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A casa às costas

Targino: “Devia ser 'mais filho da mãe'. Devem-me dinheiro, andam em bons carros e agora que estou numa situação difícil não me atendem”

Alexandra Simões de Abreu

José Fernandes

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Nasceu em Portugal mas é filho de brasileiros. Os seus pais vieram para cá porquê?
Os meus pais são de João Pessoa, Paraíba, nordeste brasileiro. O meu pai era jogador de futebol e com 18 ou 19 anos recebeu uma proposta do Portimonense. A minha mãe já estava com o meu pai e vieram os dois para Portugal, em meados de 1972 ou 73, se não me engano. Sei que os meus pais viveram o 25 de abril, a revolução, cá. São dos poucos brasileiros que podem contar essa história na primeira pessoa.

O Targino nasceu em Beja.
Exatamente. Quando o meu pai veio jogar para o Portimonense, a minha mãe já estava grávida. Em Portimão nasceram dois irmãos, o Luís, que tem 44 anos, e a Alexandra, que tem 42. Entretanto o meu pai foi para o Olhanense e nasceu a minha outra irmã, a Natália. O meu pai acabou a carreira no Desportivo de Beja e foi aí que eles me fizeram [risos], sou alentejano.

Quando nasceu, o seu pai ainda jogava?
Acho que o meu pai ainda jogava e a minha mãe trabalhava numa pastelaria. Entretanto na fase final da carreira o meu pai já não ganhava tanto dinheiro, não se conseguiu gerir a questão do dinheiro e acabámos por cair numa situação mais difícil, por isso acabei por crescer num bairro social em Beja, no Texas. Uma vez saiu uma reportagem numa revista a falar do meu bairro: “Texas, o bairro sem cowboys” [risos].

Tiago (ao colo) com os três irmãos, Luis, Alexandra e Natália

Tiago (ao colo) com os três irmãos, Luis, Alexandra e Natália

D.R.

Começou por jogar então nas ruas do bairro.
Sim, o bairro era ao lado do hospital e o hospital tinha um campinho de futebol de cinco, onde todos os dias íamos jogar: ciganos, pretos, todo o pessoal do bairro ia jogar para lá. Foi aí que começou.

Não se lembra de ver o seu pai jogar?
Não. Sei que quando nasci ele ainda jogava no Moura, mas eu era muito pequeno.

Depois de deixar de jogar, o que fez o seu pai profissionalmente?
Ainda esteve ligado ao Desportivo de Beja e foi trabalhar como contínuo numa escola.

A propósito, gostava da escola ou nem por isso?
Eu gostava de ir para a escola, mas sei que não era um aluno muito atento. Levava sempre uma bola para a escola. Muitas vezes esvaziava a bola em casa para disfarçar, chegava à escola e enchia a bola para a minha mãe não ver que eu levava a bola [risos].

Algum dos seus irmãos jogava futebol?
Não, o meu irmão não costumava jogar à bola, mas as minhas irmãs eram atletas, faziam atletismo. Eu fui mais direto para a bola, desde pequenino. Sempre com o apoio da minha mãe. Aonde ia jogar no distrito de Beja, a minha mãe ia comigo, sempre que podia.

TiagoTargino com a mãe

TiagoTargino com a mãe

D.R.

Com que idade é que entra para o Desportivo de Beja?
Com oito ou nove anos.

Como é que lá vai parar? Foi alguém que o descobriu, foram os seus pais que o levaram?
O Desportivo de Beja era a equipa que naquele tempo ia buscar os melhores jogadores de todo o distrito e, do meu bairro, fomos para aí uns 20. Com o passar dos anos, uns iam desistindo, outros não tinham jeito, eu fui aguentando.

Nessa altura jogava em que posição?
Eu era o número 10. Havia o Luís Aurélio na esquerda e o irmão, o João Aurélio, na direita. São dois jogadores que também vieram das escolas do Desportivo de Beja e que passaram pelo Vitória de Guimarães, pelo Moreirense também.

Quando era pequenino e começou a ter noção do futebol, torcia por que clube?
Eu fui sempre do Sporting quando era miúdo, porque o meu pai era do Sporting, o meu irmão era do Sporting, a minha mãe não tem clube. Torcíamos pelo Sporting.

Vai fazendo a sua formação no Desportivo de Beja. E a escola, quando acaba?
Vou mantendo a escola até ao 9º ano. Consegui chegar ao 10º mas não acabei.

Tiago no balneário do Clube Olímpico do Montijo

Tiago no balneário do Clube Olímpico do Montijo

José Fernandes

Como passa do Desportivo de Beja para o Vitória de Guimarães?
Foi através do José Romão, que era treinador e que é de Beja. O irmão dele, que também se chama Romão, trabalhava nas camadas jovens do Desportivo de Beja. Ligaram ao José Romão a perguntar se eu podia ir treinar ao Vitória de Guimarães, no primeiro ano de juvenil. Era iniciado mas fui logo para os juvenis. Eles disseram: “Sim, traz o miúdo”. Fui com o meu pai, que nunca tinha tido carro, nem carta, fomos os dois de autocarro de Beja a Guimarães, com a esperança de poder realizar o meu sonho, que era jogar numa equipa como o V. Guimarães.

Nunca quis ser outra coisa além de jogador de futebol?
Queria ser astronauta, tinha esse sonho, até um dia perceber que tinha um bocadinho de jeito para o futebol e que se me esforçasse conseguiria ser jogador. Quando chego a Guimarães, havia miúdos de todo o lado do mundo, não era só de Portugal, eram uns 60 miúdos logo na primeira semana.

Lembra-se do que sentiu quando lá chegou?
Lembro. Senti que iria ser muito difícil, que provavelmente no meio de tanta gente a minha sorte iria ser mínima. Mas como cresci num ambiente difícil, vim de um bairro, os meus pais também tinham saído do Brasil à procura do sonho, isso fez com que eu conseguisse fazer algo mais. Sabia que tinha qualidade mas isso era em Beja. Quando cheguei a Guimarães, vi que era outro nível e percebi que se calhar a minha qualidade não bastava, tinha de trabalhar, tinha essa noção. Tinha de fazer algo mais para poder convencer e vencer.

O que recorda da sua infância e adolescência? Quando se fala do bairro Texas qual é a primeira coisa que lhe vem à cabeça?
O companheirismo, a amizade, a união, a entreajuda.

Os seus pais andavam muito em cima de si?
A minha mãe sempre foi muito mais presente. O meu pai dizia à minha mãe e a minha mãe é que me dizia tudo. A minha mãe sempre esteve mais em casa do que o meu pai, que era contínuo na escola, mas, depois do trabalho, ia ter com os amigos, por isso eu acabava por estar mais junto à minha mãe.

