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A casa às costas

Zequinha: “A única vez que não consegui telefonar ao meu pai depois de um jogo, ele teve um AVC e morreu. Às vezes ainda me culpo por isso”

O ato irrefletido de tirar o cartão vermelho da mão de um árbitro, durante o Mundial de sub-20, no Canadá, marcou-lhe para sempre o percurso que se antevia promissor. Ainda assim, e depois de quase ter caído na terceira divisão, por causa de noitadas em que chegava a gastar 4000€, Zequinha reergueu-se e conseguiu jogar na Grécia, na India, no Arouca e no Nacional. Esta época regressou ao seu Vitória de Setúbal, o clube do coração. Dele e do seu ídolo maior, o pai. É de olhos quase sempre emocionados e alma mais apaziguada que Zequinha viaja pela vida numa entrevista em que também avisa: “Não gosto que me chamem José”

Alexandra Simões de Abreu

José Fernandes

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Nasceu em Setúbal. Apresente-nos a família em que nasceu?
O meu pai chama-se José Egas das Neves Branco, a minha mãe é Anabela Viena Santos e trabalhavam com peixe, em Setúbal. O meu pai começou por ser pescador, depois a vida começou a correr-lhe bem e abriu uns armazéns de peixe; e a minha mãe, que já era o terceiro casamento do meu pai, acabou por trabalhar com o meu pai.

Tem irmãos?
Tenho. Da parte da minha mãe, do primeiro casamento dela, tenho um irmão e uma irmã, o João e a Susana. Da parte do meu pai tenho três irmãs, mais velhas até que os meus irmãos de parte de mãe. Inclusivamente, uma dessas irmãs é mais velha do que a minha mãe. São a Sónia, a Alda e a Cândida. Os meus pais tinham uma diferença de 20 anos e estiveram juntos 25. Eu já vim assim um bocado fora do prazo (risos). Fui o único filho homem do meu pai; o resto são só mulheres e a ligação entre nós os dois era muito forte.

Cresceu em que zona de Setúbal?
No bairro da Azeda, agora é a zona perto do Alegro. As coisas estão completamente diferentes, graças a Deus.

Era um miúdo reguila, sossegado, como é que era?
Sempre quis andar com os mais velhos. Naquela altura não havia a geração iPad, era tudo na rua e eu só queria andar com o meu irmão. A minha mãe até se chateava por eu ficar até tarde na rua com eles.

Gostava da escola?
Sim, até tinha boas notas, até ter o estatuto de alta competição. Quando subi ao Vitória, fui o jogador mais novo a ter um contrato profissional, tinha 15 a fazer 16 anos, e aí como tinha o estatuto de alta competição podia não ir à escola porque tinha treinos e tinha as faltas justificadas. Foi a partir daí que desisti da escola para me dedicar só ao futebol.

Saiu em que ano?
No 7.º ano, mas mais tarde tirei o 7.º, 8.º e 9.º anos.

Zequinha com os pais

Zequinha com os pais

D.R.

Quando era pequenino torcia por que clube, quem eram os seus ídolos?
Sempre fui do Vitória. Sou sócio há 25 anos. Os meus ídolos eram o brasileiro Ronaldo, o Fenómeno, e agora o Cristiano. Comecei a crescer e a focar-me muito nesses dois Ronaldos.

O futebol começa na rua, na escola. Como é que foi parar ao Vitória de Setúbal? Foi através de captações?
Na altura jogava numa equipa do bairro que era as Águias de São Gabriel, com 6 anos. Houve uma pessoa, o mister José Mendes, que foi jogador e treinador no Vitória, que treinava lá nos Águias e viu que eu tinha algum potencial e disse para eu ir ao Vitória. Fui, só que ainda não tinha idade para jogar, mas o Vitória decidiu que eu ficava na mesma.

Ficou todo orgulhoso.
Sim, o meu pai e a minha mãe também eram vitorianos, a família toda. E eu desde pequenino que dizia que queria ser jogador de futebol. E graças a Deus consegui. Com altos e baixos, mas consegui fazer o que gosto.

Faz a sua formação no Vitória. Quando é chamado pela primeira vez a uma seleção?
Com 15 anos.

É nessa altura que assina o seu primeiro contrato profissional?
Sim. Naquela altura era muito difícil jogadores de equipas menores serem chamados à seleção e eu fui. E tive uma carreira boa na seleção, até se passar aquele episódio.

Zequinha com o pai, conhecido em Setúbal como o Zeca canhoto

Zequinha com o pai, conhecido em Setúbal como o Zeca canhoto

D.R.

Sim, mas estava a contar que fez o seu primeiro contrato com 15 anos, lembra-se do valor do ordenado?
O meu primeiro ordenado foi na formação e salvo eram 200 e tal euros.

Lembra-se do que fez com esse dinheiro? Houve alguma coisa que quisesse muito comprar?
Não, porque graças a Deus o meu pai nunca me deixou faltar nada. Trabalhava bastante e nunca me deixou faltar nada. Foi mais aquelas coisas de moços novos, comprar roupa de outras marcas.

Ficava com o dinheiro para si ou entregava aos seus pais?
Os meus pais impunham um limite, só que eu também não gastava muito. Era tranquilo.

Quando foi chamado pela primeira vez à selecção, qua foi a sensação?
Parecia que não estava em mim. Porque representarmos o nosso país - pode ser na selecção A ou nos Sub15 -... o sentimento é sempre o mesmo. Foi um orgulho enorme para mim e para a minha família, foi uma emoção muito forte.

Com 15 anos, a ganhar um ordenado e a ser chamado à seleção, sentia-se diferente, deslumbrou-se um bocadinho ou não?
Nunca me senti diferente. Sabia as qualidades que tinha, sabia o potencial que tinha, só que como, digo ainda hoje, sempre fui igual. Por mais dinheiro que ganhasse - e ganhei muito para a idade que tinha - fui sempre a mesma pessoa.

Nunca se deslumbrou com nada?
Nunca.

