Tribuna Expresso

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A casa às costas

Disse ao Salvador: “Ó presidente, não me chateie, diga mas é ao Jesus para me dar mais minutos, que vai vender-me por ainda mais dinheiro”

Orlando Sá, 31 anos, está a tirar o curso de treinador UEFA B, na Bélgica, mas confessa que mais depressa se vê como manager ou diretor desportivo. Formado no clube do coração, o SC Braga, chegou a jogar no FC Porto, mas foi fora de portas que fez a maior parte da carreira. Esteve em Inglaterra, país que adora e onde tem casa, no Chipre, na Polónia, em Israel e na China, além da Bélgica, onde ainda joga no Standard Liège. Nesta entrevista fala-nos do amadorismo do Chipre, de como passou a admirar os judeus, da reação de Sá Pinto à sua saída para a China, onde diz ter vivido um pequeno pesadelo pela falta de civismo dos chineses; e conta-nos histórias caricatas que metem carros, polícias, aeroportos, rock e pêlos de cão

Alexandra Simões de Abreu

MB Media

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Nasceu em Barcelos.
Sim, na freguesia de Aldreu, que é provavelmente a mais pequena do concelho.

Como era o seio familiar?
Ora então, o meu pai sempre foi uma pessoa um bocadinho ausente porque ele era sargento militar, da marinha. A minha mãe era encarregada de uma fábrica têxtil em Barcelos. Tenho uma irmã mais velha que se chama Ana, tem 36 anos.

Cresceu nessa aldeia?
Sim, fiquei lá até aos 15 anos, até os meus pais me deixarem seguir o meu caminho.

Torcia por que clube?
Pelo Braga, sempre fui bracarense. A minha mãe é de Braga, os oito irmãos dela são todos sócios do SC Braga. Era a cidade onde passava a maior parte do meu tempo, quando não estava nessa freguesia.

Da escola, gostava?
Gostei da escola até perceber que poderia ser “alguém” no mundo do futebol. Depois comecei a desleixar-me.

Era um miúdo malandro, que gostava de fazer partidas, ou era sossegado?
Dependia com quem eu estava. Adaptava-me com facilidade. Sabia portar-me bem quando tinha de me portar bem, mas se estivesse com amigos mais atrevidos também gostava de fazer umas patifarias.

Jogar à bola começa na rua e no recreio da escola.
Sim, tudo começou com amigos nessa pequena freguesia. Tínhamos lá um campo e fizemos dele um campo de futebol de 7, a que chamávamos de Maracanã. Tudo começou lá.

Orlando Sá em criança com um fiel companheiro

Orlando Sá em criança com um fiel companheiro

D.R.

Sempre quis ser jogador de futebol ou houve aquela altura em que queria ser polícia ou bombeiro?
Sempre fui muito bom aluno até à altura em que fui viver para Braga, para jogar no SC Braga, tinha uns 16, 17 anos. Estudei até ao 12º ano, mas não fui o aluno que deveria ter sido caso não seguisse o futebol, se é que me faço entender.

Mas se não tivesse sido futebolista o que teria sido?
Muito provavelmente teria ido para a universidade, para um curso que tivesse a ver com gestão de desporto, porque sempre gostei muito de desporto. Antes de ir para o futebol estava no atletismo e foi o meu professor de atletismo, que era o meu professor na escola também, Rui Pereira, que me motivou para ir para o futebol, dizia que eu tinha jeito.

O que fazia no atletismo?
Fazia um pouco de tudo. Fazia lançamento de peso, salto em altura, os 1.000 e os 1.500 metros, os 60 metros de velocidade. Fiz atletismo dos sete aos 11 anos, até começar a jogar federado no Esposende, através desse professor.

Quando deu a notícia em casa de que ia começar a praticar futebol federado qual foi a reação?
Não foi muito entusiasta porque o meu pai sempre quis que eu seguisse as pisadas dele. Sempre se mostrou um pouco de pé atrás com o mundo do futebol, motivou-me para eu ficar focado nos estudos e decidir mais tarde. E fiquei, até perceber que realmente podia apostar no futebol. A minha mãe igualmente. Não é que eles não me apoiassem, mas nunca foram aqueles pais como existem hoje em dia, que vão ver os jogos e os treinos todos, andam com os miúdos de um lado para o outro e até se sentem treinadores. Não foi esse género de pais que tive. Era mesmo o meu gosto pessoal, fui tendo jeito e as pessoas foram apoiando.

Afinal vai para o Esposende com quantos anos?
Com 10 anos. Ainda andei ali dois anos um bocadinho... ia para o atletismo, ia para o futebol, continuava no futebol, mas sempre que tinha tempo lá ia para o atletismo. Sobretudo por causa do grupo. Tínhamos um bom grupo de amigos no atletismo. Na altura fiquei com pena de deixar.

Orlando Sá, na 1ª Comunhão

Orlando Sá, na 1ª Comunhão

D.R.

Depois vai para o SC Braga.
Desde que comecei a jogar no Esposende que o Braga mostrou interesse em que eu fosse para lá. Como a minha família era do SC Braga, sempre fizeram muita força para que os meus pais me deixassem ir para lá. Aos 15 anos, porque o SC Braga providenciou as condições que os meus pais queriam que eu tivesse, fui então viver para Braga. Fui para um apartamento com outros colegas, mas ia almoçar e jantar sempre ao mesmo local, às galerias do bingo. E estudava no Externato Carvalho de Araújo.

Como foi sair de casa dos pais com 15 anos?
Foi um espetáculo [risos]. Gostei muito.

Começaram as saídas à noite...
Exatamente. Começa a haver outros problemas a que os meus pais não estavam habituados. Também fui para um mundo um bocadinho diferente. Vivia no apartamento com os meus colegas, a que nós chamávamos “o 2º esquerdo” que, entre aspas, ganhou algum nome naquela cidade [risos]. Fazíamos umas patifarias lá. Coisas de adolescentes, festas, amigos e coisas [risos]. Mas tenho de referir que esses anos da minha adolescência foram muitos bons. Fiz amigos que ficaram para a vida. Tive aquelas experiências de adolescentes que todos nós temos naquela cidade, em que jogava no clube do meu coração, onde tinha amigos, primos, a minha família. Foi muito bom. Foi a mudança ideal.

Quando é chamado pela primeira vez a uma seleção ?
É para os Sub-19. Fui chamado pelo Edgar Borges para dois jogos amigáveis. Na altura estava nos juniores do Braga, a época estava a correr bem, estava a fazer imensos golos. Eu sabia que já andava a ser observado. Desde o primeiro dia em que entrei na seleção que senti vontade de voltar muitas vezes. Estar num local onde estão os melhores jogadores do teu país é gratificante.

Orlando Sá foi para o SC Braga com 15 anos

Orlando Sá foi para o SC Braga com 15 anos

D.R.

Faz o seu primeiro contrato com o SC Braga aos 15 anos. Lembra-se do valor do primeiro ordenado?
Eles pagavam a casa, pagavam-me a escola, pagavam a alimentação e salvo erro, 400 euros.

O que fez a esse primeiro dinheiro?
No apartamento chegámos a viver seis. Tínhamos um frigorífico, cada um tinha a sua prateleira e a maior parte das vezes gastávamos esse dinheiro a comprar coisas lá para casa, para lanchar e para a ceia.

