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A casa às costas

“Aos 18, o treinador disse-me para deixar o futebol. Andei com a foto dele na carteira durante anos: cada vez que abria, via aquela cara”

O atual coordenador técnico do Belenenses faz uma viagem ao seu passado de jogador profissional de futebol e conta, entre outras coisas, por que andou dois anos com a foto de um treinador na carteira e de como ficou arrependido de não ter simulado algum problema para fugir à tropa.. José Taira reafirma a admiração que tem pelo "Luvas Pretas" e por que razão ficou chateado com ele num jogo, explica como as pernas tremeram quando saiu do país a primeira vez, para jogar no Salamanca e depois no Sevilha e fala do VAR e do futebol de hoje. Pelo meio conta histórias que foi vivendo nos clubes por onde passou antes de pendurar as botas em 2003/04

Alexandra Simões de Abreu

João Pedro Cipriano

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Nasceu há 50 anos, em Lisboa. Comece por revelar onde cresceu, como era a sua família...
Crescei em Oeiras, o meu pai foi delegado de propaganda médica e a minha mãe doméstica. Tenho dois irmãos mais novos, um trabalha em publicidade e o outro numa empresa de dados e estatísticas.

Como e quando começa a sua relação com a bola e o futebol?
Começa desde muito cedo porque naquela altura não havia aplicações de telemóvel, nem iPad e nós vivíamos na rua. Éramos miúdos de futebol na rua, muitas vezes controlados pelas vizinhas, os nossos olhos visíveis e invisíveis. Na minha infância tínhamos que inventar coisas para passar o tempo e isso acabou por fazer com que aquelas gerações que brincavam na rua se tornassem, ao nível de coordenação motora, muito mais evoluídas do que as novas gerações. As gerações de hoje em dia, tem uma visão periférica e coordenação motora muito reduzidas. Tem aptidões brutais para tudo o que é motricidade fina, mexer em computadores, iPad, telemóveis, mas falta-lhe essa coordenação.

Lá em casa torcia-se por quem?
O meu ídolo de menino era o João Alves, o “Luvas Pretas”. Eu jogava numa posição idêntica à dele: comecei em Oeiras, na Associação Desportiva de Oeiras (ADO), com 14/15 anos. Não fiz o trajeto que hoje normalmente fazem, de passar pelas escolinhas.

Como passou da rua para o clube?
Uma vez, um rapaz, o Paulo Filipe Freitas que estava na faculdade, o ISEF na altura, e era treinador da ADO, num jogo desses de rua convidou-me a ir a essa associação fazer uns treinos de captação. Eu nem sabia o que era isso, mas fui lá, acabei por ficar e começou talvez o “bicho” maior de compromisso relativamente ao que era um grupo,. Estive nesse grupo dois anos, parti uma perna.

Então?
Foi num jogo e estive praticamente uma época toda sem poder jogar. Foi num lance casual, numa disputa de bola em que a minha tíbia foi bater no pé de um rapaz do Ala Praia. Fiz uma fissura parcial na tíbia. Naquela altura, era gesso até cá acima, o gesso comia toda a musculatura, hoje em dia está tudo muito mais evoluído. Acabei por fazer só a parte final da época. Depois fui ao Belenenses aos treinos de captação.

Por iniciativa própria?
Não, foi um senhor de Oeiras que me levou, que mencionou o meu nome e o de outro rapaz, e fomos lá fazer um treino de captação. Naquela altura não havia nem scouting, nem vídeo, nem observadores. O secretário técnico do Belenenses era o falecido Carlos Silva, e o treinador era o António Dominguez. Foi esse treinador que me deu o nome de guerra de Taira, porque em Oeiras eu era conhecido por Zé Américo. Não havia cá apelidos, nem aqueles diminutivos que hoje em dia se colocam. Era nome de guerra. Ele começou a apelidar-me de Taira e a partir daí, ficou. Claro que quando entrei para o Belenenses o compromisso tornou-se maior como é lógico.

E a escola? Gostava ou nem por isso?
Nunca fui muito amigo da escola pelo simples facto de que a minha paixão era o futebol. Acabei por ir fazendo disciplinas. Quando fui para o Belenenses ainda tinha o 11.º ano incompleto. Daí até ser profissional foi um salto, mas fiz mal. Só que naquela altura não havia o estímulo nem capacidade das escolas responderem àqueles atletas que enveredavam pela alta competição ou pela competição; havia um desfasamento brutal. Até os treinos, por exemplo, se eram da parte da tarde e nós tínhamos aula até à tarde, tínhamos que pedir para as nossas turmas serem de manhã. Muitas vezes os conselhos diretivos não facilitavam e, claro, se tivéssemos uma aula que acabava às cinco ou às seis e se o treino era às seis, não íamos à aula. Por isso andávamos sempre num jogo de cintura com os professores, a tentar fugir dos horários escolares que não eram adaptados aos treinos.

Em casa, os seus pais aceitaram bem a escolha pelo futebol?
Não foi uma questão de aceitar, foi uma situação de conformação. Nunca houve da parte dos meus pais uma interdição total. Não estavam proporcionadas as coisas para eu estudar e jogar à bola. Coisa que, passados anos, principalmente em relação ao meu filho mais velho, foi inegociável o trajeto dele entre o que era a competição e o estudo. E isso foi talvez a melhor e a maior dádiva que consegui passar de mensagem ao meu filho. Ou seja: ele conseguir ser profissional, como é hoje em dia, e ter um curso de gestão.

Taira, ao centro com a bola, jogou ao todo seis épocas no Belenenses

Taira, ao centro com a bola, jogou ao todo seis épocas no Belenenses

D.R.

Foi sempre esse o seu sonho de pequeno, ser jogador de futebol?
Tinha claríssimo que queria ser jogador de futebol. A paixão que tinha fez-me assumir um grande compromisso com o futebol e um grande sacrifício. Tenho pena que outros rapazes da minha geração, que tinham qualidades inegáveis para jogar à bola, tenham preferido as festas do liceu, as festas da faculdade, e, como é lógico, quando isso acontece deixa de haver rendimento.

Quando fala em sacrifícios do que mais se recorda que tenha abdicado?
Desde o momento em que se assume um compromisso, seja ele qual for, tem que se saber que é para levar até ao fim. Acima de tudo tem a ver com abdicar de coisas que possam ser eventualmente agradáveis, mas que vão retirar rendimento àquele nosso maior prazer, o de jogar à bola. Seja o deixar de sair à noite, deixar de ir a festas, não perder horas de sono. Tudo isso são sacrifícios. Via rapazes da mesma idade que eu que nos fins de semana basicamente se tivessem de ir à praia iam, se tivessem que ter a noite mal dormida, tinham. Eu não fiz porque aprendi a educar-me.

Nunca foi porque os seus pais o exigiam?
Não, foi visceral. Foi mais que visceral, foi cerebral, foi saber que me sentia bem com isso. Os ciclos de competição eram maiores, não havia a quantidade de competição que há agora. Antes, regra geral, era de domingo a domingo ou sábado a sábado, não havia jogos à segunda, terça, quarta, quinta e sexta, e esses ciclos tornavam muitas vezes os treinos e as folgas um bocadinho mais longos. O que proporcionava essas saídas. Os próprios regulamentos internos diziam que o jogador não podia sair a partir de quinta-feira. Ou seja segunda, terça e quarta era permitido. Hoje, com os jogos à quarta-feira, toda a semana muda e quem neste momento não tem a capacidade de ter rendimento e eficácia no treino desportivo, vai tudo por água abaixo. Durante a época tem que se abdicar praticamente da toda a vida social também. Claro que em período de férias é diferente.

