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A casa às costas

"A vida do meu filho dependia de um saco de sangue de medula. Chorei, desenhei o nome dele em corações na areia, não fui ao Euro por ele"

A ida para o Benfica e as palavras de Jorge Jesus que o magoaram e fez questão de registar numa agenda, são recordados nesta segunda parte da entrevista, onde Carlos Martins se emociona várias vezes ao falar do drama que viveu por causa da doença do filho Gustavo, que precisou de um transplante de medula. O "homem bomba" também conta como destruiu o primeiro carro, aos 18 anos. Esta é a segunda parte desta emocionada entrevista de Carlos Martins

Alexandra Simões de Abreu

Nuno Botelho

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Antes de continuarmos com o futebol, quando deixa os estudos?
No 10º ano quando faço contrato profissional e já tenho as seleções a sério. Lembro-me de frequentar o 10.º ano por duas vezes e chumbar por faltas. Já ganhava bem, as pessoas estavam a apostar em mim, foquei-me exclusivamente no futebol.

Quando é chamado pela primeira vez a uma seleção?
Logo nos sub-15. Fiz todas as seleções. Sub-15, sub-16, sub-17, sub-19, sub-20, sub-21, olímpica e seleção A.

Era também um sonho.
Sempre foi um sonho. Tenho 17 internacionalizações, não fui ao Europeu para que estava convocado devido ao problema do meu filho, não estava em condições e pedi ao Paulo para sair, depois posso contar a história. Sou chamado à seleção A quando estava no Huelva, com 26 anos, era Scolari o selecionador.

Adaptou-se bem ao Recreativo de Huelva e aos espanhóis?
Amei jogar em Espanha, adaptei-me bem ao campeonato espanhol. Os estádios sempre cheios. Mesmo um jogo pequeno tinha 25 mil pessoas a assistir. Sempre com muitas câmaras de televisão à volta o que torna a coisa mais estimulante para o jogador. As coisas correram-me de feição, fiz 7 ou 9 golos, sendo médio, e não sei quantas assistências. É quando recebo a chamada do Rui Costa a dizer que quer que o vá substituir. Foi em Huelva, ainda.

O que ele lhe diz em concreto?
Reconheci logo a voz. "Foge, não estou a acreditar, o Rui". Sempre foi um ídolo para mim, ele e o Zidane. O Rui ainda jogava, aposentou-se nessa época. “Estamos a seguir-te, já sei que houve contactos na época transata mas não foi possível. Quero que sejas meu jogador, que me venhas substituir. És uma pessoa que se enquadra no meu perfil”. Nunca imaginei jogar no Benfica. Estive vários anos ligado ao Sporting e sempre disse à minha mulher: "Nunca hei de jogar no Benfica, tudo menos o Benfica". Uma pessoa cresceu a jogar contra, era o rival, queria partir as portas quando lá ia, essas coisinhas que se incutem. A minha mulher dizia: “Ainda vais jogar no Benfica”. (risos). Mas nem ela imaginava também.

Carlos Martins jogou em todos os escalões da seleção

Carlos Martins jogou em todos os escalões da seleção

Icon Sport

Como conheceu a sua mulher?
Conheci a Mónica numa discoteca, em Lisboa. Ela não me quis dar muita bola lá dentro (risos). Mas acabamos por conversar à saída da discoteca e aí ganhámos logo uma afinidade grande, até ao dia de hoje.

Ela era viúva de um ex-jogador de futebol não era?
Sim, mas eu não sabia. Aliás, sempre disse que se soubesse que era ex-mulher ou mulher de um colega de profissão nunca tinha olhado para ela nunca tentava meter-me com ela, jamais. Só soube depois com quem tinha sido casada e que tinha uma filha, a Bruna, que na altura tinha 4 anos e hoje tem 19. Mas foi uma coisa... Nunca mais nos largámos. Passado 3 meses estávamos a viver juntos. Acompanhou-me para todo o lado.

Foi consigo para Huelva?
Foi.

Assina por 4 anos com o Recreativo de Huelva mas só fica uma época.
Sim. Eu não queria o Recreativo por mais que merecesse e merece toda a consideração. Aquilo era curto para mim. A seguir tinha o Valência que me queria, tinha vários clubes, em Espanha. Só que quando o Rui me liga, aquele ícone, a dizer que me quer… Tinha o FCP, podia ir para o Porto também. O que me trouxe ao Benfica foi o Rui Costa, ponto final. Era um ídolo e imaginar que estava a falar com o Rui, andava doido de contente. Por outro lado, preferia vir para Lisboa, para a nossa base, do que ir para o Porto.

Quando vem para o Benfica os adeptos estavam desconfiados, como é que foi a entrada no Benfica?
Em termos pessoais não foi fácil, parece que estava anestesiado. Estava habituado a ver verde desde sempre e de um momento para o outro começo a ver tudo vermelho. Lembro-me que referia-me ao Seixal como a Academia e o Nuno Gomes passava-se com isso (risos). “Academia é dos outros, dos verdes, pá. Aqui é o Seixal”. Mas eu dizia aquilo porque me saía espontaneamente. Ao início foi muito complicado, eu tinha comprado uma casa na Atalaia para estar perto da Academia e depois sair de lá para ir para o Seixal.... A vida que estava habituado a fazer durante alguns anos estava a fazer ao contrário. O lado profissional foi espetacular. As pessoas pensaram o mesmo que pensavam todas, bom jogador, mas é maluco, vamos ver o que é que ele dá aqui.

