar mais futebol. Ouvia dizer que essa idade era uma idade importante da transição de júnior para sénior. Diziam que se não jogasse nesse ano, nunca mais conseguiria ser jogador de futebol. O que fiz foi andar a correr à noite na rua, na estrada. Corria e jogava futebol sempre que podia com amigos.

Pensou em desistir do futebol?
Sim.

O que ia fazer?
Nada (risos). Só pensei em desistir do futebol. Ainda estava a estudar e à procura de alternativas. Queria terminar a escola para depois saber o que ia fazer. Mas entretanto fui correndo para manter a forma e passado um tempo veio-me à cabeça que se calhar devia tentar outra vez e continuar com o meu sonho.

Foi outra vez ao Adémia ou foi procurar outro clube?
Depois veio um senhor, que também estava ligado ao Adémia, com a hipótese de eu ir à experiência para o Tourizense que estava na II B. Fui lá durante alguns dias e acabei por ficar.

Vai ganhar algum dinheiro?
Sim, uns 300, 400 euros

Recorda-se do que fez com esse dinheiro?
Dei algum à instituição e dei também à minha mãe.

Ainda estava a viver no colégio?
Vivia no Tourizense, mas na fase inicial ainda estava com um pé no colégio. Ainda lá tinha o meu quarto.

No Tourizense vivia onde?
Eles tinham lá dormitórios.

Éder (à esquerda) com alguns colegas no balneário da Académica

Éder (à esquerda) com alguns colegas no balneário da Académica

D.R.

A equipa do SC Braga, onde Éder (2º à direita em cima) esteve três épocas

A equipa do SC Braga, onde Éder (2º à direita em cima) esteve três épocas

D.R.

A meio da época é emprestado ao Oliveira do Hospital porquê?
Porque não estava a ser muito utilizado, também vinha de um ano sem jogar. Precisava de ganhar experiência.

Ficou chateado ou desiludido?
É claro que queria continuar no Tourizense. No início vi como um passo atrás, mas não tinha outra solução e tive de ir para Oliveira do Hospital, mas acabou por ser melhor para mim. Deu-me alguma experiência e no ano seguinte voltei para o Tourizense e fiz uma boa época.

Quando regressou ao Tourizense ainda lá estava o Drulovic como treinador?
Não, ele tinha saído na primeira época.

Do pouco tempo que teve com o Drulovic o que achou dele como treinador?
Ele mesmo enquanto treinador, dava um bom jogador. Às vezes jogava connosco e a qualidade estava toda lá. Foi uma experiência muito boa com um grande jogador. Gostei de trabalhar com ele, aprendi alguns métodos que não conhecia, ligados mais ao futebol profissional o que me ajudou muito.

Está a falar em concreto do quê?
Da intensidade que ele nos obrigava a colocar nos treinos e o facto de ser um treinador focado e exigente.

Depois vai para a Académica. Como é que isso surge? Já tinha empresário, foram ter consigo?
O Tourizense era um clube filial da Académica, tinha lá alguns jogadores emprestados e acabou por surgir a proposta. Fui para a equipa do Domingos Paciência.

Foi nesse momento que sentiu que estava a começar a vingar no futebol?
Quando assinei com a Académica, sim. Porque assinar contrato com uma equipa da 1.ª Liga era um sonho que tinha. Difícil de alcançar, nem toda a gente consegue. Foi uma alegria enorme.

Éder (ao centro) com o fisioterapeuta Francisco e o médico Vitor, do SC Braga

Éder (ao centro) com o fisioterapeuta Francisco e o médico Vitor, do SC Braga

D.R.

Éder (à direita) num treino do Swansea

Éder (à direita) num treino do Swansea

D.R.

Quando vai para a Académica fica a viver aonde e com quem?
No primeiro ano vivi com mais dois colegas de equipa, o Licá e o Fábio Santos, dividíamos apartamento. O Licá está no Belenenses e o Fábio Santos depois continuou emprestado ao Tourizense.

Como foi essa experiência de viver num apartamento com dois colegas de equipa, de uma forma mais independente?
Foi muito fixe, eles eram pessoas bastantes simples. Era o Fábio Santos que cozinhava, eu às vezes fazia um arrozinho, ou então comíamos fora.

Tinha quantos anos?
21, 22 anos.