Taira no Belenenses

Taira no Belenenses

D.R.

Estava a contar a sua ida para o Belenenses. Tinha quantos anos?
17 anos. Foi o meu primeiro ano de júnior. Fiz dois anos de júnior lá. Depois tive de sair forçosamente para o Montijo.

Porquê forçosamente?
Porque quando fiz o meu último ano de júnior tive um treinador, o Henry Depireux, que me disse que eu não ia ser jogador de futebol, que não tinha a mínima capacidade e que podia ir para as festas e podia divertir-me, porque a minha vida não passava pelo futebol.

O que sentiu quando ouviu uma coisa dessas?
Senti que aquela opinião dele não me ia demover e o que fiz foi cortar uma fotografia da cara dele de um jornal e andar com ela quase dois anos na carteira. Cada vez que abria a carteira via a cara dele.

Fez isso por raiva, revolta?
Não, não era raiva. Basicamente foi perceber que as palavras que ele me tinha transmitido naquele momento correspondiam à vontade dele mas não se ia sobrepor à minha vontade. Era uma questão de vontades.

Não o desmotivou?
Fui para o Montijo, estive lá dois anos e passados dois anos o Belenenses vai lá fazer um jogo de apresentação. No início da época, com o John Mortimore, eu fiz um jogo que pelo vistos foi mais do que razoável e o Belenenses a seguir assinou comigo um contrato profissional de três anos. Por ironia do destino volta o Depireux no ano em que eu lá estava (risos). Mas aí, como profissional, a postura mudou, não houve nenhum rancor, nenhuma revolta da minha parte. Não tinha que haver porque basicamente continuei a ignorá-lo como quando ele me disse que eu não seguiria a via profissional.

E ele em relação a si?
Igual, o trato dele sempre foi igual.

Jogava?
Houve momentos em que joguei, outros em que não joguei, mas o trato dele nunca foi de grande relação, nem poderia ser como é óbvio.

Nunca tiveram um conversa, uma troca de palavras mais dura?
Não. Fiquei vacinado quando ele me disse aquilo quando eu tinha 18 anos e um sonho pela frente. Outra coisa que me vacinou foi quando estava no Montijo e me sai o serviço militar obrigatório que me deu 18 meses de marinha, na altura em que fui para o Belenenses. Tive de estudar à brava, porque quem terminava na marinha com as melhores notas, escolhia os melhores locais e eu no meio de tantos, tive a 4ª melhor nota e pude escolher.

Depois do Belenenses, Taira (2º em cima à direita) foi para o Salamanca, de Espanha

Depois do Belenenses, Taira (2º em cima à direita) foi para o Salamanca, de Espanha

D.R.

Foi para onde?
Fui para o Estado Maior General das Forças Armadas, que é do outro lado da rua do estádio do Restelo. Mas os clubes quando tinham jogadores militares nunca contavam com eles a 100%, porque muitas vezes tinha que se fazer um serviço. Não estou contra o serviço militar obrigatório, acho até que hoje em dia devia ser pelo menos um, dois meses para homens e mulheres para saberem o que é espírito de grupo, o que é trabalhar em grupo, o que é ter espírito de sacrifício, o que é saber cumprir horários, o que é saber ocupar o seu espaço e respeitar o espaço dos outros, coisas que estas novas gerações não têm a mínima noção. Mas naquela altura achei que foi demasiado, porque para quem era atleta de alta competição com uma carreira muito curta como a de jogador de futebol... tirar um ano e meio é a mesma coisa que lhe amputar as pernas e metê-las num armário, durante esse tempo. Isso para mim não fazia sentido.

Viu ou viveu alguma situação caricata na tropa de que se lembre?
Lembro-me de duas. Fiz tudo para ser rejeitado da tropa, porque quando fui chamado para ir prestar provas a Setúbal disse que tinha bronquite asmática, o que não era mentira na altura. Mencionei isso, mandaram-me para o hospital militar da Ajuda; nessa manhã, entro no comboio em Oeiras, vou até Santos e vou a pé para o hospital, basicamente para me cansar, e quando entro na máquina começo a hiperventilar e a médica que lá está dá-me um injeção de cortisona para debelar o ataque de suposta asma que estava a ter. E eu pensei: com isto safei-me. O exército eram 13 meses e a armada eram 18, pensei que estava safo, mas aquilo não tinha resultado, encurtou só o tempo. Outra história caricata. Houve um colega de geração que quando chega a altura de perguntarem, quem é que tinha alguns problemas, ele falou baixinho e disse que tinha um problema que não podia dizer em voz alta. O sargento, que era de casca grossa: “então o que é que se passa?”. E ele: “faço xixi na cama” (risos). E conseguiu livrar-se da tropa. Ainda teve de estar na escola da Armada em Vila Franca de Xira, mas claro que ele fez tudo, urinava na cama, tiveram de meter-lhe fraldas, e o que é certo é que esteve lá só 15 dias. Se eu soubesse, tinha-lhe pago para me vender aquela história (risos).

No total esteve cinco épocas no Belenenses. Mas há pouco não me respondeu, torcia por quem?
Tinha uma referência. Naquele tempo havia uma competição muito grande entre o João Alves e o António Oliveira, eram os dois ícones para quem era jogador centro campo. E os jogadores marcavam-nos mais do que um clube, porque havia a coleção de cromos, havia as cadernetas e toda a gente queria ser o João Alves ou o António Oliveira ou o Humberto Coelho. Eu vi jogos na Luz para ir ver o João Alves, depois fui muitas vezes também a Alvalade para ir ver jogadores do Sporting, jogadores como o Virgílio. Sinceramente posso dizer que acima de tudo sempre tive referências de jogadores. Eu ia ao futebol sim, mas ia para observar gestos, para observar que tipo de jogador é aquele que estava ali, como é que ele se comportava no campo. Sempre fui muito observador em relação a isso. Por isso é difícil dizer um clube. Mais tarde, uma das referências foi o Zidane. Via os jogos pelo interesse de perceber os movimentos que ele fazia.

Nas cinco épocas no Belenenses quem foram os treinadores que mais o marcaram?
Houve um treinador que me marcou de forma muito forte, o Abel Braga, porque me tornei indiscutível com ele. Há uma época que me marca muito que é a época em que, depois da minha saída para o Estrela da Amadora, regresso ao Belenenses pela mão do João Alves. Essa foi a época que, a meu ver, o Belenenses praticou melhor futebol durante a minha passagem lá. Tínhamos uma equipa fantástica que se entendia só com a troca de olhares e que tinha uma capacidade brutal em todas as linhas na defesa.

Quando é que conhece o seu ídolo João Alves?
Quando saí do Belenenses, ele fez-me um convite para ir para o Estrela da Amadora. Quando chego ao Estrela da Amadora ele chateia-se com o presidente e vai-se embora. Fiquei lá sem o João Alves; ele a meio da época foi para o Belenenses e eu depois volto ao Belenenses pela mão dele. Nem o conheci no Estrela da Amadora porque basicamente ele nem começou a época.