Essa imagem nunca descolou de si, a do gajo maluco.
Nunca. Mas eu tinha períodos bons que não me importava, sabe porquê? Porque naqueles jogos da garra, em que é preciso lá deixar tudo dentro, essas pessoas que me chamavam maluco, o maluco era isso, era que toda a gente devia ser como ele. Há 2 fases do maluco. Há aquelas pessoas que querem denegrir e o maluco é noites, é mulheres, tudo e mais alguma coisa que não seja compatível com o futebol. E há o maluco da garra, de ir a cada lance para ser o melhor, etc, e esse maluco eu não me importo que me chamem. Ainda hoje me dizem, tomáramos nós que fossem 11 como tu. Mas ao início eu senti que havia ali... "É do Sporting, vamos ver". Posso dizer que tenho muito gosto, muito gosto mesmo em ter jogado no Benfica. Fui campeão pelo Benfica, ganhei alguns troféus pelo Benfica e fui muito acarinhado até hoje.

Nunca ouviu nada que lhe tivesse caído menos bem?
A seguir ao lance do Estoril, em que fui expulso, há muitos que dizem que eu é que sou o culpado do Benfica ter perdido o campeonato. Aí custou-me porque toda a gente começou a tratar-me mal: "És lagarto, sempre foste lagarto, estás aqui a enganar, perdemos o campeonato por tua causa". Não merecia ter ouvido isso. Por tudo o que fiz pelo Benfica, por toda a entrega que dei. Sempre quis ganhar pelo Benfica, mesmo contra o Sporting.

Carlos Martins a ouvir as indicações de Scolari, que foi selecionador de Portugal durante seis anos

Carlos Martins a ouvir as indicações de Scolari, que foi selecionador de Portugal durante seis anos

FRANCISCO LEONG

Lembra-se do 1º jogo contra o Sporting, já com a camisola do Benfica?
Não. Lembro-me de ter conquistado a Taça contra o Sporting e de ter marcado o penálti que deu essa Taça.

Mas custou-lhe mudar de clube.
Custou. Nos primeiros jogos tudo me fazia confusão. Ir ao estádio do lado rival, estar a jogar no Benfica contra o clube que me formou, onde me tornei homem e de que gosto, tudo isso, mas depois de entrar esquecia tudo. E tem de ser mesmo assim, somos profissionais. Sempre quis ganhar pelo Benfica e festejava. É a minha profissão, são os meus colegas, é a instituição que me paga. Hoje em dia já se lida melhor com isto. Lembro-me de ter festejado muito esse golo porque era o primeiro troféu que ia ganhar pelo Benfica e porque sou uma pessoa emotiva e não consigo esconder as coisas. Lá está, se calhar o maluco é isso. "Eh pá, esteve não sei quantos anos no Sporting e foi festejar assim". Saiu-me, estava feliz, queria festejar.

Quando nasce o seu primeiro filho, o Gustavo?
Aos 26 anos. Foi feito em Huelva, mas nasce quando já estou no Benfica.

Assistiu ao parto?
Não. Tive medo. Eu não gosto de ver sangue e o médico, que foi sempre o mesmo a fazer os partos à Mónica, começou a meter-me medo. "Olhe que eu já tive muitos episódios em que em vez de estar a tirar o bebé estava a acudir o pai". Mas depois assisti ao do Martim e ao da Maria Inês. Do da Maria Inês tenho uma história muito gira.

Conte.
Era o 3.º que ia ter, a afinidade com o médico já era grande. Levei máquina, câmara de filmar, telemóvel, ia todo equipado. E disse-lhe: "Ó Dr. quando estiver pronto você diz-me que eu vou gravar, vamos fazer aqui um plano do caraças". Pego no telemóvel e começo a gravar a barriga (a Mónica fez sempre cesarianas), via tudo, ia aos pormenores, aproximava. O Dr. a rir-se, a fazer as coisinhas dele, foram 4 ou 5 minutos daquilo. Ele todo contente: "Ó Carlos mostre-me lá essa gravação". Não é que me esqueci de carregar no rec para gravar? (risos) O médico quase que me batia, senti na cara dele uma deceção (risos). Até hoje ando com isto, como é que fui esquecer de carregar no Rec. Tinha feito uma gravação linda, com pormenores e tudo (risos).

E afinal foi duro, não caiu para o lado.
Não e se soubesse que o do Gustavo era assim... Aquele momento é tão lindo que só estás concentrado que saia o bebé, não ligas a sangue e a mais nada.

Quando entrou no Benfica o treinador era o Quique Flores. Gostou dele?
Boa gente também. Bom treinador, com ideias novas. Na minha opinião tinha uma pessoa ao lado, o preparador físico, Pako Ayestarán, que quis mandar mais do que ele. Gabava-se muito de que foi campeão europeu pelo Liverpool e não sei quê, é esse tipo de pessoa. Incompatibilizou-se com certos jogadores. Não o Quique, mas essa pessoa.

Carlos Martins começou a representar o Benfica em 2008/09

Carlos Martins começou a representar o Benfica em 2008/09

Valerio Pennicino

Época seguinte, Jorge Jesus. Como foi o primeiro impacto?
Gostei muito do Jorge Jesus. Aliás é o meu treinador de eleição em termos de futebol.

Foi com ele que aprendeu mais?
Foi. Eu e todos. Quase que falo por todos.

Por que diz isso?
Porque é o maior. Porque é o melhor. Eu não sou bom a descrever pessoas, mas vamos lá a ver se consigo...Para já a forma como ele falava. É um bocado como a minha, às vezes manda umas calinadas e tal, é muito espontâneo, diz as coisas que lhe vão na alma e às vezes não é aquilo que quer dizer, um bocado como eu também. Mas a mensagem passava para o jogador. O jogador prefere que falem assim, não prefere frases elaboradas não sei do quê. O futebol é prático, temos de ser práticos. Ninguém vai inventar nada, aqui o que interessa é passar a mensagem.