Zequinha tem tatuada a cara do pai no braço esquerdo

Zequinha tem tatuada a cara do pai no braço esquerdo

José Fernandes

Tinha o sonho de jogar em algum clube em particular?
Geralmente, quando estamos em Portugal pensamos sempre naqueles clubes estrangeiros, Real Madrid, Barcelona, mas em Portugal sempre tive, não digo uma paixoneta, mas era pelo FCP que queria jogar. E acabou por se concretizar um dia mais tarde. Dos três grandes era aquele de que gostava mais.

A sua estreia na I Liga deu-se quando?
Com 19 anos, sendo que já tinha sido convocado várias vezes aqui no Vitória para a II Liga, com 16 anos. Fui chamado para treinar pelo mister Jorge Jesus quando tinha 15, 16 anos. Na altura, os capitães da equipa eram o Sandro, o Hélio e o Meyong e para um miúdo treinar com eles era… .

Gostou do Jorge Jesus?
Sim, era uma pessoa um bocado rígida, mas dos pouco treinos que tive com ele, gostei.

Como e quando se dá a passagem para o FCP?
Comecei a ser falado porque só estive 6 meses nos juvenis e fui logo chamado para os juniores aqui no Vitória, apesar de ainda não ter idade. Entretanto, fomos à 3.ª fase e eu fiz muitos golos. Na altura era número 9, não jogava como trinco, como agora, e fazia muitos golos. As coisas estavam a correr-me bem e houve o interesse do Sporting, do Benfica e do FCP, inclusivamente de muitas equipas do estrangeiro, mas achei por bem não ir para o estrangeiro. Não sei se foi bom ou se foi mau, mas escolhi ir para o Porto.

Tinha empresário?
Sim. Era o Amadeu Paixão, que era o empresário também do Boa Morte. Quando assinei com ele tinha 16 anos. Tinha o Jorge Mendes atrás de mim, mas acabei por optar pelo Amadeu porque já lhe tinha dado a palavra desde os meus 14 anos e não quis fugir à minha palavra. Ele foi sempre uma pessoa correta comigo e agradeço-lhe tudo o que fez por mim.

Zequinha recebe o troféu de melhor jogador do torneio da Torre, com Benfica, Sporting e FCP.

Zequinha recebe o troféu de melhor jogador do torneio da Torre, com Benfica, Sporting e FCP.

D.R.

Foi para o Futebol Clube do Porto com quantos anos?
16 a fazer 17 anos.

Foi sozinho?
Fui.

Como foi sair do “ninho”?
Em Setúbal, bem ou mal, o meu pai controlava-me. Às vezes, ao fim de semana, quando ia sair com os meus colegas, era dos únicos que tinha a mãe à porta da discoteca (risos). A sério, com a carrinha do peixe. Ela ia trabalhar de madrugada e dizia-me: “Ficas até à uma e meia, duas”. Depois, os meus colegas ficavam e eu tinha de ir embora. Acho que isso também fez com que eu, no Porto, com dinheiro e com um apartamento só para mim, acabasse por me “perder”.

Fazia muitas noitadas?
Sim, acabei por entrar em situações que não eram as mais indicadas para os jogadores e as companhias também me levaram a fazer coisas que não devia ter feito.

Companhias do futebol?
Algumas sim, mas a maioria eram fora do futebol.

Quando diz situações complicadas está a referir-se a quê?
A pessoas que não estão habituadas ao mundo do futebol e veem que o Zequinha tinha dinheiro, tinha ido para o Porto e era só: “Vamos sair, vamos sair”. Naquela altura era miúdo, saía, pagava a toda a gente... Se calhar não singrei no Porto por causa disso, eles viam um grande potencial em mim e um jogador com futuro, mas acabei por não singrar por isso.

Zequinha com a faixa de campeão distrital, pelo V. Setúbal

Zequinha com a faixa de campeão distrital, pelo V. Setúbal

D.R.

Teve problemas com os adeptos?
Eu e o Bruno Gama tínhamos sido as maiores transferências de sempre do futebol português. Entramos para a equipa A do FCP e jogávamos na B, as pessoas viam um grande potencial em mim, um jogador que podia ajudar. Depois, como naquela altura o FCP ganhava muita coisa, eles não me davam importância, porque eu era só um miúdo que estava a começar. Dou-me muito bem com o Fernando Madureira [líder dos Super Dragões], sempre tive uma boa relação com eles, com os adeptos do Porto, e assim vai continuar a ser.

Faltava aos treinos ou chegava atrasado por causa dessas noitadas?
Sim, sim. Estou a falar abertamente, mas acho que foi bom para o meu crescimento. Mas, sim, às vezes faltava aos treinos, chegava sempre tarde.

Quem era o seu treinador?
Na equipa B apanhei o mister Aloísio e o mister Domingos.

Davam-lhe na cabeça?
Sim, davam muito. Chegou uma altura em que disseram que já não sabiam o que haviam de fazer comigo. Tiraram-me da equipa B, fui para os juniores, o que é complicado, um jogador da equipa A, treina na B e depois vai para os juniores. Só que eu pensava que, como tinha potencial, a bem ou mal, mais cedo ou mais tarde iria conseguir dar a volta por cima.

Qual era a reação dos seus pais?
Os meus pais entraram um pouco em depressão, porque sabiam que eu estava lá sozinho e não estava a fazer a vida mais correcta. Gastei muito dinheiro.

Zequinha ainda hoje detém o recorde golos das camadas jovens do V. Setúbal

Zequinha ainda hoje detém o recorde golos das camadas jovens do V. Setúbal

D.R.

Passou a ganhar muito mais quando foi para o FCP?
Ainda aqui no Vitória passei dos €300 para os 1000 e tal quando fiz o contrato profissional. Os €300 foi na formação. No FCP fui ganhar sete vezes mais do que ganhava aqui, com 16 anos, e todos os anos aumentava o meu contrato em €300. Estive lá 6 anos. Posso dizer que ganhava mais naquela altura do que hoje em dia, só para termos uma noção. Foi dinheiro muito fácil.