Viveu situações complicadas, perdeu amigos para a droga?
Com certeza. Cresci a ver esse tipo de coisas. Todos os dias, à minha frente. O que me rodeava era mais ou menos isso, mas eu nunca peguei num cigarro na minha vida, porque tinha um objetivo. O meu padrinho inclusive morreu o ano passado por causa de droga e de vícios. É uma pessoa que recordo, nunca me esqueci dele. Muita gente tem vergonha de dizer, mas eu nunca tive vergonha de dizer que ele era o meu padrinho. Os pais desse meu padrinho morreram de desgost,o porque muitos dos seus filhos estavam envolvidos nesse tipo de coisas. Eu sabia que esse não era o caminho e graças a Deus os meus pais e os meus irmãos sempre tiveram a sorte de nunca se terem metido em drogas. Não têm vícios. O apoio dos meus pais foi fundamental. Porque poderia ter caído também, tinha tudo ali de mão beijada.

Tiago (2º em baixo à direita) no clube Desportivo de Beja onde fez a sua formação

Tiago (2º em baixo à direita) no clube Desportivo de Beja onde fez a sua formação

D.R.

Quando vai com o seu pai para Guimarães, ficam lá quantos dias, nessa primeira fase?
O meu pai só podia ficar uma semana. Disse-me logo: “De ficares, ficas, mas eu vou-me embora. Se não ficares, descemos os dois”. Quando lá chegámos ficámos num apartamento, o Guimarães disponibilizou tudo, e eu ainda nem sequer tinha assinado ou sabia que ia ficar. Comíamos numa cantina, deram-nos tudo e mais alguma coisa e ninguém me conhecia. Entretanto consegui passar essa semana, o meu pai teve de ir embora e fiquei lá sozinho.

Custou.
Aí é que vi que me custava ainda mais. Estava habituado à minha família, era uma criança, ainda ia fazer 15 anos.

Ficou mesmo sozinho?
Fiquei com os outros rapazes que tinham ultrapassado a primeira fase. Dois cabo-verdianos, um açoriano e um de Viana do Castelo.

O que faziam quando não estavam a treinar?
Íamos passear para o shopping, andávamos por lá a brincar. A gente jogava à bola no parque antes dos treinos, chegávamos aos treinos praticamente com o aquecimento feito [risos].

Quem é que lhe anuncia que o Vitória de Guimarães quer ficar consigo? Quando acontece?
Na primeira semana éramos 60, na segunda 30 e depois havia aquela fase final em que já éramos muito menos. Desses 60 acabaram por ficar só dois jogadores, eu e outro rapaz que era de Felgueiras, o Vítor. O treinador na altura era o mister Vítor Baptista. Ele chama-me, eu tinha ficado para último. Fiquei para último porquê? Normalmente os que ficam para último são mandados embora, pensava eu. Tinha na cabeça isso, se vou para último é porque não fico. Ele entra no balneário, chama-me, vira-se para mim e pergunta: “Miúdo, tens telemóvel?”; “Sim, tenho”; “Tens saldo?”; “Acho que tenho”; “Então liga para a tua mãe e avisa que vais ficar por Guimarães”.

E?
Fiquei todo contente, peguei no telemóvel: “Mãe, fiquei”. Ela começou logo a chorar de tristeza mas ao mesmo tempo de alegria [risos]. Ia sair de casa mas ao mesmo tempo ia concretizar o meu sonho.

Depois quem é que tratou do seu contrato, foi o seu pai?
O V. Guimarães ligou à minha família para assinar uns papéis por causa do termo de responsabilidade, para poderem tratar das minhas coisas, da minha escola, da minha alimentação, de onde ficava. A partir daí foi o V. Guimarães que cuidou de tudo.

Tiago (e braço no ar) com colegas do Desportivo de Beja

Tiago (e braço no ar) com colegas do Desportivo de Beja

D.R.

Nessa altura recebe algum dinheiro?
Sim. 350 euros, com 15 anos.

Como gastava o dinheiro?
Eu gastava o dinheiro todo em roupa. Como sabia que tinha água e pão, eu e os meus colegas mal recebíamos íamos logo gastar o dinheiro todo em roupa e íamos ao cinema. Palhaçadas.

Estoirava o dinheiro todo de uma vez ou conseguia fazê-lo render durante um mês?
Não, não conseguia. Comprava duas ou três t-shirts, umas calças, umas sapatilhas e ficava sem nada [risos]. Tínhamos a cantina, um passe para ir à escola e tínhamos onde dormir…

Em Guimarães vai para que ano de escolaridade?
Para o 8º ano, já tinha chumbado alguns anos em Beja.

Por faltas?
Sim. Eu justificava, tínhamos uma caderneta verde, mas depois era sempre apanhado pela minha mãe [risos].

E ela?
Ficava lixada comigo. Gritava comigo.

Tiago Targino (à esquerda) no V. Guimarães

Tiago Targino (à esquerda) no V. Guimarães

MIGUEL RIOPA

Quando é chamado a primeira vez à seleção?
Foi no primeiro ano de juvenil, que foi muito difícil para mim. Estava longe dos amigos, longe daquilo a que estava habituado, que era o meu bairro, sou alentejano... Era um mundo completamente diferente. Beja e Guimarães não têm nada a ver uma com a outra, são cidades completamente diferentes.

Qual a maior diferença para si?
Guimarães é uma cidade viva, que vive um clube, o Vitória, as pessoas são mais ativas. Em Guimarães respira-se futebol, não estava habituado a essa pressão. Vinha de um clube humilde, do Desportivo de Beja, éramos uma família. Em Guimarães conheciam-me na rua desde os juvenis, já sabiam quem eu era. Já sabiam que aquele ali é jogador do Vitória. Nos juvenis já tínhamos claque a ver os jogos, a apoiar. Já tínhamos um controle muito grande na altura.

De que forma é que essa pressão o afetou?
O que me afetou mais não foi a pressão, foi a falta que sentia da minha família e dos amigos de infância.

Não fez novos amigos?
Fiz mas é completamente diferente, porque no bairro crescemos juntos. Em Guimarães, dois eram de Cabo Verde, falavam mais em crioulo do que propriamente em português e eu não percebia nada. Depois havia um açoriano que falava português mas eu não percebia nada na mesma [risos]. Eu alentejano brasileiro, era uma mistura de raça, era difícil no início para nos percebermos uns aos outros [risos]. No segundo ano já foi mais fácil, porque começámos a evoluir, a conhecer tudo melhor.

