Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

“Fiz CV's, trabalhei numa imobiliária, fui vigilante. Não tenho culpa do que devem: 70 mil do Alverca, um ano do Maia, sete meses do Chipre”

Marco Almeida tem uma paixão assumida pelo Sporting, chegou a ser campeão nacional pelo clube e acredita que um dia ainda vai voltar a trabalhar no reino do leão. Confessa que foi contrariado para o Southampton e que alguém, que não ele nem o seu empresário, ganhou dinheiro com essa transferência. Diz não se arrepender de nada do que fez a não ser uma empresa que criou com um sócio que lhe deixu dividas e explica as dificuldades por que passou para arranjar emprego numa imobiliária, de onde saiu porque por ele não vendia, dava as casas.

Alexandra Simões de Abreu

TIAGO MIRANDA

Partilhar

Nasceu no Barreiro, é filho único. Quando era pequenino o que dizia que queria ser?
Sempre jogador de futebol.

Tinha alguém na família ligado ao futebol?
Ligado diretamente ao futebol, não. O meu pai sempre foi um aficionado, também jogou mas nunca chegou a patamares elevados, jogava no clube do Barreiro, o Independente, e eu sempre o acompanhei. O bichinho do futebol estava cá.

Torcia-se por que clube na família?
Pelo Sporting, sempre. A minha mãe, o meu pai, o meu avô, toda a família praticamente.

Era daqueles que ia com a bola debaixo do braço para a escola?
Ia com a bola debaixo do braço para a escola e depois não ia à escola. Era mais por aí (risos).

Não gostava da escola?
Não, nunca gostei muito de estudar, nem nunca gostei muito da escola, assumo, embora tenha sido sempre um aluno normal. Chumbei um ano, como acontece, nunca tive grandes notas, nunca fui um aluno supra-sumo.

Deixou a escola quando?
Tenho o 10.º ano.

Mas estava a contar que agarrava na bola e não ia à escola…
...Agarrava na bola, ia para a escola só que depois saltava a vedação e ia jogar. Isto desde a primária. Só que houve uma coisa que eu não controlei, do sítio onde tinha as aulas, a professora via a minha rua e via-me a jogar à bola. A minha mãe foi chamada à escola, a partir daí comecei a faltar menos vezes (risos).

Marco Almeida diz que é do Sporting desde que nasceu

Marco Almeida diz que é do Sporting desde que nasceu

D.R.

Como e quando vai para o Sporting?
Onde eu morava faziam aqueles torneios de futebol de salão e, tanto eu como os meus amigos, íamos para lá jogar. Foi assim que comecei a jogar. Entretanto o meu pai leu numa altura num jornal que o Sporting estava a fazer captações para os infantis e pegou em mim e levou-me para Lisboa.

Lembra-se desse dia?
Lembro-me que, quando chegámos ao antigo estádio de Alvalade, éramos milhares de miúdos. Havia fila desde a porta 10A até ao antigo pavilhão ao pé da estrada, ao pé da Bóia Verde.

Ficou assustado?
Assustado, não, porque ia fazer uma coisa de que gostava e ia-me divertir. Agora surpreendeu-me a quantidade de miúdos. Estive ali uns dias à experiência como todos os outros, foram fazendo uma triagem, eu fui ficando até que fiquei de vez.

Como é que passou a ser a sua vida? Ficou no lar do Sporting ou ia e vinha todos os dias com o seu pai?
Nunca fiquei no lar. Na primeira semana fui com o meu pai, mas entretanto o meu pai também tinha de trabalhar, ensinou-me o caminho durante essa semana e a partir daí fui sempre sozinho.

Com que idade?
Com 10 anos. Saía de casa por volta das quatro, cinco da tarde, quando acabava a escola, apanhava o autocarro, o barco, depois em Lisboa apanhava novamente o autocarro e chegava a casa por volta da meia-noite, uma da manhã. Foi assim durante muitos anos.

Lembra-se dos primeiros amigos que fez no Sporting?
Lembro, ainda hoje falamos. Não tão regularmente.

Quem eram?
Joguei muitos anos com o Dani, que hoje é comentador da TVI, com o Sabugo, que chegou a jogar na I divisão também, entre outros.

Qual era a sua maior ambição na altura?
A minha meta a partir do momento em que entrei no Sporting era chegar à equipa principal. E tive a sorte e, porque não dizer também, o mérito, de lá chegar. Sempre focado e sempre com esse objetivo em mente.

Durante a formação no Sporting, qual o treinador que mais o marcou?
Aprendi com todos eles. Especialmente na parte humana. Costumo dizer que entrei naquela casa menino e saí um homem. O Sporting conseguiu formar-me essencialmente como homem e também como jogador. Todos me marcaram, desde o Osvaldo Silva e o Pedro Nascimento que foram o meus treinadores nos infantis, passando depois pelo Rui Palhares; ainda ontem falei com o meu treinador nos juvenis, o Manoel Miluir, brasileiro que está neste momento na Arábia; o professor Carlos Dinis… Todos eles me marcaram de forma positiva.

Marco fez toda a formação no Sporting

Marco fez toda a formação no Sporting

D.R.

Foi emprestado ao Casa Pia no juniores. Porquê?
Foi numa altura em que tinha saído uma lei que previa que podias fazer três anos de júnior, ou então saltar logo para os seniores. Juntamente com o Sporting, chegamos à conclusão que podia jogar logo no futebol sénior. Como o Sporting tinha um protocolo com o Casa Pia, fui eu, o Rui Varão e o Renato.

Jogou sempre na defesa?
Não. Quando fui para o Sporting, o meu pai jogava a ponta-de-lança, eu estava habituado a vê-lo nessa posição, então eu era -ponta-de-lança também. O primeiro treino que fiz no Sporting foi a ponta-de-lança. Aquilo não correu bem e o Osvaldo Silva pôs-me a médio centro e a partir daí fiz a minha formação como trinco. Chego à posição de defesa central já no Lourinhanense. A partir daí é que apostaram mais em mim como defesa central.

Tinha alguma alcunha?
Nos infantis era o Barreirense. O Osvaldo Silva tinha essa mania de pôr como alcunha o sítio de onde éramos. O Sabugo era do Sabugo, eu era o Barreirense porque era do Barreiro e por aí fora.

Depois do Casa Pia vai jogar pelo Lourinhanense ainda como júnior?
Não, já como sénior. O Sporting faz um protocolo com o Lourinhanense, como equipa B, como satélite, e fui para o Lourinhanense.

Ficou desiludido?
Não, porque sempre tive a consciência de que fazia parte da minha formação como jogador. Nunca fiquei desiludido, nem poderia ficar, sabia que era para o meu bem, que as pessoas estavam a acompanhar-me e fui para ali como poderia ter ido para outro lado qualquer, mas sempre ligado ao Sporting. Nunca iria ficar desiludido com o Sporting.

Recorda-se do seu primeiro ordenado?
Sim, foram 150 contos, tinha 17 anos, foi o primeiro contrato profissional. Antes pagavam-me o passe.

O que fez ao dinheiro?
Lembro-me que a minha mãe queria uma aparelhagem e comprei-lhe uma. Ela tinha um gira-discos, sempre gostou e ainda hoje continua a gostar muito de música, e na altura estavam a começar a aparecer os CD's e eu comprei uma aparelhagem para a minha mãe. Eu dava o dinheiro aos meus pais e se precisasse de alguma coisa, pedia.

