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A casa às costas

Nuno Pinto: “O Jaime Pacheco disse que era mais importante eu treinar do que ir assistir ao parto. 'Ó mister, fogo, é o primeiro filho...'”

Esta época viu os holofotes virarem-se para ele pela pior das razões, quando, em dezembro passado, foi-lhe diagnosticado um linfoma. Cinco meses e 10 tratamentos depois, Nuno Pinto, 32 anos, regressou ao Bonfim para fazer o último encontro da temporada pelo V. Setúbal, a sua "casa" desde 2015/16. Antes disso já tinha vestido a camisola de clubes como o Vilanovense, da sua terra natal, Boavista, Trofense e Nacional da Madeira, bem como dos estrangeiros Levski de Sofia (Bulgária), SC Tavryia (Ucrânia) e Astra Giurgiu (Roménia), e recorda à Tribuna Expresso uma carreira que foi bruscamente interrompida, mas vai continuar já na próxima época

Alexandra Simões de Abreu

João Cipriano

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É um homem do norte, nasceu em Vila Nova de Gaia. Apresente-nos a família.
O meu pai, José Pinto, é vendedor no Porto. É um negócio de família que pertence ao meu tio. Vende atoalhados, lençóis, esse tipo de coisas para casa. A minha mãe Cristina Pinto, é empregada doméstica. Houve uma altura em que o meu pai andava pelo país a trabalhar, saía de casa na segunda e só chegava à sexta-feira. Fez isso por mim e pela minha irmã mais nova, Ana Rita, porque ganhava mais dinheiro.

Como era o bairro onde cresceu?
Eu vivia num sítio que era mais ou menos uma quinta. Também fui muito criado pela minha avó que vivia lá nesse bairro/quinta. A rua ainda era de paralelos e era com isso que fazíamos as balizas para jogar à bola. Também jogávamos contra os portões das garagens. Era a infância de antigamente. Infelizmente hoje não é assim, hoje é mais tablets, telemóveis, playstations, eu fui criado na rua.

Tinha alguém na família ligado ao futebol?
Profissionalmente não. Tinha um ou outro tio que jogava futebol de salão, mas nada de especial.

Quando era pequeno torcia por que clube?
Pelo clube que o meu pai torcia, o Benfica. Mas não sou benfiquista, nem portista, nem de nenhum desses clubes. O clube do meu coração é o Vilanovense, o clube da minha terra. Sendo profissional não torço por ninguém, apenas pelo clube onde jogo porque quero ganhar sempre, seja contra quem for.

Quem eram os seus ídolos?
João Vieira Pinto. E tive a felicidade de poder jogar com ele no Boavista. Sempre foi o meu ídolo, era da posição onde eu jogava, que não era a lateral esquerdo mas a médio. Para mim na altura era o melhor jogador português.

Da escola, gostava?
Gostava, não gostava era de ir às aulas. Ia para a escola jogar à bola. Nunca fui um bom aluno, infelizmente. Mas também porque não tinha tempo de estudar, porque eu acordava às sete da manhã e chegava a casa às onze da noite, depois do treino, cansado. Um miúdo de 10, 11, 12, 13, 14 anos tem de descansar e eu ia descansar. Reprovei uma vez no 7º ano mas isso foi por causa das companhias do bairro, que não foram as melhores.

Faltava às aulas?
Eu ia às aulas só que não queria saber, não estudava. Mas a minha mãe meteu-me na linha, disse ou estudas ou o futebol acabou-se.

Nuno Pinto com pouco mais de um ano

Nuno Pinto com pouco mais de um ano

D.R.

Disse há pouco que houve uma altura em que o seu pai começou a sair de casa à segunda e só regressava à sexta, por causa do trabalho. Tinha que idade nessa altura?
Foi naquela altura dos medos e em que se sente a falta, deve ter sido dos 12 aos 15, 16 anos. Sentia muito a falta dele. Sentia falta do dia a dia com ele, das brincadeiras com ele, de estar com ele. Quando ele estava em casa era uma alegria. A minha mãe sozinha comigo e com a minha irmã... Eu não era fácil, era rebelde, por isso era complicado.

Era rebelde como?
Não era mal educado, mas fazia muitas asneiras. Não parava quieto, era um menino que a minha mãe dizia senta-te aqui e eu sentava-me no banco ao lado só para contrariar. Se estivesse o meu pai já não era assim, bastava ele olhar para mim que eu sentava-me logo [risos].

Quando é que começa a jogar no Vilanovense?
Vou a primeira vez ao Vilanovense com seis anos. Um vizinho do meu pai viu-me a jogar na rua e deve ter visto qualquer coisa. Disse que ia levar-me lá ao clube para fazer uns treinos. Antigamente era futebol de 11, na terra, chovesse ou fizesse sol. Não é como agora. Fui lá mas não podia jogar porque era só a partir dos sete anos. Treinei, as pessoas gostaram de mim, falaram com esse vizinho, o Lando, disseram que eu podia ficar mas que naquele ano ainda não podia jogar.

Foi uma grande desilusão?
Um bocadinho. Fiquei triste, mas treinei. Depois no ano a seguir já joguei. Adaptei-me fácil porque naquele primeiro ano deu para aprender. Qualquer desporto que seja coletivo aprende-se muito, aprende-se a ser um jogador de grupo, onde temos de preocuparmo-nos connosco e com os outros. Foi um ano de aprendizagem. Mas continuei a fazer muitas asneiras.

De que género? Pode dar um exemplo?
Não era andar à porrada, mas metia-me com as pessoas na rua, com os treinadores, esse tipo de coisas da adolescência. Era refilão, rebelde, mas não era mal educado, não dizia asneiras nem insultava ninguém, mas gostava de meter-me com as pessoas. Ainda hoje sou um pouco assim, mas um bocado mais comedido porque sou casado e tenho três filhos [risos].

No ano a seguir vai logo para o Boavista?
Não foi no ano a seguir, foi passado dois anos. Eu fiz esse ano nas escolinhas, no ano a seguir volto ao Vilanovense e a meio do ano os responsáveis do FC Porto foram falar com os meus pais para eu ir para lá. O meu pai disse-lhes "Ele tem oito anos, se vocês se comprometerem a ir buscá-lo e a trazê-lo por mim não há problema nenhum, podem contar com ele". Só que os responsáveis do FCP não podiam fazer isso e fiquei no Vilanovense. No ano a seguir é que chega o Boavista e o FCP. E como os responsáveis do Boavista comprometerem-se a levar e trazer, eu fui para o Boavista.

Teve pena de não ter ido para o FCP?
Não. Naquela altura o que eu queria era jogar futebol. Eu tive pena foi de ter saído no Vilanovense porque tinha lá os meus amigos todos. Agora o resto, nem tinha noção do que era jogar no FCP, Benfica, Sporting, Boavista, o importante era jogar. Eu saía do treino e ia jogar à bola na rua. Jogar à bola era o mais importante.

Nuno Pinto, com o livro de estudo do meio, na primária

Nuno Pinto, com o livro de estudo do meio, na primária

D.R.

Foi para o Boavista com nove anos. Era muito diferente do Vilanovense?
Um bocadinho. No Vilanovense levávamos o nosso equipamento. Eu levava os calções, as chuteiras, a camisola. No Boavista não, eles tinham os equipamentos todos iguais. Com cesto, com nome ou número. As condições eram outras.

Nessa altura recebia algum dinheiro?
Recebia o valor do passe, independentemente de me irem buscar. Era um contributo que me davam. Sempre dei o dinheiro aos meus pais, porque sabia o que eles passaram; não para eu chegar onde cheguei porque para isso é preciso sorte e há muita coisa envolvida, não é só por que os pais fazerem sacrifício que eu chego a profissional. Mas sei os sacrifícios que eles fizeram para me dar uma vida melhor e à minha irmã.

Faz duas épocas no Boavista e é emprestado ao Pasteleira.
Nos infantis fico no Boavista e depois eles fazem um protocolo com o Pasteleira, como FCP fez com o Padroense. Havia a equipa B que jogava nos distritais e a equipa A que jogava no nacional. Eu fiquei na A, só que nunca jogava. Então disse que não queria ficar porque queria era jogar. Para isso acontecer tinha que ir para a equipa B que era o Pasteleira. Fui para lá em dezembro.