Disse-lhe que ele era o seu ídolo ou não teve coragem para isso?
Em conversas fui-lhe dizendo. Depois quando ele foi para o Salamanca, eu também fui com ele, e houve sempre algumas observações que ele me fazia e eu na brincadeira dizia coisas do género: “pois você foi um génio e era isso que nós como jogadores perseguíamos e queríamos. Você é uma referência para mim”.

E como treinador, o que achou dele?
Também fantástico. Foi talvez o treinador mais astuto, mais perspicaz e mais estratega que apanhei na minha vida. Eu acho que ele via o jogo, não a olhar para a nossa equipa, mas a olhar para a equipa contrária e para onde podia fazer “mal” à outra equipa. Havia indicações que ele dava do género: “vai entrar o jogador tal e a bola tem que entrar ali, porque ali é que está a zona débil deles e a nossa zona forte”. Foi, se assim se pode dizer, um treinador scouting, sabia perfeitamente que ali e naquele momento...Naquela altura não havia o visionamento dos jogos, nem o editar, não havia um departamento de scouting, nem edição de vídeo, as palestras não passavam por ai, mas ele conseguia em 90 minutos fazer a edição do vídeo, o scouting, ter a perspicácia e a astúcia de poder ganhar jogos.

José Taira

José Taira

D.R.

Que amizades maiores fez no Belenenses?
Com o Pedro Barny, Paulo Madeira, Mauro Aires, Giovanella... Foram grupos que eram muito mais grupos do que são agora, porque na altura não havia WhatsApp, nem Facebook, não havia redes sociais. As nossas redes sociais baseavam-se basicamente à volta da mesa a conversar, antes do treino ou pós-treino, e não havia diálogo de telemóvel. Havia diálogo de cara a cara, por isso acho que antigamente as relações de balneário eram muito mais fortes do que hoje e por isso é que os líderes de balneário eram muito mais fortes do que são agora. Hoje em dia batem-se pela dificuldade de não haver diálogo. Isto não quer dizer que a gerações anteriores sejam melhores do que as mais recentes. Têm é particularidades diferentes umas das outras.

Histórias de balneários desse tempo, do que é que se recorda? Na altura faziam muitas partidas uns aos outros?
Muitas, muitas... desde cuecas a voar, meias molhadas na cabeça de uns, a fechar uns nas salas dos banhos de imersão, atirar para a piscina de água gelada, havia de tudo. Eu posso dizer que gostava de fazer essas brincadeiras típicas de balneário, porque eram essas brincadeiras que tornavam os grupos muito mais fortes. Quando fui para Espanha apercebi-me disso.

Como assim?
Um treino era comparado a um jogo e um jogo era comparado a um treino. Qualquer treino durante a semana que houvesse uma disputa, por exemplo, quem perdesse tinha que pagar. Tínhamos que sair do estádio e ir a um restaurante ou ao café em frente e tínhamos que pagar o jamón (presunto) ou as bebidas. Havia sempre algo que, para já, criava uma intensidade a nível de treino e trabalho brutal; e depois, mesmo numa situação de vitória e derrota de uma equipa que os outros tinham que pagar, acabávamos sempre depois do treino a partilhar esse momento juntos e a tornar as relações um bocadinho mais fortes. Se calhar também por isso é que, nas minhas passagens por alguns clubes, houve coisas sintomáticas e muito idênticas.

Explique melhor.
No Belenenses estou na II e subo à I divisão, fui para Salamanca e subi à II divisão e fui para Sevilha para a II divisão e subi à I. Ou seja, sempre com projetos em que havia dificuldade pelo meio, e isso sem ter chegado a um patamar muito grande a nível de clubes também, porque não representei os três grandes em Portugal; a nível de seleção fiz o que fiz, não foi nada de extraordinário, mas acima de tudo creio que deixei alguma marca nos clubes por onde passei, devido à situação de pensar e ser parte de um grupo no qual havia um projeto e tinha que se acabar esse projeto. Isso acho que foi o meu maior selo, a minha maior marca de trabalho, tentar ao máximo ser profissional.

Vai para Salamanca já casado?
Vou casado e já vou com um filho.

Quando e como conhece a sua mulher?
Conheci a minha mulher, a Patrícia, aqui em Lisboa, tinha 20, 21 anos, estava na tropa. Conheci-a num jantar e acho que foi amor à primeira vista. Estamos casados há 27 anos.

O que é que ela fazia?
Estava a estudar. Mas depois de nos conhecermos, passados três, quatro meses começámos a viver juntos, passado um ano casámos e passado um ano tivemos o nosso primeiro filho, o Afonso. Depois estive com ela cinco anos em Lisboa antes de ir para Espanha. Por isso já havia um trajeto cá, continuou lá fora e continua a haver um trajeto e um projeto de vida no regresso até aos dias de hoje.

Ela tirou algum curso, fez alguma coisa profissionalmente?
Ela foi acima de tudo a melhor companheira porque criámos família, teve que se adaptar, fui para Espanha, ela foi e teve que se adaptar. E adaptou-se melhor do que eu, porque é uma pessoa muito comunicativa.

Do que não gostou em Espanha?
Nos primeiros três, quatro meses não foi fácil. O João Alves foi despedido do Salamanca à sétima ou oitava jornada. Tínhamos feito uma pré-época fantástica e depois, por infelicidade, por problemas entre o João Alves e toda a comunicação social de Salamanca, ele saiu.

Que tipo de problemas?
Basicamente nós saímos de uma cidade grande para uma cidade mais pequena. A imprensa aqui era muito mais abrangente porque tinha Benfica, Sporting, Belenenses, havia uma dispersão, e quando vamos para Salamanca há três jornais desportivos a ter que dar notícias sobre a equipa profissional de Salamanca. E nem todos os dias era possível dar notícias porque não havia notícias para tal. E o Alves quis um bocado selecionar isso, quis defender um bocadinho os jogadores e os jornalistas começaram efetivamente a criar muitos problemas, iam à sua vida pessoal o que acabou por prejudicar um bocadinho o rendimento da equipa. De um projeto para subir, estávamos em 13.º lugar quase para descer e ele ainda por cima leva uma brigada portuguesa e não só.

Quem eram?
O Pauleta, o César Brito, o Catanha, o Taira, Giovanella, Ivkovic, Paulo Torres, Agostinho, Nuno Afonso, dos que me estou a lembrar. Foi uma armada grande e nós acabamos por sentir isso. Ou seja, acabamos por tentar ao máximo ajudar, mas era uma ajuda desordenada se assim se pode dizer.

