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A casa às costas

Makukula: “Uma vez passei-me com o Cardozo no balneário do Benfica. Ele entrava, não falava com ninguém e sacava logo dos santos”

O ponta de lança grande e intimidante que se fez homem em Guimarães antes de rumar a Espanha, onde foi feliz, sobretudo no Sevilha, ao ganhar a Taça UEFA, é hoje embaixador do futebol da República Democrática do Congo, a terra que o viu nascer. Aos 38 anos, Aziz Makukula, pai de quatro filhos, conta como esteve para desistir do futebol depois de ver o seu nome fora da seleção que foi ao Mundial de 2010 e revela quem era, para ele, o mais divertido do balneário da Luz quando por lá passou

Alexandra Simões de Abreu

Jon Buckle - EMPICS

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Nasceu em Kinshasa.
Sim, nasci na República Democrática do Congo, na altura o antigo Zaire.

Tem memórias de lá?
Não, quando vim para Portugal tinha cinco ou seis anos, não me lembro nada do antigo Zaire.

Veio viver para onde?
O meu pai já jogava futebol, jogava no Leixões e eu e a minha mãe viemos primeiro para Matosinhos, passado pouco mais de um mês é que fomos para Setúbal.

Tem irmãos?
Tenho duas irmãs mais novas. A Amélia, que nasceu em Setúbal, em 90, e a Amanda, que nasceu mais tarde, em Albergaria-a -Velha, quando o meu pai se retirou.

Gostava da escola ou nem por isso?
A escola é sempre importante. Quando vivi em Setúbal estudava no liceu francês, em Lisboa. Todos os dias de manhã, tinha um o chofer que vinha buscar-me às Amoreiras, porque a minha mãe queria que eu estudasse francês numa escola francesa. Depois acabo por sair e andar numa escola normal, como todo o mundo.

Quando é que isso acontece?
Pouco depois, quando o meu pai vai para Chaves. Mas perguntou se eu gostava da escola. Claro que quando somos do futebol não estamos muito tempo concentrados na escola, mas se tens uns pais que insistem e que te fazem entender que a escola é muito importante, porque a carreira passa rápido e é preciso ter bons estudos... Agora vivo no Congo e voltei à escola, é muito importante para o que faço. Portanto se me pergunta se gostei muito da escola? Sinceramente gostava mais do futebol. Mas hoje já não sou jogador e vejo a importância da escola.

Makukula com 10 anos, altura em que começou a jogar no V. Setúbal

Makukula com 10 anos, altura em que começou a jogar no V. Setúbal

D.R.

Queria ser o quê quando era pequeno?
Polícia ou militar.

Porquê?
Porque sempre gostei da mentalidade e do carácter. A educação é saber cuidar das pessoas, é uma coisa muito importante. Por isso queria ser polícia ou militar, uma dessas coisas. Só que como o meu pai gostava de futebol, dei-me no mundo do futebol e aí fiz carreira.

Começa a jogar no Vitória de Setúbal com quantos anos?
Com oito ou nove anos.

Foi o seu pai que quis?
Não, ele nunca quis que eu jogasse futebol. Foi a minha mãe que me comprou as primeiras chuteiras e que me levou ao primeiro dia de treino. Ainda me lembro do meu primeiro treinador, o professor Baião, que era muito chegado a nós. Até fui passar uns dias a casa dele porque os meus pais iam de férias, eu queria jogar futebol, e ele levou-me. Tenho só bons momentos do meu início. Mas foi a minha mãe, o meu pai nunca esteve presente no princípio.

Quando era pequeno torcia por algum clube?
Sim, mas a isso não respondo [risos]

Porquê?
É privado [risos].

O seu pai foi jogar para Chaves e foi também. Como foi a adaptação a Chaves?
Com um pai jogador de futebol eu andava sempre de um lado para o outro e tinha de deixar amigos para trás, nesse sentido a minha infância foi muito difícil porque mudei muitas vezes de sítio, era difícil ficar estável.

Tinha problemas de comportamento?
Não, não. Sempre fui um menino da mamã, no sentido em que a minha mãe sempre me teve ao colo e nunca me dava tempo para respirar, de ir ter com os amigos ou fazer aquelas brincadeiras da idade. Por exemplo, nunca fumei. Ai de mim se ela me apanhasse [risos]. Era muito apegado à minha mãe. E controlado também.

Makukula (o 1º em baixo à direita) no V. Setúbal

Makukula (o 1º em baixo à direita) no V. Setúbal

D.R.

Joga na formação do Chaves?
Sim, nos infantis de último ano e depois iniciados. Entretanto o meu pai já estava na fase final da sua carreira e antes de se ter retirado, penso que ainda foi jogar para um clube da 2ª divisão, que era o Lourosa. No Lourosa não havia grandes condições e depois veio um senhor congolês que era ainda da parte da família da minha mãe e é ele que me leva para o V. Guimarães, para os juvenis de primeiro ano, onde fiz carreira.

Esteve no V. Guimarães dois anos e depois vai emprestado para o Brito SC.
Exatamente. Depois do primeiro ano em Guimarães, na altura não havia espaço para ter todos os jogadores, mas o treinador, o Manuel Freitas, com quem tinha muito boa relação, queria guardar-me. O Vitória ficou comigo mas emprestou-me ao Brito, que era um clube muito perto de Guimarães, uma cidade onde também fui muito bem recebido. Fui emprestado eu e outro jogador, o César Peixoto. Estivemos lá seis meses e no ano seguinte voltámos juntos outra vez para os juniores do V. Guimarães.

Vivia com os seus pais?
Não, quando fui para Guimarães tinha 15 ou 16 anos, fui para o centro de formação, onde estavam todos os meninos que vinham de fora.

Não lhe custou ter de largar as saias da mãe?
Sim, custa sempre. Só que, enfim, naquele tempo a visão de uma pessoa que quer ser jogador de futebol e ter uma carreira é sempre de esperança de conseguir o objetivo. O objetivo às vezes pede alguns sacrifícios e eu estava sempre preparado para fazer esses sacrifícios, estar longe da minha mãe, dos meus pais, para poder conseguir ser futebolista.