Foi duas vezes emprestado ao Pasteleira.
Quando mudava de escalão, no primeiro ano ia para o Pasteleira, que era a equipa B e no segundo ano desse escalão voltava ao Boavista.

Ainda é emprestado ao Candal.
Era a mesma situação, mas nos juniores, porque o Pasteleira não tinha juniores e por isso fui para o Candal. O treinador era o falecido Queiró, eu tinha vindo de um estágio da seleção, cheguei uma semana atrasado e quando cheguei ele queria que eu assinasse. Antes de assinar perguntei-lhe: "Isto é para eu jogar ou para andar só a treinar? É que se for só para treinar eu prefiro ir para o Candal, ali jogo e sou útil. Se for só para ficar no banco e não ser convocado, vou-me embora". Forcei tudo para sair. Sempre fui assim. Se não me sinto útil prefiro sair e jogar. Estar só por estar não faz parte de mim.

Quando é chamado a primeira vez a uma seleção?
Foi para os sub-17 se não estou em erro. Foi uma sensação fantástica. Foi o treinador Moinhos que me deu a notícia. No início do treino parecia que vinha mal disposto, virou-se para mim e disse-me: "Depois quero falar contigo". Fiquei logo a pensar, já fiz asneira [risos]. Estive o treino todo a moer: "O que é que eu fiz? O que é que eu fiz? O que e que eu fiz". No final do treino ele disse-me "prepara as tuas coisas que foste convocado para a seleção". É um orgulho.

Que outros jogadores faziam parte dessa seleção?
Miguel Veloso, Manuel Fernandes, Nani, Tiago Gomes, Manuel Curto, João Coimbra, Ivanildo, Hélder Barbosa, uns tantos. Já nos conhecíamos de jogar no campeonato nacional de juniores.

Quando assina o primeiro contrato profissional?
No ano a seguir a ter estado no Candal. Mas eu já tinha contrato de formação e recebia 350 ou 400 euros. Com o primeiro contrato profissional passei a receber 1500 euros, que era o mínimo.

Houve alguma coisa que quisesse comprar logo?
Não, porque desde que comecei a receber que entregava o dinheiro todo à minha mãe. Como é lógico se eu precisasse de qualquer coisa a minha mãe dava-me. Mas mesmo com 17, 18 anos eu pedia autorização à minha mãe. Ela nunca me disse que não. Só me lembro de umas sapatilhas que comprei, de molas, que a minha mãe não gostava nada. Já namorava com a minha mulher e ela também não gostava [risos].

Como e quando é que conhece a sua mulher?
Conheci a Cátia com 18 anos, nos juniores do Boavista. Ela era amiga da minha prima. Ela é de Amarante, estudava e trabalhava numa loja de roupa. Eu dava-me bem com a minha prima, ela começou a entrar no nosso grupo de amigos, íamos ao café. Depois surgiu.

Essa também é a altura das primeira saídas à noite...
Nós jogávamos ao sábado e depois íamos para o Via Rápida, que era a discoteca do irmão do presidente do Boavista. Estávamos "controlados", não podíamos beber muito [risos]. Era só para desanuviar um pouco. Mas nunca fui de noitadas.

Nuno Pinto em criança

Nuno Pinto em criança

D.R.

Entretanto é emprestado novamente ao Vilanovense. Porquê?
Por opção própria. Quando assino o primeiro contrato profissional já sabia que ia ser difícil ficar na equipa principal e que ia ser emprestado. Surgiram vários convites de equipas da II divisão B, da III divisão. O meu primeiro pensamento foi: "Vou sair da asa da minha mãe e vou viver sozinho". Só que quando cheguei a casa comecei a pensar: "E se as coisas correm mal? Quem é que está lá para me suportar?" Pensei um dia, dois, três... Quando eles me ligaram surgiu o convite do Vilanovense e eu disse, vou para lá. Porque desde miúdo que um dos meus sonhos era conseguir chegar ali. Quando era miúdo o Vilanovense jogava na II divisão B, que era uma boa divisão, eu ia ver os jogos todos e pensava: "Quem me dera um dia jogar aqui". E concretizou-se. Foi a melhor coisa que eu fiz.

Tem histórias do Vilanovense que possa partilhar?
Estava eu no meu primeiro ano de sénior no Vilanovense, jogávamos sempre ao domingo, e antes do jogo juntavamos todos no estádio e íamos almoçar. Como eu não tinha carta de condução ia de boleia com o Vasco Oliveira, que é o filho do António Oliveira, e com o Paulo Murdoc. Estávamos a descer a avenida para irmos para o restaurante, por volta das 11h, e imagine-se, domingo, as pessoas a sair da igreja, da missa, e ele para o carro, sai com o Paulo Murdoc, vão à mala, tinham lá pistolas de brincar. Saem lá de trás com a cara tapada e com as pistolas e começam a gritar: “Isto é um assalto, isto é um assalto”. E as senhoras mais velhas: “Ó meu menino, tu não percas a cabeça, tu não faças isso, olha que Deus está a olhar”. Eles começaram a rir os dois. Eu com cara de espanto a pensar: “Estes gajos são mesmo malucos”. Mas lá nos rimos todos e começámos a falar com as senhoras.

Quando regressa ao Boavista que era o treinador?
O professor Jesualdo Ferreira. Mas passados três meses ele foi para o FCP.

Com que impressão ficou dele?
Fora de série. É aquele treinador que trabalha o pormenor. Lançamentos, cantos, movimentações. Fantástico. Não é à toa que ele foi para o FCP e conquistou tudo. Vai lá para fora e é um dos nomes do futebol mundial. É por isso, por causa dos pormenores. Como o Mourinho, o Guardiola, são os melhores do mundo porque trabalham o pormenor.

A seguir veio o Petrovic e o Jaime Pacheco.
O Petrovic era um tipo de treinador que primava pelo passe e receção. E nisso eu era muito forte, continuo a ser. Lembro-me que ele chega e o primeiro jogo que fazemos é contra o Benfica e eu fui convocado. Fui o 19.º, mas fui convocado. Só que eu não tinha carta de condução na altura e ia de boleia com o Paulo Sousa. Houve uma semana em que cheguei três vezes atrasado por causa do Paulo Sousa. O Petrovic chegou à minha beira e disse-me: "Tu és um miúdo, não podes chegar atrasado. Se for preciso tens de dormir aqui". E nunca mais fui convocado, até ele sair.

Chegou a estrear-se em algum jogo oficial com o Jesualdo e com o Petrovic?
Não. Só faço a minha estreia oficial com o Jaime Pacheco, que chega em dezembro. O último jogo do Petrovic, se não me engano, foi em dezembro, em casa, com a Naval, perdemos 4-0 e ele foi despedido. Chegou o Jaime Pacheco, que já me conhecia, porque quando era júnior treinava com os seniores.

Então já conhecia as "tareias" do Jaime Pacheco.
Sim [risos], no Parque da Cidade. O pior treino eram os 40 minutos lá. Eram 20 minutos a correr à volta do parque e depois um circuito de 1m17s sempre a abrir. Era complicado. O João Pinto chegava e dizia: "Não faço mais". Dizia que estava ali para jogar à bola, não para correr [risos].

O que é que o Jaime Pacheco fazia?
Não o punha a jogar. Tanto é que o Jaime Pacheco teve sempre problemas com o João Pinto, porque o João Pinto era um jogador diferenciado de todos e não era o estilo do Jaime Pacheco. Mas isso eu não condeno. O Jaime Pacheco gostava de jogadores de luta, de carrinhos e o João Pinto era mais mágico e tiveram problemas.

O Nuno adaptou-se bem ao estilo Jaime Pacheco?
Com 19 anos, então não tinha de me adaptar? Tinha de ser. Era o sonho, a gente tem de correr atrás.

Nuno Pinto nas camadas jovens do Boavista onde fez grande parte da formação

Nuno Pinto nas camadas jovens do Boavista onde fez grande parte da formação

D.R.

Entretanto é pai.
Sim, da Beatriz.

Assistiu ao parto?
Assisti. Mas o Jaime Pacheco não queria. Disse que era mais importante eu treinar do que ir assistir ao parto. Só que eu: "Ó mister, fogo, é o primeiro filho". E ele: "Vai lá então, vai lá". Aí eu já estava a jogar a titular.

Quando se dá a sua estreia num jogo oficial?
Na liga foi contra o Sporting.

