Tribuna Expresso

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A casa às costas

“No autocarro, o Manuel Fernandes punha os vídeos de jogos... do Manuel Fernandes e dizia: ‘oh, era isto que eu fazia’. Era só rir”

Hélder Barbosa começou no Paredes, mas rapidamente chamou a atenção do FCP onde fez toda a sua formação, embora sem conseguir impôr-se na equipa principal. Foi em Braga que Helder Barbosa, 32 anos, deu mais nas vistas em Portugal, sobretudo na equipa de Leonardo Jardim, o treinador de que mais gostou até agora. Saiu do Portugal para o Almeria de Espanha e nunca mais voltou, tendo jogado até agora, na Grécia, no Dubai e na Turquia. Aos 19 anos comprou o primeiro carro a pronto, um Porsche, e é no ramo automóvel que tem investido o seu dinheiro. Homem de família, ainda não sabe o que vai fazer depois de pendurar as botas, mas não pretende ficar ligado ao futebol

Alexandra Simões de Abreu

Anadolu Agency

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De onde é natural e como era constituída a sua família quando nasceu?
Sou de Paredes, mais concretamente natural de uma aldeiazinha que se chama Mouriz. O meu pai sempre trabalhou no ramo dos móveis e a minha mãe sempre foi doméstica, mas ia fazendo alguns trabalhinhos de costura porque tinha bastante jeito. Tenho uma irmã mais velha, 16 meses que se chama Venusa e é enfermeira.

Tinha alguém na família ligado ao futebol?
Que tenham chegado à I Liga, não. O meu pai chegou a jogar na II divisão, pelo Paredes, mas nunca passou à I. Também tive alguns tios que eram jogadores de futebol, mas andaram sempre por divisões mais baixas.

Como era em criança?
Era traquina (risos), sempre fui um bocadinho ativo e sempre fui extrovertido também, nunca fui de guardar as coisas para mim; o que tivesse de falar, falava, sempre em tom de brincadeira, sempre foi a minha maneira de levar a vida. Era mais agitado certamente do que a minha irmã.

Gostava da escola?
Gostava, mas quando começaram a chegar aqueles anos do 10.º ano para cima, começou a custar mais por causa do futebol e já não achava tanta piada à escola. Mas até chegar ao 10.º ano sempre gostei. Nem era pelo aprender, era pelo convívio com os colegas, jogar à bola, pelos momentos do recreio (risos). Era a melhor parte.

Quando era pequeno dizia que queria ser o quê?
Sempre me virei para o futebol. Aliás, lembro-me de ir ver alguns torneios de futsal com o meu pai e eu acabava por não ver nada porque agarrava nas latas de cerveja que as pessoas deitavam para o chão e era com isso que eu jogava à bola. Acho que sempre me virei muito para o mundo do futebol, não me lembro de ter escolhido outra profissão, foi esta. Acertei (risos).

Helder com a irmã e os pais

Helder com a irmã e os pais

D.R.

Lá em casa torcia-se por quem?
Pelo FC Porto, sempre pelo Porto. Aliás, tenho alguns tios que são benfiquistas, mas 80% da minha família sempre torceu pelo Porto. Por isso fui ensinado desde pequenino que o Porto era o melhor.

Quem eram os seus ídolos?
Isso dos ídolos foi já numa fase mais tarde quando comecei a levar as coisas um bocadinho mais sério. O meu primeiro ídolo foi o Ryan Giggs, que jogava no Manchester United. Esse foi o primeiro que comecei a acompanhar mais cedo. Depois acabei por ter algumas referências, que eram ídolos e amigos, como era o caso do Quaresma, que cheguei a apanhar no Porto, que eu adorava tanto como amigo, como jogador. E sempre adorei também o Ronaldinho Gaúcho pela alegria que punha em campo e pela qualidade que tinha - era inimitável.

Quando é que o futebol passa da rua e dos recreios para um clube?
Eu comecei no Paredes ainda com seis anos. Na altura, ainda não havia estas escolinhas como há hoje. Tinha seis anos, mas juntei-me aos miúdos de oito. Tinha um amor enorme àquilo e o meu pai, de alguma maneira, é o obreiro disso porque ele é que se disponibilizou a meter-me a jogar futebol. Passei a jogar futebol no Paredes, dos seis aos 10 anos, altura em que o FCP me foi buscar ao Paredes.

Helder fez grande parte da sua formação no FCP

Helder fez grande parte da sua formação no FCP

D.R.

Lembra-se como e por que surgiu o interesse do FCP?
O FC Porto tinha uns olheiros nas nossas divisões a assistir a alguns jogos; calhou ir assistir a um jogo e acabaram por gostar de mim. Lembro-me de irem até minha casa falar com os meus pais, dizerem as condições, que iam tratar de mim e essas coisas. O meu pai não demorou muito tempo a responder que podiam contar comigo. Afinal de contas, éramos todos portistas lá em casa.

Ficou eufórico?
Foi uma alegria enorme. O facto de eles mostrarem interesse em mim foi um orgulho enorme. Lembro-me da carinha do meu pai quando já tinha decidido (eu não tinha idade para decidir nada). Ele a olhar para mim e eu a começar a rir para ele porque foi um orgulho enorme, era aquilo que eu pretendia, era aquilo que eu queria.

Na altura que condições é que o FCP lhe ofereceu?
O Porto dava uma pechincha. Já não me lembro se eram 10 euros todos os meses e eu lembro-me de juntar aquele dinheirinho no meu mealheiro que tinha em casa e, na altura havias as cassetes de vídeo, se quisesse comprar uma cassete de vídeo ou um joguinho pedia aos meus pais para ir buscar o dinheirinho que eu ganhava. O Porto fornecia o transporte, continuei a estudar em Paredes. Ou seja: tinha as condições que precisava. Conseguia conciliar os estudos com o futebol e continuava a viver com os meus pais. Eram só 30 quilómetros de diferença de Paredes ao Porto.

Entretanto vai fazendo a sua formação no Porto. Quem são as primeiras amizades que faz por lá?
Normalmente sou daquelas pessoas do grupo que se dá bem com toda a gente, porque sou uma pessoa extrovertida, que está sempre na brincadeira. Se alguém estiver sossegado, eu vou mexer com ele (risos). Sou essa pessoa. Continuo a ter amizade com muitos dos amigos que fiz na altura, apesar de praticamente nenhum ter singrado na I liga ou a nível internacional. Mas continuo a ter uma ligação muito especial com quase todos eles. Ainda nestas férias jantei até com alguns deles.

Helder (à direita), a festejar, depois de marcar um golo, nas camadas jovens do FCP

Helder (à direita), a festejar, depois de marcar um golo, nas camadas jovens do FCP

D.R.

Quando assina o primeiro contrato?
Eu tinha contrato de formação; contrato profissional assinei ainda com a idade de juvenil, com uns 15 anos.

