Tribuna Expresso

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A casa às costas

“Os homossexuais existiam antes de Nosso Senhor Jesus. Viviam recatados e recolhidos, continuassem assim. Não podem ter os mesmos direitos”

Nelson, o ex-lateral direito de 47 anos e membro da Opus Dei, conta como em miúdo tinha de andar a pé quase três horas, com o irmão gémeo, para treinar no FCP; descreve os primeiros tempos, sozinho, em Lisboa; fala da vida em Inglaterra, quando jogou no Aston Villa e como foi difícil pendurar as chuteiras. Nélson também explica a sua forte ligação a Deus, diz o que pensa sobre o Papa Francisco, os recasados e a homossexualidade e confessa que a maior frustração da carreira foi não ter ganho um campeonato pelo Sporting e a maior mágoa ter deixado de ser ponta de lança

Alexandra Simões de Abreu

Rui Duarte Silva

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É natural de Massarelos. Se lhe pedisse para apresentar a família onde cresceu, como a descrevia?
Uma família típica, tradicionalista, cristã. Se fossemos todos vivos, éramos nove irmãos. Hoje somos sete. Vivos, só conheci oito porque o mais velho faleceu com pouco mais de oito meses. E uma irmã faleceu há quase 11 anos. Eu e o meu irmão gémeo, o Albertino, somos os últimos. O meu pai trabalhou numa única empresa, a Barbosa e Almeida, que era uma das maiores produtoras europeias de garrafas de vinho. A minha mãe sempre foi doméstica.

Cresceu onde?
Em Rio Tinto, nos arredores da cidade do Porto. A casa ainda existe. Aliás, aquilo são várias casas pequenas. Vivi com os meus avós maternos porque os terrenos onde estavam essas casas eram deles. Eles viviam na casa ao lado.

Lá em casa eram adeptos de que clube ou clubes?
Os meus pais, mais oito irmãos, ou seja 60% são do Sporting, 30% do Futebol Clube do Porto e 10% do Benfica. Só havia um do Benfica, a minha irmã Irene. O meu irmão gémeo e mais duas irmãs são do FCP.

O seu irmão gémeo também foi profissional de futebol.
Foi. Teve uma carreira engraçada. Começou no Salgueiros, na altura o Salgueiros estava muitíssimo bem, era profissional. Jogou na Académica de Coimbra e jogou sete anos no Marítimo.

Como surge o futebol?
É uma coisa inata. O meu pai era diretor do clube local, o Sport Clube de Rio Tinto, por isso as bolas e o futebol fizeram parte desde o berço. O meu irmão mais velho jogava no Sport Clube de Rio Tinto e tínhamos facilidade de ir ver os jogos dele quando éramos crianças. O facto de ter um irmão gémeo com o qual podia brincar, ou melhor, jogar à bola, também ajudou. Mas o engraçado é que tivemos poucas bolas. Lembro-me apenas de uma ou duas bolas lá em casa e elas duravam pouco tempo. A maior parte do tempo que jogávamos em casa fazíamos as bolas com uns sacos de plástico do arroz onde metíamos muitas folhas de jornal bem amassadas. Era assim que jogávamos.

Da escola, gostava?
Não, nunca gostei da escola. Hoje, arrependo-me porque em termos profissionais, há muitas coisas que me fazem falta pelo facto de não ter tido interesse.

Do que sente mais falta?
Dominar tudo o que é a linguagem tecnológica dos computadores, embora saiba o básico. Mas acima de tudo o que mais me faz falta é a concentração.

Como assim?
Há imensas situações em que durante a escola a minha cabeça pura e simplesmente não estava lá. Estava no futebol, mas sem o sonho de querer ser jogador de futebol. O que eu queria era estar a fazer aquilo de que mais gostava, jogar futebol. E como tinha boas capacidades, estava sempre à espera que chegasse o momento do intervalo e do final da escola.

Nélson com os pais e padrinhos no dia do seu baptizado, na igreja de Rio Tinto

Nélson com os pais e padrinhos no dia do seu baptizado, na igreja de Rio Tinto

D.R.

Faltava às aulas para ir jogar?
Nunca. Os meus pais eram muito rigorosos e eu nunca claudiquei nesse aspeto, sempre fui uma criança obediente. Mas o que estava a dizer em relação à concentração é que hoje, muitas das vezes estamos em sessões de formação ou noutra situação, sinto uma dificuldade tremenda em estar concentrado. Não sei se foi pelo facto de nesses anos todos nunca ter estado focado naquilo que estava a fazer no momento, hoje faço um esforço muito grande para estar concentrado. Quando vou a uma ação de formação, a uma reunião na Associação de Futebol de Braga ou noutro organismo nos primeiros momentos ainda consigo mas depois começo lentamente a dispersar com o cansaço, com o tempo a passar. Até mesmo quando estou a trabalhar, às vezes estou focado no assunto, mas daqui a um bocado a cabeça já está a pensar noutra coisa.

Quando foi pela primeira vez para um clube?
Eu vivia perto do campo do Sport Clube de Rio Tinto, que na altura tinha atividades amadoras para além do futebol, como o voleibol e o hóquei em patins. Só que entretanto o clube deixou de ter essas modalidades e ficou um espaço vazio, um ringue, que nós aproveitávamos para lá jogar. Aquilo era a minha segunda casa, por assim dizer.

Isso com quantos anos?
Com sete anos. Antigamente os pais deixavam as crianças sair à rua, hoje é impensável. Eu só ia a casa para comer, o resto de tempo passava no campo de futebol. Quando começou a aproximar-se a idade de poder começar a competir, fui aos treinos de captação que o Futebol Clube do Porto levava a cabo no velho campo da Constituição. Eu e muitos amigos ali das redondezas fomos lá treinar porque achávamos que tínhamos capacidades. Tinha 10 anos.

Foi só com os amigos, não foi com o seu pai?
Não. Antigamente não se levava o pai (risos). Os treinos de captação faziam-se sempre no período das férias e ao sábado. Fiquei logo aprovado no primeiro treino. Nunca mais me esqueço, foram uns cinco minutos. As primeiras vezes que toquei na bola, o senhor Álvaro veio ter comigo, perguntou-me a idade, o nome e se eu tinha o BI, para comprovar a idade. Fiquei todo feliz, mas houve um senão. Tinha programa de férias no Gerês com uma das minhas irmãs mais velhas e ia estar ausente 15 dias. Quando regressei já tinha passado o período das inscrições. Então o que é que eles fizeram? Emprestaram-me a um clube local, muito próximo do Campo da Constituição, um daqueles clubes amadores que faziam torneios de futebol de 5, era o Clube Desportivo Português.

Nélson e o irmão gémeo Albertino.

Nélson e o irmão gémeo Albertino.

D.R.

Era o pai ou irmãos mais velhos que o levavam aos treinos?
Não. O meu pai ganhava sozinho para a casa e embora na altura as minhas irmãs mais velhas também já trabalhassem as coisas eram sempre muito apertadas em termos financeiros. Nunca faltou nada graças a Deus, mas era tudo muito controlado. Por isso e também se calhar por algum receio, ou para ver se desistíamos, disseram a mim e ao meu irmão que só nos davam uma senha por dia a cada um. Nós precisávamos de quatro senhas por dia. Eram três treinos por semana, mais o jogo ao sábado, mas os meus pais só nos garantiam uma senha. Então, nós íamos a pé desde casa até ao campo da Constituição. Eram 2h45m mais ou menos, 8,5km. Depois, para casa, vínhamos a pé desde a Constituição até ao Bulhão, onde havia o centro de autocarros, eram 30 minutos. Só no Bulhão é que utilizávamos a senha para vir para casa.

Nessa altura com 11, 12 anos quem eram os seus ídolos?
O meu era o Jordão.

Começa na formação do FCP onde esteve três anos. O que mais recorda desses anos?
Primeiro, o nível de exigência que era grande. Depois uma grande alegria por poder representar o Porto, porque estava a representar um dos maiores clubes portugueses. Era o orgulho da família e mesmo da vizinhança para quem depois ficava como referência. Uma alegria enorme por poder fazer aquilo de que mais gostava. Recordo-me que quando chegava à sexta-feira estava já numa excitação tremenda para jogar no sábado. Era uma coisa impressionante.