Comprou carro?
Apesar de ter tido vários carros, o primeiro foi o carro que ainda tenho hoje, o BMW X5. Era o carro que andava a namorar há muito tempo. Tinha 17 anos quando o comprei, ainda não tinha carta, mas comprei logo o carro (risos). Depois, tive um Mercedes, vários carros, mas acabei por ficar com o jipe.

Estava a contar que da equipa B depois passou para os juniores. Isso fez a campainha soar, mexeu muito consigo?
Sim porque com um contrato daqueles, um jogador jovem, referenciado por todas as pessoas no país, supostamente um exemplo para outros adolescentes... E facilitar da forma como facilitei... Quando vi que afinal não era como eu pensava que ia ser, foi um bocado complicado. Depois, o presidente do FCP renovou-me o contrato, ainda me deu uma segunda oportunidade, mas eu acabei por não aproveitar.

Zequinha foi chamado pela primeira vez à seleção de sub-16

Zequinha foi chamado pela primeira vez à seleção de sub-16

D.R.

Entretanto, vem a chamada para o Mundial de sub20.
Sim.

Nessa altura estava emprestado ao Tourizense.
Sim. Sou emprestado, porque aquilo era um centro de estágio, era fechado e eles pensaram: “Vamos pôr ali o Zequinha para ver se ele consegue melhorar ou mudar um bocado o chip dele”. Fui para lá com outros colegas do FCP. Joguei mas continuei na mesma vida.

Não houve grandes alterações.
Não, não me adiantou muito.

É no Mundial de sub20, no Canadá, que há aquela situação que marcou a sua carreira. Tirou o cartão vermelho da mão do árbitro, quando este o mostrava ao Mano. O que lhe passou pela cabeça, lembra-se?
Estava a fazer um grande Mundial até aí. Aquilo foi uma situação instintiva, de estar a jogar por Portugal e de querer ganhar os quartos de final do Mundial contra o Chile. Não sei, foi um instinto de querer dizer ao árbitro: “Estás a agir mal, acho que o meu colega não tem de levar vermelho”. Porque o Fábio Coentrão é que tinha sido agredido. Acabou por prejudicar-me muito.

Quando teve a real noção de que fez uma grande asneira? Foi logo a seguir?
Logo, não. Pensei: isto foi instinto, não vai dar nada. O mister José Couceiro apoiou-me 100%, a FPF na altura apoiou-me a 100%. Cheguei ao FCP, o presidente apoiou-me 100%, renovou-me o contrato por mais 3 anos, disse que confiava em mim. Só que, deixei de poder representar a seleção e era aquela fase de transição de sub20 para os sub21.

Apanhou 1 ano de castigo. Quando soube que durante um ano não podia representar Portugal o que sentiu?
Uma frustração enorme. Foi um ano de castigo que teve influência na minha carreira.

Sentiu-se injustiçado?
Sim, porque eu queria ajudar a minha seleção, ajudar os meus colegas. Mas, claro, aquilo que fiz não foi correto ainda mais no Mundial. O árbitro teve toda a razão do mundo para me expulsar.

Considera que um ano foi exagerado?
Se calhar foi tendo em conta o que já se tinha passado com algumas figuras da nossa seleção. Mas o que é que eu podia fazer? Continuar a trabalhar para ver se era chamado de novo à seleção. Depois de ter esse ano de suspensão nos sub20, que é uma transição para os sub21 e para a seleção A... sabia que era muito difícil voltar à seleção, tinha de fazer uma época fora do normal.

Zequinha guarda o diploma da suia primeira internacionalização

Zequinha guarda o diploma da suia primeira internacionalização

D.R.

É quando segue para o Penafiel emprestado pelo FCP.
Sim. Estava bem, mas acabei por não jogar muito. Acho que também ia um bocado com esse rótulo, não de ser o Zequinha que tem qualidade, mas de ser o jogador que tirou o cartão vermelho ao árbitro. A qualquer campo onde ia jogar, e era normal, os adeptos adversários começavam a falar daquela situação e eu ficava um pouco nervoso. Depois, os árbitros, à mínima coisa que fizesse, faziam logo mum “trinta e um” e acabavam por expulsar-me ou dar outro cartão. Acabei por não ter muitas oportunidades no Penafiel, não me correu muito bem.

Aconteceu mesmo em Gondomar na época seguinte?
Em Gondomar acabou por correr bem, porque o presidente foi uma pessoa que me ajudou muito, assim como o mister Nicolau Vaqueiro, agradeço-lhes muito. Penafiel e Gondomar eram equipas onde nunca julguei que fosse jogar, porque estás no FCP e pensas que nunca vais descer de tal forma - com todo o respeito por esses clubes que acabaram por ajudar-me a fazem parte do meu crescimento - mas nunca pensei. Mas o Nicolau Vaqueiro ajudou-me bastante, compreendeu a minha situação e acabei por jogar e fazer muitos jogos. Também apanhei um grupo com jogadores muito experientes, que ajudaram muito no meu crescimento.

Nessa altura tinha namorada ou vivia sozinho?
Tinha namorada, só que ela também acabou por se fartar, porque se calhar eu não tomava as melhores opções com ela. Ouvia muito os meus amigos e deixava-a de parte para andar com eles. Ela acabou por não aguentar e terminámos. Entretanto, a minha irmã Susana largou a escola e tudo para ir para junto de mim. A minha irmã hoje em dia é professora, orgulho-me muito dela, e naquela altura parou um bocado para ver se me conseguia endireitar. Mesmo assim não conseguiu.

Estava a desistir de si enquanto jogador de futebol e não conseguia ver isso?
Eu até conseguia ouvir as pessoas. Falavam e eu até dizia:“Ok, tudo bem, não vou fazer mais”. Era capaz de estar em casa e dizer, “hoje não vou sair, não vou fazer nada”. Depois ligava-me um, e eu “não”, depois outro, e outro, “vamos só um bocadinho”, eu ia e acabava por perder a hora e depois aconteciam essas situações de faltar aos treinos... Acabei por começar a sair do contexto que imaginava para a minha vida..

Zequinha(à direita) com Luis Figo quando foi chamado por Scolari para treianr na seleção A

Zequinha(à direita) com Luis Figo quando foi chamado por Scolari para treianr na seleção A

D.R.