Lembra-se do valor do seu primeiro ordenado?
Boa pergunta... Creio que eram 1.800 euros.

O que fazia ao dinheiro, como o gastava?
Os meus pais sempre me ensinaram a guardar e com essa idade eram eles que controlavam esse dinheiro. Se eu quisesse fazer alguma coisa com o meu dinheiro, pedia sempre autorização aos meus pais. Foi assim que me ensinaram e graças a Deus sempre tive cabecinha. Não tive aquela coisa de comprar algo maior. Lembro-me de ter aquela noção, quando fiz os 18 anos, de guardar o dinheiro para comprar o meu primeiro carro e, mesmo assim, pedi autorização para comprar o meu primeiro carro.

Que foi?
Um Porsche Boxster, preto.

Com 18 anos?
Tinha 19, quis juntar dinheiro por mais um ano, porque o meu pai disse-me que poderia comprar o carro quando tivesse o dinheiro todo na conta poupança para comprá-lo de uma vez, que não ia ficar com dívidas nenhumas para um carro. Então, eu andei alternadamente no carro da minha mãe e do meu pai durante um ano para chegar aos 19 e ter o dinheiro para o meu carro (risos).

Nunca se estampou com o carro?
Não. Como disse, eles sempre me puseram os pezinhos bem assentes na terra e claro que para primeiro carro... Lembro-me de nessa altura ter sido emprestado à Académica e chegar lá a Coimbra, um menino de 19 anos, de Porsche. O presidente começou a rir: “Fogo, este miudinho com 19 anos já tem um Porsche?!”. A minha mãe tinha um Fiat e o meu pai tinha um Mercedes simples, e foi nesses carros que andei durante um ano. Aliás eu ia para o FCP treinar nesses carros. Até na altura saiu numa revista a dizer: este miúdo é simples, até anda no carro dos pais. Mal sabiam que eu estava era a poupar para o meu (risos).

Helder Barbosa com o Nº11, na seleção de sub-18

Helder Barbosa com o Nº11, na seleção de sub-18

D.R.

Antes da Académica, vamos falar ainda do FC Porto. Quando é chamado pela primeira vez à equipa sénior?
A primeira vez foi para a inauguração do estádio do Dragão. Estive uma semana a treinar com os jogadores da equipa A, ainda na era Mourinho.

Eram muito diferentes os treinos em relação ao que estava habituado?
Eram pela exigência que eles tinham no plantel sénior. Lembro-me sobretudo da parte física, de não ter nada a ver. Ou seja, eu ali não podia chocar com ninguém, ali tinha que tentar fazer de outra maneira, driblar de outra maneira, tentar ser ainda mais rápido do que nos treinos de juvenis. Era uma grande diferença para mim. Depois estava ali com as estrelas que via diariamente passar na televisão.

Foi praxado?
Não. Há sempre aquelas pequenas brincadeiras. Lembro-me de me dizerem “Senta-te ali que aquele lugar não é de ninguém” e de eu ir lá sentar-me. Passado um bocado chega o Vítor Baía: “Então pá, já te sentas no meu lugar?”, mas a rir-se. E eu, naquele meu ar humilde, “Desculpe senhor Vítor, não sabia, mas eles é que me mandaram sentar aqui”. Eram estas coisas simples.

Chegou a jogar na inauguração do estádio do Dragão?
Sim. Já quase a acabar o jogo o Mourinho pergunta-me: “Então menino, estás com vontade de entrar?”. E eu: “Claro”. “Então, aquece lá mais um bocadinho que já vais entrar”. Deu-me cinco minutos para eu jogar nesse jogo.

Estava muito nervoso?
Claro que sim. Era contra o Barcelona. Por si só, estar ali na equipa A já era bom, inaugurar o estádio ainda melhor e depois contra uma equipa como o Barça, tinha reunido ali todo um ambiente para eu estar um bocadinho nervoso. Depois acaba-se por se esquecer lá dentro.

Volta para os juniores, e quando é chamado novamente à equipa sénior?
É já com o Co Adriaanse. Começo a fazer alguns treinos na equipa A, acabo por me fixar na equipa e faço o último jogo do campeonato, contra o Boavista, em que acabámos por ser campeões.

Foi campeão jogando apenas um jogo.
Sim, apenas um jogo. Eu treinava sempre na equipa A e ia jogar à equipa B, normalmente..

Helder, numa foto atual com a mulher e o filho

Helder, numa foto atual com a mulher e o filho

D.R.

Como é que vai depois parar à Académica e porquê? Já tinha empresário?
Tinha um empresário que também era advogado, o Claudino. Na altura ele tinha agarrado alguns jovens ali do Porto. Era eu, o Ivanildo e mais alguns jogadores. Era ele que tratava dessa situação. Perdi-lhe o rasto, nunca mais soube nada dele. Fui para a Académica pelo facto do Porto dizer que devia ganhar alguma experiência na I Liga.

Foi a primeira vez que saiu da casa dos pais?
A partir dos meus 18 anos passei a viver sozinho na zona da Boavista, no Porto. Acabou por ser fácil porque continuava ali a 25/30 quilómetros de casa. Ou seja, saí do ninho, mas o ninho continuava ali para mim sempre que quisesse. Coimbra sim, é que acaba por ser aquela experiência em que me vejo mais longe de casa.

Namoros, já havia?
Comecei a namorar com uma rapariga, mas entretanto terminámos quando fui para Coimbra. Ia solteirinho, ia namorando de vez em quando e, no 2.º ano da Académica, é que acabo por conhecer a minha esposa, a Marta. Ela é do Porto, na altura trabalhava na Zara. Conhecemo-nos através de amigos em comum, naqueles jantares grandes de grupo. Íamos tentando conciliar, eu estava em Coimbra e ela estava no Porto, mas acabámos por arranjar maneira de conciliar as nossas vidas.

As saídas à noite começam ainda no Porto ou só na Académica?
Comecei ainda no Porto, mas nunca fui muito de sair. Saía uma vez ou outra se houvesse um amigo a convidar, mas não era aquele rapaz de dizer: “’Bora sair, vamos para a noite”. Acho que em relação a isso era um bocado mais caseirinho. Gostava de levar os amigos para casa e jantarmos, de ir até um café ou a um bar. A discotecas, claro que fui, mas não era, digamos, a minha praia, não era aquilo que eu mais gostava de fazer. Eu também sou muito low profile se sair. Não gosto de estar a fazer cenas, até porque já começava a ser um pouco conhecido por estar na equipa A do Porto, tinha 18 aninhos e não me podia meter nisso, tinha a noção disso.