Organizavam-se bem no apartamento?
Sim, porque tínhamos sido instruídos, tínhamos um plano que o clube fazia e que todas as semanas tínhamos que cumprir. Tínhamos as horas de almoço, horas de jantar, etc. Também andavam sempre em cima das aulas. Eu cheguei até ao 10º ano. Como estava a dizer, não foi nesse primeiro ano que fui chamado à seleção, foi no segundo ano de juvenil.

Qual foi a sensação quando lhe disseram que tinha sido convocado?
Não acreditava, pensava que estavam a brincar comigo. Porque desde criança que sonhava um dia jogar com a camisola da seleção.

Quem eram os seus ídolos quando era criança?
O Ronaldo, o fenómeno, depois o Ronaldinho e o Figo.

Foi convocado para a seleção de sub-17?
Sim. Depois fui convocado para o jogo e por incrível que pareça foi no Alentejo, contra a Grécia, onde tive a oportunidade de jogar a titular e de fazer um golo na minha estreia. Se não me engano ganhámos 2-0. Depois fui ao Torneio de Toulon.

Tiago (à esquerda) a seleção de sub-21 durante o Torneio de Toulon

Tiago (à esquerda) a seleção de sub-21 durante o Torneio de Toulon

ANNE-CHRISTINE POUJOULAT

Estreia-se na equipa principal do V. Guimarães com o Manuel Machado.
Exatamente. Em 2004/05, no primeiro ano de júnior. Eu era um dos que ia muitas vezes treinar à equipa sénior, lembro-me que já fazia muitos golos na equipa júnior e eles chamaram-me. Acabei por ficar a treinar só com a equipa sénior. Estreei-me contra o Penafiel.

Gostou de Manuel Machado?
O professor Manuel Machado deixa-me sempre muito à vontade. Tratava-me por miúdo, não era um treinador que estava constantemente a ralhar ou a gritar comigo. Isso era mais a função dos adjuntos. O Basílio, que era o adjunto do Manuel Machado, é que estava constantemente atrás de mim, não se calava.

Porquê?
Porque sabia que eu era um pouco distraído. No futebol diz-se de uma pessoa assim que é “um sono”. Se não estivessem sempre em cima de mim parecia que estava a dormir. Mandavam-me fazer uma coisa, ir para a esquerda e eu ia para a direita, diziam para eu dar para a direita e eu dava para a esquerda. E logo desde o início começaram a dar-me na cabeça para ver se eu evoluia. Chateava-me mas sabia que era bom para mim.

Era desleixado?
Era distraído. Eu no fundo não acreditava que estava na equipa sénior do Vitória de Guimarães. Não tinha a noção que hoje em dia tenho. Não tinha a noção de onde estava. Não sei explicar, mas não tinha a noção. Não sei se foi por ter conseguido chegar muito rápido a uma equipa como o Vitória.

Deslumbrou-se ao ter conseguido chegar a uma equipa como o Vitória?
Não é deslumbrar porque consegui manter-me na equipa sénior durante muitos anos. Mas eu tinha de acordar para continuar a merecer a aposta que tinham feito em mim. Mas só tenho essa noção agora.

No V. Guimarães teve vários treinadores: Jaime Pacheco, Vítor Pontes, Luís Norton de Matos, Manuel Cajuda, Nelo Vingada, Paulo Sérgio, Rui Vitória... De todos, quem o influenciou mais?
Vou ser sincero, e isto não é “puxar o saco”, como se diz, mas gostei e retirei um bocadinho de todos. E não me lembro de nenhum treinador que não tenha gostado de mim. O único treinador com quem tive problemas foi com o Manuel Cajuda, mas foram problemas que fui eu que os criei, porque era um pouco boémio, para ser sincero.

Tiago (à direita) com Yannick Djalo, na seleção de Sub-20

Tiago (à direita) com Yannick Djalo, na seleção de Sub-20

D.R.

Muitas noitadas?
Eu ia com o pessoal, mas muitas vezes não era o momento certo. Por exemplo, eu às vezes saía depois do jogo, mas depois de uma derrota as pessoas levavam a mal. As pessoas do V. Guimarães não admitem, ninguém admite, mas eu não tinha noção.

Tinha quantos anos?
18. Havia coisas que eu tinha noção de que não podia fazer e fiz. Eu era uma pessoa conhecida e mesmo que estivesse a beber água as pessoas olhavam para ali como se fosse álcool. Eu não podia me expor. Quem ouve falar parece que eu ia todos os dias mas isso é mentira. Só que cada vez que ia era comentado por imensa gente. Nunca me apontaram o dedo por falta de trabalho, por falta de empenho, por ser um jogador que ia para lá só por ir, não. Nesse aspeto, e toda a gente sabe, mesmo hoje em dia, os adeptos mandam-me mensagens e falam comigo e sabem que eu dentro de campo sempre cumpri e era uma mais-valia.

Estava a dizer que guardou um bocadinho de cada treinador, mas consegue, por exemplo, dizer quem era o mais chato?
O Jaime Pacheco. Eu sei que ele gostava muito de mim. Gostava demasiado de mim. Não era só treinador, era um amigo, ligava-me, perguntava como eu estava. Mas nunca me elogiava. Estava sempre a dar-me na cabeça. Hoje tenho a noção que era para me empenhar mais e puxar por mim. Na altura não percebia. Perguntava-me a mim próprio: "Porque é que ele me diz estas coisas? Porque é que me estava a chatear tanto, será que fiz alguma coisa de errado?"

Com quem aprendeu mais a nível técnico-tático?
Aprendi muito com o Paulo Sérgio. Foi na altura em que eu tinha vindo de fora, depois de ter estado emprestado, em que já pouca gente acreditava no meu valor. O Paulo Sérgio deu-me um boost.

Vamos aos empréstimos. Primeiro vai para a Turquia, para o Manisaspor. Porquê?
Por causa dos problemas com o Cajuda.

Tenho informação de que foi expulso de um treino pelo adjunto do Cajuda, o Rui Nascimento, por ter respondido mal a um colega. Lembra-se disso?
Sinceramente não. Isso são coisas que acontecem constantemente no futebol, um jogador pode estar num dia menos bom. Mas honestamente não me lembro desse episódio. A má relação com o Cajuda era mais por eu ser boémio.

Chegava atrasado aos treinos?
Não. Eles ouviam dizer que eu tinha ido sair e não gostavam. Era mais por causa disso.

Nessa altura ainda dividia apartamento com colegas de equipa?
Não. A partir do momento em que fui para os seniores o V. Guimarães deu-me logo um apartamento. Já recebia mais um bocadinho, já podia estar mais à vontade.