Não se recorda de nada que quisesse muito comprar?
Não. Queria mais ter a minha independência para poder ir ao cinema e poder levar uma amiga ou poder ir a um concerto e pagar eu os bilhetes.

Qual foi o primeiro concerto que viu?
Não me lembro, já fui a tantos. Mas não sou fã de rock, ao contrário do Cândido Costa, por exemplo, com quem tenho uma cena por causa da música [risos]. O Cândido de vez em quando dava-me boleia e ao Ricardo João, um dos meus melhores amigos, porque morávamos a uns 20 minutos a pé do estádio. “Então, miúdos, tudo bem? Entrem aí para trás que deixo-vos em casa”; nós entrávamos e lá estava ele a ouvir a rockada dele, era o “Purple Rain” ou Bruce Springsteen. E como ele tinha dois ou três cães, tinha sempre o carro cheio de pêlos. Então nós, que não éramos grandes apreciadores de rock, fazíamos um esforço para ouvir aquela música, ainda por cima no meio dos pêlos [risos]. Quando estava bom tempo considerávamos ir a pé [risos]. Ele vai matar-me por eu contar isto, mas a verdade é que ele era um porreiro. Nós cruzávamo-nos muitas vezes com o pessoal da equipa A e ele era um dos mais extrovertidos connosco.

Entretanto é emprestado ao Maria da Fonte. Porquê?
Eu fiz as duas pré-épocas com a equipa principal e nos últimos dias de mercado decidiram que seria melhor para mim ser emprestado. Estava a ir à seleção e se ficasse no plantel principal ia ter menos oportunidades. Como o Maria da Fonte jogava na III divisão, que é tipo a nacional de seniores da II divisão agora, era uma boa possibilidade para eu jogar com regularidade. Continuei a jogar, a marcar golos e a ir à seleção.

E volta a Braga.
Sim, volto com o mister Jorge Jesus. Fiz a pré-época, correu bem, fiquei no plantel e as coisas também correram muito bem nos Sub-20.

Mas não teve muitas oportunidades com o Jorge Jesus, pois não?
Não. Joguei mais na seleção. Tivemos cerca de sete, oito jogos e eu joguei-os todos e marquei sete ou oito golos. Um desses jogos foi aquele célebre jogo contra a Espanha em que fiz três golos e ficou na memória de muita gente. Na equipa principal fiz alguns jogos com o mister Jorge Jesus, fiz dois ou três golos.

Jorge Jesus tem fama de que intimidava os mais novos pela sua maneira de ser. Sentiu isso?
Sim, senti isso claramente. Mas normalmente os mais novos quando chegam às mãos do Jorge Jesus são avisados pelos empresários, pelos pais, pelo amigos, da pessoa que vão encontrar. Quando regressei ao Braga para fazer a pré-época com ele, uma pessoa ou outra já me tinha dado a dica: “Miúdo, concentra-te, se não...” Se ele tiver de dar um raspanete, se calhar dá com mais facilidade a um miúdo do que a um jogador mais experiente. Lembro-me que na altura, tanto eu como o Stélvio, o Filipe Oliveira e outros, ouvíamos um ou outro raspanete com mais facilidade do que os jogadores mais experientes.

Orlando Sá com a mãe ao lado e a mulher

Orlando Sá com a mãe ao lado e a mulher

D.R.

É chamado à seleção A.
Sim, fui à seleção A duas vezes. Numa delas joguei contra a Finlândia e durante esse período tive... Vou-lhe contar uma história que nunca contei publicamente. Eu já tinha tudo acertado para ser vendido para fora, através do Jorge Mendes, que era o meu representante, e das pessoas que trabalhavam com ele, o senhor João Camacho e o Carlos Rente.

Para onde?
Prefiro não dizer o clube, mas era um clube inglês. Estava tudo certo para ser vendido para Inglaterra, com um contrato muito bom para mim e para o Braga, só que eu não estava para aí virado. Eu adorava o SC Braga, adorava a cidade, adorava o clube, tinha toda a minha família ali, todo o meu conforto e na altura não dava o valor ao dinheiro que se calhar dou hoje. Não tinha a noção da importância que o dinheiro tinha. Aqueles 400 euros que recebia por mês eram o suficiente para eu ser feliz. Ia para os treinos com os amigos e já era feliz. Como na altura tinha assinado um contrato profissional de cinco anos com Braga, a ganhar bem... Mas estava tudo acertado e eu tinha de ir para Lisboa apanhar o avião. Lembro-me de estar em casa e de dizer à minha mãe que alguma coisa me dizia que não devia apanhar aquele avião. Saí de casa com um casal amigo, já atrasado, e perdi esse avião.

O que fez?
As pessoas que estavam responsáveis por aquele negócio disseram-me que tinha de apanhar o avião desse por onde desse. Quando lá cheguei a porta tinha fechado há cinco minutos. No aeroporto de Lisboa consegue-se ver o avião na pista. O que é que eu fiz? Saltei a porta de vidro. A porta tem cerca de dois metros mas se puser um pé no torniquete consegue passar. E no outro lado está um segurança a quem eu queria explicar que a porta já tinha fechado mas que eu tinha mesmo de apanhar aquele avião. Mas o segurança amarrou-me o braço, torceu-me, chamou a polícia e fui identificado [risos]. E não fossem os conhecimentos do meu agente…

E depois?
As coisas complicaram-se. O presidente do Braga liga-me: “Miúdo, quando voltares podes ter a certeza de que vais para a equipa B e não vais jogar mais pelo Braga”. Respondi-lhe: “Ó presidente, não me chateie, diga mas é ao Jorge Jesus para me dar mais minutos que você vai vender-me ainda por mais dinheiro” [risos]. Mais tarde acabei por ser transferido para o FC Porto.

E o clube inglês?
Eu ia viajar numa sexta-feira, o treinador desse clube que me queria perde no sábado por um resultado avultado e é despedido no dia a seguir. Supostamente eu tinha de viajar na segunda-feira e já não viajei. O negócio caiu.

O Jorge Jesus depois disse-lhe alguma coisa?
Não. Eu era apenas um miúdo com potencial. O presidente é que ficou fulo porque a minha transferência mexia com as contas e objetivos do clube, não só desportivos como financeiros. Mas o mister Jorge Jesus depois acabou por me dar mais oportunidades.

Orlando Sá (a cabecear a bola) foi para o FCP em 2009/10

Orlando Sá (a cabecear a bola) foi para o FCP em 2009/10

MIGUEL RIOPA

Fica até final da época e vai para o FCP.
Sim. O Jorge Mendes falou-me do interesse do FCP. Na primeira conversa ele até me passou o telefone ao presidente e eu fiquei extremamente lisonjeado. Mas lembro-me que esse interesse do FCP já vinha desde a altura em que comecei a ir às seleções mais jovens. Eles apreciavam as minhas qualidades.

Assina com o FCP antes da época acabar, não é?
Eu assino pelo Porto em fevereiro, para ir em junho.

Entretanto lesiona-se.
Quando estava no meu melhor momento, a jogar no Braga e a ir à seleção A, foi quando tive a lesão no joelho, rutura de ligamentos. Fiquei parado cerca de sete meses. Fui para o Porto logo em março e fiz a operação através do dr. José Carlos Noronha, o diretor clínico da FPF agora.