Não dizia a ninguém que era sportinguista?
Não. Havia duas equipas, a A e a B, os do primeiro e os do segundo ano, e eu, que me lembre, era o único sportinguista nas duas equipas. Estávamos a falar de 40 e poucas crianças. Havia muitos benfiquistas. Eu sabia porque eles falavam à boca cheia que eram do Benfica. Eu nunca disse a ninguém que era do Sporting.

Os gémeos Albertino e Nélson, com 10 anos, no dia da comunhão solene

Os gémeos Albertino e Nélson, com 10 anos, no dia da comunhão solene

D.R.

Quando deixa a escola em definitivo?
Já estava no Salgueiros, tinha 17 anos, e a direção do Salgueiros propôs-me assinar um contrato profissional para incorporar a equipa sénior, no entanto ainda era júnior. Treinava pelos seniores e jogava aos domingos pelos juniores. Nessa altura só me faltava o 12.º ano, mas como tinha de treinar durante o dia fui estudar à noite para o Liceu Alexandre Herculano, aqui no Porto.

Chegou a acabar o 12.º ano?
Sim. A minha área era a área de letras, tinha literatura portuguesa, francês e inglês.

Mas como é que se dá a passagem do FCP para o Salgueiros?
No meu segundo ano de iniciados, a duas semanas da final contra o Benfica, tive uma lesão grave no braço, parti o cúbito e o rádio num jogo, a fazer um pontapé de bicicleta. Porque a minha formação foi toda feita como avançado (risos). O jogo foi no estádio do Maia, saí diretamente do campo para a ambulância e fui para o hospital de São João. Fiquei dois meses e meio engessado, na transição de iniciados para juvenis. Eu que até era um elemento com alguma preponderância na equipa, era o ponta de lança, marcava muitos golos, inexplicavelmente o treinador dos juvenis, que não era o mesmo dos iniciados, resolve dispensar-me porque eu tinha estado muito tempo parado. Disse que era melhor emprestarem-me. No fundo queria despachar-me e curiosamente também dispensou o meu irmão. Fomos os dois dispensados.

Os dois ao mesmo tempo é estranho. Chegou a perceber o motivo?
Não, nunca percebi. O meu irmão foi para o Salgueiros e o treinador do Salgueiros também quis que eu fosse. Fui fazer um treino no campo Mário Navega, mesmo ao lado da Campanhã e o treino correu-me tão mal que fiquei envergonhado. Pensei: "não fico". Curiosamente nesse ano o Sport Clube de Rio Tinto abriu o escalão de juvenis, para a minha idade. Os meus amigos de infância puxaram por mim para eu ir jogar para lá com eles. Primeiro tive de pedir autorização ao meu pai que na altura não queria porque como já tinha sido diretor e como era dali... Há sempre aquelas nuances que nós quando somos jovens não pensamos... A muito custo lá aceitou e fui jogar com os meus amigos de infância esse ano no Rio Tinto. Tinha 15 anos.

Notou muita diferença?
Houve períodos em que até eu próprio fiquei desiludido. Saí de um clube com uma exigência enorme como é o FCP para o Rio Tinto que não tinha exigência nenhuma. O nível de organização e de compromisso eram baixíssimos. Mas a época até correu muitíssimo bem porque em termos individuais tínhamos uma qualidade muito boa. Antes de acabar essa época desportiva, o Salgueiros voltou a insistir, queria que eu fosse para lá. E assinei pelo Salgueiros, em abril. Ainda era contrato como amador.

Os pais de Nélson, António e Maria Rosa

Os pais de Nélson, António e Maria Rosa

D.R.

Já ganhava dinheiro?
Não, nada. Só nos pagavam o passe. A mim e ao meu irmão. Jogo o primeiro ano de juvenil no Rio Tinto, no segundo ano de juvenil já jogo no Salgueiros e depois no primeiro ano de júnior é que o Salgueiros me propõe assinar o contrato profissional.

Ainda como ponta-de-lança?
Sim, ainda como ponta-de-lança.

Lembra-se do valor do seu primeiro ordenado?
Durante três meses, foram 20 contos (100€), em 1988.

Recorda-se do que fez com esse dinheiro?
Fui depositá-lo nos certificados de aforro no Banco de Portugal. Durante dois ou três meses foi o que fiz. Porquê? Porque na altura o treinador dos seniores era o Filipovic e ele disse-me que estava com dúvidas se ficava comigo no plantel sénior. Mas rapidamente passei do plantel júnior para o sénior. Em vez dos 20, passei então a ganhar 70 contos (350€). Desses 70 contos penso que já dava 15 ou 20 contos à minha mãe, para as coisas da casa e o resto depositava nos certificados de aforro.

Nélson com 11 anos

Nélson com 11 anos

D.R.

Lembra-se da sua estreia como sénior?
Lembro. Nesse primeiro ano como profissional no Salgueiros fui campeão nacional da II divisão. Joguei os últimos quatro jogos que eram de apuramento de campeão. Antigamente a II divisão era dividida por três zonas. Norte, centro e sul e como fomos campeões da zona centro fomos disputar o título com os campeões do norte e do sul, o Gil Vicente e o Farense; e o Filipovic permitiu que eu fizesse todos os jogos. Só assim me sagrei campeão porque na fase regular não joguei nenhum jogo, jogava pelos juniores. No ano seguinte é o meu primeiro ano de sénior e, na primeira semana de treinos, ao Filipovic, ao escalonar a equipa, sobrava uma única posição e um único jogador. Sobrava o lugar de defesa direito e sobrava eu. E no campo ele disse-me: “Nélson importas-te de fazer o lugar? Não há mais nenhum e só sobra aquela posição. Faz só o lugar para desenrascar”. “Ok mister, não esteja preocupado, esteja à vontade comigo, faço sem problemas”. O que é verdade é que passados 15 dias era titular do Salgueiros. Nunca tinha jogado a defesa direito. E a minha estreia foi num jogo de apresentação do Boavista, no estádio do Bessa. Estreio-me, ao intervalo estávamos a ganhar 1-0 e fui eu que marquei o golo. Pronto nunca mais saí daquele lugar, foi até acabar a minha carreira profissional (risos).

Acha que se perdeu um grande ponta-de-lança ou ganhou-se um excelente defesa direito?
Vou dizer-lhe, a maior mágoa é ter abdicado da posição de ponta-de-lança porque era um gozo muito grande que sentia a jogar nessa posição. O marcar golos, o desfrutar de uma liberdade tremenda que depois como defesa direito...Tive de reequacionar toda a minha forma de jogar e isso foi o que mais me custou. Até mesmo em termos técnicos, eu era um jogador com uma técnica bastante evoluída. Tive de re-adquirir outros automatismos, outra forma de estar, jogar mais simples, mais a dois toques. E eu, quando jogava a avançado, gostava imenso de driblar os avançados.Tinha jeito. Quantos mais aparecessem mais driblava.

Rui Duarte Silva

No meio disso é chamado para alguma seleção?
Não, até aos seniores a única seleção para o qual fui convocado foi a seleção distrital do Porto. Havia aqueles campeonatos inter associações, fui convocado duas vezes quando estava no Salgueiros para ir aos treinos, mas nunca fui selecionado para a equipa final. A primeira vez que sou chamado à seleção, aos treinos, já era titular do Salgueiros na equipa sénior, no primeiro ano. Foi para a fase e preparação para o campeonato do mundo de juniores, em Lisboa, nos Sub 20, em 1991.

É um dos campeões do mundo de sub-20.
Exatamente. É curioso, a minha estreia é em França, em Baiona ou Biarritz, não me recordo ao certo. Puseram-me a titular e aos 30 minutos de jogo tive de sair porque tive uma lesão grave. Uma rotura de ligamentos no pé. Foi a minha estreia pela seleção nacional (risos), vim de muletas. Depois retomei os treinos e fui ao Mundial.

Como surge entretanto o Sporting? Através de empresários?
Não, foi diretamente entre direções. Era um sonho do presidente Sousa Cintra porque queria juntar aquela fornada toda de jogadores do Mundial em Riade com os atletas de 1991. Vai daí foi-me buscar ao Salgueiros, no ano seguinte foi buscar o Capucho, ao Gil Vicente.

Quem é que lhe deu a notícia, como é que soube?
Foi o presidente do Salgueiros, o Carlos Abreu, que veio ter comigo e disse que tinha uma proposta do Sporting. Nem queria acreditar, foi uma alegria tremenda.

