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A casa às costas

Bruno Vale: “No Chipre as coisas são diferentes. Uma vez, atiraram um foguete que ficou preso na minha camisola e me queimou o pescoço”

Um cancro fulminante levou-lhe o pai, quando tinha apenas 15 anos, moldando-lhe para sempre uma personalidade que se tornou ainda mais reservada. Foi campeão europeu de sub-16 e campeão nacional pelo FCP, jogou ao lado do ídolo Vítor Baía, percorreu todas as seleções, chegou a estar convocado, por Scolari, para o Mundial de 2006, mas acabou por ver a promissora carreira interrompida devido a uma lesão. Foi no Chipre onde esteve sete anos e conquistou cinco troféus que mais brilhou como guarda-redes. Gosta de jogar "Call of Duty", de ir ao cinema e de séries como a dos Vikings ou Game of Thrones

Alexandra Simões de Abreu

Robbie Jay Barratt - AMA

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É natural de Vila Nova de Gaia. Comece por falar-nos da sua família.
Os meus pais são de Ponte de Lima e apesar de terem vivido e trabalhado uns anos no Barreiro, quando eu nasci eles já estavam no Porto, em Gaia, porque surgiu a oportunidade de terem um negócio, uma mercearia. Tenho um irmão mais velho cinco anos.

Gostava da escola?
Gostava, mas a partir do 7.º ano já não tanto porque tinha o futebol. Larguei a escola cedo. Só fiz o 9.º ano.

Como surge o futebol na sua vida?
O primeiro contacto mais a sério foi através de um colega mais velho que jogava no Vilanovense. Eu jogava à bola com ele na rua, à frente da mercearia dos meus pais, e um dia levou-me com ele ao clube.

Já jogava à baliza?
Sim, já ia para a baliza. Sempre gostei da baliza mas quando comecei a jogar pelo Vilanovense, sempre que havia jogos na escola eu pedia para jogar à frente. Dizia: “para a baliza já basta nos treinos, deixem-me jogar um bocadinho à frente agora” (risos).

E marcava muitos golos?
Nem por isso (risos).

Quando era pequeno lá em casa torcia-se por que clube?
Foi sempre pelo FCP. O meu pai era benfiquista, mas a minha mãe e irmão eram portistas também.

Bruno Almeida no seu primeiro clube Vilanovense

Bruno Almeida no seu primeiro clube Vilanovense

D.R.

Vai para o Vilanovense com quantos anos?
Com quase 10 anos.

Quem era os seus ídolos?
Gostava muito do Peter Schmeichel e depois passou a ser o Vítor Baía, porque era do FCP.

Alguma vez disse que queria ser outra coisa diferente de guarda redes?
Acho que houve uma fase, segundo diz a minha mãe, em que eu dizia que queria ser bombeiro (risos).

A partir de quando é que percebeu que o seu futuro estava no futebol?
Por volta dos 15 anos, quando vou para o FCP e para a seleção nacional de sub-15. Faço o Europeu de sub-16 e somos campeões, em Israel. A partir daí, aparece o contrato de formação com o FCP e, pronto, começo a perceber e a querer ir por aí.

Como é que vai parar ao FCP? Tinha empresário?
Não, não tinha empresário. Na altura fiz um jogo pelo Vilanovense contra o FCP. Fiz um bom jogo e na altura o Rui Pacheco, treinador da formação do FCP, disse-me para ir fazer uns testes ao FCP. Mais tarde, também veio um olheiro do FCP, o Sr. Craveiro, e fui lá no final da época.

Quando chegou a casa e disse que o FCP estava interessado, qual foi a reação?
Ficámos todos super contentes. Os meus pais nunca colocaram qualquer entrave. Claro que sempre me disseram para tentar conciliar com os estudos, mas houve uma altura em que comecei a pôr o futebol à frente da escola e já não havia nada a fazer (risos). Foi mais a minha mãe, porque na altura em que vou para o FCP eu perdi o meu pai.

Como?
Cancro no estômago, foi galopante, muito rápido. Eu ia fazer 16 anos. Foi muito duro. Foi o meu primeiro ano no FCP. Foi uma fase difícil, ninguém estava a contar. Fomos todos muito abaixo.