Como foi o embate na Académica? Muito diferente do FCP? O que achou do Manuel Machado?
Na altura eu tinha vindo até da seleção. Já não me lembro se tínhamos tido um Europeu, mas lembro-me de ter chegado à Académica na pré-época e isso ter-me ajudado bastante, porque vinha com uma condição física superior à dos meus colegas que tinham tido férias. Eu não tinha tido férias por causa da seleção. As coisas começarem logo a correr-me muito bem. Pena que tive depois uma lesão muito grave, em novembro, nessa primeira época.

O que aconteceu?
Num jogo amigável contra o Pampilhosa, no Luso, um jogador deu-me uma pancada e arrancou-me o tendão rotuliano por completo. Depois tive de regressar ao Porto, ser operado pelo Dr. Noronha e fazer todo o meu tratamento lá no Porto.

E o Manuel Machado?
Gostei muito. É um professor, foi um professor, aliás foi o primeiro treinador que acabei por ter, porque da minha experiência na I Liga, só tinha feito um jogo na equipa principal do Porto. Acabou por ser ele o treinador que me deu a oportunidade de estrear na I Liga e que me ensinou bastantes coisas. Mas atenção que esse palavreado que ele tinha cá para fora era o mesmo que tinha lá connosco. Ele ensinava, ele tinha essa coisa de pegar nos jovens jogadores e ensinar-lhes, sempre com aquela calma dele, sempre foi a maneira dele.

Na época seguinte continua na Académica, mas aí já com o Domingos Paciência.
Sim. Tratei-me no Porto e quando começa a nova época decido ir outra vez para Coimbra, porque as coisas estavam a correr bem lá. E apanho o Domingos Paciência. Foi mais uma boa experiência, no primeiro jogo que fiz após a lesão, estava no banco, entrei e fiz golo contra o Paços de Ferreira.

Helder no Trofense, clube onde esteve emprestado depois de passar pela equipa principal do FCP

Helder no Trofense, clube onde esteve emprestado depois de passar pela equipa principal do FCP

MIGUEL RIOPA

Entretanto, é chamado ao FCP pelo Jesualdo?
Sim, sou chamado ao Porto quando reabriu o mercado em janeiro. Ia para o Porto, mas sabia que seria difícil chegar ali e agarrar-me logo a uma posição. Claro que fui com ambição, vontade e um grande orgulho de me terem chamado de novo, mas ia com essa condição de saber que provavelmente não ia jogar tanto. Ainda ia numa condição de aprendizagem e, como é óbvio, não de agarrar num curto espaço o meu lugar.

Que diferenças maiores é que notou de um Jesualdo para um Domingos ou para um Manuel Machado? Há muitas diferenças?
Acho que todos os treinadores têm as suas exigências, mas quanto maior é o clube onde estás, maior ainda a exigência. Eu estava num clube, a Académica, em que estávamos a lutar pela manutenção e fui para um clube que estava a lutar para ser campeão. Se lutas para ser campeão é porque tens os melhores. Eu sabia que ia competir com os melhores por um lugar. Todos juntos íamos competir para ganhar todas as competições.

Nessa altura o Hélder discutia por um lugar com quem?
Quaresma, Tarik. Eram eles que jogavam maioritariamente. O Quaresma era uma das estrelas da equipa, ou seja, era intocável.

Na época seguinte acaba por ser emprestado ao Trofense. Porquê, por opção de quem?
Como acabei por não jogar tanto no Porto, decidimos que voltaria a ser emprestado. Tinha outra vez a Académica interessada, mas como se tinham portado um bocadinho mal comigo, tinha ficado com alguns valores pendentes, por ter saído para o Porto... O Trofense fez a proposta, mostraram um bom projecto que acabou por sair um bocadinho furado, porque o clube acabou por descer. O Toni (António Conceição), que era o treinador, veio falar comigo e mostrar o projecto para o Trofense, seria uma boa época, uma época tranquila.

O Toni acabou por ir embora e assumiu o Tulipa.
Sim. Dois treinadores com mentalidades um bocadinho diferentes, mas que me ajudaram mais uma vez no meu percurso. O António Conceição mais vivo, mais ativo, mais a puxar pela raça. O Tulipa uma pessoa mais calma, com uma personalidade completamente diferente.

Helder também esteve emprestado pelo FCP ao V. Setúbal

Helder também esteve emprestado pelo FCP ao V. Setúbal

Icon Sport

Segue-se Setúbal. Foi sozinho?
Sim, com algumas visitas semanais da namorada, mas fui sozinho para baixo.

Gostou? Foi difícil?
Adorei estar no Vitória. Foi uma experiência super boa pelas pessoas que me receberam. Depois tinha aquele peixinho bom e eu adoro peixe, e fui muito bem recebido. Na altura levou-me o mister que tinha sido adjunto do Jesualdo no Porto.

O Carlos Azenha?
Exatamente. Lembro-me de não estar muito virado para ir para o Vitória, porque na altura o clube estava com muitas dificuldades em contratar e estava praticamente a fazer captações para ter uma equipa sénior preparada para o campeonato, e eu não achava muita piada a isso. Mas o presidente do Porto e o Carlos Azenha começaram a falar comigo, que achavam que era o melhor para mim e lá decidi rumar com o mister Carlos Azenha para o Vitória.

Mas ele não esteve muito tempo, pois não?
Acabou por não estar muito tempo, no futebol quando não há resultados quem paga é sempre o treinador. Depois veio o Manuel Fernandes, o emblemático Manuel Fernandes (risos).

Que tal?
(risos) Acho que foi das pessoas no futebol que encontrei com mais boa disposição. Ri-me muito com ele. Era bastante exigente, mas tinha uma maneira de falar muito engraçada e depois vinha sempre com as histórias dele. Sempre que íamos de estágio, no autocarro do clube, por exemplo quando íamos jogar ao norte, íamos a ver vídeos de jogos do Manuel Fernandes (risos). Era a viagem toda a passar o jogo. Já ninguém ligava ao jogo porque já eram jogos repetidos que ele punha. E quando às vezes marcava golo, dizia: “oh, era isto que eu fazia. Era isto o meu trabalho” e a malta toda no autocarro a rir-se.

Helder Barbosa ruma ao SC Braga na época 2010/11

Helder Barbosa ruma ao SC Braga na época 2010/11

Ross Kinnaird

Como surge o interesse do SC Braga?
O treinador era o Domingos Paciência que já me conhecia. É ele que me leva. Tinha uma proposta de ir ganhar mais dinheiro para fora, mas voltou a ser um treinador a mostrar-me o projecto que tinha no Braga. Eles tinham vindo de fazer uma grande época e ele incentivou-me muito a ir para o Braga.

A outra proposta era de onde?
Acho que era da Polónia.

Ambicionava já nessa altura sair do país?
Não era uma coisa que ambicionava, mas financeiramente acabava por ser mais vantajoso para mim. Mas, mais uma vez o projecto e o facto de ficar ali em Braga, numa equipa que estava a crescer no futebol e a lutar por algo mais, fez-me ficar. E depois era um treinador que eu conhecia bem e que me incentivou a ficar.