Sentiu algum tipo de xenofobia?
Não foi uma questão de xenofobia. Para ser jogador de futebol em Espanha tem que se ser melhor dos que lá estão. Eu pessoalmente tive que ser um bocadinho melhor do que aqueles que lá estavam, se não pegava nas malas e voltava para trás. E sim, o espanhol tem um bocadinho aquela sensação de que Portugal está ali um bocadinho afastado. Não são tão ibéricos. Talvez já tenham mudado, mas naquela altura houve uma certa repulsa, até porque éramos muitos, não era um ou dois, éramos muitos portugueses inseridos no grupo de trabalho. Felizmente as coisas correram bem, subimos nesse ano e foram-nos dados méritos e um valor brutal ao Alves por ter conseguido construir uma equipa que o Andoni Goikoetxea, o treinador que veio a seguir, aproveitou. Ele aproveitou a herança da qualidade que tinha, libertou-se do estigma da imprensa e os jogadores começaram a funcionar. Mas não começaram a funcionar pelo toque de Midas do Andoni Goikoetxea, porque ele tinha tudo menos toque de Midas.

Então?
Era fraco. Muito fraco como pessoa e como treinador.

Quem veio a seguir?
Ele continuou na época seguinte e saiu também à 7.ª jornada e depois veio um rol de treinadores. Apanhei Txetxu Rojo, um treinador que esteve no Saragoça. Esse ano, o Salamanca manteve-se na I divisão. No ano seguinte, também, e depois voltámos a descer.

José Taira no dia da entrevista

José Taira no dia da entrevista

João Pedro Cipriano

Como é que foi para o Sevilha?
O Joaquín Caparrós era treinador do Vila Real e foi para o Sevilha, fez uma equipa com o diretor desportivo o Monchi. O Sevilha não tinha uma capacidade muito grande naquela altura, tinha em dívida biliões e biliões de pesetas, tal como tinham muitos clubes em Espanha. Aquele foi o primeiro ano em que começou a mudar um bocadinho o paradigma, começou a reestruturar-se e foi-se buscar jogadores com experiência e já batidos na II divisão. Jogadores que tivessem carácter, com qualidade. Foi esse o tipo de projeto que se fez, o Sevilha subiu de divisão e hoje em dia é a potência que é. Nunca mais desceu.

Nessa altura tinha empresário?
Não, tinha um advogado que me ajudava e ajudou a fazer a mudança do Salamanca para Sevilha. Fui para Sevilha já com 31 anos, creio eu, com essa idade já não precisamos de grandes empresários, há um currículo.

A mudança para Sevilha em termos pessoais e familiares foi pacífica?
Foi. É uma cidade fantástica, com grande beleza natural. Deixou-me uma marca muito grande, o cheiro a flor de laranjeira, o azahar, que é fantástico. É uma cidade muito agradável para se estar, mas é uma cidade onde as relações de amizade não existem porque o andaluz por si só, é muito Peter Pan, é muito paira no ar, não cria relações fortes. Tenho muitas mais relações fortes dos anos passados em Salamanca, do que propriamente em Sevilha.

A nível desportivo o que é que recorda mais em Salamanca e em Sevilha?
Recordo as duas subidas de divisão. Foi fantástico ter subido no primeiro ano em Salamanca. Começar a vir de Madrid em direção a Salamanca pela estrada nacional e a 60 quilómetros haver adeptos do Salamanca a puxar pela equipa, pelo autocarro, entrar na Plaza Mayor, que é uma das praças mais bonitas talvez do mundo, as 40 mil pessoas à espera, subirmos ao balcão estar o presidente da câmara a falar e nós a pintar-lhe a cabeça com os sprays de cor. São coisas que marcam. Em Sevilha também subimos de divisão e na Puerta Jerez, onde os adeptos do Sevilha vão festejar quando há feitos e troféus, quando subimos estava uma multidão de vermelho, foi uma coisa fantástica. Esses são os momentos que mais me marcam. Marca-me também em Salamanca o nascimento do meu segundo filho, em 1998.

Assistiu ao parto?
A este assisti. Ao do mais velho não assisti, porque não me deixaram. Não sei se eram regras do momento ou se acharam que eu era susceptível de mais e podia desmaiar (risos). Em Salamanca foi numa clínica privada e tínhamos uma excelente relação com o médico da minha mulher e assisti ao parto do Sebastião.

O Afonso nasceu em 1992, por isso começa a escola em Espanha, certo?
O Afonso, quando saí de cá, tinha três anos e foi para os Maristas em Salamanca, onde esteve quatro anos. Depois, quando vamos para Sevilha, em dois anos mudou três vezes de colégio. Mas a cidade desportiva do Sevilha era do outro lado do rio. E tínhamos um motorista que o ia buscar, mas ele ia de manhã e chegava quase às seis da tarde - e, claro, a criança não tinha vida. Por isso veio para mais perto de casa. Eu sempre vivi nas redondezas dos centros, nunca gostei de viver nos centros e foi para um colégio onde as aulas acabavam às duas da tarde. Só que aquilo era, mais do que nada, um recreio onde ele estudava (risos). Acabámos por optar por outro colégio ao pé da cidade desportiva, o Tabladilla, um colégio da Opus Dei, mas que não tinha nada a ver com Opus Dei como ensino. Aí, sim, foi fantástico, ele adorou a experiência, esteve lá dois anos e veio super bem preparado. Veio com estudos e a aprender a estudar.

Taira, quando estava no Salamanca, com o filho mais velho, Afonso, ao colo

Taira, quando estava no Salamanca, com o filho mais velho, Afonso, ao colo

D.R.

Na segunda época no Sevilha só faz um jogo. O que é que aconteceu?
São as tais coisas. O treinador, o Joaquín Caparrós, diz que conta comigo nessa época, eu acreditei que depois de subir e de estar na I divisão pudesse aportar alguma coisa, mas a partir daí as escolhas dele foram outras e eu acabei por jogar um jogo numa época. Foi complicado sobretudo, porque estava numa altura em que me sentia válido, sentia-me competente e eventualmente podiam-me ter sido dadas mais oportunidades, mas foi opção dele. Eu estava com 33, quase 34 anos.

Veio embora porque acabou contrato?
Acabei o contrato e a 27, 28 de agosto e foi o fechar de contas com o Sevilha. Entretanto, surgiu-me uma proposta para ir jogar para o Farense. Ainda fiquei a pensar ‘vou, não vou’, mas como me sentia válido, aceitei.

Não pensou no fim da carreira nessa altura?
Não. Acima de tudo, acho que um jogador tem que ter a perspicácia e a adaptabilidade de dizer “ok, creio que um patamar mais acima não há”. Patamares com a minha idade e da mesma linha em Espanha, também não havia. Surgiu aquela oportunidade... Tinha uma outra oferta de Espanha da III divisão, que naquela altura era a II B, mas não achei muito lógico estar a mudar e acabei por regressar a Portugal, neste caso a Faro.

Sempre com a família.
A minha família esteve sempre comigo.

Para eles foi complicado sair de Espanha ao fim de tantos anos?
Foi muito complicado. Para já, querer inscrever os meus filhos na escola em finais de agosto... Não havia sítio, tive de os inscrever numa escola internacional em Vilamoura. Depois, tinha que morar ali perto e tinha que ir para Faro. Foi um ano muito doloroso e horrível acima de tudo porque o Farense pagou o primeiro mês e não pagou os outros 11.

Viveu das poupanças?
No meu caso, sim. Mas tenho o caso do Bruno Alves que estava lá nesse ano comigo, e como era um jogador emprestado pelo FCP, estava relativamente confortável porque o FCP assumiu essa situação. Mas foi um ano muito complicado porque houve jogadores que não comiam, que foram despejados de casa e, naquela altura, nem o Farense, nem a Câmara, nem coisa nenhuma conseguiram honrar os compromissos. E exigia como se fosse uma coisa perfeitamente natural.