Alguns colegas seus dizem que ele era muito minucioso.
Sim, e chato. Muito chato, muito chato. Aquelas palestras eram quase uma hora e meia, por exemplo. Queria passar tanta informação que se estendia no tempo e os jogadores já estavam quase de boca aberta. Era um bocado saturante nisto. Mas em termos de treinador de campo, era uma pessoa que estudava o adversário de trás para a frente, de frente para trás e passava bem a mensagem. Ele fica marcado na minha carreira por outras situações, mas se tenho de dizer alguém com quem aprendi mais, é ele. Aprendi com todos, e esta não é uma frase pré-fabricada, é mesmo assim, aprendi com todos, mesmo estando menos bem uma pessoa aprende sempre. Mas com aquele homem, aprendemos à séria. O Aimar há um tempo deu uma entrevista e disse que dos treinadores que mais o marcaram o Jorge Jesus estava no top 3 dele. E estamos a falar no Aimar que lidou com muitos treinadores top. De facto o homem sabe. Só que depois tem o outro lado.

Que outro lado?
Relações humanas.

Não é bom?
Podia ser melhor. Não estou a dizer que não é bom. Podia ser melhor. Dado aos jogadores que treina, as equipas grandes que treina, ao convívio que tem entre treinadores, acho que devia aprimorar mais. Devia ter outra sensibilidade. Mas como ele é tão bom naquilo que faz dentro de campo, aquilo que deve mudar ele não dá tanta relevância.

Está a querer dizer que o que falta a Jorge Jesus é aquilo que é elogiado no José Mourinho, a capacidade de lidar com o balneário a nível psicológico?
Por exemplo. Eu vejo o Bruno Lage. Aquele rapaz que se vê ali na televisão é boa pessoa. O treinador tem de ir ao encontro dos jogadores. Eu tenho essa visão. É mais fácil mudar perante 25 jogadores do que 25 jogadores de 7 ou 8 nacionalidades diferentes moldarem-se ao treinador. É isto que era o lado menos bom dele, hoje não sei porque já não estou há uns anos com ele. O lado menos bom dele é o lado do contacto direto com os jogadores, o lado mais social. Estes rapazes que estão agora a aparecer já têm outra bagagem nesse sentido. É como os jogadores, no meu tempo eram trabalhados de uma maneira e hoje de outra.

Carlos Martins com a Taça da Liga nas mãos, conquistada em 2010

Carlos Martins com a Taça da Liga nas mãos, conquistada em 2010

AFP

Mas então como surge o conflito com o JJ depois do jogo como Estoril?
Foi no treino a seguir ao jogo com o Estoril, em que empatámos. Estávamos a duas jornadas do fim. Sou expulso. O primeiro cartão amarelo é por falar ao árbitro e o 2.º cartão por causa de uma entrada a meio campo, a 8 minutos do fim. As pessoas e a imprensa, que manda muito pela forma como a notícia é direcionada, culparam-me por o Benfica não ter ganho o jogo e ter perdido o campeonato, quando na realidade fomos perder o campeonato no Dragão, num jogo em que não joguei porque estava suspenso. Recordo-me que no treino após o jogo, o JJ marca uma reunião normal de grupo, em que o único visado sou eu. Disse que eu já não jogo mais enquanto ele lá estiver, que estava riscado. Fez o sinal de cruz com a mão e disse: "puseste em causa todo um ano de trabalho".

Qual foi a sua reação?
Fiquei parvo a olhar para aquilo, a ouvir. Só pensava: "Eu não estou a acreditar que este homem me está a dizer isto". Ele culpou-me mesmo por aquilo ter acontecido, quando estávamos em 1º lugar ainda. Eu que reajo a tudo fiquei parvo. Lembro-me de ter chegado a casa e de escrever tudo o que ele me disse numa agenda. No outro dia a minha preocupação foi falar com os capitães. Chamei o Aimar, o Maxi Pereira, o Luisão e o Tacuara (Oscar Cardoso) se não me engano. Perguntei-lhes se eles se reviam naquilo que o treinador me tinha dito e todos me disseram que não. "Eh pá, já sabes como é que ele é. Foi um erro? Foi, mas estamos em 1º lugar, falta um jogo, todos nós cometemos erros". Lembro-me de o Luisão ter dado um soco quando fomos ao árbitro, num jogo na Alemanha, portanto, teve um episódio como outros também tiveram episódios menos bons. Todos nós temos de assumir o nosso erro, mas longe dizer que estavas morto e que já não jogas mais no Benfica como ele fez. Eu nesse ano tinha renovado por mais 3 anos. Era jogador da seleção nacional. E ele diz-me aquilo tudo. Mas ali o que contou mais para mim foram os colegas, foi eu perceber se realmente se reviam no que ele disse. Isso é o que me importava mais em termos emocionais, porque foi muito duro. Só eu sei o que eu passei. Ainda hoje alguém passa e diz-me na brincadeira, mas eu respondo logo: "Tu foste perder o campeonato ao Dragão, não foi no Estoril". E não reagi também na altura porque nós a seguir vamos ter a final da Taça UEFA contra o Chelsea e para não estar a criar mais uma situação em que dissessem o Carlos Martins isto e aquilo, calei-me e não disse nada. Recordo-me que fomos à final da Taça de Portugal, perdemos e acontece aquele episódio com o Tacuara no final do jogo em que ele e o Jorge Jesus empurraram-se e o Tacuara queria bater-lhe. Depois disso tudo é que lhe bati à porta.

O que lhe disse?
"Quero falar contigo" e falei. Disse-lhe que não me revia no que ele me tinha dito, expliquei-lhe tudo e mais alguma coisa, o que eu sentia, mas não quero passar a conversa para aqui. Sai de lá de consciência limpa e aliviado.