Estava muito nervoso?
Não. Não, porque o normal é os treinadores chegarem e dizerem, vai com calma, faz isto assim, faz isto assado. Na altura em que me estreei contra o Sporting, o mister nem falou comigo. Parecia que já tinha 100 jogos em cima [risos]. Só disse o 11 inicial, fui aquecer, vesti o equipamento principal e quando estávamos no túnel é que ele cumprimenta os jogadores todos e quando passa por mim dá-me um cachaço e diz "faz o que sabes" e seguiu. Senti-me nervoso foi no jogo a seguir, com o Benfica.

Porquê?
Jogo fora e 57 mil pessoas. Uma coisa é jogar perante os nosso adeptos, outra é jogar no estádio da Luz. Nunca perdi com o Boavista. Como profissional também só fiz uns 10 jogos, mas nunca perdi. Esse jogo com o Benfica é aquele mítico em que empatamos a zero e a bola andava em cima das linhas de golo e não entrava.

Mas correu bem a estreia com o Sporting?
Correu. Lembro-me que no fim fui ao flash interview, aquilo era só câmaras e luzes por todo o lado, atrapalhei-me a falar e o jornalista que me estava a fazer perguntas no fim disse "Nuno Pinto joga melhor do que aquilo que fala" [risos].

Inicia a época seguinte no Boavista…
No final da época o Jaime Pacheco teve reuniões individuais com os jogadores, chamou-me disse que eu era um miúdo, estava a aparecer mas que a época me tinha corrido muito bem, para continuar visto que o Mário Silva não estava a ir para novo e apesar de ele ser a primeira opção, eu era a segunda e qualquer coisa que acontecesse eu estava na calha. Fiquei contente. Iniciamos a época, só que com o decorrer dos dias as coisas foram mudando. Na altura falava-se muito que a seleção nacional estava bem servida de laterais esquerdos porque era o Nuno Pinto no Boavista e o Antunes no Paços de Ferreira. Era entrevistas de páginas grandes, eu e ele, isso deixava-me contente e confiante. Mas de repente as coisas mudam. Atenção, eu estou muito feliz com a carreira que fiz, podia ter feito melhor ou pior, mas é a tal coisa é preciso sorte. A sorte e o momento contam muito.

Por que diz isso?
Porque na altura o Jaime Pacheco diz que eu ia ter as minhas oportunidades e é aí que sou emprestado ao Trofense. Não sei o que mudou na cabeça dele, não faço a mínima ideia, nem nunca o questionei. Sendo um treinador é o chefe máximo e eu não questiono. Sei que, nesse momento, eu sou emprestado ao Trofense e o Antunes fica no Paços de Ferreira na I Liga. E no ano a seguir eu vou para o Nacional da Madeira e o Antunes vai para a Roma. É o momento. Não lhe estou a dizer que se ficasse no Boavista ia para um grande clube. Não estou a dizer isso, mas era mais fácil.

Tinha empresário?
Tinha várias pessoas que falavam comigo, mas nada assinado com ninguém. E essas pessoas diziam-me que eu ia ficar no Boavista e que ia jogar, só que acabou por não acontecer. Não guardo mágoa a ninguém mas é para perceber, um foi para um lado, o outro foi para o outro e se calhar estávamos os dois no mesmo patamar. O futebol é um momento e tem que se aproveitar os momentos.

Mas para si foi só uma questão de sorte e azar ou acha que houve mais qualquer coisa?
Não. Sorte do Antunes que fez uma grande época e ainda bem, e ainda bem que continuou a fazer uma grande carreira o que comprova que foi competente. Andou por grandes clubes e agora está na I liga espanhola. Agora, podia ter acontecido comigo? Podia. Fica sempre aquela dúvida no ar, se eu não tivesse sido emprestado ao Trofense, se eu continuasse no Boavista, na I Liga, ia jogar? Se calhar tinha outro desfecho. Ou não.

Quando lhe dizem que vai para o Trofense, qual foi a sua reação?
Disse logo que sim. Como já disse, o importante era eu jogar. Eu podia perfeitamente dizer que queria ficar no Boavista, como aconteceu com o Hugo Monteiro, ele era para vir comigo mas disse que não. Em dezembro o Hugo andava a ligar-me a chatear para ir para lá, eu falei com o treinador mas o treinador já tinha muitos jogadores para aquela posição e acabou por não acontecer. Mas a época correu-me bem, fui campeão da II liga.

Nuno Pinto (à esquerda) já como jogador sénior do Boavista

Nuno Pinto (à esquerda) já como jogador sénior do Boavista

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Como é que vai parar à Madeira?
Em dezembro as coisas estavam a correr muito bem e o treinador do SC Braga, o Manuel Machado, nessa altura queria que eu fosse para Braga. Só que o Boavista, que era detentor do meu passe, disse que não. Fiquei até ao final da época no Trofense.

Ficou chateado?
Não, porque já sabia que se não fosse em dezembro, no final da época ia forçar tudo para sair porque o Boavista estava em plena crise, prestes a descer de divisão por causa do processo Apito Final. Um menino de 20 anos, já com uma filha, não podia estar com quatro ou cinco meses de salário em atraso. Continuei a trabalhar e no final da época surge outra vez a possibilidade do SC Braga e do Nacional da Madeira. Falei com um empresário que me disse que a melhor situação para mim era a Madeira, porque o Manuel Machado ia para lá e era ele que me queria. E no Braga era o Salvador. E resolvi ir para o Nacional.

Como foi ir para uma ilha, adaptou-se bem?
É fixe o primeiro mês. E depois? Já não há mais nada para visitar, de 15 em 15 dias tens de andar de avião. Complicado. Mas estive lá quatro anos e estive na Liga Europa, na fase de grupos da Liga Europa, em termos desportivos foi muito bom.

Mulher e filha foram consigo?
Sempre. Andaram sempre comigo, só não foram para Ucrânia mais tarde por causa da guerra. Eu entrei lá era Ucrânia e quando saí era Rússia [risos].

Já lá vamos. Dessas três temporadas e meia na Madeira que recordações maiores guarda?
As amizades que fiz, principalmente com o Ruben Micael e Edgar Costa. Dos treinadores apanhei o Manuel Machado, Jokanovic, Ivo Vieira, e não me surpreende nada o campeonato que ele fez porque é muito bom; apanhei o Pedro Caixinha durante duas, três semanas porque já estava para sair.

Como saiu do Nacional?
Eu já estava um bocado saturado da Madeira. O Sérgio Leite liga-me com uma proposta e disse-lhe para falar com os responsáveis do Nacional, porque não tinha a mesma motivação do que quando cheguei. Ele disse-me que tinha um clube que já tinha perguntado várias vezes por mim.

Quando soube que era o Levski Sofia, da Bulgária, o que pensou?
Torci o nariz. Ele disse: "Calma, vai ver o teu email". No email tinha a proposta e o meu nariz já distorceu [risos].

Era um bom contrato.
Era. Mas acho que foi a pior coisa que fiz. É um bocado contraditório o que vou dizer mas é a realidade. Foi o clube onde mais prazer me deu jogar, tirando agora o Vitória. Porque é um clube que lutou para ser campeão, tem muitos adeptos, é um clube da capital. Só que ao mesmo tempo, com 24, 25 anos sair de Portugal para ir para um campeonato daqueles... Acho que não foi a melhor escolha.

Porquê?
Porque na altura jogava a titular, lutávamos pela Liga Europa e podia ter aparecido outra coisa melhor no final da época. Mas pronto, é o que é. Foi o que escolhi e não me arrependo.

Nuno Pinto no Nacional da Madeira

Nuno Pinto no Nacional da Madeira

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Como é que a sua mulher reagiu quando lhe disse que iam para a Bulgária?
Também torceu o nariz. Mas torceu o nariz ao saber o país e ao ler o email. Ela estava a acabar o curso de designer de interiores na Madeira, faltavam-lhe três, quatro meses para acabar. Disse-me: "Tu vais, ambientas-te à cidade, procuras casa, quando acabar o curso vou ter contigo". Tudo bem. Só que não deu. Nem para ela nem para mim. Passadas duas semanas estava a ligar-me: "Estou a apanhar um avião para ir ter contigo". Largou a vida dela para ir ter comigo.

Do que gostou e não gostou na Bulgária?
Sinceramente gostei logo de tudo, da maneira como fui recolhido, da maneira como fui apresentado, das condições do clube, gostei de tudo. Depois fui conhecendo a cidade que é um bocadinho antiga mas é muito bonita.

