Tribuna Expresso

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A casa às costas

“O Carlos Alberto tocava pandeiretas no autocarro e o Bicho atirava-as janela fora. Numa viagem de avião, tivemos de partir aquilo”

Esteve 15 anos no Boavista e nove no FCP num percurso de jogador que ficou marcado pela conquista da Taça UEFA e da Liga dos Campeões. Foi também no Porto que começou a carreira de treinador, já lá vão 10 anos. Atualmente na Arábia Saudita, cuja cultura tem dificuldade em aceitar, Pedro Emanuel, de 44 anos, conta-nos algumas histórias de balneário, reafirma o seu gosto pelo vinho, revela que adora jogar futevólei e como a pandeireta do "feijão" acabou partida

Alexandra Simões de Abreu

NurPhoto

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Nasceu em Angola, em 1975, os seus pais conheceram-se lá?
Sim. O meu pai, Manuel, foi para Angola cumprir o serviço militar, acabou por gostar e abriu lá um negócio. Trabalhava na Petrogal a servir refeições e tinha uma cervejaria chamada São Jorge, em Luanda. A minha mãe, Maria da Conceição, estava lá porque os meus avós tinham emigrado para Angola. O meu avô fazia serviço para o Palácio. Conheceram-se lá. O meu pai é de Vale de Cambra e a minha mãe de Vila Real. Nada melhor do que Luanda para se conhecerem (risos). Casaram e eu sou o mais novo de três irmãos; tenho duas irmãs mais velhas, a Sandra tem mais seis anos do que eu e a Paula tem três.

Quando é que vem para Portugal com os seus pais?
Em 1978. Dada a insegurança, os meus pais e os meus avós regressaram, toda a família regressou a Portugal.

Vem com três anos, acredito que não se lembre de nada ou tem alguma memória?
Tenho uma ou outra imagem. Tínhamos um cão, um pastor alemão que se chamava Nero. Lembro-me dele, lembro-me um pouco da casa. Lembro-me um bocadinho da praia, da zona da Baía onde íamos. Lembro-me quando vejo fotografias, mas recordações efetivas não tenho.

Há algum cheiro ou sabor que o transporte imediatamente para Angola?
Há, porque já lá regressei várias vezes entretanto. Aquele cheiro que lá se chama de cacimba, na altura das chuvas, é um cheiro muito característico. Foi um dos cheiros que me marcou e é essa a única recordação que efetivamente tenho de Angola. Já tive a oportunidade de lá voltar até porque tenho a dupla nacionalidade, tenho passaporte angolano. Em determinado momento estive para representar a seleção de Angola, no Mundial de 2006, só não foi possível porque a FIFA não autorizou. Nessa altura era eu e o Chainho. Estivemos num processo de dupla nacionalidade, só que ambos já tínhamos jogado pela seleção nacional nas camadas jovens e tínhamos um momento em que devíamos ter escolhido outra seleção. Nessa altura era assim que funcionava, mas acabámos por deixar passar esse tempo e a FIFA não nos autorizou a jogar por Angola.

Teve pena?
Tive porque é o meu país de nascimento, apesar de Portugal ser o meu país de crescimento e identifico-me com tudo aquilo que é ser português. Contudo acho que tive a felicidade de poder ter duas nacionalidades que gosto e tive pena essencialmente por isso. Queria retribuir um pouco daquilo que é a minha essência de quem me viu nascer.

Quando regressou a primeira vez a Angola foi um choque muito grande?
Foi. Voltei em 2004, 2005 e de facto foi um choque. Foi na altura em que se estava no início da recuperação, essencialmente de Luanda, que é o grande centro de Angola. Estava-se no início do processo de reabilitação da cidade. E foi um pouco chocante para mim. Na última vez que lá voltei, em 2011, já estava completamente diferente.

Foi visitar a casa onde viveu?
Fui procurar essas zonas, sim. Mas há muitas zonas, por exemplo onde vivia a minha mãe... essa parte estava toda em transformação; a zona onde viviam uns tios meus também já não existia, estava destruída. Nessa altura ainda havia muito prédio destruído, muito prédio abandonado, fruto da guerra civil durante tantos anos.

Quando vieram para Portugal onde é que se instalaram?
Em Rio Tinto.

Porquê?
Porque o meu pai sempre trabalhou na indústria da pastelaria, da panificação e acho que queria estar no centro, no Porto. O meu pai acabou por abrir uma fábrica de produção de bolos, pastelaria, pastelaria do dia, e de facto o Porto era o mercado sensível para aquilo que ele queria fazer. Ele sempre esteve ligado a este ramo da restauração, panificação, pastelaria.

A sua mãe o que fazia profissionalmente?
A minha era e continuou a ser funcionária pública. Quando veio para cá foi trabalhar para a escola preparatória de Gondomar. Trabalhava nos serviços administrativos da escola.

Qual é a sua primeira memória da bola?
Tive a felicidade de no sítio onde ficamos a viver haver um parque municipal a 50, 100 metros da minha casa, que tinha um ringue onde jogávamos futebol de rua. Eu era o mais novinho deles, comecei muito cedo. Eles devem ter percebido que eu tinha algum jeito e às vezes faltava gente e lá me metiam a jogar. Comecei com 6, 7, 8 anos a jogar com os mais velhitos. Foi aí que comecei a ter também os primeiros castigos dos meus pais por chegar mais tarde a casa por ter ficado a jogar até tarde com eles.

Pedro Emanuel com os pais e as irmãs, em Angola

Pedro Emanuel com os pais e as irmãs, em Angola

D.R.

Praticava mais algum desporto?
Inicialmente, com essa idade, 6 anos, diziam que eu era hiperativo e a minha mãe pôs-me na natação. Só que não era de facto o desporto de eleição para mim, fui meia dúzia de vezes e acabei por desistir. Entretanto, o meu pai tinha um grande amigo da aldeia dele que era o tesoureiro do Boavista. Começo a jogar no Boavista, mas inicialmente fui treinar ao FC Porto. A minha irmã mais velha levou-me aos treinos de captação que havia na Constituição.

Com que idade?
Uns 10 anos.

Foi o Pedro que pediu para ela ir consigo?
Sim. As minhas irmãs eram muito protetoras e como viam que era o desporto de que eu gostava, a mais velha levou-me. Mas eram muitos miúdos e tínhamos de ir em vários dias seguidos e ela não teve hipóteses de levar-me mais. Fui no primeiro dia, mandaram-me lá ir no segundo dia, só que como sozinho não podia fazê-lo… .

Os seus pais não sabiam?
Não. Depois, quando vou ao Boavista, também num período de captações, isso já foi “patrocinado” pelo meu pai, no sentido em que foi o amigo dele, o José Fernandes, que promove a minha ida para o Boavista, com 11 anos, nos infantis. Foi aí que iniciei o meu percurso nas camadas jovens no Boavista até chegar a sénior.

Antes disso, qual foi a reação da sua mãe?
A minha mãe inicialmente não concordou muito. Até porque, se hoje em dia nós vemos os pais quase a obrigar os filhos a serem jogadores de futebol e todos querem que o Cristiano Ronaldo esteja em sua casa (risos), naquele tempo, e estamos a falar de há 30 e tal anos, a profissão de futebolista não era muito bem vista na nossa sociedade. Hoje em dia vejo com um olhar de pai aquilo que foi a perspectiva da minha mãe e concordo um pouco com ela. O meu pai, que sempre teve uma paixão pelo futebol, achou um piadão e sempre foi muito recetivo a tudo aquilo que se passava à volta do futebol. A minha mãe apoiou-me, mas sempre de pé atrás, porque nunca viu naquilo a possibilidade ser uma profissão. Com a minha mãe o acordo que sempre tive foi este: nunca descurar os estudos. Tanto assim foi que, depois, levei essa promessa comigo até à faculdade.

Pedro Emanuel na sua primeira comunhão, com os pais

Pedro Emanuel na sua primeira comunhão, com os pais

D.R.

Quando era pequenino torcia por que clube?
O meu pai, se há coisa que lhe admiro é a paixão que sempre teve pelo desporto, era muito eclético. Tanto podíamos ir ver o jogo de juvenis Salgueiros-FCP, como podíamos ir ver um Boavista-V.Guimarães em seniores. Tanto podíamos ir ver hóquei em patins, como andebol. O meu pai tirava normalmente o sábado como o dia desportivo. Começamos de manhã e até à noite íamos ver tudo aquilo que houvesse perto para ver. O que é que há hoje? Hoje jogam os juvenis do FCP, então vamos ver… .