O que ele lhe respondeu?
"É a tua opinião, mas sou eu que mando. Tu tens as tuas opiniões, eu tenho as minhas." Foi nessa base. E com razão. Ele tem a opinião dele e eu tenho a minha, por isso é que somos todos diferentes. Na época seguinte já sabia que não ia ficar. Antes de irem para a Suíça, fui chamado para me dizerem que ia fazer parte da equipa B, do Benfica. Aí caiu-me tudo. Eu já sabia porque ele me tinha dito, mas daí a viver o momento de ir para a equipa B, desiludi-me completamente com o futebol. Por isso é que dei as minhas coisas todas às pessoas que me iam pedindo. Hoje não tenho uma camisola, umas chuteiras, um equipamento do Benfica, não é pela instituição, atenção, a instituição nada tem a ver. Gostei muito e sou um privilegiado por ter lá jogado. Mas tenho pena de já não ter essas coisas, estou muito arrependido porque os meus filhos agora perguntam por elas. Eu tenho tudo na minha memória, mas para passar para os meus meninos não tenho. Eles pedem-me camisolas, a da final da Taça UEFA, "a camisola com que foste campeão pai? As botas, pai?", etc. Não tenho. É que a partir daí já só joguei por causa da minha família, especialmente por causa do meu Gustavo, porque se não tinha abandonado logo tudo na altura.

Jorge Jesus e Carlos Martins ao fundo

Jorge Jesus e Carlos Martins ao fundo

GERARD JULIEN

Chegou a jogar na equipa B.
Cheguei porque fui obrigado. Mas apanhei um grande amigo, o Hélder Cristóvão, graças a Deus que foi ele, foi antigo jogador e não me complicou a vida, porque eu estava a explodir. Eu era uma bomba atómica, a qualquer momento explodia com tudo. Eu via os meus colegas lá em cima e eu privado daquilo, no meio de meninos com 17 anos que nem falavam para mim com vergonha. Se estivessem a rir numa sala e eu entrasse paravam todos de rir, até era constrangedor para mim. Eu só pensava: "O que é que eu estou aqui a fazer?".

Começou à procura de clube?
Não. Rejeitei tudo, porque o meu filho não devia sair de Lisboa.

Deu aí um salto na história, porque a doença do seu filho é descoberta quando está em Granada, no seu 3-º ano de Benfica, na época 2011/2012.
Sim, no 3º ano de Benfica saio, peço para ser emprestado ao Granada porque havia o Europeu, em que o selecionador era o Paulo Bento. Uma curiosidade engraçada porque eu tive aquela divergência com o Paulo, mas é ele que me chama à seleção para o Europeu. A minha melhor fase na seleção é com o Paulo Bento precisamente, é preciso que se diga. Então, peço para ser emprestado para jogar, para fazer 40 jogos num ano, para estar bem para o Europeu. Porque no Benfica, com o Aimar, jogávamos metade, metade, e eu queria jogar o máximo de jogos possíveis.

Vai para o Granada e é lá que descobre a doença do seu filho, a aplasia medular.
Sim, passados três dias da minha mulher lá chegar, o meu filho fica internado.

Como tudo aconteceu?
Caiu-lhe uma gaveta em cima da perna e ele ficou com uma grande nódoa negra. A minha mulher manda uma foto a um médico daqui e pergunta-lhe se é normal ele ficar assim passado uns minutos. Ela foi a uma clínica lá em Granada, eu fiquei com a Bruna e o Martim em casa que tinha uns 8, 9 meses na altura. Ela liga a dizer que já não deixam sair o meu filho, que tinha de ser internado.

Dizem logo que doença ele tinha?
Não, dizem que os exames estão todos alterados e que tem de ser internado de urgência. Foi internado num hospital público de Granada. Um grande amigo meu, que hoje é o padrinho do Gustavo e era dirigente do Granada, o Angel Gonzalez, fez sempre o acompanhamento com a Mónica naquela altura. Falei com ela ao telefone, ela só chorava e dizia que ele tinha uma doença grave. Eu dizia: "Não, não pode ser, o menino está bem. Amanhã já está tudo bem". No outro dia dizem que tem de fazer uma punção, falam em leucemia e que o meu filho corre risco de vida e que se calhar precisa de um transplante... Esteve 17 dias internado. Foi muito difícil. Andei três meses anestesiado.

Quando efetivamente tem consciência de que o seu filho corria risco de vida o que lhe passou pela cabeça?
A primeira pergunta que fiz foi: "é preciso pagar o quê para o meu filho estar bem?". Foi quando me explicaram que tinha que dar graças a Deus em encontrarmos um dador. Não era o dinheiro. E tudo aí é uma grande mudança na minha vida, até ao dia de hoje. Eu antes ficava aborrecido, chateado com pessoas. Mudou tudo. Tudo. Hoje em dia já me fizeram mal, mas tudo tem o seu sentido. Já não levo ao limite como levava antes, em que ficava doido, e ficava "ai caraças, apetece-me é partir isto tudo". Não. Nessa altura é que vi que todos nós dependemos uns dos outros. Podemos não nos falar por algum motivo, mas no final de contas se existir alguma coisa essa pessoa se calhar pode ser a salvação da outra. E esses pormenores da tanga com que nos andamos a chatear na vida, esquecem-se, é que não fazem sentido nenhum.

Até aí nunca tinha ouvido falar de aplasia ou transplante de medula?
Jamais. Eu nem sabia o que era isso. Quando me disseram eu perguntei "Ok, é preciso pagar o quê? É preciso ele ir para algum lado para ser curado? Digam-me". Foi quando ele me disse: "Carlos, não é dinheiro. Tem que existir alguém, um dador que seja compatível com o teu filho".

Nenhum membro da família era compatível.
Não. Esse ano para mim desportivamente foi para esquecer. Eu estava a ponto de bala. Eu ia treinar e de repente virava-me para o treinador e dizia-lhe, vou sair para ir ver o meu telefone, vou ligar a minha mulher. Eles nem me diziam nada. Eu disse-lhes: logo vou pegar na minha família e vou já para Lisboa porque não me interessa o futebol. Esse meu amigo, o Angel, é que me aguentou. Eu sou um gajo persistente nas minhas coisas, e ele é um tipo também assim, porque se estivesse a lidar com um tipo mole, tinha abandonado tudo e tinha vindo embora.

