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A casa às costas

Ricardo Nascimento: “Diziam que, por ter cabelo comprido, usar fita, ouvir música gótica e vestir de preto, era um drogado e paneleiro”

Aos 45 anos o jogador que chegou a ser apelidado de "Platini do mar", mas que na família é chamado de Rixa, prepara-se para assumir, pela primeira vez, o papel de treinador principal do U. Lamas. Ansioso pelo começo da época, conta-nos como o boxe o ajuda a libertar o stress e como sofreu na pele o preconceito por gostar de música vanguardista. Começou no FCP, o clube do coração, andou pelo Leixões, Boavista, Rio Ave, Desportivo das Aves, Montpellier, entre outros, mas foi na Coreia do Sul, que foi mais feliz na longa carreira de futebolista. Pai de três filhos, tem na pintura o seu hóbi e confessa, no meio de várias histórias, que comprou um Porsche 911 só para "curtir" o tiptronic e a sua música

Alexandra Simões de Abreu

ANTONIO COTRIM

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Nasceu em Mafamude, Vila Nova de Gaia…
...Cinco dias antes da revolução de 1974. A minha mãe recorda-se que embrulhou-me num xaile vermelho no dia 1 de maio e saímos à rua.

A propósito, apresente-nos os seus pais.
A minha mãe, Maria Odete Nunes Braga de Queirós do Nascimento, era cabeleireira e o meu pai vendia produtos compostos para animais, e o nome dele é Manuel João Barreiro do Nascimento.

Tem irmãos?
Tenho um irmão mais novo cinco anos, que neste momento é taxista, e é o Rui Miguel Queirós do Nascimento.

Havia alguém na família já metido no futebol?
Não propriamente. O meu pai jogou nos juniores do Porto, mas na altura a mentalidade era outra e o meu avô levou-o para outros caminhos, para a construção, carpintaria, para aprender essas artes. O meu pai sabe fazer isso e acabou por não seguir a carreira de jogador.

Como começa o futebol para si?
Acho que é antes de eu nascer. É esse o sentimento que tenho. É o meu jogo, os meus amigos vêm todos do futebol e foi aqui na rua, na beira rio, com os carros a passar a alta velocidade que comecei a jogar futebol. Foi aí o começo.

Lá em casa torcia-se pelo FCP?
Sempre. Eu já o disse, sei que posso ferir algumas susceptibilidades, mas já fiz jogos profissionais contra o FCP e obviamente que quis ganhar. Mas o coração é portista. O meu pai levava-me sempre ao FC Porto e os meus amigos são todos do FC Porto.

Gostava da escola?
Não me lembro porque desde os 14 anos que comecei a ter treinos bidiários, a ir a torneios internacionais na seleção e acabei por não ter a capacidade, tenho de admitir, de aliar os estudos à minha prática profissional. Fiquei-me pelo 9.º ano.

Ricardo Nascimento em bebé

Ricardo Nascimento em bebé

D.R.

Como é que foi descoberto ou como é que se dá a descobrir ao FCP?
A determinada altura, fui viver para Canidelo com os meus pais e fui com uns amigos a uns treinos de captação ao Canidelo. Eram para aí uns 400 miúdos e no dia seguinte o meu pai levou-me à Constituição e fiz também um treino onde estavam 400 e tal miúdos. E foi espetacular. O FCP depois teve de dar umas bolas ao Canidelo ou coisa parecida. Resolvemos as coisas facilmente (risos). Mas pronto, o meu primeiro clube foi o FCP, tinha nove anos.

Nunca quis ser outra coisa que não fosse jogador de futebol?
Provavelmente sim, mas não me lembro. O que me lembro é que queria ser jogador de futebol, mas não por causa do dinheiro e do mediatismo que agora o jogadores têm, mas sim porque eu amava o jogo e amo o jogo. Eu tinha a paixão de correr atrás de uma bola, era o miúdo mais feliz do mundo quando tinha uma bola nos pés.

Quem eram os seus ídolos?
O Platini e o Maradona. O Platini jogava na minha posição e sempre admirei muito o jogo dele.

A sua posição foi definida ainda na rua ou no FCP?
Na rua não existe posição, jogava onde era preciso: a guarda-redes, a avançado, a defesa, no meio-campo, em todo o lado. No FCP, o Sr. Álvaro e o Sr. Carneiro viram rapidamente que as minhas características seriam ali para o meio do campo e foi aí que comecei. Portanto foram eles que decidiram a minha posição.

Lembra-se do primeiro treino no FCP?
Sim, a primeira situação foi interessante. Eu estava a treinar com aqueles 400 miúdos que lá apareceram e o Sr. Álvaro, que estava cá fora, chamou-me: "Ó Ricardo, vamos ali fazer um jogo rápido a Paços de Ferreira e já vimos". Então, fui jogar logo com a equipa do FCP. Ganhámos 4-0; um rapaz loiro, cujo nome não me recordo, marcou três golos, e eu entrei e marquei um. Foi algo de espetacular.

Foi fazendo a sua formação no FCP, mas acaba por ir para o Leixões pouco tempo depois. Porquê?
A minha maturação veio um bocadinho mais tarde, apesar de ter ganho individual e coletivamente todo os prémios que havia para ganhar. Eu era sempre o melhor jogador em todos os torneios em que o Porto participava, mas eles optaram por me dispensar porque eu era mais pequenino que os outros. Isso faz parte, eu entendo perfeitamente. O meu pai também não se metia. E acabei por ir fazer uns treinos ao Leixões. Fiquei logo e foi a melhor coisa que podia ter feito.

Tinha quantos anos?
15 anos. Foi no meu primeiro ano de juvenil. Fiz cinco ou sete épocas maravilhosas no Leixões. Devo muito àquele clube. Tive a sorte de sair de uma grande estrutura como o Porto, em que me trataram sempre bem, e ir para uma que, na altura, não lhe ficava nada a dever. Aliás, depois, nós encontrámo-nos todos nos juniores e o Leixões fez história, porque ganhou ao Porto pela primeira vez, em casa, por 4-1.

Ricardo Nascimento em criança

Ricardo Nascimento em criança

D.R.

Estreia-se como sénior ainda no Leixões, pela mão do Nicolau Vaqueiro.
Exatamente. Tinha 19 anos. Foi uma pessoa extremamente importante. Quando o mister assumiu o comando técnico do Leixões, eu fui ao Campeonato do Mundo da Austrália de sub-20 – estamos a falar de 1993.

Esse Mundial não correu nada bem…
Eu penso que foi uma má preparação a nível institucional. Nós fomos muito em cima do acontecimento, com 12 horas de fuso horário. Não tivemos uma adaptação fácil. Vínhamos de campeões da Europa, havia também um estatuto muito grande por termos sido campeões do mundo em Riade’89 e em Lisboa’91. Então, em 1993, toda a gente esperava que também fôssemos campeões do mundo. Mas caímos num grupo muito difícil com Brasil, Alemanha e o Uruguai, que tinha uma equipa brutal.

Mas a nossa seleção também tinha nomes fortes e, ao que consta, muitos malandros…
...Ouvi dizer que sim. Joguei apenas 10 minutos nesse Mundial. Havia aquele mito do Ricardo Nascimento malandro, maluco e mais não sei o quê, e não me punham a jogar. E quando punham, era o melhor em campo.