Muda-se de armas e bagagens para Braga?
Sim. Já tinha comprado casa em Gaia, que é a minha atual casa, e acabava por fazer a viagem com o Hugo Viana, todos os dias Porto-Braga.

Já vivia com a sua mulher?
Sim.

Esteve três épocas em Braga, a segunda foi muito boa com o Leonardo Jardim. É quando faz mais golos e joga praticamente sempre.
Sim. Adorei o mister Leonardo.

O que tinha ele de diferente?
A maneira de lidar com os jogadores. Era a sua principal qualidade. Por norma, quando se é treinador, se dás oportunidade a uns e tiras a outros, normalmente há sempre conflito com aqueles que jogam menos e o mister Leonardo trabalhava muito bem essa vertente. Por muito que alguns jogadores não jogassem tanto, ele tinha sempre os jogadores com ele. Os que jogavam e os que não jogavam. Criámos ali um ambiente de balneário muito, muito forte, muito bom e essa vai ser sempre das qualidades que vou recordar, porque acho que é quase impossível fazer-se o que ele fez. É que quando não se joga, há jogadores que não vão gostar muito do treinador ou que vão ficar ali na azia, como nós costumamos dizer no futebol, e ele controlou muito bem isso, como nenhum outro.

Helder Barbosa (de frente) é abraçado pelos colegas depois de marcar um golo pelo SC Braga

Helder Barbosa (de frente) é abraçado pelos colegas depois de marcar um golo pelo SC Braga

AFP

Na época seguinte vem o Peseiro.
É, a seguir vem o Peseiro. Outra personalidade completamente diferente. É uma pessoa que gostava de se envolver à conversa com os jogadores. Juntava-se muito, se por exemplo estávamos a jantar num cantinho, em estágio, ele juntava-se a nós para contar as histórias dele. Era um tipo de treinador que gostava de estar com os jogadores.

É nesse ano que o Eder está no Sc Braga também, não é?
Sim. Eu já o conhecia da altura da Académica. Na altura, o Eder jogava no Tourizense, que acabava por ser uma equipa satélite da Académica. Nós fazíamos muitos jogos-treino contra o Tourizense e lá estava o Eder que na altura já se destacava no Tourizense de uma maneira incrível.

Esses três anos em Braga foram as suas melhores épocas em Portugal?
Sim, sobretudo a segunda época de que já falámos, foi uma época fantástica, mas também porque tínhamos uma equipa fantástica. Naqueles três anos estive com jogadores que já tinham conquistado muita coisa, jogadores com estatuto, internacionais, e acabámos por fazer grandes épocas, fui mais um que estava ali para ajudar.

Recorda alguma história divertida desses anos?
Por acaso lembro-me de uma do Ukra, que entrevistou há pouco tempo (risos). Quando ele chegou a Braga, eu já o conhecia dos anos de formação no Porto. No primeiro treino estava calminho, mas quando chegamos ao balneário depois do treino, tínhamos lá uma piscina de água de gelo, a dita crioterapia que fazíamos sempre depois do treino, e lembro-me de estar ali com o Alan à volta da piscina, entra não entra, e vem o Ukra num pico desgraçado e mergulha na piscina. Isto no primeiro dia. E lembro-me do Alan dizer assim: “Ui, ele chegou hoje, esse cara está maluco” (risos). Ficámos a rir, e o Ukra já sai na maior como se não se passasse nada. Toda a gente já se ria no balneário. Ou seja, o Ukra no primeiro dia faz a dele e no segundo dia é como se já estivesse lá há sete anos (risos). Acho que no Braga apanhei dos melhores balneários que já tive. Não havia aquela coisa do grupinho, era um grupo muito forte mesmo. Íamos almoçar ou jantar muitas vezes. Umas vezes com as mulheres, outras sem, mas muitas vezes.

Helder (em 1º plano) começou por jogar no Almeria, de Espanha, quando saiu de Portugal

Helder (em 1º plano) começou por jogar no Almeria, de Espanha, quando saiu de Portugal

David Ramos

Na época seguinte é emprestado ao Almeria porquê?
É na época em que o Jesualdo chega ao Braga. Disseram que o clube já tinha gente para a minha posição e perguntaram se eu estaria aberto a sair para fora do país. Sentámo-nos para conversar e apareceu essa oportunidade que, como é óbvio, era boa para mim e disse: “Sim senhor, se vocês não me vêem mesmo como uma pedra vital aqui neste Braga, então vejo aqui uma grande oportunidade para mim. Se está toda a gente de acordo, então vai ser por este que vamos enveredar”. E fui. Aí, sim, foi sair mesmo para fora do ninho, porque era a primeira vez que saía do meu país, ia para um ambiente completamente diferente.

Como foi a adaptação?
De início confesso que foi um bocadinho difícil.

Porquê?
Porque, por muito que entendesse a língua, era um país diferente, uma cultura um pouco diferente. O espanhol também tem aquela coisa de “o português”, como se nós fossemos um bocadinho mais pequeninos do que eles e por isso de início custou-me um bocadinho. Mas acabei por ter uma grande ajuda do Nelson, que tinha jogado no Benfica a lateral-direito e que estava lá comigo.

Foi sozinho ou com a sua mulher?
Já fui com a minha mulher e na altura já tinha um filho. O Guilherme, que já tem seis aninhos, nasceu em Braga, em outubro de 2012 e assisti ao parto, de cesariana.

O que mudou no instante em que se tornou pai?
Parece que passamos para segundo plano. Até então eu vivia para mim, ganhava o meu dinheirinho para mim e a partir daquele momento é como se eu fosse a segunda opção, a prioridade é para ele, o dinheiro é para ele, o que ele necessita está à frente do que eu necessito. É isso que acaba por mudar bastante.

Vai então para Espanha com a sua mulher e com o seu filho.
Sim, com o meu filho a fazer dois anos.

Estávamos a falar da adaptação que no início não foi fácil.
Sim. O fuso horário, eu sei que é só uma hora, mas era uma diferença para mim que não tinha tido até então. A língua diferente e depois acabei por estar ali só eu, a minha mulher e o meu filho. A nível desportivo foi enriquecedor, porque acabou por ser a minha primeira experiência. E se de início custou um bocadinho, como disse, depois comecei a entrar na rotina. A nível de futebol é uma Liga superior à nossa, porque nós cá temos aquelas grandes equipas, mas eles têm lá os ditos “tubarões”, o Barcelona, Real Madrid, Atlético de Madrid que, no ano em que estive lá, até foi o campeão. Acabei por apanhar não os craques, mas as estrelas mesmo e o estar com eles fez-me crescer, acompanhar passo a passo o que eles faziam. Como é óbvio davam prioridade às estrelas e isso fez-me crescer muito.