Como foi ter de sair de casa e ir viver para a Lourinhã?
Foi uma coisa natural, fui eu e os outros colegas de equipa. Fomos viver para a Areia Branca, para uns apartamentos que eram da dona Arlete que devia ter um protocolo com o Lourinhanense. Vivíamos todos uns ao lado dos outros.

Marco afirma que o Sporting formou-o como jogador mas sobretudo como homem

Marco afirma que o Sporting formou-o como jogador mas sobretudo como homem

D.R.

Faz a sua estreia na equipa principal do Sporting em 1997/98. Quem era o treinador?
Começou por ser o Octávio Machado, que ia muitas vezes à Lourinhã ver jogos. Na época a seguir fui chamado para integrar o plantel sénior, fiz a pré-época e fiquei na equipa.

Conseguiu atingir o seu objetivo.
Não foi tanto o consegui, foi mais o "já estou cá".

Quem eram os seus ídolos?
Gostava muito do Fernando Couto, do Luizinho também, do Sporting, mas era mais do Fernando Couto, pela maneira dele jogar.

Estreia-se no Sporting com o Octávio Machado?
No plantel, sim, a jogar; o primeiro jogo que fiz foi com o Vicente Cantatore, no mesmo ano.

Lembra-se do jogo?
Foi com a Académica. Foi uma semana um bocado atípica porque o Marco Aurélio e o Beto eram os titulares, mas o Marco Aurélio estava lesionado e o Beto castigado, sobrava eu e o Néné. Até então, eu não tinha entrado porque quando acontecia alguma coisa cá atrás, baixava o Oceano ou baixava o Vidigal, porque era muito difícil apostarem em dois jovens e já lá estava o Beto. Na posição de defesa central normalmente querem experiência e estarem ali dois miúdos, com 19 anos, era um bocado arriscado. Mas durante aquela semana fui percebendo que o treinador às vezes punha-me na equipa titular, outras vezes não. Entretanto convoca-me e a partir do momento em que estou convocado, penso que vou jogar sabendo que havia as outras opções para fazerem o meu lugar. Vamos para estágio e no dia do jogo, logo de manhã, o Cantatore telefona-me para o quarto antes do pequeno almoço e diz para eu baixar ao hall de entrada porque queria falar comigo. Ele disse-me: “Olha Marco és tu que vais jogar, quero que saibas que vai correr tudo bem, se não correr bem, ou se correr menos bem, eu estou cá para assumir. Se correr bem, o mérito é todo teu porque és internacional português, fazes parte de um dos três grandes do futebol português”. Eu aí tive que o interromper um bocado para dizer que fazia parte do melhor clube do mundo, não era dos três grandes, era do melhor clube do mundo, e tinha a certeza de que iria correr bem e agradeci-lhe a oportunidade. Se estava nervoso? Claro, muito nervoso, mas tive sempre o apoio dos meus colegas mais velhos.

E correu-lhe bem.
Correu, ganhãmos 1-0, fiz o golo. Era a estreia que eu queria.

Começa a fazer dupla com o Beto. A dupla mais jovem de sempre...
...Até hoje. Penso que ainda ninguém bateu esse recorde.

Marco (3º atrás à esquerda) com a sua equipa de iniciados do Sporting

Marco (3º atrás à esquerda) com a sua equipa de iniciados do Sporting

D.R.

Mas faz poucos jogos e na época seguinte volta ao Lourinhanense. Porquê?
Porque aí estava nos dois lados. Treinava com o plantel sénior do Sporting durante a semana e ia jogar aos fim de semana pelo Lourinhanense para não estar parado e não jogar.

Não se sentia desiludido por não jogar na equipa principal?
Sempre pus na ideia de que fazia parte do meu crescimento como profissional de futebol. E, na altura, eu queria era jogar. Tinha oportunidade de treinar com os seniores do Sporting, que não era para toda a gente, e jogava ao domingo pelo clube satélite. Sempre encarei isso com grande naturalidade.

A primeira saída à noite com quem foi?
Foi uma saída normal com os meus amigos e a minha namorada da altura, aqui no Barreiro. Mas nunca fui muito de sair à noite. Sempre fui muito reservado e focado naquilo que queria. É claro que saí, não vou dizer que não, saía quando podia, quando tinha folga.

Nunca teve problemas, nunca chegou tarde a um treino?
Nunca. E quem disser o contrário está a mentir.

Tinha como imagem de marca caracóis louros e compridos. Deixou crescer por causa das namoradas ou por outro motivo?
O Fernando Couto tinha o cabelo grande e eu identificava-me com o Fernando Couto na maneira de jogar, então o cabelo foi crescendo. Mas sempre tive o cabelo mais ou menos assim desde miúdo. Entretanto, mais à frente, perto dos iniciados ou juvenis, pus na cabeça que só cortava o cabelo quando o Sporting fosse campeão. E assim foi.

Cortou.
No dia a seguir a termos sido campeões. Tanto que no dia a seguir eu chego a Alvalade para os treinos com o cabelo curto e os sócios pensavam que eu era um jogador novo (risos).

Voltando ao seu percurso, depois do Lourinhanense, vai para Campo Maior. Como é que isso acontece? Já tinha empresário?
Comecei a ter empresário com 18 anos. Era o Amadeu Paixão. Ainda hoje falamos, um grande homem.

Ele que foi ter consigo?
Sim foi ele que foi ter comigo no final de um Portugal/Grécia, na seleção de sub-18. Disse que me queria agenciar. Tivemos uma empatia muito grande logo na primeira conversa. Foi sempre atencioso comigo, nunca me faltou com nada, ainda hoje somos amigos.

Marco (3º atrás à esquerda) na seleção de Sub-21

Marco (3º atrás à esquerda) na seleção de Sub-21

D.R.

Vai então para o Campomaiorense.
Vou porque não tinha espaço no Sporting, mas tinha contrato com o Sporting, fui emprestado. Mas nesse ano fui ao Torneio de Toulon, no ano em que o Boa Morte sai para o Arsenal, e estive para ir para o Betis de Sevilha, que me queria. O Sporting não me deixou sair; entretanto surge o empréstimo ao Campomaiorense, que estava ligado ao Sporting. Foi o mister João Alves que falou comigo diretamente.

Foi sozinho?
Sim.

Quando é chamado pela primeira vez a uma seleção?
Desde os sub-13 que jogava pela seleção de Lisboa, no Inter Associações. À seleção nacional sou chamado com 15 anos, era Rui Caçador o treinador. No total fiquei com 55 internacionalizações, fui até à seleção B.

Da época no Campomaiorense, qual a primeira coisa que lhe vem à memória?
O final da Taça de Portugal contra o Beira Mar. Perdemos 1-0, mas foi um feito histórico. Acho que o Campomaiorense nunca mais vai chegar a uma final da Taça de Portugal. Foi uma época muito regular, uma época muito boa.

E sai para o Southampton, em Inglaterra, mas contrariado.
Sim. Eu regresso ao Sporting no final da época no Campomaiorense, e os diretores do Sporting eram duas pessoas que felizmente já lá não estão, que me obrigaram praticamente a sair do Sporting contra a minha vontade.

Porquê?
Por dinheiro. Alguém ganhou dinheiro, não fui eu, nem o Amadeu, mas alguém ganhou. Mas há males que vêm por bem.