Não tinha empresário?
Nunca tive. Naquela altura nem nunca tinha ouvido falar de empresário de futebol. Ele veio ter comigo, disse que o Sporting estava interessado. Aquilo foi uma pacote que fizeram, porque o Sporting na altura também se interessou pelo ponta de lança do Salgueiros, o Tozé. Recordo que o Sporting pagou 60 mil contos pela transferência dos dois. Ou seja 300 mil euros.

Nem discutiu ordenado, prémios?
Não, a proposta foi feita através de um vice presidente do Sporting, o senhor Júlio Santos, em casa do senhor Figueiredo que era um adepto do Sporting. Fui sozinho falar com eles. Aceitei a proposta, o que eu mais queria era ir para o Sporting.

Nélson com 14 anos, nos iniciados do FCP

Nélson com 14 anos, nos iniciados do FCP

D.R.

Quando deu a notícia em casa, qual foi a reação?
Foi uma boa notícia e não foi. Para os meus pais ver o filho sair de casa com 19 anos e ir para Lisboa...Nunca tinha acontecido com filho nenhum. Para ter uma ideia todos os meus irmãos vivem na mesma cidade em que vivem os meus pais. E, pela primeira vez ter o filho mais novo a sair e a ir logo para Lisboa... Não havia telemóveis, nem computadores, nem internet (risos). Foi motivo de choradeira para a minha mãe. E foi a única vez que vi o meu pai chorar. A minha mãe tinha andado a semana toda a chorar, o meu pai chorou no dia em que fui embora, quando estava a fazer as malas.

Nessa altura já havia namoros?
Não.

Foi duro ir para Lisboa sozinho?
Os primeiros tempos foram muito difíceis. Fiquei no hotel Zurique, mesmo ao lado da RTP que ficava na 5 de Outubro. Estive lá dois meses e aquilo era mesmo saturante.

Porquê?
Porque não tinha carta, estava a tirá-la, tive de transferir para Lisboa e o processo demorou quase quatro ou cinco meses. Tinha de andar de táxi ou de transportes públicos. Qualquer coisa que tinha de fazer demorava um tempão.

Como foi a recepção no Sporting?
Muito boa. Mas foi um choque, entre aspas, quando cheguei pela primeira vez ao estádio do Sporting. A equipa tinha ido treinar para o estádio universitário porque o campo de treinos não estava disponível, e eu tinha acabado de entrar pela porta 10A, quando passado pouco tempo entram os jogadores todos equipados. Recordo-me que ainda não tinha caído em mim, que era jogador sénior, que era profissional do Sporting, que tinha cumprido o meu sonho. Aquilo tudo ainda parecia um sonho.

Quando cai em si verdadeiramente?
Quando comecei a ser titular. Aí senti o peso de envergar a camisola do Sporting.

Os pais e sete dos nove irmãos de Nélson no casamento de uma das irmãs

Os pais e sete dos nove irmãos de Nélson no casamento de uma das irmãs

D.R.

Adaptou-se bem à vida independente, sozinho?
Não. Custou-me imenso sobretudo no primeiro ano.

O que mais lhe custou?
Passar o tempo. Quando estava no Porto tinha a minha rotina, o meu núcleo de amigos, a família, tinha a vida enquadrada. Em Lisboa tive de refazer tudo. O facto de não ter automóvel era o que mais me prejudicava. Vivia quase confinado à vida do apartamento e ao estádio.

O que fazia quando não estava a treinar e a jogar?
Passava muito tempo a jogar bilhar com os sócios do Sporting, lá no estádio. Inclusive cheguei a participar num torneio de bilhar, fiquei nos 18 primeiros, já não foi mau. O resto do tempo resumia-se a cumprir com as minhas obrigações, pagar a água, a luz.

Nunca cozinhou?
Não, não nunca fiz isso, tinha de comer sempre fora e punha as minhas roupas a lavar nas lavandarias do Sporting.

Não fez amizades que tenham puxado por si?
Não, isso só começa a acontecer mais em janeiro quando tenho o carro. Aí foi como que uma liberdade tremenda que eu senti.

Nélson, com 18 anos, no Salgueiros

Nélson, com 18 anos, no Salgueiros

Qual foi o seu primeiro carro?
Um Lancia Dedra, 1600 a gasolina. Foi a liberdade total. Eu gostava imenso de andar em Lisboa de carro. Se tinha de ir pagar a luz, o telefone ou a água, metia-me pelas ruas e deixava-me ir, mesmo que não soubesse o caminho, foi assim que conheci muito bem a cidade por dentro. Todas as artérias. Gostava muito daquele ar dos bairros típicos. Não tanto das novas urbanizações, gostava mais dos bairros porque no fundo sentia-me a entrar nas raízes de Lisboa.

Que amigos faz em Lisboa?
Essencialmente são os jogadores. Exteriormente era muito raro fazer amigos. Quando cheguei tínhamos uma coisa muito boa, íamos sempre comer ao restaurante do pneus, em Bucelas. Íamos lá umas quatro ou cinco vezes por semana. Maioritariamente os mais novos da equipa.

Quem?
Eu, o Peixe, o Figo, o Filipe, o Marinho, o Amaral, o João Pinto, o Leal, o Cadete e os búlgaros também iam de vez em quando.

Com que opinião ficou de Sousa Cintra?
Gostava muito do Sousa Cintra, era uma pessoa sui generis. Para os jogadores era muito amigo. Era uma pessoa de trato muito fácil, preocupava-se muito com os jogadores.

Paulo Torres, Nélson, Rui Bento e Toni, na seleção de sub-21

Paulo Torres, Nélson, Rui Bento e Toni, na seleção de sub-21

D.R.

Na época de estreia tem o Marinho Peres como treinador, certo?
Sim. No início colocaram-me a titular, mas cedo me retiraram a titularidade.

Porquê?
Porque se calhar sentiram alguma dificuldade em mim para incorporar o 11 inicial nesse ano.

A seguir vem Bobby Robson com o Mourinho como adjunto. Há grandes transformações?
A época seguinte acima de tudo foi diferente em termos de mentalidade e de objetivos. Veio uma pessoa com muita, muita qualidade em termos de treino e mentalidade. O Bobby Robson revolucionou muito.

Em que se traduzia essa diferença, essa revolução?
Primeiro, era uma pessoa que já tinha um cariz e uns pergaminhos muito grandes em termos do futebol europeu. Era um treinador conceituado. Os treinos eram muito práticos, objetivos, não eram maçadores. Levava a que os atletas se entusiasmassem com o treino. Depois em termos de mentalidade era uma mentalidade muito ganhadora. Ele dizia “a mim não me interessa estar a ganhar por 3-0. Se eu posso fazer 4-0, 5-0, tenho de o fazer". E isso era um clique muito grande naquele status quo.

Tendo em conta que passou de ponta de lança a defesa direito, quem mais o ensinou a ser melhor jogador na nova posição?
Talvez o professor Carlos Queiroz.

Que é o treinador na sua terceira época no Sporting.
Exatamente. Já tinha trabalhado com ele na seleção e continuava a trabalhar com ele na seleção. É uma pessoa muito rigorosa, muito metódica, vai aos pormenores mesmo, quer individuais, quer coletivos. Ele trabalhava por setores e isso ajuda muito um atleta a ter uma noção mais exata das competências que deve ter no terreno de jogo.

Os métodos eram muito diferentes dos do Bobby Robson?
Sim. O professor Carlos Queiroz é mais pedagogo, gosta mais de passar o tempo a explicar as coisas em pormenor, individual e coletivamente, é mais professor. Enquanto o Bobby Robson era mais prático e objetivo. Mais curto e mais conciso. O professor Carlos Queiroz quer controlar todos os itens do futebol, todos os fatores do jogo, todos, e para isso é preciso tempo.

No Porto, com 19 anos, antes de ir para o Sporting

No Porto, com 19 anos, antes de ir para o Sporting

D.R.

A época 1995/96 é mais conturbada. Sai Queiroz, vem Fernando Mendes e depois Octávio Machado.
O mister Fernando Mendes sabia que estava “a prazo” porque a direção estava à procura de treinador, portanto não havia muito que complicar, apenas deixar os jogadores mais livres e soltos possível para abordar o jogo, porque já estavam sob um grande stress, uma vez que os resultados não apareciam e o treinador tinha sido despedido. São situações muito complicadas para se gerir dentro do balneário. Quem entra e sabe que está a prazo, a função acima de tudo é não complicar e não querer estar com cunhos pessoais e libertar mais os jogadores daquela carga. Entretanto quando é contratado o mister Octávio, aí sim, já há uma metodologia, já há um cunho pessoal.