Desses tempos da formação no Guimarães, com quem fez uma amizade mais profunda, mais sólida?
Ui, com muita gente. Alguns dos grandes amigos com quem ainda falo hoje são da formação no Guimarães. O Duda, que também foi internacional português, o Vitor Lima, que penso está a jogar no Famalicão, o Bruno Tiago, que depois jogou no SC Braga. E aquele que é hoje um empresário muito forte, da Footconect, o Luís Miguel.

Quando é que deixa os estudos?
Quando pela primeira vez tento acabar o 12º ano e não consigo, porque era muito difícil combinar os estudos com o futebol. Como já disse, hoje estou outra vez a tentar terminar.

Makukula jogou nos iniciados do Chaves

Makukula jogou nos iniciados do Chaves

D.R.

Ainda era júnior quando vai para o Leganés, em Espanha?
Já sou sénior. Saio de Guimarães no meu primeiro ano de sénior. Saí dos juniores, fui fazer a pré-época com a equipa principal do V. Guimarães. Na época eu era representado pela Gestifute, do grande e número um, Jorge Mendes, e são eles que me levam para Salamanca.

Foi uma desilusão? Queria ter-se estreado com a equipa principal do V. Guimarães?
É lógico, queria ter começado no Vitória. Tinha sido o meu clube de formação, deu-me tudo. O problema é que naquele tempo o V. Guimarães não dava muita confiança aos jovens, apostava mais nos que vinham de fora, não se concentrava muito em nós. Não fui o único, na altura fomos muitos que fomos embora.

Mas antes do Salamanca ainda jogou no Leganés.
Exato. Fui para Salamanca mas quando lá cheguei, nos primeiros seis meses as coisas não correram bem, porque a adaptação custou-me bastante.

Por que razão?
Um pouco por tudo. A língua, estava sozinho... Em Guimarães já tinha sido um tempo de adaptação difícil, mas nessa altura foi também o mudar de país, custou-me. E depois lá já não era formação, era profissionalismo. Por isso custou-me no primeiro ano e fui emprestado ao Leganés. Marquei muitos golos para poder voltar ao Salamanca.

Ficou a viver sozinho em Salamanca?
Sim. A minha mãe queria lá ir com frequência, mas eu nem tinha tempo para ela. O que eu queria era adaptar-me o quanto antes.

Lembra-se se teve a ajuda de alguém?
Não fui sozinho, fui com o Vitor Lima e com o Bruno Tiago. Tinha lá os meus amigos e ainda por cima amigos de infância da formação do Guimarães. Penso que isso foi um facto importante.

Na época seguinte “explode” em Salamanca. Marca 20 golos.
Nesse meu segundo ano como profissional fui o melhor jogador e melhor marcador do Salamanca. As pessoas apoiaram-me bastante. O presidente era muito meu amigo e o treinador, o Balta. As coisas correram mesmo bem.

Em 2002, Makukula foi chamado à seleção de sub-21

Em 2002, Makukula foi chamado à seleção de sub-21

Jamie McDonald

É quando surge a hipótese de ir para o Nantes, em França?
Não, depois do ano ter corrido tão bem, de me ter adaptado à cidade, surgiram ofertas e mais ofertas. O Jorge Mendes decidiu levar-me a muitos clubes. Lembro-me que tinha muitas ofertas, da Juventus, entre outros, mas o meu pai decidiu que eu ia para Nantes. O Jorge Mendes achou estranho, mas o meu pai escolheu Nantes porque dizia ele que iria ser uma boa etapa para mim, por ter formação francesa. Ele conheceu bem a escola de Nantes e na opinião dele eu tinha de aprender mais e Nantes era a solução.

Como é que foi a sua adaptação a França?
À língua foi facílimo, mas agora a vida em França… Foi difícil.

Porquê?
Só posso dizer que não gostei muito. As coisas correram mal desde o dia da apresentação, com o treinador, que era o Ángel Marcos. Era um argentino que ao dizer-me bom dia, disse logo que nunca tinha visto um ponta de lança assim: “Mas vamos ver se me adapto contigo”. Naquele primeiro instante de assinatura de contrato vi logo que ia sair tudo mal. E foi o caso [risos].

Fica a viver sozinho?
Sim, os meus pais vinham de vez em quando. Foi aí, em Nantes, que conheci a minha mulher, mãe dos meus quatro filhos. Mas estamos divorciados.

Como é que a conheceu?
Num evento que um amigo do futebol fez com a namorada. A irmã da namorada dele convidou algumas amigas, entre elas a minha ex-mulher. Mas vamos prosseguir com o futebol. Um ano depois de ter sido a transferência mais cara da história do Nantes, fui emprestado ao Valladolid. Volto a Espanha e volto a sentir-me feliz. Volto a ser um jogador de futebol muito contente e consegui ter uma primeira volta importante do campeonato da 1ª liga.

Quaresma, Makukula, Cristiano Ronaldo e Nani, na seleção

Quaresma, Makukula, Cristiano Ronaldo e Nani, na seleção

D.R.

Entretanto tem uma lesão no joelho direito.
É nessa altura. Até dezembro eu estava entre os melhores marcadores da Liga Espanhola. Havia naquele tempo o Patrick Kluivert, se não me engano havia o Ronaldo, o “fenómeno”, e o Makukula [risos].

Essa lesão no joelho como é que acontece?
Foi em 2004, num jogo em Málaga. Logo nos primeiros minutos do jogo, depois de ter sofrido uma entrada forte, senti logo que tinha um problema sério. E foi muito sério, ligamentos cruzados. Depois desta lesão perdi toda a 2ª fase da Liga.

Mesmo assim como é que consegue ir para o Sevilha?
Porque tinha começado bem a Liga, penso que, em 15 jogos, marquei oito ou 10 golos. Daí o Sevilha estar muito interessado em mim, mesmo estando lesionado com ligamentos cruzados, foram buscar-me. Foram buscar-me ao Nantes porque eu estava emprestado ao Valladolid.