Foi sozinho?
Sim.

Quando lá chegou foi um choque grande?
Um choque no sentido das mentalidades. Pessoas muito frias, embora me tenham recebido bem. Ao princípio foi muito complicado. Tinha o inglês da escola. Safava-me mais ou menos, conseguia manter um diálogo, mas depois eles têm aquelas expressões deles e era o complicado.

O futebol muito diferente?
Muito, muito diferente.

Adaptou-se bem ou teve alguma dificuldade?
Nesse aspecto, também fizeram um bom trabalho comigo. Começo na equipa de reservas do Southampton, mas ia alternando entre as reservas e a equipa principal, até que fiquei na equipa principal.

Ficou a viver num apartamento?
Estive dois, três meses num hotel e depois fui para uma casa e aí já fui com a minha namorada da altura, a Lena, mãe dos meus filhos.

A primeira experiencia de Marco fora do país é em Southampton, Inglaterra

A primeira experiencia de Marco fora do país é em Southampton, Inglaterra

D.R.

Como é que conheceu a sua mulher?
Ela morava praticamente ao pé de mim. Conhecemo-nos com 16 anos, tínhamos o mesmo grupo de amigos, idas à praia, aquelas coisas normais, nasceu dali um amor e dois filhos. Estivemos juntos muitos anos.

Os seus filhos nascem quando?
A Bruna tem 18 anos, nasceu em 2001, e o Bernardo tem 16 anos. Sempre foi um sonho meu, ter filhos.

O que fazia a sua ex-mulher?
A mãe dos meus filhos na altura trabalhava numa loja em Lisboa. Neste momento trabalha num escritório de advogados. Dou-lhe muito valor, merece-me todo o respeito do mundo, é uma excelente mãe, sempre foi uma excelente mulher, hoje em dia não estamos juntos, mas conseguimos manter uma amizade positiva e damos-nos super bem.

Do que gostou mais e menos de Inglaterra?
Gostei essencialmente do futebol, da maneira como os ingleses veem o futebol. O que gostei menos foi mesmo das pessoas, não digo do geral porque pessoas boas e pessoas más há em todo o lado, mas o inglês é muito frio. Tanto que ao princípio até que me assumisse como jogador da equipa principal foi complicado, até em termos de colegas. Não me passavam a bola. Tive ali um início de dois, três meses complicado.

Não se foi abaixo psicologicamente?
Não, sempre fui focado naquilo que queria. Considero-me uma pessoa extremamente forte psicologicamente.

Marco ainda guarda um recorte do jornal Daily Echo sobre a sua passagem no Southampton

Marco ainda guarda um recorte do jornal Daily Echo sobre a sua passagem no Southampton

D.R.

Entretanto regressa ao Sporting.
Regresso ao Sporting em dezembro.

Mas estava para ir para o Benfica, certo?
Sim. Foi assim: Estávamos a chegar a dezembro, o meu contrato com o Sporting terminava nesse ano e eu saía livre pela Lei Bosman. Entretanto o Southampton já tinha posto em cima da mesa uma proposta de cinco anos de contrato que estava a analisar com o meu empresário. Mas eu sempre à espera do Sporting. O Amadeu telefona-me uma dia à noite e diz: “Marco vamos para Portugal.” “Mas vamos para Portugal porquê? Para onde?”. “Vamos para o Benfica”. Era o Benfica do Vale e Azevedo e Graeme Souness. “Para o Benfica?!”. “Sim, vamos para o Benfica, já falei com o presidente. O contrato é de três anos”. Eu ia ganhar muito mais do que aquilo que estava a ganhar no Sporting, muito mesmo. Eu disse-lhe: “Não, não vamos” (risos). “Mas não vamos porquê?! Regressas a Portugal pela porta grande”. “Não. Não vou regressar pela porta grande. Se fosse pela porta grande não era pelo Benfica”. Atenção, com o máximo respeito que o Benfica me merece em termos de instituição. Disse-lhe: “Se é para ir para o Benfica, fico aqui os cinco anos no Southampton. Quero ouvir o Sporting. Se o Sporting me disser o nosso vínculo acaba aqui, obrigadinho por tudo, boa noite e um queijo e vai à tua vida, é uma coisa. Mas até agora eles não disseram nada, vamos ver”.

O que lhe disse o empresário?
O Amadeu diz-me: “O.K., mas então que isto fica só entre nós, ninguém pode saber disto”. “Pela minha parte esteja descansado, você nem me ligou”. Passaram uma, duas horas, toca novamente o telefone, era o Luís Duque, o diretor do Sporting. Eu conhecia-o de jornais, mas nunca tinha falado com ele. Depois das primeiras trocas de palavras de circunstância ele diz: “Eu já sei que você recebeu uma proposta do Benfica. Então vamos fazer o seguinte, você às oito e vinte cinco da manhã tem um avião para vir embora para Alvalade renovar dois anos”. Fiquei ali trinta segundos em silêncio a assimilar aquilo tudo. “Mas doutor isso é para...”. “É para amanhã”. “Ok então amanhã estou lá”. Fiz as malas e vim embora. Telefonei ao Amadeu, ele já sabia.

Veio embora sem saber pormenores do contrato, sem saber quanto ia ganhar?
Não me interessava quando é que ia ganhar. Nem nunca discuti valores com o Sporting, nunca. Devo muito ao Sporting, formou-me como homem, já nem digo como profissional de futebol, devo tudo àquele clube.

Marco cumpriu o sonho de jogar pela equipa sénior do Sporting

Marco cumpriu o sonho de jogar pela equipa sénior do Sporting

D.R.

Como é recebido pela equipa?
Venho com o aval da equipa técnica, na altura era Inácio o treinador.

Que tal?
Excelente homem, excelente treinador, um motivador de homens, um condutor de homens, disciplinador, só podíamos ter sido campeões e fomos.

Passados 18 anos.
Sim, especialmente depois de estarmos 18 anos sem ganhar qualquer título de campeão. Houve uma altura durante a época em que as coisas estavam tremidas e aí entra o Inácio. Quando ele sentia que a equipa estava a baixar, ele levantava a equipa.

Há alguma coisa que recorde em especial desses dias de festejo? Alguma situação, algumas palavras?
O que me recordo mais é da alegria dos sportinguistas e da nossa como é óbvio. Mas a alegria do adepto do Sporting, que é um adepto que é diferente de todos os outros, digam o que disserem.

Explique lá isso.
O adepto do Sporting já nasce sportinguista e não é fácil um clube como o Sporting estar demasiado tempo sem ganhar e ter estes adeptos, estes sócios, com este amor ao clube. A quantidade de miúdos com 10, 11, 12 anos que hoje em dia vai ver jogos do Sporting sem nunca ter visto o Sporting ganhar nada, com a alegria e a maneira como sentem o Sporting é extraordinária. Só podemos ser diferentes, já nasce connosco.