Como superaram esse momento?
Unimo-nos os três. O meu irmão assumiu um pouco a posição do meu pai, entre aspas. Passamos por essa fase juntos. Foi difícil e ainda é difícil hoje, que já passaram alguns anos, falar sobre isso.

De alguma maneira isso deu-lhe força extra para tentar vingar no futebol?
Sim, porque eu queria conquistar as coisas por ele também. Mas depois, quando conquistava, sentia que o meu pai não estava lá para ver e era um misto de emoções, de alegria e tristeza.

Bruno Vale na equipa de iniciados do FCP

Bruno Vale na equipa de iniciados do FCP

D.R.

Na formação do FCP faziam muitas partidas uns aos outros?
Eu não era muito de fazer partidas. Depois da perda do meu pai mudei um bocadinho. Fiquei diferente. Fiquei muito mais reservado.

Mas foi praxado?
Não. Nas formações fazia-se uma ou outra partida, mas nos iniciados não me lembro de ter sido praxado. Na idade de juniores, com o mister João Pinto, aí já se faziam mais partidas. Era ele que fazia as praxes e as partidas.

O que fazia?
Punha baldes de água em cima da porta de entrada do balneário. A gente abria a porta e levava com água. Muitas vezes eu chegava mais cedo e ajudava-o a fazer essas coisas (risos).

Fez muitas amizades no futebol? Quais as mais importantes?
Fiz muitas amizades, mas com o tempo vamos perdendo contacto, porque uns vão para aqui, outros vão para fora. Mas se os vir acho que a relação é a mesma. Mas eu também não sou muito de ligar, lá está, sou mais reservado.

Os primeiros namoros quando surgem?
Mais a sério foi mais tarde com aquela que é hoje a minha mulher, a Lígia. Conhecemo-nos na altura em que eu jogava como júnior na equipa B do FCP. Eu matriculei-me no 10.º ano na escola dela, mas acabei por optar pelo futebol e nem fui à escola. Conhecia-a lá através de um colega que também era guarda-redes e cheguei a ir ter com ela à escola, mas nunca fui às aulas. Ficámos juntos até hoje. Temos duas filhas.

Como se chamam e que idade têm?
A mais velha é a Renata, vai fazer cinco anos em setembro. E tenho uma bebé de oito meses, a Sofia.

Bruno Vale na seleção desub-15

Bruno Vale na seleção desub-15

D.R.

Lembra-se da estreia como sénior?
A minha estreia na I Liga foi com o Mourinho, para ser campeão. Mas sénior...foi pela equipa B do FCP, julgo que com o mister Ilídio Vale.

É chamado pela primeira vez à equipa principal quando?
Em 2003. O Mourinho entrou a meio da época e mal acaba a época ele põe-me a mim como terceiro guarda redes. Era o Vítor Baía, o Nuno Espírito Santo e eu.

Tremeram-lhe as mãos nessa altura?
Não. Mas lembro-me que quando me disseram “amanhã vais treinar com a equipa principal” nessa noite quase nem dormi. Eu já tinha sido chamado algumas vezes para treinar com a equipa A, quando faltava algum guarda-redes por exemplo, mas dessa vez era para fazer parte do plantel.

Como foi a receção?
Tranquila. Disseram-me para estar à vontade.

O Mourinho era diferente dos outros treinadores?
Com o tempo, fui vendo que era diferente, sim. Quando comecei a ser emprestado a vários clubes da I Liga e fui conhecendo mais treinadores, apercebi-me que o Mourinho estava à frente. Os treinos, a forma como falava com os jogadores, ele estava um passo à frente dos outros e conseguia prever as coisas.

Estreia-se com ele num jogo com o P. de Ferreira, em 2003/04.
Sim, meteu-me na segunda parte uns 15/20 minutos e por isso fui campeão. Depois ele sai e apanho aquela fase complicada.

Do del Neri, Couceiro e Victor Fernandez...
Sim. Vínhamos da excelência e depois passar um ano sem praticamente conquistar nada... Só a Intercontinental no Japão. Foi uma época um bocadinho difícil, os adeptos até chegaram a ir lá ao treino para falar. Mas não se passou nada.