Nunca pensou rescindir o contrato, vir embora?
Nos dois últimos anos em Sevilha o meu filho já tinha mudado de escola três vezes. O primeiro mês em Faro recebo, outubro; novembro nada e eu equaciono: vou sair daqui e ter o mesmo problema? Eu tinha casa em Lisboa, mas para além de ter de mudar de casa, os meus filhos tinham de mudar de escola. Não era justo para eles fazer uma mudança nesta fase. E depois há aquelas falsas promessas dos dirigentes: “a gente está à espera de um desbloqueio da Câmara, há aqui um prédio que vai estar...” Ou seja, aquela conversa da treta de gente que não sabe estar no futebol. Basicamente é isto. E que não honraram os compromissos, não quiseram nem saber e que andaram a brincar com as famílias de vinte e tantos atletas.

Nunca conseguiu reaver esse dinheiro?
Não. Ainda meti o caso em tribunal, mas o Farense, como muitos clubes naquela altura, entrou em insolvência e era um bico de obra. Depois aparecem com outro nome. É à artista.

Taira, ao centro com a bola, jogou quatro épocas no Salamanca

Taira, ao centro com a bola, jogou quatro épocas no Salamanca

D.R.

A seguir foi para o Oriental.
Joguei um ano a convite do Carlos Eduardo que foi meu colega no Belenenses na idade júnior. Ele era sénior, eu era júnior e ele quando soube que eu vinha para Lisboa, fez-me o convite. Pensei, em vez de ir para o ginásio, vou fazer um ano no Oriental. Dediquei-me ao Oriental da mesma maneira, como se tivesse 18 anos, mesmo tendo 35. Custava à brava fazer a Segunda Circular até Marvila (risos), mas foi uma época engraça. A partir daí, vi que estava na hora de dar um ponto final.

Custa quando um jogador começa a perceber que tem que pendurar as chuteiras?
Eu fiz uma mudança muito rápida de vida, porque estava a jogar e já andava a montar uma empresa ligada a campos de relva sintética. Depois, fiz um acordo com um colégio e montei uma escola de futebol. A passagem foi tão rápida que nem senti aquela nostalgia: “agora o que é que eu vou fazer da minha vida?” E como nunca gostei de estar parado, não senti essa necessidade de fazer um gap year.

Já tinha bem presente o que queria fazer da sua vida a seguir?
Uma delas era estar ligado ao futebol. Podia ser treinador, diretor desportivo.

Essa empresa de relvados sintéticos como é que surgiu?
Pelo contacto de uma pessoa que conheci e que à raiz de fazer o acordo com o colégio, colocámos um relvado sintético e aí começou uma relação. Mas na altura foi uma coisa que se desvaneceu porque eu não estava focado para trabalhar com relva sintética. Era mais trabalhar com o futebol, estar ligado ao futebol, por isso foi uma coisa que deixei de parte.

O primeiro contrato profissional, assina com que idade e com quem?
Com o Montijo, tinha 19 e foram vinte contos (100€).

Ainda vivia em casa dos seus pais?
Vivia.

Lembra-se do que fez com esse primeiro ordenado?
De certeza que o gastei todo (risos). Nunca fui uma pessoa de muitos luxos e necessidade de muitos luxos. O meu maior luxo é ter a minha família ao pé de mim.

Calculo que tenha sido em Espanha que ganhou mais dinheiro. Onde o investiu?
Comprei uma casa em Espanha que acabei por vender e ter rendimento, mas nunca foi essa a minha preocupação.

Foi aliciado para se meter noutros negócios?
Algumas vezes, mas sou uma pessoa muito desconfiada.

Alguma vez lhe bateram à porta a pedir dinheiro?
Sim. E houve momentos em que eu ajudei, não me arrependi, e outras vezes que não devia ter emprestado e emprestei. Mas foram coisas pontuais, sem envolver nada de especial.

É crente?
Sim.

E supersticioso?
Também. Tenho alguns rituais.

Quais?
Por exemplo quando jogava, as minhas ligaduras dos pés tinham que estar no sítio, tinha que as enrolar sempre de forma igual, as caneleiras tinham que ter uma medida especial, eram umas caneleiras muito pequeninas. Tinha que benzer-me, tinha que entrar com pé direito. Havia um ritual próprio e quem jogava comigo sabia perfeitamente que o dia de jogo era um dia em que eu não sorria. A minha cara dizia tudo. Creio que nunca me viram a rir à gargalhada num jogo porque para mim era algo especial.

Entrava no modo concentração.
Modo total. Havia coisas que eram inegociáveis: no dia de jogo e no treino eu não levava muito para a brincadeira, não conseguia ser bipolar ao ponto de estar a rir e estar sério. Para mim, o treino era algo sagrado, o jogo era algo sagrado e tinha que ser sério sempre. Nos treinos só brincava fora do relvado.

Alguma vez lhe fizeram alguma partida a que não tivesse achado muita piada?
Sim, numa viagem de autocarro em que depois de ganharmos entornaram-me uma cerveja para cima e eu não fiquei nada satisfeito com isso. Já se tinham feito uma série de brincadeiras e acabou por me tocar a mim e claro nessa noite não fiquei nada satisfeito porque estar a dormir e ser acordado com cerveja, não tem graça absolutamente nenhuma (risos).

Taira no dia da entrevista a Tribuna

Taira no dia da entrevista a Tribuna

João Pedro Cipriano

Tem mais alguma história de Espanha que queira partilhar?
Tenho uma fantástica da subida de divisão, em Salamanca. Fomos jogar a Alavés, ganhámos o jogo 0-4. De Salamanca para Alavés foram não sei quantos autocarros e comboios, foram à volta de 10, 15 mil pessoas. O jogo representava muito porque se ganhássemos subíamos de divisão e sentir o peso daquilo foi fantástico. A seguir ao final do jogo, havia um festejo no campo. Os jogadores todos sentados no chão, como se estivéssemos a remar um barco em fila indiana. E a “remar” íamos andando e fizemos isso o campo todo. Naquela altura o presidente, com um coração enorme disse: “Pessoal vamos jantar aqui a uma sidreria, quem tem familiares pode trazer os familiares”. Fomos todos para a sidreria. Claro como é lógico aquilo foi um exagero de tudo, de comida, bebemos muito. A sidra das pipas já não vinha direto para o copo, já vinha direto para a goela dos jogadores (risos). Alavés é no País Basco e aquele campo e aquela cidade teve de mover os Ertzaintza, aquela polícia basca em que só se vêem os olhos, parece que estão de burka, e as metralhadoras. E eles sabiam que nós estávamos a jantar, que depois íamos sair e tínhamos que ser acompanhados. Naquela altura ainda havia a ETA. E nós quando saímos do restaurante estávamos equipados e fomos para o meio da via, com os carros a passar de um lado e outro. Sentámo-nos em cima do traço contínuo, em fila indiana, a fazer o barco, entre os carros. As pessoas e a polícia olhavam para nós e não sabiam se haviam de parar o trânsito (risos), se haviam de correr connosco. A única coisa que sei e que no meio daquilo tudo houve uma impotência brutal da parte deles ao ver que estávamos a comemorar mas não estávamos a fazer nada de mal. Estávamos a pôr aquilo tudo em perigo, ok, mas as coisas eram feitas não para magoar, não para fazer dano, mas sim para passar um bom momento.