E como se safou com a língua?
Eu inglês não falava muito, mas percebia quase tudo. Tinha lá um espanhol, passado algum tempo foi para lá outro português, Cristovão Ramos, e havia três holandeses. Enquanto eu estava sozinho, íamos almoçar, jantar, para o treino todos juntos. Quando eu queria ir a algum lado, mostrava no telemóvel a morada ou fotografia e era assim. Depois comecei a conhecer a cidade, os melhores sítios e tornou-se mais fácil, entretanto deram-me carro. No fim já falava búlgaro.

Não sentiu nenhum tipo de racismo?
Não. Mas havia uma coisa. Ou nós dávamos tudo ou eles achavam que estávamos lá pelo dinheiro. Mas não é só ali, é em todo o lado. Mas eu nunca tive problemas porque a minha imagem é sempre dar tudo, posso não jogar bem, não marcar golos ou fazer assistências, mas correr, lutar isso faz parte da minha genética. Lembro-me que no meu último ano chegou lá o diretor desportivo e mandou todos os estrangeiros embora, só fiquei eu e o Garry Rodrigues. Mas eu também tive sorte, porque quando cheguei já ia com o andamento do Nacional e eles param no inverno. Na pré-época, no Chipre, parti o pé num jogo treino. Só que não inchou, nem ficou negro, nada, mas não conseguia pôr o pé no chão.

Foi operado?
O médico olhou, andou a mexer e disse: "Isso está bom, é uma entorse". Faltavam duas semanas para começar o campeonato e eu não conseguia treinar. Tive que levar injeções para poder jogar e andei ali quatro, cinco meses em que só jogava, não treinava. No final da época, vim de férias. A minha mulher estava sempre a dizer que eu era um picuinhas: "Estás sempre a queixar-te, pareces uma menina". O que é certo é que eu tinha de ter os meus 10, 15 minutos para conseguir andar normalmente porque quando saia da cama parecia que tinha facas a espetarem no tornozelo. Regresso no ano a seguir e o treinador era o Iliev, que jogou no Benfica, ele falava português e perguntou-me como eu estava. Disse-lhe que o pé me doía e ele mandou fazer uma ressonância.

E?
Quando chegou o resultado, eu estava com o pé partido. Aí ganhei um bocado de moral junto dos adeptos, porque quando as coisas não correm bem é por causa dos estrangeiros que quando vão para lá têm de fazer a diferença, o que é verdade porque são muito mais bem pagos do que os da terra. Mas o normal é chegarem lá e só querem dinheiro. Eles perceberam que o Nuno Pinto esteve quatro ou cinco meses a jogar com o pé partido. Tornei-me um bocadinho um herói para eles, porque não é normal uma pessoa jogar com o pé partido. Depois fui operado e perdi cinco meses de campeonato.

Pelo meio é pai novamente.
Sim, do Diego. Foi no meu segundo ano na Bulgária.

Nasceu lá.
Não, nasceu cá e também assisti ao parto. Mas foi um dos piores dias da minha vida porque ele nasceu à hora do almoço, estive o resto da tarde com ele e no dia a seguir tive de viajar. Fiquei na minha mãe a dormir umas horas, e para ir para o aeroporto tinha de passar no hospital da Arrábida onde ele nasceu, passei, olhei e pensei "será que isto vale a pena, eu ir embora e deixar ali a minha família?" Não foi fácil.

A aventura de Nuno Pinto no estrangeiro começou no Levski de Sofia, na Bulgária

A aventura de Nuno Pinto no estrangeiro começou no Levski de Sofia, na Bulgária

D.R.

Como vai parar ao SC Tavriya da Ucrânia a seguir?
O treinador que me levou para o Levski assinou por aquele clube na Ucrânia. Chateou-me a cabeça para ir para lá e em termos financeiros era... Muito diferente [risos]. Acabou por ser mau porque veio a guerra, os investidores começam a sair e ficamos sem receber.

Nunca conseguiu reaver esse dinheiro?
Não. Estive lá meio ano e só recebi dois salários. Tinha mais dois anos e meio de contrato, tinha prémios de assinatura, posso dizer que fiquei sem um milhão e meio de euros, só por alto. O clube depois acabou.

A família foi consigo?
Não. Era para ir porque em termos financeiros era muito bom. Antes de ir o Levski fez-me uma proposta de renovação, ponderei, ponderei, ponderei, falei com a minha mulher... E nestas coisas, eu tenho de começar a seguir mais a minha mulher, porque ela quando diz uma coisa, é mesmo verdade [risos]. Ela disse-me que era melhor ficar na Bulgária, porque era bem tratado as pessoas gostavam de mim, tratavam-me como um rei. E eu: "Mas já viste que é mais do dobro que a gente vai receber? Mais o prémio de assinatura". Ela insistiu, fica no Levski. Cheguei a casa fiz contas e mais contas. E disse que ia para a Ucrânia. Maldita a hora que fui.

Nuno Pinto fala sobre a chegada à Ucrânia

Qual foi a primeira impressão que teve da Ucrânia?
[risos] Horrível. Porque quando fui para esse clube, fui ter com eles à Turquia, estavam em pré-época. Depois de 15 ou 20 dias é que cheguei à Ucrânia. O aeroporto estava fechado, militares, tanques... Quando digo militares, só se via os olhos porque era capacete, metralhadoras, snipers e nós, a nossa equipa. Foi essa a minha primeira imagem na Ucrânia. Minha e do David Caiado.

Apanhou algum susto?
Não, nunca apanhei nenhum susto propriamente. Só fiquei assustado numa altura em que tivemos de fugir.

Conte lá isso.
Estávamos a uma semana de começar o campeonato, fomos fazer um jogo treino e nem éramos para fazer o jogo porque já se falava que podia haver guerra. Eu e o David sem sabermos de nada. Acabou o jogo treino, nós os dois ainda vivíamos no centro de estágio, aconselharam-nos a não procurar casa e a ficarmos ali porque era mais seguro. Acaba o treino fomos para o centro de estágio, vivíamos no mesmo quarto, entretanto vieram os treinadores que eram búlgaros: "Arrumem as coisas, arrumem as coisas porque temos de fugir, temos de ir embora, isto vai rebentar". Lembro-me que começo a arrumar as minhas coisas, a roupa e ele começa a ir buscar o dinheiro, o ouro e eu: "Ó David, se a guerra rebenta tu vais levar o dinheiro e o ouro? Deixa lá isso". Ainda hoje nos rimos com isso.

E depois?
Entramos no autocarro, levávamos umas sandes que já estavam feitas, arrancamos em direção a Donetsk, ficámos no centro de estágio do Shakthar e no dia a seguir viajamos novamente para a Turquia. Quando estávamos a sair da zona de ataque, tivemos de passar várias fronteiras. Na fronteira da Crimeia, onde estavam soldados russos, ao mostrar os passaportes eles diziam "nós somos dos vossos" e 200m à frente passávamos pelos militares ucranianos e outra vez "nós somos dos vossos". E eles deixavam-nos passar. E era assim nos jogos todos fora. Nós tínhamos avião da equipa só que com o aeroporto fechado tínhamos de ir de autocarro, 12, 15 horas. Era sempre a mesma rotina. Saiamos da zona da Crimeia, a autoestrada toda fechada com tanques e militares russos, snipers, parávamos, passaportes, siga. 50m à frente estavam os ucranianos, a mesma coisa. Uns apontavam para cá e outros para lá. Todos os fins de semana era isto e 15h de autocarro. E não recebíamos.

Quanto ao futebol?
O futebol da Ucrânia é parecido com o futebol búlgaro, muito contacto, muita correria, muito chuto para a frente. Tirando, claro, as equipas grandes, o Shakthar, o Metalurh Donetsk, o Dynamo Kyiv. Aqui em Portugal não, é futebol, porque futebol, futebol, é bola no chão.

Nuno Ribeiro também esteve na Ucrânia, no Tavriya Simferopol

Nuno Ribeiro também esteve na Ucrânia, no Tavriya Simferopol

D.R.