Gostou do Octávio Machado como treinador?
Na altura em que ele entrou, gostei bastante porque foi um safanão grande naquilo que estávamos a fazer, começaram a aparecer os resultados desportivos.

Esteve cinco épocas no Sporting. Consegue explicar por que é tão difícil ao Sporting conquistar campeonatos?
No meu tempo estivemos por duas vezes perto de ganhar o título. E se tal não aconteceu deve-se a alguma incapacidade nossa, individual e coletivamente. Mas igualmente se deve a alguns erros de arbitragens que nos prejudicaram. Infelizmente em Portugal sempre se valorizaram muito as guerras de poder nos bastidores do futebol. O nosso insucesso foi devido a uma mescla das duas situações.

Antes de passarmos para o Aston Villa, o que mais o marcou nos cinco anos de Sporting?
Pessoalmente, o facto de ter conhecido a minha futura esposa. Casei ainda era jogador do Sporting. Foi uma mudança radical.

Nélson no momento em que assina contrato com o Sporting, liderado por Sousa Cintra

Nélson no momento em que assina contrato com o Sporting, liderado por Sousa Cintra

D.R.

Como conheceu a sua mulher?
Conheci a Maria José, que estudava gestão de empresas na Universidade Lusíada aqui no Porto, através da minha cunhada porque era das melhores amigas dela. Apesar de estar a viver em Lisboa eu vinha todas as semanas ao Porto e foi num desses fins de semana que a conheci. Primeiro foi um namoro à distância, não podia ser de outra forma. Começamos a namorar em dezembro de 1993 e casamos em junho de 1995, na igreja dos Capuchinhos, no Porto.

Ela terminou o curso e foi viver consigo para Lisboa?
Ela não terminou o curso para ir comigo para Lisboa. Na altura estudava na universidade e trabalhava na casa do rolamentos "Casa Carola", com os meus sogros e deixou tudo.

Nunca se arrependeu de ter deixado a universidade?
Não, porque depois graças a Deus comecei a ganhar bem. Na altura em que casei já ganhava bem, dava para sustentar a família. Também foi uma novidade muito grande para ela, que nunca tinha saído da casa dos pais. Foi uma novidade de estarmos os dois num sítio diferente e longe de ambas as famílias.

Nélson (ao centro) com Sá Pinto e Dominguez

Nélson (ao centro) com Sá Pinto e Dominguez

D.R.

Como é que se dá a ida para o Aston Villa?
Havia um empresário que era amigo do Bobby Robson, e na altura o Gary Charles, defesa direito, teve uma lesão muito grave, partiu o pé e teve de ser operado. O Aston Villa necessitava urgentemente de arranjar um defesa direito e contactaram-me.

O que o levou a aceitar ir para fora?
Eu sempre tinha dito para a comunicação social que havia dois campeonatos a que dava preferência, o alemão e o inglês, mas mais o inglês. Era o campeonato de que mais gostava. Cresci a vê-lo. A década de 70 e início de 80 são as décadas das equipas inglesas. Estamos a falar do Nottingham Forest que ganhou duas Ligas dos Campeões, do Liverpool que ganhou quatro Ligas seguidas, o Aston Villa que ganhou a Liga dos Campeões, em 82, contra o Hamburgo. Ou seja, a minha infância é vivida com o delírio do futebol inglês e para além disso eu era um fã incondicional da Taça de Inglaterra, não perdia uma final ao sábado. Quando era criança também gostava muito de ver râguebi e o Torneio das 5 Nações. Era adepto do País de Gales e gostava imenso de ver. A cultura inglesa, o desporto inglês fascinavam-me e foi um sonho que graças a Deus concretizei.

Na altura ainda não tinha filhos?
Não. O meu primeiro filho, o Ivan, nasce em Inglaterra precisamente.

Nélson com Cherbakov, ex-jogador do Sporting que ficou numa cadeira de rodas na sequência de um acidente

Nélson com Cherbakov, ex-jogador do Sporting que ficou numa cadeira de rodas na sequência de um acidente

D.R.

Recorda a primeira sensação que teve quando chegou a Inglaterra?
Muito estranho, muito esquisito. A primeira coisa que me fez confusão foi ter de conduzir do lado contrário (risos). O treinador adjunto e outra pessoa foram buscar-me ao aeroporto e quando entrei no carro a primeira coisa que me veio à cabeça foi “não me vou entender aqui” (risos). Passados 15 dias e depois de ter apanhado um susto grande, aprendi logo.

O que aconteceu?
Eu vivia numa urbanização daquelas típicas inglesas, com um jardim à frente e outro atrás, sem vedações. Vivia num sítio em que havia uma colina. Descia-se essa colina e havia a minha urbanização, com muitas casas, mas era uma coisa airosa, não era atafulhado, as casas não estavam sobrepostas. Para ir para os treinos tinha de subir essa colina, era uma subida íngreme, e quando se chegava lá acima, apanhava-se um entroncamento e eu olhei para o lado errado. Meti o carro na faixa de rodagem e claro que o indivíduo que vinha da direita teve de dar uma guinada muito grande. Parou mais à frente, apitou e chamou-me estúpido. A partir daí, parecia um inglês a conduzir (risos). A minha mulher bateu na primeira vez que se pôs a conduzir, numa rotunda, fez confusão e entrou pelo sítio errado (risos).

O seu filho nasce quando?
Nasceu no meu segundo ano do Aston Villa, em agosto de 1997.

Quanto ao futebol, notou grandes diferenças relativamente ao que estava habituado em Portugal?
Uma diferença muito grande era a pré-temporada. Elas são duras em qualquer lado, mas em Inglaterra são mesmo muito duras, parecia que estava no exército. É muito físico e é violento, tanto é que não consegui fazer os primeiros dois jogos porque ainda estava a recuperar dessas mazelas, desse desgaste físico. Há outra coisa, fazem-se muitos jogos. Eu estava habituado a ter treinos de manhã e de tarde em Portugal pelo menos duas vezes por semana, lá só se treina de manhã e é um período muito curto, de uma hora e cinco, uma hora e dez no máximo, e é mais um treino de manutenção do que propriamente um treino normal.

Nélson com a mulher, Maria José

Nélson com a mulher, Maria José

D.R.

O fazia nos tempos livres?
Íamos passear ou ficávamos por casa. Vivia nos arredores de Birmingham e na altura já lá havia centro comercial e aquilo a que chamamos uma baixa, uma zona só para peões. Costumávamos lá ir muitas vezes, gostávamos de lanchar nos restaurantes. Outras vezes íamos até ao centro de Birmingham, que é a segunda maior cidade de Inglaterra. Aos fins de semana íamos sempre a sítios diferentes para conhecer, jogava ao sábado e no domingo íamos passear, íamos conhecer Inglaterra. Íamos imensas vezes a Londres.

Do que gostou mais e menos de Inglaterra?
Em termos profissionais, penso que é o sítio ideal para se jogar futebol, porque aquilo é verdadeiramente uma indústria. É uma indústria mas não é uma selva. É uma indústria que tem uma ética, que tem rigor, que tem princípios. Depois gostei imenso como eles vivem de forma rigorosa a vida. São rigorosos, até no trânsito. Uma pessoa que viva um bocado aluada a conduzir aqui em Portugal, chega a Inglaterra e a própria forma como as pessoas conduzem, obriga mentalmente a conduzirmos igual. É engraçado, não precisamos que ninguém nos ensine. Gostei imenso da forma como as urbanizações deles são feitas, é lindíssimo. Apesar de serem todas iguais, têm sempre uma coisa diferente e característica. Gosto imenso do verde e eles dão um valor tremendo a tudo o que são questões ambientais, adorei também essa parte. Não gostei do ambiente da sociedade inglesa.