Tiago a equipar-se para mais um treino do Olímpico do Montijo

Tiago a equipar-se para mais um treino do Olímpico do Montijo

José Fernandes

Voltando ao empréstimo. É emprestado porquê?
Eu jogava pouco, tinha um contrato longo e queriam que eu rodasse e jogasse mais.

Tinha empresário na altura?
Tinha, era o Dinis Fontão. Era de uma empresa dinamarquesa, ele era um dos representantes. Mas o meu primeiro empresário foi um intermediário da Gestifute, de Jorge Mendes. Apresentaram-me uma proposta do Dínamo de Moscovo. Ainda estive com a equipa, que estava cá em estágio, mas entretanto o negócio não se concretizou.

Porquê?
Eles viram que eu tinha muito valor e o V. Guimarães aproveitou-se também para ganhar mais dinheiro e entretanto o negócio acabou por não acontecer. Depois disso saí da Gestifute.

Por causa disso?
Não. Não sei, saí da Gestifute feito parvo. Hoje admito que foi um dos maiores erros que cometi. Nunca devia ter saído de uma empresa como a Gestifute. Na altura era um miúdo, fui aliciado, os outros começaram a dizer: "Eles não te ligam, só ligam ao Quaresma e ao Ronaldo, tu vais ser mais um a quem não vão ligar". E eu estupidamente dei ouvidos. Sei que isso é mentira, porque a Gestifute tem uma equipa grande e dão atenção a todos os jogadores. Mas na altura fui aliciado e não pensava assim.

Os seus pais não o aconselhavam?
Eles perguntavam só se estava bem, se precisava de alguma coisa. Eu dizia sempre que estava bem, mesmo quando estava mal.

Mas então como surge o Manisaspor?
Entretanto surge essa proposta, esse empresário, Dinis Fontão, que me diz que era um contrato como eu nunca tive na vida. Ia ganhar quase 40 mil euros por mês. Ou seja, umas 15 vezes mais. Eu, com 21 anos, nunca pensei, nem acreditava que era aquele valor por mês [risos]. Eram umas condições top.

Foi sozinho para a Turquia?
Fui com o meu empresário, assinámos e depois fiquei sozinho. Estava lá só um jogador português, que era o Zé António, e estavam dois brasileiros.

Como fazia para comunicar? Acredito que o seu inglês não era bom na altura...
Tínhamos um tradutor, que era como nosso irmão. Andava sempre connosco. Na altura o meu inglês era zero.

Já tinha carta e carro?
Sim.

Qual foi o seu primeiro carro?
Um Mercedes C220, azul. Tinha 20 anos. Fui eu que comprei.

Nunca se estampou com o carro?
Nunca. Lembro-me que quando comprei o carro tinha mais oportunidade de ir a Beja e eu não ultrapassava camiões. Fui de Guimarães até Beja sem ultrapassar camiões porque tinha medo [risos].

Tiago (à direita) com Miguel Veloso

Tiago (à direita) com Miguel Veloso

D.R.

Quando chega a Turquia como foi o primeiro impacto?
Era um mundo completamente diferente. Tanto a nivel gastronómico como cultural, religioso, as casas... Só pensava: onde é que eu estou?

O que mais o chocou?
Estarmos a treinar e de repente pararem o treino para rezar. Os cristãos - éramos 4 - ficavam à espera. Era uma cidade pequena, muito religiosa, havia por toda a cidade altifalantes e de 5 em 5 horas ouvíamos o chamamento.

Quando não estava a treinar, o que fazia?
Quando lá cheguei deram-me logo uma casa com três andares e eu tinha medo. Os quartos eram no último andar e eu ficava quase sempre na sala porque tinha medo de ir lá para cima [risos], estava sozinho. Eu estava habituado a ver um ou dois sofás em casa e lembro-me que quando cheguei a essa casa havia sete sofás na sala [risos]. Chamava amigos meus de Portugal e uma das brincadeiras que fazíamos dentro de casa era saltar em cima dos sofás [risos].

Esteve quanto tempo no Manisaspor?
Seis meses, meia época. Quando acabou voltei a Guimarães para a pré-época mas como o Cajuda ia continuar no Vitória, fui emprestado novamente.

Vai parar à Dinamarca.
Sim, ao Randers. Uma cena completamente diferente. Foi do oito ao 80. Foi tudo ao contrário da Turquia, tanto a nível cultural como do tempo. Muito frio. As pessoas mais frias. Um país só de brancos, praticamente, até tive um bocado de receio. Mas posso dizer que foi dos países onde me senti melhor a jogar à bola.

Nunca foi vitima de racismo?
Não. Muito pelo contrário, acho que ali era mais bonito do que em Portugal, por causa da minha cor e da minha maneira de vestir.

Gostou de Randers?
Muito. Vim de Beja e quando cheguei a Randers, no fundo, senti-me em casa, porque também era uma cidade pequena, não tinha grandes shoppings.

Também foi sozinho?
Sim. Também tive lá amigos de vez em quando.

O futebol muito diferente da Turquia?
Um futebol muito mais agressivo, muito mais físico. Na Turquia, o futebol é muito parecido com o de Portugal, mas com menos qualidade. Curiosamente foi mais difícil para mim adaptar-me à Turquia e ao futebol turco do que ao dinamarquês.

Porquê?
Foi a primeira experiência no estrangeiro e a língua dificultava, porque a maioria não falava inglês. Enquanto na Dinamarca, apesar de ainda não falar inglês muito bem, tinha mais facilidade em compreender.

Esteve quanto tempo na Dinamarca?
Um ano.

Do que gostou mais e menos?
Gostei do profissionalismo e organização deles. A forma como gerem o futebol. Há muita organização e são muito profissionais. É naquele dia que a gente recebe é naquele dia que está lá o dinheiro.

Foi receber mais ou menos do que na Turquia?
Menos. Se tivesse de receber menos e não ter ido para a Turquia, se calhar tinha ido para a Dinamarca primeiro, porque hoje sei que o dinheiro não é tudo. Do que gostei menos na Dinamarca foi do tempo. Sou filho de brasileiros e vim do Alentejo, gosto do calor [risos].

Tiago esteve no Rangers da Dinamarca

Tiago esteve no Rangers da Dinamarca

Lars Ronbog

Voltou a Guimarães.
Sim, voltei já com outro estofo, porque essas experiências fora fizeram-me crescer e acordar um bocadinho para a vida.