Marco Almeida no dia da entrevista

Marco Almeida no dia da entrevista

TIAGO MIRANDA

A verdade é que regressa ao Campomaiorense na época seguinte. Vai dizer que também não ficou chateado?
A questão aí foi é que eu estava com 21/22 anos e tinha necessidade de jogar regularmente. Tive a sorte e o azar de ter chegado ao Sporting na mesma altura do que eu, um senhor, um senhor jogador, chamado André Cruz. Quando cheguei a Alvalade, ele ainda não estava e a conversa que tenho com o Inácio é que a dupla de centrais seria eu e o Beto, ponto. Entretanto aparece esse senhor, o André Cruz. Como jogador não há palavras, excelente jogador. Fiquei mais uma vez tapado. Entretanto, fomos campeões, a época começa e vou falar com o Inácio para sair do Sporting, porque com a idade que tinha, preferia fazer 20/30 jogos do que estar ali no Sporting e fazer três, quatro jogos, independentemente do amor que eu tenho ao Sporting. Eu sabia que ia fazer poucos jogos e por isso fui falar com o Inácio, ele tinha feito a lista para a Liga dos Campeões e eu estava integrado nessa lista, ele mostrou-me a lista. Não era porque o Inácio não contasse comigo, não foi por o Sporting não contar comigo, eu é que tomei a decisão de que tinha de jogar mais regularmente tendo em conta a minha idade. Digo-lhe sinceramente: se já tivesse 27, 28 anos ficava, não me importava de ficar. Agora com aquela idade ainda tinha muita coisa pela frente.

Porquê o Campomaiorense e não outro clube?
Estive para ir para o Paços de Ferreira, na altura até me davam dinheiro na mão, as chamadas “luvas” para assinar. Mas preferi ir para o Campomaiorense porque havia interesse deles e como já tinha lá estado anteriormente e tinha gostado da terra, das pessoas, do clube... Seria muito mais fácil do que ir para um clube diferente e começar tudo do início.

Quem é que estava a liderar o Campomaiorense?
O Carlos Manuel, que me telefonava todos os dias para ir para o Campomaiorense. E com quem já tinha trabalhado anteriormente no Sporting. Com ele joguei sempre também. Foi no ano do Cantatore. Tivemos quatro ou cinco treinadores esse ano. Começa o Octávio, depois fica ali uns dias o Vital só para aguentar o barco, vem o Cantatore, o Cantatore é despedido e entra o Carlos Manuel.

Marco (2º à direita, atrás) na seleção de sub-21

Marco (2º à direita, atrás) na seleção de sub-21

D.R.

Entretanto as coisas não correm bem com o Carlos Manuel no Campomaiorense. O que aconteceu?
Não sei. Sei que ele ligava-me todos os dias. “Marco vem para aqui.”, “mister estou a ver...”, “qual mister, para ti é Carlos”. Vou para Campo Maior começo a jogar com ele e depois de um jogo em que perdemos, 2-0 com o E. da Amadora, com dois golos fora da área, nunca mais contei.

Não o questionou?
Nunca. Nunca questionei nem Carlos Manuel, nem ninguém, tinha que acatar. Lembro-me de uma situação com o João Alves que me pôs de castigo durante cinco jogos, na primeira vez que estive no Campomaiorense. Perdemos um jogo em casa com o Leiria e, na opinião do Alves, um dos golos tinha sido por minha culpa e ele pôs-me cinco jogos de castigo. Eu vinha de titular e na primeira semana depois desse jogo, nem convocado. Ele caladinho e foi assim até ao quinto jogo. No quinto jogo vamos jogar a Faro, fui convocado mas fiquei de fora. Na terça-feira chama-me e diz: “Miúdo anda cá. Como é que estás?”. “Estou bem, tenho trabalhado bem acho eu, estou à espera novamente de uma oportunidade”. Foi aí que tirei uma grande lição sobre a maneira como alguns treinadores pensam. Ele diz-me: “Eu tirei-te por causa daquele episódio do golo. Era para te ter dado a oportunidade passado dois jogos porque a equipa precisa de ti, e eu preciso de ti, mas eu queria ver como é que era a tua reação. Se trabalhas da mesma maneira quando és titular e quando não és. E tu mostraste-me que sempre foste profissional, sempre trabalhaste da mesma maneira. Foram cinco jogos, um mês e uma semana, mas foi por causa disto”. E ficámos amigos e ainda hoje somos amigos.

E com o Carlos Manuel o que aconteceu?
Não sei. Não faço a mínima ideia. Nem tinha de me dar explicações. Sei que na altura eu tinha um Mercedes Kompressor, de dois lugares, cuja matrícula infelizmente acabava em JR. E ele dizia que tinha sido o João Rocha a oferecer-me o carro porque acabava em JR. Nunca ninguém me deu nada, tudo aquilo que tenho e que tive saiu-me do corpo. Sempre gostei muito de carros e de ver a F1. Mas ele achava que eu era um menino do Sporting, que estava habituado a isto e aquilo… Houve uma altura que queria mexer-me no telemóvel. A coisa rebentou de vez quando, por causa de lesões, o único central que sobrava era eu. Ele reuniu toda a gente no treino e começou a distribuir os coletes dos titulares e mandou-me o colete. Ou seja, já precisava de mim. Eu agarro no colete, mando-lhe à cara e digo: “Agora joga tu”. E nunca mais falámos.

Os filhos de Marco, Bruna e Bernardo

Os filhos de Marco, Bruna e Bernardo

D.R.

Segue-se o Alverca. Como lá vai parar?
Estava para ir para Guimarães, foi na altura em que o Inácio também ia para Guimarães. Ele queria-me, ao Afonso Martins e ao Toñito. Chego ao Sporting com o Amadeu para dizer o que tínhamos e o diretor do Sporting diz que não, que eu tinha mais dois anos de contrato com o Sporting e que ia para o Alverca. “Para o Alverca!? E eu sou o último a saber disto, mas o que é que se passa?”. “Está tudo tratado Marco. Vais para o Alverca, o Diogo vem para aqui como moeda de troca, nos dois primeiros anos vais ganhar o mesmo que ganhas aqui no Sporting e o último, são três anos de contrato, defines tu com o Alverca”. E eu disse-lhe: “Então não vou. Quero ficar aqui”. “ Então se ficares, ficas na equipa B”. E foi assim que cheguei ao Alverca, com vinte e poucos anos. Lá está, se 27/28 ficava, não tinha problema nenhum.

Quem era esse diretor do Sporting?
Carlos Freitas. Agora o porquê, como é que foi, quais foram as jogadas que houve, que com certeza houve muitas, porque o jogador em causa, que era para vir para o Sporting, ligava-me todos os dias para ver se eu já tinha acertado com o Alverca. Desvinculei-me totalmente do Sporting e assinei três anos com o Alverca.

Já era pai?
Já. A minha filha nasce quando estou no Campomaiorense. Estava no meio do treino e o senhor Murcela aos gritos no meio do campo: “Marco, Marco tens de ir para Lisboa que a tua mulher estar entrar em trabalho de parto”. Fui a correr para o Barreiro, quando cheguei já tinha nascido. Sempre quis ter uma menina primeiro. Não tenho aquela coisa do primeiro filho ter que ser homem. Sempre quis ter uma menina primeiro e fui eu quem lhe pôs o nome.

Quem teve como treinador no Alverca?
Carlos Pereira, José Couceiro e Vítor Manuel. Individualmente correram bem, em termos de clube não correram tão bem porque descemos de divisão no primeiro ano derivado também ao Apito Dourado. Depois, num jogo que fizemos com o Boavista em que estamos a ganhar 1-0, o árbitro dá sete minutos de desconto, não saímos da nossa grande área e perdemos 2-1. Alguém disse alguma coisa nas televisões e nos jornais e a partir daí tivemos 12 penaltis contra e descemos de divisão. O Alverca com muito esforço consegue manter a maior parte dos jogadores, a espinha dorsal, digamos assim, da equipa, os jogadores mais influentes e mais importantes, e conseguimos novamente subir à I Divisão.