Faz a primeira época em Sevilha, que lhe corre bem, e depois na segunda época conquista a Taça UEFA, mas praticamente sem jogar.
Sim. Era só lesões atrás de lesões, mas eu era sempre um jogador importante para o Sevilha. Nesse ano, em 2004, fui operado aos ligamentos cruzados, depois estive seis meses sem jogar, voltei a lesionar-me no primeiro jogo que fiz e estive parado três ou quatro meses. Fiz um jogo com o Panathinaikos, fiz golo, conseguimos ir até à meia-final contra o Schalke 04, joguei também nos últimos 10, 15 minutos, fomos à final e fui campeão. Uma loucura.

Foi uma sensação diferente ganhar a Taça UEFA?
Foi um grande momento da minha vida, depois do que passei, do que sofri com as lesões, de um lado para o outro, na luta de poder voltar a sentir-me jogador e de jogar ainda naquele ano, naquela competição da UEFA. Chegar à final e ganhar, aquilo foi uma coisa muito importante para mim.

Makukula vestiu a camisola do Nantes depois da passagem pelo Leganés e Salamanca, de Espanhaa

Makukula vestiu a camisola do Nantes depois da passagem pelo Leganés e Salamanca, de Espanhaa

VALERY HACHE

Mas é emprestado outra vez. Porquê?
Porque o joelho não voltou a ser o mesmo. Não sentia confiança, tinha dores todos os dias e o Sevilha, que já estava num nível muito acima, emprestou-me ao Nàstic, para ver se conseguia ter mais tempo de jogo e voltar a ser o que era. Não consegui.

No meio disso é pai.
A minha primeira filha, Latifa, nasce em 2004, o meu primeiro filho homem, o Aziz, nasce em 2006.

É verdade que deu o nome do presidente do Sevilha, Del Nido, ao seu filho?
Exato. Ele chama-se Aziz Del Nido Makukula. Fiz essa dedicatória a esse presidente por tudo o que já disse aqui. Contratou-me lesionado. Cheguei ao Sevilha lesionado, onde tinha que recuperar em seis meses, aquela lesão levou-me quase dois anos a recuperar e ele renovou-me o contrato. Portanto, pelo amor que aquela cidade me deu e o carinho do povo, penso que eles mereceram que eu guardasse uma recordação assim, chamando o meu filho Del Nido. Recorda-me Sevilha e aquele momento.

Depois vem para o Marítimo, emprestado pelo Sevilha. Como é que surgiu o Marítimo?
Eu não me adaptei ao Nàstic porque a minha lesão nunca mais acabava. E surgiu outra vez o grande Jorge Mendes, que me disse para ir para o Marítimo. E eu: “Marítimo?! Meu Deus!” É que naquele tempo eu tinha um contrato elevado, e ir para o Marítimo... Não sabia muito bem como é que as coisas se iam passar. Ele disse que eu tinha de me sacrificar para conseguir o meu objetivo. Foi o que fiz. Fui para o Marítimo só para jogar futebol e quando lá cheguei tive a confiança do grande presidente Carlos Pereira. Na altura era Lazaroni o treinador. Ele também se assustou no primeiro dia: “Nossa, um ponta de lança gigante, meu Deus” [risos]. Mas disse para mim: “Não, com esse as coisas vão correr bem”. Foi o que aconteceu. Mas, mais uma vez, a história se repetiu. Não acabei a Liga. Fiz a primeira fase e depois tive de mudar outra vez de clube.

Depois de França, Makukula volta a Espanha, ao Valladolid

Depois de França, Makukula volta a Espanha, ao Valladolid

Firo Foto

É quando está no Marítimo que é chamado à seleção pelo Scolari, não é?
Sim, porque quando cheguei ao Marítimo as coisas correram tão bem que o mister Scolari reparou.

Substitui o Nuno Gomes num jogo com o Cazaquistão.
Exatamente.

E marca golo.
Sim. É um jogo que vai ficar sempre na minha memória. Estava em Bruxelas a passar uns dias e de noite ligam para mim: “Amanhã tens vôo porque vais jogar no Cazaquistão”. Uma surpresa tremenda. Tive de sair urgentemente e ir quase num avião privado, a correr de um lado para o outro, até chegar ao Cazaquistão. Joguei, marquei um golo e ainda por cima um golo importante, porque era um jogo de qualificação, por isso acho que foi uma boa coisa para o futebol português.

Entretanto disse numa entrevista que a seleção sempre foi uma coisa difícil para si. Que se calhar não foi apoiado como devia ter sido. Porquê?
Esse ano fui para a seleção porque era o mister Scolari, porque anos depois, em 2010, sendo o melhor marcador da Liga turca, depois de ter feito um ano extraordinário, nem pensaram em mim. Foi um choque tremendo, foi forte, muito forte. Penso que não merecia isso.

Já lá vamos a 2010. Ainda no Marítimo é expulso num jogo e é “crucificado” na imprensa. Recorda-se?
[risos] Isso faz parte do futebol. Penso que no Marítimo fui expulso duas vezes. Uma vez por agressão, agredi um jogador qualquer, e no outro jogo, foi vermelho direto por ter feito alguma asneira. Mas isso faz parte do desporto. Por ser grande pode parecer que sou uma pessoa agressiva, mas não, nem por isso [risos]. São factos que acontecem só no momento do jogo. São reações. Acho que nunca mais aconteceu na minha vida.

Quando está na Madeira, a família estava consigo?
Não, estavam em Sevilha, ficaram em Espanha. Foi muito importante manter a base em Sevilha, porque, como já disse, quando o meu pai jogava andávamos sempre de um lado para o outro e em termos de educação sempre foi uma coisa complicada. Tentei fazer diferente, ter uma base num sítio e eu poder mexer-me.

Makukula numa foto recente

Makukula numa foto recente

D.R.

Entretanto a seguir surge o Benfica. Surge como e através de quem?
As coisas estavam a sair-me bem na Madeira, fui internacional e a minha vida mudou. Voltei outra vez a sentir-me um jogador importante e surge a oportunidade do Benfica.

Era Camacho o treinador.
Exatamente. O Rui Costa ligou-me a dizer que o Camacho me queria. Pode imaginar [risos].