O grupo era do género de andar a fazer partidas uns aos outros e em coboiadas?
Não propriamente, mas tínhamos ali uma coisa diferente. Havia dois ou três jogadores que já faziam parte do plantel do Benfica, do Sporting ou do FCP, e eles achavam que havia um estatuto ou algo assim parecido, mas depois jogavam contra o Leixões e não ganhavam, mas pronto. E acabámos por não nos entender lá muito bem, foi o que foi; os resultados, infelizmente, também não ajudaram. Mas não recordo que alguém tivesse tratado mal alguém. Infelizmente, a preparação que era necessária não aconteceu. Hoje cada vez mais me apercebo disso, irmos seis dias antes para um fuso de 12 horas é extremamente complicado, e a partir daí as coisas não correram muito bem. Mas não houve nada de desrespeitoso perante nada, só aquelas maluquices da idade. No futebol, quando os resultados não aparecem, depois escalpelizam-se coisas que não fazem sentido algum.

Mas tem algumas histórias divertidas que possa contar desse mundial?
Tenho. Na Austrália, o acordar era às seis da manhã, o que não lembra a ninguém, horário australiano. Davam-nos autorização, podíamos estar ali num perímetro curto a socializar um bocadinho - o que até nos fazia bem -, só que às seis horas da manhã é que não, até porque podíamos acordar mais tarde. Lembro-me de ver pela primeira vez na minha vida lojas em 2ª mão, as ruas já completamente cheias de pessoas que iam trabalhar àquela hora. Era uma mentalidade diferente... As histórias ficaram sempre comigo e vão-me acompanhar para sempre.

Os pais de Ricardo Nascimento

Os pais de Ricardo Nascimento

D.R.

Quando começa a ganhar dinheiro com o futebol?
A partir dos 16 anos o Leixões fez-me um contrato profissional. Não era muito, se não me engano eram 125 contos (€625). Antes disso, pagavam-me o passe e mais um bocadinho, acho que eram 15 contos (€75).

Lembra-se de ter juntado dinheiro para comprar alguma coisa que quisesse muito?
Eu morava com os meus pais e a única coisa em que gastava dinheiro era com os meus amigos. Quando estava com eles fazia questão de pagar os cafés, porque sabia que estava numa situação mais privilegiada. E era comprar vinis da minha música.

Que música?
Gosto de música alternativa e tenho uma coleção dessas coisas.

Alternativa de que género?
Música gótica. Ainda hoje gosto dessa música. Eu sei que ninguém gosta da minha música, mas pronto, eu gosto (risos).

Como foi parar ao Boavista?
No meu primeiro ano de sénior, depois de o mister Vaqueiro ter vindo, joguei praticamente sempre a titular, as coisas correram-me bem e o Boavista contratou-me.

Era Manuel José o treinador?
Sim. Grande treinador, grande homem. Aprendi muito com ele. Tivemos um desentendimento que nem sei se foi público na altura. Mas não ficou nenhum tipo de ressentimento.

Que desentendimento?
Ele uma vez disse-me que não jogava, porque o meu pai se meteu num assunto e não sei o quê. O meu pai nunca se ia meter em assunto nenhum, nunca falou com o mister Manuel José, e certamente alguém se fez passar pelo meu pai ou coisa parecida. O Manuel José levou aquilo para o campo mais pessoal. Obviamente, eu nunca iria permitir isso ao meu pai, nem o meu pai nunca na vida ia fazer uma coisa dessas, mas, pronto, ficámos ali um bocadinho... Mas já nos encontrámos depois e sempre houve um respeito grande. Ele foi um grande treinador de futebol e penso que ainda continua a ser.

Foi por causa desse desentendimento que o Boavista decidiu emprestá-lo?
Penso que sim e que não. Porque o Boavista naquela altura tinha grande jogadores: tinha o Sanchez, o Timofte, tinha jogadores de primeira linha mundial. Eu ainda era miúdo, era o meu primeiro ano mais a sério, neste caso o segundo, e acabei por voltar ao Leixões. Depois disso, voltei ao Boavista onde tive a oportunidade de jogar mais meia dúzia de jogos em que fui sempre o melhor jogador em campo.

E o Desportivo das Aves?
Foi a melhor coisa que me podia ter acontecido. Toda a gente sabe que em Portugal foi o clube com que mais me identifiquei, embora não posso descurar a minha passagem pelo Rio Ave, onde as pessoas também foram todas maravilhosas comigo. Mas no Desportivo das Aves joguei três anos, em três épocas diferentes. Foi o clube que mais gozo me deu e aquelas pessoas são as melhores pessoas que conheço a nível futebolístico, sem desprimor para todas as outras.

Quando esteve no Desportivo das Aves na primeira vez, em 1995/96, era o Eduardo Luís o treinador, certo?
Sim, o mister Eduardo Luís é um senhor. Não subimos por um ou dois pontos, uma equipa que ninguém dava nada por ela, éramos miúdos praticamente. Havia o Martelinho, tínhamos uma equipa maravilhosa.

Ainda vivia com o seus pais?
Sim, só deixei de viver com os meus pais aos 26 anos, quando me casei, estava eu no Gil Vicente.

Como e quando conhece a sua mulher?
A Elisabete era a minha namorada de sempre. Conheci-a quando fui morar para Canidelo, tinha eu 12 anos e ela 14, algo assim parecido. É a mãe dos meus filhos. Divorciámo-nos há pouco tempo.

Ricardo Nascimento numa foto recente, no Porto

Ricardo Nascimento numa foto recente, no Porto

D.R.

Depois daquele ano de empréstimo ao Desportivo das Aves, regressa ao Boavista, num ano conturbado em que apanha como treinadores Casaca, Filipovic, Mário Reis…
E o mister João Alves, que acreditou em mim. Pôs-me a jogar pela primeira aos 25 minutos, quando o falecido Isaías [defesa brasileiro que também passou pelo Penafiel e Leça] lesionou-se, contra o Inter de Milão, e fui o melhor jogador em campo. Lá está: sempre que as pessoas acreditaram em mim, eu nunca as decepcionei. É o que digo, é uma grande mágoa que tenho. Eu nunca tive sempre o comportamento ideal de performance do estereótipo de jogador de futebol, mas correspondia de cada vez que era chamado.

O que quer dizer com não tinha o comportamento ideal?
Quer dizer exatamente isto: eu não sei qual é o comportamento ideal. Sei que fui aos controlos antidopings e nunca acusei nada, nunca falhei treinos, raramente chegava atrasado, sempre cumpri horários, sempre que um treinador dizia é para ali, eu ia para ali; e depois, quando me punham a jogar, eu era o melhor em campo.

Então por que razão não o punham a jogar mais vezes?
Porque eu tinha o cabelo grande, rapava o cabelo por baixo, gostava de música gótica, às vezes ia de chapéu para o treino, gostava de vestir-me de preto... Hoje temos jogadores com uma crista vermelha e com tatuagens na cabeça e está tudo bem.

Acha que estava à frente do seu tempo?
Pois, não sei. Eu gostava era de música vanguardista, não sei se estava à frente do meu tempo ou não, não sei o que é isso. Einstein devia estar, eu não.