Marco no dia da entrevista

Marco no dia da entrevista

TIAGO MIRANDA

Também teve um episódio com o Vítor Manuel…
O Vítor Manuel vem do Salgueiros, nunca tinha trabalhado com ele, não sabia quem era. Respeitava-o como treinador, pelo trabalho que tinha feito, ainda hoje falamos. No dia da apresentação do Vítor, eu estou deitado na marquesa a fazer tratamento porque fui duas vezes operado aos tendões de Aquiles e quando ele entra na cabine estou a fazer tratamento e curiosamente, azar ou não, estou a ler uma revista de carros. Eu nunca tinha falado com o Vítor Manuel, nem bom dia, nem boa tarde, e a primeira coisa que ele me diz nem foi: “Marco estás bom ou estás melhor?”. Não. “Vejo que ainda gostas muito de carros”. Se uma pessoa que nunca falou comigo, que não me conhece de lado nenhum como pessoa, vem dizer-me que gosto de carros…. . O Vítor Manuel sai do Salgueiros e quem é que entra para lá? Carlos Manuel. 2+2, não é muito difícil fazer as contas. Entretanto, eu recupero, tinha estado muito tempo sem jogar devido à operação ao tendão de Aquiles, por isso entro, saio, entro, saio. Sempre tivemos uma relação cordial, sempre a respeitar a opinião de cada um. Mas tínhamos as mesmas coisas que eu tinha com o Carlos Manuel. As mesmas bocas, de parte a parte. Eu nunca fui de me calar. O que eu tenho para dizer, digo na cara, olhos nos olhos. Tanto que toda a gente dizia que eu era um líder, dava o corpo às balas pelos meus colegas. Claro que havia colegas que não gostavam de mim, da mesma maneira que eu não gostava deles, mas tinha a maior parte sempre do meu lado. Não foi por acaso que nas equipas por onde passei, praticamente fui sempre capitão de equipa ou fazia parte dos capitães de equipa. Por algum motivo era.

De que forma é que essa maneira de ser o prejudicou?
Não tenho medo de ninguém e tudo o que for para defender os meus, vou lá para a frente. Custou muita coisa? Custou, tenho essa noção. Mas ficava bem comigo mesmo. Em relação ao Vítor Manuel era isso. Ele se calhar pensava que eu me encolhia e eu nunca me encolhi, sempre o confrontei. A nossa relação esteve ali um bocado tremida. Quando já tínhamos descido de divisão, num jogo em Braga, ele meteu um miúdo a jogar, o Pedro Neves, que estava a aparecer. Meteu o miúdo com o Veríssimo; normalmente eu fazia dupla com o Veríssimo. Infelizmente para o Pedro, aquilo não correu bem e aos primeiros 20 minutos, ele comete dois erros, sofremos um penalti, estávamos a perder, 3-0 nos primeiros 20 minutos e o Vítor Manuel virou-se para mim que estava no banco e disse, “Marco vai aquecer”. Com 3-0, em Braga, já a descer de divisão, eu disse-lhe: “Não, agora vai tu lá para dentro. Quando estamos a perder por 3 a 0 é que eu vou entrar? Não pá, agora jogas tu”. Perdemos 5-0.

Foi castigado?
Não. Porque as pessoas que estavam à frente do Alverca sabiam mais ou menos o que é que se passava.

Na última época em Alverca tem José Couceiro como treinador.
Só tenho coisas boas a dizer do senhor Zé Couceiro. Humano, profissional, amigo, essencialmente amigo, ainda hoje falamos, é uma excelente pessoa.

Foi embora com o Alverca a dever-lhe dinheiro não é?
Sim, na altura foram cerca de 110 mil euros. A SAD do Alverca abre falência e os contratos estavam todos agregados à SAD, tentaram fazer um acordo connosco, houve jogadores que aceitaram, alguns aceitaram 50% do que tinham para receber, eu não aceitei. Entretanto, eles pagam-me parte da dívida e neste momento ainda me devem 70 mil euros. Quando é que me vão pagar? Não sei. O que sei é que o Futebol Clube Alverca continua, inscreve jogadores. É certo que ainda não é SAD, mas quem sabe um dia, agora com estes investidores todos que lá estão. Vamos ver.

Marco também jogou no Real Murcia, em Espanha

Marco também jogou no Real Murcia, em Espanha

D.R.

Segue-se o Múrcia, de Espanha.
Para o Múrcia de Espanha vou por intermédio do Paulo Futre, amigo também do Amadeu, que soube que eu não tinha clube.

Foi sozinho ou com a família?
Fui com a Lena, a Bruna e o Bernardo. Fui super bem tratado pelas pessoas do clube, pelos colegas, correu tudo bem.

Mas jogou poucas vezes.
Fui operado três vezes. Duas vezes ao segundo dedo do pé direito e parti o cúbito. As do dedo do pé foram lesões prolongadas. Saio de uma e quando começo a jogar novamente, outra vez o dedo. Depois foi o cúbito, foi praticamente uma época.

Depois regressa a Portugal, para o Maia.
E fico um ano sem receber. Dez meses sem receber. As pessoas pensam que o profissional de futebol ganha rios de dinheiro. Não é mentira, mas são muito poucos que ganham esse dinheiro. 80% não ganha. Falo por mim, nunca ganhei muito dinheiro. E quando estás praticamente 10 meses sem receber... é muito complicado. E já com filhos, contas para pagar, aonde é que vais tirar? Do que tens de lado. E se vais tirar, por experiência própria também digo que, já não voltas a pôr. Por muito que queiras já não consegues. Porque chegamos a uma altura, ali aos 30 e poucos anos e os contratos já não são iguais, a maior parte são mais baixos.

Como correu desportivamente a época no Maia?
Começamos com o Ferreirinha como treinador e depois veio o Eurico Gomes. Apanhei os dois. A nível do futebol, do grupo, dos treinadores e dos jogadores, tínhamos uma boa equipa, tanto que com o Ferreirinha que sai passados dois meses e pouco, nós estávamos para subir de divisão, mesmo sem receber. Ele motivava-nos de tal maneira que quando íamos para o campo, aquilo parecia que era o último jogo da nossa vida. O Ferreirinha achou por bem sair, porque lhe meteram na cabeça que se saísse havia dinheiro para entrar. Ele para nos proteger, saiu. O que é certo é que o homem sai e dinheiro que é bom, nada. Não houve dinheiro até ao final da época. Foi uma época muito complicada.

Estava com a mulher e filhos?
Não, eles ficaram cá em baixo.

Para o Portimonense também foi sozinho?
Sim, vou sozinho também para Portimão. A partir daí andei sempre sozinho. O Portimonense surgiu através do Diamantino, que falou comigo. Era um projeto de II Liga, mas pronto tudo bem.

Os filhos de Marco Almeida

Os filhos de Marco Almeida

D.R.

É muito difícil para um jogador deixar a I Liga para jogar na II? Que diferenças maiores é que encontrou?
Costumo dizer que é mais fácil jogar na I divisão, pelo menos naquele tempo.