Como correu a primeira época na Académica? Muito diferente o Domingos Paciência do Drulovic?
Os dois são da mesma escola, a escola do FCP, tinham alguns métodos em comum. Não joguei tanto como gostava, ia jogando algumas vezes, foi a minha época de estreia, mas ao Domingos correu-lhe muito bem; atingimos o 7.º lugar, acho que uma das melhores classificações da Académica.

Como foi o impacto de jogar numa I Liga, onde estão equipas mais fortes, com jogadores melhores? Custou-lhe a adaptar?
No início custou porque eu vinha de um mundo completamente diferente. Até ali tinha crescido num colégio, era muito mais reservado, não havia mediatismo e quando chegas à I Liga é como se abrisse um mundo completamente diferente, com uma exposição maior, é tudo muito diferente. Claro custou-me um bocado a perceber onde realmente estava.

Foi mais difícil adaptar-se ao futebol ou a essa exposição mediática?
Se calhar mais à exposição.

Assinou por 3 anos com a Académica e apanhou vários treinadores nesse período. André Villas-Boas, Jorge Costa, Ulisses Morais, Pedro Emanuel, entre outros. De todos qual o marcou mais?
Talvez o Villas-Boas.

O tinha de diferente?
Era capaz de ser dos treinadores mais jovens da I Liga e para muita gente era um desconhecido. Era um treinador que tinha muita ambição e a forma como ele trabalhava, os exercícios que fazíamos, era muito motivante. A maneira como ele nos mostrava o futebol...A mim motivou-me bastante e fez-me perceber em que nível é que nós estávamos.

Com o Jorge Costa, o“Bicho”, como foi?
Ele tenta transmitir isso aos jogadores dele, essa garra, mas o Jorge Costa não é só isso. É claro que essas coisas são todas importantes, mas o Jorge Costa sabe estar com os seus jogadores, sabe motivá-los, sabe conversar com eles. Por acaso a mim surpreendeu-me muito porque havia aquela imagem dele, de um jogador que intimidava, acho que até havia jogadores que tinham medo de falar com ele e quando o conheci; enquanto treinador, já era bastante diferente. Era outro Jorge Costa. Muito ambicioso, cheio de garra e essas coisas todas, mas que facilitava na forma como tratava os jogadores e na aproximação.

No último ano tem alguns problemas com a Académica, não é?
Sim, a última época até começa a correr muito bem só que surgem problemas em relação à minha renovação, porque começaram a surgir propostas de outros clubes e o meu processo de renovação com a Académica estava um bocado complicado. E fui afastado por razões disciplinares.

Explique lá melhor isso. Já tinha empresário?
Nessa altura já não tinha. Tive antes, quando assinei com a Académica. Era o Falcão, que foi meu empresário durante dois anos. Na Académica começo a ter muita gente a ligar-me com propostas e foi difícil de gerir. Tinha a pressão da Académica, tinha os outros clubes e acabei por fazer algumas asneiras.

Que tipo de asneiras?
Por exemplo estive num hotel a negociar com o West Ham, já tinha chegado a um acordo com eles, mas depois houve uma confusão de valores com a Académica, eu acabei por não estar de acordo e decidi sair da reunião e do hotel onde nós estávamos, no Porto. E meteram-me um processo disciplinar.

O que resultou desse processo disciplinar?
Não joguei mais na 2.ª metade da época. De janeiro a maio fiquei sem jogar.

Nesse período ia treinar para onde?
Na altura da reunião com o West Ham tinha havido um jogo onde levei uma pancada no joelho e tive de ser operado e fazer a recuperação. Não podia entrar nas instalações da Académica, então fui para Lisboa. Fui operado em Lisboa e fiz lá a recuperação. Corria sozinho, treinava com um PT e fazia fisioterapia.

E depois?
Depois vou para o SC Braga a custo zero.

Através de quem?
Do meu empresário Mohamed Afzal. Foi ele que veio ter comigo e faz a proposta do SC Braga.

Éder (à direita) com Rony Lopes e Xeca (à esquerda), colegas de equipa no Lille

Éder (à direita) com Rony Lopes e Xeca (à esquerda), colegas de equipa no Lille

D.R.

Apanhou o Peseiro como treinador.
Sim. Gostei muito do Peseiro. Estava a ter uma época espetacular, já se falava de grandes clubes fora de Portugal, mas em fevereiro lesiono-me. Tive a pior lesão da minha carreira.