Era um jogador refilão?
Não propriamente. Ficava com uma azia do caraças quando não jogava, mas isso faz parte da minha maneira de ser. Não consigo perder. Se jogar contra a minha mãe um jogo a berlindes, tenho de ganhar (risos). Se eu não ganhar algo, vai estar de errado (risos). Nunca desrespeitei ninguém, nunca insultei nenhum treinador, nunca fiz nada depreciativo. Sempre tive uma vida compatível com a profissão. Sempre fui uma pessoa regrada. Não gosto de sair à noite. Sempre comi bem, sempre tratei bem o meu corpo. Às vezes, há mitos que se colocam nas pessoas que infelizmente não fazem sentido.

Disse numa entrevista que, quando chega ao Varzim, o treinador Horácio Gonçalves também não o recebeu muito bem.
Eu fui para o Varzim, numa fase em que o Varzim já tinha uma equipa estruturada. Tinham subido da IIB até à I divisão com todo o mérito ,com o mister Horácio, e depois não tive lugar sempre a titular. Lembro-me do jogo das Antas, que perdemos 4-3 , em que fiz uma exibição fantástica. E na Madeira, contra o Marítimo, também, mas as coisas foram o que foram. Não tive nenhum problema com o mister - ele apenas optava por outros jogadores.

Mas afirmou que ele disse-lhe assim que chegou que teria mais hipóteses de jogar no Boavista do que ali, no Varzim.
Sim, sim. Foi exatamente o que ele me disse. Não faz sentido, é verdade. É mais fácil fazer sentido dizer que eu sou o que não sou, e depois quando me põem a jogar sou o melhor em campo.

Já acentuou várias vezes que as pessoas diziam coisas de si que não correspondiam à verdade. Concretize. Diziam o quê?
Diziam que eu tinha o cabelo comprido, que ouvia música maluca, que usava uma fita no cabelo, que usava de vez em quando rabo de cavalo, que vestia sempre de preto e diziam que eu era drogado, paneleiro (e desculpe a expressão mas era mesmo assim que diziam), e que não sei o quê não sei que mais, de gajo da noite. Eu quero que me digam quantas multas apanhei por estar na noite. Quantos controlo antidoping fui e não acusei nada.

Isso revoltava-o muito.
Claro. Mas eu dizia: “OK. Tu achas que eu não sou capaz, não sou hábil para ter uma oportunidade, então dá-me essa oportunidade”. E quando eles me davam a oportunidade, fosse dois minutos ou seis, e eu não estou a falar de cor... Lembro-me de um jogo de preparação, quando estava no Boavista, que tinha uma equipa só de craques. O Mário Reis meteu-me a jogar três minutos e marquei um golo. Depois meteu-me a jogar contra o Sporting, porque um adepto de megafone na mão passou o tempo todo a dizer "mete o Latapy" e ele de birra meteu-me a mim. Quem é que foi o melhor jogador em campo? Joguei 45 minutos, a perder 1-0 demos a volta com dois passes meus, do Ricardo Nascimento. A minha história é essa, a minha revolta era essa.

Sente que acabou por ser vítima do preconceito?
Se calhar, um bocadinho. Se calhar as pessoas que me rodeavam naquela altura não estavam preparadas para ver coisas diferentes. Viam um jogador com o cabelo comprido - era eu e o Cannigia os únicos que usávamos fita em 1996 ou 1997 - e, pronto, se o Cannigia era drogado, o Ricardo Nascimento também era drogado. O Maradona era drogado e toda a gente era drogada. E, hoje, um jogador tem uma crista vermelha, vou-me repetir, tem uma tatuagem na cabeça e é top.

De onde surgiu esse gosto pela música gótica e pelo vanguardismo?
Dos meus amigos mais chegados. E sempre que ouvia, aquilo dizia-me alguma coisa. A minha banda preferida são os "Sisters of Mercy". Fui vê-los ao Coliseu, foi a loucura. Eu gostava de vê-los. Ah, eu ia a concertos, se calhar ir a concertos góticos não é compatível com o futebol (risos). O que vale é que eu nunca perdi o sentido de humor.

Depois foi para o Gil Vicente, com o Álvaro Magalhães.
Sim, grande época, grande equipa, tínhamos um presidente top e o senhor Magalhães, correu tudo muito bem. O mister Álvaro teve a capacidade de juntar ali uma equipa fantástica (tinham acabado de subir de divisão) e fizemos uma época brutal.

Diogo Nascimento, o filho mais velho de Ricardo

Diogo Nascimento, o filho mais velho de Ricardo

D.R.

Como foi parar a França, ao Montpellier?
Derivado a esse ano. Tive várias propostas. Dizia-se que eu ia jogar para um dos três grandes.

Havia efetivamente contacto com algum dos três grandes?
Sim, houve.

Com o Sporting?
Sim, o Sporting chegou a contactar-nos na altura. O empresário Manuel Barbosa, que Deus o tenha, foi o único que me convenceu a assinar contrato com ele. Entretanto surgiu o Montpellier num projeto para subir de divisão e acabámos por subir. Mas eu, individualmente, não tive sorte.

Antes disso, casa-se.
Sim, durante a época no Gil Vicente a Elisabete engravida. O Diogo nasceu quando eu já estava em França. Era o meu primeiro filho, disse que tinha de vir a Portugal e o treinador dispensou-me um fim de semana. Fui vê-lo, voltei e passado um mês ela foi lá ter comigo.

No início foi para França sozinho. Receberem-no bem?
Clube fantástico, presidente dos melhores também, cidade espetacular. Infelizmente, não tive sorte porque as lesões acompanharam toda essa época, sempre por causa de pancadas. É que também tenho essa particularidade: nunca tive microroturas e roturas, o que quer dizer que fazia bem os exercícios, comia bem, tinha uma vida regrada. Porque esse tipo de lesões tem mais probabilidade de acontecer a quem faz outras vidas.

Era um jogo duro?
Era. Muita gente africana, com grande capacidade física e tive azar. Se calhar meti o pé onde não devia e levei três ou quatro pancadas que me arrumaram fisicamente. Ainda joguei uns 14 jogos no total.

Tem a alcunha de Rixa, vem de onde?
É daqui da beira-rio. Os meus pais ainda me tratam assim e alguns amigos da beira-rio. Toda a minha família me chamava assim.

Não tinha a ver com o andar metido em rixas?
(risos) Não. Também podemos meter mais esse mito (risos). Rixa era diminutivo de casa, de Ricardo. Nunca andei à porrada na vida, quando vejo porrada, fujo. Sou uma pessoa de paz. Por acaso até gosto de um desporto que me completou um bocadinho depois de o futebol acabar. Pratiquei-o e adorei a experiência: o boxe. Adorei aquilo. Mas era só para libertar do stress. E as pessoas do boxe que eu conheci e tive a sorte de conhecer - o Nuno “guerreiro do norte”, o Miranda, pessoas profissionais - sempre me ensinaram a parte da honra e que aquilo não é para andar à porrada.

Já lá vamos. Quando chega a França foi fácil adaptar-se, sabia falar francês?
Muito mal. O clube era muito estruturado, tínhamos uma professora que nos ensinou francês e acabei por apanhar o básico. Fiquei a viver perto do centro de estágio, o clube alugou uma moradia com grande relvado. Acabei por nem utilizar muito a casa, porque as lesões eram muitas e 90% da minha vida em Montpellier passou-se nos ginásios e na sala de fisioterapia, coisa que eu odiava.