Porquê?
Porque tens mais espaço, tens mais tempo para pensar, tens mais tempo para levantar a cabeça. Naquela altura, a II Liga era muito choque, muito musculada, acho que a diferença maior era essa. Os estádios e os adeptos também são diferentes, toda a gente quer jogar com o Sporting, com o Porto, com o Benfica.

A seguir ruma até ao Nea Salamis do Chipre uma época, volta para jogar no Lusitânia de Lourosa outra época e regressa ao Chipre. Explique lá este interregno.
Eu saio do Chipre mentalizado que não volto a jogar. Estava cansado depois do que se tinha passado no Maia, tantos meses sem receber, estava farto do futebol; entretanto, separo-me também da mãe dos meus filhos, etc. Mas, depois, telefona-me o Pedro Martins que tinha sido meu colega e que hoje é treinador do Olympiacos. Ele estava a começar no Lusitânia de Lourosa. Expliquei-lhe: “Pedro não vou por causa desta situação assim e assim”. Mas ele conseguiu dar-me ali a volta à cabeça, disse que me ajudava e que eu o ajudava a ele. E lá fui, estive lá um ano. Ganhei um novo fôlego e volto novamente para o Chipre.

Gostou do Chipre?
País fora de série, pessoas fora de série, tanto que estive lá três anos, porque gostei muito daquilo, as pessoas gostavam muito de mim também. Adaptei-me logo, sentia-me em casa.

Do que mais gostou?
Da maneira como as pessoas me tratavam. Com carinho. Gosto que as pessoas na rua ainda hoje me reconheçam, faz-me bem ao ego. Foi isso que me cativou, o carinho que as pessoas tinham para comigo.

Um futebol muito diferente.
Completamente. Hoje em dia já não porque começaram a ir muitos estrangeiros para lá, tanto jogadores como treinadores. Eles quiseram aprender.

Estavam lá alguns portugueses?
Estavam. Nesse ano, no Salamis, éramos cinco portugueses. Curiosamente quase não falávamos uns com os outros.

Porquê?
(risos). Os portugueses são assim. Dava-me muito bem com o Dário, que era o treinador da Académica no ano passado, nos sub-23, falávamos muito bem e estávamos sempre os dois, agora com os outros não fazíamos muita questão.

Ficou a viver onde?
Fui viver para um hotel, mas no contrato tinha direito a casa e carro. Ao fim dos primeiros 15 dias comecei a ficar farto do hotel e fui falar com as pessoas do clube. A minha casa? E eles: “Não te preocupes que a gente amanhã resolve isso”. Deixava passar uns dias e voltava a perguntar. A resposta era sempre a mesma. Até que houve uma altura em desisti. Fiquei um ano a viver no hotel (risos). Tanto que às vezes os meus amigos ligavam a perguntar, a tua casa? A minha casa é um espetáculo tem trezentos e tal quartos, uma piscina enorme (risos).

TIAGO MIRANDA

Quando regressa ao Chipre, para jogar no Akritas Chiorakas, aconteceu-lhe o mesmo?
Não, depois vou para outra cidade e para um apartamento. Mas tinha o mesmo problema. Faltava a televisão, mas acabei por ter de comprar porque se estivesse à espera deles…(risos).

Fica duas épocas no Akritas e termina a carreira. Tomou essa decisão ou não tinha clubes interessados?
Deixar de fazer uma coisa que era a minha vida, que era aquilo que eu amava e gostava de fazer, foi das decisões mais difíceis da minha vida. Deixei de fazer muita coisa na minha vida em prol da minha profissão e foi uma decisão que tomei num dia de jogo. Estávamos em estágio. Estava na varanda do hotel a preparar-me para o jogo. O Chipre tem uma coisa boa, eu chamava aquilo Alcatraz, porque é uma ilha, só vês mar; e eu estava na varanda a olhar para o mar e comecei a pensar em tudo, em tudo. Naquele ano, nos anos para trás, nos sacrifícios todos, naquilo que o futebol me tinha dado, naquilo que o futebol me tinha tirado… (emociona-se). E quando começas a ir para o teu trabalho e não sentir aquele amor, aquela “pica” que dá o jogo, aquela adrenalina, há qualquer coisa que está mal. Antes de um jogo, normalmente estava com aquela adrenalina toda, estava tudo em ebulição cá dentro, o que eu queria era que o jogo começasse para rebentar. Foi nesse dia, nesse jogo que eu disse, é o último ano, não vou jogar mais futebol. Faltavam uns cinco jogos para acabar a época. E vim embora com sete meses de salário em atraso. Mais o que tinha acontecido no Maia. Já chegava.

Sabia o que ia fazer da sua vida?
Não tinha a mínima ideia, só achava que queria continuar ligado ao futebol. Mas depois, pensei e disse: não. Quero ter uma vida normal, quero ter o meu trabalho, quer ter o meu dinheiro, pelo menos receber ao fim do mês que era coisa que eu não sabia o que era há sete meses. Sempre tive a noção de que nunca ganhei muito dinheiro no futebol, nunca tive esse background financeiro que me permitisse viver sem trabalhar. Sabia que quando deixasse de jogar futebol teria de trabalhar e não me assustava. Tenho dois braços e duas perninhas graças a Deus e trabalhei e trabalho.

Não investiu o dinheiro ganho no futebol em nada?
Não, porque estive um ano sem receber no Maia, depois estive mais sete meses sem receber no Chipre e aquilo que tinha juntado, tirei e não repus. Abri uma empresa quando estava em Alverca, dessas máquinas de venda automática, de sumos e sandes. Abri juntamente com outra pessoa que entretanto já faleceu, infelizmente, e que me deixou muitas dívidas. Confiei em quem não devia ter confiado. Deixou muitas dívidas, foi muito dinheiro.

Tirando o apartamento no Barreiro, não tem mais nenhum investimento?
Não, tenho um apartamento normal, como toda a gente tem.

Bruna e Bernardo têm agora 18 e 6 anos, respetivamente

Bruna e Bernardo têm agora 18 e 6 anos, respetivamente

D.R.

Então, veio para Portugal decidido a deixar de jogar e depois?
Venho para Portugal num impasse. O que é que vou fazer agora? Quero continuar ligado ao futebol? Jogar, já não posso, o que é que eu posso fazer? Transmitir ou passar aquilo que fui aprendendo ao longo dos anos, devido à minha experiência e ao que passaram para mim. Treinador de futebol. Começo a tirar o curso de treinador de futebol, começo pelo Águias de Camarate nos juniores, aquilo correu muito bem, entretanto a meio da época pedem para ficar com a equipa de juvenis também, conseguimos ser campeões de juvenis ou subir de divisão, já não me recordo. Mas depois deixei, abandonei porque já não me sentia, lá está, estar ali no Camarate, financeiramente... Eu tinha que ter dinheiro para viver como qualquer pessoa e então comecei a trabalhar.

Em quê?
Foi giro. Eu nem sabia como fazer um currículo. Onde é que você trabalhou? Só joguei à bola (risos). Se eu vou mandar o currículo e digo que só joguei à bola, ninguém me vai dar trabalho. Houve um amigo que acabou a carreira muito mais cedo do que eu e já trabalhava, telefonei-lhe. “Olha lá como é que tu fizeste?”. “Pus todos os clubes em que joguei e houve alguém que deu a mão, deu-me uma oportunidade para trabalhar”. E foi assim que fiz.