Taira com os dois filhos, Afonso e Sebastião

Taira com os dois filhos, Afonso e Sebastião

D.R.

Quando é que é chamado pela primeira vez à seleção?
Em 1996, quando fui para Salamanca. Fui informado pelo clube que tinha sido convocado para a seleção nacional. O Alves na primeira convocatória não me cede à seleção, porque íamos ter um jogo.

Ficou chateado com ele?
Quer dizer, é das tais coisas... Nunca me pude chatear muito com o Alves, a sério, porque sabia que tudo aquilo que ele fazia não tinha maldade. Mas uma das coisas mais desagradáveis que me fizeram, o Alves já nem se recorda, foi ter jogado só cinco minutos. Eu tinha estado aleijado num pé e num jogo em casa, Belenenses-V. Guimarães, ele mete-me aos 20 minutos da segunda parte e tira-me aos 25. Estive cinco minutos em campo e ele retirou-me. Entrei e saí. Ainda hoje não sei porque é que ele fez isso. Mas depois de fazer isso, veio ter comigo, eu estava a tomar banho e perguntou: “Não estás chateado comigo?”; “Não, estou super contente!”; “Epá esquece isso, são coisas do futebol que acontecem”. Eu percebi que o Alves era acima de tudo uma pessoa que pensava na equipa e tentava fazer o melhor pela equipa e quando se enganava tinha que repor o erro.

Mas estava a dizer que foi chamado à seleção...
Ele não deixou e depois fui chamado mais nove vezes, numa das quais sou internacional. Num jogo contra a Albânia que ganhámos, entrei aos 70,75 minutos, já não me recordo.

Quando se é convocado para a seleção sente-se um orgulho diferente?
É um orgulho e abana-se um bocadinho porque tudo é novo. São estímulos totalmente diferentes e novos. Estar a conviver com jogadores com quem normalmente não se priva, só se priva contra. Naquela altura eu estava no Salamanca e jogava contra o Figo, o Hélder, o Sá Pinto. Era sempre contra, nunca havia partilha de balneário, e a seleção basicamente é a partilha de balneário entre os melhores jogadores no momento. E estar ali a representar Portugal com os melhores daquele momento, é inesquecível.

Mas apanhou a seleção num momento em que havia muita rivalidade norte e sul?
Sim, também. A seleção estava a passar por um processo que tinha a ver com aquele caso, em Cascais...

O caso Paula?
Houve ali uma situação tumultuosa que vinha de trás e que o Artur Jorge acabou por herdar. Debatia-se naquela altura muitos casos que tinha havido nessa seleção anterior do Oliveira, na qual eu não participei, por isso aquilo para mim foi um bocado... Estava descontextualizado de uma situação que nunca vivi, nunca presenciei. Até nisso o Artur Jorge teve um bocadinho de azar se assim se pode dizer, porque a seleção vinha um bocado esfrangalhada por causa desses casos que se passaram.

Com que imagem é que ficou do Artur Jorge?
Muito calmo, muito tranquilo, muito observador, muito introvertido e tinha uma capacidade brutal de se abstrair. Essa capacidade de se abstrair jogava contra ele porque não tinha capacidade de congregar.

Entretanto, estava a contar-nos que jogou no Oriental mas começou a perceber que estava na altura de “pendurar as botas”. É nessa altura que começa a tirar o curso de treinador?
Não, tirei o nível um do curso de treinador ainda estava no Belenenses. Tirei-o na Associação Futebol Lisboa. Só mais tarde é que tirei o nível dois e o três há coisa de cinco anos.

Taira com a mulher, Patrícia

Taira com a mulher, Patrícia

D.R.

Quando acaba o futebol, o que é que foi fazer, antes de se iniciar como treinador?
Montei uma escola de futebol dentro do Saint Julian School, uma escola internacional e a partir daí estive sempre ligado ao futebol.

Ensinar é uma uma vocação?
Sim, porque gosto de partilhar e ver a evolução. Gosto de transmitir algum conhecimento. Gosto que os miúdos evoluam dentro de regras e disciplina acoplado ao que é o treino desportivo. Estou inserido num colégio em que tem de haver alguma qualidade, também gosto disso. Há um conjunto de fatores que agrada.

Em 2014, 2015 foi treinar os juniores de Oeiras. Como?
Foi um convite que me fizeram. Naquela altura havia a fase final e a fase de manutenção e fui para a fase de manutenção. Conseguimos manter-nos na I divisão nacional de juniores. Começa a época seguinte, e entretanto, quando acaba a fase final e segue para a fase de manutenção, eu disse à equipa e ao presidente que lá estava - e que ainda lá está - que terminava ali e me ia embora.

Porquê?
Porque achei que não estavam reunidas as condições. Porque acima de tudo, acho que a competência das pessoas não tem a ver com o dinheiro que recebem, tem a ver com a qualidade de trabalho que lhes é oferecida e com o que podem dar. Sou uma pessoa que tem duas mãos, uma para dar e outra para receber, e é esse um bocado o ponto de equilíbrio da minha vida e o ponto de equilíbrio das minhas relações. Se só for eu a dar, não há muita hipótese de continuar. E, no Oeiras, senti que do ponto de vista de quem dirige não havia grande preocupação com os responsáveis dos juniores e de dar continuidade a um trabalho e termos as melhores condições. Por isso resolvi ir embora.

D.R.

Volta à sua escola e depois como é que surgiu o Belenenses?
O Belenenses surge porque o Patrick Morais de Carvalho, através do João Raimundo, que é o diretor da formação, começa a ter um projeto de refundar o Belenenses devido à separação da SAD com o clube. Estivemos a falar de futebol durante umas três, quatro horas e o Patrick disse-me que não me via como um treinador da equipa naquele momento, mas como uma pessoa muito mais abrangente para a necessidade que tinha a nível de clube. Eu pus-me à disposição. Estivemos sem nos falar durante um tempo e ele quando me ligou disse: “Taira, a questão está decidida, o clube vai começar pela I divisão distrital e eu quero que tu sejas a pessoa responsável para liderar o projeto a nível da direção desportiva”. Aceitei. Foi acima de tudo ele entregar-me a confiança daquilo que estou a fazer hoje em dia.

Quais são essas funções em concreto e qual é o estímulo?
O estímulo, acima de tudo, sentir uma injustiça brutal do ponto de vista legal e jurídico pelo Belenenses estar no sítio onde está. Primeiro porque o clube não desceu à I divisão distrital por questões pontuais, não desceu porque teve menos pontos do que os outros. E sendo o Belenenses centenário devia ser reconhecido e estar sob a alçada da Federação Portuguesa de Futebol e nunca da Associação de Futebol de Lisboa. Esse é o ponto número um. Segundo ponto, sinto-me peixe na água a liderar um projeto destes, porque é como se me tivessem dado um pedregulho, um martelo e um escopro.