De que forma?
Eu sabia que para ser emprestado algo de errado eu tinha feito. Houve uma altura em que desliguei completamente, já não estava a levar as coisas tão a sério e no futebol não se pode adormecer, principalmente no nível em que estava e no clube em que estava. Não se pode facilitar. E eu facilitei. Ter sido emprestado deu para pensar mais em mim, corrigir os meus erros e ver o que tinha de fazer para ter mais uma oportunidade.

Houve alguma situação ou alguém que tivesse ajudado a esse “abre olhos”?
Apesar de ter sido emprestado, o Guimarães esteve sempre comigo, atento a todos os meus passos, se eu estava bem, se precisava de alguma coisa. Preocupavam-se comigo. Quem me ligava sempre era o Flávio Meireles, o Moreno e o Alex, que ainda estão no clube, na parte técnica. Eles ligavam-me: "Então miúdo, como é? Tens jogado, não tens jogado? Como é que estás? Saudades tuas". Esses é que faziam com que eu continuasse a acreditar que ia voltar e vingar no V. Guimarães.

Quando volta quem estava à frente do V. Guimarães?
Ainda estava o Manuel Cajuda [risos]. E eu pensava: se ele não me quis não vai querer agora. Fiquei um bocado triste na altura. Entretanto eu estava de férias, à espera que me ligassem, quando soube pelos jornais que o Cajuda tinha sido despedido. Não tenho nada contra o mister, apesar de tudo, tinha a noção de que tinha cometido erros, mas é verdade que fiquei contente por ele ter ido embora, porque se calhar ia abrir-me uma porta.

E foi o que aconteceu.
Sim, o Nelo Vingada deu-me essa oportunidade. Mas eu não era para ser jogador do Vitória, era para ser emprestado na mesma, porque o diretor desportivo que estava lá não me queria. Lembro-me de terem ligado a dizer que no dia X tinha de me apresentar. Nesse dia, saí de Beja direto a Guimarães. Pouco depois de passar Lisboa ligam-me a dizer que não era preciso ir, que tinha de me apresentar noutro dia porque não ia fazer parte do plantel, ia ser emprestado novamente. Comecei logo a chorar, triste, mas tinha de cumprir as regras. Um quarto de hora depois ligam-me outra vez a dizer que tinha de me apresentar porque tinha sido convocado para a seleção e tinha de ir treinar, que me iam dar essa oportunidade.

Foi chamado para que seleção?
Para os sub-21, se não me engano, o selecionador era o Rui Caçador.

O V. Guimarães volta atrás porque foi convocado para a seleção. É isso?
Acho que sim. O Nelo Vingada também esteve muitos anos na seleção e estavam todos muito ligados. Passei de dispensável a indispensável. Eles também não imaginavam o quanto eu estava preparado, porque na Dinamarca eles trabalhavam muito o físico.

Tiago Targino com a mãe

Tiago Targino com a mãe

D.R.

O Nelo Vingada fica pouco tempo no V. Guimarães e vem o Paulo Sérgio.
Sim, treinador com quem aprendi muito, como já disse, porque ele trabalhava muito o que eu precisava. Eu fazia muitos treinos sozinho. Treinávamos de manhã e eu ia muitas vezes à tarde treinar sozinho aquilo em que era mais débil. Aí comecei a ser mais jogador.

Qual era a sua maior debilidade?
Era um jogador que me agarrava muito à bola, driblava e não era muito objetivo. E comecei a ser muito mais objetivo e o futebol moderno é assim.

Quando está a melhorar a olhos vistos tem a lesão que acaba com o sonho.
É verdade. Uma rutura de ligamentos cruzados no joelho esquerdo. Estive 10 meses parado. Regresso ao V. Guimarães com o Manuel Machado.

Antes disso, fale lá do acordo com o Benfica.
No dia do jogo contra o Benfica, no final do jogo, eu ia assinar pelo Benfica. Estava tudo acertado entre o meu empresário, Dinis Fontão, e o Rui Costa. Eles não me tinham apresentado os valores ainda, mas sabia desse acordo. Estava entusiasmado, porque sabia que tinha vindo de dispensável para indispensável. E é nesse jogo que tenho a lesão, no estádio da Luz.

Percebeu logo que era grave?
Não. Eu lesiono-me sozinho. Era o Coentrão que me estava a tapar, há uma bola no ar, eu salto, o meu pé de apoio entretanto escorrega e caio em cima do outro pé e é aí que acontece a rutura. Na altura tive uma dorzinha, saí, eles meteram-me aquele spray milagroso, não queriam que eu entrasse, mas eu disse que estava bom. Entrei, ainda foi o golo do Nuno Assis, entretanto fomos para o meio-campo, a bola a rolar e o primeiro passo que eu dei, parece que a minha perna desmoronou. Aí é que percebi que algo se passava, porque eu nunca fui jogador de lesão, nunca tinha tido nada.

O Benfica já não quis assinar?
O autocarro só passa uma vez, '? O Benfica tem possibilidade de contratar muitos jogadores, portanto, foi o desmoronar do castelo.

Foi-se muito abaixo psicologicamente?
Muito. Foi muito difícil. Muito. Na altura vivia em Guimarães, outra vez sozinho, lembro-me de nem ter apetite para comer. A minha vida era fisioterapia dia e noite. Era de manhã e a tarde, não tinha fins de semana nem nada. A minha vida era praticamente eu e o meu fisioterapeuta. Era muito desgastante. No fundo deixei fugir aquele sonho, depois de tudo o que eu passei em Guimarães. Conseguir que as pessoas voltassem a acreditar em mim, no meu trabalho, no meu futebol e de repente... quando estava em 99% de loading, o computador desligou-se. Foi um choque.

Teve ajuda psicológica?
Era o meu fisioterapeuta. E também a minha família, que foi de Beja para Guimarães. Eles foram viver comigo, eu não comia, a minha mãe é que praticamente voltou a fazer com que eu acreditasse que era possível eu chegar a outro clube. Normalmente a recuperação é de seis, sete meses, mas ao sétimo mês tive uma inflamação que fez com que ficasse mais três meses de parte. E depois volto.

Com o Manuel Machado.
Sim, o treinador que me lançou e por quem tenho um carinho especial. Foi o primeiro que acreditou em mim, que me lançou às feras. Senti-me em casa. Quando voltei, logo na primeira semana em que integrei o grupo, ele leva-me para Alvalade, para o jogo com o Sporting. Eu pensava que era para estar com o pessoal, para me sentir outra vez em casa, para me adaptar outra vez ao grupo. Não esperava que ele me pusesse a jogar aos 70 e tal minutos. Ainda mais por estarmos a perder por 2-0. Ele mandou-me aquecer rápido e dois minutos depois eu já nem sentia dores, já nem sentia nada. Mete-me lá dentro e tive a oportunidade de marcar dois golos e ainda fomos ganhar 2-3. Fiz dois golos em dois ou três minutos.