Tinha assinado por quanto tempo?
Quatro anos, mas acabei por fazer só o primeiro ano e fui embora porque já não conseguia mais. Eram demasiadas lesões, as pessoas já olhavam para mim de lado e eu não me estava a sentir bem. Adorei a cidade, o clube é top, subimos facilmente à I divisão. Mas eu já não tinha mais capacidade. O Rui Pataca e o Paulo Sérgio ajudaram-me muito, porque também estavam lá com as respetivas famílias, mas eu estava sempre triste porque estava sempre no ginásio, sempre no fisioterapeuta. Por isso, acabei por vir embora para Portugal.

Como surge o Gil Vicente?
O presidente, o senhor Magalhães, pediu-me para ir falar com ele e chegámos a um acordo fácil, em cinco minutos, porque o senhor gostava muito de mim - acho que ainda gosta -, e eu tinha também um apreço muito grande pelo clube e pela personagem que ele é.

Apanhou o Luís Campos como treinador, mas também não correu bem.
(pausa) O.K. Temos de falar. O mister Luís Campos...Havia um jogador na Argentina, que era o Campas... pronto, é o que tenho a dizer do mister Luís Campos. A minha mãe ensinou-me que quando não tens nada simpático para dizer de uma pessoa não digas nada, então eu prefiro não dizer nada. Não nos entendemos, vamos colocar assim. Peço desculpa pela analogia do Campas, mas é o meu humor de gótico (risos).

Então, como foi parar a Braga?
O mister Manuel Cajuda ligou-me e fui falar com ele. Foi muito engraçado, porque o mister Cajuda tem um sentido de humor de que gosto. Logo no primeiro encontro disse-me: "Ouve lá, eu já sei que tu és um escândalo. Tens toda a gente a dizer mal de ti, é uma vergonha". E eu: "Ó mister, mas porquê? Conhece-me?". “Não, é isso que te estou a dizer, vamos ver”. Passado uma semana, voltou a chamar-me ao gabinete e disse: "Ouve lá, tu estás aqui a fazer algum filme ou és algum ator? O teu comportamento não tem nada a ver com aquilo que as pessoas me dizem". "Ó mister, o que é que quer que eu lhe diga?". Acabámos por ter um relacionamento muito interessante. O Cajuda é um excelente ser humano e um bom treinador. Ele tinha uma maneira de terminar as frases que era, no mínimo, hilariante: "Cuidado em relação às coisas"; não sei quê, nem sei que mais, "cuidado em relação às coisas". Finalizava sempre as frases assim (risos). Era uma figura. E dava-nos treinos, jesus, dava para vomitar.

Nessa altura foi viver para onde?
Para o Porto. Ia e vinha todos os dias para Braga. Tinha um bom carro, fazia-se bem, era rápido.

A propósito de carros, qual foi o seu melhor carro?
Foi um Porsche 911, o Carrera 4, cinzento. Mas só o comprei quando vim da Coreia do Sul. Comprei o Porsche para mim, curti muito aquele carro. Obviamente que, com três filhos não faz muito sentido ter aquele carro, mas eu comprei-o para mim, para curtir lá a coisa do tiptronic e ouvir a minha música.

Entretanto foi parar ao Salgueiros porque o Manuel Cajuda saiu e o SC Braga não o queria?
Exatamente. O mister Cajuda foi para o União de Leiria, o clube estava na I divisão. Convidou-me, disse-lhe que sim, as pessoas do Braga certamente aperceberam-se ou algo assim parecido. O Braga acabou também por mudar de treinador e acabaram por não me dizer nada e o mister Cajuda, estranhamente também não me disse nada.

Não lhe ligou a perguntar?
Não, eu não tinha o número dele, eu não fico com números de telefone de treinadores, era só o que faltava. Acabei por ir e com muita honra para o grande Salgueiral. Infelizmente apanhei o Salgueiros numa altura em que venderam o Vidal Pinheiro, e pronto. Nós em 1.º lugar, com uma super equipa, com o mister Carlos Manuel, super dinâmica, muito fortes, virámos a volta em 1.º lugar Venderam o Vidal Pinheiro, perdemos o nosso campo, acabámos depois por não subir.

É por isso que seguiu para o Maia?
Sim, já com 30 anos. Mas não só no Maia, como para todos os clubes, eu ia sempre preparado física, tática e intelectualmente se quiser, porque o futebol também tem isso, e faço uma época brutal. Correu-me tudo bem. E a partir daí, no jogo em que o Deco marcou aquela chapelada contra o Mónaco, o FCP ganhou 3-0, e o Alenichev também marcou, dizia eu, na final da Liga dos Campeões, ao intervalo do jogo, ligou-me um senhor de Espinho a dizer: “o Rio Ave está interessado em ti, não queres ir lá vê-los?”. "Ok". “Agora é intervalo do jogo, vamos amanhã”. Fomos no dia seguinte. O Carlos Brito também entrou em contacto com o Artur Alexandre e com o Mozer – o Artur tinha jogado comigo no Maia e o Mozer era o capitão na altura do Rio Ave. E eles falaram a verdade sobre a minha pessoa, que eu era pessoa tranquila, regrada, um bom profissional e um grande jogador de futebol. Acabámos por, em dois minutos, fazermos o contrato.

Gostou do Carlos Brito?
Foi uma pessoa que me ajudou imenso, eu acho que ele conseguiu dar-me aquilo que se calhar nunca nenhum treinador me deu para eu poder dar os toques de calcanhar, que era uma das minhas características, para fazer golos de bola parada, para fazer as minhas assistências. Juntou ali 10 jogadores em que as minhas características encaixaram perfeitamente. Eu também acredito que humildade a mais é vaidade e, lá está, ele pôs-me a jogar os jogos todos, pôs-me a jogar os 90 minutos, todos os jogadores me adoravam e eu adorava a equipa, o clube, os adeptos também. Fizemos uma época brutal e eu saí logo a meio da época, porque as coisas estavam a correr-me bem de mais. Lembro-me de, no último dia em que estivemos juntos, eu fui ao gabinete dele dizer-lhe que tinha surgido a oportunidade do FC Seoul. Eu sabia que eu era um jogador importante... E ele: “Ó Ricardo, estás maluco? Vai, organiza a tua vida e vais ter muito sucesso de certeza absoluta. É continuares igual ao que estás.

Gonçalo, o filho do meio

Gonçalo, o filho do meio

D.R.

Erica, a filha mais nova de Ricardo Nascimento

Erica, a filha mais nova de Ricardo Nascimento

D.R.

Antes de passarmos a Seoul, gostava de voltar aos anos do Salgueiros e do Maia em que houve problemas financeiros, ordenados em atraso, certo?
Então vou abrir um bocadinho o livro. Havia uma coisa que me fazia muita confusão. Não sei se a lei ainda é assim, nem quero saber, mas os clubes de futebol no meu tempo eram auditados, acho eu, e em dezembro havia um papel de 25 linhas que os jogadores assinavam em como o clube não lhes devia nem salário, nem prémios de jogo, blá, blá, blá. Aquilo entrava na FPF e passava. Eu estive em alguns clubes em que havia só 24 assinaturas; faltava sempre uma, que era a minha. Se me deviam dinheiro, eu não ia assinar, não assinava. Se calhar esse era o tal meu feitio... Não tenho problema nenhum em admitir que eu era assim. Não assinava se me deviam dinheiro.