A sua mulher entretanto vem para Lisboa?
Numa fase mais adiantada quando decidimos fazer o transplante. Porque até lá, fomos para Sevilha...O que eu fiz! Uma pessoa faz tudo. Ele não podia estar em comunicação com pessoas porque tinha as defesas baixíssimas e era jatos para um lado, era jatos para outro. Existem pessoas com isto que fazem tratamentos ali. É onde? Em Marrocos? Embora para Marrocos. Existem pessoas na Alemanha que não sei quê. Vamos para lá. Uma coisa desesperada. Eu só dizia a eles no Granada que tinha de me ausentar. Se alguém me dissesse um não ou isto ou aquilo, era na hora que me vinha embora. Foram espetaculares comigo.

Que tipo de soluções lhe foram apresentadas?
Em Sevilha chegaram a dizer que com uma gravidez em vitro, fazendo um tratamento para nascer um filho com o tipo de sangue do Gustavo... Mas primeiro que engravidasse, depois o tempo de espera e mais não sei quê, e nós a vivemos a situação. Esquece.

Nessa altura ainda jogou pela seleção?
Sim, sempre que podia. Nunca ia para estágios, ia diretamente.

Como é que conseguia jogar?
Porque eu sou muito forte. Eu jogava pelo meu filho. Andei este tempo todo a jogar, a aguentar o que me fizeram na equipa B do Benfica e depois no Belenenses, que foi um clube espetacular, mas motivação e paixão já não tinha nenhuma. Fazia tudo pelo meu filho Gustavo, tudo, só pensava nele. A minha mulher nas alturas em que eu caía: "Olha o teu filho. Vai gostar de te ver na televisão."

Carlos Martins era conhecido pelo seu pontapé canhão

Carlos Martins era conhecido pelo seu pontapé canhão

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De quem foi a ideia de fazer o apelo público para aumentar as hipóteses de encontrar um dador?
Foi minha porque estava desesperado. Eu não aguentava mais. Era transfusões de sangue, de plaquetas (emociona-se)... Muita coisa mesmo. Saía do treino perguntava à minha mulher como é que estavam os resultados, se subisse uma coisinha pouca parecia que o céu tinha aberto só para nós. Se ela dissesse que baixou... .

O seu filho não tinha consciência do que se estava a passar.
Não. Hoje tem consciência porque toda a gente pergunta coisas sobre ele, mas não sabe ao certo o que se passou. Ele já pesquisa na internet, mas ainda não teve a consciência real, contada pelos pais, sobre o que se passou. Um dia, quando ele for maior, hei-de contar.

Qual foi o momento mais critico?
O momento mais difícil foi antes do jogo de Málaga, em que foi feita uma segunda punção às 11 da manhã para ver o estado da gravidade. Eu e a minha mulher estamos sentados à porta do laboratório como dois miúdos... . Falavam em meses, em 1 ano, em 3 meses... . Foi aí que senti o maior desespero. Mas quando chegava à beira do meu filho, que como não sabia onde estava e tinha os pais perto, fazia um grande sorriso, só de ver o sorriso dele eu ganhava forças. Disse à Monica que ia pedir ajuda a todos. Toda a gente sabia, seleção, clubes. Aguentei um bocado antes de tornar público, até que não aguentei mais. Fomos visto em fevereiro ou março pelo Dr. Abecassis no IPO de Lisboa e ele diz-nos que é de urgência. Foi a primeira vez que foi visto por portugueses. E quando dizem que é de urgência... Eu disse logo à minha mulher que tinha de vir para Portugal. Eu quis vir, mas o Angel aguentou-me. Sempre que quisesse ir a Portugal eu ia, não me diziam nada. Eu fazia a minha vida para bem ou para mal consoante os resultados do meu filho. Se estivessem bons, ia treinar todo contente, se estivessem mal, havia alturas em que pegava no carro à noite e de manhã estava cá a bater à porta. "O que é que estás aqui a fazer?". Eu só dizia: "Porque preciso. Preciso, só".

Acaba por não ir ao ao europeu.
Fizemos o apelo, há uma adesão fantástica e ganhámos um balão de oxigénio. Nós sentimo-nos mais fortes quando temos o apoio das pessoas, ponto final. Quando as pessoas dizem "eu sozinho consigo", isso é tanga, é porque nunca passaste por elas. Nisso fomos uns privilegiados. Só não dou entrevista na televisão, e estão fartos de pedir para falar nisto, porque ainda não chegou a altura de o meu filho perceber. Ele tem 10 anos, mais 1 ano ou 2 para ele perceber porque depois vai para a escola e os putos na escola, não é por mal, mas podem picá-lo "estiveste quase a morrer".

A propósito, como tem sido a aprendizagem dele?
Espetacular. O meu filho está completamente curado. Tem estado num colégio privado, no Ramalhão, em Sintra. Estão todos lá. Lá sabem que era o menino que teve um problema, filho do jogador. Os mais velhos quando me veem perguntam foi este ou foi o outro? Porque ele e o Martim têm 2 anos de diferença. Eu tento protegê-lo ao máximo, até ele ter mais estofo para eu lhe dizer tudo. Mas claro que tem consciência de que se passou algo, não sabe é pormenores, a gravidade e de como em pouco tempo tínhamos de arranjar um dador sob pena de ter de levar cada vez mais transfusões e isso é a pior coisa porque o sistema imunitário pode começar a rejeitar as transfusões. Ele sabe que passou por uma fase difícil, mas nunca tive coragem de lhe perguntar nada (emociona-se), não quero estar a fazer isso ao menino.