Entretanto, saiu para o Gil Vicente.
E acabo por fazer uma época muito boa.

Apanha o João Eusébio...
… O João Eusébio e mais uma pessoa com quem eu hoje em dia tenho uma grande relação, porque já trabalhámos várias vezes, o professor Neca. Ele ajudou-me bastante, muito mesmo. No Gil Vicente, o professor Neca sabia que eu levava as coisas a sério, mas que de vez em quando ainda escorregava e ele conseguia compreender isso. Às vezes dizia-lhe: “Mister estou doente, não consigo ir treinar”. E ele já sabia o que é que se passava e dizia-me: “Quero-te bom para domingo”. Chegava a domingo e eu dava a vida por ele. Trabalhámos no Arouca e agora aqui no Vitória e agradeço muito ao professor Neca, por tudo.

Os seus pais no meio disso tudo como é que iam lidando consigo? Iam-lhe fazendo visitas para lhe dar na cabeça?
Sim, às vezes até faziam visitas sem eu estar à espera. Apareciam do nada para ver o que é que se passava. Mas o meu pai e a minha mãe trabalhavam de madrugada com o negócio do peixe, e também não era fácil para eles, porque tinham de criar dois sobrinhos meus que estavam lá em casa a viver, mais os meus irmãos, a minha outra irmã, éramos uns 7 ou 8 na mesma casa e eles é que nos criaram a todos. Também era complicado para eles largaram a vida toda por causa de mim, para me seguir, tinham outras bocas para alimentar.

Zequinha assina pelo FCP em 2004

Zequinha assina pelo FCP em 2004

D.R.

Quando foi para o Olhanense, estreia-se na 1ª Divisão com o Jorge Costa como treinador.
Sim. Quando caí nessas segundas ligas, nessas segundas B, sempre disse e pedi ao meu empresário, ao Amadeu, que tinha que ter uma oportunidade na 1ª liga, que sabia que ia dar a volta por cima e vencer. Disse-lhe que ia jogar meia época no Olhanense e depois ia para um dos grandes, que voltava para o Porto ou para outro grande. Fui para o Olhanense, há o Torneio do Guadiana e começo muito bem, não estava a sair à noite, jogava contra o Benfica, contra o Anderlecht e fui dos melhores do torneio, correu bem. Começou a sair nos jornais que poderia voltar novamente ao FCP e aí foi outra vez um grande problema. Comecei a pensar outra vez que ia para um grande, que ia voltar ao Porto e acabei novamente por voltar a escorregar, as companhias... O sair em todos os jornais, em todas as revistas , estava no Algarve… .

Tinha namorada?
Já estava com a minha mulher que ainda está comigo hoje. A Marcelly, é brasileira. Conhecia-a no Porto, ela trabalhava num restaurante onde eu ia comer muitas vezes. Ela acabou por me mudar um bocado.

Foi consigo para o Algarve?
Sim. O primeiro ano ainda foi um bocado atribulado, mas depois correu bem. É o que eu digo, comecei a mudar quando vi que já não dava mais e fui parar ao Fátima.

Nessa altura ainda era jogador do FCP ou já era do Olhanense?
Tinha mais três anos com o FCP, que ficou com 50% do meu passe, e eu acabei por rescindir com o FCP. Não sei se foi certo ou se foi errado, mas rescindi quando fui para o Olhanense. O FCP queria que eu fosse para a 2.ª Liga e, entretanto, fui para o Olhanense, porque o Jorge Costa também era do meu empresário.

Zequinha com a mulher e a filha

Zequinha com a mulher e a filha

D.R.

O Jorge Costa deu-lhe muito na cabeça?
Sim (risos), deu.

É ele que o manda para o Fátima?
Não. O Jorge Costa sai, eu faço a primeira época toda no Olhanense, fiz 20 e tal jogos. O Jorge Costa sai e entra o mister Daúto Faquirá, mas aí também já tinha tido problemas com o vice-presidente do Olhanense.

Porquê?
Por esses motivos, de sair, de às vezes ter problemas dentro do treino, de mandar bocas a ele ou a outro. Com os meus colegas sempre fui boa pessoa e toda a gente gostava de mim. Até hoje tenho amigos que jogavam lá comigo, o Rui Duarte, que foi meu capitão, o Guga, que jogou no Vitória de Guimarães e no Boavista, são amigos que levo para a vida. Em todos os plantéis geralmente fiz grandes amizades. Menos com o vice-presidente do Olhanense e acabei por ir para o Fátima - tinha mais dois anos de contrato com o Olhanense. Quando fui para o Fátima estive 6 meses a treinar à parte. Foi aí que comecei a ver que ou levava as coisas a sério no Fátima ou a carreira ia acabar. Ia ser mais um que ia parar à 3.ª divisão, à 4.ª divisão, e tinha de ir trabalhar, fazer qualquer coisa que não fosse o futebol.

Esse clique acontece no Fátima?
Quando caio no Fátima, o último classificado da 2.ª Liga, vi que já estava mesmo na última linha. Ou era agora ou ia ser complicado.

É o seu empresário que lhe aparece com a proposta da Grécia?
Sim. Saio do Fátima sem nada e o meu “chip” ainda não tinha caído completamente. Fui a discutir com ele desde Salónica até Larissa, que era uma hora e meia de caminho, a dizer-lhe que não queria jogar no estrangeiro, que queria voltar para Portugal, sendo que não tinha nada em Portugal, mais nenhuma equipa me queria. Diziam: “É muito bom jogador, tem boa qualidade mas aquela cabeça nunca vai dar jogador”. E eu mesmo assim fui a discutir com ele, a dizer que não queria, que não ia jogar ali. Depois, o Luís Boa Morte que estava lá disse: “Vais ficar aqui comigo e eu vou olhar por ti”. Foi aí. Aí deu-me mesmo o clique e faço uma grande época, ajudado pelo Boa Morte e pelo treinador Chris Coleman, que agora está na China. Ajudaram-me bastante, fiz uma grande época. Tornei-me num jogador de referência do Larissa, os adeptos adoravam-me.