O que fazia nos tempos livres?
Em Almeria não havia grande coisa. Tinha uma coisa boa: a praia. Tinha uma rotina com a minha família se não chovesse, e lá não chovia quase nunca. Treinava de manhã, à tarde pegava na minha família e íamos dar um passeio pela praia, depois íamos lanchar sempre à mesma pastelaria e a seguir íamos ao centro onde havia o shopping. Dava para passar o tempo.

As pessoas eram simpáticas com vocês?
Sim, elas conheciam-me, mas não tinham aquela abordagem tão brusca como têm por exemplo na Turquia. Muito soft, só tirar aquela foto, dizer obrigado, nada de mais. Passava-se muito bem lá relativamente a isso.

De Espanha, Hélder (à esquerda) segue para o AEK da Grécia

De Espanha, Hélder (à esquerda) segue para o AEK da Grécia

JEAN-PHILIPPE KSIAZEK

Como é que foi parar ao AEK da Grécia? Ainda tinha o mesmo empresário?
Não, aí já tinha o Ângelo Martins. Surgiu essa oportunidade de ir para a Grécia, na altura eles ainda estavam na II divisão, mas com um projeto para subir. Estava meio reticente, por ainda estarem na II divisão, mas acabava por ser um clube que eu conhecia, onde já tinham estado bastantes jogadores, casos do Bruno Alves e do Geraldes, e de mais alguns jogadores e então decidimos que seria a melhor opção.

Tinha outras propostas?
Em Portugal, felizmente, sempre tive propostas mas acabei por ir para a Grécia porque monetariamente compensava. A hipótese de Portugal começava a pôr-se um bocado de lado, porque era mais vantajoso jogar fora. E por muito que fosse uma II divisão, acho que foi das melhores decisões que tomei.

E, na Grécia, como é que foi a adaptação?
Fomos os três juntos mais uma vez. Acabei por apanhar um colega brasileiro e outro espanhol que acabou por ser o meu grupinho inicial por causa da língua, porque o grego era bastante diferente.

Mas gostou dos gregos e da Grécia?
Adorei, foi o melhor país por onde passei.

Porquê?
Pela maneira acolhedora como me receberam. Também ajudava estar num grande clube. Onde quer que eu fosse havia sempre gente que era adepta do meu clube, havia sempre um carinho extra. A comida era fantástica, muito do género da portuguesa, o tempo era fantástico, adorei a cidade. As pessoas por norma têm aquela coisa de visitar só o centro e dizerem que é um bocadinho sujo, mas a Grécia é muito para além da cidade de Atenas, da Acrópole ou da Syntagma, é muito mais do que isso. Tudo o que vivi lá adorei.

Qual foi o costume local de que mais gostou e do que gostou menos?
Dizer que não gostei de alguma coisa é um bocado difícil... Talvez da desorganização. São um bocado desorganizados. Por exemplo, quando foi para colocar os canais por cabo e a internet, pedi ao clube que tratou com uma empresa e mandou lá um rapaz. Quando ele lá chega para colocar a internet, deixa lá os aparelhos e vai embora. Pensei que era só colocar o cabo, ligar e já estava. Mas não. Era preciso por uns códigos e o rapaz deixou-me lá aquilo desmontado, sem código, sem nada, e foi-se embora. Tive de ligar e ele só apareceu no dia seguinte para pôr os códigos. É um bocadinho deixa andar. O grego antes de fazer qualquer serviço vai beber o frappé, o café frio deles. Eles tinham que ter sempre o tempo deles para o frappé, depois, sim, iam trabalhar (risos). Isso se calhar foi a coisa mais negativa que vi lá. Tudo o resto, a maneira como fui tratado, o carinho, a comida, o tempo, as praias. Eles têm muito aquela coisa da praia privada, mas a temperatura da água é super boa

A sua mulher também se adaptou bem?
Adorou. Foi também a primeira vez que pus o meu filho numa escolinha em que falavam inglês e grego.

Começou a falar grego ou inglês primeiro?
Falava o básico de ambas, era só mesmo algumas palavras. Também já falava algumas palavras em espanhol. Com três aninhos ia buscar um bocado de tudo e desenrascava-se (risos).

Helder (à direita) com a mulher e filho, juntamente com outros jogadores do AEK, a festejar conquista da taça

Helder (à direita) com a mulher e filho, juntamente com outros jogadores do AEK, a festejar conquista da taça

D.R.

Logo na primeira época é campeão e sobe de divisão.
Sim. Acabei por apanhar ali um treinador que era uma referência não só grega, internacional também, o Dellas. Ele tinha jogado em Itália onde era muito conhecido. Era um treinador que tinha sido mesmo uma referência a nível de jogador e que veio ensinar outros costumes.

Que outros costumes? A que é se refere?
Transmitia-nos muito mais ideias, como se tivesse vivido aquilo. Dizia: “Vamos fazer desta maneira porque já tentei desta, passou desta e não se conseguiu”. Dáva-nos muitos exemplos de coisas que tinha vivido, ele sabia como é que ia ser.

Não precisou de tradutor na Grécia?
Nós tínhamos um, mas só quando íamos dar as entrevistas em grego. Era um tradutor grego que falava espanhol e eu como tinha estado um ano em Espanha… Mas era para essas ocasiões, agora para comunicar com o treinador, nunca foi preciso, era em inglês que eu percebia bem e às vezes algum italiano pelo meio.

Na época seguinte conquistam a Taça...
... Conquistamos a taça e acabamos por guardar o lugar nas competições europeias para o ano seguinte, fomos à Liga Europa.

Mas já se tinha estreado nas competições europeias antes.
Sim, na Liga dos Campeões pelo FCP e depois com o Braga também fui à Liga Europa e à Liga dos Campeões.

É um ambiente diferente, o das competições europeias?
É, desde sempre. Mesmo quando era pequenino e tínhamos aqueles torneios internacionais, para nós era como se fosse uma Liga dos Campeões. Agora, felizmente, já existem essas competições nas camadas jovens, mas na minha altura não havia. Havia esses torneios internacionais em que se juntavam algumas equipas. E isso já era diferente, porque era aquele sentimento: “vamos competir com estes de fora para lhes mostrar que somos melhores”. Eu tinha muito isso, e era a cultura ali no Porto, que era de ganhar, foi assim que nos ensinaram. Vamos batalhar contra os de fora porque nós portugueses somos melhores do que eles. Havia essa coisa e as competições europeias acabam por ser um bocadinho isso, de lutar contra outras equipas com quem não estamos acostumados a jogar e tentar trazer algum prestígio para a equipa que representamos.

Helder vai para o Dubai, depois de quase três épocas na Grécia

Helder vai para o Dubai, depois de quase três épocas na Grécia

D.R.