Vivia das economias?
Sim, eu consegui jogar em clubes grandes, nunca me faltou nada, mas eu vi jogadores que moravam em pensões, que vinham do Brasil e que não tinham aqui ninguém que os ajudasse, e era muito complicado. Os clubes não pagavam as pensões, não pagavam a comida, iam jogar super desidratados... atrás do sonho. É um bocadinho complicada essa parte do futebol, eu também a vivi, não é fácil podermos exigir que as pessoas façam um trabalho correto a nível futebolístico se não tiverem comida na mesa. Infelizmente, eu vi isso e obviamente não fiquei nada agradado. Quando me davam o microfone, ou me davam a palavra, eu não era agradável para as pessoas, mas sempre dizendo a verdade.

Entretanto já tinha voltado a ser pai.
Sim, do meu Gonçalo, que nasceu em maio de 2002.

Assistiu ao parto dele?
Sim, mas quando a parteira disse "venha ver, venha ver o seu menino a nascer" eu disse: "Ó doutora, faça-me o favor de tratar do meu filho porque se eu for ver vai começar a tratar de mim e eu não quero. Fico aqui a agarrar a mão da minha mulher" (risos). Não consigo, não tenho essa capacidade, quando vejo sangue e essa coisas.

Vamos a Seoul. Como surgiu a oportunidade?
Houve uma comitiva de coreanos que foram a Vila do Conde e, no Estádio dos Arcos, é sempre difícil de jogar quando está este tipo de tempo, porque o vento, quando vem da praia para o estádio, a água entranha-se nas nossas pestanas quando estamos a correr e temos sempre mais essa dificuldade. Como eu estava sempre bem tratado física e psicologicamente, fiz uma jogatana. Eles foram lá para ver outros dois jogadores e o treinador que também foi na comitiva disse: "Eu quero este jogador". Estava eu a chegar a casa – o jogo tinha sido às nove da noite, se não me engano –, e recebo um telefonema do senhor Nuno Batista, que é o irmão do Helder Batista que jogou também no Boavista e no PSG, que me disse: "Tenho aqui uns coreanos que querem falar contigo". "Eh pá, estou a chegar a casa, estou na ponte da Arrábida", "Mas eles estão aqui na rotunda da Boavista à tua espera". Dei a volta ao carro e fui lá. Era uma senhora que estava a chefiar essa comitiva. Disse-me: “Prazer em conhecer. Está aqui, gostei que tivesse vindo aqui. Era só para o conhecer, nós agora vamos dormir porque estamos com o fuso horário trocado, amanhã falamos, às 9h. Vens aqui para falarmos contigo". Fiquei a olhar e o Nuno: "Ok, isto deve ser uma cena cultural. Podes ir dormir". Fui para casa. No outro dia de manhã, a primeira reunião correu muito bem, para a segunda eu pedi-lhes para levar a minha família, e foi o meu pai, a minha mãe, a minha família toda. E assumimos um compromisso. Isto claro com o Rio Ave a saber de tudo.

Colocou alguma exigência?
Uma só. O contrato era muito interessante a nível financeiro, aí não houve discussão praticamente nenhuma. Quando era para assinar o contrato eu disse: "Calma, falta aqui uma alínea". Fico toda a gente olhar para mim. Eu disse-lhes, tenho dois filhos, uma mulher, vamos para um país com uma cultura completamente diferente da minha, com letras a que não estou habituado, e preciso de assessoria 24h/dia. Preciso de alguém que saiba falar a minha língua, ou inglês, que me dê essa assessoria, porque vou levar dois miúdos e se acontece alguma coisa tenho de conseguir desenrascar-me. Eles olharam, respiraram fundo e disseram OK.

Já conhecia a Coreia do Sul, já conhecia Seul?
Através do campeonato do mundo na Coreia, em 2002, houve muita gente do futebol que foi lá ver o mundial e que me falaram. Mas uma coisa é a parte teórica da internet e dos comentários das pessoas; outra é a realidade e só quando lá estive é que me apercebi como no mundo há coisas muito diferentes.

Como foi o primeiro impacto?
Fui primeiro para o Chipre porque eles estavam lá em estágio. Estive lá cinco dias.

Qual foi a primeira impressão com que ficou dos coreanos?
Que toda a gente é igual, mas depois percebi que não era. Aliás eu cumprimentei, a mesma pessoa duas vezes, pensando que eram pessoas diferentes, e o gajo ficou muito chateado comigo, muito chateado mesmo. Fartei-me de lhe pedir desculpa (risos). Depois, percebi que o japonês, o coreano e o chinês não têm nada a ver uns com os outros, mesmo a fisionomia, a nível cultural e espiritual não têm nada a ver uns com os outros. Depois do Chipre, voltei cinco dias a Portugal para resolver a minha logística. A seguir, viajei para Seul.

Sozinho?
Sim, eles tinham gente à minha espera. Fui para casa, já tinha um apartamento preparado para mim. Como estava com jet lag eles disseram que às 9h da manhã do outro dia iriam buscar-me ao apartamento para ir para o centro de estágio e conhecer tudo. Sim ,senhor. Às 9h menos 10 estavam a tocar-me à campainha. Eu confesso que ainda estava com a gillette na mão a acabar de cortar a barba. Faltava-me um minuto para terminar. Uma voz disse: "come down". E eu: "Ok. Nine o´clock I will be there". E do outro lado: "Come down NOW", num tom autoritário (risos). E eu respondi: "my friend” nem o meu pai fala assim comigo. Calma, nós combinamos às 9h e eu às 9h estou aí, sem falha. E o gajo responde: "You don't understand Coreia", quando nós dizemos às 09h, às 09h menos dez tens de estar aqui. (risos)”. Foi logo a primeira lição. A partir daí automaticamente quando diziam que era ao meio dia ou a uma, eu aparecia sempre 30 minutos antes (risos). Nesse mesmo dia à tarde já estava a viajar para o Japão para tratar do visto de trabalho. É "ppalli, ppalli", que é a expressão que eles têm e que foi logo a primeira palavra que aprendi em coreano, que quer dizer rápido, rápido. Aquilo é tudo ppalli ppalli, é tudo rápido, rápido.

Quando a sua família chegou, como reagiu?
A adaptação deles foi fantástica porque a população, o povo, também nos ajudou. O Diogo tinha quatro, cinco anos e o Gonçalo três. O Gonçalinho tinha muitos caracóis e aqueles olhos grandes, como é normal nos bebés em Portugal, e lá eles só tinham visto pessoas assim na internet. Então, sempre que viam o meu puto na rua iam dar-lhe umas palmadinhas, que é uma coisa cultural deles, não é bater, e diziam: "Ó yeppeun, yeppeun", que quer dizer bonito, bonito. Tocavam no miúdo e o miúdo punha-se logo: "Ó pai, olha eles, olha eles" e escondia-se atrás de mim (risos). Eles rodeavam-nos e queriam tirar fotografias connosco; ainda para mais, como me conheciam do futebol, era a loucura.

As três épocas correram-lhe bem?
Sim, faço os jogos todos. Joguei sempre no FC Seoul, só não joguei no último ano porque tive uma situação com o treinador, com o Senol Gunes, que é agora o treinador do Quaresma, no Besiktas. Ele disse-me uma coisa que eu não queria acreditar: “Corta o cabelo e tira os brincos”. E eu: “Como? Não estou a perceber”. Acabámos por ter esse desentendimento, mas os adeptos coreanos “exigiram” que eu voltasse e acabámos por nos entender. Ele é um grande treinador, sem dúvida nenhuma. Infelizmente pediu-me uma coisa que eu não aceitei, cortar o cabelo e tirar os brincos. Eu não jogava com os brincos certamente, mas gostava de jogar com o cabelo comprido. Agora tenho o cabelo curto (risos).