Zequinha no dia da entrevista a Tribuna

Zequinha no dia da entrevista a Tribuna

José Fernandes

Como é que foi a adaptação à Grécia? Sabia inglês?
Não falava nada de inglês, mas ouvia o Boa Morte a falar; ele jogou muitos anos em Inglaterra e ajudava-me bastante. Estava lá outro rapaz, o Joël Tshibamba, que também falava inglês. O treinador era inglês, comecei a ouvir e hoje falo bem inglês.

Foi com a sua mulher?
Sim.

Já eram casados nessa altura?
Casámos no Algarve. A minha filha Yasmin, que já tem 9 anos, também nasceu lá.

É a única filha que tem?
É. Mas a minha mulher está grávida agora (risos).

Já sabem se é rapariga ou rapaz?
Ainda não. Precisa é de vir com saúde, isso é o mais importante.

Esteve duas épocas na Grécia. Do que gostou mais?
Eu acho que a Grécia é um bocado como Portugal. O clima é bom, as pessoas são acolhedoras.

Visitou as ilhas?
Sim, visitei porque também lá íamos jogar. Visitei Creta, só não cheguei a ir a Santorini.

Nessa altura não se perdeu com as noitadas?
Não, na Grécia só saía quando podia mesmo. No dia de folga, se ganhávamos, saíamos, não era durante a semana. Acabei por fazer uma grande época e acabei por adaptar-me bem.

SZequinha guarda um poster do primeiro regresso ao V. Setúbal já como senior

SZequinha guarda um poster do primeiro regresso ao V. Setúbal já como senior

D.R.

Histórias da Grécia, tem muitas?
Tenho várias. A primeira vez que andei de táxi, pedi para ir para o centro e o taxista olha para cima. Eles para dizer “não” olham para cima, mas eu não sabia. Ele não respondia só fazia aquilo com os olhos e não saía do mesmo sítio. Eu insistia, em inglês, que queria ir para o centro e ele nada, só mexia os olhos (risos). O Romeu, que ia comigo, já sabia mas não disse nada, aliás quando lhe perguntei o que se passava ele disse-me tens de falar várias vezes, senão eles não conseguem entender. Eu disse aquilo umas 4 ou 5 vezes e o homem não saía do mesmo sítio (risos). Depois, o Romeu acabou por explicar-me. O Romeu era tramado. Fez-me outra.

Conte.
Ele disse-me que árbitro em grego dizia-se "pusti", só que pusti quer dizer gay. Eu comecei a chamar o árbitro “ó pusti, pusti" e o árbitro começou a olhar para mim de lado. Só que como eu jogava numa equipa que teoricamente era das grandes ele não fez nada. Até que veio o capitão da minha equipa dizer-me: "Tu vais ser expulso se continuas a chamá-lo pusti. Pusti quer dizer gay" (risos). E o brasileiro farto de saber.

Não se vingou do Romeu?
Sempre fui jogador de fazer muitas partidas, ainda hoje faço.

De que género?
Chegava ao balneário e, como geralmente o brasileiros gostam de andar de meias brancas, cortava as pontas das meias deles e punha novamente dentro dos ténis. Eles quando iam vestir a meia, ficavam com os dedos à mostra (risos). Também punha Finalgon nas cuecas de colegas e eles ficavam com alguma ardência (risos). Hoje também me fazem partidas, brincam muito comigo.

Zequinha(com a bola) jogou pelo Arouca em 2015/16

Zequinha(com a bola) jogou pelo Arouca em 2015/16

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Ainda no Larissa as coisas acabaram por não correr muito bem na segunda época, sobretudo no que toca a pagamento, não foi?
Sim, no primeiro ano eles pagaram tudo certinho, no segundo ano o Chris Coleman foi-se embora porque nos últimos três meses começou a faltar o dinheiro. Eram ordenados muito elevados. Embora o presidente tivesse 5 casinos, acabou por não pagar. Só que eu sabia que ainda era muito cedo para voltar a Portugal, porque ainda não tinha limpado a minha imagem a 100%. Tive que mandar a minha família para cá porque não iam estar a passar dificuldades na Grécia. Preferia passar por elas sozinho. Elas vieram para Setúbal e eu acabei por estar seis meses na Grécia sem receber. Foi complicado. O Boa Morte tinha ido embora, todos tinham ido embora. Foi nessa altura que me chateei com o Amadeu Paixão.

Não voltaram a trabalhar e a falar um com o outro?
Hoje em dia falamos, mas naquela altura acabei por me desvincular dele porque estive seis meses sem receber, não tinha dinheiro e foi complicado para mim.

Como fazia?
Eu e dois argentinos com quem jogava, juntámo-nos os três e com o pouco dinheiro que tínhamos, um dia um comprava a comida, no outro dia era o outro. Tínhamos uma senhora, a Dona Zui, que nos ajudou muito; ela tinha uma confeitaria e dizia-nos para irmos lá comer ou se sobrasse alguma coisa ela guardava para nós.

Não tinha dinheiro de parte?
Sim, mas o dinheiro que tinha em Portugal era para a minha família, não podiam estar sempre a mandar-me mil euros porque eu sabia que ia fazer falta aqui. Chegou uma altura em que tivemos de vender as coisas da casa, lá na Grécia. Eram coisas do clube, móveis, televisão, tudo o que pudéssemos. Eu e os argentinos porque estávamos numa situação.. Passámos muitas dificuldades, não digo fome porque isso conseguimos desenrascar, mas foi uma fase complicada.

Depois do Arouca, Zequinha (à direita) vai jogar no Nacional da Madeira

Depois do Arouca, Zequinha (à direita) vai jogar no Nacional da Madeira

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Como surge o Panthrakikos?
Quando jogava no Larissa consegui fazer a diferença e tinha muitas equipas na Grécia interessadas. Só que pensei: “Estou há sete, oito meses sem receber, a primeira equipa que me aparecer em concreto, vou ter de assinar porque a minha família vai precisar do dinheiro, que o dinheiro também acaba. Depois de acabar a época mantive-me na Grécia, mesmo sem dinheiro, porque queria arranjar equipa, já que em Portugal não conseguia, estava sem empresário. Entretanto o Panthrakikos ligou-me e disse-me que ordenado não era muito alto, mas que me davam logo 15 mil euros de assinatura. Eu pensei: “É já”. Andei 6 horas de carro porque era na outra ponta da Grécia e acabei por assinar por eles. E pagaram-me sempre certinho.