Sentiu a “frieza” dos ingleses?
Notei isso em Londres. Em Birmingham, não. Acho que quanto mais pequeno for o meio mais as pessoas são mais agradáveis. Em Sutton Coldfield onde vivia, as pessoas são todas simpáticas. Mas o que queria dizer é que a vida em si, da sociedade inglesa, no sentido mais global, acho-os mais egoístas. Mais indiferentes, não estão tão preocupados com o próximo. Mesmo as crianças é uma coisa terrível, não estava a ver os meus filhos a crescerem lá com aquela juventude. Inglaterra é dos países que têm a taxa mais alta de gravidez em jovens. Não é por acaso. Viam-se miúdas com 13/14 anos na noite. Um frio de rachar e elas estavam com uma blusinha... com 13/14 anos. Os miúdos com 12/13 anos já saem à rua, já têm as chaves de casa, já chegam às horas que querem e lhes apetece. É uma vida assim um bocadinho...Muito liberal.

Nélson na apresentação do Aston Villa, com Doug Ellis e Brian Little

Nélson na apresentação do Aston Villa, com Doug Ellis e Brian Little

D.R.

A propósito de juventude foi na altura do Sporting que começam as primeiras saídas à noite?
Sim.

Lembra-se da sua estreia na noite?
Não me lembro muito bem. Fui arrastado pelos meus colegas porque eu nunca gostei da noite, nunca. Nem mesmo do ambiente das discotecas, eu nunca tinha ido, mas via na televisão, nas reportagens e depois as coisas que eles falavam e eu sempre fui avesso a isso.

Mas do que é que não gostava concretamente?
Do ambiente. Achava que era um ambiente um bocadinho degradante. Nunca gostei de dançar, nem nunca gostei de sair para beber copos. Essencialmente fui porque eram as circunstâncias, arrastado pelos meus colegas, que me puxavam, quase que me amarravam porque sabiam que eu não gostava (risos). Mas fui poucas vezes. Acho que posso contar pelos dedos das mãos e sobram as vezes que fui. Devo ter ido umas três ou quatro vezes. E a sensação que me ficou gravada quando saía das discotecas para casa, é que vinha completamente atordoado e desejoso de não voltar a lá pôr os pés (risos). Porque vinha a ouvir muito menos, vinha a ver muito menos, vinha completamente esgotado (risos).

Em termos desportivos o que é que o marcou mais nas duas épocas em que esteve em Inglaterra?
A forma como as pessoas vivem o futebol dentro e fora do clube. A forma como eles têm o negócio, a indústria do futebol organizada. O respeito e o carinho que têm é imenso pelos protagonistas que não são nem os massagistas, nem os empresários, nem os árbitros, nem os presidentes dos conselhos fiscais, nem da federação. Lá os protagonistas são só os jogadores e treinadores, não há espaço para mais ninguém. E depois todo o ambiente que dos jogos em Inglaterra. É uma coisa única. Só vivenciando é que se pode dizer, é uma alegria tremenda jogar.

Nélson jogou no Aston Villa duas épocas

Nélson jogou no Aston Villa duas épocas

D.R.

Porque é que não continuou em Inglaterra?
Nos dois anos em que lá estive fui sempre titular, mas o treinador que me foi buscar saiu faltavam três meses para acabar a época e subiu o adjunto dele, John Gregory. Mas depois foram buscar o Bryan Little e não sei por que carga de água, no primeiro momento em que chega, pura e simplesmente põe-me de fora. Achei aquilo muito estranho, mas tudo bem. Depois mais tarde é que me vim a aperceber. Chegou o final da época saio eu, saiu o Dwight Yorke para o Manchester, saiu o Mark Bosnich, o guarda-redes, saiu o Steve Staunton para o Liverpool, saiu o Sasa Curcic, o Savo Milosevic para o Saragoça, foi uma razia de todos os jogadores internacionais. E dos melhores, o Aston Villa lutava sempre pelos primeiros lugares. Esse treinador curiosamente, uns três ou quatro anos depois foi apanhado precisamente a beneficiar com as transferências dos jogadores. Tanto é que foi castigado. E assim se muda a vida de uma pessoa. Eu quando percebi que ele não contava comigo, a primeira coisa que fiz foi tentar arranjar saída.

Não tendo empresário, como é que fez isso?
Tinha tudo acertado com o Sporting, para vir para o Sporting. Quem estava a tratar disso era o Couceiro que na altura era o diretor desportivo e que me disse que estavam interessados. Era tudo por telefone, eu disse-lhe que queria ir para o Sporting. Ele disse que não havia empresários metidos, que iria ser feito clube a clube. O que é facto é que passado algum tempo ligou-me um empresário a dizer que estava mandatado pelo vice presidente do Sporting da altura, para fazer o negócio. E eu disse-lhe: “Olhe, o Couceiro disse-me a mim que isto era entre clubes”.

Quem era o empresário?
Era o Amadeu Paixão. Pedi-lhe para ele me enviar por fax, naquela altura não havia mail, um comprovativo e lá vinha a assinatura do vice presidente, em como ele estava mandatado para fazer o negócio. Tudo bem, dei-lhe a minha proposta, o que pretendia e ele transmitiu à direção. Passado pouco tempo vinha na capa do Record, em letras garrafais, “Nelson no Sporting”. Ele ligou-me no mesmo dia ou no dia a seguir, a dizer que o vice-presidente não tinha ficado contente com a notícia e que ficavam para já canceladas as negociações.

Nélson teve de abandonar o aquecimento para promover um patrocinador do Aston Villa de nome "Nelson".

Nélson teve de abandonar o aquecimento para promover um patrocinador do Aston Villa de nome "Nelson".

D.R.

Foi o Nelson que falou com o Record?
Não.

Sabe qual a fonte daquela notícia?
Não. Pensei que iriam deixar passar algum tempo e que me iriam contactar novamente, mas nunca mais me contactaram. Entretanto, faltava-me uma semana, estava eu de férias em Portugal, para voltar novamente para Inglaterra, para o Aston Villa, e ligou-me o Carlos Freitas, que era jornalista do Jogo, e que tinha passado a empresário de futebol. E ele já o disse publicamente: o único negócio que fez em toda a sua vida com o FCP foi a minha transferência do Aston Villa para o FCP. Quando um clube como o FCP com uma dimensão como a do Sporting está interessado em ti...Vi aí uma oportunidade para poder recuperar o lugar a titular, o lugar na seleção, porque pretendia também jogar na seleção como titular. No fundo vi a oportunidade de manter o mesmo nível a que tinha estado habituado. Cinco anos no Sporting, mais dois anos no Aston Villa e pronto, aceitei e vim para o FCP.

Mas joga pouco nessa...
... E curiosamente quando vim, o Sporting depois emite um comunicado a dizer que eu não tinha ido para o Sporting porque tinha pedido muito dinheiro, o que era redondamente falso. Na altura fui ter com o diretor do Porto, que era o Reinaldo Teles, e disse-lhe que queria fazer um desmentido porque aquela notícia não correspondia à verdade. E ele disse-me: “Epá não faças isso. Não faças isso porque nós estamos de boas relações com o Sporting e isto pode prejudicar as relações com o Sporting, portanto não convém fazeres”. “Ok se você o diz”. E ficou assim, como tendo sido eu o mau da fita.

Já tinha casa sua no Porto?
Não, tive de comprar casa no Porto.

Nélson (à equerda) com o filho Ivan, a mulher e a filha Natacha (à direita), no casamento dos amigos Rachel e Pete, o veterinário do seu cão em Inglaterra

Nélson (à equerda) com o filho Ivan, a mulher e a filha Natacha (à direita), no casamento dos amigos Rachel e Pete, o veterinário do seu cão em Inglaterra

D.R.

Vai para o Porto já com um filho.
Com um filho pequenino e com um cão, o Aston, um São Bernardo lindíssimo, que comprei em Inglaterra. Depois de estar cá viveu apenas um ano e pouco. Morreu com um tumor cerebral. Tinha três anos, muito prematuro.

Voltou a ter cães?
Nunca mais. A minha mulher ligou-me num sábado de manhã estava num treino. Quando lhe liguei de volta ela estava a chorar ao telefone a dizer para eu ir rápido que o Aston estava muito mal. Aquilo foi de repente, ele estava com ataques e quando cheguei, o cão morreu-me nos braços, parecia que estava à minha espera para se despedir. Eu disse à minha mulher que ia comprar outro cão, para a gente esquecer, rei morto, rei posto, mas ela não quis, nunca mais quis, até hoje.