Recupera e apanha Jesualdo Ferreira aos comandos do FCP.
Sim, um excelente professor.

Completamente diferente de Jorge Jesus?
Personalidades completamente diferentes. O professor Jesualdo é uma pessoa mais calma, que gosta de chamar o jogador à parte e explicar o que pensa e aquilo que realmente quer. O mister Jorge Jesus é uma pessoa mais intuitiva, mais corrosiva, diz o que tem a dizer, tem aquele ímpeto, tem o coração mais perto da boca. O mister Jorge Jesus privilegia o 4-4-2 a maior parte das vezes. O professor Jesualdo sempre foi um treinador do 4-3-3. Eram táticas e ideias de jogo completamente diferentes. Eu ainda estava em fase de crescimento e tive um bocado de dificuldade, não só pela lesão mas também porque quando voltei a jogar tinha dois pontas de lança que faziam imensos golos, estavam à minha frente. Era o Radamel Falcão, que fez uma época incrível, e o Ernesto Farías, que jogava meia dúzia de minutos e fazia sempre golo.

Disse numa entrevista que quando foi para o FCP era imaturo. O que quis dizer?
Era imaturo porque se fosse hoje não tinha cometido erros que cometi no passado.

Que erros?
Quando um jogador tem um contrato como o que eu tinha e está a viver no Porto, completamente independente, e sabe que ao fim de semana por mais que trabalhe bem não vai jogar porque tem um ponta de lança como o Falcão ou como o Farias, sem querer, acaba por relaxar. Se calhar não treinava da forma que devia treinar, se calhar não descansava o tempo que devia descansar. Se calhar não era o profissional que devia ser. Mesmo que não tivesse as oportunidades que queria, devia ser mais focado no futebol, confesso.

Teve algum problema no Porto, por causa da noite?
Fui avisado uma vez ou outra. Nem tanto pela noite, era um bocadinho por perceberes que tens um jogador que um dia vai jantar ali, noutro dia vai tomar café ali, outro dia está acolá. Não é por estar na noite até às tantas horas. Como qualquer outro adolescente, gostava de ir beber um copo com amigas e divertir-me. Eles perceberam que se calhar eu andava distraído com algumas coisas do Porto, não só da noite, e que às vezes desleixava um bocadinho o futebol. Mas nunca houve nenhuma situação realmente grave.

Orlando Sá (à esquerda) jogou uma época no Nacional da Madeira

Orlando Sá (à esquerda) jogou uma época no Nacional da Madeira

AFP

É emprestado ao Nacional por causa desse comportamento ou por outras razões?
Sou emprestado ao Nacional porque nesse ano da lesão joguei pouco e eles entenderam que tinham de me emprestar para ter mais minutos, à imagem do que aconteceu no Braga quando fui para o Maria da Fonte. Fiz alguns jogos e alguns golos no Nacional, foi bom para mim.

Foi para a Madeira sozinho?
Fui e foi nesse verão que conheci a mãe das minhas filhas e a minha atual companheira, a Maria Teresa. Conhecemo-nos nas férias, em Lisboa, através de amigos em comum.

O que fazia profissionalmente?
Ela estava ligada ao mundo da música. Inicialmente vou sozinho, ela vai ter comigo uns tempos, volta, vai, volta, até que as coisas se tornaram mais sérias e numa fase final ela já estava comigo a tempo inteiro.

No Nacional da Madeira, tem o Ivo Vieira como treinador ou o Jokanovic?
Infelizmente apanhei o Jokanovic. Eu não o considero treinador de futebol. O Ivo era uma pessoa muito mais capaz do que o Jokanovic.

Por que diz que o Jokanovic não era capaz?
Sei lá. É a mesma coisa que você meter uma cantora como jornalista e ela fazer o trabalho que você está a fazer. Você ia dizer: “Mas o que é que esta rapariga está aqui a fazer?” Nós víamos coisas diariamente que eram inacreditáveis.

Pode dar um exemplo?
Não quero ser muito duro, porque há sempre aqueles que gostam e os que não gostam. Apesar de, neste caso, saber que eram mais os que não gostavam. Exemplo? Como se diz na gíria, era bola na frente e seja o que Deus quiser.

Era o que ele dizia?
Não era o que ele dizia, mas sair de um FCP com Jesualdo Ferreira e apanhar o Jokanovic foi um choque para mim. O Ivo era adjunto e desde muito cedo que eu e alguns colegas percebemos que o Ivo era uma pessoa muito mais capaz do que o Jokanovic. Eu, o Anselmo que neste momento faz parte do Sindicato, o Márcio Madeira, o Nuno Pinto, o Patacas entre outros, percebemos isso e fui uma das pessoas que disse ao presidente Rui Alves que se ele queria o melhor para o clube, tinha de trocar o treinador. Não era comprar ou vender jogadores, o problema estava no treinador. Isso veio-se a comprovar porque com o Ivo fizemos a Europa, acabamos em 5º ou 6º lugar. O Ivo sempre foi uma pessoa que admirei como pessoa e como treinador, sempre sentimos que ele poderia ter o percurso que está a ter.

Não tem histórias para contar do Nacional?
Por acaso até tenho. E vou fazer uma revelação. Na altura do Nacional, o Nuno Pinto, eu, o Edgar Costa íamos quase sempre juntos para o treino e um dia lembrámo-nos de comprar um baton sem ninguém saber. Começámos a escrever num carro ou outro algumas frases engraçadas. Espero que hoje passados tantos anos as pessoas que sofreram com as nossas brincadeiras nos desculpem, porque até hoje nunca ninguém soube quem foi [risos]. E uma das pessoas mais visadas era um dos nosso diretores Ludgero Castro e daqui mando-lhe um grande abraço, caso ele leia esta entrevista. Agora, passado tanto tempo, dá para rir, mas na altura deu problema a sério porque queriam descobrir quem fazia aquilo.

Orlando Sá começa a sua aventura fora, no Fulham de Inglaterra

Orlando Sá começa a sua aventura fora, no Fulham de Inglaterra

Nick Potts - PA Images

E o Fulham, como surge?
No terceiro ano de contrato com o Porto, percebi que não ia ser outra vez aposta do clube. Como não queria ser mais um... como é que vou dizer... mais um Castro, um Ukra , um Ventura, podia dizer aqui 20 nomes... Estou a dizer estes nomes, mas não estou a direcionar exatamente a eles, é de uma forma geral. Estou a referir-me ao facto de andarem emprestados quatro e cinco anos. Por vezes é assim que funciona o futebol, a pagar favores de uns clubes para os outros. Em que o Porto, o Benfica ou o Sporting prometem emprestar um jogador aqui, outro acolá e às vezes usam esses jogadores, mais novos, que não vão ser apostas no plantel principal, e vão emprestando ao Setúbal, ao Olhanense, ao Portimonense, ao Nacional, onde os clubes grandes têm mais ligações.