Que foi?
O ligamento cruzado. Aí começou um calvário. Fui operado, estive seis meses sem jogar. Depois dessa operação tive mais 2. Da 1.ª à 3.ª passou um ano. Fiz a operação ao joelho, depois lesionei-me no pé, no metatarso, e quando já estava a voltar, lesiono-me no mesmo sítio no pé e tive de ser operado outra vez. Um longo calvário numa época que estava a ser fabulosa.

Foi-se muito abaixo?
Sim.

Isso aconteceu no ano em que o treinador já era o Jesualdo Ferreira?
No ano em que o Jesualdo vem eu acabo a recuperação do joelho, faço alguns treinos com ele e depois lesiono-me no pé. Enquanto o Jesualdo está lá, volto a lesionar-me no pé. Tive duas operações enquanto o Jesualdo lá estava.

O que é que achou do professor Jesualdo?
A forma como ele ensina faz muito sentido. Já me falavam bem dele, diziam que no FCP tinha feito de muitos melhores jogadores, e realmente a forma como ele nos ensina é mesmo como um professor. Movimentações, a maneira como deves ver o jogo, a forma como deves controlar a bola, essas coisas todas que são mesmo de um professor e que fazem sentido.

A sua última no SC Braga é com o Sérgio Conceição.
É.

Que tal?
(risos). No início não foi fácil porque o Sérgio Conceição é um treinador muito exigente e muitas vezes tem o coração na boca (risos). Temos personalidades completamente diferentes. Eu também não vinha de uma fase muito boa e ele teve de tomar outras decisões.

Quando diz que não estava bem, significa o quê? Que respondia-lhe?
Não, nada do género. Tinha vindo de recuperar das lesões, física e psicologicamente não estava muito bem. Não é fácil.

Chocaram muito?
Não foi bem choque. O Sérgio Conceição é um treinador muito exigente. Ele gosta de jogadores comprometidos e eu não estava numa boa fase, então o início a nossa relação não foi a ideal, nem muito próxima. Mas depois com o tempo apercebi-me que devia mudar algumas coisas, alterei essas coisas e desde aí até hoje mantenho uma relação espetacular com ele.

Quando diz que teve de alterar algumas coisas, refere-se em concreto a quê?
O meu comportamento, estar mais focado. Estava desmotivado, porque vinha de lesões e se calhar não estava habituado à exigência que ele pedia naquele momento.

A primeira vez que foi chamado à seleção foi no ano em que chegou a Braga. Vai ao Mundial do Brasil em 2014, mas jogou pouco. Em seu entender porquê?
Em primeiro lugar porque tive muitas lesões e só recuperei um bocado antes da partida para o mundial. E depois porque havia outras opções. Acabei por jogar quando o Hélder Postiga e o Hugo Almeida se lesionaram.

Foi a sua primeira grande competição. Que memórias mais marcantes ficaram?
Nem vale a pena falar dessa competição. Acho que não correu bem a ninguém.

Como é que vai parar a Inglaterra, ao Swansea City?
As coisas correram-me bem na parte final da última época em Braga, quando já estava com uma boa relação com o Sérgio Conceição. Ele estava a fazer um trabalho fantástico, eu estava inserido nesse trabalho, tudo a correr bem e recebo uma proposta do Swansea. Aceitei uma vez que o meu sonho era jogar na Premier League.

Quando foi para Inglaterra já tinha conhecido e trabalhava com a mental coach Susana Torres.
Eu não quero nem vou falar mais sobre isso.

Há uma parte da história que praticamente toda a gente conhece, foi pública...
...Sim, mas já se falou muito sobre isso e não quero falar mais. Já não trabalhamos juntos. Não vale a pena insistir.

O momento em que Éder marca o golo na final do Euro 2016, contra a França

O momento em que Éder marca o golo na final do Euro 2016, contra a França

Matthias Hangst

o momento de celebração do golo marcado por Éder (à direita)

o momento de celebração do golo marcado por Éder (à direita)

© Christian Hartmann / Reuters

Vamos em frente então. Foi sozinho para Inglaterra?
Fui, fiquei num apartamento em Swansea.

Como foi a adaptação aos ingleses, à cidade.
Um país diferente, clima diferente, eu já me desenrascava com o inglês, o problema era o sotaque porque em Gales é mais fechado e complicado. Mas eu ia focado em trabalhar. A intensidade que eles metem nos treinos, a cultura do ginásio, a paixão pelo futebol que eles têm, ensinou-me muito.

Da cultura inglesa do que mais gostou?
Passei a beber chá com leite. É uma das coisas de que gosto.