Chega ao Porto e encontra Fernando Santos. Com que opinião ficou dele como treinador?
Parece que está sempre mal-disposto nos treinos. Depois no trato normal, fora do campo, já parece outro. Porquê? Já não tem aquela carga. Eu acho que ele tem essa forma de ser, essa personalidade, um bocadinho como defesa. Porque se há alguns que conseguem lidar melhor com essas questões da gestão do plantel, há outras pessoas que podem ter mais dificuldade e tentam arranjar alguns estratagemas para se defenderem. Estou em querer que esse possa ser um deles.

Quando chega ao FCP é logo campeão, mas só faz quatro jogos. Porquê?
Porque eu tive cinco lesões durante a época toda. Na pré-temporada tive uma entorse de ligamentos, parei dois meses e meio. Depois foi um sucessivo de lesões.

Nélson e a mulher no estádio do Aston Villa

Nélson e a mulher no estádio do Aston Villa

D.R.

Faz três épocas com o Fernando Santos, mas pelo meio vai parar à equipa B com o João Manuel Pinto. O que aconteceu?
Nesse percurso todo há a criação das equipas B muitas vezes vou à equipa B fazer os jogos para não perder ritmo competitivo. No primeiro ano estive cinco ou seis meses com lesões sucessivas que me arriou por completo de fazer parte da equipa. Depois, ao fim do primeiro ano resolvem dispensar-me, querem vender-me. Não conseguiram.

Ficou desiludido?
Fiquei. O que é certo é que não dei parte fraca. Lutei e comportei-me quer social, quer profissional, quer desportivamente como se estivesse com os principais, mas a verdade é que eu andava sempre acima e abaixo. Treinava com a equipa normal e ia fazer os jogos da equipa B, depois quando parecia uma oportunidade na equipa principal, já não ia à B.

Em sua opinião por que é que nunca conseguiu agarrar um lugar na equipa principal? Porque a concorrência era muito forte?
Não. Há situações... A direção no FCP tem muito peso. A última palavra em muitas circunstâncias compete à direção e havia situações em que...Vou dar um exemplo. Fui fazer dois jogos pela seleção, houve uma conferência de imprensa, eu fui chamado a essa conferência e há um jornalista que numa pergunta diz qualquer coisa do estilo: "O Nelson passou um mau período mas conseguiu ultrapassar...". E eu respondi. "É verdade, engoli alguns elefantes, mas agora as coisas estão diferentes consegui ultrapassar estas dificuldades". Ingenuamente disse aquela frase que engoli alguns elefantes. O jornalista, claro, aproveitou e sacou isso para letras garrafais. O que é certo é que quando cheguei da seleção, nunca mais me esqueço, íamos jogar a Campo Maior, e eu fiquei fora dos 16. Fui para a bancada. E o Fernando Santos falou comigo antes do jogo a tentar dar-me uma explicação que nem ele sabia como é que havia de dar. Porquê? Porque foram diretrizes da direção, não foi do treinador. Eu passei lá quatro anos, mas três anos desses foram difíceis. Depois do primeiro, foram três anos difíceis porque o FCP não ganhou nenhum titulo nacional. Os adeptos faziam muita pressão e depois sempre que me viam jogar na equipa B, queriam que eu jogasse na equipa A. Claro, também faziam pressão, e isso não era bom. Tanto é que chega ao último ano e nem na equipa A já me deixam jogar. Colocam-me definitivamente na equipa B.

Já com Otávio Machado.
Sim

Nélson regressa ao FCP na época 1998/99

Nélson regressa ao FCP na época 1998/99

D.R.

Mas quem é que o coloca na equipa B?
É a direção. Só pode ser a direção Porque nesse ano foram buscar o Ibarra. Depois, ele não rendeu que devia render, foi um flop. Também não se compreende, tendo eu e o Secretário foram buscar um terceiro defesa direito. E então, fico na equipa B, até vir o Mourinho. Assim que o José Mourinho regressa ao FCP no dia a seguir estou a treinar com a equipa principal. Mas o que é facto é que depois também no período do Mourinho não há uma única vez que eu seja opção. Quando houve um ou outro jogo em que não havia defesa direito. E o Mourinho coloca outros colegas a jogar na posição de lateral direito.

Nunca questionou o treinador nem a direção?
Não. Nesse aspecto não. Nunca fui pessoa de questionar o que quer que seja.

É por isso que sai para o V. Setúbal?
Sim. Eu tinha mais um ano de contrato com o FCP, acabou o último ano e não fazia sentido eu continuar. Houve interesse do Setúbal, surgiu essa oportunidade e fui com a família.

Já tinha mais filhos?
Já tinha mais uma filha, a Natacha que nasceu em 1999. Estive só dois meses a viver em Setúbal porque a minha casa de Lisboa, que eu mantinha, estava alugada ao Boloni, o treinador do Sporting. Estava à espera que ele saísse. Quando isso aconteceu regressei à minha casa e ia e vinha todos os dias para Setúbal.

Como correu desportivamente a época?
Não gostei. Uma cidade muito boa, um clube histórico, com massa adepta própria, mas desportivamente os resultados foram maus, o clube teve muitos problemas financeiros, juntando as duas coisas, deu uma descida de divisão.

Ficaram a dever-lhe dinheiro?
Na altura acertei com eles e depois acabaram por me pagar. Eu estava com 31 anos e tinha como objetivo acabar aos 37, queria fazer 20 anos de profissional.

Nélson com o irmão gémeo após um jogo FCP-Marítimo

Nélson com o irmão gémeo após um jogo FCP-Marítimo

D.R.

Não acredita nos empresários?
Não é isso, de certa forma fui um bocado ingénuo porque não me adaptei à evolução dos tempos. Os empresários já estavam em força e também o timing que o V. Setúbal comunicou que não contava comigo foi tardio, só em julho. Nessa altura já as equipas estão com os plantéis praticamente cheios. Ainda tentei fazer alguns telefonemas para amigos mas estava tudo cheio, tudo lotado. Eu como já estava cansado dos quatro anos que estive no FCP, com altos e baixos e depois aquele último ano de Setúbal que foi a cereja no topo do bolo, por assim dizer, foram cinco anos muito difíceis profissionalmente - e por isso decidi acabar a carreira. Ainda tive um convite do Feirense para jogar um ano e depois assumir o cargo de diretor desportivo. Respondi-lhes que se fosse logo para diretor desportivo aceitava o cargo, mas para jogar já não tinha paciência.

Custou-lhe pendurar as botas?
Custou imenso. Ainda hoje custa. Tenho muitas saudades do tempo em que jogava futebol.

Nessa altura já sabia o que queria fazer da sua vida?
Uma coisa que sabia é que não queria ser treinador. Dentro do futebol é o cargo mais desfavorecido, mais desprotegido, mais incompreendido, mais mal tratado. E também porque ter de tomar opções sobre atletas que estão todos no mesmo patamar, e tenho que deixar gente de fora, isso custava-me imenso.

Até essa altura não tinha pensado no seu futuro pós-futebol?
Não. Não tinha pensado mesmo. Mas logo de seguida procurei uma escapatória e por coincidência a Universidade Católica do Porto abria um MBA em gestão desportiva e inscrevi-me. Fiz o MBA, era de um ano, sem classificação. Ao mesmo tempo jogava futsal, porque havia um grupo de amigos de Rio Tinto que jogava na escolas de Gondomar. Eles convidaram-me para jogar com eles e foi uma experiência engraçada, porque é uma outra vertente do futebol. Os primeiros 15 dias foi só de aprendizagem porque eu não sabia jogar futsal, é muito diferente do futebol.

Depois, o que foi fazer?
Surgiu o convite para fazer parte da direcção-geral do Futebol Clube de Rio Tinto. E mais uma vez convidaram-me também para ver se os ajudava a jogar no campo. Lá fui calçar as chuteiras. Era vice-presidente e jogador em simultâneo, só para ajudar o clube da terra. Nos primeiros dois anos estive como vice-presidente e nos dois seguintes como presidente do clube.

Nélson e o filho Ivan na festa do pentacampeonato do FCP

Nélson e o filho Ivan na festa do pentacampeonato do FCP

D.R.

Tem mais um filho, além dos dois de que já falou. Quando nasceu?
O Rúben nasceu quando estava no Setúbal, em 2003.