A sua mulher também adaptou-se bem à Coreia?
Muito bem. O povo ajudou-nos muito, ela já conduzia em Seul, que é uma cidade muito complicada para conduzir. Um trânsito caótico, mas uma educação e um civismo que as pessoas têm na estrada... Estamos a falar de uma cidade que a nível de espaço geográfico é do tamanho do Porto, mas enquanto aqui no Porto moram umas 400 mil pessoas, em Seoul moram 10 milhões de pessoas. Se não houver essa educação... Eles também têm o metro e andar de metro é uma aventura. Quem for à Ásia, por favor, pelo menos uma vez, que vá de mente aberta e ande de metro. É a melhor coisa que podem fazer porque aquilo é a loucura total. É mesmo, é espetacular.

O que achou do futebol deles e dos métodos de treino?
Extremamente forte fisicamente, pé direito, pé esquerdo. Têm uma estrutura fantástica, todos os clubes têm um centro de estágio, os treinadores são cada vez mais fortes porque vão tirar os cursos a Inglaterra com os melhores do mundo. Mesmo a nível da televisão, os jogos que dão na Coreia do Sul são as transmissões de Inglaterra, por isso eles veem o espetáculo como um todo e todos os anos aquilo evolui. Eles têm essa vontade e essa inteligência. Aliás, o selecionador coreano é português, o mister Paulo Bento, e de certeza absoluta que ele terá essa opinião que tenho. Todos os anos evoluem e não lhe falta nada ali.

A que foi mais difícil adaptar-se?
Praticamente a nada, eles deram-me tudo.

Não houve nenhum hábito, nenhum costume que para si tenha sido mais complicado?
Não. Eu fui para ali com uma mente aberta. Não estava no meu país e tinha de perceber rapidamente a cultura deles e adaptar-me porque eu é que estava lá. A única coisa que eu precisava eles já tinham aceitado: a assessoria 24 horas por dia.

Ricardo Nascimento (à esquerda) num jogo amigável do FC Seoul com o Manchester United de Cristiano Ronaldo (à direita), em 2007

Ricardo Nascimento (à esquerda) num jogo amigável do FC Seoul com o Manchester United de Cristiano Ronaldo (à direita), em 2007

John Peters

Os adeptos o FC Seoul ainda hoje enviam mensagens de carinho a Ricardo Nascimento

Os adeptos o FC Seoul ainda hoje enviam mensagens de carinho a Ricardo Nascimento

D.R.

Lá não teve problemas com a sua imagem?
Zero, zero. Aliás ainda hoje recebi uma mensagem da Coreia, porque é normal, os adeptos ainda são alguns, em que diziam tu eras tão bonito com cabelo loiro (risos). Acho que gostavam de mim, porque eu nunca menti a ninguém. Essa era a minha maneira de ser. Quando o mister me chamou e pediu-me para cortar o cabelo, eu ia mentir a mim próprio? Ia cortar o cabelo porquê? Qual é o stress? E hoje o Senol Gunes tem jogadores que têm tatuagens, que têm cabelos compridos, cabelos curtos. Não vejo problema nenhum nisso. Dizer que aquela pessoa é boa ou má pessoa porque tem tatuagens, tem cabelo curto ou comprido, tem um dente ou não tem um dente. Eu não vejo as coisas assim e agradeço que também não vejam as coisas assim comigo.

Houve alguma coisa da cultura coreana de que tenha gostado mais e que tenha trazido consigo?
A parte espiritual deles é muito forte. Eles acreditam em coisas, não digo em coisas do além, mas acreditam nessa força exterior que depois acaba por se refletir num interior muito forte e agradeço muito por ter visto essas coisas todas e por perceber várias religiões, várias culturas dentro da própria Coreia. Sempre fui uma pessoa muito curiosa e a tal assessoria que eu tinha 24 horas por dia também me deu a possibilidade de pegar no tradutor-intérprete e dizer: “Ó Mateus vamos ai”. Ele foi uma pessoa extremamente importante.

O Mateus é português?
Não, é coreano, mas esteve sete anos no México e três no Brasil, falava português perfeitamente. Ele mostrou-me, porque eu também lhe pedi, essa parte cultural e essa parte espiritual. O Mateus dizia: “Eh pá, isto é inédito. Nunca nenhum coreano convidou um estrangeiro para ir comer a casa deles, para ir socializar com eles”. Porque houve sempre essa barreira. E eles convidavam-me e à minha família. Era espetacular.

Qual foi a coisa mais esquisita que provou ou que viu?
Tinha um jogador na minha equipa que era o número 7, o Yong-Ho, que estava sempre a desafiar-me para ir com ele comer uma comida especial coreana”; “OK, vamos lá”. Fui eu, ele e o tradutor. A comida o que era: sopa de cão.

Comeu?
Não. Mas eles tratam o cão como nós tratamos a galinha ou o coelho. Quando acabei por perceber que era cão, pedi imensa desculpa ao Yang-Ho, mas não ia conseguir comer aquela sopa tradicional deles. Confesso que não provei. Quando ele me disse que era de cão, não consegui comer.

De resto, gostava da comida deles?
A comida coreana, desde que não seja aquela extremamente picante, tem pratos maravilhosos. Provei lá um prato de porco, que é uma espécie de porco preto deles, que é uma maravilha, é muito tenrinho, muito bom. Mas a maior parte da comida é muito picante. A malta lá usa o guardanapo não para limpar os lábios, mas para limpar o suor da testa e da face. A bebida é picante; o kimchi, uma comida tradicional deles que são umas algas com malaguetas, tomam-no ao almoço, ao pequeno-almoço, ao lanche, ao jantar, passam a vida a comer aquilo, mas eu não consigo comer aquilo. São autênticas malaguetas a entrar. Mas lá está, é uma parte cultural, eles desde bebés que comem isso.

Houve alguma zona ou algum sítio de que tenha gostado mais?
Na Coreia do Sul gostei de tudo. Os parques temáticos, era uma coisa a que não estava habituado e eles têm dos melhores parques temáticos do mundo. Eu passava lá a minha vida com os miúdos. Quando tinha uma folguinha, lá íamos nós para o Lotte World e para o Erverland com os meus meninos. Depois, aquela coisa de nós podermos deixar o carro na estrada, literalmente na estrada, sair do carro e ter um tipo que tratava do carro até voltarmos. Bastava dizer: vou comer ali e quando saía do restaurante ele já lá estava com o carro à porta. Seul é uma cidade que toda a gente devia conhecer, é espetacular.

Qual foi a situação mais maluca que viveu lá?
Foi uma vez que fomos inaugurar uma loja da Adidas. O patrocinador do nosso clube naquela época era a Adidas, e entrámos na Rua de Santa Catarina lá do sítio, mas com biliões de pessoas a passear na rua. Eles meteram lá aqueles senhores de walkie-talkie, como se vê nos filmes de Hollywood, os seguranças à volta, os Man In Black, e nós éramos 10 jogadores de várias equipas. Fomos inaugurar a loja da Adidas com uma sessão de autógrafos. Eles tinham criado um cordão para podermos passar entre aquela multidão toda e há uma rapariga que consegue furar esse cordão, dá-me um toque no braço e começa aos gritos, toda histérica. Foi uma coisa muito, muito estranha.