Entretanto foi emprestado ao Lille.
Sim, porque não estava a jogar muito no Swansea, depois acabei por ter uma lesão no tornozelo e quando recupero eles mudam de treinador e, em conversa com o treinador, achei que era melhor ser emprestado porque eu tinha hipótese de ir ao Europeu, queria jogar por isso pedi para ser emprestado ao Lille.

Antes de falarmos do Lille, os adeptos receberam-no bem em Inglaterra?
Sim. Lá havia uma coisa a que não estava habituado: antes dos jogos os jogadores quando saem do seu carro vão a pé do parque de estacionamento para o estádio e passam pelos adeptos. Tiram fotos com os adeptos e no final dos jogos a mesma coisa, ganhando ou perdendo. Achava diferente, gostava do facto dos adeptos serem respeitadores e foi um choque para mim, no bom sentido, quando perdíamos um jogo e via que eles estavam lá não para te insultar, mas para pedir para tirar fotos e autógrafos. Era estranho, eles pediam fotos e autógrafos em vez de mandar vir.

Gostou do futebol inglês?
Do futebol e dos treinos. A intensidade e competitividade são incríveis. E foi isso que permitiu chegar ao Lille e fazer seis meses muito bons. O Lille já me queria comprar antes do Europeu.

Que tal a adaptação a França, foi mais difícil do que a Inglaterra?
Foi mais fácil, porque tinha um português na equipa, o Ronny Lopes. Lille ficava a uma hora de Paris, uma hora e meia de Londres, uma hora de Bruxelas, era central. A língua também não foi difícil, aprendi rápido. Sabia para o que ia, ia muito focado, adaptei-me bem.

Cristiano Ronaldo e Éder vibrma com o golo que deu a vitória a Porrugal na final do Euor2016

Cristiano Ronaldo e Éder vibrma com o golo que deu a vitória a Porrugal na final do Euor2016

MIGUEL A. LOPES / Lusa / EPA

Vamos ao Euro 2016. Com que ideia ficou de Fernando Santos?
Era alguém que traçava os seus objectivos e ia à procura de os conquistar. Foi assim desde o primeiro momento que ele falou comigo e com os outros jogadores. Foi isso que nos transmitiu e até hoje é assim.

Disse em várias entrevistas que quando o Fernando Santos o chama para entrar no jogo da final, que sabia que ia marcar. Era um feeling que tinha?
Para já eu e os outros jogadores tínhamos um feeling que aquilo ia dar para nós. Ou seja, que íamos mesmo vencer o Euro, até pela forma como as coisas estavam a acontecer. E depois, também por tudo o que se passou, eu achei que poderia ser eu a decidir. A forma como as coisas aconteceram, depois de todas as críticas, de tudo o que se disse e não disse. Eu vinha de seis meses bons no Lille, os jogos de preparação da seleção também me tinham corrido bem, continuei a trabalhar bem, por isso se o treinador me chamasse acreditava que podia ser eu a decidir.

O Cristiano Ronaldo falou à equipa no intervalo?
Quem falou no intervalo foi o mister Fernando Santos. Pediu-nos para estarmos concentrados no jogo. Depois há o Nani que diz ao Ronaldo que íamos ganhar por ele. O mister deu as indicações e o nosso sentimento era que iríamos vencer aquilo também pelo Ronaldo. No prolongamento é que o Ronaldo foi falando com todos. Falou comigo, disse para continuar daquela forma. Também achou que ia ser eu a decidir. Disse-me algumas palavras. Deu-nos força, basicamente foi isso.

Éder com a mãe (ao centro) e uma das irmãs

Éder com a mãe (ao centro) e uma das irmãs

D.R.

A ideia da luva foi sua?
Foi.

E o gesto das mãos no peito em forma de asa, representando a fénix, também?
Isso veio do Anelka. Na altura em que jogava em França ele fazia esse sinal e eu aproveitei para usá-lo, visto tudo aquilo por que estava a passar e acabei por associá-lo um bocado à fénix. Acho que bateu certo.

A palavra "Believe" na luva também foi o Éder que a escreveu?
Não, nem vale a pena falar disso.

Lembra-se de qual foi a primeira coisa que pensou quando marcou o golo?
Primeiro acho que houve qualquer coisa que saiu do meu corpo, por segundos deixei de sentir o meu corpo. Foi inacreditável. Foi como se a minha alma saísse do meu corpo e estivesse a observar aquele momento, a forma como corri, meio a fugir dos meus companheiros mas ao mesmo tempo a ir ao encontro deles.