O que fazem os seus filhos atualmente?
O Ivan acabou o 3.º ano da FADEUP, a universidade de Educação Física; a Natacha vai para o 3.º ano da universidade de medicina, no Hospital S. João; e o Rúben vai para o 11.º ano.

Algum deles joga futebol?
O Ivan. Também tem o bichinho.

Revê-se nele?
Sim. Ele joga a meio campo. Vai jogar no Maia esta época. Quer ser jogador de futebol. Ele é muito focado.

Pelo meio esteve ligado ao Arena, em Lisboa. Como se meteu nesse negócio?
Depois de sair do Rio Tinto, uns amigos meus do Porto criaram uma empresa de exploração de espaços desportivos e criaram uma academia de futebol. A academia tinha uns meses de fundação e convidaram-me para estar à frente do futebol. Era num colégio em Gaia. Depois com a evolução do negócio, convidaram-me para ir abrir o espaço Arena, junto ao Parque das Nações em Lisboa. E pronto. Estive lá dois anos. No fundo era para dar um empurrão.

A família foi consigo para Lisboa?
Não. Eu ficava de segunda a quinta-feira em Lisboa e depois vinha para o Porto. Eles tinham um espaço no colégio Planalto e também montamos lá a academia de futebol.

O que fazia no Arena?
Faz a gestão de todo o espaço. Tudo o que era preciso. Também cheguei a limpar, às vezes era preciso (risos). Depois deixei as academias do futebol e fiquei com a área do negócio propriamente dito, de aluguer de espaços durante 10 anos. Mas o negocio era desses meus amigos, não era meu.

Rui Duarte Silva

Assumiu publicamente que é membro do Opus Dei. Como é que conheceu a obra, através de quem?
Quando eu estava no Sporting surgiu-me um problema pessoal, familiar, e em conversa com o Carlos Queiroz ele disse-me: "Deixa estar que vou apresentar-te a um amigo, o António Montiel, ele vai-te ajudar, fica tranquilo". Ele apresentou-me e o António Montiel era membro do Opus Dei. Falei com ele, apresentei-lhe a situação e de facto ajudou-me imenso. E é uma amizade que se mantém ainda hoje.

Não quer dizer que problema foi esse?
Prefiro não dizer.

O que o fez aderir à obra?
Eu venho de uma família cristã, de ir à missa, fazer as comunhões. Quando sou profissional no Salgueiros, eu estudava à noite, treinava de manhã e tinha as tardes livres. Logo nos primeiros tempos deu-me um clique, pensei: "Eu nunca li a Bíblia". E fui comprar uma Bíblia, sozinho. Não me pergunte como nem porquê. Nunca mais me esqueço. Fui à Rua da Cedofeita, comprei a Bíblia numa livraria dos Capuchinhos. E passei a ler a Bíblia uma hora por dia.

Não é fácil ler a Bíblia, muito menos para um jovem de 17 anos.
Pois não, mas a minha matriz cristã e católica dizia-me para continuar a ler, porque no fundo era a explicação de tudo aquilo que tinha vivido até aí mas que não percebia. É uma leitura difícil, claro que é. Tanto é que na altura tomava apontamentos na própria Bíblia, que não se deve fazer. Às vezes, quando pego nessa Bíblia e leio esses apontamentos há coisas que se calhar hoje não tinha escrito, porque estão erradas, no entanto naquela altura pensava dessa forma.

Pode dar-nos um exemplo?
Por exemplo, dizia: "se nós perseverarmos em fazer as coisas de Deus, o demónio deixa-nos de tentar porque o demónio vai desistir". E não. O demónio não desiste. O demónio vai insistir até ao dia da nossa morte. É precisamente o oposto do que tinha escrito.

Para um jovem de 17 anos o que era o demónio?
O demónio é a encarnação de tudo o que é o mal, é o oposto de Deus. Essas noções já eu tinha. No fundo, o demónio é tudo aquilo que me incita a pecar. Na altura, o pecar ainda é uma coisa assim um bocadinho genérica. Ou seja, não matar, não roubar, não fazer falsos testemunhos... Só que se formos mais a fundo há um sem número de coisas que, sem darmos conta, também estamos a pecar. Por exemplo, o não matar, nós dizemos "eu não mato, não cometo pecados". É mentira, porque só pelo facto de difamar alguém, posso estar a matar o bom nome da outra pessoa e no fundo simbolicamente estou a matar essa pessoa. Isto só para dar um exemplo.

Nélson (3ª à esquerda) no Vaticano, em 2002, na Canonização do fundador do Opus Dei, São Josemaria Escrivá Balaguer

Nélson (3ª à esquerda) no Vaticano, em 2002, na Canonização do fundador do Opus Dei, São Josemaria Escrivá Balaguer

D.R.

Ainda lê a Bíblia intensamente?
Sempre. Mas hoje é de forma diferente. Porque dentro da obra temos uma leitura que nunca excede os quatro, cinco minutos por dia. Mas na altura eu lia uma hora. E quando jogava no Sporting lia meia-hora sempre antes de dormir.

Dava-lhe alguma espécie de conforto?
A mim não é tanto pela questão do conforto. É pela questão existencial. No fundo, dá-me a razão do meu ser, explica-me de onde eu venho e diz-me para onde vou. E não encaro isso tanto como uma forma de bem estar, que me dá uma paz e uma tranquilidade porque preciso, mas responde-me às perguntas e às inquietações que em algumas circunstâncias das nossas vidas se nos colocam. Por exemplo, a mim aconteceu-me isto e deve acontecer com muita gente. A questão é que depois talvez uns aceitem e outros não aceitem. Dentro da minha forma de ver, do meu crescimento, quanto mais eu vou ao fundo mais me enraízo. E a Opus Dei o que no fundo veio fazer foi solidificar essa raiz. Ou seja, aquilo em que eu acreditava, mas que se calhar não tinha o conhecimento, e a capacidade para poder explicar, saber e aprender por que é que as coisas se passam e acontecem desta forma. Quando conheci a obra... a obra é uma catequese em permanência. Deixamos de ser aquele cristão de ir à missa, aos batizados, aos funerais e às comunhões para nos dar essa profundidade e esse conhecimento de um relacionamento que não é mais do que uma relação da pessoa com Deus.

Tem noção de que há a ideia generalizada de que a Opus Dei é uma organização um pouco obscura...
...Sim, sei disso. Mas ela é obscura só para a comunidade em geral, porque a Opus Dei é uma casa aberta em permanência. As pessoas só não conhecem se não quiserem. Às vezes acontece convidar algumas pessoas para ver o que é, o que compõe a Opus Dei, o que se faz, como se faz, e as pessoas não vêm.

Que razão encontra para não irem?
Porque têm medo.

Medo do quê?
De se enfrentarem com uma realidade... É assim, a relação com Deus é uma relação de compromisso, Deus é pai. Essa é a maior descoberta e a partir do momento em que digo que Deus é meu pai, estabeleço uma relação de compromisso. Há coisas que Deus vai-me falando através das pessoas que me rodeiam, dos acontecimentos da minha vida e da sociedade em si. São tudo sinais. É uma forma de Deus também falar.

Qual a sua opinião sobre a mortificação corporal?
A mortificação corporal de que se fala é para os membros numerários. Eu não sou membro numerário, sou supra numerário.

Nunca utilizou o cilício nem as disciplinas?
Não. Isso é só para os membros numerários. O membro numerário vive nas residências da obra, ou não, porque também há membros agregados, que não são numerários. Os membros agregados não estão casados, vivem em casa própria ou com os pais. Um membro numerário vive nas casas da prelatura. O supra numerário é casado, tem filhos. O plano de normas é ligeiramente diferente. E esse é um dos aspetos, nós não temos cilício.

Faz-lhe sentido a mortificação corporal?
Sim. Porque todos temos em nós concupiscência, a nossa inclinação para praticar o mal. Isso é uma coisa inata. Eu trabalho imenso com crianças e vemos nelas uma pureza, uma simplicidade, uma candura excepcionais; mas ao mesmo tempo há coisas que vemos que nos obrigam a parar para refletir. Porque é que uma criança tão pequena, com aquela candura, é capaz de fazer coisas más que nem ela sabe porque é que está a fazer? Ela não tem noção e no entanto está a praticar uma coisa má, como berrar com os amigos, tirar-lhes os brinquedos, dar-lhes um chapadão. Isto é uma coisa que é intrínseca ao ser humano. Eu dou comigo imensas vezes a querer fazer atos bons mas aquilo que me acontece é fazer atos maus, fazer coisas erradas.