A aventura prossegue na Roménia.
O clube da Ucrânia acaba, eu penso que estou livre e que posso assinar com qualquer clube. Estava para ir para Espanha para o Osasuna da II liga, tudo certo, fui ver casas, o empresário era espanhol, tudo em ordem. Só que quando o Osasuna pede o meu certificado internacional, eles dizem que eu tenho contrato com eles e não dão o certificado. Porque o clube ainda não sabia se ia jogar na Rússia, se ia jogar na Ucrânia. E eu tive de ficar seis meses sem jogar.

O que fez durante esse tempo?
Nada. Fui treinar ao Vilanovense, com o mister Jerry Silva que é hoje o meu advogado e na altura treinador. Disse-me para eu estar à vontade que era um gosto e um privilégio para eles eu estar lá porque podia ensiná-los devido à minha experiência. E aprendi muito. Sobretudo por causa do amor que metem naquilo, que não é por dinheiro, treinam às nove, dez da noite... Aquilo é amor. Aprendemos muito. Às vezes até coisas que eu já sabia mas que estavam escondidas e que me faziam pensar, realmente isto vale a pena. Aproveito para lhe agradecer pelo que fez por mim naquela época difícil.

Então, mas como surge a Roménia?
Em janeiro. Os clubes que antes me queriam contratar, já queriam que fosse à experiência, porque não sabiam como é que eu estava fisicamente. Logo ao início disse que não, mas o tempo começou a apertar e comecei a ponderar. Só que entretanto aparece o Astra Giurgiu, da Roménia, onde estava um treinador ucraniano que me conhecia, gostava muito de mim e ligou para um empresário de Israel, que me contacta. Ele mandou a proposta, como não tinha mais nada em carteira e o salário era bom, fui. Fui sozinho. Ponderámos ir em família, mas o Diego era muito bebé e nós ouvimos falar em romenos e não nos sentimos seguros. Embora não tenha nada a dizer, vivi em Bucareste, a cidade é muito grande, é muito bonita. É cara, mas é top.

E dos romenos com que imagem ficou?
Pois. Isso é que não dá. Não são pessoas sérias. Nunca foram. Chegaram ao cúmulo de pagar salários a uns e não pagar a outros.

Mas recebeu?
Recebi, mas tive de ir para a justiça para tentar receber o resto e ainda não está resolvido.

Como foi em termos de futebol?
Ao início era o treinador ucraniano e eu tive de treinar um bocadinho mais para chegar ao nível em que eles estavam fisicamente. Depois de lá chegar, o treinador é despedido e entra um romeno. E esses é que não gostavam de jogadores estrangeiros. Estive ali uns oito jogos sem jogar, nem era convocado e treinava bem. Até os meus próprios colegas diziam: "Como é que é possível?". São opções do técnico, não discuto, estou aqui, treino. Até que o campeonato pára por causa das seleções e fazemos um jogo treino em que joguei, com outros que também não costumavam jogar. Ganhámos 3-0 e eu fiz três assistências e o treinador no fim veio ter comigo: "Não sabia que eras assim. Jogaste muito bem".

O que lhe respondeu?
"Não sabia? Nunca me deu uma oportunidade. Tenho treinado mal?". "Não, não". "Então?". A partir daí comecei a jogar com ele. Entretanto ele foi despedido. Entrou o Sumudica, que falava português. Joguei sempre com ele, atrás, a lateral ou como extremo, até a lateral direito joguei. E como se diz na gíria do futebol, o mais importante não é como começa é como acaba e eu acabei bem, a jogar. Foi assim na Roménia, mas não gostei, foi uma má experiência. Depois o Sumudica falou comigo para renovar. Mas disse que primeiro tinham que pagar o que me deviam. Mas a minha vontade já não era muita. Já tinha falado com a minha mulher e tinha-lhe dito que tinha de parar a aventura no estrangeiro durante alguns anos porque estava farto de estar há muito tempo fora. Tinha de vir a Portugal dois ou três anos para descansar um bocadinho e depois se surgisse a oportunidade outra vez, eu voltava a sair.

Nuno Pinto no Astra Giurgiu, da Roménia

Nuno Pinto no Astra Giurgiu, da Roménia

D.R.

Vinha com ideia de ir para onde?
Nao vinha com ideia nenhuma. Vinha com ideia de vir para a I liga. E surgiu o convite do V. Setúbal. Também foi de um dia para o outro.

Aceitou logo?
Sim. A primeira coisa que os responsáveis me disseram foi "atenção que isto é um clube humilde, o que vais receber aqui não é o que vais receber lá fora". Mas isso eu já sabia. Eles ligaram-me à noite e no dia a seguir de manhã, disse, está tudo certo e vim logo assinar.

Não teve outros convite?
Tive. Não quero estar a dizer quais foram, não me fica bem. Mas posso dizer que houve um clube da I liga que me ligou de manhã:"Sou do clube X, temos isto para te oferecer e tens até à hora do almoço para me dizeres se queres ou não, se não vou buscar outro jogador". E disse o nome do outro jogador. Eu disse logo: "Então fazemos assim, não vamos esperar pela hora de almoço, pode ir buscar o outro jogador". Não fui. E não tinha nada. Mas acho que a abordagem é meio caminho andado para as coisas correrem bem. E a forma como fui abordado pelos responsáveis do V. Setúbal foi fora de série. Foram humildes, sinceros. E têm cumprido. Assinei logo no dia a seguir. Depois surgiram propostas do Chipre, bem mais vantajosas.

Mudaram-se todos para Setúbal.
Sim, as pessoas aqui foram muito acolhedoras, vivem intensamente o futebol, são adeptos fervorosos como eu gosto, não são aqueles em que está sempre tudo bem, como os do Nacional. Nada contra, atenção, mas no Nacional em três anos fui duas vezes à Liga Europa e os adeptos ganhando ou perdendo está tudo bem. Aqui perde-se e vamos a sair do estádio e já há pressão. Mas isso é bom para nós jogadores, para não dormir na sombra.

Como é que foi voltar ao futebol português, notou muita diferença?
Sim, porque se estás cinco anos lá fora e o futebol é chuto para a frente, temos de nos adaptar outra vez à realidade. Mas adaptei-me rápido porque o meu futebol é mais português. Não senti dificuldades mas senti diferenças.

Sentiu mudanças no futebol que tinha deixado cá há cinco anos e aquele que veio encontrar?
Evoluiu taticamente, nas bolas paradas também. Acho que evoluiu mais e nível tático do que técnico. Antes havia mais espaço, partia-se o jogo e neste momento é difícil uma equipa partir o jogo.

Beatriz, a filha mais velha de Nuno Pinto

Beatriz, a filha mais velha de Nuno Pinto

D.R.

Quando chegou a Setúbal apanhou o Quim Machado como treinador. Que tal?
Como pessoa, como treinador, não tenho nada a dizer. As coisas não correram bem, mas nem sempre correm bem. Na segunda volta ganhamos só um jogo, contra a Académica, em casa. Mas no final de contas, objetivo cumprido, a manutenção. Agora, foi um ano muito dificil. É muito mais fácil trabalhar nas vitórias do que nas derrotas.

Depois foram dois anos de José Couceiro...
O melhor treinador que apanhei até hoje. De longe.

Porquê?
Em termos humanos do melhor que há, em termos de futebol, de treino, do melhor que apanhei, falo do que apanhei. Na semana, pelo menos em dois ou três dias não sabíamos que tipo de treino é que íamos ter. Para nós jogadores a diversidade é o melhor que pode existir, ter tipos de exercícios diferentes. Mas em termos humanos ainda hoje continua a ser uma pessoa que trago no coração. E estava a ser injusto se não mencionasse também o Ivo Vieira, porque gostei muito de trabalhar com ele. Todo este trabalho que fez no Moreirense só me surpreende de ter sido tão tarde.

Esta época inicia com o Lito Vidigal à frente da equipa.
Também é uma pessoa humana, mas em termos de futebol é muito diferente do Couceiro. É mais de combate. Ele gosta de jogadores de combate. Não condeno, mas não é o meu estilo de jogo, não quer dizer que eu não me adapte, e adaptei-me, se tiver de ser é, mas é um treinador que quer ter dois pontas de lança altos na área, no meio campo jogadores de combate. Muito tempo de treino, duas horas e meia. Mas gostei.

Nuno Pinto com a mulher, o filho Diego e Dani (ao colo da irmã Beatriz)

Nuno Pinto com a mulher, o filho Diego e Dani (ao colo da irmã Beatriz)

D.R.

Chegamos a dezembro, altura em que descobre que tem um linfoma. Tinha algum sintoma?
Não.