Mas ele não torcia por nenhum clube?
Foi sempre do FCP, era sócio. Lembro-me de ir muitas vezes às Antas ver os jogos, mas sempre teve aquela costela do Boavista pelo amigo, que também o convidava para ir ver os jogos. Lembro-me de ver jogos das camadas jovens do Boavista.

O Pedro era do FCP também?
Tinha uma queda para o FCP, por aquilo que foi a influência do meu pai e depois acabei por passar a gostar do Boavista pela envolvência que tive, principalmente numa fase muito importante do meu crescimento e por tudo aquilo que partilhei.

Quem eram os seus ídolos?
Nessa altura tínhamos o Fernando Gomes no FCP, era um jogador que marcava a diferença. E o Chalana, no Benfica. Internacionalmente, gostava muito do Franco Baresi. Eu comecei a jogar no meio campo, nem era na defesa, mas entretanto houve um treinador que me puxou para jogar a defesa central e acabei por ficar nessa posição. Com aquela idade não temos uma perceção muito grande, gostamos mais daqueles jogadores que são mais apelativos e que toda a gente comenta.

Pedro Emanuel nos infantis do Boavista

Pedro Emanuel nos infantis do Boavista

D.R.

Da formação no Boavista há algum treinador que o tenha marcado mais?
Tenho muitos. Começo nos infantis com o Craveiro, que mais tarde encontro no scouting do FCP; o Neca Matos nos iniciados e juvenis e acabo também por cruzar-me com ele no scouting do FCP. Nessa fase, o Boavista teve muito sucesso nas camadas jovens e o FCP foi buscar e recrutar muitas das pessoas que eram responsáveis por toda essa qualidade no Boavista.

Amizades que tenham ficado para a vida dessa fase de formação?
Tantas, muitas mesmo. Muitos daqueles com os quais me cruzei nas camadas jovens e com quem ainda falo com alguma frequência são o Jorge Silva, o Nuno Gomes, o Litos, o Mário Silva, o Petit, o Martelinho, o Rui Lima... Mas há mais. E sei que se hoje em dia ligar para cada um deles e disser que, quando regressar a Portugal, temos de nos juntar, como fazemos de vez em quando - juntamo-nos e seremos seguramente 20 ou 25. Isso é um orgulho para mim porque para além de termos sido bons colegas, continuamos bons amigos e amigos que estão aqui para tudo o que possa acontecer.

Quando é que assina o primeiro contrato profissional?
Nós tínhamos subsídios de transporte. Depois, comecei a ser chamado às selecções jovens e faço o meu primeiro contrato com 16 anos e como era menor tinha de ter autorização dos meus pais. Isso foi caricato porque a minha mãe estava renitente; as minhas irmãs concordavam um pouco com a minha mãe, mas ao mesmo tempo sabiam da minha paixão pelo futebol estavam ali um pouco no meio; e o meu pai, claro, todo contente da vida porque ia ao encontro do que ele gostava e sonhava que pudesse acontecer. Na reunião familiar lá chegámos a um consenso e no meu primeiro ano de júnior assinei contrato profissional. Como é lógico, foi um orgulho imenso para mim, um miúdo com 16, 17 anos ter essa possibilidade.

Recorda-se do valor do seu primeiro ordenado?
Só para termos uma noção, o meu primeiro ordenado como júnior era igual ao que a minha mãe ganhava na sua profissão de 20 anos de funcionária pública. Eram 50 contos (250€).

Lembra-se do que fez com esse dinheiro?
Eu não tinha bem a noção do dinheiro, a minha mãe cuidava disso, eu recebia o cheque que entregava à minha mãe, depositava-se e a minha mãe. Imaginemos, se gostasse muito de umas botas ou de umas calças, ela dava-me o dinheiro para comprar. Se entretanto eu dissesse que ia levar o dinheiro para gastar em algo que ela não achasse necessário, ficava o dinheiro na conta. Tanto assim é que, no primeiro ano de sénior, quando fui emprestado ao Marco, consegui comprar o meu primeiro carro, um Ford Fiesta, com esse dinheirinho que fui amealhando ao longo dos 2 anos em que estive como júnior e sénior.

Pedro Emanuel (à esquerda) num estágio da seleção de sub-15

Pedro Emanuel (à esquerda) num estágio da seleção de sub-15

D.R.

Da escola, gostava ou nem por isso?
Eu gostava de aprender, não gostava muito era de estudar. Gostava e estava com atenção nas aulas, agora se me dissessem que ia estar quatro horas fechado em casa para estudar, isso já me complicava um bocadinho o sistema. Fui tendo notas médias, nunca fui um aluno de exceção.

Mas entrou na faculdade.
Sim, mas o entrar na faculdade foi reflexo do estatuto da alta competição que atingi por ser internacional.

Tinha quantos anos quando foi chamado pela primeira vez a uma seleção?
Fui chamado para a seleção dos sub-15, depois sub-17, sub-18, sub-21 e isso permitiu-me ter o estatuto. Quando fui internacional de sub 21, tinha 19 anos e já tinha concluído o 12º ano, nunca reprovei, fiz só melhoria de notas porque na altura não sabia que ia ter acesso a esse estatuto da alta competição. Consegui ter média para entrar naquilo que pretendia.

Entrou em que curso?
Inicialmente entrei em economia, mas depois mudei para contabilidade e administração. Entrei no ISCAP estive lá 3 anos. Mas na passagem do segundo para o terceiro ano tive de fazer opções porque já estava na equipa sénior do Boavista, já era um pouco mais exigente.

Antes de ter ido para a equipa sénior do Boavista, passou pelo Marco, pela Ovarense e pelo Penafiel.
Precisamente, mas continuei. Nessa altura já ganhava bem. Para termos uma noção, nessa época o ordenado mínimo eram 25 contos (125€) e 3 anos antes eu já ganhava 250€. Ganhava bastante acima da média. Mas tinha esta promessa com a minha mãe e era algo que também comecei a mentalizar-me que queria fazer. Os meus pais ensinaram-me que já que vais fazer alguma coisa, fazer bem ou fazer mal o trabalho é o mesmo, por isso mesmo dedica-te e tenta fazer o melhor possível. Foi o que fui tentado fazer e quer no Marco, na Ovarense ou no Penafiel, tive recetividade por parte dos presidentes e das direções, para poder faltar a um ou outro treino e fazer os exames. Foi muito importante porque era uma responsabilidade para mim, perante essas pessoas que depois me perguntavam, “Então como é que correu o exame? Tiveste boa nota?” Uma pessoa fica mal se anda a pedir dias e depois chega lá e “Não pá, tive negativa,” não gostava que isso acontecesse. Por isso fui levando, fui tentando conciliar, contudo nunca foi fácil para mim.

Chegou uma altura em que já não conseguia conciliar?
Chegou um momento em que fui chamado ao conselho directivo do ISCAP, neste 3º ano. Em vez de inscrever-me nas disciplinas todas, como já sabia que ia ter mais dificuldade e nós tínhamos de cumprir um terço daquilo que era o aproveitamento escolar, eu inscrevi-me em 3 cadeiras e se conseguisse fazer uma já era bom para mim. Nessa altura sentei-me com os responsáveis que me disseram, “isto é uma universidade pública, queremos ajudar-te, contudo a tua assiduidade tem sido pouca, os professores sentem que a tua dedicação não é muito grande, os que estão aqui realmente a apoiar-te são os teus colegas que te passam os resumos das aulas, mas tens de começar a pensar no que pretendes fazer. Podes congelar a tua matrícula e ativá-la quando quiseres. Agora também tens de perceber que isto é uma universidade pública e provavelmente estás a tirar oportunidade a alguém de fazer disto vida. Tu não fazes disto vida, já ganhas um bom ordenado...”. Isto levou-me a refletir um pouco. Estar a tirar a oportunidade a alguém que podia estar a ter algo que útil para a sua vida levou-me a congelar a matrícula. Foi muito nesse sentido e porque não estava de facto a cumprir com aquilo a que me tinha proposto.

A matrícula ficou congelada até hoje?
Infelizmente. Com promessas que ia reativar. Já tive mais vontade, no momento em que deixei de jogar, há 10 anos, por acaso surgiu logo algo que adorava fazer e permitiu tornar-me naquilo que sou hoje. Mas uma das minhas ideias era reativar e voltar a estudar.