Não se assustou com a concorrência que ia ter no Benfica?
Não. Em Sevilha também tive uma concorrência importante. Tinha o Kanoutê, o Luís Fabiano, o Saviola, tinha muitos jogadores importantes, quando já estás nesse nível… Quando fui para o Benfica estava lá o Cardozo, e achava bom, porque ia ser uma boa rivalidade entre os dois. Rivalidade no sentido positivo, para poder crescer.

Mas havia mesmo rivalidade entre vocês fora das quatro linhas, não havia?
[risos] Não, não. Acima de tudo éramos jogadores do Benfica e o objetivo era só representar bem o Benfica. A rivalidade não era só com o Cardozo, havia lá o grande Nuno Gomes, havia o Mantorras, havia muitos pontas de lança. Mas aí é que está o lado bom do futebol, onde há essa rivalidade é quando uma pessoa tem de mostrar que é grande entre os grandes.

Não se pegou com o Cardozo por causa do David Luiz? Conte lá isso.
Sim, isso são coisas de balneário [risos]. O Cardozo era uma pessoa muito especial, daquelas pessoas que quase não fala com ninguém, sempre no cantinho dele e com os santos dele. Recordo-me que ele chegava ao treino e a primeira coisa que fazia era tirar os santos e metê-lo no sítio onde se sentava. Não brincava com ninguém e quase não falava com ninguém. O David, eu e outros, éramos muito brincalhões. Brincávamos com todo o mundo e ele não gostava muito de brincadeiras. Toda a gente sabia. Só que antes de se sentar no sítio dele tinha que passar por nós e sempre que passava a gente brincava com ele, nas costas, a rir um pouco. Recordo que um dia o David Luiz estava com uma seringa a atirar água aos outros. Atirou para mim mas não conseguiu alcançar-me e acertou no Cardozo, que ficou muito nervoso, deu a volta, penso que atirou uma chuteira para o alto ou algo assim, e eu enervei-me bastante, perdi um pouco o controlo, e disse-lhe que por todo o lado onde ele fosse passar ia ter problemas comigo. Recordo-me de ver o Moreira e o Nuno Gomes a tentar acalmar a situação. Houve alguma tensão mas sem importância.

Em 2006, Makukula conquista a Taça UEFA pelo Sevilha

Em 2006, Makukula conquista a Taça UEFA pelo Sevilha

David Cannon

Com quem é que travou maior amizade no Benfica?
Com quase todos. O Petit foi quem me recebeu pela primeira vez no Benfica.

Foi alvo de alguma praxe?
Sempre houve brincadeiras. Mas quando cheguei ao Benfica o clube tinha muitos problemas, o balneário tinha muita tensão e quase não tínhamos tempo de entrar em grandes loucuras. Mas havia um bom grupo de amigos, um bom grupo de jogadores. Penso que havia amizade, só que faltou um treinador líder que soubesse gerir o todo e as coisas de forma positiva. No primeiro e segundo ano no Benfica mudamos três ou quatro vezes de treinador. É muito.

De todos eles, de qual gostou mais, a qual se adaptou melhor?
Com o Camacho, porque ele é que me quis levar para o Benfica. Ele realmente é que poderia saber como utilizar-me e trabalhar comigo.

Foi colocado à parte pelos outros?
Não é que me colocassem de parte. Isso também depende do estado físico da pessoa e eu recordo-me que depois de ter chegado ao Benfica ressenti-me muito e fui-me um pouco a baixo, não tinha o mesmo rendimento. Depois chegou o mister Jorge Jesus no ano seguinte, não me dei também e fui embora.

Mas antes disso ainda é emprestado ao Bolton, de Inglaterra.
Sim.

É emprestado porque não fazia parte dos planos do Quique Flores?
Exatamente.

A festejar um golo marcado ao serviço do Sevilha

A festejar um golo marcado ao serviço do Sevilha

CRISTINA QUICLER

Agradou-lhe a ideia de ir para Inglaterra?
Para dizer a verdade, ao princípio eu não ia para o Bolton, mas para o West Bromwich, só que chegando lá não houve acordo sobre o contrato e só depois quando estou de volta ao Benfica é que surge a oportunidade do Bolton. Portanto o Bolton surgiu de recurso.

Gostou de Inglaterra, adaptou-se aos ingleses, ao futebol?
Gostei muito de Inglaterra. Em termos de mentalidade gostei muito, porque é um país muito aberto. Em termos de futebol não não sei o que é que aconteceu mas não consegui adaptar-me durante aqueles seis meses.

Por ser um futebol mais direto, mais duro?
Penso que tinha tudo para adaptar-me bem ao futebol inglês, direto e com bolas em cima e essas coisas, mas não me saíram bem as coisas lá.

Volta ao Benfica.
Sim. Volto ao Benfica e nunca falei com o mister Jorge Jesus. Entendi que eles não contavam comigo. O Benfica foi um clube que me deu muito amor, foi um clube de que gostei muito, só que depois do mister Camacho ter ido embora as coisas mudaram e sentia que já não era muito bem-vindo. Portanto nessa altura decidi falar com o presidente para ver se o clube me emprestava outra vez, para poder jogar.

Houve vários clubes interessados, falava-se do Marítimo e também do Sporting.
Sim, houve muitos clubes interessados, o Sporting também, só que o facto de ter um contrato muito elevado também complicou e meteu-me em dificuldades. É quando decido ir para a Turquia.

Scolari chama Makukula em 2008

Scolari chama Makukula em 2008

FRANCISCO LEONG

Antes de avançarmos para a Turquia, na passagem do Marítimo para o Benfica, acabou por ser enganado por um agente que pertencia à Gestifute, o Ricardo Rodrigues. É verdade?
Sim. Esse senhor era muito amigo meu e ele é que me ajudou a chegar ao Benfica, mas no início ele não trabalhava diretamente para a Gestifute, penso eu. Depois, sim, percebi que ele trabalhava para a Gestifute e é nessa altura que me ajuda com a minha transferência do Marítimo para o Benfica, ou melhor, do Sevilha para o Benfica, porque eu ainda era jogador do Sevilha. De repente este senhor burlou-me em 200 mil euros.