De que forma é que a entrada e saída de treinadores numa mesma época afeta os guarda-redes?
Altera muito a forma de trabalhar porque cada treinador tem a sua ideia e forma de jogar diferente. Por exemplo, fizemos a pré-época com o del Neri e no final da pré-época ele vai embora. Ainda estávamos a tentar assimilar as ideias e entra outro treinador com uma ideia de jogo diferente e é quase como começar de novo.

Sabendo que é o terceiro guarda-redes e que as hipóteses de jogar são quase nenhumas como é que se consegue ter ânimo para ir treinar?
No meu caso eu sabia que não ia jogar mas que estava ali para "beber" um bocadinho do Nuno e do Vítor. Estava ali para aprender com eles.

O que aprendeu mais com cada um?
Davam-me muitos conselhos, o falar, o colocar o corpo mais alto, mais baixo. Corrigiam-me. Por exemplo, o Vítor tinha uma leitura fantástica dos cruzamentos. Mal a bola saia do pé, julgo que o Vítor conseguia saber onde a bola ia cair. Era rápido e saia muito bem nos cruzamentos, sabia posicionar-se bem. Ele era extraordinário nisso.

Esse é o maior receio do guarda-redes, sair mal dos postes?
É um dos, não é receio mas...Se calhar as pessoas pensam que é fácil e não é. Ter a percepção onde a bola vai cair e tentar atacar no ponto mais alto... O avançado já tem movimentos antes do cruzamento, nós não, temos de esperar e ver se vai no espaço do primeiro poste ou do segundo, temos de controlar aquela zona toda perto da baliza e é complicado. Não digo que é receio, mas é das coisas mais complicadas para um guarda redes: sair bem dos postes.

Bruno Vale guarda alguns recortes de jornais em que falam de si

Bruno Vale guarda alguns recortes de jornais em que falam de si

D.R.

Na época seguinte é emprestado ao E. Amadora. Aceitou bem?
Na altura, tinha renovado contrato com o FCP, através do empresário Claudino Gomes da Silva, e sabia que ia rodar. Eu também já estava há alguns anos na equipa B e queria jogar, achei que era a hora de sair da minha zona de conforto e de tentar jogar na I divisão. Queria mostrar o meu valor, ser mais utilizado. Também era essa a ideia do FCP.

Quando assina o primeiro contrato com o FCP?
Foi contrato de formação, quando fui campeão europeu, com 16 anos.

Ainda se lembra do valor do primeiro ordenado?
Julgo que era à volta de 400 euros. Quando fui para o FCP nos iniciados já me davam ajuda para o passe. Acho que 60 euros. Mas depois, aos 16 anos, já passei para o valor do salário mínimo da altura.

Lembra-se do que fez a esse primeiro ordenado?
Comprei umas chuteiras da Lotto, que se usava muito na altura. O resto guardei.

Como foi sair de casa, ir viver para Lisboa, para jogar no E. Amadora? Foi sozinho?
Levei a Lígia, que era minha namorada na altura.

Ela largou os estudos para ir consigo?
Sim.

Não houve problemas com os pais dela?
Foi um bocado difícil eles aceitarem.

Foram viver para onde?
Para um apartamento na Quinta da Beloura, na zona do autódromo do Estoril. Adaptámo-nos bem, foi bom.

Bruno guarda o recorte de jornal da sua estreia com Mourinho

Bruno guarda o recorte de jornal da sua estreia com Mourinho

D.R.

Nessa época fez 30 jogos, foi bastante utilizado.
Sim, correu-me bem. Fui chamado à seleção A, pelo Scolari.

Ficou surpreendido?
Sim, porque eu estava nos sub-21. Mas como tinha feito uma boa época no E. Amadora, ele chamou-me para um jogo de preparação, em Chaves.

Como vai parar ao U. Leiria?
Estava na seleção e recebo uma chamada do presidente do U. Leiria a dizer que ia ser jogador do Leiria porque já tinham tudo acordado com o FCP, por causa da transferência do João Paulo. Acho que o FCP na altura chegou a dar dinheiro, mais o meu passe e o do Paulo Machado por empréstimo. Julgo que eram esses os termos do negócio.