Na terceira época só faz dois jogos porquê?
Porque nessa altura tive a proposta para ir para o Al Wasl do Dubai, mas fiz dois jogos do playoff da Liga Europa e depois decidi ir.

Uma realidade completamente diferente.
Aí, sim, é que foi uma coisa totalmente diferente. O primeiro impacto foi dos mais dolorosos, porque lembro-me de chegar ao aeroporto e apanhar aquelas temperaturas altas em que nem vento corria e dizer: “não, se eu já mal consigo respirar quando estou aqui a caminhar na saída do aeroporto, nos treinos então desmaio” (risos). Foi logo o meu primeiro pensamento. Foi uma coisa mesmo muito agressiva. Lembro-me de chegar lá, ultimar o que tínhamos para ultimar, e no dia a seguir, treino.

A que horas?
O treino era por norma às sete horas da noite. No primeiro treino, ainda não tínhamos começado e já suava como se estivesse a terminar um treino noutro país. Custou, mas que pouco a pouco vamo-nos adaptando. Há meses, na Liga do Dubai, em que os jogos tem três paragens. Uma a meio da primeira parte, outra no intervalo, e uma a meio da segunda parte que é para as pessoas respirarem um bocadinho e beberem um bocado de água.

A família também foi?
Foi. Para a minha esposa não foi uma experiência tão boa como tinha sido na Grécia- ela tinha adorada a Grécia. Ali havia costumes de grandeza e de luxo. É muito bonito irmos a um bom restaurante ou irmos a um shopping, mas depois há aquelas coisas de competitividade, quem tem o melhor carro, quem tem o melhor telemóvel ou a melhor casa, há muito disso. E isso já a incomodava um bocadinho. Eu soube viver com isso, mas tinha os meus colegas diariamente para falar, para brincar. A ela já lhe custou um bocadinho mais conviver com algumas coisas que viu lá.

Do que gostou mais e menos?
Eu gosto muito de ir jantar fora, e lá tinha isso, apanhavam-se muitos bons restaurantes. Gostava do facto de quando tínhamos tempo para poder ir passear, estar sempre calor. Era bom passear à noite, era muito melhor. Em Almeria ia sempre à praia, lá no Dubai também ia mas, sempre à noite. Quando chegava depois do treino, comia alguma coisa, ia dar a minha voltinha com a família pela praia e jantar. Tinha muitos restaurantes com qualidade e muitos shoppings enormes, há sempre alguma coisa nova no Dubai, não dá para cansar.

Não perdeu a cabeça com nada?
Por acaso, não. Vontade, dá. Apareciam lá colegas com carros... Aquilo era um autêntico stand de bombas lá paradas. Acho que o pior carro que lá estaria devia ser um Porsche Cayenne (risos).

Que carro tinha?
Andava de Cadillac, era o carro que davam aos quatro jogadores estrangeiros.

Alguma história ou experiência engraçada que tenha vivido no Dubai?
Depois dos treinos eles tinham a mania de trazer uma comidinha típica deles, que era um arroz com carne, e tínhamos de comer à mão, não havia talheres. Sentavam-se todos à volta daquilo que era como se fosse um tacho enorme, havia três, quatro tachos e toda a gente se sentava à volta do tacho e tirava a comida à mão. Aquilo fez-me uma confusão incrível porque o arroz era meio húmido e estar a pegar naquilo à mão, com toda a gente a tirar do mesmo tacho (risos)... Mas depois fui-me habituando. O que me custou mais foi mesmo a temperatura e os costumes relativamente ao futebol. Não é tão profissional. Os meus colegas levavam muito uma vida de treinar às sete, jantar e depois iam para um bar tomar café e acordavam no dia seguinte se calhar ao meio dia, almoçavam... Era isto a rotina do jogador de futebol lá, nada a ver com a rotina europeia.

Helder (de amarelo) em ação pelo Al Wasl, dos Emirados Árabes Unidos

Helder (de amarelo) em ação pelo Al Wasl, dos Emirados Árabes Unidos

Tom Dulat

Conseguiu manter a rotina europeia?
Sim ia mantendo a minha rotina, também tinha a família para me ajudar, a minha mulher e o meu filho que me iam ajudando nisso. O meu filho tinha a escolinha dele, de inglês, e por tudo isso dava para manter a rotina que já levava dos outros países.

Fez alguma amizade mais especial?
Tinha os meus colegas brasileiros. Mas há uma coisa que admirei muito no jogador do Dubai - e continuo a ter contacto com pelo menos metade deles -, é que admiram muito o jogador que chega do estrangeiro. Lembro-me de chegar e dos meus colegas me receberem com um carinho enorme por saberem que eu já tinha jogado a Liga dos Campeões e a Liga Europa. Eles absorvem isso tudo e admiravam os jogadores estrangeiros. Aquela coisa de nos passarem a bola e de ficarem a ver o que é que vamos fazer. São pessoas muito acessíveis para se conviver, nada a ver com aquele mundo exterior que depois apanhamos e que parece uma batalha diária para verem quem é o melhor e quem é que tem o melhor. Ali dentro já não é essa ideia que nos transmitem.

E como é que vai parar ao Akhisar, na Turquia?
Rescindi. Porque na altura só havia vaga para quatro jogadores estrangeiros e o sheik decide que a equipa precisa de um médio. Os meus colegas tinham contrato de cinco anos e eu tinha de três, então decidem que precisam de um médio e toca a pô-lo no meu lugar. Falei com o treinador que me disse que não era uma opção dele, que não podia fazer nada porque era ordem do sheik. Havia muitos jogadores para a frente e não tínhamos médios. Ok, rescindi a bem e surge a oportunidade do Akhisar onde havia portugueses, o Custódio e o Miguel Lopes, com quem já tinha jogado no Braga. Começo a falar com eles, como é que era o clube, as condições, como é que era a Liga Turca, os costumes do país, e criou-se ali um ambiente propício a começar a negociar. As coisas acabam por dar certo e eu rumo à Turquia. Mas o Custódio entretanto já tinha terminado o contrato, acabo por apanhar só o Miguel Lopes nesse primeiro ano.

Mais uma vez de casa às costas...Como foi a adaptação?
Foi um bocadinho difícil e vou-lhe dizer porquê: já é uma maneira de pensar totalmente diferente aqui na Turquia. São super desorganizados, vai-se a qualquer sítio e fazem as coisas super devagarinho, têm muito aquela coisa de negociar, negoceiam tudo. Se tiverem de negociar só por uma lira, eles negoceiam para ver se ganham essa lira. Acabam por ser costumes um bocadinho diferentes, mas com a ajuda do Miguel, as coisas avançam naturalmente.