Aí sentiu que estava de volta.
Aí foi... Fogo, como é possível eu conseguir fazer golos à equipa que o meu pai adora, ainda para mais depois de uma lesão... Não havia melhor estreia que essa.

Tiago Targino adora tatuagens desde pequeno e fez assim que começou a receber dinheiro do futebol, ainda adolescente.

Tiago Targino adora tatuagens desde pequeno e fez assim que começou a receber dinheiro do futebol, ainda adolescente.

José Fernandes

Entretanto sai o Manuel Machado e vem o Rui Vitória para Guimarães.
Veio com outras ideias. É um treinador que tem muita qualidade, sim, mas eu sentia que não acreditava muito em mim. Tinha os jogadores dele.

Já se tinha deixado das noitadas?
Sim, aí eu era profissional. Já estava certinho. Sei também que perdi um bocadinho de velocidade por causa da lesão e a minha confiança... Se eu não jogasse constantemente, se não fosse utilizado, eu ia-me muito abaixo psicologicamente.

É emprestado ao V. Setúbal porque o Rui Vitória não o quer?
Fui emprestado porque jogava pouco e tinha um contrato ainda longo. Fui emprestado ao V. Setúbal, onde renasci outra vez. Comecei a jogar.

Adaptou-se bem a Setúbal?
Sim. Era mais perto de Beja [risos]. Apanhei o Bruno Ribeiro, um ou dois jogos, e depois o José Mota. Gostei muito de trabalhar com ele. Não é fácil trabalhar com ele, mas gostei.

Não é fácil porquê?
É rigido. E os treinos são muito fortes.

Ainda volta a Guimarães ou vai logo para o Olhanense?
Volto e tive a oportunidade de ir para o Vaslui, na Roménia, com o Augusto Inácio. Só poderia ir se rescindisse o contrato com o V.Guimarães. Fiquei lá só um ou dois dias, porque, quando chego, o Augusto Inácio é despedido [risos]. Nem perguntei nada, vim embora.

Ficou sem clube?
Fiquei sem clube, já tinha rescindido. E agora? Entretanto aparece-me o Olhanense. O Sérgio Conceição queria-me lá e não hesitei. Não só pelo Sérgio Conceição mas porque o meu pai tinha jogado naquele clube. Era um prazer jogar num clube que o meu pai tinha representado.

Mas depois do Sérgio Conceição...
Apanho o Manuel Cajuda outra vez [risos].

Como foi o reencontro?
Foi espetacular. Porque no primeiro dia em que ele entra no balneário, olhou para mim, riu-se, e virou-se para o grupo todo e disse: "É o meu menino. Os problemas que tive com ele já passaram. O Targino aqui é o meu menino". E a partir daí... Hoje tenho uma relação espetacular com o Manuel Cajuda, por incrível que pareça. Tivemos oportunidade de falar depois e sempre admiti que os erros foram meus. Apesar de ter aquela mágoa na altura, hoje em dia tenho essa ferida sarada.

Como correu essa época?
Correu bem, joguei sempre. Só que na altura o clube tinha muitos problemas financeiros.

Tiago (a receber a bola) também jogou pelo Olhanense

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AFP

Como surge o Chipre?
Foram os empresários que chegaram com um contrato super bom. Eu na altura não recebia do Olhanense, eles mostraram-me aquele contrato e eu não podia hesitar. Fui, apesar de me ter arrependido.

Porquê?
Fui para um campeonato muito mais fraco.

E com uma imagem ligada a jogos viciados. Alguma vez foi aliciado?
Nunca. E se fosse aliciado era mandá-los logo para a casa da mãe deles porque essas coisas comigo não pegam nem funcionam. Mas a verdade é que fui para lá para uma grande equipa, o AEL Limassol, mas como o campeonato não é conceituado, acabei por me desvalorizar bastante. Não devia ter ido.

Também foi sozinho?
Na altura namorava com a Bruna, que conheci em Olhão, e ela foi viver comigo.

Gostou da vida a dois?
Gostei. Acho que sou um bom namorado [risos].

Como vai parar à Polónia a seguir?
Eu quero sair do Chipre para ir para um campeonato melhor, para poder valorizar-me. Vou para a Polónia, treino com eles, mas entretanto houve problemas entre os empresários que me levaram para lá e o meu agente. Nunca ninguém me soube explicar o que aconteceu, só sei que não recebi nada e tive de vir embora. Não cheguei a fazer nenhum jogo. Estive lá dois meses. A partir daí é que a minha carreira começou a descer. Parece que tudo o que tinha na mão, fugiu. As pessoas deixaram de acreditar. Foi a minha fase descendente.

Continuou com o mesmo empresário?
Entretanto já o deixei. Fiquei sem empresário, deixei de treinar, deixei de acreditar.

Esteve para desistir?
Sim. Na minha cabeça só pensava: "Acabou-se o futebol para mim". Eu queria ir trabalhar, mas ao mesmo tempo não queria deixar o futebol. Não é fácil essa transição. Porque desde criança que eu só pensava em futebol. Estava com 27 anos e não é fácil, nunca tirei nenhum curso, só joguei à bola.

Tiago Targino gosta de moda e de customizar peças de roupa

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José Fernandes

Como aparece então o Trofense?
Foi para lá um treinador do V. Guimarães, conheciam-me, sabiam da minha qualidade e chamaram-me. Mas eu estava muito débil fisicamente e nunca tive a oportunidade de jogar.

Quando vem da Polónia vai viver para onde?
Para Beja. Fazia Beja-Olhão, Olhão-Beja por causa dessa minha namorada, era a forma de podermos estar juntos. Mas entretanto deixei de treinar, desacreditei.

O que fazia?
Estava com a família, via televisão, pouco dormia porque estava sempre à espera que alguém me ligasse. Entretanto ligam-me para ir para o Trofense. Fui, mas não estava preparado fisicamente e foram três meses que passaram praticamente comigo a recuperar a minha forma física. Foi mais uma experiência negativa que tive. Nunca cheguei a jogar. Entretanto ligam-me de Angola e vou.

Correu melhor?
Sim, já estava mais bem preparado fisicamente.

Gostou de Angola?
Angola é difícil, é um país muito difícil para se viver, porque não há organização, o clube onde eu estava praticamente não estava preparado para receber jogadores estrangeiros. Muito calor. A liga é muito difícil. Porque em termos de transportes e das vias que ligavam as cidades era tudo mau, era muito difícil de chegar onde quer que fosse.