Recusou ser emprestado novamente?
Nunca quis ser um desses jogadores e disse-lhes: “Se vocês não querem apostar em mim, vamos arranjar uma forma de eu sair do clube, ou vocês me vendem ou ficam com a maior percentagem do meu passe e deixam-me sair para um clube que quer apostar em mim e onde me sinta feliz, porque não quero andar sempre emprestado de um lado para o outro”. A maior parte dos jogadores emprestados chega a meio da época, se o empréstimo não estiver a correr bem, se o jogador não estiver a fazer a diferença, acabam por retornar ao clube que os emprestou ou serem dispensados. Isso aconteceu com muitos colegas meus que não batiam o pé perante os empresários ou perante os clubes. Eu não queria ser um desses jogadores.

O FCP aceitou, pelos vistos.
O Porto ficou salvo erro com 40 ou 50% do meu passe, não sei se houve ali uma compensação financeira também e eu vou para Inglaterra.

Agradava-lhe a ideia de ir para Inglaterra?
Sim, bastante. O Porto não queria, mas eu fiz força com o Antero Henriques para que me deixassem sair do clube.

Orlando Sá celebra a marcação de um golo com o técnico do Fulham, Martin Jol

Orlando Sá celebra a marcação de um golo com o técnico do Fulham, Martin Jol

Jamie McDonald

Como é que foi o primeiro impacto em Inglaterra, no Fulham?
Foi bom. Cheguei lá no mesmo dia do Bryan Ruiz. Ele tinha acabado de ser a transferência mais cara de sempre do clube. Fomos apresentados no mesmo dia e foi uma realidade diferente, Premier League. Saí do Nacional para aquela realidade. Na altura o meu inglês não era como é hoje, tinha um inglês base, a minha namorada foi uma grande ajuda.

Ficou a viver a onde?
Em Wimbledon. Acabei por comprar lá casa e adoro Inglaterra. Acabei por sair de lá, sempre com o pensamento de querer voltar.

Gostou dos ingleses?
Não gostava propriamente dos ingleses, mas era uma mentalidade muito mais aberta. Vivia-se de uma forma muito mais descontraída, sem preconceito e eu gostava disso. Pensava que se um dia tivesse filhos, gostava que eles estudassem em Inglaterra, foi uma das razões por que comprei lá casa.

Por que é que só ficou lá uma época?
O Fulham fez das melhores épocas de sempre no meu ano, jogámos a Liga Europa e acabámos em 6º ou 7º lugar. Era uma equipa consolidada na Premier League e para a minha posição tinha vários jogadores de qualidade. Quando fui tinha noção disso. Como disse, nunca fui um jogador de ficar acomodado, ficar num sítio em que visse que não poderia jogar ou ser opção. Estar num clube só por estar, não. E no final desse ano tinha perspetivas de ter mais oportunidades.

Teve dificuldade em adaptar-se ao futebol inglês?
Inicialmente tive e até fiz um plano específico para trabalhar o meu corpo, principalmente a nível de força e explosão.

Sentiu essa necessidade ou foi-lhe imposto?
Foi um bocadinho pelo treinador, o Martin Jol, que queria que eu fosse um “9” de referência, daqueles pontas de lança típicos ingleses, possantes. Na altura eles prepararam esse plano para mim. Passei a fazer muito mais ginásio, a alimentação era diferente. No Nacional da Madeira estava habituado a comer um pão misto e um iogurte e ia para o treino; em Inglaterra de manhã comíamos bifes de frango ou de perú com legumes, omeletes, ovos mexidos etc. Todos os dias.

Gostou do futebol inglês?
Muito, mas não me identificava com muitas formas de eles trabalharem os jogadores. A mentalidade inglesa está a mudar, mas eles ainda têm muito, como nós dizemos em Portugal, aquelas velhas guardas no clube em que o jogador tem de fazer 30 agachamentos, 50 flexões, tem de levantar peso, ir para o ginásio. Tentaram mudar-me um bocadinho nessa direção mas não conseguiram porque eu tenho uma ideia diferente do futebol, apesar de ter um metro e noventa e pesar 90 quilos, não acho que todos os jogadores, todos os pontas de lança tenham de ser o típico inglês de choque, de correr e bater neles, como se costuma dizer. E, nessa altura, as pessoas que lá estavam tinham essa ideia. Nesse ano até funcionou mas nos anos a seguir o clube passou por dificuldades, neste momento está na segunda divisão.

Depois do Fulham, Orlando Sá rumou ao AEL Limassol do Chipre

Depois do Fulham, Orlando Sá rumou ao AEL Limassol do Chipre

EuroFootball

Como se dá a passagem para o AEL Limassol, do Chipre?
Esse verão foi dos verões mais difíceis que tive na minha carreira.

Porquê?
Porque houve promessas não cumpridas, houve interesses que supostamente eram concretos e deixaram de ser e o jogador fica sempre na expetativa e as coisas não acontecem.

Que interesses?
Havia clubes de Espanha, de Itália e de Inglaterra que estavam interessados e que iam avançar e depois na expetativa de irmos para A, rejeitamos B e depois queremos ir para B e aparecia C e ficávamos na indefinição e entretanto eles avançam para outro jogador. Eu estava com uma expectativa alta porque tinha tido a oportunidade na Premier League, ainda era um jogador novo, mas as portas foram-se fechando aqui e acolá. Como tinha amigos nessa equipa que era campeã do Chipre e eles iam jogar competições europeias…

Quem eram os amigos que tinha no Chipre?
Não eram amigos, amigos, mas eu conhecia-os. Estava lá o Monteiro, chegámos a cruzar-nos nas camadas jovens da seleção. Tinha o Paulo Sérgio, um extremo que jogou no Guimarães. E o diretor fez muita força para que eu fosse, ofereceu-me um contrato de que não estava à espera. Não queria de todo ter ido para lá mas hoje digo que não me arrependo, foi como bater no fundo. É como saltar num trampolim, às vezes temos de ir abaixo para depois dar um salto mais alto. E acabou por ser bom, fui o melhor marcador lá.

Qual foi o primeiro impacto quando lá chegou? Era o que estava à espera?
Não. Passado uns dias de lá estar, falei com o clube para rescindir.

Porquê?
Por tudo um pouco. Porque encontrei uma realidade completamente distinta. Senti que tinha cometido um erro.

O clube não tinha condições?
O clube tinha condições mas não eram as condições ideais comparativamente com as condições de um clube da Premier League ou com um clube de Portugal.

Orlando Sá festeja um golo com Cristiano Ronaldo, na seleção

Orlando Sá festeja um golo com Cristiano Ronaldo, na seleção

FRANCISCO LEONG

Chegou a apanhar o Jorge Costa como treinador?
Sim. Impecável, fiz uma boa amizade com ele. Tem uma personalidade distinta, que eu gosto, uma pessoa com caráter, frontal. Se toda a gente fosse tão sincera e frontal como ele sempre foi comigo, o mundo do futebol seria um mundo melhor.

Do que gostou mais e menos do Chipre?
Do que gostei menos foi da falta de profissionalismo e a falta de palavra que existe naquele país. Não me estou a referir às pessoas do clube em concreto, estou a referir-me de uma forma geral. Está muito melhor, como a Turquia está melhor, mas existem ainda muitos problemas e muito amadorismo.