Pedro Emanuel já como senior do Boavista

Pedro Emanuel já como senior do Boavista

Matthew Ashton - EMPICS

Como foi a passagem de júnior no Boavista para uma 2ª B no Marco? Foi muito difícil?
Dos jogadores que estiveram emprestados e regressaram, muitos deles afirmaram-se na equipa. A política era sermos emprestados a clubes “satélites”, e o Marco era um clube satélite. Não fui só eu - fomos seis jogadores na altura emprestados para o Marco pelo Boavista. Para a Ovarense fomos 4, se não me engano, e para o Penafiel três ou quatro. A ideia era estarmos juntos, sermos acompanhados por alguém do Boavista e quando o nosso estado de maturação estivesse no ponto - no meu caso demorou três anos (eram para ser 2) - regressávamos à casa-mãe para nos afirmarmos na equipa principal.

Porque é que demorou três anos?
Teve a ver com questões técnicas. No meu ano, da minha “fornada” de juniores, também saiu o Litos, que era um ano mais velho, que tinha estado emprestado a equipas de melhor nomeada e se afirmou logo como titular. Tínhamos o Rui Bento, que tinha vindo do Benfica, um jogador muito jovem e que também se tinha afirmado como titular no Boavista. Portanto, as oportunidades de eu poder jogar eram menores e por isso era preferível estar em competição numa equipa onde jogasse continuamente.

Como acaba por ir parar ao plantel do Boavista na época 1996/97?
Todos os anos éramos chamados ao Boavista. Eles faziam a avaliação daquilo que queriam para o plantel. Tomaram a decisão, de uma política que eu acho que foi extraordinária e que nos levou ao título nacional, que foi esta: todos os anos tinham que ter jogadores da formação para se fixarem no plantel. Isso começou no ano anterior. O Nuno Gomes queima etapas porque efectivamente afirmou-se muito cedo, de júnior passa logo para sénior, nem foi emprestado, mas todos os jogadores como eu, como o Martelinho, que estivemos emprestados aos mesmos clubes, todos esses jogadores regressaram e fixaram-se no plantel. Se jogavam mais ou menos, isso depois já era uma decisão do treinador.

Filipovic, não é verdade?
Sim, um treinador que iria beneficiar-me porque jogávamos com três centrais. Logo à partida éramos 5, eu iria ser a quinta opção como é natural porque era o mais jovem deles, com menos experiência em termos de 1ª Liga. Contudo, no início da época o Litos, que era titular e que tinha ido à seleção, lesionou-se. Tínhamos outro central que tinha sido contratado ao Leça - o Isaías que infelizmente já faleceu - também se lesionou e sobraram três centrais - é quando eu me estreio na 1ª divisão. O primeiro jogo foi frente ao Belenenses - fomos a Belém, ganhámos, e eu faço um golo, o primeiro do campeonato. Isso foi também muito importante para o que foi a minha afirmação na primeira divisão.

Estava muito nervoso?
Estava ansioso porque era a primeira experiência num clube com a dimensão do Boavista que lutava sempre pelos lugares da Taça UEFA. Era um clube que já tinha um estatuto diferente no futebol português. Mas a equipa tinha muita qualidade, conseguiu conjugar muitos jogadores com qualidade individual e isso ajudou-nos, tanto é que ganhámos a Taça de Portugal nessa época.

Pedro Emanuel exibe a camisola do Boavista com a faixa de campeão nacional 2000/01

Pedro Emanuel exibe a camisola do Boavista com a faixa de campeão nacional 2000/01

D.R.

Estreia-se com 21 anos. Nessa altura ainda estava a viver em casa dos seus pais?
Essa foi uma altura em que eu queria muito a minha independência. Comprei um apartamento a um amigo meu, morava a 800 metros dos meus pais, fazia toda a minha vida, o meu dia-a-dia, desde as refeições ao o convívio com os meus avós, os meus pais, e a única coisa que fazia era ir dormir a minha casa, para dizer que era autónomo.

Namoros já havia?
Sim, já tinha namorada. Essa é uma altura mais libertina da minha vivência; à posteriori é que conheci a Susana, a minha mulher.

Saía muito à noite? Alguma vez foi castigado?
Não, nesse aspecto sempre me comprometi muito com aquilo que fazia. É lógico que gostava, não vou dizer o contrário. Quando tínhamos folga era para nos divertirmos. Ainda hoje em dia digo isso aos meus jogadores. A única altura em que não tinha qualquer tipo de entraves era nas férias. Ai sim ia e desfrutava. Gostava muito de viajar, de conhecer sítios novos. Viajei bastante e continuo a fazê-lo com a família. Muito daquilo que foram as decisões de vir para o estrangeiro, apesar de ter feito a minha carreira toda de futebolista em Portugal, tem a ver com isso.

Foi difícil a adaptação a algum dos treinadores que teve Boavista?
Não. O Filipovic era um estrangeiro que tinha jogado em Portugal e era extremamente reconhecido pelo seu valor, era um senhor. Se não fosse ele muito provavelmente não teria atingido o nível que atingi na minha carreira. O João Alves não fica muito tempo; ele já tinha sido jogador e treinador no Boavista, veio com um estatuto que na altura não se confirmou e acabou por não estar lá muito tempo. Depois vem o Mário Reis que criou uma empatia grande com os jogadores. Pega na equipa num momento muito difícil, mas soube trabalhar bem a equipa na parte mental, na parte humana, soube reunir as tropas e isso levou à conquista da Taça.

Pedro Emanuel atrás de Jaime Pacheco, quando foram campeões

Pedro Emanuel atrás de Jaime Pacheco, quando foram campeões

D.R.

Na época seguinte começa o reinado do Jaime Pacheco. Que tal?
Dispensa qualquer tipo de apresentação. Muito dedicado ao trabalho e àquilo que é a capacidade de superação. Acho que as equipas são a imagem dos seus treinadores e nós conseguimos copiar fielmente aquilo que é a maneira de estar e de ser do nosso treinador. Tanto é que ele consegue manter-se ali os anos que se manteve. Sempre se reinventou e nunca deixou esmorecer toda aquela ambição que tinha dentro dele e que transmitiu diariamente aos jogadores. Foi muito importante naquilo que foi o percurso do Boavista, ninguém lhe pode retirar o mérito. Foi ele que nos deu outro estatuto e grandes transferências para o Boavista. Muitos dos jogadores que passaram da formação para a equipa principal, depois foram vendidos por números astronómicos para o que era a realidade do Boavista.

Em 2000/2001 ganham o campeonato. Quando sentiram que o campeonato era vosso?
Acho que todos nós pensávamos individualmente que era possível. Sempre soubemos que iria ser muito difícil, mas que ia haver um ponto- chave. E esse ponto chave foi quando saltámos para a frente. Olhámos e estávamos com uma vantagem de 4 pontos relativamente a quem vinha atrás e dissemos: agora depende de nós.

A direção prometeu-vos alguma coisa especial para vos dar ânimo?
Não precisava disso porque o Boavista nesta altura era um clube muito estável, que estimulava bastante a nível de prémios. Posso dizer que estive de 1996/97 até 2001/2002 no Boavista e nunca tive salários em atraso, nem um mês. Os prémios estavam estipulados e no final da semana eram recebidos; até por isso era um clube onde toda a gente queria jogar. Tinha muitos colegas de outros clubes que diziam: o meu sonho é jogar no Boavista porque sabemos que é cumpridor. Nós tínhamos um grupo muito unido, muito fechado. Grande parte do sucesso das equipas passa por ter um grupo humilde, trabalhador mas acima de tudo solidário e honesto na forma como aborda a competição.

No fim as coisas não correram muito bem entre o Pedro e a direção. O que aconteceu?
A forma como saí do Boavista, para mim que estive 15 anos ligado ao clube, foi triste. Eu terminava o contrato com o Boavista, era o capitão da equipa, a proposta que o Boavista fez para renovar não ia ao encontro dos meus interesses, e chegámos a um acordo de que não iria renovar. A melhor proposta que tive foi a do FCP e fui para o Porto. E não era só em termos financeiros. O mais importante é que vi no FCP a possibilidade de continuar a provar aquilo que tinha feito no Boavista: ganhar campeonatos. Isso levou a que os responsáveis do Boavista tivessem um comportamento menos digno comigo e se ainda há pouco disse que nunca tinha tido ordenados em atraso no Boavista, quando me fui embora do clube tive de negociar a minha saída do Boavista porque já não recebia há 2 ou 3 meses. Acho que isso foi uma fase triste, mas não confundo aquilo que foram as pessoas responsáveis que tiveram esses comportamentos na altura, com aquilo que é a grandeza do Boavista, a felicidade que tive durante esses 15 anos.