Ficou chateado?
Não fiquei chateado, mas eu tinha feito uma boa época no Estrela e se não ficasse no FCP, a minha vontade era continuar no Estrela, o treinador era o mesmo. Queria ficar, mas também entendia que o Estrela tinha alguns problemas financeiros, mas, pronto; o Porto queria mandar-me para a U. Leiria, porque lutavam pelas competições europeias e queria ver-me numa equipa melhor. Mas eu acho que fui mais pelo negócio que fizeram com o João Paulo.

Como foi a adaptação a Leiria?
Não correu muito bem, porque tinha-me lesionado no Europeu dos sub-21, no segundo jogo, com a Sérvia. Parti o pé e o perónio. E por causa dessa lesão falhei o mundial 2006, eu estava chamado pelo Scolari.

Ficou desesperado ao perceber que ia perder uma série de oportunidades?
Sim, porque vi que já não podia jogar mais o europeu de sub-21 e, o mais doloroso, que não ia ao mundial. Foram quase três meses de recuperação.

Isso prejudicou-o também no campeonato, já no U. Leiria?
Sim, porque praticamente não fiz a pré-época. Mas não foi por aí, porque comecei a jogar - ainda fiz o primeiro jogo, o segundo - e no final do segundo jogo ao serviço do Leiria fiz um erro que deu em golo. E deixei de jogar.

Foi castigado.
Sim.

Quem era o treinador?
Domingos Paciência.

Disse-lhe alguma coisa?
Na altura não me disse nada. Depois mais tarde falou, mas são opções, eu respeitei.

Essa é a maior ingratidão da posição de guarda-redes? Mais depressa é castigado por causa de um erro, do que os restantes jogadores?
Fica mais marcado do que os outros, é verdade. Um avançado pode falhar dois, três golos em quatro ocasiões, mas marcou um golo e se calhar as pessoas esquecem-se das três que falhou. O guarda redes é um pouco ao contrário, pode fazer três grandes defesas mas se fizer um erro, as pessoas vão-se lembrar do erro e não das defesas. Está mais exposto, é mais ingrato.

A sua mulher entretanto arranjou trabalho ou voltou a estudar?
Não, acompanhava-me. Tentou terminar o 12.º ano, mas ficou com duas ou três disciplinas por fazer.

Bruno no Europeu de sub-21

Bruno no Europeu de sub-21

FRANCISCO LEONG

Como acontece a ida para o Varzim?
Fiquei o ano todo sem jogar em Leiria. Regressei ao Porto, porque estava emprestado, e no Porto dizem-me que não posso fazer a pré-época, que era para rodar, que não tinha jogado. E dizem-me para arranjar clube. Arranjei o Varzim já nos últimos dias.

Ficou magoado com FCP por não ser opção?
Sim, porque há dois anos estava tudo muito bem, tinha renovado, tinha jogado no Estrela, tinha ido à seleção A e passado um ano em Leiria, em que não jogo, as coisas mudaram radicalmente para mim. Nem me deixaram fazer a pré-época. Foi uma fase difícil porque eu fui para o Varzim a mando quase do Porto.

O empresário ainda era o mesmo?
Era. Só que lá está, quando deixo de jogar no Leiria o empresário já não liga, não quer saber, praticamente não tinha empresário nessa altura.

Também não joga muito no Varzim.
Não, porque eu chego no último dia, no final de agosto, e o guarda-redes que estava jogar estava bem e tive de esperar pela minha oportunidade.

Bruno sai de Portugal em 2012 para jogar no Chipre

Bruno sai de Portugal em 2012 para jogar no Chipre

Giuseppe Bellini

Quando um guarda-redes está tanto tempo parado, ao regressar, as hipóteses de falhar são muito maiores?
Sim. O ano em Leiria foi muito complicado para mim. Repare, eu estava na seleção A, era um dos capitães dos sub-21, fui chamado para o mundial, e passado um ano o cenário era completamente diferente. Não tinha jogado, não tinha tantas ofertas. Fui muito abaixo. Depois, o Porto não me deixou fazer a pré-época.

O que lhe passou pela cabeça?
Passou-me tudo. Estive quase para desistir, porque não estava a perceber o que tinha acontecido. Não percebia porque é que o Porto não me deixava fazer a pré-época com eles. Quando deixei de jogar no Leiria, não me deixaram sair e acabo por ficar o ano todo sem jogar e isso nunca me tinha acontecido na carreira, eu fui sempre jogando, estava habituado a jogar.