A burla tem a ver com a compra de um apartamento em que o Makukula lhe dá autorização para levantar o dinheiro?
Exato. Naquele tempo comprei a minha casa de Lisboa e aquele valor seria para dar uma entrada. Ele era a minha pessoa de confiança e então pedi-lhe para levantar o dinheiro e ir pagar. Ele nunca mais apareceu e quando apareceu disse que lhe tinham roubado o dinheiro, deu a localidade do sítio onde supostamente tinha sido agredido. A polícia chegou a fazer investigações e as câmaras da rua onde supostamente aquilo aconteceu e nunca o viram lá. Portanto tinha sido mentira.

Conseguiu rever esse dinheiro?
Sim, depois tive advogados muitos fortes a tratar disso. Meteram um processo que consegui ganhar. Isso foi em 2007, por aí.

Foi enganado mais alguma vez?
Jogador de futebol sempre é enganado, não há dúvida, isso é terrível. Precisamos sempre de ter pessoas para nos ajudar e se não tens pessoas sérias ao teu lado, meu Deus... Perdi muito dinheiro, nem quero falar disso.

Íamos na fase em que vai do Benfica para a Turquia, para o Kayserispor. Como é que isso acontece, quem é que lhe arranja esse contrato?
A Turquia quer um ponta de lança, eles veem nos clubes grandes os jogadores que são pouco utilizados e recebi essa oferta. Não tive dúvidas, disse que sim. Era para jogar futebol. Já estava habituado a mudar de um lado para o outro, resolvi arriscar e fui para a Turquia.

Òscar Cardozo cumprimenta Makukula que acabou de marcar golo pelo Benfica

Òscar Cardozo cumprimenta Makukula que acabou de marcar golo pelo Benfica

FRANCISCO LEONG

Qual foi o primeiro impacto quando chegou à Turquia?
Uff, isso é muito difícil [risos]. Foi forte. Eu penso que fui dos primeiros a ir para a Turquia. O primeiro impacto foi: “Meu Deus, onde é que eu vim meter-me?”

O que mais o chocou?
É outra mentalidade. A Turquia adora futebol, os turcos gostam de futebol. É outra mentalidade, não é como aqui. Na hora da reza ninguém está disponível, está toda a gente a rezar. Com todo o respeito pelos muçulmanos, mas em Portugal nunca tinha visto isso e há momentos em que há o chamamento e para tudo. Não estava habituado. Não me conseguia adaptar. Eu só queria jogar futebol e poder mostrar que não estava morto, que era jogador e que podia voltar a sentir-me outra vez feliz no futebol.

E destaca-se.
O Kayserispor deu-me essa oportunidade e a cidade também. Mas fui para lá a pensar que era em Istambul. Quando vou assinar o contrato, assino em Istambul, boa cidade, tudo bem. Depois é que eles me dizem que não, que a cidade deles não era ali, era a uma hora, 40 minutos de vôo. E quando chego lá, ai meu Deus. Mas guardo coisas positivas da Turquia. Kayserispor deu-me outra vez a oportunidade de ser jogador e fui feliz.

Ficou a viver onde?
Aí foi complicado, porque a família ficou a viver em Istambul e eu fui viver sozinho para Kayser. Em Istambul havia escola internacional para os meus filhos e eles adaptaram-se bem. Nos fins de semana depois dos jogos ou eles vinham ter comigo ou eu ia para lá.

Enquanto Di Maria e Cardozo se abraçam, Makukulaagradece a Deus a passagem do Benfica para a ronda seguinte da Taça UEFA, em 2008

Enquanto Di Maria e Cardozo se abraçam, Makukulaagradece a Deus a passagem do Benfica para a ronda seguinte da Taça UEFA, em 2008

TORSTEN SILZ

Essa época corre-lhe muito bem mas ficou desiludido por não ter sido chamado à seleção, para o Mundial de 2010.
É verdade. Foi nesse momento que decidi não jogar mais futebol. Fiquei tão triste que disse "futebol já não é para mim”. Porque eu estava na lista dos 30. Penso que fiz uma boa época, marquei 21 golos, depois do Cristiano eu era o melhor marcador dos portugueses, e por isso pensava que se calhar o selecionador pensasse em mim. Mas era o meu pensamento, não o que o treinador pensava. Foi uma desilusão muito forte porque foi um ano muito importante para mim. Depois das lesões, depois de tudo o que fiz com tanto sacrifício... Daí ter pensado em desistir do futebol, porque sabia que não voltava a ser o mesmo. E foi o caso.

O que o fez voltar atrás?
A família e os amigos, que me deram muita força e disseram que eu tinha que ser forte e tentar ser feliz a jogar futebol novamente. Só que era muito difícil, porque eu tinha aquele objetivo, trabalhei para poder chegar a esse nível, a uma fase final de uma grande competição. Era uma forma de provar a mim mesmo que consegui alcançar esse objetivo. Depois de alguns clubes me terem dado como morto por causa das lesões, consegui chegar ao nível de ser o melhor marcador da liga turca e o segundo melhor dos portugueses, atrás de Cristiano Ronaldo. Aliás, Ronaldo não é um ponta de lança, ele é um extremo avançado, adapta-se bem atrás dos pontas de lança e penso que o mister Queiroz deu-se mal. Na altura houve muitas pessoas que criticaram, "mas ele joga na Turquia", como se fosse uma liga pequena. Mas depois desse Mundial é que o Quaresma, Hugo Almeida, Simão Sabrosa e muitos jogadores foram para a Turquia.

Como é que dá a volta e surge o Manisaspor?
Estava um pouco perdido com o choque de não ter ido ao Mundial, ainda estava ligado contratualmente ao Benfica, mas tinha um um pré-contrato de compra com Kayserispor. Só que houve muitas complicações na minha transferência, porque houve o Trabzonspor, o Besiktas e o Galatasaray, houve muitas ofertas, e penso que as coisas não correram bem da minha parte. Aquela espera do melhor, do melhor, do melhor... Veio a pior das coisas.

Por que diz isso?
Eu sendo o melhor marcador da liga turca e com grandes clubes atrás de mim...