Tem alguma história caricata que nos possa contar?
Lembro-me de ter colegas meus que nos testes de urina que às vezes tínhamos durante a semana mijavam um bocadinho e depois enchiam o resto com água [risos]. Às vezes no dia anterior ao jogo fazíamos um churrasco e havia colegas meus que bebiam um copo de vinho tinto, diziam que fazia bem beber um copo de tinto antes do jogo para dormir melhor [risos]. Colegas meus que estavam na praia e vinham diretos para o treino. Tinham passado o dia na praia com a família, iam a casa, tomavam um banho, pegavam na bicicleta e iam para o treino. À imagem do que se faz aqui nas férias, com os amigos.

Foi com a sua mulher?
Sim, desde a Madeira que ela passou a ir sempre comigo.

Ela adaptou-se bem ao Chipre, gostou de lá estar?
Adaptou-se sempre bem. Aliás eu estou a falar disto mas adorei Limassol e não ponho de parte um dia lá voltar. Gostei muito da cidade e recentemente estive lá. Está muito mais evoluída. A mentalidade dos cipriotas é um bocadinho a mentalidade grega que é ganhar para viver. Eles ganham, gastam, ganham, gastam e são pessoas que não querem saber se têm um carro bom ou se não têm. Normalmente andam com os carros a cair de podre e ficam a viver em casa dos pais quase até aos 40 anos. Têm filhos muito mais tarde. Querem aproveitar a vida, ficar num café a beber frappé durante três, quatro horas. Se têm alguma coisa para resolver, é sempre amanhã, amanhã resolvo. Ligas a pedir um favor e eles: “Ah, amanhã a gente vê isso”. E amanhã se eles tiverem alguma coisa para fazer, dizem: “Deixa ver, até ao final da semana isso vê-se” [risos].

Esteve ano e meio no Chipre. Ainda apanhou o Lito Vidigal como treinador.
Foi com ele que fiz golos quase todos os jogos. Ajudou-me imenso.

Como assim?
Ele ajudou-me a sair do Chipre. Sei que há muitos colegas meus que falam isto e aquilo, mas eu do Lito não tenho nada a dizer. Em relação a mim sempre foi uma pessoa extremamente correta e respeitosa. Passados uns dias de me estar a treinar disse-me assim: “Ó rapaz, se tu quiseres eu tiro-te daqui, mas tens de querer”. Chegou a dizer-me: “Ó rapaz, tu estás aqui a fazer o quê? Estás a passar férias?! Queres sair daqui ou não queres?” Porque eu já estava a entrar na mentalidade cipriota. O meu primeiro meio ano no Chipre foi horrível. Nos primeiros meses eu não tinha lá a cabeça, queria ir-me embora. Pedi exaustivamente para ir embora. Eles não deixaram e na altura em que chega o Lito, digo-lhe que estou desanimado e ele responde: “Se tu me ajudares, eu ajudo-te”. As coisas começaram a correr melhor, até que em janeiro o Legia da Polónia pagou um milhão de euros por mim, para eu sair dali.

Uma realidade completamente diferente.
Sim, no Chipre elegeram-me o melhor jogador do campeonato e isso foi bom porque tive alguns clubes interessados. Não é fácil estar no Chipre e ter clubes interessados, que vão ao Chipre pagar para contratar um jogador. Mas para sair ainda tive de deixar uns salários para trás.

Explique lá isso.
O presidente não me queria vender. Ele ainda disse que me pagava os salários que estavam em atraso e que fazia um novo contrato, mas eu disse-lhe: “Desculpe, mas eu não vou perder esta oportunidade. Posso cá voltar, passar férias consigo um dia mais tarde, mas por favor, tenho esta oportunidade de sair daqui, de ir para o campeão do Polónia, para um clube que realmente me quer, deixe-me ir”. Ele percebeu que eu queria mesmo ir e acabámos por chegar a acordo.

Orlando Sá foi para o Legia de Varsóvia, na Polónia, em 2013/14

Orlando Sá foi para o Legia de Varsóvia, na Polónia, em 2013/14

SERGEI SUPINSKY

Quais foram as primeiras impressões da Polónia?
Um espetáculo. Adorei a Polónia. O primeiro treinador que lá tive, o Henning Berg, não era o treinador ideal, mas fui o melhor marcador da equipa durante dois anos seguidos, fui eleito o melhor avançado dois anos seguidos. Estive pré-convocado para a seleção quatro ou cinco vezes, apesar de infelizmente nunca ter sido chamado. Fiz imensos golos, as coisas correram-me mesmo muito bem e felizmente foi lá que consegui o meu retorno a Inglaterra.

O que mais lhe ficou da Polónia?
Adorei Varsóvia. E gostei do clube, era muito mais profissional, tinha umas condições espetaculares. O amadorismo desapareceu. O polaco é um jogador que trabalha duro, é focado, é muito mais responsável. Não são jogadores com qualidade técnica, mas são jogadores com qualidades físicas e mentais. Eles podem saber que o outro é melhor, mas conseguem superar isso com o querer e com determinação. Isso ajudou-me a ser um jogador melhor. Um jogador e uma pessoa melhor. Foi na Polónia que provavelmente fiz o grupo de amigos mais forte ao longo dos anos em que joguei em vários países. Tenho lá bons amigos, foi lá que a minha mulher ficou grávida da nossa primeira filha, a Maria Francisca, que tem quatro anos.

Assistiu ao parto?
Sim, assisti aos dois partos. Nasceram ambas em Portugal. Curiosamente foi no dia do parto da minha primeira filha que soube do interesse do Reading.

Nessa altura também esteve para ir para a Bélgica não foi?
Foi, mas como é que sabe isso!?

Já o disse numa entrevista.
Sim, nessa altura também havia clubes interessados na Bélgica.

E não foi para a Bélgica porquê?
Porque eu queria muito voltar a Inglaterra.

Mesmo que fosse para a 2ª divisão?
Sim, eu queria voltar para Londres ou arredores e o Reading era perfeito. Eu adoro Londres, tenho lá casa e tenho lá bons amigos. Queria muito lá voltar. Ia ter a minha primeira filha e pensei: quero ter três, quatro filhos e quero que eles estudem em Inglaterra. Na altura, até tinha mais e melhores oportunidades para ir do que o Reading, mas como era em Londres... Falei com o treinador, o Pini Zahavi também me convenceu do projeto e fui através dele e do Cajuda, que é um grande amigo que tenho no futebol, foi uma parceria entre eles. Eles convenceram-me do projeto e eu voltei a Inglaterra. Sempre disse que entre dois clubes interessados, se houvesse um que fosse em Inglaterra, que fosse na região de Londres, era a minha escolha.

Orlando Sá voltou a Inglaterra, para o Reading, em 2015/16

Orlando Sá voltou a Inglaterra, para o Reading, em 2015/16

David Davies - EMPICS

Como é que foi voltar a Inglaterra?
Até dezembro correu muito bem, continuei a ser pré-convocado para a seleção, sei que estava a ser observado, as coisas estavam a correr muito bem com o Steve Clarke, o atual treinador da Escócia, e ele de forma caricata pediu, porque em Inglaterra eles têm de pedir para negociar com outros clubes, para negociar com o Fulham. Nós estávamos em 1º ou 2º e o Fulham estava uns 15 pontos atrás de nós. Ele não chegou a acordo, continuou no clube mas desde essa altura empatámos cinco ou seis jogos e perdemos outros cinco jogos.