Que tal a cidade de Akhisar?
Eu não vivia mesmo em Akhisar, mas em Izmir, que é uma das maiores cidades da Turquia. Tinha de me deslocar todos os dias 50 minutos para ir para o treino e depois mais 50 para casa. Nesse primeiro ano fazia isso todos o dias com o Miguel. Assim, a minha família ficava num ponto interessante, numa cidade boa e não tinha que se sujeitar a Akhisar que é como se fosse um pequeno povoamento com poucas coisas de interesse. E depois também tinha a parte da escola do miúdo que havia em Izmir e em Akhisar não. E Izmir, como eles costumam dizer, é o sítio onde as pessoas são mais abertas. Ou seja, acabo por não apanhar muito esse ambiente fechado, de reza, das burkas; acaba por ser um ambiente muito mais parecido com o nosso.

A época corre-lhe bem. Venceram a Supertaça.
Sim, e, por ganharmos, acabámos por guardar mais uma vez um lugar nas competições europeias. Ou seja, um clubezinho que nunca tinha ganho qualquer troféu, acaba por ganhar um lugar nas competições europeias.

Depois de uma época no Dubia, Helder assina pelos turcos do Akhisar

Depois de uma época no Dubia, Helder assina pelos turcos do Akhisar

Quality Sport Images

O futebol, muito diferente da Grécia e do Dubai?
Um bocadinho diferente, acho que todos os países têm a sua particularidade. Vejo aqui na Turquia jogadores de qualidade máxima, de topo mundial, vem cá muita gente parar e vieram muitos portugueses cá parar, como é o caso do Quaresma, Bruno Alves, Meireles, estrelas do nosso país. O turco tem muito isto: se tem dinheiro, vai comprar. Eles gostam de ter nomes sonantes. É um campeonato com qualidade. Acho que podiam trabalhar muito mais a componente tática. Portugal a nível tático é dos países que mais qualidade tem. O treinador português é conhecido por ser bom e acho que temos que ter orgulho nos treinadores que temos. Eu que já passei por vários sítios, acho que o treinador português tem muito mais qualidade que o treinador estrangeiro. Na Turquia a nível tático trabalha-se muito pouco, porque eles sabem que podem ir buscar os jogadores de qualidade máxima.

E os adeptos?
Fervorosos. É o sítio onde vi os adeptos mais fervorosos. Ir ao estádio do Besiktas, do Galatasaray, do Fenerbahce, do Trabzonspor... Aqui praticamente todas as equipas do meio da tabela para cima levam mais de 30 mil adeptos ao estádio facilmente.

Mas a época que agora terminou já não correu tão bem.
Esta época começou muito, muito bem e acabou da pior maneira. No início da época tivemos a Supertaça da Turquia contra o Galatasaray... e ganhámos. Levámos pela primeira vez o clube às competições europeias, mas acabámos por não estar preparados para tantos jogos. Voltámos mais uma vez a chegar ao final da taça, só que este ano perdemos e acabámos por descer de divisão. Ou seja, a equipa acaba por não estar preparada para levar com tantos jogos numa só época. Acabou por ser um bocadinho mal programado tudo e passamos do sonho ao pesadelo num instante.

Também houve mais mudanças de treinador.
Demasiadas. Começámos com um treinador que, salvo erro à quarta ou quinta jornada, foi despedido, acaba por vir outro treinador que aguenta mais uns jogos, mas depois é despedido. E finalmente acabámos por ir buscar um treinador da casa, para acabar o resto dos jogos.

Helder (à esquerda) num encontro do Akhisar com o Fenerbahce

Helder (à esquerda) num encontro do Akhisar com o Fenerbahce

Anadolu Agency

Vai continuar na Turquia?
Em princípio sim, provavelmente não no mesmo clube.

Por ter descido?
Sim, pela situação de ter descido. Acabam por surgir agora umas boas oportunidades para rumar a outro clubes aqui na Turquia. Por isso, agora é aquela fase em que estamos sempre com um pequeno stress para ver se arranjamos e acertamos na melhor oportunidade que aparece.

Há alguma equipa de sonho onde gostasse de jogar?
Acho que a minha equipa de sonho sempre foi a mesma, desde pequenino e se calhar muito por causa do meu primeiro ídolo, ou seja, o Manchester United.

Helder (à esquerda) num almoço de família

Helder (à esquerda) num almoço de família

D.R.

Quando é que é chamado pela primeira vez à seleção?
Na altura do Braga, já na era Peseiro. Estava o Paulo Bento como treinador principal na seleção e na altura há um particular no Gabão e sou chamado pela primeira vez para ir representar a seleção A. Corri todos os escalões das seleções sempre desde miúdo, mas na seleção A a primeira oportunidade surge nesse particular com o Gabão.

Correu-lhe bem?
Sim. Lembro-me que tínhamos feito um jogo contra o Sporting onde me pisaram o pé e a unha saiu. Arrancaram-me a unha do pé e na altura fiquei com umas dores desgraçadas; jogar sem unha era impossível, mas eu estava convocado para a seleção e não podia dizer que não. Era a primeira convocatória para a seleção A, não ia dizer que não por muitas dores que tivesse. Falei com o departamento médico do Braga, falei também com o departamento médico da seleção para saberem o que eu tinha, mas disse: “Contem comigo, eu vou. A bem ou a mal, com dores, nem que leve uma injeção mas isto tem que dar”. Recordo-me de estar sempre a tirar o penso e a por outro, lembro de ter levado a injeção antes do jogo com o Gabão e com mais ou menos dores, acabei por estar preparado e foi uma experiência óptima.

Voltou a ser chamado?
Não.

Por que razão acha que isso aconteceu? Tinha a ver com a concorrência na seleção?
Claro, nunca vou ser do género de dizer: “Eu acho que devia e o outro não devia”. Os treinadores estão lá para fazer opções. Como é óbvio, vai haver sempre muita concorrência, porque há muitos jogadores de qualidade e acabou por ser uma decisão do mister Paulo Bento e dos que vieram depois. São opções que eu vou respeitar sempre.

Nas camadas jovens, é campeão europeu em 2003.
Exatamente, de sub-18. Em Viseu.

Lembra-se de alguma situação caricata ou de alguma partida que tenham feito uns aos outros nas camadas jovens da seleção?
Nós fazíamos muitas coisas nessa altura (risos). Depois de jantar tínhamos muito aquela rotina do treinador dizer: “têm 30 minutos para ir passear”. Lá íamos nós em grandes grupos passear pelas ruas, fazer aquelas peripécias normais de jogadores que tinham 17 anos. Lembro-me de termos pregado uma partida a um colega nosso, que era guarda-redes. Começámos a mandar-lhe mensagens a dizer: “Olá, eu sou uma rapariga aqui de Viseu, vi-te hoje da varanda. Podias vir ter comigo amanhã”. Então, ele começou: “Ui, uma rapariga!”. Toda a gente sabia da história, menos ele, e então no dia a seguir, depois do jantar íamos dar a volta, e ele: “Eh pá, hoje não posso, não vou, está a doer-me qualquer coisa...” E nós sabíamos que ele ia ter com a rapariga. Fomos passear e lá foi ele ter com a suposta rapariga que não existia ( risos). Quando viu que tínhamos armado para ele... Acho que ainda hoje está envergonhado com isso (risos).