Isso marcou definitivamente a sua carreira?
Sim. A minha ida para o Leiria... Se calhar se fosse hoje não tinha ido e tinha batido o pé.

Depois do Varzim como surge o V. Setúbal?
De igual modo. Foi quase o Porto que me pôs lá. Joguei alguns jogos no Varzim, mas não fui muito utilizado. Julgo que a minha ida para o Setúbal foi mais por aquilo que eu tinha feito antes do que pelo trabalho que fiz no Varzim. Se calhar as pessoas que me contrataram foi por me terem conhecido nas seleções, do que eu tinha feito lá.

Qual foi a sua reação quando lhe falaram em ir para Setúbal?
Encarei bem, mas lá está, fui outra vez nos últimos dias, já no fim da pré-época. Foi um recomeçar. Tentei dar meu melhor. Adaptei-me bem, os adeptos são exigentes em Setúbal, mas gostei de lá estar.

 Bruno (à direita) na equipa do Apollon Limassol

Bruno (à direita) na equipa do Apollon Limassol

STRINGER

A seguir, Belenenses.
Faço a época no Setúbal, volto ao Porto e a seguir surge a oportunidade, no meu último ano de contrato com o Porto, de ir para o Belenenses. Nas mesmas condições, sempre já tarde. Quase não fiz a pré-época com a equipa.

Fazia como, treinava sozinho?
Tentava fazer umas corridas, mas não tinha aquele treino especifico de guarda-redes por isso era complicado.

Como correram as coisas no Belenenses.
Não muito bem, acabamos por descer de divisão. Também não começo a jogar. Depois joguei, mas tive algumas dificuldades e o clube acabou por desistir de divisão.

Entretanto acaba contrato com o FCP. Ainda tinha o mesmo empresário?
Não, já tinha mudado para o Sérgio Leite. E aparece-me a UD. Oliveirense e foi quase dar um passo atrás para recuperar aquilo que tinha perdido. Senti que tinha de ir para um clube em que as pessoas gostassem de mim e que me quisessem mesmo. Porque quando fui para o Varzim, por exemplo, senti que o Varzim não me queria, se calhar aceitou-me porque tinha algum tipo de acordo com o FCP. Não senti da parte do clube que me queria, mas que era mais negócio.

Isso no Varzim.
Sim, e talvez também no Setúbal e Belenenses. Fui porque era emprestado do FCP. Quando acabei contrato com o FCP disse para mim que queria um clube que me quisesse e ligasse, que mostrasse interesse em mim. E surgiu a Oliveirense, o presidente veio falar comigo com um projeto de subida e queria que eu fosse para lá. O ele ter querido falar comigo... era isso que eu precisava de sentir.

Em termos financeiros deu um passo atrás.
Sim, sim. Mas é na Oliveirense que acabo por renascer. Foi dos melhores anos que tive. As coisas correram bem e voltei a ser feliz. Voltei a ter a alegria no trabalho.

Esteve lá duas épocas e vai para o Chipre.
Sim, o empresário apareceu com essa proposta do Apollon Limassol. Não conhecia bem o Chipre, mas estava numa altura de arriscar, ia fazer 29 anos.

Qual foi a reação em casa quando falou em ir para o Chipre.
A minha mulher sempre me apoiou nestes anos todos. Só me disse: "se é isso que tu queres, vamos". Sou um homem com sorte. Mesmo nos momentos mais difíceis ela está sempre lá.

Bruno acabou por sofrer este golo de penalti, num jogo da Liga Europa em 2014

Bruno acabou por sofrer este golo de penalti, num jogo da Liga Europa em 2014

FABRICE COFFRINI

Quando chega ao Chipre, como foi o primeiro impacto?
Passei logo muito calor (risos). Lá o tempo é espectacular. Vi que era clube grande. Tinha centro de treinos, umas condições fantásticas e correu tudo muito bem.

Como é que foi com a língua?
Eu falava um pouco inglês, mas fui aprendendo mais porque lá há muitos jogadores estrangeiros e fala-se sobretudo inglês no balneário.