Pedro Emanuel entre Jorge Costa e Vitor Baia nos festejos da conquista da Liga dos Campeões pelo FCP

Pedro Emanuel entre Jorge Costa e Vitor Baia nos festejos da conquista da Liga dos Campeões pelo FCP

D.R.

Antes de irmos ao FCP, não tem nenhuma historia divertida para contar do Boavista?
Tenho a da minha praxe. Quando vamos de estágio para a Urgeiriça, eu já tinha ouvido falar para que tínhamos de estar preparados para o Nelo, o Paulo sousa, o Jaime Alves, o Alfredo e o Tó Luis que estavam sempre prontos para preparar alguma partida à malta mais nova. Comigo a história é simples: fomos para o pequeno-almoço e, como é normal nessas alturas de treino de manhã e de tarde, andamos cansados, com bolhas nos pés e usamos muito chinelos. Quando fui para o pequeno-almoço, de chinelos, sentei-me na mesa para comer e tive o descuido de deixar ficar os chinelos um bocadinho mais soltos. Quando me levanto vejo os braços todos no ar e isso era sinal de que alguém tinha sido apanhado na teia. E de facto tinha sido eu. Quando me levantei escorreguei no meu chinelo que estava completamente encharcado de manteiga, que tinha derretido com o calor dos meus pés (risos).

Foi para o FCP, mas teve 3 ou 4 propostas de outros clubes.
Quando decido não renovar com o Boavista a primeira proposta que tive foi do Udinese, mas não era bem o campeonato que pretendia. Entretanto passaram-se algumas semanas, também tivemos uma época excelente a nível de Champions, e isso deu-me bastante visibilidade e recebi uma proposta - e essa foi a que me balançou mais, do Alavés, de Espanha, que nessa época tinha sido finalista vencido da Taça UEFA. Queria lutar pelos 5 primeiros lugares em Espanha e isso era muito apelativo para mim. Os responsáveis do Alavés tiveram um comportamento excecional e quando o FCP soube que eu não ia renovar com o Boavista fez-me uma proposta. No final das contas acabei por tomar a decisão mais com o coração do que verdadeiramente pela parte financeira. E felizmente tomei, porque essa foi uma das boas decisões da minha vida. Muito em função da minha família, porque a minha primeira filha, a Daniela, era bebé, tinha pouco meses e senti que a estabilidade familiar era essencial naquele momento.

Tinha empresário?
Não, na altura não tinha empresário. Todas essas situações foram passadas com pessoas diferentes. Tanto que falei abertamente com 3 ou 4 pessoas e foram essas pessoas que me trouxeram essas propostas.

Action Images

Quando e como conhece a sua mulher?
Eu tinha um grupo de amigos que, após os jogos, sempre que eram ao sábado, ia a um restaurante na zona de Leça, que depois se transformava em bar com música muito alegre. Um dia, fui com um grupo de amigos, a Susana estava lá com um grupo de amigas a festejar um aniversário de uma delas e conhecemo-nos nessa altura. Ela nessa altura trabalhava numa loja de roupa de criança em Guimarães. Não somos casados, mas para mim é como se fossemos. Havemos de casar-nos um dia. Neste momento é uma fase complicada para nós e, apesar de tudo, apesar da distância, apesar do passar dos anos, acho que estes momentos, esta distância, também permitem podermos avaliar a nossa relação e hoje em dia, posso orgulhar-me daquilo que é a nossa relação, daquilo que é o respeito e o amor que temos um pelo outro. Vê-se muito pelo momento que estamos a passar, a distância. Ela está em Portugal, trabalha e temos dois filhos para criar, cuidar e educar.

Ela trabalha em quê?
Ela é sócia de umas clínicas de fisioterapia com os meus cunhados.

Pedro Emanuel com a mulher

Pedro Emanuel com a mulher

D.R.

A maioria dos jogadores do FCP enaltece mais a vitória da Taça UEFA do que a Liga do Campeões no ano a seguir. Também sente assim?
Sem dúvida. E digo mais: ganhámos a Taça Intercontinental, o último penalti fui eu que o marquei, mas eu vibrei mais com essa conquista da Taça UEFA. Primeiro pela época que foi. De onde vínhamos, aquilo que construímos nesse ano e acima de tudo também por aquilo que foi o desenrolar do jogo. Foi emotivo, houve prolongamento, houve incerteza no resultado, tudo isso leva a que se viva o jogo de uma maneira diferente. Na Liga dos Campeões acabámos por ter um trajeto quase imaculado e quando se chega ao final e se ganha por 3-0, acho que pouca história há para contar.

Foi o mais importante da sua carreira?
Não diria que foi o mais importante, acho que não se equipara à conquista de uma Champions. Temos grandes jogadores que estão em grandes clubes que nunca ganharam uma Champions, e isso claro que marca a carreira de qualquer jogador.

Quando veio o Del Neri em 2004/05 houve um grande choque...
...De tudo. Não só de metodologia de treino, mas um choque essencialmente de mentalidade. Acho que o clube tentou fazer um corte com o passado por causa da saída do Mourinho e tudo aquilo que trazia atrás. Há a saída de jogadores muito importantes no FCP e há uma tentativa de corte com a mentalidade que vinha até aí. Mas acho que não surtiu muito efeito, essencialmente porque o Del Neri não estava preparado, não sabia para onde vinha. Não sabia que vinha para um clube com a dimensão do FCP e acho que teve alguns erros de abordagem. Infelizmente para ele, até porque sempre se revelou uma pessoa educadíssima com uma postura extraordinária.

Encontrou muita resistência no balneário?
É normal, os jogadores com um ego inflamado, e eu incluo-me nisso, que ganham tudo e que depois precisam de novos estímulos individualmente e coletivamente. Quando isso não acontece coletivamente, o jogador resguarda-se no seu ego. “Ah eu já ganhei isto e tu o que é que ganhaste?”. O jogador tem muito este tipo de egocentrismo. O futebol apesar de ser um desporto coletivo é de um egoísmo tremendo. Nós somos 25 e só 11 é que podem jogar. Portanto, se não formos egoístas.. Digo isto com a maior naturalidade, as minhas melhores relações no FCP era com os meus colegas de posição, o Jorge Costa, o Ricardo Costa, e nós sabíamos que se facilitássemos estava ali outro para agarrar o lugar.

Pedro Emanuel com os filhos durante os festejos de mais uma conquista do FCP

Pedro Emanuel com os filhos durante os festejos de mais uma conquista do FCP

D.R.

Depois vem o Victor Fernandez e a seguir o José Couceiro...
...Nunca é bom quando se tem três treinadores numa época e chegamos ao final e não ganhámos nada.

Três treinadores também muito diferentes uns dos outros.
Sim, com mentalidades, perspectivas e metodologias muito diferentes. Se nos últimos anos tenho dito que o grande mérito é de quem conquista os campeonatos, nesse ano houve grande demérito da nossa parte para que o Benfica conquistasse o campeonato. Salvo erro nós perdemos 24 pontos no Dragão. Só isso foi meio caminho andado para qualquer outra equipa das grandes conquistar o campeonato.

Teve mais a ver com os treinadores do que com os jogadores?
Enquanto jogadores temos de assumir a nossa quota de responsabilidade. Não só pelo egocentrismo que se revelou e é nos momentos das dificuldades que vemos quem é que verdadeiramente está disponível para lutar e trabalhar em grupo ou quem está a pensar somente em si próprio. Como é normal há também as más escolhas dos treinadores.

Voltando à final da Taça Intercontinental, quando foi marcar o pénalti o que lhe passou pela cabeça?
Vou responder a mesma coisa que respondi na altura: "Não vou ter medo de ser feliz". Porque de facto fizemos uma excelente final, aquilo foi para os penaltis quando fizemos dois golos que foram anulados. Tivemos as melhores oportunidades, fomos superiores em todos os aspetos: contudo, fomos para os penaltis, e eu já sou o 14.º ou 15.º a marcar e fui com a certeza de que queria marcar. Não tive medo de ser feliz. Essa é a expressão com que baptizei o momento.

Não sentiu peso nenhum nas costas?
Não. Queria era acabar com aquilo e sabia que tinha de marcar para acabar com aquilo. Só dependia de mim. Não fui a pensar que podia errar, fui a pensar que queria marcar. Tão simples quanto isso.