Como descobre?
Eu estou a treinar, normal, e quando vou tomar banho na zona inguinal está lá um gânglio grande. Falei com o Luís, o fisioterapeuta, vê-me lá isto, não me dói, não sinto dores, mas não é normal. A primeira resposta que me dá é que isto é um gânglio aumentado, é normal num jogador de futebol porque qualquer infeção que tu tenhas é aí que vai dar sinal. Seja uma unha encravada, uma porrada que tenhas levado num treino ou no jogo, uma ferida, qualquer coisa. Perguntei-lhe se ia desaparecer. Ele diz que sim, numa semana ou duas ia desaparecer. Na semana seguinte estava igual. E voltei a falar com ele.

O que ele respondeu dessa vez?
Disse que pelo sim pelo não ia fazer uma ecografia. Fui ao hospital da Luz fazer a ecografia e o técnico diz-me, é só um gânglio aumentado, nada de outro mundo. Ok. Eu treinava duas horas e meia, nunca me senti cansado, estava tudo bem. Mas na outra semana o gânglio continuava igual, nunca baixava. Falei com o Dr. Ricardo, o médico do clube e com o Luís. Eles marcaram outra ecografia. Fui e o técnico começou a ver e resolveu puxar mais acima e, mais acima, tinha outro gânglio aumentado.

E depois?
Nesse momento vejo o meu fisioterapeuta a sair para falar com o técnico do ecógrafo e começam os dois a falar. E aí começou a surgir algum receio. Quando eles vêm, o Dr. disse, que ia fazer uma biópsia para despistarmos qualquer tipo de situação. Quando ele diz que eu vou fazer uma biópsia aí fiquei com quase a certeza absoluta que alguma coisa de grave se passava comigo.

Nuno Pinto fala sobre a doença: "Eu sou um jogador profissional de futebol e uma biópsia não é fácil de fazer"

Porquê?
Vejamos, eu sou um jogador profissional de futebol, uma biópsia não é fácil de se fazer e há muitas maneiras de despistar qualquer tipo de situação, e eu vou fazer uma biópsia porquê? Fiz a biópsia e quando faço a biópsia começo a preparar a minha mulher.

Como é que ela reagiu?
Disse que eu estava maluco. Mas aos poucos fui preparando. Porque era um pressentimento que eu tinha de que alguma coisa não estava certo apesar de não ter nenhum sintoma. Era um pressentimento. No jogo com o Benfica, entre corredores, sai um pré-relatório da biópsia. Eles estavam dentro do balneário a falar, eu passo, eles não estavam a contar comigo e ouço.

Ouve o quê?
Que o Nuno Pinto tem um linfoma. Calei-me. Não fiquei triste porque já estava à espera. É o que digo a muita gente, não me tiraram o chão e não me apanharam de surpresa porque o passo a passo desta situação fez-me crer que era aquilo. Por isso não foi uma surpresa a 100%.

Isso tudo antes do jogo com o Benfica?
Sim. Mas o relatório a 100% ainda não tinha chegado, só chegou depois do jogo com o Benfica, eles não podiam cingir-se a 70% ou a 80%. Tiveram de esperar pelo relatório final. Por isso ainda fui jogar [risos]. Eu tinha dito à minha mulher durante aquela semana: "Anda lá, vai ver o jogo que vai ser o último jogo que vou fazer esta época". E ela: "Tu és maluco". Não foi.

Conseguiu jogar, a sua cabeça estava no jogo?
Claro que uma pessoa quando entra começa a pensar... Mas quando começa o jogo, acabou já não penso mais naquilo. Só pensei no fim. No fim, sei lá, nem sei o que sentia. E depois veio o relatório final na segunda-feira.

Como lhe deram a notícia?
Eu estava preparado para treinar, vejo o Dr. Ricardo a entrar no balneário e a dizer: "Anda cá Nuno". Vi logo. Já sabia que era um linfoma de Hodgkin.

Foi pesquisar no "Dr. Google"?
Não. E pouca coisa pesquisei na net. É que na quinta-feira seguinte eu tinha consulta marcada no IPO de Lisboa. Independentemente se fosse ou não, a consulta já tinha sido marcada há algum tempo. O Dr. chamou-me, disse-me o que era e eu "da mesma maneira que explicou a mim vou pedir-lhe que explique também à minha mulher porque eu não lhe vou conseguir explicar, porque eu sei que se eu ficar em casa sozinho com ela vamos chorar os dois". Chamei a minha mulher. Ela não queria ir. Fartei-me de ligar-lhe e ela: "Não vou, não vou. Já sei para o que é". Mas depois foi, ele explicou-lhe e disse para ela ir comigo à consulta no IPO.

Diego, o filho do meio de Nuno Pinto

Diego, o filho do meio de Nuno Pinto

D.R.

Como foi entrar pela primeira vez no IPO?
Eu pensava que ia entrar muito tranquilo, mas vê-se lá muita coisa. Pessoas muito mais em baixo do que eu. Porque quando entro não me sinto uma pessoa doente e vê-se lá pessoas a cambalear, pessoas [respira fundo] cansadas. Cansadas do tratamento, porque aquilo cansa, não é fácil. Quando entro a Dr.ª olha para mim e diz que eu não sou um paciente normal, porque parecia que não tinha nada. E foi sempre assim que tentei levar isto.

Na altura o que lhe explicaram?
Explicaram-me o que é um linfoma e disseram-me logo que havia 90% de possibilidade cura completa. De todos os males que pode existir nesse tipo de doenças, o meu era um dos que tem mais sucesso de cura.

Acreditou logo?
Acreditei. Se uma Dr.ª está a dizer-me uma coisa destas eu tenho de acreditar. E tenho de me agarrar a alguma coisa. Agarrarei-me ali.

Agarrou-se a quem mais?
À família, principalmente à minha mulher e aos meus filhos, às pessoas que estão mais em contacto comigo. Tentava sempre que eles não notassem que eu estava em baixo. Preferia ser eu a sair da cama à noite, sozinho, sem ninguém me ver, do que à frente deles. À frente deles para mim era impossível fazer uma coisa dessas.

O que fazia quando se levantava da cama?
Algumas vezes, não tinha sono, ficava a pensar. Saía da cama, ia lá fora à varanda e ficava a olhar para o céu. Nunca fui assim uma pessoa de me emocionar, mas ficava a pensar, porquê, porquê eu. Mas depois dizia, se sou eu, vamos lá, vamos à luta. Foi sempre assim que pensei, positivo e acho que o essencial é termos à nossa volta pessoas positivas. Não podem ser pessoas que dizem, como recebi em algumas mensagens, "agarra-te aos teus filhos". Isso para mim não dá, assim parecia que eu estava com uma doença terminal e que ia morrer dali a quatro meses. Aceitava, mas tentava sair logo daquele sítio o mais rápido possível, se me viessem com essa conversa.

É crente?
Sou.

Agarrou-se mais a Deus?
Não. Não porque desde criança que a minha educação foi religiosa. Eu fiz a catequese toda, fiz o crisma, fui acólito, ia à missa todas as semanas. Agarrei-me a Deus foi antes. Porque acho que não devemos agarrar-nos a Deus só nas fases más. Devemos agarrar a Deus não só para pedir mas também para agradecer. O meu lema de vida e o que os meus pais me ensinaram foi "agradece mais do que pedes". E é o que eu faço sempre. Praticamente todos os dias rezo à noite, desde a festa do Pai Nosso da catequese. Normalmente rezo e não lhe peço mais agora do que antes e se calhar peço mais para os outros do que para mim.

Os três filhos de Nuno Pinto, no natal de 2018

Os três filhos de Nuno Pinto, no natal de 2018

D.R.

Recebeu naturalmente muitas mensagens. Qual foi a que mais o surpreendeu e tocou?
A que mais me surpreendeu foi a do capitão da nossa seleção. Não estava à espera. Emocionei-me, eu e a minha mulher, em casa.

Como era a mensagem?
Foi uma mensagem de vídeo. Disse que não me conhecia pessoalmente, conhecia o Semedo e a Elma, a irmã, que é uma amiga que fizemos na Madeira quando joguei lá, que há coisas que não controlamos, a saúde é uma delas, mas que ele sabe como é que eu sou, que sou uma pessoa forte, porque fala com eles os dois sobre mim e que podia contar com ele para o que fosse preciso. E que sabia que eu ia ultrapassar esta situação má. Depois convidou-me a ir a Turim para ver um jogo. As palavras dele comoveram-me, porque não estava à espera e porque foi um dia antes de fazer o primeiro tratamento. Naqueles momentos em que estamos mais em baixo e recebemos uma coisa daquelas que não estamos à espera, do melhor do mundo...