Quis esperar?
Não só, o Benfica também queria ganhar mais dinheiro. As ofertas que vinham não eram muito interessantes para o Benfica e não vou estar aqui a dizer asneiras, mas o Benfica queria esperar, porque ao fim e ao cabo o Benfica gastou também muito dinheiro comigo e eu queria também que o Benfica recuperasse esse dinheiro. Era o meu objetivo, que o Benfica me vendesse e que recuperasse dinheiro. O sacrifício que fiz foi o de não dar poderes ao Kayserispor. Não sei se foi um erro importante da minha parte naquele momento. Voltei ao Benfica e o Benfica esperando, esperando, esperando e eu sabia que não ia ter a oportunidade do Benfica, porque se o Benfica realmente me quisesse depois de eu ser o melhor marcador eu ia sentir, mas não foi isso que eu senti no tempo.

É nessa altura que tem uma forte discussão com o Rui Costa?
[risos] Sim, penso que tive uma discussão com o grande diretor Rui, mas nada de negativo, coisas de futebol. Porque eu estava a defender os meus interesses e ele os interesses do Benfica, o que é lógico. Eu buscando uma porta de saída para poder jogar e sentir-me feliz. Como não senti que o Benfica estava a precisar de mim ou a contar comigo disse para me venderem e recuperarem o máximo de dinheiro para eu poder ser livre e ir-me embora. Por isso a minha saída do Benfica não foi muito positiva. Lutei pelos meus interesses, por aquilo que pensava ser o melhor para a minha carreira, optando por sair. Optei por ir embora nem que fosse para o Manisaspor.

Makukula (3º em cima à direita) com a seleção que defrontou a Itália num amigável em 2008

Makukula (3º em cima à direita) com a seleção que defrontou a Itália num amigável em 2008

FABRICE COFFRINI

Esteve lá duas épocas, mas as coisas não correram muito bem. Porquê?
Desde o primeiro ano que não pagavam. Aguentei ainda um ano sem salário, depois não deu.

Nunca lhe pagaram?
Não, até hoje.

Vivia das poupanças?
Exato. Essa é a parte boa da vida de futebol, podia viver do meu passado.

A sua família continuava a viver em Istambul?
Sim. Eu continuava a tentar jogar futebol, mas as coisas não corriam bem, porque já não havia o estímulo da seleção e chegando ao Benfica também não senti o clube com grande interesse em que eu ficasse, fiquei muito desiludido com muita coisa. Eles também não pagavam...

Acaba por ir para o Karsiyaka.
Em termos sentimentais e de motivação já estava tudo perdido. Tento ir para o Karsiyaka, um clube pequeno, para ter minutos e para me sentir jogador outra vez, mas, mesmo assim, nada.

Rescinde.
Sim. Cheguei no Karsiyaka para jogar futebol, ainda conseguiu marcar dois ou trêsgolos, mas depois pensei: "Isto já não é para mim". Rescindi, não me sentia bem.

Nessa altura ainda tinha dois filhos?
Não, já tinha nascido a Samanta, em 2010. Nasceu em Lisboa. Foi quando as coisas estavam mesmo a complicar-se, quando tudo ia mal, depois do Mundial, daquilo tudo.

Makukula com Nani às cavalitas, a festejar a qualificação para o Europeu de 2008

Makukula com Nani às cavalitas, a festejar a qualificação para o Europeu de 2008

NICOLAS ASFOURI

Depois acaba a aventura na Turquia e regressa a Portugal.
Exato. Decidi que ou deixava o futebol de vez ou arranjava outra motivação para continuar a jogar. Volto a Portugal, ainda sem nada decidido. Tinha alguns clubes interessados mas o que eu queria era um clube estável.

Que clubes estavam interessado em si?
Se não me engano era o ano em que o Deportivo da Corunha estava na segunda divisão e tinha o Deportivo interessados e outros. Eu é que optei por voltar a casa e tentar ganhar a confiança que tinha perdido depois de 2010. Por isso o V. Setúbal.

A família veio consigo?
Sim, voltámos a viver na minha casa de Lisboa.

Como corre essa época em Setúbal?
Nem bem nem mal. O V. Setúbal tinha o objetivo de ficar na I divisão. Marquei poucos golos, tive problemas de lesões, fui operado ao joelho, ao menisco. Foi um ano difícil até à minha saída. Perdoei todo o dinheiro que me deviam e o ano seguinte de contrato. Decidi ir embora. Deixei um ano de contrato para ir embora.

Fez isso porque já tinha o OFI da Grécia interessado em si?
Nem por isso. Chateei-me. O pouco salário que ia ganhar no V. Setúbal eles também não pagavam, tinham dificuldades. Depois não gostei do comportamento de alguns diretores. Dos outros clubes nunca falei mal de nenhum diretor mas do V. Setúbal não gostei do comportamento de certas pessoas, por isso deixei tudo e fui embora.

Que tipo de comportamento?
Quando chego a Setúbal já não sou um jovem de formação, já sou um jogador feito, e a maneira como funcionou aquela direção não gostei mesmo nada. Mas, atenção, adoro a cidade, Setúbal é a cidade de coração e Vitória é um clube pelo qual tenho um amor especial, o meu pai jogou lá e sempre me senti em casa naquela cidade. Só que a direção que estava lá naquela altura, meu Deus, na volta ao mundo que dei, foi das piores.

Makukula com o filho mais velho, Aziz

Makukula com o filho mais velho, Aziz

D.R.

E resolve ir para a Grécia, é isso?
Não, resolvo deixar o futebol [risos]. Mas a família sempre a insistir, podes jogar ainda, faz um esforço. E surge a oportunidade de ir para OFI, através da Footconect, do meu amigo Luis Miguel. Ele é o senhor Joaquim Ribeiro é que me falam dessa hipótese.

Quando deixa os agentes ligados à Gestifute e passa a trabalhar com a Footconect?
Para dizer a verdade a Footconect é uma longa história. O Luís Miguel e o Joaquim Ribeiro são amigos meus de longa data. Ambos foram jogadores de futebol. O Luís Miguel sempre esteve ao meu lado ao longo da minha carreira, sem ser meu representante. Comigo é que ele começou a ser representante, eu fui o primeiro jogador dele e ele motivou o Joaquim Ribeiro a ser representante também e os dois montaram essa empresa da qual eu era o primeiro jogador. Eles começaram a representar-me. Mas o Luis é o meu irmão branco. Eles é que me motivam sempre, dava aquela força. E fui para o OFI.