Houve alguém a quem interiormente dedicasse o golo?
Se calhar a mim.

Éder segura na Taça de Campeão Europeu

Éder segura na Taça de Campeão Europeu

MIGUEL A. LOPES

Naquela altura foi muito solicitado, deu muitas entrevistas, todos a gente queria naturalmente falar consigo, o “herói do Euro 2016”. Quando é que caiu em si e percebeu que tinha protagonizado um feito enorme?
Ainda demorou um bocado. Se calhar quando comecei a viajar e as pessoas abordavam-me muito no aeroporto ou em qualquer sítio onde ia. A partir daí tive de me reservar um bocadinho mais, porque cada vez que ia à rua as pessoas vinham ter comigo e falavam-me até do que estavam a fazer na altura em que marquei o golo, onde estavam a ver, como celebraram, etc. Acho que foi nessa altura que percebi o que tinha feito porque as pessoas continuavam a relembrar-me. Ainda hoje vêm ter comigo para dizer "obrigado" e falam do que estavam a fazer naquele momento do jogo.

Quando marca o golo aponta para cima, para o céu. Foi em jeito de agradecimento a Deus ou a alguém?
Nem era para o céu, era mais como a dizer: "Estou aqui". Pode dizer-se que era mais como se estivesse a falar para mim próprio.

Foi muito fustigado pelas críticas, o próprio Fernando Santos usou a expressão de patinho feio. Era isso que sentia, que era o patinho feio da seleção até aquele momento?
Não, não me sentia o patinho feio.

Considerava as criticas injustas?
Algumas, sim.

Magoavam mais as que via escritas nos jornais ou o que algumas pessoas lhe diziam na rua?
Por acaso não via jornais e na rua as pessoas também não me diziam grande coisa. Eu sabia que as havia e cheguei a ouvir impropérios no estádio e assobios.

O que ouviu que mais o magoou?
Sei lá. Ficava pior mais porque as coisas não me estavam a correr bem, não tanto pelo que as pessoas diziam. Era mais porque sabia que podia fazer muito melhor. Acho que foi isso que pesou mais em tudo o que aconteceu.

A luta interna de que falou publicamente. Culpava-se?
Sim. Quando as coisas não saem bem a única pessoa que pode resolver essas coisas és tu. Sou exigente comigo. Continuo a ser exigente, mas agora vivo as coisas de forma diferente, também com a alguma experiência que fui adquirindo, ainda por cima mais agora que fui pai.

Éder com a mulher, Sanna

Éder com a mulher, Sanna

D.R.

Depois do Euro 2016, regressa ao Lille e não é muito bem recebido pelos adeptos franceses. Teve alguma chatice?
Não. No estádio assobiavam-me, diziam um montão de coisas e chamavam-me tudo. Na rua não me insultavam, mas falavam-me sempre com azia (risos). Mas tinha alguns colegas de equipa que eram franceses, com ascendência africana, que me disseram que até estavam a torcer por Portugal.

É o Éder que pede para sair do Lille?
Mais ou menos. Na altura tive propostas e decidi sair. A situação não estava fácil nem no clube nem fora. Já estava um bocado desgastado, entretanto veio o treinador argentino Marcelo Bielsa. O clube comunicou ao treinador que tinha propostas para mim e que eu à partida ia sair, e acabou por ficar naquele compasso de espera, mas entretanto não saí porque o clube não chegou a ter as propostas que queria. E à última da hora acabam por deixar-me sair para o Lokomotiv.

Quando sabe que é para a Rússia qual foi a primeira reação?
Estava interessado, porque falei com um colega de equipa, Marko Basa, que já tinha jogado nessa equipa e tinha-me falado bem do clube. Decidi vir.

Já foi casado para a Rússia, com a modelo belga Santa Ladera, não foi?
Sim já fui casado mas ela não se chama Ladera, nem é ou foi modelo. Ladera foi o nome que ela colocou no Facebook porque como trabalhava - ela é especialista em lei criminal tem um master em Criminal Law - para evitar que a vida profissional e a vida pessoal estivessem conectadas por rede social, decidiu meter o nome Ladera, mas não é nome dela. É belga mas nunca foi modelo.