E o grego?
É muito difícil. Estive lá sete anos e ainda não falo grego (risos).

Adaptou-se bem ao futebol cipriota?
Ao início foi um bocadinho difícil, mas depois adaptei-me bem.

Em que era diferente do futebol português?
Taticamente as equipas em Portugal eram melhores. Mas, nestes últimos anos, com a ida de treinadores estrangeiros para lá o futebol no Chipre tem vindo a crescer. Ainda não está ao nível de Portugal.

Na época 2015/16 teve o Pedro Emanuel como treinador.
Sim. Nós fomos companheiros de equipa, por isso foi muito engraçado.

É muito complicado mudar o chip de colega para meu treinador?
Não porque quando foi meu colega eu era muito miúdo e olhava para ele já com um respeito grande. Para mim foi bom, adorei, ganhamos uma taça e uma supertaça juntos no Chipre.

Os adeptos cipriotas são muito diferentes dos portugueses?
São. São mais fervorosos. São menos em quantidade, mas são mais fervorosos. É um ambiente diferente nos estádios.

Alguma vez apanhou algum susto?
Uma vez, quando fomos jogar ao estádio do AEK do Larnaca. Os adeptos atiraram um foguete que ficou preso na minha camisola, junto ao pescoço. Queimou-me um bocadinho. Sacudi-me e aquilo lá caiu no chão. Tive sorte. Fora isso não tive problema nenhum.

As pessoas reconheciam-no na rua?
Sim, ao início não tanto, mas depois até fora de Limassol, eles são muito ligados ao futebol.

A maneira de festejarem as conquistas é muito diferente da nossa?
Acho que não. Quando ganhas um troféu andas também pela cidade a festejar, é igual.

Bruno com a mulher e filhas

Bruno com a mulher e filhas

D.R.

Qual o troféu que teve maior significado para si?
A primeira Taça do Chipre, que foi contra o nosso rival, o AEL Limassol. Nós partilhamos o estádio. Era tipo o Benfica-Sporting lá do sítio. Fomos à final da Taça contra eles e conseguimos vencer. Na altura o treinador do AEL Limassol até era o Jorge Costa, que tinha sido meu companheiro no Porto.

Foi pai no Chipre.
Sim, mas as minhas filhas nasceram ambas em Portugal. A minha mulher depois do sexto, sétimo mês veio para Portugal.

Conseguiu assistir ao nascimento de alguma delas?
Não, cheguei sempre tarde (risos).

O que fazia no dia a dia quando não treinava?
Nos meses de verão íamos à piscina, à praia, aos parques aquáticos. Quando acabava o verão era mais shopping, também não tinha muito o que fazer lá. Mas nós somos muito caseiros, gostamos de ficar por casa.

Teve vários colegas portugueses.
Sim, apanhei alguns.

Algum com quem tenha criado maior amizade?
Acho que todos os anos tinha sempre um português ou dois na equipa. Íamos convivendo de vez em quando.

Viveu sempre na mesma casa?
Não, fui mudando de apartamento. O contrato de arrendamento acaba, e se ao início eu não sabia como eram as coisas e fui para um apartamento sem piscina, no segundo ano já exigi um apartamento com piscina, porque lá o tempo obriga-nos a ir para a piscina ou praia. Não se aguenta o calor em casa, só com ar condicionado ligado o dia todo.

Nos tempos livres costuma jogar Playstation, por exemplo?
Sim, gosto de jogar Call of Duty. E gosto de ver filmes e séries.

Alex Grimm

Do que gostou mais e menos do Chipre?
Mais, o tempo. A qualidade de vida é espetacular. Menos é a língua, o grego.

Houve algum costume a que lhe custasse mais a habituar.
Ao início custou-me o facto do horário dos treinos, no verão, ser muito cedo. Por causa do calor treinamos às sete da manhã e acabamos às nove horas. Ou então tinha que ser à noite. No primeiro ano foi difícil ter de sair às seis da manhã para ir treinar.

Veio com algum hábito deles?
Sim, o do frappé. O café gelado. Trouxe a máquina para fazer cá e tenho feito.

Como, quando e por que decidiu vir embora?
Vim embora porque o meu contrato tinha terminado, tinha mais um ano de opção, mas era o momento. A minha filha mais velha vai entrar para a escola. Foi a parte familiar que me fez regressar.