O erro faz parte da vida. Temos de ser constante e fortemente castigados por cada erro que cometemos?
No fundo, cada ato mau é um pecado contra Deus e ao pecarmos contra Deus... É como que dizer: "Meu Deus eu te ofereço esta coisa que eu não gosto, este sacrifício, em reparação por estes atos que eu te ofendo a Ti". No fundo é reparar o mal que foi feito. Obviamente que Deus tem isso em consideração. Jesus Nosso Senhor é o exemplo disso mesmo porque voluntariamente carregou essa cruz, essa paixão, precisamente para nos redimir. Está escrito na Bíblia, quando estava na ceia, Jesus diz uma coisa deste género: "Meu Deus, que ânsias de cumprir este momento e que desejo que eu tenho que isto se cumpra". Ou seja, Deus entregou-se voluntariamente por nós, porque foi a forma que Deus encontrou de poder reconciliar o homem novamente com Deus. Enquanto por via de um homem entrou o pecado no mundo, por via de um homem de Deus, o pecado original de Adão, também por via de um homem de Deus sobre libertos novamente dessa escravidão, somos redimidos por Cristo e reconciliados com Deus. E nisso eu acredito.

Nélson com os três filhos, Ivan (22 anos), Natacha (20) e Rúben (16)

Nélson com os três filhos, Ivan (22 anos), Natacha (20) e Rúben (16)

D.R.

Que obrigações é que tem para com a Opus Dei?
Essencialmente espiritual. Porque tudo o que a obra nos indica é precisamente para a santificação das nossa vidas.

Mas tem rituais.
Em quatro semanas temos três círculos, que são 45 minutos de catequese no fundo; depois temos uma vez por mês a recoleção que é dada por um sacerdote, é meditação. São duas meditações, uma leitura de 10 minutos e exame de consciência. Fazemos o retiro anual de três dias e depois também há um convívio anual de seis dias.

Que opinião tem sobre o Papa Francisco?
É um Papa que veio revolucionar um bocadinho a forma de estar da Igreja. Não é que os Papas anteriores não tivessem esta forma porque eles também o tinham. A questão é que a igreja não se resume ao Papa. Há toda uma estrutura muito pesada por trás e antes da Igreja mudar o que seja fora tem que se mudar por dentro. E acima de tudo o esforço que este Papa está a fazer é tentar mudar a igreja por dentro.

Então concorda com a linha de pensamento deste Papa?
Sim, em quase tudo. O facto de estar sempre com o Papa, de rezar por ele, por ter carinho por ele, por estar a reformar a Igreja por dentro, não invalida que não seja claro para mim a posição do Santo Padre com relação aos recasados, parecendo até entrar em contradição com aquilo que Jesus Cristo diz na Bíblia. No entanto, aquilo que o Santo Padre e a Igreja decidem com relação a esta matéria, devemos seguir e agir em conformidade, independentemente do que eu possa pensar.

Pessoalmente como se posiciona?
No caso dos recasados...Não sou nada nem ninguém para dizer quem é que deve fazer isto ou aquilo. Agora, a igreja diz taxativamente que quem casou uma vez não faça uma segunda. E estar a receber a comunhão novamente numa segunda vez... Porque Jesus diz que quem contrair um segundo casamento comete adultério. Se Deus fala assim taxativamente, quem sou eu para dizer o contrário.

Ou seja, não é a favor dos recasados?
Não. Se acontecesse comigo, não voltava a casar.

Rui Duarte Silva

Que opinião tem sobre a nova legislação que permite às crianças transexuais decidir a que casa de banho vão, nas escolas?
Sinceramente, acima de tudo, acho que é mais uma questão ideológica. Nós até hoje vivemos em perfeita harmonia com as casas de banho (risos).

Mas há pessoas, há crianças que podem não sentir essa harmonia...
...Mas as pessoas não sentem essa harmonia porque decidiram fazer um passo diferente nas suas vidas. Acho que é apenas e só ideológica.

Para si é só uma questão de opção? Não admite a existência da transexualidade?
É evidente que há situações muito complicadas. Mas repare, a homossexualidade existe muito antes de Nosso Senhor Jesus Cristo andar cá na terra e vai continuar a existir, é inegável. Outra coisa é a forma como nos posicionamos perante essas situações. E até há relativamente pouco tempo os homossexuais tinham a sua vida perfeitamente, entre aspas, normal, viviam de uma forma mais recatada, mais recolhida.

Acha que deviam continuar assim?
Acho que deviam continuar assim. Só que quiseram, entre aspas, ideologicamente dar-lhes os mesmo direitos, as mesmas condições, entre aspas e regalias que se dá a um casal heterossexual.

Considera que não devem ter os mesmo direitos?
Não.

Porquê?
Porque estamos a falar de duas coisas diametralmente opostas. Por exemplo, todos os casais que têm filhos contribuem para o avanço das gerações, de uma população, de uma sociedade, contribuímos e esforçamos e lutamos e olhe que é um sacrifício tremendo cuidar de filhos, orientá-los, é um empreendimento tremendo, mesmo.

Não aceita a adoção por parte de um casal do mesmo sexo?
Não. Por exemplo quando uma rapariga jovem parece mais homem ou quando um jovem parece mais rapariga, a testosterona está em níveis elevadíssimo nela e no homem está precisamente no inverso, muito em baixo. E daí haver essas tendências e esses comportamentos. Se isso estivesse regulado teriam comportamentos perfeitamente, entre aspas, enquadráveis nos casais heterossexuais. Por outro lado, para o crescimento integral do ser humano, das crianças, é fundamental haver sempre um macho e uma fêmea. Porquê? Porque todos nós temos sensibilidades, componente psíquica e emocional, completamente distintas e a criança no seu crescimento vai precisar de tudo isso. Um pai e uma mãe têm isso em abundância.

Não é por serem educados por um casal do mesmo sexo que vão ser homossexuais.
Mas a probabilidade é muito elevada. Eu acho.

Voltando à sua vida. Como vem parar ao Colégio João Paulo II onde trabalha agora?
O Dr. Mário Paulo, que é administrador do colégio que pertence à diocese de Braga, há três anos decidiu construir um campo de futebol 11 e teve a ideia de dar início a atividade do futebol dentro do colégio e lembrou-se de mim. Vimos que era um projeto muito interessante e agora cá estou.

Quais são as suas funções?
Nas vésperas de iniciar funções, alteraram o projecto e resolveram constituir uma SAD para o futebol amador juntamente com o clube local que é o Dumiense FC. Reformulamos um bocadinho o que tínhamos planeado e tem sido sempre em crescendo.

Ainda tem atividade física?
Sim, jogo futebol uma vez por semana com amigos e corro duas vezes por semana. Pessoalmente não gosto de não ter atividade física.

Onde ganhou mais dinheiro?
Em Inglaterra.

Investiu o dinheiro onde?
No imobiliário. Era promotor imobiliário, comecei em 1992. Porque a minha ideia era depois do futebol estar ligado a uma atividade que não o futebol e neste caso o imobiliário de que gostava muito. Mantenho a empresa aberta, mas não faço nada desde a crise de 2008. A minha mulher também teve uma loja de roupa de senhora mas também fechou em 2008.

A sua mulher agora faz o quê?
Trabalha na casa de rolamentos do meu sogro. Ainda.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Tive duas. Comprei um Mercedes S, topo de gama que fui buscar à Alemanha. Na altura, em 2000, dei por ele 62.500 euros. E a outra foi uma viagem nas Bahamas com os meus filhos.

A maior alegria e tristeza no futebol?
Não ganhar o campeonato com o Sporting e ter acabado a carreira como acabei. A maior alegria foi ter ganho um título pelo Sporting e ter ganho o campeonato do mundo de juniores em Lisboa.

Ao nível da seleção A, fez jogos amigáveis e de qualificação. Sente-se frustrado por não ter jogado e feito mais com com a seleção?
Sinto até porque fui a várias convocatórias mas nunca joguei uma fase final, fiquei sempre de fora nas pré-convocatórias.

Tem superstições?
De maneira nenhuma.

Depois da publicação desta entrevista Nelson reagiu ao título colocando um post na sua página de Facebook. Aqui fica.

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D.R.