Regressa a casa, ao Vitória de Setúbal. Quem o chama?
Estava no Panthrakikos, a época estava a correr-me bem. Entretanto muitos empresários ligam-me a dizer que podia voltar a Portugal, que tinham clubes, mas não era nada concreto. Até que me liga o mister Couceiro, que é um dos meus pais no futebol. Já tinha estado comigo naquele episódio da seleção, e ele perguntou-me "Como é que vês a possibilidade voltar ao Vitória?". Eu aí, para tudo. "mister, vou já, vou já agora. Vou falar com o clube a dizer que quero rescindir, por motivos pessoais quero ir para Portugal para estar com a minha família". Era o clube da minha terra, o clube do meu coração e onde sempre quis jogar no futebol sénior e nunca tinha tido essa oportunidade. Tinha subido aos seniores no Vitória, na II Liga mas não tinha tido oportunidade de jogar, porque depois fui para o FCP. Era o meu sonho.

Zequinha jogou no Atlético de Kolkata, da Índia

Zequinha jogou no Atlético de Kolkata, da Índia

D.R.

Ao longo da vida onde foi investido o dinheiro?
Comprei um apartamento em Setúbal onde vive agora a minha avó. Era um rés do chão, 1.º e 2.º andar, comprei logo as três casas. Sei que é um bom investimento.

Nunca se meteu em nenhum negócio?
Tenho um pequeno negócio mas do qual ainda não falo muito porque ainda o estou a tentar expôr. Tem a ver a ver com peixe, mas eu não estou relacionado diretamente com o negócio. Está o meu cunhado e a minha irmã. É um negócio de distribuição de peixe para alguns restaurantes.

Correu bem o regresso a casa?
Muito bem. Era um sonho, entrar no campo e ouvir as músicas que eu ouvia quando vinha ver o Vitória. O hino, a marcha do Vitória. Aquilo para mim foi uma coisa que só eu sei o'que senti. Uma emoção muito forte.

Os seus pais, orgulhosos?
Sim muito. O meu pai muito babado. Ele era uma pessoa muito eufórica, que via o Vitória como o topo do futebol para ele. Acabo por fazer uma época muito boa. Na época seguinte apanho o Domingos Paciência, faço uma grande época também, recebe o prémio de jogador da época. Salvo erros fiz 5 golos e 8 assistências. Depois surgiram vários convites, até de Angola, para ganhar muito dinheiro, mas acabou por não suceder. Também fui um bocado enganado nessa situação.

Porquê e como?
Porque o meu contrato ia acabar com o Vitória e acabei por não renovar para ajudar o Vitória, com a outra direção. Acabei por ser um bocado enganado, mas também não quero falar muito sobre isso. Eu podia ter saído livre e a querer ajudar o meu clube acabei por renovar o contrato para o Vitória ganhar dinheiro e as pessoas que estavam cá na altura acabaram por pedir mais dinheiro e acabou por não se concretizar.

Zequinha regressou ao V. Setúbal esta época 2018/19

Zequinha regressou ao V. Setúbal esta época 2018/19

Gualter Fatia

É por isso que vai para o Arouca?
Um bocado por isso sim, porque gostava do mister Quim Machado e de jogador da época, de ter feito uma época muito boa, acabo por deixar de ser opção de um momento para o outro. O mister Quim Machado disse-me: "Zequinha não estou a contar contigo". Não percebi porquê, sendo que era um dos capitães, um jogador que dava tudo pelo Vitória. O mister Vidigal acabou por ligar-me e dizer "Eles não te querem no Vitória, não consigo compreender, mas eu quero-te aqui no Arouca. Preciso de ti para me ajudar, para fazermos uma grande época". Falei com o Vitória, ninguém estava à espera que eu fosse embora, ninguém sabia. Andei aí numa correria no último dia do mercado, 11 e meia, meia noite, e acabei por ir para Arouca.

Foi sozinho?
Não, a minha mulher e filha foram comigo. A minha filha foi inscrita lá na escola. Fiz lá uma época e meia. Joguei com o mister Lito, acho que foi um dos clubes por onde mais gostei de passar.

Porquê?
Porque o presidente é uma pessoa que tem um coração muito grande. Desde o primeiro momento que me "namorou" um bocado, vamos dizer assim, gostava muito de mim. Ajudava-me muito. Disse mesmo: "Tu és dos meus, quero-te aqui". E eu senti-me muito bem. Foi muito bom para a minha família, para a minha mulher. Para juntar dinheiro é bom porque Arouca é muito pequenino, não se faz nada. Acabamos por fazer uma grande época, vamos à Liga Europa e fui muito bem tratado lá.

Então por que razão vem embora?
Porque na segunda época, tenho uma pubalgia e páro sensivelmente 2 meses. Deixei de ser opção, voltava e ressentia-me outra vez. Entretanto, já estava a trabalhar com o outro empresário, que é o Marco Caetano, que tem me ajudado bastante, temos uma relação mesmo de amizade, e ele diz-me que havia possibilidade de ir para o Nacional porque o presidente Rui Alves queria-me. Era uma nova etapa.

Antes de entrar em campo Zequinha costuma rezar junto da imagem de Nª Srª da Conceição, no estádio do Bonfim

Antes de entrar em campo Zequinha costuma rezar junto da imagem de Nª Srª da Conceição, no estádio do Bonfim

José Fernandes

Foi para a Madeira. A família também?
Não, porque a minha filha já estava na escola em Setúbal, porque na transição eu saí de Arouca e vim para Setúbal durante uns dias e ela foi inscrita aqui, em Setúbal. E para não andar sempre a trocá-la de escola, acabou por ir sozinho para a Madeira.