Éder (em baixo atrás de duas crianças) festeja a conquista do campeonato pelo Lokomotiv

Éder (em baixo atrás de duas crianças) festeja a conquista do campeonato pelo Lokomotiv

D.R.

O dia do casamento de Éder

O dia do casamento de Éder

D.R.

Conheceu-a como?
Em França, numa festa de aniversário de um amigo.

Foi amor à primeira vista?
(risos). Não, foi vontade de conhecer à primeira vista. Desde que nos conhecemos até começarmos a namorar ainda passaram alguns meses. Eu ia visitá-la a Bruxelas onde ela vivia, ficava uma hora de distância de Lille. Começámos a namorar em 2016, antes do Euro, mas só assumimos oficialmente para toda a gente no final do ano de 2016. Casámos em 2017, uns meses antes de ir para a Rússia.

A sua mulher adaptou-se bem à Rússia?
Custou-lhe um bocado porque ela não estava habituada ao facto de não trabalhar e essa foi a parte que lhe custou mais. De resto estamos juntos e felizes. Gostamos muito de Moscovo. E, pronto, já chega de falar dela.

Na época em que chega ao Lokomotiv é o Éder quem marca o golo que garantiu o título ao clube. Começa a pensar que é sina sua?
(risos). Se aconteceu é porque faz parte do destino.

Mas quando marcou esse golo o que lhe passou pela cabeça?
Comecei a rir-me e a pensar ainda bem que me acontece a mim (risos). Na equipa, também começaram a brincar a dizer que eu era o homem dos golos importantes.

Entretanto foi pai em agosto passado. Como se chama o seu filho e que idade tem?
Chama-se Kaï, com trema no i, e tem seis meses.

Porquê Kaï?
Estávamos à procura de um nome na internet, queríamos um nome diferente e original. Encontrámos este nome e gostámos do significado. Quer dizer alguém confiante, alegre, gentil e guerreiro.

Assistiu ao parto?
Assisti a tudo, só não o tirei porque não sou médico e não me deixaram.

Nasceu onde?
Em Moscovo.

Aí chorou, ou não?
Não chorei, mas foi uma emoção enorme.

Fala com o seu filho em português, francês...
Sou falo português com ele e a minha mulher fala em flamengo, porque ela é da parte flamenga da bélgica. E eu com ela falamos em inglês, porque eu expresso-me melhor em inglês do que em francês.

Gostava de ter mais filhos?
Sim, pelo menos mais um.

Éder com a mulher já grávida

Éder com a mulher já grávida

D.R.

Quantos mais anos de contrato tem com o Lokomotiv?
Este ano e o próximo.

Onde gostava de jogar depois?
Para já gosto de estar aqui. Terei de ver o que aparece.

Voltar a Portugal está nos seus planos?
Não. Se puder continuar pelo estrangeiro vou continuar, até por questões financeiras, é mais vantajoso.

Depois do futebol o que se vê a fazer?
Para já, não sei. Para mim o mais importante vai ser estar com a família, estar presente e acompanhar o crescimento do meu filho, poder dar toda a assistência à minha mulher.

Vê-se ligado ao futebol?
Se aparecer algum projeto interessante em que me reveja.

Como treinador, como empresário?
Como treinador não, porque aí tens menos tempo para a família. Ainda não sei mesmo o que quero fazer a seguir, se quero ficar ligado ao futebol ou não.

Éder com a mulher e o filho recem nascido

Éder com a mulher e o filho recem nascido

D.R.

Depois de pendurar as botas gostava de ficar a viver onde?
Em princípio na Bélgica, em Gent, gosto da cidade. Acho que gostava de viver entre Gent e Portugal, Lisboa ou norte, não sei, porque gosto muito de Portugal. Quando estou fora cada vez que vou a Portugal é fantástico e acho que aproveito melhor. Quero viver entre os dois países porque não dá para viver sem Portugal.

Alguma vez voltou à Guiné Bissau?
Não. Mas está nos meus planos. Ainda não sei quando mas já estou a pensar nisso, até porque as minhas irmãs foram lá agora.

No total tem quantos irmãos?
Quatro, três irmãs e um irmão. Uma do meu pai e os outros três da minha mãe. Duas tem 25 anos, outra tem 24 e o rapaz tem 15 anos. Ele joga futebol em Inglaterra, onde está a viver.

O seu pai continua preso?
Sim.

Costuma visitá-lo?
De vez em quando.

O seu pai alguma vez lhe pediu desculpa?
Não, ele não tem de me pedir desculpa.