Quando recebem a noticia de que há um dador compatível?
Existem dois ou três mas que não eram match, isto é que não eram 100% compatíveis. Havia 7 em 10, 8 em 10. O médico ia dizendo, ele ainda está num processo em que aguenta mais um bocado, vamos tentar encontrar. Porque não foi só Portugal que se mobilizou. Em Espanha foi uma loucura, recebi cartas da China, da Rússia, porque o Danny fez lá o apelo. Foi uma coisa...Isto sim faz sentido na minha vida, não é o resto, o resto é para eu passar o tempo e viver porque tenho de fazer alguma coisa. Agora compro uma casa, agora faço um jardim, agora vendo. Mas aquela foi a minha lição de vida. Já fui testado e estou lá. Ou fomos todos testados e correu bem. Agora é vivermos. Aproveitarmos a vida. Mas, voltando atrás, ligam-me do hospital a dizer que há um dador de 9 em 10 e um de 10 em 10.

Sabem de onde veio esse dador?
De Boston, nos EUA. Sei que tinha 42 anos e que quando soube que era para um menino de 3 anos prontificou-se logo a dar da medula. Normalmente dão o sangue da veia, mas como era para um menino, disse para lhe tirarem mesmo da medula. Mandou não sei quantos sacos. Quando ele foi fazer o transplante a mudança da vida dele estava num saco de plástico. Isto é... Aquele Dr. Nuno Miranda, eu chorava tanto com ele. Foi espetacular. À frente da minha mulher tentava sempre não chorar, mas quando chegava ao pé dele "Ó Dr. ouça, eu tenho a minha vida em si, este menino nunca ninguém me pode levar Dr.". Ele não queria também dar-me muita esperança e dizia-me: "Ó Carlos eu vou fazer o meu melhor"; "Dr. o melhor para mim não chega você tem que se transcender". Sempre a chorar porque o único meio de chorar sem ninguém ver, era junto dele.

Ele fez o transplante em 2012, na altura do Europeu.
Sim, foi descoberto em setembro de 2011 e a 24 de maio de 2012 foi transplantado.

A Bruna, sua enteada, apercebeu-se de tudo, claro.
Sim, ela é uma mais valia que temos em casa. Deus tirou-lhe o pai numa altura difícil, mas deu-lhe outras coisas muito boas. Tem um coração maravilhoso. Ajuda-nos muito. Tem consciência de tudo.

Carlos Martins nunca se retraiu em festejar golos pelo Benfica

Carlos Martins nunca se retraiu em festejar golos pelo Benfica

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Pede ao Paulo Bento para não fazer o Europeu antes ou depois do transplante do seu filho?
Recordo-me que quinta e sexta-feira treinamos para a seleção, o meu filho já estava internado na área do transplante. Já lhe estavam a fazer o desmame para levar o transplante da outra pessoa. O Paulo Bento deu-nos o final do dia de sexta, sábado e voltávamos a concentrar no domingo. Quinta-feira depois do treino vou ver o meu filho. Fui passar o fim de semana com o meu filho, dormi lá com ele, só pode dormir lá uma pessoa. E no domingo estou a despedir-me do meu filho. Os meus pais estão lá fora à minha espera porque era um grande orgulho para o meu pai também ver um filho dele num Europeu dado o esforço que eles fizeram. Digo: "Olha filho, agora vais ver o pai durante um tempo ali na televisão. O pai vai fazer um golo para ti, amor". Ele desata num choro: "Ó pai não vás, quero-te aqui, quero-te aqui". Eu hoje tenho uma ligação com o meu filho, não sei explicar de que grau é porque não existe. Agarra-se a mim e eu disse-lhe: "Filho, o pai vai mas amanhã o pai está aqui". Já sabia naquele preciso momento que ia chegar à seleção e ia dizer que não jogava. Entrei no carro com o meu pai e disse-lhe: "Olha pai, tinhas muito gosto em ver o teu filho no Europeu, mas eu venho para o pé do meu". E o meu pai: "Ó filho, não estava à espera de outra reação tua". Cheguei a Óbidos, chamei o Paulo Bento e disse-lhe para chamar outra pessoa para o meu lugar. Foi chamado o Hugo Viana. Vamos inventar aqui uma história que estou lesionado. Isto foi na altura em que ele fez o transplante e as coisas correm bem.

Fez alguma promessa?
Agarrei-me muito a Deus e à N. Srª de Fatima. Agarrei-me a tudo o que fiz de menos bom na minha vida. Lembro-me que o meu espaço favorito era o Guincho, ia para lá, fartava-me de desenhar corações na areia sempre com o nome dele. Agarrei-me não sei a quê, sei lá. Nunca aceitei que podia dar para o torto. Mas nunca fiz uma promessa. Agora, rezo todos os dias. Antes rezava quando me sentia mal, hoje rezo todos os dias. Agradeço a Deus por me ter dado a bênção de estarmos todos, sempre todos os dias a partir desse momento. A prova da minha vida foi essa, não foi mais nenhuma. Não foi de ter passado do Sporting para o Benfica, isso são historias para contar, para a gente se rir, uns vão gostar mais outros menos. Mas a minha prova, a minha vida, o meu foco centrou-se aí, ponto final.

Quando souberam que já não corria riscos e que já está tudo bem?
Só de há um ano e meio para cá. Isto tem várias etapas. Cinco dias após o transplante as coisas podem mudar. E ele teve recaídas, tanto que se ponderou fazer outro transplante. Mas depois os valores começaram a subir, até que passaram os cinco anos e agora só vai uma vez por ano, para toda a vida. Mas está completamente curado. Até nós, nós percebemos, a minha mulher brinca muito, dá-lhe uma estaladinha de vez em quando e ele fica logo vermelho e nós descansamos.

É a forma de irem controlando se está tudo bem?
Sim. Antes o meu filho não ficava vermelho se lhe tocássemos. São pormenores nossos, que já sabemos agora. Torcemos um pouco a orelha na brincadeira para ver se fica vermelha. Antes não ficava, era sangue mau. Eu amo os meus filhos todos de maneira igual, mas aquele por ter passado o que passou, é normal que quando se constipe uma pessoa entre logo em parafuso, logo. Então lá vêm os testes sem ele saber, uma palmadinha na brincadeira ou torcer de orelha, para ver se fica logo vermelho. Se ficar, pronto, sossega. São os nossos truques.