Como explica?
A maior parte dos jogadores ingleses não gostou do que ele fez, aquilo não caiu bem no balneário. Os jogadores deixaram de trabalhar da mesma maneira, começaram a olhar para o treinador de forma diferente e quando o treinador perde o grupo, não há muito a fazer. Não foi pela qualidade do Steve Clarke, que é indiscutivelmente um bom treinador, boa pessoa, mas na altura cometeu um erro, que ele próprio admitiu.

Ou seja, um balneário pode despedir um treinador.
Claramente. Foi e será sempre assim. Claro que a decisão final é sempre de quem manda e de quem tem o dinheiro, de quem paga, mas quando um balneário não está com o treinador, não há muito a fazer. E depois há outra coisa. O clube tinha um dono e se você é dono de um clube como o Braga e vê o treinador a pedir para negociar com o Setúbal, quando você está nos primeiros lugares... Aquilo não cai bem. Na altura o Fulham estava no Championship mas é um clube com orçamento de Premier League e supostamente tinham um orçamento e uma equipa para lutar pela subida, apesar de estarem muitos pontos atrás de nós. O Steve Clarke deve ter sentido que podia ter ali uma boa oportunidade contratual... Não sei qual terá sido o pensamento dele, sei que quando ele sai havia jogadores que estavam com o treinador e outros que não estavam. Eu era um dos que estava indiscutivelmente com o treinador. Quando ele sai, eu e outros jogadores fomos extremamente prejudicados, houve mesmo jogadores que foram convidados a sair do clube.

Consigo o que é que aconteceu?
Eu falei com o Zahavi e disse que se houvesse uma oportunidade queria sair do clube também. Na altura o treinador que chega, vem com ideias completamente diferentes...

Era quem, o Martin Khul?
Exatamente, é outro Jokanovic [risos]. Bola na frente e seja o que Deus quiser. Estou a exagerar um bocadinho, quase não tive oportunidade para o conhecer mas do pouco que vi... E veio a confirmar-se, porque ele passado algumas semanas foi despedido. Eu próprio falei com a direção, falei com o Zahavi e disse: “Se houver uma oportunidade, quero ir-me embora porque não gosto de fretes. Tenho mais três anos de contrato e não vou ficar aqui só por ficar”. Eu e mais três saímos. Em Inglaterra é um bocadinho assim, quando sai um treinador, saem logo cinco ou seis jogadores com o treinador. As coisas correm bem, esses jogadores renovam o contrato, estão lá e são uns reis. Se as coisas correm mal, vão todos embora.

Orlando com a mulher, as filhas e um Pai Natal

Orlando com a mulher, as filhas e um Pai Natal

D.R.

Vai parar a Israel por causa do Zahavi?
Sim, ele é israelita. O Jordi Cruijff conhecia-me do tempo do Chipre, porque ele era diretor no AEK no Chipre, já me queria ter contratado anteriormente, tanto ele como o treinador que na altura me queria levar para o Vitesse, o holandês Peter Bosz. Quando souberam que eu não queria ficar no Reading, ligou-me, eu achei que poderia ser bom ir para o maior clube do país, com as melhores condições, com muitos adeptos. A cidade de Telavive é fantástica, para mim foi a maior surpresa positiva. A minha família adorava lá estar. Mas Israel é um bocadinho como no Chipre, não os israelitas, mas o campeonato e como as coisas se proporcionam. Quando cheguei lá percebi que era bom jogar e viver em Telavive, com calor, boa vida, no maior clube do país, mas percebi que se realmente queria jogar mais uns anos, se continuasse lá mais dois, três anos, dificilmente sairia de lá para um nível como a Bélgica ou a Inglaterra.

O nível de futebol é fraco.
Há duas, três boas equipas mas depois o nível é baixo. O campeonato não é mau mas não tem a visibilidade que deveria ter e não é organizado da forma que devia ser. Quem vive em Israel e conhece o campeonato sabe como as coisas lá funcionam. Mas quem não conhece Israel e não tem ligações a Israel, também não quer saber do campeonato israelita. É um campeonato que não passa em lugar nenhum, há pouca informação, só podem jogar três jogadores estrangeiros por clube, o que dificulta que outros países tenham interesse em ver o campeonato, até porque para tirar os jogadores israelitas de Israel não é fácil porque eles recebem acima da média. Um bom jogador em Israel dificilmente vem para Portugal porque vinha receber menos, a não ser que fosse para um clube grande.

Foi nessa altura que conheceu o Johan Cruijff, pai do Jordi?
Felizmente tive esse privilégio.

Como foi conhecer essa figura mítica?
Um misto de sentimentos. Uma pessoa de quem ouvíamos falar em comentários e na internet, que é respeitada mundialmente, e de repente está ali ao teu lado. Ele vinha muitas vezes ver os nossos treinos porque o filho era nosso diretor.

Aconselhava-os, falava com vocês ou não?
Falava pouco connosco, falava mais com o treinador, com o Peter Bosz. Ele já estava num estado um bocadinho debilitado. Sentíamos que já falava mais baixinho, mais devagar e não queríamos estar ali de volta a chatear. Era o pai do nosso diretor e não queríamos estar ali a “puxar o saco”, apesar de termos vontade de estar ao pé dele.

Orlando Sá (com a bola), no Reading

Orlando Sá (com a bola), no Reading

Ben Hoskins

Do que gostou mais da cidade?
A qualidade de vida é impressionante. Têm boas praias, a gastronomia, depois da nossa deve ser a melhor. Gosto dos israelitas, dos judeus, da forma como pensam, da forma de estar e da forma de viverem. Têm coisas engraçadas, o shalom, que é o dia em que eles não podem fazer nada. É tipo o domingo de cá, mas é no sábado. Normalmente os jogos não coincidiam com esse dia, mas às vezes estávamos no estágio e eles naquele dia até ao pôr do sol não podem fazer nada. Não podem atender o telefone, não podem tocar nos botões do elevador, não podem abrir uma porta, não podem pegar no carro, não podem fazer nada, é a religião deles. Mas tirando isso... Os judeus normalmente são pessoas com carácter, com princípios, que respeitam o parceiro. Gostei muito, gostei da forma como eles se tratam, como eles vivem. Estou a falar de Telavive, não me estou a referir ao resto. Porque fora de Telavive aquilo tem muito que se lhe diga. Telavive é tipo um país dentro de Israel.

Visitou outras cidades?
Visitei e vi coisas que nunca tinha visto em Telavive.

Que coisas?
Em Jerusalém sente-se um clima de tensão muito mais intenso. Há um misto de religiões, já se veem pessoas com armas na rua. Você está a passear na rua com as suas filhas e passam dois homens de armas ao ombro, por exemplo. E de repente vê três, quatro pessoas que são de uma religião, três ou quatro que são de outra religião, e não se falam, nem comunicam mas estão ali no mesmo território. Sente-se um clima um bocado diferente.

A sua segunda filha nasce quando?
A Maria Benedita nasceu há dois anos, em 2017.

Já estava no Standard Liège.
Exatamente.