O que quer dizer?
Com a saída da SAD e do departamento de futebol profissional da zona do espaço físico do clube, ficou-se ali um bocadinho em areias movediças. O que é que há para fazer, o que é que não há, e isso é um trabalho de gestão. Como é que uma equipa funciona, como é que se começa a conseguir ligar as peças de um puzzle, como é que se constrói uma equipa, quais são os horários, o que é que se tem que dar, o que é que se tem de criar, os detalhes necessários para os jogadores estarem confortáveis, toda essa ligação. Lidar com a questão de um orçamento que não tem nada a ver com os valores da I e II divisões. A escolha dos perfis dos jogadores, temos de saber que neste projeto é importante ter jogadores com perfil de compromisso e jogadores locais, porque o orçamento não permite jogadores profissionais. Temos de obedecer também aos regulamentos da Associação de Futebol de Lisboa que, por não ter acordos profissionais, não permite jogadores que andam fugidos ao SEF [ironia]. Há aqui uma série de coisas que temos de pensar e acima de tudo criar uma grande empatia e voltar a acordar o Belenenses. Com todo este processo, acho que acabou por estar um pouco adormecido. Mas acho que se conseguiu criar aqui uma empatia grande entre equipa e adeptos, conseguiu estimular-se esses adeptos a serem cada vez mais e é esse o objetivo. Que o clube cresça a nível desportivo, a nível estrutural e a nível de sinergias, de adeptos e equipa.

Taira no dia da entrevista, no jardim do condomínio onde vive

Taira no dia da entrevista, no jardim do condomínio onde vive

João Pedro Cipriano

Sente-se mais confortável nesta pele de diretor desportivo do que como treinador?
Neste momento, vesti a pele de diretor desportivo e sinto-me cómodo. Porque acho que posso transmitir à equipa técnica e ao grupo de trabalho mais valias. Creio que consigo que haja uma boa relação entre adeptos e a equipa, isso é fundamental para um clube crescer. É um percurso de muita paciência, de pedra sobre pedra, de passo a passo.

Como é que a sua experiência passada o ajuda neste processo?
Passei por clubes em que me apercebi das estruturas que tinham. Por exemplo, o Sevilha tem 50 mil adeptos que vão ao estádio. Ao do Salamanca iam 12 mil. A estrutura do Salamanca era uma estrutura com 10, 12 pessoas. A do Sevilha não era muito mais do que 10, 12 pessoas. Vejo aqui estruturas de clubes inferiores que têm mais do que 10, 12 pessoas a funcionar. E acima de tudo acabei por tentar perceber como é que se pode juntar as valências entre a parte desportiva e a parte da gestão desportiva. Se os nossos ativos são os jogadores de futebol, tem que se tentar que toda a congregação de algumas estruturas esteja virada para esses ativos. Ou seja, são coisas que fazem um bocadinho de parte do meu portefólio de vida se assim se pode dizer, porque passei por elas.

Onde é que vê o Belenenses daqui a 6, 7, 8 anos?
Se calhar como o Sevilha Futebol Clube, com uma capacidade brutal, porque tem tudo para ser um clube de uma importância brutal. Agora sabemos que o peso maior aqui em Portugal vai ser sempre do Benfica, do Sporting e do FCP, pela sua história. Tal como em Espanha é sempre o Barcelona e o Real de Madrid, e depois andará ali o Sevilha, o Valência e outros clubes, como o Atlético de Bilbau e o Atlético de Madrid, que andam sempre ali a morder os calcanhares. Agora um clube para poder aspirar a ter projetos sólidos e de competência, tem de estar altamente estruturado para poder fazer crescer a formação, e ser um clube que em vez de ir à procura de jogadores, são os próprios jogadores que vão à procura do clube. Eu acho que a capacidade de crescimento de um clube é quando os próprios jogadores procuram esses clubes e não o contrário. Há muitos clubes em Portugal e pelo mundo fora que têm de ir à procura de jogadores que queiram servir esses clubes. Quando se conseguir o contrário, esses clubes serão alvo de referência.

Taria com os filhos Afonso e Sebastião

Taria com os filhos Afonso e Sebastião

D.R.

Os seus filhos estão ambos ligados ao futebol?
Não. O meu mais velho é profissional, está no Beitar Jerusalém, de Israel. O mais novo esteve a jogar, mas fez uma rotura de ligamentos cruzados quando era júnior do Oeiras e houve um momento em que, como era um excelente aluno, enveredou pela vida académica. Houve uma coisa que ele consciente e muito inteligentemente disse: “se o meu irmão fez a formação no Sporting, esteva lá seis anos, foi às seleções nacionais e teve muita dificuldade em ser profissional, muitas mais dificuldades vou eu ter”. E o meu filho mais novo tem um caráter muito forte e muito complicado, basicamente não estava para aturar alguns treinadores que iam tentar moldá-lo.

Sai ao pai?
Tem um bocado essa genética, um bocado mau feitio (risos).

Tinha mau feitio com os treinadores?
Não tinha mau feitio com os treinadores. Mas se calhar por essa capacidade de ser sério, de ser profissional e não gostar de perder, gostava que as coisas fossem feitas com organização. E havia muitos treinadores em que era tudo em cima do joelho, era tudo feito às três pancadas e isso, para mim, era perder tempo, era não dar qualidade e condições de trabalho a um profissional que sabe perfeitamente que a carreira é curta; tens 15, 16 anos para jogar à bola e para ganhar dinheiro e ajudas do Estado quando deixas de jogar à bola são zero. E isso para mim era uma falta de respeito. Nesse ponto sim, tinha mau feitio.

Entrou em confronto com algum treinador?
Algumas vezes, sim.

Alguma história que nos possa contar?
Por exemplo entrei em conflito com o Andoni Goikoetxea. Não foi bem conflito, foi basicamente defender os interesses da equipa. Entrei em discussão com o Josu Ortuondo, um treinador que esteve no Estrela da Amadora e que depois esteve comigo no Salamanca. Entrei também em discussão com o Miguel Angel Russo, um treinador argentino que foi para o Salamanca e que era completamente louco em relação ao processo de treino, mas, lá está, são coisas que alguns jogadores comem e calam e eu sentia necessidade de ter de defender o grupo. Além do mais porque acabei por ser capitão em algumas equipas.

Revê-se em algum dos seus filhos em termos futebolísticos?
O meu filho mais novo jogava a central e tinha capacidade técnica, mas se calhar faltava-lhe um bocadinho de foco. O mais velho é uma máquina de foco, é diferente de mim a nível do jogo, porque os próprios modelos e sistemas de jogo mudaram e ele teve de ser um jogador muito mais cerebral, muito mais de equipa, compreende o jogo de uma forma super natural. No meu tempo os jogadores de meio campo tinham que fazer um duplo papel, atacar e defender, não havia tanta especificidade da posição. Ele é um jogador “6”, à frente da defesa, com uma posição clara, que tem que dar equilíbrio, tem de compensar. Naquela altura usava-se outro tipo de jogador, um jogador que conseguisse fazer um box to box.