É supersticioso?
Não, nada mesmo. Sou pessoa de se agarrar muito a uma única coisa que é o que me move, e o que me tem movido ao longo dos anos: a família. Sou mesmo muito chegado à família e quando falo da família, não é só o pai, a mãe, a irmã, a esposa. Não, sou mesmo muito ligado aos tios e primos. Os avós infelizmente já não tenho, mas era ligado a eles, porque temos uma coisa que acabo por não ver nas outras famílias que é, o que acontece a um, parece que acontece a todos. Temos aquela coisa de entreajuda, de estar sempre presente. E depois há aquela coisa: chega o Hélder cá e há sempre piqueniques que continuamos a fazer, há reunião de família para estarmos juntos e convivermos, para verem os meus filhos, para jogar às cartas. Ainda se continua a conviver muito no seio da minha família e acaba por ser isso que me move. Lembro-me de entrar muitas vezes nos jogos e estar a pensar: isto vai ser por vocês, hoje vou aguentar por vocês.

Tem tatuagens?
Tenho umas quatro ou cinco. A primeira que fiz estive a retocá-la há pouco tempo porque a apaguei (risos).

Quando é que a fez e o que era?
Na altura estava na moda fazer tribais e eu resolvi fazer uma no meio das costas, devia ter uns 18 anos. Os meus pais deviam ter proibido (risos). Apaguei-a há pouco tempo. De resto, todas as outras que fiz, têm sempre a ver com a família. Fiz uma com o nome da minha irmã, também era novo, tinha uns 19, 20 anos. Fiz uma relativamente à minha mãe, fiz uma para o meu pai e depois tenho uma para o meu filho. Ou seja tem sempre a ver com os meus. Aquela tribal não estava aqui a fazer nada, por isso retoquei-a para fazer a tatuagem para o meu pai.

Quer ter ter mais filhos?
Penso ter uma menina. Gostava muito de ter um casal. O meu filho já escolheu o nome e tudo. Ele disse que quer ter uma irmã que se chame Valentina. Não sei onde é que ele foi buscar isso. O meu afilhado chama-se Valentim, não sei se ele foi buscar aí (risos).

Helder durante uma conferencia de imprensa do Akhisar da Turquia

Helder durante uma conferencia de imprensa do Akhisar da Turquia

Anadolu Agency

Onde é que ganhou mais dinheiro?
No Dubai.

Investiu em quê?
Abri agora com o meu cunhado duas estações automáticas de lavagem de carros e tenho também um investimento no ramo automóvel com ele. Ele é vendedor de automóveis e eu acabo por estar dentro disso a ajudá-lo na compra de automóveis para ele vender.

No ramo imobiliário não tem nada?
Não, mas tenho uma pessoa da minha confiança que trabalha num banco e que acaba por fazer o investimento de grande parte do dinheiro que tenho. Investimentos sempre seguros para não haver nenhuma surpresa.

Já pensou alguma vez na altura de “pendurar as botas”?
É assim, pensar em pendurar não, mas pensar em como será depois de pendurar as botas, sim. Acho que isso é um pensamento que ocorre até em gente mais nova, mas na minha situação como é óbvio, tenho a a certeza que daqui a três ou quatro anos chega o momento.

Sabe o que quer fazer no futuro?
Sinceramente, não sei. Tenho esse dinheiro investido, tenho dinheiro guardado porque foi assim que felizmente me ensinaram a fazer. Tenho o meu filho e penso mais no futuro dele do que no nosso e depois algo irá surgir. Eu não sei se quero muito meter-me no mundo do futebol. Quem está no meio acaba por viver situações que não têm nada a ver com o futebol, mas que agora está de certa maneira fixado no futebol e já não dá para separar do futebol. E eu não sei se quero um dia ter que conviver com essas situações..

Está a falar do quê, em concreto?
Destas situações em que se vê tratar os jogadores como uma mercadoria. De irem buscar mais dinheiro do que propriamente o jogador. De assinar com determinado jogador porque é filho daquele ou amigo do outro, esse género de situações. De dar prioridade à amizade do que propriamente ao valor do próprio jogador. Isso existe muito no mundo do futebol e é impossível, de certa maneira, de contrariar isso porque o futebol é negócio. E cada vez se trata mais o futebol como um negócio. E eu não sei se um dia quero estar dentro desse meio, porque nós jogadores acabamos por conviver com isso, mas as pessoas que estão nos bastidores - como é o caso de directores, de empresários, que agora há empresários em todo o lado - acabam por conviver muito mais ainda com esse tipo de situações. E eu não quero isso para mim. Acho que prefiro manter-me na ignorância que ainda tenho relativamente a alguns assuntos que se passam no futebol.

Qual foi, até agora, o treinador de que mais gostou?
Tinha falado há bocado do Leonardo Jardim: é um treinador que acaba por marcar pela maneira como as coisas correram para mim, para ele e para o clube. Mas não posso esquecer também o facto de ter sido chamado pela primeira vez ao plantel sénior pelo Mourinho e por ele ser a pessoa que é no mundo do futebol, o grande treinador, com tudo o que já conquistou, acaba por ser também uma grande referência para mim. E depois, o Jesualdo. Porque é mesmo o que lhe chamam. O Jesualdo é professor, não é treinador. O Jesualdo perdia mesmo muito tempo a ensinar-nos as coisas e às vezes coisas básicas de movimentação. Lembro-me de nos chamar à parte e ensinar. “Tenta fazer só este movimento ao contrário, vais ver que isso te traz vantagens”. Ele acaba por ser um professor, mais do que um treinador. Também me marcou por me chamar de volta ao Porto.

De quem gostou menos?
Apanhei um treinador este ano que não gostei nada mesmo. Ele era bósnio, foi o primeiro que tivemos e eu não simpatizei muito e vou dizer porquê. Ok, devemos ter sempre aquela fronteira entre treinador e jogador, alguns treinadores gostam de se aproximar mais ou menos, mas este nem sequer se aproximava. Era arrogante a falar com os jogadores, falava como se nós fossemos bonecos: “Vais fazer isto e vais fazer aquilo. Não quero assim não quero assim”. Muito arrogante sempre que falava e não me dou muito bem com esse tipo. Nunca vou ser pessoa de criar problemas, nem responder de volta, porque não fui ensinado assim, porque eles é que são os treinadores e nós temos de fazer da maneira que eles querem. Mas também não sou pessoa de gostar desse género de maneira de falar.