Orlando Sá vai para o Standard de Liège, da Bélgica, em 2016/17

Orlando Sá vai para o Standard de Liège, da Bélgica, em 2016/17

Photonews

Como se dá a ida para a Bélgica?
O Standard Liége era um dos clubes que já tinha mostrado interesse em mim no passado. A experiência em Israel foi boa mas futebolisticamente se pudesse ir para um clube como o Standard para ser aposta, eu mudava. Eu sabia que o Jordi mais tarde ou mais cedo também ia sair do clube. Nessa altura o treinador também sai e falei com eles. Tinha ido para lá por causa deles, se o treinador vai embora e sabendo que mais cedo ou mais tarde o Jordi também ia... Como só podem estar três estrangeiros, pedi para procurarem um ponta de lança para repor a minha posição e para chegarmos a acordo para eu sair. Foi o que aconteceu. Em Israel, se você se sentar à mesa com eles e explicar-lhes aquilo que lhe vai na alma, eles tentam sempre arranjar uma solução que seja boa para todos. Não são daquele tipo, tens contrato, tens de ficar aqui. São pessoas extremamente corretas.

Então vai para a Bélgica? Como é que foi? Onde é que se instalou, foi fácil a adaptação?
A Bélgica surge através do diretor desportivo Olivier Renard, que me conhecia do tempo de Inglaterra e do Legia. Curiosamente foi dos clubes onde tive mais sucesso.

Foi onde marcou mais golos. Como explica?
Sei lá, foi se calhar a motivação de ter voltado a uma liga com mais visibilidade, estádios cheios, um clube que tem todas as condições para um jogador. Foi uma fase bastante estável da minha vida, tanto profissional como emocional, familiar. Foi na altura que a minha mulher ficou grávida da minha segunda filha. No dia em que estava a renovar o meu contrato com o Standard Liège, foi o dia em que recebi a chamada a dizer que tinha de apanhar um voo para Lisboa para assistir ao nascimento da Benedita.

Como foi com o francês?
O meu francês neste momento já é bem melhor. Já falo o suficiente para ter uma conversa. Gosto da cidade, porque é pequena, industrial, é uma cidade boa para nos concentrarmos no futebol, não tem aquelas típicas distrações que normalmente os jogadores de futebol apreciam.

Está a referir-se a quê em concreto?
Não é uma cidade como Lisboa, Londres ou até Varsóvia, a nível de vida noturna. Não é uma cidade onde haja muitos concertos, não podemos criar grandes expectativas em relação ir a um restaurante, discoteca ou concerto porque há eventos mas são mais pequenos e dispersos. Por vezes se estamos numa cidade onde existem coisas que nos puxem, ficamos a pensar, podia ter ido...

Esse tipo de sentimento viveu onde?
Em Londres e Telavive sobretudo. Na Bélgica consegui dedicar-me a 100% ao futebol e tive talvez os melhores dois anos da minha vida e daí terem surgido várias ofertas e ter acabado por sair para a China.

Orlando Sá no dia em que foi apresentado no Henan Jianye, da China

Orlando Sá no dia em que foi apresentado no Henan Jianye, da China

D.R.

Porquê a China? Foi por causa do dinheiro?
Sim. Apenas. Não vou ser hipócrita. Na altura tinha mais do que uma proposta, até mesmo da China. Estava num período mesmo muito bom, tinha renovado há seis meses o contrato na Bélgica e o objetivo não era sair. Até falei disso com o mister Ricardo Sá Pinto, e mesmo ele disse: "Ó Sá, tu não vais sair". Mas continuei a receber propostas, até que começaram a ser significantes para a minha família, e irrecusáveis. Na altura tive uma outra conversa com ele, em que disse que se a proposta chegasse até um determinado valor que considerava irrecusável, eu ia sentar-me à mesa com as pessoas. Estávamos na final da taça da Bélgica, que acabámos por ganhar, estávamos na luta pelo campeonato e acabámos por ser vice-campeões. Saí numa fase delicada para a equipa. Até pedi desculpa aos meus companheiros e ao próprio treinador.

O Sá Pinto ficou chateado consigo?
Não ficou chateado, isto já lá vai, mas ficou sentido, não só ele como as pessoas do clube. Chegámos a um momento em que não pensámos que os valores chegariam àquele determinado ponto, mesmo as pessoas do clube não foram capazes de dizer que não, puseram a decisão nas minhas mãos. Decidi ir. Até posso contar uma história.

Força.
Na altura em que saí aqui do clube a decisão também estava muito nas mãos do Sá Pinto e houve um dia em que peguei em tudo, entrei no gabinete dele e disse: “Mister, olhe, é assim, passa-se isto, isto e isto, está isto, isto e isto em cima da mesa. Tenho de dar uma resposta até hoje à meia-noite. E eu quero que você tome esta decisão comigo”. Ele deu-me um abraço, desejou-me boa sorte e disse: “Sai daqui antes que eu me arrependa”. Nem todos os treinadores proporcionam este tipo de relação com os jogadores. Podem apontar-lhe alguns defeitos, como todos nós temos, mas uma coisa que ele tem de bom é isso, um jogador poder abrir-se com ele, porque ele foi jogador e mesmo tendo o coração muito perto da boca ele acaba por perceber o lado do jogador.

O que achou do Sá Pinto como treinador?
Ele tem uma personalidade vincada, como toda a gente sabe, tem a personalidade de "leão" e acho que correu bem, o pessoal aqui gostou bastante dele, deixou uma boa imagem no Standard. Tem uma personalidade guerreira e agressiva, um bocadinho à imagem do clube, o que os adeptos gostam. Na altura até foi uma surpresa para toda a gente ele ter saído do clube. O período que passei com ele foi excelente, houve boa química entre nós. Ele conseguiu unir muito o grupo e teve sempre o grupo do lado dele. Aliás quero referir que felizmente das três experiências que tive com três treinadores portugueses, ou seja, Lito Vidigal, Jorge Costa e Sá Pinto, foram três experiências muito boas. São pessoas com as quais vou manter contacto e vou lidar de perto para o resto da vida provavelmente.

É no Standard de Liège que Olando Sá tem marcado mais golos

É no Standard de Liège que Olando Sá tem marcado mais golos

Photonews

E que tal a experiência na China?
Foi especial. Não me criaram grandes expetativas em relação à cidade, disseram-me que não era das melhores cidades para ir na China. A cidade de Zhengzhou é tipo a capital do maior distrito da China, Henan. Tinha muitos milhões de pessoas e a maior parte das pessoas andavam na rua de mota, há filas e filas de trânsito, motas nos passeios, ninguém falava inglês, uma coisa inexplicável. Muito difícil. Eu andava com um motorista 24h. Tinha de andar com um tradutor, para me ajudar em tudo o que fosse preciso, até para marcar restaurante. Havia só um restaurante europeu que eu frequentava.

Ficou sempre no hotel?
Fiquei. Encontrar uma pessoa que falasse inglês era como encontrar uma agulha num palheiro.

Não chegou a ter como colega de equipa o Ricardo Vaz Tê?
Sim, mas ele vivia numa parte completamente oposta ao meu hotel e na altura ele estava lá com a família, a minha família não estava, por causa da escola das minhas filhas. Eu não queria que por minha causa elas passassem seis meses enfiadas num quarto de hotel. Elas ficaram em Portugal e iam visitar-me com a mãe. Passei esses quase oito meses praticamente sozinho.

Não jogou muito.
Não, porque a seguir a cinco ou seis jogos tive uma lesão num jogo contra o Dalian, a equipa do José Fonte. Levei uma pancada no tornozelo e fiquei lesionado quatro a cinco semanas. Até que houve a pausa do campeonato e só voltei a jogar passadas umas largas semanas. Não foi das melhores experiências.