E?
Chego lá e pagaram-me o primeiro mês. Depois, nada. Mas acaba a primeira fase, peço para rescindir e vir embora.

Apanhou o Sá Pinto como treinador?
Exatamente [risos]. Quando o Sá chega ele motiva-me, jogava com ele, só que em dezembro mando uma mensagem ao Sá a pedir desculpa mas que não ia apresentar-me e fiz um email ao presidente. Assim foi. Vim embora.

Para Portugal ou diretamente para o BEC Tero Sasana, da Tailândia?
Eu não tinha em mente a Tailândia, fui embora porque já não queria jogar mais futebol. Uma pessoa rescindindo assim o contrato fica sujeito a muita coisa má, podem complicar-te a vida. Só que eu rescindi porque queria parar e perdoava-lhes dinheiro. Eles ficaram todos contentes por lhes ter perdoado o dinheiro. Esta gente deve pensar que eu sou um estúpido, mas o que eu realmente queria era não voltar a vê-los mais.

Em férias

Em férias

D.R.

Então como surge a Tailândia?
Vou passar férias na Tailândia e há lá um senhor que é representante que me diz para jogar. Ele soube que eu rescindira porque os clubes não pagavam e que eu não estava para suportar algumas coisas, mas ele diz que lá é bom, que há profissionalismo. Quando chego lá para jogar, meus Deus do céu. A primeira vez que vamos treinar foi num campo municipal, onde jogavam as crianças e outras pessoas. O país é muito bonito, Bangkok é uma cidade muito grande, mas em termos de futebol deixa muito a desejar.

Chegou a jogar?
Não. Estive lá dois meses, rescindi e mais uma vez deixei todo o contrato.

Já tinha pensado no que ia fazer depois de pendurar as chuteiras?
Essa é uma boa pergunta. Naquele instante pensava em voltar a estudar e depois ia pensar. Volto para Portugal e fico em Portugal quatro meses, tranquilo a pensar no que ia fazer. A carreira de um jogador dura pouco tempo, só que ganhamos muito. Mas não há nenhum jogador de futebol que quando está a jogar futebol está a pensar no futuro. Nós somos sempre convencidos de que vai ser sempre um mar de rosas, porque o jogador de futebol pensa sempre positivo, sim, vou conseguir, vou lucrar, vou conseguir o objetivo. Só que as dificuldades surgem, há lesões, por isso é muito importante os jovens jogadores de futebol hoje pensarem nos estudos e fazerem uma reflexão sobre o que querem fazer depois do futebol. Essa reflexão é muito importante. Eu fiquei quatro meses a pensar no que ia fazer. Hoje a mentalidade está a mudar. Há muitos que estão a jogar mas quando chegam a uma certa idade, antes de se retirarem, já começam a tirar cursos de treinador, a tentar ver o que vão fazer. Antigamente não se pensava tanto. Há muitos jogadores que estão atualmente no desemprego e que estão um pouco perdidos.

Makukula foi emprestado pelo Benfica ao Bolton Wanderers de Inglaterra, ,na época 2008/09

Makukula foi emprestado pelo Benfica ao Bolton Wanderers de Inglaterra, ,na época 2008/09

David Howarth - PA Images

Como surge o convite para ser embaixador do futebol congolês?
O presidente da federação de futebol é que tem muito mérito nesta história. Sempre fui amigo dele, ele sempre gostou de mim, e nós falávamos. Ele fez-me várias perguntas para saber o que eu pensava depois de me retirar, para saber o que tinha em mente. E acabou por me convidar. Disse-me que depois de me retirar, se queria ajudar o futebol congolês, para me apresentar lá no Congo e víamos o que é que eu podia fazer.

Como é que foi mantendo contacto no futebol congolês, uma vez que andou sempre de um lado para o outro? Visitava o Congo com frequência?
Sim, eu ia muitas vezes ao Congo, porque tinha lá os meus avós e amigos. Ia passar férias com o Luís Miguel lá e aproveitávamos para ver jogos. Antes de me retirar já trabalhava com alguns jogadores, porque o Luís tinha decidido ser representante e nós íamos vendo jogadores do Congo para trazê-los para a Europa.

Antes de terminar a carreira já dava uma ajuda ao Luís, é isso?
Exato. De vez em quando íamos ver jogadores de África. Eu não queria ser empresário 100% mas queria ajudar.

Os seus pais vivem em Portugal ou no Congo?
A minha mãe sempre viveu em Aveiro. As minhas irmãs também. Vêm ao Congo ou vou eu visitá-los. O meu pai também anda entre Congo e Portugal, mas neste momento está no Congo.

Tem quatro filhos, quando nasceu o quarto?
Nasceu em 2012, chama-se Alvin. Hoje estou divorciado.

Recebeu o convite do presidente da federação de futebol do Congo, para fazer o quê em concreto?
Eu sou diretor desportivo da seleção. E da parte da federação sou embaixador do futebol congolês. Por exemplo, agora estou a arranjar maneira do Congo ir a uma cidade da Europa fazer um estágio, porque nos qualificámos para a Taça africana. Esse é o meu trabalho, buscar ligações para o desenvolvimento do nosso futebol.

Como é que foi voltar a África?
Foi muito difícil. Para uma pessoa que não está habituado a África é preciso ter muita força de vontade.

Porquê?
É outra mentalidade, outra cultura, um país que não está muito desenvolvido, que precisa de ajuda, um país com uma organização difícil.

Está a gostar das suas novas funções?
Sim, conseguir levar muitos jovens congoleses com a dupla nacionalidade a voltar a jogar no Congo é muito importante. Há muitos jovens portugueses de pais congoleses e o meu objetivo é pegar nesses jogadores e levá-los para o Congo e convencê-los que podem ser jogadores no Congo também. Ao fim e ao cabo, o que não fiz, tento convencer o outros a fazer, ou seja, eu não joguei pela seleção do Congo, joguei pela seleção portuguesa, mas agora o meu trabalho é recuperar jogadores para a seleção do Congo.

Makukula em ação pelo Bolton Wanderers

Makukula em ação pelo Bolton Wanderers

Peter Byrne - PA Images

Onde ganhou mais dinheiro?
Em Espanha.