A seguir ainda tiveram uma filha.
Eu sempre quis ter uma menina. A Bruna é minha filha, mas eu sempre disse que queria ter uma menina com a Mónica. A Maria Inês foi feita na altura em que estávamos a passar por este processo todo. Foi uma menina tão desejada, tão desejada, que veio 100% compatível com o Gustavo. Quando o médico nos diz: "Temos aqui uma novidade para vocês. A sua filha que acabou de nascer é compatível com o irmão". Há coisas... . Nós ainda temos mais um saco, mas só de termos a nossa menina que é compatível com o irmão... E têm uma ligação os dois que nem imagina. Há coisas que não dá para explicar.

Depois do Benfica Carlos Martins ainda jogou no Belenenses

Depois do Benfica Carlos Martins ainda jogou no Belenenses

Gualter Fatia

Voltando ao futebol. A seguir vem aquela época com o Jorge Jesus, em que é expulso no jogo com o Estoril e ele coloca-o de parte, como o Carlos disse. Alguma vez pensou que por estar a passar o que estava a passar, as pessoas deviam compreender certos comportamentos seus?
Não. Injustiçado, sim, mas não foi pelas pessoas. foi pelo futebol em si por uma decisão de uma pessoa que hoje em dia não o fazia, porque eu já tive oportunidade de falar com o JJ e sei que não o fazia. Quando ele foi jogar ao Belenenses na altura em que eu já lá estava, reunimos numa sala e ele disse-me que não o fazia se fosse hoje. Errou como eu errei noutro lado. Também fez numa altura quente. Foi uma decisão dele, não o crucifixo, só quero que ele ganhe. Só que foi um marco importante na minha vida, porque foi aí que larguei o futebol por assim dizer. Não me interessou mais clube nenhum.

Tinha outras propostas?
Todos a gente me queria. Tinha até para a China a ganhar milhões, tinha Itália, tinha Espanha. Eu foquei-me no meu filho. Na altura, senti-me injustiçado pela atitude daquela pessoa, até pelo que eu já tinha dado ao Benfica, eu era uma pessoa querida no Benfica, sentia isso. Mas depois agarrei-me ao meu filho. O meu filho faz parte de qualquer decisão da minha vida, seja no futebol, seja num negócio. Se tiver uma perda em algum lado, eu seguro-me ao meu filho. Quando algo corre mal e lamentamos, pensamos no que já passámos e abrimos logo a pestana "porra, realmente..."

De qualquer forma custou-lhe muito ir parar ao Benfica B.
Imenso. Só eu é que sei o que sofri. Por outro lado, também abdiquei de sair para outro lado. O meu filho era seguido todos os dias pelo IPO e para estar a viver sem ele, era para esquecer, não conseguia. Para ele ir para fora era arriscado. Então, deixa-me ficar.

Mas esteve para ser emprestado a um clube dos Emirados Árabes unidos, onde estava o José Peseiro, não esteve?
Sim. Mas aí foi o Dr. Nuno Miranda que me disse que era bom levar o meu filho para lá porque era mais quente, menos propício a constipações. Aí sim, vamos todos. Mas não fomos porque entretanto o argentino que estava para sair de lá não chegou a acordo. E como só podiam inscrever um número limitado de estrangeiros, para entrar um tinha que sair outro. Assinei a desvinculação pelo Benfica. Tínhamos as malas feitas, a pensar que íamos para lá e depois... .

Como surge o Belenenses?
Foi um misto de interesses. Na altura o meu empresário era o Pedro Torrão.

Mas o Paulo Barbosa também foi seu empresário não foi?
Quando fui para Huelva e quando acabei no Benfica, na equipa B. Depois como já era uma fase descendente dei oportunidade ao Pedro Torrão de arranjar-me alguma coisa perto de casa. Ou era Estoril ou Belenenses.

Em duas épocas apanhou o Vidigal, o Jorge Simão o espanhol Julio Velázquez e o Sá Pinto. Destes último também foi companheiro de balneário. Como foi o reencontro em posições distintas?
O Sá Pinto sempre foi uma referência para mim, pela garra. Era parecido comigo, revíamo-nos um no outro. Foi muito bom tê-lo encontrado ali. Fomos à Liga Europa com ele e foram momentos bons.

Carlos Martins (frente) em ação pelo Belenenses num jogo contra o SC Bragaj

Carlos Martins (frente) em ação pelo Belenenses num jogo contra o SC Bragaj

Gualter Fatia

Quando começa a pensar mesmo em pendurar as botas e dedicar-se a outras coisas?
Já no tempo do Benfica gostava de casas. Gosto deste ramo. Gosto de comprar velho e pôr novo. É o que faço. Aí começou o bichinho. Claro que não havia muito tempo porque um clube grande obedece a muitas horas de dedicação, mas quando vou para equipa B tenho mais tempo e foco-me em 2 ou 3 negócios que correm bem. Sozinho, com a minha mulher sempre a ajudar-me em termos de design, mas eu a projetar, a contratar os homens, a planear os jardins, tudo o que implica construir uma casa. E percebi que gostava disto.

É o Carlos que decide sair ou é o Belenenses que o convida a terminar a carreira ou procurar outro clube?
Os dois. Eu tinha mais um ano de contrato. Mas eu já não fazia todos os treinos, tinha miúdos de 20 anos a querer jogar sempre. Eu aborrecia-me ir aos treinos. Se o Gustavo tinha de ir ao hospital, eu fazia questão de ir.

Passou tudo a ser feito em função do Gustavo.
Tudo. Ele é que centrava as coisas e ele é que me dava a possibilidade de eu fazer alguma coisa.