Eles queriam acionar a opção ou não?
Não. Mas eu próprio também disse que não iria ficar. Digamos que foi um mútuo acordo.

Quando tomou essa decisão já sabia do interesse da UD Oliveirense?
Não.

Pensou em pendurar as botas? Sabia o que queria fazer a seguir?
Não. Vim para cá e fui pensando. A minha ideia era continuar a jogar. Não tinha pensado ainda numa alternativa.

Mas já pensou no que quer fazer quando a carreira terminar?
Quero ficar ligado ao futebol, não sei ainda em que funções. Mas para já não quero pensar nisso quero focar-me me jogar pela Oliveirense.

Como foi a despedida do Chipre?
Foi muito doloroso. Foi muito emocionante. Mas acho que foi bonito. Eles retiraram o meu número, o 83, para mais ninguém o usar, colocaram as minhas luvas no museu. Foi mais do que esperava, fiquei muito sensibilizado e só tenho a agradecer ao clube o que fez por mim.

Foi no Chipre que ganhou mais dinheiro. Onde investiu o seu dinheiro?
Em imobiliário e no banco (risos).

Bruno Vale com as duas filhas

Bruno Vale com as duas filhas

D.R.

Se pudesse escolher um bocadinho do Peter Schmeichel e um bocadinho do Vitória Baia para si, o que queria de cada um deles?
Do Vítor a visão dos cruzamentos. Do Schmeichel... Aquilo que ele foi, era quase completo. Era muito forte em quase tudo...Talvez do Schmeichel escolheria o um para um.

Tem tatuagens?
Tenho. Tenho as assinaturas dos meus pais nos braços e o pé e a mão das minhas filhas. A mão da Sofia e o pé da Renata.

Qual a sua maior alegria e frustração na carreira?
A maior alegria foi ser internacional A, ainda que só tenha sido por um jogo. A maior frustração foi a lesão que tive e que me levou a falhar o mundial. Veio na pior altura.

Qual foi a defesa mais difícil que fez?
O nascimento das minhas filhas (risos). Ser pai é uma responsabilidade enorme.

O jogo mais difícil?
A tal final da Taça com o AEL, em Limassol. Era o meu primeiro ano no Chipre, era contra o rival, tínhamos que ganhar. Foi um jogo muito difícil.

Qual o pior pesadelo de um guarda-redes em campo?
O erro.

Qual o erro que lhe custou mais a engolir?
Um chapéu de quase meio campo, no Chipre. Custa.

Qual a maior vantagem de se ser guarda-redes?
Acho que a estabilidade da equipa começa no guarda-redes. Um bom guarda-redes ajuda e muito ao sucesso de uma equipa.

Alguma vez sentiu isso, que era o Bruno quem dava estabilidade à equipa?
Senti. Na Oliveirense a antes de ir para o Chipre e depois no Chipre. Quando tu jogas, sentes que parte daí a estabilidade da equipa.

Qual foi o sonho que ficou por cumprir no futebol?
Ter jogado uma Champions e ser campeão pelo Apollon.

Gosta ou gostava de noitadas?
Não. Acho que se contam pelos dedos das mãos as vezes que fui a uma discoteca. Sou mais de ficar por casa. Quanto muito ir jantar fora.

Tem algum filme preferido?
O Braveheart e o Gladiador.

E série?
Vikings e Game of Thrones.

É crente?
Sou. Quando era miúdo ia muito à igreja, agora é raro. Rezo à minha maneira, para mim.

Superstições, tem?
Tenho algumas, quando entro em campo benzo-me sempre três vezes, tento calçar sempre primeiro a bota do pé direito, a luva direita.

Qual foi o treinador de que mais gostou?
O Mourinho.

E menos?
(risos) Não vou dizer. São alguns, dois ou três portugueses que não vale a pena dizer o nome.

Para si qual a sua maior qualidade enquanto guarda redes?
Não gosto muito de falar de mim. Se calhar o ser calmo na baliza. Seguro. Não sei (risos).

E o ponto mais fraco?
O meu pé esquerdo. Evito chutar com o pé esquerdo porque sei que não vai dar certo (risos)