Enviou o currículo para onde?
Para todo o lado. Respondi a anúncios nos jornais, na internet.

Que tipo de anúncios?
Todos, eu queria era trabalhar. Porque eu ainda estive praticamente um ano sem fazer nada. Precisava de descansar, nomeadamente a cabeça, e estive praticamente um ano sem fazer nada. Foi um ano de introspecção, de encontrar-me. Pensar no que tinha e não tinha feito, no que tinha e não tinha conseguido, tentar perceber o que era a vida fora do futebol. Quando estás estes anos todos habituado a levantar-te e a ter a rotina do treino, o cheiro da relva... Não foi fácil. Mas chegas a um ponto que... “Epá, espera aí, isto não pode continuar assim”.

Esteve mais tempo com os seus filhos nessa altura?
Sim, também. Perdi a infância dos meus filhos, tenho essa consciência. Daí também dizer que a mãe dos meus filhos é uma grande mulher. Não é fácil criar dois filhos com a diferença de idade que eles têm um do outro, sozinha. Não foi fácil, tenho noção e ela conseguiu.

Estava a dizer que foi um ano de introspecção...
...Até que cheguei um ponto em que tive de me fazer à vida. Que isto é muito bonito de a gente acordar à hora que quer, irmos ao café, ler o jornal, vir para casa, as coisas rodam, vão andando, mas chegas a um ponto em que sentimos um bocado, não vou dizer um inútil da sociedade, mas quase.

O que fez então?
Fiz o currículo e comecei a enviar para todo o lado. Chamam-me de uma imobiliária, em Lisboa, fui à entrevista, eu e mais alguns. Nunca tinha ido a uma entrevista de trabalho, Tinha 35/36 anos, nem sabia para o que é que ia, tinham-me dado umas luzes. Quando cheguei lá estavam duas pessoas a fazer a entrevista. Depois, é isto que ainda hoje o futebol me dá, devido ao que fiz no passado, por tudo o que conquistei no passado, as pessoas ainda têm um carinho por mim, nomeadamente as do Sporting. E quando me chamam, há um que é do Sporting e o outro é do Benfica. Eu não tenho a noção de quando tempo é uma entrevista de trabalho, mas acho que a minha deve ter sido das mais longas que houve. Estivemos ali duas horas e tal a falar de futebol e de trabalho estivemos 15 minutos. Estamos a falar de futebol, do Sporting e do Benfica, e diz um assim, bem vamos lá falar de trabalho. “Então o que é que o Marco sabe fazer?” E eu disse: “Nada. Não sei fazer nada, sei jogar à bola e mesmo assim de vez em quando, era o que era. Mas considero-me uma pessoa minimamente inteligente e estou disposto a aprender. Preciso de uma oportunidade”. E assim foi. Nesse mesmo dia chamaram-me para começar a trabalhar. Receberam-me muito bem na imobiliária, trabalhei lá durante algum tempo ainda.

Conseguiu vender alguma casa?
Não (risos). Sabe porquê? Eu não consigo vender nada, por mim dava as coisas às pessoas. Não tenho jeito para vender nada. Mas foi uma experiência muito gira. Eles pagavam à comissão, não era uma coisa por aí além e entretanto surgiu-me outra possibilidade de trabalho em que ia ganhar mais dinheiro.

A fazer o quê?
Como segurança. Trabalhei como vigilante.

Era reconhecido?
Era.

As pessoas não ficavam admiradas em vê-lo naquela ocupação?
Ficavam e se não ficavam para mim dava-me igual. Porque sempre tive essa consciência, nunca fiz nada para estar um ano sem receber, nunca fiz nada para estar sete meses sem receber. Se dissesse tu tiveste isto e estouraste tudo, podia dizer estás a pagar por aquilo que fizeste no teu passado. Não tiveste cabeça. Porque a gente sabe que há casos desses no futebol. Mas não. Não tenho culpa do Alverca me dever 70 mil euros hoje em dia, não tenho culpa do Maia não me ter pago durante um ano, não tenho culpa de ter estado sem receber sete meses no Chipre, não tenho culpa de nada disso.

TIAGO MIRANDA

Depois de ter sido segurança, seguiu-se o quê?
Surgiu novamente a hipótese de voltar ao futebol. Fui treinador dos juniores do Alta de Lisboa e estive a treinar os seniores do Cartaxo.

Gostou mais de treinar os miúdos ou os seniores?
Os seniores. Quando aceitei ir para os juniores de Camarate na altura disse logo ao presidente que menos dos juniores não era para mim. É mais complicado estares a treinar miúdos de 12 e 13 anos e chegares ao intervalo e teres de dizer algumas coisas que não deves dizer a miúdos dessa idade, do que a juniores que já são homenzinhos, já aguentam ouvir algumas e certas palavras. Os seniores, apesar de terem mais vícios são sempre seniores. Mas deu-me tanto gosto treinar os juniores, como os seniores.

Sempre como treinador adjunto.
Sim.

Depois do Cartaxo, esteve no Carregado e depois foi para o Irão. Com quem?
Com o Wilson. Não correu bem. Mas não falámos da minha passagem pela Malásia.

Malásia? Quando?
Antes de ir para o Chipre. Adorei aquilo, é um espetáculo. Especialmente Kuala Lumpur. O contrato era de um ano, mas ao fim de seis meses vim embora.

Porquê?
Porque eu e o presidente chocámos. No meu contrato estava definido que vinha passar o natal a casa. Lá a maior parte deles são muçulmanos. Eu tinha três indianos na equipa, mas estrangeiros era eu e o russo, os indianos não contavam como estrangeiros. Havia um russo que não falava inglês e eu não falava russo, mas estávamos sempre os dois no quarto, está a ver como é que nós comunicávamos? (risos). Era um bocado difícil. Entretanto em novembro deixei de ver os indianos. Ao fim do terceiro dia fui ter com o capitão para saber o que se passava. “Os indianos foram passar o natal a casa, que para eles é em novembro”. Comecei a fazer contas à vida, o meu natal é em dezembro, é melhor começar a falar já, que é para quando chegar a dezembro estar tudo certinho. Começo a falar com o intermediário que me leva para lá. “Tranquilo Marco, tudo bem. Não te preocupes”. “Não me preocupo não, é melhor ires falar com o presidente já”.

Estava com receio de que não o deixassem vir passar o natal a casa porquê?
Porque estávamos a disputar a Liga da Malásia, tínhamos ainda a Liga dos Campeões da Ásia, em termos de calendário aquilo estava complicado. Entretanto. o presidente chama-me para uma reunião com o intermediário e o tradutor. “Então Marco quantos dias é que precisas?”, pergunta o presidente. Disse-lhe que precisava no mínimo oito, nove dias para passar o natal com a família. “Pois, mas não. São muitos dias. Temos jogos importantes e tu és um jogador importante”. “Então diga-me uma coisa. Quantos dias é que você me quer dar?”. “Três, quatro dias”. Só em viagens era um dia e meio para cá e um dia e meio para lá, ou seja, os três dias. Era chegar ao aeroporto ver os meus filhos e ir embora. Ele insistia, por mais que eu lhe explicasse. Virei-me para o tradutor: “Vais dizer-lhe que eu trabalhei até hoje de manhã, ele que me pague que eu quero ir embora.” O que é que fui dizer, o homem queria matar-me. Começou aos gritos comigo, o certo é que ele pagou-me tudo e vim embora.