Adaptou-se bem à ilha?
Muito bem. Grupo bom, a ilha um espetáculo, fui muito bem tratado. Acabou a época por não correr muito bem porque quando cheguei o Nacional já estava na zona para descer, com muitos pontos de desvantagem e não correu bem.

É quando surge a possibilidade de ir para a Índia?
Sim.

Quando o seu empresário lhe fala da India qual foi a sua reação? Apetecia-lhe ir para fora novamente?
Quando ele me fala da Índia não queria muito ir. Era muito longe, ia ficar muito longe da família. Mas acabei por abraçar o projeto, porque em termos monetários era muito bons. O campeonato é fora do normal, muito bom mesmo. A liga das estrelas, tem cobertura inglesa por isso a organização é muito boa e grande. Foi muito bom e acho que um dia ainda vou voltar lá.

Também deve ter histórias para contar da Índia...
Os indianos têm a mania de arrotar alto e bom som e não pedem licença nem perdão. Não sei se é satisfação, mas nunca dizem perdão. Eu ia no táxi e o motorista "brrr" arrotava, mas a uma altura impressionante. E o espanhol dizia "puta madre", o espanhol fica doido (risos). Uma viagem de meia hora e eles arrotam e arrotam... . Mas mesmo os jogadores. Estávamos a viver no hotel todos juntos e eles arrotam de uma maneira... .

O que lhe fez mais confusão?
A pobreza. Muita. Acho que nós portugueses somos diferentes dos outros países, conseguimos lidar melhor com a pobreza do que os outros. Explicando isto de outra forma para ver se percebe. Eu jogava muito com ingleses, e eles não ligavam aos miúdos pobres e olhavam com indiferença e às vezes até com nojo. Eu não, eu tentava ajudar os miúdos de certa forma. Eles vinham para cumprimentar e eu cumprimentava-os a todos bem. Os ingleses não os tratavam dessa maneira.

A comida, muito picante?
(risos) Demasiado. Eu gosto muito de Tabasco, mas o picante deles é demais. Já tinha ido a restaurantes indianos em Portugal, mas acho que eles se adaptam a Portugal, porque lá mesmo o pouco picante é muito picante. Eles comem com uma tranquilidade e eu não conseguia, é muito forte. Até têm doces com picante.

Vivia num hotel?
Sim. A equipa toda morava num hotel.

Zequinha tem várias tatuagens dedicadas ao pai

Zequinha tem várias tatuagens dedicadas ao pai

José Fernandes

Como vem parar de novo a Setúbal?
O campeonato lá é de 6 meses. Nós não tivemos uma época muito boa. Éramos a equipa campeã da Índia e a época não correu como eles estavam à espera. Entretanto vim para cá, já estava há 4 meses parado, era para voltar à Índia mas as coisas acabaram por não correr como eu queria e surge aqui o Vitória, através do mister Lito Vidigal, do Sandro também, que era diretor desportivo. Falaram comigo e eu quando é o Vitória...Se tiver o Vitória e outras equipas, nem que seja por mais 1000 ou 2000 euros eu acabo por ficar aqui.

Este regresso foi especial, por causa do seu pai.
Sim. Eu falava sempre com o meu pai depois de todos os jogos. Sempre. E naquele dia em que não lhe ligo, tinha sido o jogo da Liga Europa, eu ainda estava no Arouca, não sei se era o nervosismo dele por ser o meu primeiro jogo europeu, ele acaba por ter um AVC. Eu acabo por ficar muito mal quando recebo a notícia depois do jogo. Vou para a Índia a pensar: "O meu pai sempre quis que eu voltasse a jogar no Vitória. Se eu algum dia tiver oportunidade..." O que eu já pensava que não ia acontecer, porque aos 32 anos estás na Índia e muito dificilmente vais voltar ao Vitória. Tinha feito essa promessa o meu pai ainda em vida, que ia voltar a jogar no Vitória e que se calhar até acabava aqui a minha carreira. Isto antes de ir para a Índia.

Naquele dia do jogo da Liga Europa não ligou ao seu pai porquê?
Estava fora do país e não consegui contatá-lo. E acho que foi também por isso que ele entrou em stress porque eu falava com ele em todos os jogos e nesse dia não consegui e não sei se são coisas do destino, mas ele acabou por ter aquilo. às vezes culpo-me um bocado por isso e não o devo fazer. Acho que estou aqui por ele, acho que que a força veio mesmo dele, lá de cima a dizer que tinha de voltar e foi o que aconteceu.

Zequinha já marcou pelo V. Setúbal esta época e dedicou o golo ao seu pai, cuja imagem tem tatuada no braço

Zequinha já marcou pelo V. Setúbal esta época e dedicou o golo ao seu pai, cuja imagem tem tatuada no braço

Carlos Rodrigues

Vai ser pai novamente. Quando?
Em outubro, a minha mulher só descobriu agora.

Gostava de ter um rapaz?
Obviamente. Tenho uma menina, gostava de ter um menino agora, para ver se vinha aí mais um Zequinha para dar uns toques na bola.

O Zequinha vem de família ou é no futebol que ganha o diminutivo?
O meu pai era conhecido pelo Zeca Canhoto, o Zeca Maluco, porque ele tinha um temperamento muito forte.

Parecido com o seu?
Mais do que o meu. O meu pai tinha um temperamento mais forte do que o meu. E eu como era o único filho homem dele, ele era o Zeca e eu o Zequinha. Nem gosto que me chamem José. Tem de ser Zeca ou Zequinha.

Zequinha com dois meios irmãos, a mãe e a avó

Zequinha com dois meios irmãos, a mãe e a avó

D.R.

Já pensou no pós carreira?
Quando chegamos a esta idade, depois dos 30, que eu acho que ainda somos novos, mas cá a mentalidade é a de que estás a ficar velho, já começas a pensar um bocado nisso. Eu penso o que é que vou fazer quando terminar a carreira? O que posso fazer no futuro? E é assim, eu tenho de ficar ligado ao futebol. Eu não vejo a minha vida sem o futebol. Este ano que vem vou querer começar a tirar o curso de treinador. Tenho mais um ano de contrato com o Vitória. Aos poucos, tiro o curso de treinador e depois se puder tirar mais algum curso dentro do futebol, vou tirar. Quero ficar dentro do futebol, seja como agente de futebol ou treinador. A minha vida sempre foi o futebol não consigo ver-me fora do futebol.