Pedro Emanuel (à direita) recebe, juntamente com Vitor Baía, das mãos de Cavaco Silva, a Taça de Portugal conquistada pelo FCP

Pedro Emanuel (à direita) recebe, juntamente com Vitor Baía, das mãos de Cavaco Silva, a Taça de Portugal conquistada pelo FCP

FRANCISCO LEONG

No ano a seguir vem o Co Adriaanse. Como foi a entrada dele no balneário e a adaptação da equipa?
Nova mudança radical. Tinha sido um ano desastroso para o FCP e surge uma pessoa implacável, que sabia bem o que pretendia, sabia bem como é que queria fazer as coisas, tinha a proteção de quem o tinha escolhido. Foi um choque grande para os jogadores que souberam que ou era como o treinador queria ou então era melhor ir embora. Em alguns casos foi isso que aconteceu, noutros casos quem ficou adaptou-se às ideias do Co Adriaanse.

No seu caso o que achava das ideias dele? Foi difícil adaptar-se?
Difícil foi para todos. Há uma altura em que ele muda o sistema e se há mérito que reconheço ao Co Adriaanse é a frontalidade e honestidade que sempre teve; acima de tudo, não olhava a caras. Sempre foi frontal. Ele elegeu-me como capitão de campo, quando jogava muitas das vezes o Vítor Baía, que era o capitão. Só que ele não gostava dos guarda-redes como capitães e dizia que eu era o capitão de campo e o Vitor era o capitão de balneário. Ainda lá estava o Jorge Costa numa fase inicial. O Co Adriaanse era também muito agressivo em termos de trabalho, muito focado naquilo que pretendia. O que é um facto é que fizemos a dobradinha no ano em que ele chegpou e ninguém lhe pode negar esse mérito, porque reconstruiu e reinventou a equipa.

Pedro Emanuel (à esquerda) a festejar mais uma vitória com Jorge Costa, capitão do FCP

Pedro Emanuel (à esquerda) a festejar mais uma vitória com Jorge Costa, capitão do FCP

Miguel Vidal

Na época seguinte o Pedro rompe o tendão de Aquiles.
Sim e muito tem a ver com a parte emocional. É uma semana depois do Co Adriaanse ir embora. Ele abandonou a pré-época e nós estávamos numa fase muito desgastante da pré-época. Até à chegada do Jesualdo foi uma altura emocionalmente muito exigente. Eu era capitão, recaiu muita responsabilidade sobre os ombros. Tivemos muitas lesões, muitas paragens e ainda tínhamos uma tournée em Inglaterra, que foi onde rompi o tendão de Aquiles. Estava sobrecarregado, com algumas dores, e na apresentação com o Manchester City lesionei-me no aquecimento, o que significa que já não estava muito bem.

O que sentiu na altura quando percebeu a gravidade da situação?
É um vazio muito grande, uma incógnita grande que nos invade. Eu tinha 31 anos, ia acabar contrato nesse ano, fui logo pesquisar e percebi que no mínimo eram sete, oito meses de tempo de recuperação.

Passou-lhe pela cabeça que a sua carreira também podia ter acabado?
E acabou. Verdadeiramente falando, acabou aí. Fiz a operação, não correu bem, tive de ser novamente operado. Estive 10 meses parado. Nunca regressei a 100%. Mas uma das coisas que deixou uma marca na minha carreira e provavelmente muito mais do que se calhar todos os títulos que ganhei enquanto jogador, foi ter à minha beira, juntamente com a minha família, quando acordei da operação, o presidente Pinto da Costa e o Antero. A primeira coisa que eles me dizem foi: “Correu tudo bem, vais ter de estar à tarde no Olival porque queremos anunciar a tua renovação”. Não há dinheiro que pague isso, aliás eu nem quis saber quanto é que ia ganhar, só aquela atitude foi a motivação que tive para recuperar e voltar a jogar. Honestamente voltei a jogar para retribuir o carinho que o clube revelou naquele momento e para provar a mim próprio também que era capaz de voltar a jogar. Agora nunca mais senti o que sentia antes quando ia para o jogo, disponibilidade total e com todas as minhas capacidades intactas.

Miguel Vidal

Acabou por não ser campeão na época 2006/07 porque não jogou.
É a única mágoa que tenho com o Jesualdo. Foi esse momento. Porque foi um ano muito difícil para mim, foi um ano em que tal como nos anos anteriores com o Co Adriaanse com quem tinha uma relação de amor/ódio, nunca deixei de o ajudar e de o apoiar fosse qual fosse a decisão. Foi um ano difícil, acabámos por ser campeões em casa com o Aves, precisávamos de ganhar ao Aves e fiquei triste de não ter ido para o banco, pelo menos. Conheço bem o Jesualdo, sei bem quem é, é gente muito boa, das pessoas que mais percebe de futebol e com o qual tive uma relação muito próxima, e continuo a ter. Agora como é lógico e normal, e disse-lhe isto, fiquei triste e desiludido.

O que ele lhe disse na altura?
Ele nem tinha que me responder. Única e simplesmente disse que tinha de tomar opções pela equipa e que naquele momento tínhamos que levar as opções mais válidas e eu tive de aceitar. Do meu ponto de vista achava que tinha razão, mas aquilo que ele me disse não deixa de ter a sua razão.

Quando o Co Adriaanse o colocou a capitão houve algum momento de tensão com Vítor Baía ou Jorge Costa?
Não, porque o Co não dava hipótese para que isso pudesse acontecer. Ele era muito radical, muito objetivo naquilo que pretendia. A relação com o Co sempre foi um pouco fria porque a maneira de ser de um holandês cruzada com aquela nossa forma de ser enquanto portugueses... nós somos muito mais emotivos. Só esse choque cultural é meio caminho andado para que as coisas ao longo do tempo andassem volta e meia encrespadas. Mas nunca foi impeditivo de fazermos em campo aquilo que ele pretendia. Ele justificou o porquê da minha escolha, pôs logo os pontos nos i, e o Vítor e o Jorge perceberam perfeitamente que não foi nenhuma facada que eu lhes dei, até porque eu era um dos capitães pela longevidade que tinha no plantel. Foi uma decisão do treinador, suportada pela direção. Os capitães do FCP continuavam a ser o Vitor e o Jorge. Eu era só uma extensão dos capitães no campo, porque o Jorge não jogava e o Vitor era guarda-redes.

Já na pele de treinador

Já na pele de treinador

Jose Manuel Ribeiro

Termina a época 2008/09 e põe um ponto final na carreira porque acabou contrato ou porque o FCP propõe?
Eu estava numa fase em que não sabia bem o que ia fazer. o FCP fez-me duas propostas: Ficas como jogador e já sabes que não vais ser tão utilizados como gostarias; ficas como treinador-adjunto e uma extensão do Jesualdo, iniciando um novo ciclo. Ponderei as duas e não queria nenhuma das duas. Estava decidido a terminar. Entretanto disseram que ia haver umas alterações, e como eu já tinha o segundo nível do curso de treinador, já tinha habilitações, ficava como treinador dos sub-17.

Era já nisso que pensava, em ser treinador, antes de acabar a carreira de jogador?
Sinceramente, não sabia. Quando fui para o FCP tinha 27, 28 anos, e decidi tirar o curso de treinador mas no sentido de conhecer melhor o jogo, numa perspetiva diferente. Já conhecia enquanto jogador, queria ter uma perspectiva mais técnica para poder melhorar o meu jogo. Nessa altura achei que queria ficar ligado ao futebol e uma das formas de começar seria através da formação. Ofereceram-me o cargo de treinador de sub-17 e não tive muito tempo para pensar. Foi terminar a época e olhar para o novo desafio e nem o avaliei. Mal chegámos, treinámos uma semana e fomos logo para um torneio para a Irlanda. Começou logo aquilo que adoro: a pressão do treino, a pressão do jogo, termos o dia a dia preenchido a fazer algo de que gostamos. Mas se me perguntarem hoje em dia qual a profissão ideal para a minha forma de ser eu digo: é ser jogador de futebol. E se soubesse o que sei hoje há 20 anos, provavelmente teria sido muito melhor jogador. Mas a vida é mesmo assim.

Em 2007 Pedro Emanuel (ao centro) abre a garrafeira Wine O'Clock com mais dois sócios

Em 2007 Pedro Emanuel (ao centro) abre a garrafeira Wine O'Clock com mais dois sócios

Bruno Barbosa

É logo campeão como treinador dos sub-17.
Tínhamos uma equipa muito boa. O Sporting também. Lutamos com o Sporting até ao último jogo.

Foi muito difícil lidar com jovens?
Foi. Muito. Os primeiros tempos sobretudo porque eles são miúdos com 16 anos, alguns com 15 ou 17 e nós estamos habituados a lidar com homens.