Também foi sozinho?
Sim. Mas deu para ver uma outra realidade da vida. Deu para aprender um bocadinho.

Em que sentido?
Vi crianças a irem para a escola descalças e a levarem a sua própria cadeira. Crianças mesmo pequenas. Vi mulheres a carregarem água para casa porque não tinham água canalizada. Comecei a ver um outro lado da vida que nunca tinha visto. Uma pobreza... E havia uma diferença descomunal entre pobres e ricos.

Porque não continua em Angola?
Acaba o contrato, eu recebia em kwanzas, depois não pagavam, e não era um país onde me sentisse muito bem.

Veio embora sem nada ou chegou a receber alguma coisa?
Eu recebi uma parte aqui em euros, antes de ir. Depois fui para lá e era para receber, mas não recebi. Mas, entretanto, este ano, há muito pouco tempo, pagaram-me. Passados estes anos todos o presidente veio cá e pagou-me.

Tiago no colo da mãe com quem tem uma forte relação

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D.R.

Quando veio para Portugal já sabia que vinha para o Sampedrense ou não?
Não. Quando regressei, pensava que ia desistir mesmo. Já não quero jogar mais à bola, vou começar a procurar outra coisa, fazer algum curso para poder ter outra vida e começar a ganhar dinheiro. Entretanto o Amoreirinha, jogador com quem tive oportunidade de jogar, liga-me e diz-me: "Vem para aqui, para o Sampedrense, podemos até arranjar outro trabalho e jogas". Fui para lá, mas não é fácil arranjar um trabalho para uma pessoa que sempre jogou à bola. Não é fácil. Estive só a jogar.

E vai parar a Andorra. Como?
Era um projeto em que eles queriam divulgar o nome do clube e queriam que eu fosse para lá porque iria ser muito bom para a projeção do clube. Acabei por ir. É um país muito bom para se viver, mas, em termos de futebol, aliga é muito fraca e eu acabei por não me adaptar e vim embora. Já vinha mais ou menos apalavrado com o Lusitano de Évora. Antes de ir para Andorra já me tinham ligado. O meu pai também já tinha jogado no Lusitano e também ajudou a que eu fosse para lá mais facilmente. Estive lá meia época. Sentia-me em casa.

Esta época está no Olímpico do Montijo.
Eu queria algo melhor e o Zequinha, que é amigo do Sandro Giovetti, ligou-me para vir para aqui. Aceitaram-me aqui, agradeço bastante ao mister David. Voltaram a acreditar em mim, fui muito bem aceite pelos meus colegas. É um clube humilde mas com muita capacidade. Vou ser sincero: eles voltaram a fazer com que eu acreditasse e despertaram não só o amor e o prazer que tenho pelo futebol, como fizeram com que pensasse num futuro ligado ao futebol. Tenho muito a agradecer ao Sandro, que tem sido como um irmão.

Está a pensar tirar algum curso de treinador?
Eu já tirei o curso de dirigente de formação na FPF. Mais tarde quero vir a tirar o curso de treinador.

É isso que gostava de fazer, ser treinador?
Quero estar ligado ao futebol. Sei que não tenho perfil para treinador principal...

Porquê?
Pela minha maneira de ser. O treinador tem que ser uma pessoa com um pulso mais forte, mais rígido. E eu não sou assim. Eu sou mais uma pessoa que gosta de ajudar, uma pessoa de apoio, do que propriamente a pessoa que consegue escolher os 11 para jogar e os que ficam no banco, de uma forma tranquila. Eu não. Eu não consigo fazer isso, por mim jogava a equipa toda. Eu sou mais uma pessoa que quando deixar o futebol vou ser muito importante a nível de apoio, no fundo, mais no que se passa fora do campo, do que dentro. Eu tive muita experiência e sei o quanto é difícil os jogadores jogarem fora do seu próprio país.

Dos três grandes, só o Benfica é que mostrou interesse em si?
O Sporting e o FC Porto estiveram interessados desde que comecei a despertar nas camadas jovens do V. Guimarães, mas nunca se concretizou, porque na altura o presidente do V. Guimarães era mais ligado ao Benfica

É verdade que costuma ligar à sua mãe antes dos jogos?
Sim. Ainda acontece. E se não o fizer não vou jogar bem ou não me vou sentir bem. Eu tenho que ligar. Uma vez, num jogo pelo V. Guimarães com o Benfica, esqueci-me de ligar à minha mãe, fui para o aquecimento e depois do aquecimento não se pode tocar no telemóvel, mas eu peguei no telefone sem ninguém ver, fui à casa de banho, consegui ligar e acabei por marcar. Portanto, eu acho que se não tenho ligado à minha mãe... Porque ela é que me dá sempre aquela energia e aquele boost para eu conseguir se calhar estar mais tranquilo.

Targino tem gravada no peito a deusa Ísis em homenagem à mãe

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José Fernandes

Quando fez a primeira tatuagem e o que é?
Estou habituado a conviver com pessoas com tatuagens há muitos anos. Inclusive o meu padrinho tinha tatuagens. Sempre admirei as tatuagens. Por outro lado as minhas origens são indígenas. Não me lembro do nome da tribo, mas o meu bisavô era índio. Sempre estive muito ligado às tatuagens, ao que elas revelam, ao que eu sinto ao tê-las.

O que é que sente?
A maioria das minhas tatuagens são de proteção. Para eu me proteger contra o mau-olhado, contras as coisas negativas. Sinto que desde de que tenho as tatuagens parece que é um escudo que eu tenho.

Mas quando faz a primeira tatuagem?
Quando comecei a ganhar algum dinheiro, tinha 15, 16 anos. São umas asas de anjos, nas costas. Já não sei quantas tenho, tenho espalhadas pelo corpo todo.

Quais são as mais importantes para si?
A mais importante é uma que significa o amor que tenho pela minha mãe. É uma Ísis, a deusa egípcia. Tenho-a no peito e é a mais simbólica, é como um escudo que tenho.

Costuma viajar?
Sim, já viajei bastante, já fui a todos os continentes, menos à Oceânia, tanto em férias como através do futebol. Tinha o sonho de ir ao Japão, porque sou muito ligado à moda. Desde criança que gosto de roupa, tenho peças que fui eu próprio que as criei.

Criou como?
Customizo. Compro uma peça em branco e depois desenho ou ponho umas tachas, umas letras. Agora até estou ligado a um projeto, uma loja de um amigo meu, de Beja. Eles convidaram-me para trabalhar com eles. Sempre estive ligado, no fundo, ao futebol e à moda. Viajamos também para conhecer a Ásia, para ver como eles se vestem, as tendências. Adorei Tóquio. E quero ir ao Egito, claro.