Isso alguma vez foi um peso para os outros filhos ou motivo de cobrança?
Não, porque nós sempre tivemos cuidado. Um exemplo. O Gustavo teve muitos anos em que não podia apanhar sol. Eu pegava no Gustavo e ia fazer qualquer coisa com ele enquanto os outros iam com a mãe à praia. Tentávamos agilizar as coisas, mas nunca metemos todos à volta da mesa e dissemos: "não vamos fazer isto, porque não". Sempre tivemos uma maneira de levar as coisas para que nenhum se sentisse e o Gustavo se tornasse um peso para os outros.

Quando fez a sua primeira tatuagem?
Em Huelva. Foi a cara de Deus com uma cruz e as iniciais da minha família. Todas as outras são relacionadas com a família. Tenho o nome dos meus filhos, datas nascimento, frases, etc. Nos braços e peito.

Teve ou tem alguma alcunha?
Que me lembre não. Sei que me chamavam homem bomba e pé canhão porque o meu filho noutro dia veio dizer-me. Leu em algum lado. Os meus filhos é que têm. O Gustavo é o "papagito", era o que ele dizia quando eu chegava a casa, "o papagito chegou" e ficou o "papagito". O Martim é o "tica-tica" porque não para quieto, anda sempre de um lado para o outro. E a Maria Inês é a minha "prinxêsa". Mas ela tem vergonha, não quer que eu diga à frente dos amigos (risos).

Onde ganhou mais dinheiro?
No Benfica. Mas se calhar já ganhei tanto dinheiro no futebol como nos negócios imobiliários.

Investiu só em imobiliário?
Sim.

Qual foi o seu primeiro carro?
Um BMW 320D, preto. Tinha 18 anos.

Estampou-se com ele?
Sim, em Campo Maior (risos). Por cima de uma rotunda. Tinha ido até Espanha a um jantar de equipa, no regresso, com um copito a mais, não vi a rotunda. Foi uma sorte, nem lhe digo.

O melhor carro?
Eu adoro Porsches. Tenho Porsches por causa do Sá Pinto. Ele sempre foi uma inspiração para mim e ele sempre teve um Porsche e sempre disse que o carro de eleição dele eram os Porsches e eu meti aquilo na cabeça. Tenho um Turbo S.

A foto de casamento de Carlos Martins, com a mulher e filhos

A foto de casamento de Carlos Martins, com a mulher e filhos

D.R.

Ainda joga futebol?
Não. Deixei completamente. Só com os meus filhos. Jogo ténis de vez em quando com um amigo.

Não tem saudades de jogar futebol?
Não. Mas também evito de ir ao estádio porque acho que aí vou sentir saudades. Sinto-me em perfeitas condições ainda, então evito ir. Quando vou ver os jogos dos meus filhos, que estão numa escolinha do Figo, fico irrequieto.

Revê-se em algum deles?
Acho que no Gustavo porque pensa mais no jogo. O meu "tica-tica" é isso "tica-tica", é rápido. O Gustavo é mais cerebral.

Qual foi a coisa que lhe disseram ou chamaram que mais o magoou?
Foi essa conversa que o JJ teve comigo. Magoou-me muito. Estava à espera que me desse cabo da cabeça, sabendo como ele é, estava à espera de tudo menos de dizer que eu nunca mais ia ser jogador do Benfica.

Qual foi a sua maior asneira, do que mais se arrepende?
Não me arrependo de muita coisa. Mas se fosse hoje não tinha contestado muitas coisas que me foram ditas. Nunca faltei ao respeito, mas... É como os meus filhos, eu estou a chamá-los a atenção de alguma coisa e eles têm sempre alguma coisa para dizer. E ou apanhamos uma pessoa que é calma e explica-te que estás mal, não digas isso, ou se não apanhas essa pessoa, risca-te logo. Os meus filhos respondem, mas não são mal educados para mim. Como eu nunca fui para um treinador. Apenas sempre disse o que pensava.

Sente que foi incompreendido.
Não. Simplesmente eu tenho a mania de falar, gosto de argumentar, de dizer o que penso, isso sai-me naturalmente. E hoje em dia o que posso dizer é que se tivesse de não fazer alguma coisa, eu não falava tanto. Engolia mais. Porque muitas coisas avançaram por eu ter falado mais um bocado. Ou por ter dito uma coisa totalmente diferente da que o treinador me estava a dizer. Se fosse treinador, se apanhasse um jogador assim, refilão, se calhar também lhe dizia: "cala-te que já nem te posso ouvir, sai.".

Qual é a sua maior frustração no futebol?
Nunca ter ido a um Europeu.

Quem são as maiores amizades que fez no futebol?
O Miguel Garcia, por exemplo. Desde os 12 anos que nos conhecemos. É o meu confidente e eu sou o dele. Uma relação extraordinária.

Fez um casamento muito pomposo, grande. Porque sentiu essa necessidade?
Eu já sou casado há 10 anos, mas pela igreja só casei agora e essa foi a festa maior. Porque eu, a minha mulher e a minha família tínhamos de viver isto. Não me interessa o dinheiro, desde que não me falte para eu viver. Vou gastá-lo sempre com a minha família. Porque hoje estamos aqui e amanhã posso estar num hospital e ter muito dinheiro, o que me aconteceu, dizer ao Dr. que quero comprar ou fazer qualquer coisa e ele dizer-me que não. Gasto o meu dinheiro nestas coisas. Gasto muito? Gasto. Porque já vivi o contrário, já vivi o que é ter dinheiro e não poder gastá-lo porque na saúde... Hoje estamos bem e daqui a uma hora, um dia uma semana, podemos já nem gastar o que está cá.

Qual foi a maior extravagância que fez com dinheiro?
Não tenho muitas extravagâncias. O casamento foi a maior num só dia. Mas fazia novamente porque foi um momento lindo. Sempre disse à minha mulher: quando o nosso filho estivesse bem, queria que eles vissem os pais a entrar pela igreja. Quando o Dr. Nuno Miranda disse que ele estava bem (estou a arrepiar-me todo), eu disse "vou rebentar com isto tudo". E foi. E fazia hoje novamente. Em prol da minha família faço tudo.