O que foi mais complicado?
A forma como conversava, como interagia com eles, ainda muito reflexo daquilo que era a minha forma de me relacionar no plantel. Eles ainda estão a formar a sua personalidade, muitos deles estão à procura de alguém que os vá complementar na sua formação e eu já os tratava como homens. Mas eles começaram a perceber que essa era a minha maneira de ser. Eu também ,e fui adaptando. Eles ajudaram-me bastante nesta minha transição.

É um sentimento muito diferente ser campeão enquanto jogador e enquanto treinador?
Muito. Enquanto jogadores pensamos muito em nós, naquilo que depende de nós, do nosso desempenho. Quando somos treinadores dependemos do desempenho e da capacidade que temos de fazer com que o desempenho de onze seja igual para que possamos ser campeões. É uma perspetiva diferente. E o processo é diferente.

Pedro Emanuel (o 2º à drieita), quando foi adjunto de Villas Boas

Pedro Emanuel (o 2º à drieita), quando foi adjunto de Villas Boas

D.R.

Depois foi para adjunto do André Villas Boas. Como é que isso surge?
Já nos conhecíamos, o André trabalhou com o Mourinho quando este passou pelo FCP. Convidou-me para fazer parte da equipa técnica, eu tinha deixado de ser jogador há pouco tempo e conhecia grande parte do plantel, tinham sido meus colegas, era portanto um elo de ligação entre a equipa técnica e os jogadores. Felizmente as coisas também correram muito bem. Foi um ano excepcional.

Gostou de ser adjunto?
Sim, foi um enorme prazer. Estava no início da carreira e por isso mesmo estava muito sedento de aprender. O André também estava no início da sua carreira como treinador principal. Foi a importância de toda a equipa técnica desde o Vítor Pereira, o próprio José Mário Rocha, o adjunto que trazia com ele desde a Académica, o Daniel no scouting - todos nós estávamos num processo evolutivo nas nossas carreiras. Um pouco mais maturado o Vítor pela experiência que tinha como treinador principal. Acho que foi uma boa conjugação.

O que é que retirou daí para a frente, para a sua carreira como treinador?
Muita coisa importante. A avaliação diária que fazíamos do comportamento dos jogadores, do que pretendíamos de cada treino e de cada jogo, foi importante para a perspectiva que tinha de como materializar e operacionalizar aquilo que temos na cabeça

Pedro Emanuel conquistou a Taça de Portugal como treinador da Académica

Pedro Emanuel conquistou a Taça de Portugal como treinador da Académica

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Entretanto, surge a Académica.
Fruto disto surgem os convites, o André saiu para o Chelsea, mas antes disso tive o convite da Académica que queria apostar num treinador jovem. Já me tinham contactado antes, mas não tinha sido possível, achei que não era a altura ideal, ainda estava nos sub 17. Foi o José Eduardo Simões a ligar e aquela pareceu-me ser uma boa altura. Tínhamos ganhado tudo no Porto e pensei que era o momento de ter um novo desafio, de cortar um bocadinho o cordão umbilical, depois de uma ligação de 9 anos. Era importante sair da minha zona de conforto. Essencialmente isso.

Como foi essa experiência?
Começar com uma equipa que lutava pela permanência num ano muito difícil... Incompreensivelmente, a Académica ao longo dos anos, tirando um ou outro ano, foi sempre uma equipa que fez bons inícios de época, desde o Domingos, o Jorge Costa nas suas passagens tiveram sempre muito bons inícios, mas depois algo falha. No nosso ano fizemos uma metade do campeonato muito boa, mas entretanto, em janeiro, vendemos alguns jogadores, porque estas equipas vivem da sustentabilidade financeira das vendas, e não conseguimos repor tudo aquilo que era a nossa qualidade de jogo. Entrámos num momento menos positivo da época que se arrastou até ao final, embora tivéssemos um momento muito grande que foi a Taça de Portugal.

Pedro Emanuel com a mulher e os filhos

Pedro Emanuel com a mulher e os filhos

D.R.

Como é que correu a época seguinte?
Na época seguinte, o mesmo contexto. É aquilo que nós sabemos, o tentar refazer um plantel sem jogadores que saíram fruto do que se fez no final da época anterior. Com jogadores como o Cédric, Adrien Silva, etc., a irem para outros clubes foi uma época novamente difícil. Tivemos muito desgaste pelas competições europeias, a que não estávamos habituados, nem tínhamos plantel para gerir isso, e portanto até dezembro foi um campeonato bastante sofrido. Andámos num registo intermédio, onde também fomos fazendo coisas muito positivas como ganhar ao Atlético de Madrid, em casa. Arrecadámos dinheiro, mas depois em termos desportivos acabou por pagar-se um pouco o esforço que se fez ao longo da primeira metade da época. Chegámos a dezembro e já tínhamos 30 jogos, incluindo a Taça da Liga, Taça de Portugal, a Liga Europa, essas competições todas. Isso para uma equipa como a Académica... Além de não estar habituada, não tinha plantel para isso.

Não chega a terminar a época na Académica.
Não. Já estávamos com um desgaste grande. A Académica felizmente conseguiu os seus objectivos, ficar na 1ª Liga, com o Sérgio Conceição, que depois de sair de Olhão vai para a Académica.

Antes e de ir para o Arouca o que fez?
Na altura estavam fechados os quadros de formação - tinha havido um litígio entre o IPDJ e a Federação e durante 4 ou 5 anos os quadros da formação estiveram encerrados - mas entretanto tive dois convites para ir para o estrangeiro. Um deles efetivou-se, o Apoel do Chipre, só que como não tinha habilitação máxima, não tinha o 4.º nível, que tirei à posteriori, acabei por não concretizar isso. Entretanto, o Arouca salta de divisão, faz-me um convite para estruturar uma equipa que vinha desde os amadores com um trajecto extraordinário - em seis anos tinha subido cinco divisões - e foi um desafio grande. Para mim, foi um desafio mais pela parte emotiva, a forma como as pessoas me convidaram e a autonomia que me quiseram dar... era a primeira vez que o Arouca iria estar na 1.ª Divisão. Foi um desafio difícil, bastante desgastante, acabámos por fazer uma boa época e conseguir a manutenção.

E continua.
Ficámos um segundo ano, mas penso que não foi bom para ninguém. Aquilo que pretendemos fazer com a equipa, acabou por não se conseguir, com responsabilidades minhas por algumas das coisas que se passaram. Também por responsabilidade da parte da direção, porque efectivamente aquilo que pretendiam em termos de jogadores acabou por não se concretizar. O facto é que terminamos com os objectivos perfeitamente conseguidos que eram a manutenção e acabamos por sair no final dessa segunda época. Era o ciclo terminado. Entretanto surge novamente um convite, do Apollon do Chipre, e não olhei para trás. Tive um outro convite de Portugal mas era dentro do mesmo registo do que tinha feito até então com a Académica e o Arouca, e achei que era mais apelativo ter a primeira experiência no estrangeiro para ganhar mais experiência, viver outras realidades e outros quadros competitivos que me permitissem também crescer como treinador.

Gualter Fatia

Nessa altura a família vai consigo ou fica?
O Chipre tem uma qualidade de vida extraordinária e a cidade onde ficámos, Limassol, sem dúvida tem tudo aquilo que procuramos. Bom tempo, boa alimentação, as pessoas são muito afáveis e extremamente acolhedoras. Ponderámos ficarem comigo, mas como a minha filha estava em idade escolar e o trabalho da minha mulher não lhe permitia estar permanentemente fora, decidimos que ficassem no Porto, mas passaram grandes temporadas lá comigo.

Custou-lhe muito esse afastamento?
Custou. Foi o primeiro afastamento efetivo porque quer em Coimbra, quer em Arouca, grande parte do tempo eu ia a casa durante a semana. Foi também uma evolução no crescimento para nós enquanto família. Perceber que com algum afastamento valorizamos algumas coisas que não o fazemos no dia-a-dia com a nossa presença permanente.

Os seus filhos reclamaram muito a sua ausência?
Sim, especialmente o Bruno que, na altura, tinha três ou quatro anos e entendia muito pouco o que era esse afastamento. Nós assinámos por um ano com mais um de opção, o clube exerceu a opção, eu ponderei no segundo ano regressar a Portugal exatamente por causa da família mas quer a Susana quer a Daniela foram muito fortes no apoio que me deram para dar continuidade ao projecto.