Estava a contar que no Irão, já como treinador-adjunto, foi complicado.
No Irão foi uma situação completamente diferente. Por causa da mentalidade das pessoas. Uma mentalidade muito fechada, um país à beira da guerra. Mas nunca senti receio de que me pudesse acontecer alguma coisa, até porque as pessoas sempre me acalmaram nesse sentido também. Ali a questão era mesmo a mentalidade. Os jogadores não estavam a habituados à maneira como nós trabalhamos, embora muito disponíveis para aprender. Extra-futebol estávamos muito bem, num hotel com tudo pago, tudo bem, só que depois falharam com o dinheiro que tinham de pagar no prémio de assinatura. Depois falharam com um mês de ordenado e viemos embora, ao fim de dois meses e pouco, não valia a pena.

E foi para os Águias de Camarate?
Sim, aí já como treinador principal para a equipa sénior. Correu tudo muito bem, aliás tenho um carinho muito especial pelo Águias de Camarate, pelo Frederico que na altura era o presidente. Sempre me deu oportunidades, ainda hoje falamos. Muito meu amigo e sei que tenho ali uma porta aberta.

Mas nem sequer acaba a época. Porquê?
Porque eu e o meu adjunto tivemos um convite para ir para a China, mas como não tenho um nível adequado para ir treinar na China, não fui. O meu adjunto não podia recusar, nem eu era pessoa para dizer: “Eu não vou, tu não vais”. Ele foi e eu não é que sozinho não tivesse capacidade, mas trabalhava com aquela pessoa que era da minha confiança e estar a deixar entrar outra pessoa, não era fácil. Entretanto decidi deixar essa vertente de treinador de futebol.

TIAGO MIRANDA

O que está a fazer agora?
Um dia fui ver um jogo das camadas jovens em Almada e no final veio um senhor que já estava de olho num miúdo que eu conhecia, falar com a mãe do miúdo. A mãe pediu-me para a acompanhar e também falar com o senhor. Fui, apresentei-me, ele olhou para mim, conheceu-me e perguntou-me: “Mas então o que é que estás a fazer agora?”. Disse-lhe que tinha estado a treinar uma equipa mas depois decidi não continuar e que estava à espera de uma oportunidade, de alguma coisa nova. E ele diz-me: “Então vou-te ligar e vamos almoçar. Estou com uma empresa, vou falar-te sobre o meu projeto, aquilo que pretendo de ti e se tu aceitares, vamos trabalhar em conjunto”. Quem é ele? É o Nuno Maio, CEO da empresa Futgest onde agora trabalho. A empresa que já está no mercado do futebol desde 2016 e ele precisava de alguém com conhecimentos e contactos no futebol e viu em mim essa pessoa. Convidou-me para trabalhar com ele e neste momento sou diretor executivo da empresa. Já lá estou há seis meses.

O que faz concretamente, qual é o seu papel?
Faço de tudo um pouco, mas o meu papel é mais de fazer a ponte entre os clubes e os jogadores. As coisas têm estado a correr bem.

Já conseguiram colocar jogadores?
Já. Reforçamos ainda mais uma parceria que temos muito forte com o Brasil. Temos uma parceria muito forte também com a Turquia, com a Inglaterra. Neste momento já temos um leque alargado em toda a Europa, conseguimos chegar praticamente à Europa toda.

Se surgisse um convite para ser treinador, vacilava?
Não, não queria porque isto para mim é uma vertente nova de que estou a gostar. Acho que o único motivo que teria para sair desta empresa, era para voltar ao Sporting.

É um sonho que ainda tem?
É. Devo tudo ao Sporting, amo o Sporting, amo de verdade aquele clube.

Onde é que ganhou mais dinheiro? Foi no Chipre?
Na Malásia.

É crente?
Tenho a minha fé, acredito que há alguém, alguma coisa, mas só acredito naquilo que vejo e Deus nunca vi.

Tem superstições?
Muitas.

Como por exemplo?
Quando jogava à bola ainda pior. Era o último a entrar em campo, punha os chinelos, as botas, tudo virado para a frente. Era o último a sair do autocarro. Quando acabava o jogo tinha que tomar banho nos chuveiros do meio. Sei lá, tanta coisa...

Hoje ainda mantém algumas dessas superstições?
Agora se por acaso vejo uma carrinha funerária costumo benzer-me, não por acreditar em alguma coisa, mas porque tenho esse hábito. Tento sempre entrar com o pé direito onde quer que vá, seja no café, seja em casa de um amigo. Tento sair de casa sempre com o pé direito, basicamente é isso.

Chegou a estar pré convocado para a seleção A quando estava no Alverca e na II liga.
É verdade. Na altura, e acho que hoje em dia, era o único jogador de sempre que ia à seleção nacional estando numa II Liga. Mas não fui porque tive um desentendimento com o presidente da FPF, o Madaíl. Lá está porque sou frontal e estava a defender os meus. Mas não vou contar.

Tem tatuagens. Quando faz a primeira?
Com 16 anos. Um buldogue, porque era o símbolo da claque do Sporting. Mas atenção que nunca fui de claques, ia para junto da Juve Leo, mas para gritar pelo meu Sporting.

Tem mais alguma que seja especial?
Todas elas. Todas as que tenho têm um significado, estão relacionadas com coisas que me aconteceram na vida, coisas que passei, que ultrapassei.

Do que é que mais se arrepende?
Não me arrependo de nada daquilo que fiz. Fazia tudo exatamente igual. A única coisa que não fazia, dessa arrependo-me mesmo, foi ter montado a minha empresa. Dessa arrependo-me mesmo, foi a pior decisão da minha vida.

O que pensa da invasão da Academia, o ano passado, em Alcochete?
São condenáveis, claro. Agora daí ao ênfase todo que se criou à volta daquilo… . Os jogadores do Borussia de Dortmund também tiveram uma bomba debaixo do autocarro e foram jogar.

Acha que o que aconteceu, se deve a Bruno de Carvalho?
Não. Nem quero ir por aí. Não sou apoiante de nenhum presidente, não quero saber de nenhum presidente, o que me interessa é o Sporting. Até porque me convidaram para integrar uma lista nestas últimas eleições e não aceitei. Não aceitei por isso mesmo, não quero ficar agregado a nenhum, não sou brunista, não sou croquete, não sou nada, eu gosto é do Sporting. Se tenho o sonho de lá voltar? Tenho e acredito que vou voltar ao Sporting, acredito que sim.

O VAR veio melhorar o futebol?
É muito subjetivo. Acaba por tirar um bocado da essência do futebol. Nomeadamente em termos de ritmo de jogo. Não é fácil estar ali 30/40 minutos a um ritmo eletrizante e de um momento para o outro há um lance e estás ali seis minutos à espera de uma decisão. Quem está a jogar e quem está dentro de campo quebra e para voltares ao ritmo é complicado.

Qual foi o melhor carro que teve?
Um Porshe 911 azul escuro. Se tinha é porque podia ter. Nunca fui rico mas não sou hipócrita ao ponto de dizer que na altura não vivia acima da média do povo português, vivia sim senhor, assumo. Nunca ganhei balúrdios, mas também nunca fui pessoa de ganhar cinco e gastar 10.