É supersticioso?
Sou. Dou um exemplo. Há pouco tempo falhou um penalti com umas botas vermelhas da Nike, nunca mais joguei com elas. E as botas eram novas. Até é raro treinar com elas. Tenho de jogar sempre com a camisola M, se for L já não me sinto bem. Se marco um golo com umas botas vou usá-las sempre, mesmo que estejam rotas. E sou crente. Antes do jogo rezo, peço ao meu pai para me dar a força que ele tinha, para mim, para eu jogar. Todas as noites antes de dormir, rezo. Não sou muito de ir à igreja, eu rezo à minha maneira. Todos os anos vou a Fátima, porque fui habituado desde pequeno pela minha mãe a ir a Fátima e assim continuei; levo a minha filha a Fátima. Não sou batizado pela Igreja, mas acredito em Deus e em N- Srª de Fatima, acredito nisso tudo.

Tem superstição com o número da camisola?
Sim, gosto de jogar com o 87 ou então com o 9. Tem que ser um dos 2. O 9 por causa do Ronaldo Fenómeno, e o 87 porque é o meu ano de nascimento e acho que é a melhor colheita de todas (risos).

Zequinha com o pai, o seu herói

Zequinha com o pai, o seu herói

D.R.

Quando fez a primeira tatuagem, porquê e qual delas é?
A primeira tatuagem já foi tapada. Ficou tão mal que já foi tapada (risos). Fiz com 16, 17 anos. Supostamente era a cara da minha mãe, mas parecia a Susan Boyle (risos). A sério. Acabei por tapar. Tenho muitas tatuagens, nos braços, costas, pernas, costelas, peito. Ainda não terminou. Mas todas têm um significado: ou são religiosas ou têm a ver com a minha família. Não faço por fazer. Só que agora já começam a faltar as ideias.

Qual a mais especial para si?
A do meu pai e que tem por baixo "Deus abençoe a minha família". Tenho a minha filha. A boca da minha mulher e a letra dela, porque ela ajudou-me a mudar, foi uma guerreira. Naqueles dois anos atribulados que tive com ela, ela conseguiu aguentar e não me largou e hoje em dia estamos muito bem, a cabeça é outra.

Sente que é uma pessoa diferente hoje?
Muito diferente. Com a mesma essência, o mesmo brincalhão, a mesma maneira de ser, mas totalmente diferente no sentido em que hoje em dia já pondero o que devo fazer e já sei separar o que devo fazer do que não devo fazer.

Não teve a carreira que sonhou apenas por sua causa?
Sim, atribuir as culpas só a mim, mais ninguém. Tudo fui eu. Tudo o que fiz fui eu. Podia ter sido diferente? Podia. Mas também podia ter sido pior. Eu faço o que sempre sonhei e ambicionei, continuei a minha carreira, estive na II liga mas depois fiz uma carreira bonita na I liga, com muitos jogos.

Qual é a frustração maior que tem?
É até agora não ter ganho nada pelo Vitória. É o que me falta. Podia ganhar uma Taça da Liga ou uma Taça de Portugal pelo Vitória que ia ficar realizado como jogador. E foi também o não ter dado seguimento à minha carreira na seleção. Porque jogar pela seleção é uma coisa fora do normal.

E isso não aconteceu por culpa sua também ou aí atribui culpas à FPF?
Culpa minha e também acho que a Federação foi um bocado pesada no castigo que me deu. Sabiam que eu era um miúdo e que fiz aquilo por instinto, queria ajudar a minha seleção, sendo que já tinha havido outras situações com o mister Scolari (que eu respeito muito, que me chamou à seleção para treinar), com o João Vieira Pinto, que foi um grande jogador de futebol, era um craque do futebol português, e eles não tiveram essas sanções que eu, que era um miúdo, acabei por ter. Acho que eles, como mais velhos, é que podiam ter dado o exemplo para os mais novos e acabei por ser eu o exemplo para os mais velhos e para os mais novos. Mas pronto. Foi o que foi.

Zequinha no estádio do Bonfim, no dia da entrevista a Tribuna

Zequinha no estádio do Bonfim, no dia da entrevista a Tribuna

José Fernandes

Qual foi a maior extravagância que fez?
Fiz muitas. Geralmente as minhas foram sempre com amigos fora do futebol, cheguei a gastar três mil, quatro mil euros numa noite. Isso é impensável para qualquer pessoa. Gastar quatro mil euros numa noite não é fácil. Eu chegava a gastar em 15 dias sete mil, oito mil euros. O dinheiro sai muito fácil. E depois tinha que andar a pedir aos meus pais. Fazia viagens para o estrangeiro e pagava aos meus amigos todos. Tenho muitos amigos da Bela Vista que andavam comigo na escola, a morar comigo no Porto e a gastar dinheiro à vontade.

Nunca se meteu em drogas?
Graças a Deus, não. Eu explico porquê. Eu tive uma irmã muitos anos na droga. E isso fez-me pensar. Oportunidades não me faltaram, amigos a fazer à minha frente e ao meu lado sempre tive. Tenho amigos que hoje em dia o fazem, mas eles são como são. Nunca o quis fazer, eles também nunca me disseram para experimentar, mas eu se quisesse podia ter experimentado que eles não me iam dizer que não. E eu nunca fui de experimentar porque a minha irmã andou muitos anos na droga, abandonou os meus sobrinhos porque estava tão perdida que não sabia o que havia de fazer. E eu disse que não queria isso para a minha família e não quero esse desgosto para os meus pais; sendo que o meu pai já teve esse desgosto e teve de criar os meus sobrinhos. Eu afastei-me das minhas irmãs desde o falecimento do meu pai, porque vi que, se calhar, elas não foram as mais corretas com ele ou com a memória dele e afastei-me.