Pedro Emanuel com a sua equipa técnica e a Taça que conquistaram no Chipre

Pedro Emanuel com a sua equipa técnica e a Taça que conquistaram no Chipre

D.R.

Como é que se deu no Chipre com o futebol, os jogadores e a pressão dos adeptos?
O Apollon, digamos, é um Sporting do Chipre: não ganha o campeonato há algum tempo, e nós fomos com esse objetivo. Acabámos por não conseguir em termos de título, mas conseguimos conquistar a Taça, vencemos a Supertaça no ano seguinte contra o campeão, o Apoel, e de facto acabou por se criar uma expectativa muito grande em relação à nossa equipa. Fui considerado o treinador do ano.

Saiu porquê?
Aconteceu algo inédito para mim. Nós saímos do Apollon porque já havia um desgaste grande. As expectativas eram muito altas e o quadro competitivo no Chipre é diferente. Temos uma fase regular de todos contra todos em 26 jornadas e depois há a fase de apuramento de campeão, onde se apuram as seis primeiras equipas que fazem 10 jogos, a duas voltas, todos contra todos, e a equipa que somar mais pontos será o campeão. Estávamos perfeitamente dentro dos nossos objectivos, só que num dérbi em que estivemos a ganhar até ao final, empatámos no último minuto e os cipriotas têm uma forma de viver o futebol demasiado emotiva. Ou seja, viemos embora apesar de não perdermos nos últimos dois meses e meio - seis vitórias, três empates e fomos despedidos. Algo inédito. Normalmente os treinadores saem após derrotas.

Qual foi a justificação que lhe deram?
Que as expectativas da equipa eram altas, podíamos ter ficado a um ponto do primeiro lugar e caímos para 3.º lugar quando saímos. Estávamos aquém daquilo que perspectivavam e das expectativas que tínhamos criado principalmente depois de termos vencido a Supertaça contra o Apoel de uma forma convincente.

Até agora essa foi a chicotada que mais lhe custou?
Sem dúvida. Todas elas custam, ninguém quer. Mas a saída de um clube é sempre porque algo não está a funcionar. Esta foi provavelmente a que menos justificações tinham. Foi um plantel completamente construído por nós, ainda hoje alguns dos jogadores lá continuam, o que também revela que não fizemos tão mau trabalho quanto isso. Saí do Apollon relativamente cedo, em final de outubro, tive outro convite para regressar a Portugal, mas penso que fiz bem em ponderar aquilo que queria fazer de seguida. Há momentos na nossa carreira quer como jogadores, quer como treinadores, em que é importante parar e refletir. E isso levou-me a estar seis meses praticamente sem fazer nada. Estive a observar colegas a trabalhar, estive a tentar criar algo que fosse uma mais valia para o nosso trabalho do dia a dia.

No Chipre recebeu por três vezes o prémio de melhor treinador em 20 jornadas

No Chipre recebeu por três vezes o prémio de melhor treinador em 20 jornadas

D.R.

Até que surge o Esotril.
Sim, entretanto surgiu num momento difícil o Estoril com um convite. Um clube onde o Marco Silva tinha iniciado um processo de consolidação na 1.ª Liga, que tinha conquistado muitos bons resultados, do qual eu tinha ótimas referências, tinha uma estabilidade que dava para trabalhar e assumi esse risco. Foi um risco maior para mim do que para o Estoril: faltavam 10 jornadas para o final e o Estoril estava na linha de água. Acabámos por fazer uma excelente ponta final, em 10 jogos fizemos 18 pontos, conseguimos terminar numa zona confortável da tabela classificativa. Vamos empatar 3-3 a Guimarães no primeiro jogo que tivemos. O Estoril tinha perdido 2-1 com o Benfica em casa e acabámos por ir jogar a meia-final da Taça de Portugal. Fizemos um jogo extraordinário na Luz, conseguimos empatar, com possibilidade de passar até ao último minuto de jogo. Foram momentos muito importantes.

No ano seguinte as coisas não correm tão bem.
Estava convencido na minha cabeça de que iria sair, que iria abraçar outro projeto, novamente no estrangeiro, tinha ideia de não continuar em Portugal. Mas entretanto a parte emocional levou-me a tomar uma decisão que foi o pior erro que já cometi. Para mim e para o Estoril. Porque infelizmente o Estoril, que faz uma reta final extraordinária, vendeu jogadores que eram fundamentais e fez um encaixe de 8 ou 9 milhões de euros. É financeiramente extraordinário, mas perdem-se as mais valias da equipa. E quando são prometidas coisas que acabam por nunca se cumprir... É aqui que vem a nossa capacidade de tomar a iniciativa de sair; mesmo tendo assinado um novo contrato, era o momento de ter saído quando fechamos as inscrições e ,perto do términos, vendemos o Carlinhos para o Standard de Liége; sendo que o Carlinhos era um daqueles jogadores que a administração disse que não iria vender. Compreendo que por parte da administração haja uma pressão grande dos jogadores, por terem uma proposta de melhor contrato.

E veio uma série de derrotas consecutivas.
Exatamente. É aí que nos apercebemos que o que tínhamos construído já não estava presente. Os jogadores que vieram não tinham a mesma qualidade daqueles que tinham saído e foi difícil reconstruir a equipa. O único jogador que estava vendido quando terminámos a época foi o Matheus Oliveira para o Sporting; quando terminámos a pré-época, depois de dois meses, outros seis tinham saído. Isto não é justificação, eu devia ter tido a coragem de nesse momento dizer que assim era difícil, seria um alerta para a própria administração. Mas a administração, tal como eu, pensou e acreditou: “Vamos remediar isto”. Infelizmente, foi um erro da minha parte e um erro da administração.

Com os filhos

Com os filhos

D.R.

Saiu em outubro. Tinha alguma proposta?
Tive duas propostas de Portugal mas dentro do mesmo registo. Já tinha metido na minha cabeça, que tirando um clube que efetivamente lutasse por outros objectivos, nomeadamente 4º, 5º lugares, não iria aceitar. O convite do Al Teawon, com a saída do José Gomes, permitiu-me esta oportunidade. O que nós estamos aqui a fazer na Arábia Saudita é um pouco o que o Moreirense está a fazer em Portugal. Está a lutar pelo 5. º lugar. É uma equipa de pequena/média dimensão, estável, contudo a grande diferença daqui para aí é que aqui não são clubes vendedores, são clubes compradores e permite-nos ter jogadores com nível médio/alto e fazer um trabalho com mais qualidade. Estamos a cinco jornadas do final a lutar pelo 3.º lugar que dá acesso à Champions asiática e estamos nas meias-finais da Taça, pela 2.ª vez na história do clube, que nunca esteve numa final. Vamos ver se conseguimos esta época.

A sua intenção é manter-se na Arábia na próxima época?
Honestamente, não sei. O clube tem a opção de mais um ano. A ideia inicial era assinarmos dois anos, mas eu nunca gosto de o fazer, posso não me adaptar ao clube e o clube não se adaptar a mim. Falamos agora no final da época e se houver acordo entre as partes continuamos. Muito provavelmente o futuro ditará o estrangeiro. Só regresso a Portugal dentro dos pressupostos de que falei. Aquilo que foi construído nestes 10 anos enquanto treinador tem sido muito positivo e sinto-me muito melhor preparado agora.

Como foi a adaptação à Arábia Saudita, aos costumes, às gentes, à língua...
...Não é fácil para ninguém. A Arábia Saudita é de facto um contexto muito diferente, mesmo dos países vizinhos, a Arábia é muito fechada em termos culturais, é dos países nesta região do golfo que menos liberdade dá. Vivem muito em função da religião, são muito exigentes naquilo que são os comportamentos da sua sociedade.

O que é que o chocou mais?
Acho que a forma de eles viverem, a forma como são educados, a forma como lidam com o seu dia-a-dia, é completamente oposta à nossa forma de viver. Nós vivemos para socializar, vivemos do gosto que temos de sair e conviver. E eles fazem-no de uma forma diferente. Aqui não existem cinemas, não existem teatros, a parte cultural é uma ou outra exposição, mas é muito esporádica. O que mais me traumatizou é que nos restaurantes ficamos num lado do restaurante, se for em família ficamos do outro. Não há convívio entre homens e mulheres sem ser com a família. Por exemplo, vamos a um casamento e as festas são separadas até à noite de núpcias. Os homens convivem de um lado e as mulheres convivem do outro. É uma forma partida de viver a sociedade.