Estava com receio do tratamento?
Não. Eu estava era mortinho que aquilo começasse. Fui para o desconhecido, mas são três horas com a agulha espetada na veia e o líquido a cair.

E depois?
A seguir é que é o pior. No dia do tratamento eles metem lá um líquido qualquer que não sei o nome. Como o tratamento é muito agressivo eles metem um histamínico para as veias, que dá sono. Se eu sair do tratamento e for para casa deitar-me no sofá só acordo no dia a seguir. Nem janto nem nada. Mas se sair do tratamento, que é o que costumo fazer sempre, e vou para o curso de treinadores, aí fico um bocadinho mais em baixo, mas aguento. É o que eu faço. Felizmente nunca vomitei. No dia a seguir é como se estivesse com gripe, mas não é nada de especial.

Quantos tratamentos já fez?
Até agora fiz 10, faltam dois. Ou seja, um ciclo.

Qual foi o momento mais difícil?
Foi mesmo dizer à minha mulher, porque ela não estava à espera.

Nuno Pinto chegou ao V. Setúbal em 2015/16

Nuno Pinto chegou ao V. Setúbal em 2015/16

Gualter Fatia

Houve alguma altura em que lhe passou pela cabeça "o futebol acabou para mim"?
Não. E o espelho disso é o que aconteceu agora no dia 18 de maio. Porque quando entrei para fazer tratamentos, os doutores diziam que esta época era para esquecer, que já não valia a pena. Eu, não sei porquê, mas meti na minha cabeça que ainda ia jogar esta época. Não dependia de mim, como é lógico, dependia dos meus colegas e nisso tenho que ressalvar um nome, Vasco Fernandes. O que ele fez dentro do balneário é fantástico e tenho que agradecer a todos, porque só por eles é que pude jogar o último jogo. Nós queríamos ganhar o jogo, mas naquele jogo já não descíamos, o Rio Ave também já não conseguia fazer melhor. Ele comentou no jogo de Chaves que era o campeonato do Nuno Pinto. Ainda não tive oportunidade de lhe agradecer publicamente e aproveito agora para lhe agradecer as palavras que teve para comigo. Quero dizer-lhe a ele que isto só foi possível muito por ele e pelos guerreiros que estavam lá dentro, porque tivemos uma época atribulada, com mudança de treinador, e depois parece que não, mas o que aconteceu comigo em dezembro foi um choque. Eu lembro-me de entrar dentro do balneário e as pessoas ficarem em silêncio a olhar para mim. E tinha que ser eu a dizer: "Então malta, ninguém morreu, vamos lá, isto é um jogo para ganhar". Queria agradecer a eles todos, equipa técnica, jogadores, foram fantásticos e um muito obrigado por proporcionarem eu poder concretizar o segundo sonho que eu ganhei que foi jogar esta época outra vez com estes jogadores.

Estava à espera daquela festa e daquela homenagem?
Não. Estava à espera que batessem palmas, isso estou à espera porque durante os jogos aqui eu vinha ao estádio ver e ao minuto 21 eles batem palmas e gritam o meu nome. Portanto isso já estava mais ou menos à espera, porque as pessoas de Setúbal são humildes, são diferentes das outras. Mas isso só me deixa orgulhoso porque é sinal que sou boa pessoa, porque se não o fosse, as pessoas se calhar iam solidarizar-se, mas chegava um momento da época em que largava, diziam, pronto já chega. E desde que me aconteceu até agora, em todos os jogos em casa ao minuto 21 eles batiam palmas e gritavam o meu nome. Isso de certa maneira deixou-me feliz.

Mas no último jogo emocionou-se.
É normal porque senti que foi contra todos. Isto entre aspas. Não é no mau sentido. A minha Dr.ª do IPO, a Dr.ª Maria do Céu, ela sempre me disse que esta época não ia jogar mais, mas depois deu-me autorização para jogar e isso foi uma batalha que eu ganhei. Quando toda a gente dizia que já não era possível, eu consegui. Por isso é que me emocionei mais um bocadinho. E depois também sabia que a minha mulher estava na bancada muito feliz, assim como os meus filhos que entraram comigo, menos o pequenino.

O mais novo nasceu quando?
O Dani foi um anjo. O problema aconteceu-me em dezembro e ele nasceu em outubro. Foi um anjo que apareceu para me deixar ocupado.

Cátia, a mulher de Nuno Pinto com os filhos mais velhos Diego e Beatriz

Cátia, a mulher de Nuno Pinto com os filhos mais velhos Diego e Beatriz

D.R.

O que mais o impressionou nestes cinco meses de tratamento?
As pessoas entrarem para os tratamentos já muito debilitadas. Isto se calhar também porque nunca entrei lá assim, entrei sempre bem disposto, animado. Mas via pessoas a entrar lá... Impressiona. Mas é o que digo sempre, tive um apoio fantástico. A minha mulher foi sempre comigo, a todos os tratamentos, só houve um que falhou porque calhou no dia 21 de março, dia em que a minha filha faz anos. Ela estava para ir comigo e eu disse que não. Porque a minha filha só há bem pouco tempo é que sabia o que o pai tinha. Sabia que o pai estava doente, mas não sabia o que era. E eu disse, não vais mudar as rotinas da menina, não vais mudar o aniversário dela para ires comigo. Eu vou sozinho e venho sozinho e tu fazes como se nada fosse eu vou ter à festa. Assim foi. Foi a única vez que ela não foi comigo.

Quando é que os seus filhos mais velhos se aperceberam que estava doente?
Eu nunca escondi. Principalmente da mais velha. Tanto que fomos ao colégio dela, falar com os diretores, pedir um bocadinho de paciência com a Bea, porque ela ia saber que o pai está doente que não ia treinar nem jogar, e para estarem de olho nela caso tivesse algum comportamento diferente, porque são 12 anos, é aquele idade em que eles podem pensar e se o meu pai morre, ou se lhe acontece alguma coisa? A minha mulher teve esse cuidado.

Ela nunca fez nenhuma pergunta mais complicada?
Não. A única pergunta que fazia era "quando é que voltas a jogar? Estou com saudades de te ver a jogar". Sempre fui sincero quanto basta com ela, para dizer que estava doente e que precisava de recuperar e que se calhar o mais provável é que só voltava a jogar na época a seguir.

Quando é que lhe disseram que estava curado?
Foi logo ao 5.º tratamento. Fui fazer o PET, um exame que diz a extensão da lesão e a minha Dr.ª já desconfiava que eu não tivesse nada porque pela apalpação já não sentia nada. Como havia um fármaco que ela queria tirar o mais rápido possível porque podia afetar-me os pulmões, ela pediu o PET logo. Fui fazer e já estava limpo. No tratamento a seguir já não levei aquele fármaco.

Saiu-lhe um peso de cima.
Houve duas vezes em que entrei naquele IPO muito nervoso. No dia 26 de dezembro, na primeira vez que fiz o PET, vamos ao desconhecido. Onde é que está, em que gânglio é que está? Sabia que estava aqui, isso era certo. Entrei nervoso, fiz o exame do PET e tive sorte porque a conferência de imprensa gerou muita coisa e quando acabei de fazer o exame, as doutoras e as enfermeiras da medicina nuclear chegaram lá e disseram que no meio do mal, até não estava assim tão mal, só tem neste ponto e naquele, por isso foi apanhado muito no início, vai correr tudo bem, não te preocupes. Tive sempre o apoio das doutoras de lá. E a segunda vez, foi quando fiz o segundo exame do PET. Correu bem. Agora tenho que fazer mais um quando acabar os tratamentos, espero que acabe o exame com o mesmo sorriso dos outros dois. Vai ser de certeza.

Fica-se uma pessoa diferente depois de uma experiência destas?
Olhe eu ainda não lhe posso dizer se sim ou se não. Sei que até agora sou uma pessoa igual. Tentei não mudar em nada, sou uma pessoa brincalhona, sou uma pessoa que às vezes não vejo maldade em nada e ela existe, é verdade, mas até agora não mudei em nada.