Sentiu-se uma verdadeira estrela de Hollywood.
Não propriamente. Não sei, se calhar senti-me estranho por tudo aquilo, as pessoas achavam-nos importantes. Disse isso à minha mulher quando estávamos a sair de Seul. As pessoas foram-se despedir de mim e fizeram uma festa tremenda no aeroporto. Lembro-me de abraçar os adeptos e dizer, ok, estupendo, mas não percebo, sou um jogador de futebol, não descobri a cura para o cancro. Mas também entendo essa parte, neste caso como antigo jogador de futebol, quando as pessoas gostam de nós e vejo muitas vezes o Cristiano Ronaldo e a simpatia que ele tem sempre quando tira uma fotografia. Entendo que isso é pertinente e pode mudar às vezes a vida de uma pessoa. Porque às vezes olham para nós como...

Como deuses?
Não direi tanto, mas como algo mais... não sei. Não consigo perceber, nem colocar por palavras, só mesmo sentindo.

Durante aqueles três anos teve sempre o mesmo tradutor?
Sempre, sempre. Ainda falámos na semana passada, porque eles relembraram a minha pessoa e outros cinco jogadores que passaram no FC Seoul. Ele só dizia: “Ricardo, que saudades. Você foi uma pessoa muito especial. Falo com você agora e parece que falámos há dois dias”. Ficámos amigos para sempre.

Nunca mais lá voltou?
Infelizmente não, ainda não tive essa oportunidade.

Há pouco tempo Ricardo entrou para a galeria dos seis melhores jogadores de sempre do FC Seoul

Há pouco tempo Ricardo entrou para a galeria dos seis melhores jogadores de sempre do FC Seoul

D.R.

E por que foi embora?
Acabou o contrato. Havia a motivação deles de renovarem o contrato e havia a motivação de outras equipas coreanas que estavam interessadas, mas eu tive aquela presunção: tinha saído em 2004/2005 na altura do Rio Ave e tinha sido “eleito” pelos jornais, em ex aequo com o Jorginho e o Liedson, os melhores jogadores do campeonato… Vim com aquela vontade de estar no meu país, de representar o meu país e era aqui que gostava de ter tido a oportunidade que o FC Seoul me deu, mas pronto foi a 14 mil quilómetros de casa. Se aqui me tivessem dado essa oportunidade, tenho a certeza que não ia desapontar ninguém. Essa, se calhar, é a minha mágoa. Optei por voltar para Portugal e surgiu uma oportunidade do Trofense e ainda bem que aceitei porque conseguimos fazer história nesse clube, subimos de divisão.

Estava à espera de conseguir um clube maior?
Não propriamente. Eu vinha porque tinha muita vontade de jogar novamente em Portugal. Tinha saído daqui muito bem e quis voltar ao meu país para sentir aquilo que tinha sentido na Coreia, aquele carinho todo, o jogar sempre, era maravilhoso. O mister António pediu-me para eu vir jogar para o Trofense. Falei com o presidente muito rapidamente, uma pessoa espetacular, e acabei por aceitar. E acho que também fui uma peça fundamental para ajudar a subir de divisão.

Depois foi para o Aves. Porquê?
Fiu para o Aves porque as coisas acabaram por não correr bem. O clube mudou de treinador já na primeira divisão e o treinador que assumiu a equipa chamou-me, já tinha jogado comigo há vinte anos, e disse-me para eu ser “bufo”. Mas isso é coisa que não sou. Entregar colegas não é comigo e acabei por lhe dizer: “Comigo estás equivocado. Eu ainda consigo jogar futebol apesar de já ter 35 anos”.

O treinador a que se refere é o Tulipa?
Sim, tinha jogado comigo e pediu-me para bufar, para dizer coisas que se passavam no balneário. Por aquilo que já conversamos, já deu para perceber um pouco a minha personalidade. Acho pouco provável fazer uma coisa dessas. Aliás, acho tão pouco provável que não o fiz.

Foi à procura de outro clube, foi ele que quis mandá-lo embora? Como é que foi?
O clube quis pôr-me um processo disciplinar. O tal processo disciplinar que ninguém percebeu. Ah, espera, porque eu fumava e eles diziam que o processo disciplinar era por isso - e também porque eu bebia bebidas brancas nos restaurantes. É a loucura. Por acaso nem gosto muito disso, gosto de beber um copo de vinho, de vez em quando, mas nem gosto muito de bebidas brancas. Mas era esse o processo disciplinar que me queriam pôr. Depois, acabou tudo por sair a bem. O Trofense escreveu umas coisas interessantes sobre a minha pessoa, eu escrevi umas coisas interessantes sobre o Trofense, que não é mentira da minha parte. O Trofense é um clube muito especial e, com aquela estrutura que tinha, era um clube de I liga sem dúvida nenhuma. Tem uma massa associativa fantástica, mas os eruditos do futebol acabaram por dizer que queriam que o Ricardo Nascimento fosse um entrega, ou algo assim parecido, que é uma coisa que abomino. Como eu tenho este feitio, acabámos por nos desentender e fui acabar a minha carreira no clube onde gostava de acabar.

No Desportivo das Aves.
Sim. Foi a minha terceira passagem pelo clube, já não era o meu Aves na altura, as coisas também tinham, mas foi maravilhoso. Foi maravilhoso voltar a estar com aquelas pessoas. Já toda a gente casada, mais velha, alguns já com brancas (risos), mas a minha família do futebol foi essa: o Desportivo das Aves.

Aprendeu alguma coisa de coreano?
Sei falar umas 20 palavras.

E os seus filhos?
As asneiras (risos).

Ainda jogou no Candal, quatro anos depois de ter deixado o futebol, não foi?
Isso foi um convite de um grande amigo meu que, na altura, era o presidente do clube, o Vasquinho. Eu era coordenador técnico lá e ele disse-me: “Anda lá Ricardo, tu ainda consegues jogar” e ainda bem que fui. Voltei a estar num balneário, voltei a rir-me outra vez. Fui também com um registo diferente, treinava quando queria e jogava quando queria. Já não havia essa vontade de jogar futebol a sério, com responsabilidade, mas atenção porque, quando fui para o Aves, fui jogar com responsabilidade. Mesmo com 36 anos conseguia fazer a minha parte. Obviamente, já não tinha 20 anos, a gente também tem de perceber isso, mas ainda era uma pessoa útil porque toda a minha vida sempre fui uma pessoa regrada, sempre tive capacidade mental para perceber que ser regrado iria ajudar-me quando tivesse 40 anos. E, com 40 anos, ainda joguei no futebol distrital, na Divisão de Elite, e não é fácil. É muito competitivo e tem grandes valores, grandes jogadores.

Quando acabou a época no Desportivo das Aves são eles que dizem “ficamos por aqui”, é o Ricardo que toma essa decisão?
Acabámos por ter também um desentendimento. Lá está, eu não admito que me chamem nomes, que me insultem. Tive uma desavença com o treinador por causa disso e a melhor coisa que fiz foi sentar-me com as pessoas por quem ainda tenho carinho - e eu sei que elas também continuam a ter um grande carinho por mim - e acabámos por perceber que era o final da nossa relação.