Tendo em conta o jogador que foi e o seu feitio, acha que se encaixaria melhor no estilo de jogo de hoje? Teria mais sucesso hoje do que teve na sua altura?
Talvez sim porque houve treinadores que castraram muito a minha maneira de jogar, porque eu não era um “10” e muitas vezes os treinadores, talvez devido à técnica que tinha, punham-me a jogar a “10” e um jogador “10” naquela altura da maneira como os modelos do jogo estavam implementados, jogava muitas vezes de costas para a baliza e eu não me sentia confortável a jogar de costas para a baliza. Havia jogadores que tinham uma capacidade brutal de jogar de costas para a baliza, um João Vieira Pinto, um Sá Pinto, jogadores que tinham essas características. Eu não. Eu era um jogador que gostava de evoluir com bola, de pensar o jogo de trás para a frente, de ir buscar a bola à defesa. E tive treinadores que me diziam: “nem pensar em ires buscar a bola aos centrais”. Hoje por exemplo, os “seis”, todos eles vêm quase buscar a bola ao guarda-redes. Por isso acho que hoje em dia me sentia muito mais capaz de desempenhar as funções. Hoje o futebol é muito mais dinâmico do que era naquela altura, acho que era mais beneficiado neste momento.

João Pedro Cipriano

O VAR veio ajudar verdadeiramente?
Acho que não. É uma maneira simpática de dizer aos árbitros que podem errar, que depois podem ver a porcaria que fizeram ou aquilo que não fizeram, porque basicamente...

Mas não ajuda à verdade desportiva?
É uma situação de conforto para um árbitro, porque se errar tem sempre a opção de. Acho que o VAR não substitui a verdade desportiva. Aquilo que pode substituir não é a verdade desportiva, é a educação desportiva, é nós de uma vez por todas sabermos que o árbitro é parte integrante do jogo e que se erra, não faz mal por errar. A parte mais importante do jogo são os jogadores e são os treinadores. O árbitro para mim tem 1% dessa importância. É basicamente saber que é um juiz que vai arbitrar um jogo e que vai fazer o seu papel da melhor forma possível e que umas vezes erra e acerta.

.Se não fosse jogador de futebol tinha sido o quê?
Fisioterapeuta ou agente da polícia judiciária, de crime.

Há uma alma de detetive aí dentro?
Há algo que me fascina, entender o porquê das coisas e de como é que elas se podem solucionar. Não era andar de cacetete e a bater, mas sim, aconteceu algo, porque é que aconteceu? Lá está, tem a ver um bocadinho com aquilo que eu disse no início da entrevista, de ser muito observador relativamente aos jogadores e como é que eles se comportavam. E também sou muito observador em relação às pessoas e às coisas que acontecem.

Gosta de filmes policias?
Sim, quase todos os filmes que vejo estão relacionados com algo de mistério. É isso ou comédias francesas (risos). Só estes dois tipos de filmes me fascinam.

Tem tatuagens?
Não, as minhas tatuagens estão dentro do meu cérebro. São os momentos que vou passando e que partilho principalmente com a família.

A maior alegria de todas no futebol?
A maior alegria de todas é aquela que partilho com o meu filho mais velho que é nunca ter sido colocado numa lista de dispensas de um clube. Isso é talvez o maior legado de experiência que posso passar ao meu filho. Porque quando se é colocado numa lista de dispensas, basicamente está a dizer-se o seguinte: “este jogador é colocado na lista de dispensas devido à sua falta de profissionalismo, à sua falta de qualidade, a não estar comprometido com o grupo”. Em toda a minha carreira, em todos os clubes por onde passei, nunca fui colocado numa lista de dispensas. Esse foi o legado que passei ao filho.

Tem outro desporto ou modalidade que goste de praticar ou de seguir?
Gosto de jogar squash e raquetes de praia. Infelizmente não consigo jogar muito squash.

Porquê?
Porque é necessário outro parceiro, porque é necessário ter uma quadra e porque é um jogo que tem alguma exigência física e, por outro lado, é um jogo muito sacana, em que a bolinha é muito pequenina e ressalta. Gosto desse tipo de jogo. É o tal jogo de detetive, de estratégia, de malandrice, de sacanagem, em que a gente sabe perfeitamente que aquela bolinha tem de morrer ali.

Como foi andar com a casa às costas?
Nós só damos valor às coisas quando as perdemos ou quando não as temos. Quando soube que ia para Salamanca a primeira preocupação foi: “para onde é que eu vou? Onde é que está Salamanca?”. Não havia telemóvel, tive de abrir o mapa para ver onde é que estava Salamanca. Era sair para um desconhecido era o tremelicar de pernas. O que é que vai acontecer? Vou deixar a família? Aprendi a dar muito mais valor ao consolo de família, e isso só quem sai para fora e sai com a família é que entende, que a verdadeira amizade está efetivamente na família. Claro que nos bocadinhos que podia, vinha a Portugal. Sou um apaixonado de Lisboa e de Portugal, sem dúvida. Temos um país fantástico, mas só damos valor a esse país quando não o temos.

Havia alguma coisa que tinha de ir sempre com vocês?
Quando fui para Salamanca, no primeiro ano, foi oferecida uma cadela golden ao meu filho mais velho. E a partir daí tivemos sempre cães. Tive uma golden, depois tive um pastor alemão. Tivemos sempre cães, agora tenho cadelas, por isso acabou por ser uma marca da casa ter um animal de estimação. Agora tenho uma flat-coated retriever com um ano e tenho um caniche já com 13 anos.

Uma última história que possa partilhar.
Depois de um jogo da seleção contra a Alemanha, no Estádio da Luz, nós jogamos num sábado à noite e no domingo de manhã tinha um jogo do Salamanca contra o Villarreal, em casa. O presidente tinha um avião pequeno para sair daqui de Lisboa e ir para Salamanca. Saía por volta das às nove da noite para chegar às 11 e meia ao aeroporto de Salamanca. Mas a zona de Salamanca no inverno é uma zona de muita neblina e os pilotos disseram que seria muito difícil aterrar e que teríamos de voltar para trás. Eu disse-lhes que tinha de chegar a Salamanca porque no dia seguinte jogava contra o Vila Real. Ou seja, foi a noite toda com essa apreensão de o avião conseguir ou não aterrar, ele lá aterrou, eu cheguei, dirigi-me ao quarto para dormir o que podia dormir. No dia seguinte tinha de acordar cedo porque o pequeno almoço era cedo. Claro que economicamente o esforço do presidente foi brutal. O pior disto tudo foi que no jogo levei dois amarelos ainda na primeira parte e fui expulso (risos).

O presidente não deve ter achado graça nenhuma.
Exatamente, andaram durante quase uma semana a contabilizar por minuto quanto é que eu tinha gasto ao clube por ter fretado o avião (risos). É uma situação que mostrou que da parte do clube havia um interesse brutal em que eu jogasse, só que basicamente não estiveram reunidas as melhores condições para que eu fizesse esse jogo, porque horas de descanso e cabeça fresca foi coisa que não houve.

Era jogador de levar muitos amarelos?
Não. Eu respeitava o espaço, o pior era quando não respeitavam o meu, aí era complicado. Mas não era um jogador que ia à procura de quezílias, ou à procura de situações que pudessem ir nesse sentido. Agora, claro, qualquer jogador que jogue no seu espaço e que sinta de alguma maneira “atacado”, reage, porque o futebol é um conjunto de duelos individuais e por isso estamos sempre sujeitos, principalmente na zona do meio campo. Além do mais o árbitro também se coloca em zonas muito próximas do meio campo onde era o meu raio de ação.