Onde investiu?
Meti muito em imobiliário e perdi muito dinheiro também.

Perdeu como?
Investi mal.

Pode dar um exemplo?
Investi muito em casas. Eu não sou um homem de negócios, a minha vida sempre foi futebol, portanto sempre meti pessoas de confiança a ajudar. Mas resultou em coisas negativas. Fui enganado algumas vezes por pessoas em quem confiava.

Hoje já está de pé atrás?
Hoje já é diferente, já tenho tempo para fazer eu mesmo as coisas.

Tem ideia de quanto dinheiro perdeu no total?
Não faço ideia.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Às vezes fazemos coisas sem nos darmos conta. Uma pessoa como eu, que sempre fui muito de família, fiz sempre loucuras por causa da família. Carros? Já dei muitos carros a muita gente [risos]. O que sempre tive de bom foi ter um coração grande e ajudar as pessoas, mas não chamo isso de extravagância, chamo isso ajuda.

Teve muita gente a bater-lhe à porta a pedir dinheiro?
Quase todos os dias.

Tem algum hobby ou outro desporto do qual goste muito?
Adoro jogar ténis, mas não tenho paciência para ver.

Quando era miúdo quem eram os seus ídolos?
Sempre gostei do Patrick Kluivert e do George Weah.

D.R.

É crente?
100%. Sou católico e vou à igreja todos os domingos. Às vezes quando vou a Portugal ver os meus amigos, o Bosingwa ou o Luís Miguel, se calhar num domingo, nem que vá sozinho, vou à igreja. A qualquer parte do mundo onde vou, ao domingo, vou assistir à missa.

A fé foi-lhe incutida pela família?
A minha mãe sempre foi de rezar muito, mas penso que Deusme deu tudo, Deus deu-me a força de poder jogar futebol e sempre acreditei em Deus e em agradecer-lhe para a minha própria proteção. Por isso nunca me canso de ir à igreja.

Superstições, tem?
Não. Só rezava antes dos jogos porque é preciso ter muita sorte e se Deus existe, o Diabo existe também. E eu prefiro estar no lado de Deus.

Qual é o seu maior arrependimento no futebol?
Essa pergunta nunca me fizeram, mas é muito boa porque tenho a resposta, só que é melhor não responder [risos].

Porquê?
[risos] Uma das maiores asneiras que fiz foi quando fui o melhor marcador da Liga turca. Tinha que dar poder ao Kayserispor porque nós tínhamos um acordo e não cumpri, deixei passar a data e foi uma grande asneira. Fez-me perder muito dinheiro. Mas como não sou muito de me arrepender das decisões... Agradeço a Deus todos os dias. O esforço é ir fazendo menos asneiras pouco a pouco.

Os seus filhos vivem onde?
Neste momento em França.

Algum deles joga futebol?
Há um que pode vir a ser um craque [risos]. O mais velho, o Aziz, é muito bom jogador. Está com 12 anos, joga na escola, mas sempre que tenho tempo levo-o a jogar e vejo que pode ser um bom ponta de lança.

Qual foi o melhor carro que teve?
Tive e tenho muitos carros. Mas adorava um Mini que comprei ao Simão Sabrosa. Adorava aquele carro. Mas o melhor talvez seja o Porsche Panamera Turbo que tenho agora. Mas gostei muito do Mini.

Quando fez a primeira tatuagem?
Quando fiz o meu primeiro contrato em Salamanca. Era para me lembrar. É um desenho tribal no braço. Depois fui ampliando em função dos contratos. Fiz o braço todo. No braço esquerdo tenho os nomes dos meus filhos.

Atualmente Makukula é o embaixador do futebol congolês

Atualmente Makukula é o embaixador do futebol congolês

D.R.

Algum clube de sonho onde gostava de ter jogado?
O Milan. Eu dizia sempre que nem que o Milan fosse para a terceira divisão, eu gostava de representar esse clube. Os meus dois pontas de lança de referência, Weah e Kluivert, jogaram lá e eu também queria passar por lá só para fazer história.

O facto de ser um jogador grande, com 1,90m, ajudou-o ou prejudicou-o mais a carreira?
As duas coisas. Ajudou, porque em algum momento me destaquei por ser assim alto e forte, por outro lado, não me ajudou muito porque quando és grande és visto mais facilmente, portanto se faço asneiras vê-se também mais facilmente.

Para si, qual era a sua mais valia como jogador?
Era potente.

E o ponto fraco?
[risos] Tinha muitos pontos fracos [risos]. Talvez alguma falta de agilidade, por ser grande.

Qual o jogador português que mais admirou?
O Rui Costa e depois o Cristiano Ronaldo, que é o número um do mundo. O Rui Costa impressionou os da minha geração pela qualidade que tinha, mas agora quem impressiona o mundo e a mim é o Cristiano Ronaldo, não há dúvida.

Mais do que o Messi?
Boa pergunta. Há um Cristiano que conheço, vi-o crescer desde os sub-21, e depois há um Messi que a gente vê. Mas há que dar valor ao Cristiano porque é uma máquina. É um monstro.

De que jogadores do Benfica tem mais saudades?
Tenho muitas saudades do meu "palhaço" Mantorras [risos]. Ele fazia-me rir muito.

Qual a maior surpresa que lhe fizeram?
No futebol fizeram-me duas surpresas grandes, sempre no momento do meu aniversário. Na Turquia fizeram-me uma festa de aniversário que me surpreendeu bastante. E no Congo, há pouco tempo, com os jogadores da seleção, fizeram-me também uma festa surpresa muito boa.

Era muito de sair à noite?
Nem por isso. Ao fim e ao cabo hoje é que tenho tempo para isso mas mesmo assim não me dedico muito a isso.

Gosta de música?
Adoro. Gosto um pouco de tudo. Gosto de música sevilhana, de flamenco, e por estranho que possa parecer gosto da nossa música, portuguesa, de Amália, gosto de fado.

E gosta de dançar?
[risos] Não sei dançar. Nossa senhora, com quase 10 metros que tenho, dançar? Que vergonha. Não, não costumo dançar.