Nessa altura ainda foi à procura de clube ou pensou que tinha chegado o momento de pendurar as chuteiras?
Para meu espanto, ainda tive bastantes convites, mas sou uma pessoa de convicções e tinha dito que gostava de acabar a minha carreira no Desportivo das Aves.

Já tinha pensado no futuro, já sabia o que é que queria fazer profissionalmente no futuro?
Ainda não.

O que foi fazer?
Fiquei por casa a tentar perceber algumas coisas. Gosto de pintar, era o meu hóbi, e acabei por ficar um bocadinho na garagem a pintar os meus quadros, que é uma coisa que eu gosto. Basicamente foi isso. Depois, acabei por cometer um erro: abri um restaurante aqui na praia, na Madalena, mas já está fechado. É um episódio que não gosto muito de falar. As coisas não me correram bem, infelizmente, mas é a vida. Deu para aprender.

E depois do restaurante?
Depois do restaurante voltei de novo ao futebol. Vou ser treinador principal do União de Lamas com muito orgulho e muita honra na próxima época. É um clube também extremamente especial.

Ricardo Nascimento numa foto recente junto ao Douro

Ricardo Nascimento numa foto recente junto ao Douro

D.R.

Quando é que começou a tirar os cursos de treinador?
Já há algum tempo. Foi no meu último ano de jogador de futebol, tinha 36 anos. Acabei por não me desligar completamente do futebol e comecei a treinar com os meninos ali no Futebol Clube de Gaia, futebol de 7. Foi nessa altura que fui tirar o curso. Posteriormente, fui coordenador técnico do Candal, no ano passado fui adjunto do mister Vasco Oliveira, grande treinador de futebol, no Rio Tinto, e este ano estou com muita vontade de ir para o União de Lamas e tentar fazer algo fantástico ali no clube.

É a sua primeira experiência como treinador principal.
Sim.

Sente-se nervoso?
Não, porque vou estar na minha zona de conforto que é o futebol. Obviamente, numa parte diferente, como treinador principal, mas o futebol acaba por ser a minha vida. É o meu ADN, por isso não estou nada nervoso. Ansioso, sim, porque acho que quem participa nisto deve sentir isso. O querer que comece o mais rápido possível a época, para fazermos coisas bonitas. E se Deus quiser, vamos fazer.

Tirando o restaurante meteu-se em mais algum negócio?
Houve alguns negócios mas que também não correram muito bem.

Em que área?
Na área financeira.

Foi mal aconselhado?
Não sei se essa é a palavra certa, eu é que meti lá o dinheiro, ninguém me apontou uma pistola à cabeça. Mas foi o que aconteceu. Infelizmente, as coisas não correram conforme nós queríamos, mas pronto, a vida é assim.

Os seus filhos estão com que idade e fazem o quê atualmente?
O Diogo vai fazer agora 19, no dia 27 de julho, o Gonçalinho tem 17 e a Erica, a minha princesa, tem 10 aninhos, vai fazer em outubro. O Diogo está na faculdade a tirar um curso de biologia ou geologia, nem sei bem. O Gonçalo, o tal dos caracóis, estuda e joga futebol no Coimbrões.

Revê-se nele?
Não tem muitas características parecidas comigo. Ele é um jogador mais raçudo, de carrinhos e mete a cabeça, é diferente. Aliás a posição dele em campo é mais na parte defensiva, não na parte atacante.

É supersticioso?
Visto sempre primeiro o meu pé direito, quer seja meia, sapato, seja entrada da calça, seja o braço direito para a camisa ou para a t-shirt. Começo sempre pelo lado direito.

Jogadores com quem se tenha cruzado que mais o marcaram?
O Nuno Gomes, um jogador super inteligente com quem joguei no Boavista. Era um miúdo com uma capacidade intelectual do jogo fantástica, ele lia o jogo como ninguém. O Timofte, o romeno que passou pelo Porto e pelo Boavista, era um jogador tremendo. O Jimmy Hasselbaink, um jogador também brutal, fortíssimo fisicamente, com um pé direito e um pé esquerdo… . O Artur Alexandre era um jogador fantástico, o Mozer dava umas porradas, o Franco também era um jogador magnífico, o Idalécio que, com dois metros e dois, tinha uma capacidade técnica invulgar, até pela fisionomia que ele tinha... sei lá tantos, tantos jogadores. Tive a sorte de jogar com os melhores.

Qual foi a maior partida que fez e que lhe fizeram?
Que eu fiz: colocar um anúncio num jornal do carro de um companheiro com um preço “simbólico” e ele receber 50 mil chamadas a dizer que queriam comprar o carro (risos). A maior partida que me fizeram foi ligarem-me à meia noite, uma da manhã, a dizer que era o responsável de um clube grande que queriam falar comigo, e nós ficámos todos empolgados (risos).

O treinador que mais o marcou pela positiva e pela negativa?
O Carlos Brito marcou-me muito pela positiva. A maneira dele ser e como ele falava. Era frontal com as pessoas e ajudou-me a perceber muitas coisas. Pela negativa, não tenho, porque aprendi com todos. Se calhar com alguns aprendi como não se deve fazer, na minha perspectiva, porque se calhar na perspectiva deles, eles é que estão certos.

Vamos então ao boxe. Quando e como começou a praticar?
O Vasquinho convenceu-me a fazer uns treinos. Ele também conhecia um pessoal, eu por acaso também conhecia o Nuno “O guerreiro do norte”, e acabei por aceitar e foi a melhor coisa que fiz. A nível de stress vai tudo ao ar. A gente fazia ali uns treinos, era o senhor Picanha que nos dava os treinos, e aquilo era uma maravilha, fogo. Adorei o desporto em si.

Praticou durante quanto tempo?
Infelizmente, fiz pouco tempo e quero voltar o mais rápido possível porque só para o stress da vida sair.

É assim tão stressado?
Um bocadinho. Não gosto de perder e quando perco stresso muito. E quando ganho stresso porque quero ganhar outra vez. Por isso estou sempre (risos).

Há algum desporto que siga para além do futebol?
Não propriamente. Gosto muito de basquetebol, da NBA, gosto de ténis e gosto muito de ciclismo também.

E futebol, continua a jogar?
Sim, como hóbi, nos Veteranos do Rio Ave, onde ganhei mais uns amigos para a vida.

Se não fosse jogador de futebol, tinha sido o quê?
Eh pá... é uma excelente pergunta, muito pertinente. Acho que tinha sido jogador de futebol (risos). A sério, não sei porquê mas desde miúdo era isso que eu queria. Adoro jogar futebol.

O que é que acha da introdução do VAR no futebol?
Se não for seletivo parece-me uma excelente ideia. Devemos estar abertos às novas tecnologias. Mas o problema é que, de vez em quando, o VAR me parece seletivo e isso aí pode ser um grande erro para o futebol.

Qual é a sua maior ambição profissional?
Agora, obviamente é ir treinar o melhor clube do mundo.

Que é?
Que é se calhar o União de Lamas.

O melhor jogador do mundo de todos os tempos é?
O Cristiano Ronaldo, sem dúvida nenhum. Até me arrepio de falar nisso. Tive a sorte de jogar num jogo de preparação contra o Manchester United, no qual “empatámos” 4-0 (risos). Mas o resultado não é importante e o Cristiano teve a amabilidade de trocar de t-shirt comigo. É uma prenda que guardo, neste caso é o meu filho Gonçalo, porque também gosta muito de futebol e que guarda religiosamente a camisola dele.