Qual foi o golo mais importante para si?
Foram os golos contra o Sporting, porque tinha vindo da tal lesão. Tinha vindo de uma fase negra.

Ainda é sportinguista?
A partir do momento em que passei a conhecer o V. Guimarães, a cultura do clube e o amor dos adeptos de Guimarães, comecei a ser vitoriano, a sentir amor não só por jogar lá, mas por ver o que as pessoas fazem e dedicam para ver aquele clube crescer e vencer. Portanto, hoje em dia, não sou do Sporting, posso dizer que sou vitoriano. Mas sei que o meu pai e o meu irmão são sportinguistas.

Deixou de ser convocado para a seleção desde quando?
A ultima vez foi para os sub-23. Quando comecei a ter idade para ir para a equipa A, nunca mais fui convocado.

Porque é que acha que isso aconteceu?
Foi naquela fase em que me lesionei. Quando estava muito bem, no auge da minha carreira, entretanto tenho a lesão. Porque se não tivesse essa lesão julgo que ia dar o salto para o Benfica e seria chamado pelo menos para os treinos da seleção A.

José Fernandes

Qual foi o dia mais feliz da sua vida?
Os dias do nascimento dos meus sobrinhos e dos filhos dos meus sobrinhos, porque já sou tio-avô. Não tenho filhos, mas sou tio-avô [risos]. Tenho seis sobrinhos e dois sobrinhos-netos.

É padrinho de algum deles?
[risos] Eu sou padrinho até do meu irmão.

E o dia mais triste?
Lembro-me do dia em que a minha avó morreu. Porque tinha o sonho de poder ir ao Brasil e conhecer os meus avós. Nunca conheci. Quando tive oportunidade, já foi tarde, já tinham falecido. Quando soube que a mãe da minha mãe tinha morrido, foi dos dias mais tristes, não só pela minha mãe, mas por não ter tido oportunidade de conhecê-la.

Já foi ao Brasil entretanto. Gostou mais ou menos do que estava à espera?
É difícil. Somos uns sortudos em viver na Europa e num país como Portugal. Apesar de todos os problemas, nós somos sortudos. O que as pessoas estão habituadas a ver é as novelas e o que se passa, no fundo, de bom nesse país e tive oportunidade de ver com os meus próprios olhos como funciona e não é um país onde gostasse de viver.

Sabemos que onde ganhou mais dinheiro foi na Turquia. Investiu o seu dinheiro em alguma coisa?
Investi com pessoas conhecidas, mas nunca estive presente, por isso todos os meus investimentos acabam sempre mal. Investi num ginásio na Amora, entretanto não deu certo porque confio nas pessoas facilmente, mas muita gente não quer saber. Posso dizer que emprestei muito dinheiro, investi muito dinheiro com pessoas que não mereciam. Foi tudo uma aprendizagem e hoje posso dizer que o pouco que tenho foi porque ainda fui a tempo de o salvar. Tenho só um apartamento no Seixal. Tive de vender os carros que tinha. Tive o Mercedes e um Audi A5 e tive de me desfazer deles. Caí, foi difícil, mas estou aqui, confiante que por aí vêm coisas boas. Sei que tenho qualidades, tenho experiências que muitos não tiveram, sei línguas.

Que linguas? Aprendeu turco?
Sei inglês, porque quando estive na Dinamarca tive uma namorada que era metade dinamarquesa e metade turca, e para falar com ela só em inglês, por isso tinha de me desenrascar e puxar por mim.

Tem namorada agora ou está sozinho?
Tenho, a Diana. Estou com ela desde que fui jogar para o Sampedrense, há quase três anos.

Está a pensar ter filhos?
Sim, claro. Só que ela é mais nova do que eu, tem 20 anos. trabalha numa loja de roupa em Viseu agora. Quando fui para Andorra, ela foi comigo e deixou de trabalhar nessa altura. Agora tivemos conversas e enquanto eu não me estabilizar, enquanto não acabar mesmo o futebol, não vamos conseguir viver juntos e não vamos andar sempre com a casa às costas. Vamos tentar ficar juntos, mas cada um agora concentra-se no seu trabalho.

O seu objetivo é continuar no Olimpico do Montijo na próxima época?
O meu contrato acaba este ano. Mas quero ficar acima de tudo ligado ao futebol e ao Sandro Giovetti. Eu quero jogar à bola. Se não for a jogar à bola, quero ficar ligado ao futebol, nem que seja a treinar miúdos. Ainda não tomei uma decisão, porque sinto que ainda tenho valor e ainda consigo jogar à bola. Mas sei que preciso de um clube com relva. O sintético é muito difícil para mim, porque joguei muitos anos na relva. Jogar num sintético para mim é muito mais difícil. Portanto, no fundo, ainda é uma incógnita. Ainda não sinto o clique de deixar totalmente o futebol.

Quando andava de malas às costas, havia alguma coisa que tinha de ir sempre comigo?
Sim, um terço que a minha mãe me deu e um santinho pequenino. São os meus amuletos da sorte.

É supersticioso?
Sim. Antes de entrar em campo tenho de dar três saltinhos e benzer-me a seguir. Não sei por que razão faço isso, mas sei que tenho de fazer isso. E, claro, ligar à minha mãe.

Do que mais se arrepende?
Uma das coisas foi ter ido jogar para o Chipre. Mas o que me custa mesmo é que eu deveria ter sido mais concentrado no futebol. Tinha muita capacidade. Sei que se estivesse focado a 100% no futebol tinha tido uma carreira muito mais risonha.

Os seus pais ainda lhe dão na cabeça?
Sim, até hoje a minha mãe me diz: "Aprende a dizer 'não', meu filho", porque eu tenho um bom coração. Quem me conhece sabe que o que eu não tenho eu dou, se não tenho, eu arranjo. Não quero ser assim, mas como é que consigo não ser assim? É difícil. As pessoas ainda hoje em dia me dizem: "Tens de ser mais filho da mãe". Sou uma pessoa que está sempre disponível para qualquer coisa. Há pessoas que me aconselhavam a não fazer coisas e que hoje em dia, algumas delas, devem-me dinheiro e andam com bons carros. Através das redes sociais mando mensagens e não me respondem. E são pessoas que na altura ligavam-me para sair porque sabiam que eu tinha dinheiro para pagar. "Bora, vamos viajar", sabendo que eu até pagava as passagens. E hoje, que estou numa situação mais difícil, não me atendem o telefone. E andam com bons carros, que eu sei.