E o calor?
Difícil. Para ter uma noção, vai começar agora a época do calor, nós estamos no meio do deserto, a 350 km de Riade, a capital, a 800 km do mar; para termos uma noção no verão desta época, em julho/agosto, tivemos 48 graus. A temperatura normal é de 38, 40 graus.

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Vive onde com a equipa técnica?
Estamos num compound, um condomínio fechado só para estrangeiros. Aqui temos um pouco da Europa, temos piscinas, courts ténis, restaurantes, as mulheres não são obrigadas a andar de burka cá dentro. Agora, mal saem daqui têm de usar. A minha filha e mulher têm de usar a burka e tapar a cara quando saem daqui.

Elas não devem ter gostado...
....Não, porque aqui a mulher tem poucos direitos. A mulher tem obrigações e vive em função dos maridos e do que a sociedade lhes dita. Este novo príncipe está a mudar muitas destas questões: as primeiras mulheres começaram a poder conduzir, as famílias começaram a poder ir juntas ao futebol, numa zona própria. Aos poucos ele quer mudar, mas vai demorar algum tempo.

O que faz nos tempos livres?
Eles são muito hospitaleiros, têm tendas no deserto, onde já estive, já fiz passeios de camelo, jantares no deserto, que é onde gostam mais de conviver. Muito pouco para além disso, não há muita coisa para visitar. É uma zona das tâmaras, o maior produtor de tâmaras é daqui de Buraidah. Eu adoro tâmaras e já fui aos produtores, já os conheço. De resto, fazemos muita atividade física aqui no compound, temos courts de ténis, campos de futebol, piscina, ginásio. Fazemos os nosso joguinhos. Habituei-me a cozinhar mais. Não faz sentido ir a restaurantes quando não temos gosto em estar lá porque estamos isolados.

Entretanto já ganhou à equipa de Rui Vitória. Ele não deve ter gostado muito.
Não, não gostou. Ninguém gosta. Mas ainda bem que ele recuperou e está no 1.º lugar. Ele passou o Al Hilal que era a equipa do Jorge Jesus.

A propósito de Jorge Jesus teve uma acesa troca de palavras com ele no final de jogo. O que aconteceu?
É normal. Típico de quem quer ganhar. Eles conseguiram empatar no último minuto e ele estava a discutir com o árbitro e disse-me que estávamos a perder tempo no final. E eu disse-lhe: "Pois, mas não te esqueças que tu só conseguiste empatar também no último minuto". Nós estávamos a ganhar por isso mais do que ninguém custou-me ter empatado no último minuto. Nós sabemos como é que é o Jesus, eu também tento ser uma pessoa equilibrada, mas nem sempre o conseguimos. Mas morreu ali.

Foto de família vestida a rigor na Arábia Saudita

Foto de família vestida a rigor na Arábia Saudita

D.R.

Abriu uma garrafeira de vinhos, a Wine O'Clock, em 2007, estava ainda no FCP. Porquê?
Começou por ser uma brincadeira. Acabei por ficar maioritariamente com a garrafeira, mas passei-a quando fui para o Chipre, porque não tinha vida; ia para o estrangeiro e não queria ficar com essa preocupação.

O gosto pelo vinho surge quando e como?
Surge há muito tempo. Os meus avós paternos são de uma aldeia, de Vila Cova, Vale de Cambra e sempre foram produtores de vinho. Desde miúdo que ia às vindimas, à pisa da uva, todo esse processo me despertou muita curiosidade. Fui começando a experimentar vinho, comecei a gostar, tinha um grupo de amigos enquanto jogador, que fazia umas jantaradas nos dias de folga, para fazermos umas provas e desfrutarmos do vinho e foi a partir daí que passei a ter mais gosto. Ainda hoje o tenho. É uma das coisas de que sinto mais falta aqui, porque nunca fui pessoa de bebidas brancas nem de refrigerantes. O vinho é das coisas de que sinto mais falta no sentido da refeição. Aqui adotei o ice tea e a limonada.

Onde ganhou mais dinheiro?
No FCP.

Tirando a garrafeira onde investiu o dinheiro?
Tive alguns negócios ao longo do tempo. As clínicas de fisioterapia são uma área a que a minha família esteve ligada. Tenho uma parte de imobiliário e outra parte ficou também dentro da garrafeira.

Enquanto treinador qual foi o jogo que mais mexeu consigo até agora?
Pela importância da conquista e pela envolvência... a final da Taça pela Académica contra o Sporting, que vencemos. É um jogo que não sairá facilmente da minha memória.

Tem algum hobi?
Adoro jogar futvólei. Quando estou em Portugal é algo que não deixo de fazer com um grupo de amigos. Depois, quando estou num momento mais stressante gosto também de atirar aos pratos, fazer tiro. O meu falecido avô e o meu pai eram caçadores e ensinaram-me.

Coleciona vinho?
Não tanto colecionar, gosto mais de comprar para beber, porque o vinho deve-se desfrutar em momentos especiais e felizmente tenho tido muitos momentos especiais por isso a coleção vai ficando cada vez mais reduzida.

Os melhores vinhos são os portugueses?
Também. Temos muito bons vinhos e cada vez mais, especialmente em relação aos brancos nos últimos 10 anos houve uma evolução brutal e um melhor envelhecimento dos vinhos de qualidade tintos também. Cada vez mais temos mais vinhos bons e com mais diversidade. Mas gosto naturalmente dos vinhos brancos da Califórnia, dos tintos franceses e de alguns vinhos australianos.

ANT\303\223NIO COTRIM

Não chegou a ser chamado à equipa A da seleção. Essa é a sua maior mágoa no futebol?
Acho que sim. Pelo trajeto que tive não só em termos de Boavista, mas especialmente a nível do FCP e foi por isso que também mudei para o FCP, acho que merecia ter tido uma oportunidade, mas foi na era do Scolari e el não olhava para mim como uma opção e por isso fiquei com um amargo de boca porque gostava de ter sido internacional A pela minha seleção, era a cereja no topo do bolo, mas acabou por não acontecer.

Se não fosse jogador de futebol seria o que?
Honestamente não sei, teria tirado o meu curso. Eu gosto muito de ensinar, provavelmente teria sido professor de alguma área ligada aos números. Uma das disciplinas que a mim mais me cativou era calculo financeiro. Ou eventualmente um contabilista. Mas nunca refleti muito sobre isso.

É supersticioso?
Não. Tenho a minha fé. Sou católico. Tento ser praticante dentro do possível e do que me é permitido. Agora superstição...Provavelmente entrava com o pé direito em campo, hoje em dia não. Tenho alguns rituais no dia-a-dia, mas são mais mecanismos, do que verdadeiramente superstições. coisas normais como por exemplo, gosto de ir de fato para os jogos, não gosto de ir de fato de treino. O respeito que temos de ter pelo jogo leva-nos a irmos com a nossa melhor vestimenta. Tal como gosto de cumprimentar os meus adjuntos antes de começar um jogo. São uns pequenos pormenores, que são mais rituais ou mecanismos.

Tem alguma equipa que gostasse de treinar ou campeonato que gostasse de disputar?
Acho que um campeonato que é atrativo para todos, é o inglês, pela envolvência, ali sim é um verdadeiro espetáculo, estádio cheio, bons jogadores, capacidade financeira para se contratar bem, condições de trabalho. Mas eu sou um explorador, gosto muito de viajar.

Para terminar, não tem mais nenhuma história?
Tenho uma do Carlos Alberto, o “feijão”, que jogou comigo no FCP. Ele tinha um hábito terrível, andava sempre com uma pandeireta junto dele e para onde fosse, em viagens, no autocarro, aquela pandeireta estava sempre a tocar. Até ao ponto de nos abrirmos o teto do autocarro e atirarmos a pandeireta fora. Mas ele lá foi arranjando uma atrás da outra e houve alturas em que já estava preparado e levava duas. Quando vamos à final da Taça Intercontinental no Japão, no regresso estávamos todos cansados de um jogo desgastante com prolongamento, penáltis e tanta celebração. A viagem foi feita durante a noite e estamos todos no avião extenuados, a começar a tentar dormir e o que é que se ouve? O Carlos Alberto a começar a tocar a pandeireta. Quem normalmente tomava a posição de tirar a pandeireta e atirar pela janela era o Jorge “o Bicho”, que aí não tinha como o fazer dentro de um avião. Tivemos de andar a esconder a pandeireta, mas mesmo assim ele conseguiu encontrá-la e passadas uma ou duas horas andava a tocar a pandeireta (risos). Tivemos de a partir porque senão ele não parava de tocar (risos).