Nunca o questionou por tê-lo metido num colégio interno?
Vagamente. Não foi assunto que eu debatesse. Ele também não está numa das melhores situações. Talvez um dia conversaremos melhor, não sei. Mas eu não quero falar mais sobre a minha família. Já chega. Algumas coisas não foram ditas da melhor forma nem na melhor altura. Para mim é estranho falar, não costumo partilhar muito a minha vida nem com os meus irmãos e amigos.

Mas houve uma altura em que se fartou de dar entrevistas e de falar. Foi mal aconselhado?
Se fosse hoje não teria dado a maior parte das entrevistas.

Éder abraçado ao Presidente da Republica, Marcelo Rebelo de Sousa, nos fetejos da conquista do Euro 2016

Éder abraçado ao Presidente da Republica, Marcelo Rebelo de Sousa, nos fetejos da conquista do Euro 2016

D.R.

Onde ganhou mais dinheiro?
Na Rússia.

Onde tem investido?
Imobiliário.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Normalmente não sou muito de extravagâncias. Se calhar foi ir de férias para as Maldivas.

É apaixonado por carros?
Sou, mas não os compro. Tive um Q5 durante muito tempo e agora tenho uma carrinha Vito, para transporte da família. Adoro carros, mas não gasto dinheiro em carros.

Teve ou tem alguma alcunha?
Quando estava na Académica os meus colegas chamavam-me Adebayor porque eu era alto e tinha tranças como ele. Alguns adeptos da Academia chamavam-me Ederbayor (risos).

Há alguma coisa de que goste muito de fazer para além do futebol? Algum hóbi?
Estar com a família, com o meu puto, com a minha mulher e viajar. Comecei a viajar há pouco tempo, quando conheci a minha mulher.

Houve algum país que o tenha surpreendido mais?
Gostei muito da Indonésia. E gosto muito de Roma.

Éder com o filho Kaï

Éder com o filho Kaï

D.R.

Tem tatuagens?
Tenho uma, mas não quero falar dela.

Gosta de jogar Playstation?
Não. Gosto de ver séries com a minha mulher.

Quais as preferidas?
Gosto muito de "How to get away with murder", gostei do "Homeland", " Designated Survivor" e mais algumas, vimos tantas... (risos).

Para além do futebol há mais algum desporto que aprecie e que siga?
Gosto de basquetebol e gosto muito de jogar badminton. Toda a gente se ri, até a minha mulher, mas adoro badminton. Já não jogo há muito tempo, era mais quando era miúdo, mas ainda hoje gosto. Vou ver se convenço a minha mulher a jogar comigo (risos).

Tem cães ou algum animal de estimação?
Não. Gosto, mas não tenho, porque são como filhos também e não tenho tempo. Eu estou sempre de um lado para o outro, neste últimos tempos já mudei de casa tantas vezes.

Quando muda de casa ou quando viaja o que é que tem de levar sempre na sua mala, além da roupa?
O meu iPad que é onde posso ver televisão portuguesa e onde vejo séries também. De resto nada de especial. Eu não sou muito ligado a coisas materiais, por isso não guardo muitas coisas.

Mas ficou triste quando lhe assaltaram a casa em França e roubaram a medalha do Europeu.
Sim, fiquei porque era uma recordação importante. Mas como digo não sou muito dado a coisas materiais.

Depois do Europeu demorou muito até ser chamado novamente à seleção. Ressentiu-se?
Não. As coisas não estavam a correr bem. O seleccionador tem as suas opções.

Espera fazer parte da próxima convocatória?
O objetivo é trabalhar para fazer parte. Se sou convocado ou não isso é o seleccionador que decide.

Sente que tudo o que se passou à volta do Europeu ajudou-o muito a amadurecer?
Sim. Aprendi a desvalorizar certas coisas, a perceber o que é realmente importante e quem são as pessoas realmente importantes.

Os seus amigos mais chegados são do futebol?
É uma mistura.

Quem é o seu maior amigo do futebol?
Não é jogador. É o fisioterapeuta do SC Braga, o Francisco Miranda, que é meu padrinho de casamento.

Ter sido pai é o seu maior sonho?
É, sem dúvida. O meu filho às vezes acorda às seis da manhã e quer ir brincar e claro, o papá tem de ir.

Considera o Europeu de 2016 a sua maior conquista?
A maior conquista da minha vida são o meu filho e a minha mulher.

Tiago Miranda