Cá dentro não mudou nada?
Não, acho que não mudei por causa da doença. A doença apareceu, tem prognóstico, tem tratamento, vamos tratar. Trato. Agora se as pessoas mudaram em relação a mim? Se calhar mudaram e se calhar eu já senti isso.

Em que aspeto?
Se calhar pensavam que eu sou uma coisa e afinal sou outra. Se calhar pensavam que não era tão forte e sou forte. Mas eu em relação às pessoas não mudei, porque as pessoas que estão comigo são aquelas pessoas que já estavam comigo antes disto. Não é por agora o Nuno Pinto ter “um bocadinho mais de fama” no bom sentido porque preferia não a ter, que agora as pessoas encostam-se a mim. Não, as pessoas que estavam comigo são as pessoas que já estavam comigo antes.

Dani, o filho mais novo de Nuno Pinto

Dani, o filho mais novo de Nuno Pinto

D.R.

E os seus pais no meio disto?
Os meus pais sempre me apoiaram. Não foi fácil de dizer, principalmente à minha mãe. Mãe é mãe não é? Mas sempre me deram força e também nunca foi aquela situação de “Ó filho e agora?!” Não, sempre me disseram, vais conseguir, sempre conseguiste tudo o que quiseste na tua vida, isto é mais um obstáculo e foi esse tipo de mensagens que fui recebendo que me davam força. Aliás gostava de deixar um alerta.

Diga.
Deixo desde já o alerta de que as melhores mensagens que se podem dar não são aquelas de “ai, coitadinho”. Não. As melhores mensagens que se podem dar, são de força “vais ver que não passa nada. Daqui a uns tempos vais rir-te disso”. É isso que as pessoas gostam de receber, não é aquelas coisas “agarra-te aos teus filhos” como recebi, não condeno, mas acho que não são as melhores mensagens que se devem passar num momento destes. E gostava de fazer um apelo.

Força.
Para as pessoas fazerem exames com mais regularidade. Primeiro para se sentirem mais seguras e segundo, caso alguma coisa de errado esteja a acontecer, é sempre captado no início. E sendo no início é sempre mais fácil de tratar. Em relação a quem está a passar pela mesma situação do que eu, não é conselho porque não posso dar conselhos, mas uma das coisas que me ajudou a ultrapassar é o positivismo e o rodear de pessoas alegres e positivas. E a fé, a força de acreditar. O acreditar que se vai conseguir ultrapassar . Por muitas vezes que se pense que estamos mal, não estamos assim tão mal porque vem sempre uma luz de cima que nos dá mais uma força e vamos aguentando. E quando temos fé, está tudo ultrapassado.

Fez alguma promessa, foi a Fátima?
Fui no dia 13 de maio, mas não fiz promessa. Fui porque no meu subconsciente eu tinha de ir. Mas já fiz uma promessa que não teve nada a ver com este tipo de doença, que foi ir a Fátima a pé do Porto. Já tinha feito antes. Gostava de ter mais cinco ou seis anos de futebol pela frente e depois quando terminar a carreira vou cumpri-la. Mas mais uma vez repito que nada tem a ver com a minha doença.

Quando foi a Fátima no dia 13, desta vez foi diferente?
Foi um bocadinho. Emocionei-me mais um bocadinho e aí sim, talvez por causa da minha situação. Mas é sempre emocionante quando a Nossa Senhora de Fátima sai, para mim é sempre um momento muito emocionante. Mas não nego que agora foi um pouco mais.

Tem contrato com o Vitória até quando?
Mais um ano.

Para o ano vai estar aqui, no Bonfim, a jogar?
Sim, claro. O meu objetivo é esse, é para isso que vou trabalhar.

Disse que estava a frequentar as aulas do curso de treinador. Isso significa que já está a pensar no futuro.
Sim, claro. Não quer dizer que eu vá ser treinador, mas é um investimento que a gente faz.

Quando é que começou a pensar no pós-futebol?
Comecei a pensar nisso o ano passado. Só que no ano passado paguei o curso, mas entretanto a minha mulher fazia voluntariado no bairro da Boavista e apegou-se de tal maneira às crianças que achei por bem abdicar eu uma vez na vida de mim para pensar nela. E ela continuou a fazer o voluntariado. Ela pensou sempre mais em mim na minha carreira toda e eu sempre pensei mais em mim do que nela, por isso naquele ano disse-lhe, desta vez vais tu que eu fico.

Tem superstições?
Não. Gosto de rezar antes de entrar no jogo, no balneário. Não é rezar, é só agradecer e pedir que nada me aconteça.

Nos últimos cinco meses Nuno Pinto (de amarelo) teve de assistir aos jogos do V. Setúbal na bancada, devido ao diagnóstico de um linfoma

Nos últimos cinco meses Nuno Pinto (de amarelo) teve de assistir aos jogos do V. Setúbal na bancada, devido ao diagnóstico de um linfoma

Gualter Fatia

Vejo que tem muitas tatuagens. Quando é que fez a primeira?
Com 16 anos. É a inicial da minha avó, do meu pai, da minha mãe e da minha irmã. Depois fui pintando.

Há alguma especial?
Tenho esta aqui que é uma frase grega, que é em relação à família, a nós.

Que diz mais ou menos o quê?
Já não me lembro [risos]. Tenho escrito em casa. São duas frases grandes por isso é que não me lembro [risos].

Fez alguma já depois da doença?
Não, mas vou fazer. Vai ser aqui, na cicatriz do cateter. Vou fazer qualquer coisa. Mas tenho que entrar em negociações com a minha mulher porque ela diz que já não posso fazer mais e eu não posso contrariá-la se não depois...

Onde é que ganhou mais dinheiro?
Na Bulgária.

Investiu em quê?
Em imobiliário. Já tive para me meter num negócio, mas depois ponho-me a pensar, é melhor não. É o dinheiro que me custou, faço quilómetros no campo, nos treinos. Os sacrifícios, ao domingo não janto, nem almoço com a minha família. Numa época contam-se pelos dedos de uma mão as vezes em que isso acontece. Tem que ser investido numa coisa que à partida tem de dar. Tenho muitos bons amigos que se calhar até ganharam mais dinheiro do que eu, não quer dizer que juntaram mais do que eu, e as coisas não correram bem. Acho que para se investir é preciso estar presente e eu neste momento, das duas uma, ou não consigo estar presente ou a minha mulher tem de sair da minha beira para estar ela presente. E eu não quero que ela saía da minha beira. Quero que ela esteja sempre aqui a chatear-me a cabeça (risos). Ela é o meu pilar. Acho que todas as mulheres têm que ser assim, têm que ser o pilar do marido. Ela é o meu pilar.

Quando acabar o contrato com o Vitória vai continuar a jogar à bola?
Eu gostava de terminar a carreira aqui, mas nunca se sabe. Não sei o dia de amanhã.

Vê-se como treinador?
Sim. Gostava de estar ligado ao futebol, isso é certo. Não sei fazer outra coisa. Gostava muito de ficar ligado ao futebol seja como treinador, diretor desportivo, qualquer coisa.

Qual foi o maior sonho que ficou por cumprir no futebol?
A seleção A. Mas se não estou lá é porque têm melhores. É porque não fui competente o suficiente para chegar lá. Isso não me deixa frustrado, mas era um sonho que eu tinha que não se realizou. Se formos ver os laterais esquerdos desde que eu sou profissional, todos eles fizeram carreiras melhores do que eu. Quando assim é, quando o outro é melhor temos de dar os parabéns e eu tenho de dar os parabéns a todos eles. Mas sem qualquer tipo de frustração. Fomos campeões europeus como é que eu posso estar frustrado? Não dá.

E histórias para contar do V. Setúbal, tem alguma que possa contar, para terminarmos a rir?
Tenho. O ano passado, levamos coisas para o balneário para fazermos lá um almoço em equipa e alguém foi ao bolso do Vasco Fernandes, o nosso capitão, e “roubou-lhe” as chaves do carro. Enquanto estávamos a almoçar houve um jogador que pegou no carro dele e foi estacionar em frente ao shopping Alegro e coloca uma placa a dizer “Vende-se” com o número do Vasco. Nesse dia ele recebeu imensos telefonemas, porque ainda por cima eles colocaram um valor baixíssimo no carro [risos]. Ele ficou muito chateado naquele dia [risos].