Tinha assinado por quanto tempo?
Dois anos e meio. Mas a determinado momento o treinador mudou, passou a ser um sul-coreano, e na China é assim, vamos pôr os pontos nos is: só podem lá estar quatro estrangeiros e desde o momento em que há um agente que tem ligação a um treinador ou diretor desportivo, eles têm prioridade nas janelas de transferências, que abrem de seis em seis meses. Se é o agente que faz a transferência do treinador e tem ligação ao diretor, vai fazer pelo menos duas ou três transferências de jogadores. E se vais com um diretor e com agente, se as coisas não estão a correr bem ao final de seis meses, quando muda o treinador, tem de mudar obrigatoriamente no mínimo, dois estrangeiros. O dinheiro tem de rodar. Na altura quando mudou o treinador saiu percebi que a minha situação no clube ia ficar delicada. Por isso mostrei-me disponível para chegar a um acordo e voltar à Europa.

Foi o que aconteceu.
Sim. Chegámos a um determinado momento em que percebemos que o dinheiro é importante mas não é tudo na vida. O que é que você pode comprar com 100 que não compra com 10? Chega a um ponto em que... Foi muito difícil estar naquela cidade. De 24, 25 jogadores só havia três ou quatro jogadores que falavam inglês, tirando os estrangeiros. Houve uma altura em que me abri um bocadinho mais com um ou outro chinês que falava inglês e eles diziam: "Sá, este clube é um dos pouco clubes onde nem os chineses querem jogar".

Orlando Sá assume ser apaixonado por carros

Orlando Sá assume ser apaixonado por carros

D.R.

O que fazia nos tempos livres?
Quando tinha tempo livre e podia falar um bocadinho com os meus amigos e a minha família, eles estavam a dormir em Portugal. Como não gosto jogar Playstation, aliás, nem sei jogar Playstation, a maior parte das vezes ficava a ver filmes e séries, enfiado no hotel.

Alguma série preferida?
Sim, gostei muito do Prision Break, do 24, Californication, entre outras. Agora estou a começar a ver A Casa de Papel. Mas aquilo chegou a uma altura em que chegava ao quarto do hotel e já suspirava. Fiz lá dois ou três amigos, mas que não eram aqueles amigos próximos, e eles trabalhavam. Almoçava, chegava ao hotel e tinha a tarde toda livre.

Do que gostou menos na China?
A zona onde vivi. Eram pessoas sem princípios, sem maneiras a comer. Às vezes ia a restaurantes deles e era inacreditável o que via, deitam lixo para o chão, cospem, deitam beatas para o chão... São muito pouco civilizados. Via coisas inacreditáveis, dava por mim a abanar a cabeça mas tenho a certeza de que eles nem percebiam porque é que eu abanava a cabeça.

Dê um exemplo.
Ir a passear e de repente dois homens à sua frente começarem a cuspir para o chão, as motas andarem por cima dos passeios. Chega a um ponto em que nos sentimos tão mal que dizemos "tenho de sair daqui". Porque se não começamos a ser como eles. Aquilo é tanto trânsito, que se quer chegar a tempo a um sítio é melhor ir de mota, mas eles não respeitam as regras de trânsito. Está vermelho e o pessoal das motas vai para cima dos passeios, contorna o semáforo e mete-se na estrada outra vez. E se você está no passeio, tem de se desviar. É uma confusão tremenda, só visto. Fiquei impressionado pela falta de civismo deles. Mas tenho várias histórias...

Conte lá uma desse tempo.
Esta foi logo no meu primeiro jogo fora de casa. Normalmente antes do jogo comemos massa e frango ou perú. Coisas saudáveis que nos dêem energia para o jogo. E para meu espanto, olho para o lado e vejo colegas meus que iam jogar dali a duas horas, a comer hamburgueres com molhos. Perguntei ao coordenador da nossa equipa se aquilo era normal. Ele disse que não, que por engano algumas pessoas do hotel colocaram aquilo ali e os jogadores simplesmente aproveitaram. Nem quiseram saber que tinham jogo dali a umas duas horas.

Orlando Sá continua a jogar no Standard de Liège

Orlando Sá continua a jogar no Standard de Liège

Dean Mouhtaropoulos

Quando decide que está na hora de vir embora, já tinha o Standard novamente interessado?
Quando saí da Bélgica tinha uma cláusula em que o Standard tinha sempre a opção desde que eu concordasse com o salário. Ou seja, eu podia ter uma proposta de outro clube, tal como tinha, mas teria de falar sempre com o Standard para eles terem a possibilidade de igualarem a proposta. Mostrei-me disponível para sair, mas não disse que queria sair. E eles cometeram o erro amador de contratar um jogador antes de chegar a acordo comigo. E o que acontece na China? Para contratar um jogador têm de primeiro retirar um estrangeiro do seu plantel, caso contrário não podem inscrever o jogador contratado. Como perceberam que eu não gostava de lá estar e como eu disse que não me importava de ir embora, contrataram um jogador e depois é que tentaram chegar a um acordo comigo.

Negociou então.
Aquilo caiu-me mal, porque o clube não foi completamente claro comigo. Então quando vieram falar comigo disse-lhes que afinal tinha mudado de ideias e que queria continuar. Aí eles assustaram-se porque precisavam de retirar a minha inscrição para inscrever o outro. Como eu já tinha clubes interessados, esperei até ao último dia. Até que fiz um acordo bastante vantajoso para mim e voltei à Europa. Juntei o útil ao agradável.

A sua prioridade foi sempre voltar ao Standard?
Sim. Voltei a Liège para a mesma casa, as minhas filhas voltaram para a mesma escola e parece que nada mudou.

Como correu a primeira época depois do regresso a Liège?
Faço 25 jogos, mas a maior parte deles a entrar como substituto. Não foi o regresso que eu esperava. Mas estou a fazer os possíveis para que as coisas voltem ao antigamente.

Tem estado lesionado.
Sim, tive um problema no pé, fui operado, estou a recuperar, já estou a treinar com bola e sinto-me bem. Hei-de voltar às boas exibições e a fazer golos.

Está com 31 anos. Pensa terminar a carreira quando?
Eu gostaria de terminar a carreira aos 35 anos. Mas quero terminar a carreira num ponto em que me sinta útil e até ter vontade de acordar e levantar-me da cama para ir treinar. Se tiver essa motivação tudo bem. Neste momento continuo super motivado.

Já pensou no que vai fazer depois de pendurar as botas?
Claro que sim. Já tenho uma empresa imobiliária criada, já fiz vários investimentos em Portugal e no estrangeiro. Vou estar sempre ligado ao mundo imobiliário mas também ao futebol. Porque é a minha paixão.

O que se vê a fazer no futuro?
Apesar de neste momento estar a concluir o curso de treinador UEFA B, com os mesmo professores com quem o Sergio Conceição fez o curso dele quando cá jogava, não sei se realmente vou seguir uma carreira de campo. Estou a fazer por curiosidade, para fazer contactos e ocupar o tempo. Mas imagino-me mais na parte diretiva, gestão, análise, como manager ou diretor desportivo.

Orlando com a mulher e as filhas num passeio por Bruxelas

Orlando com a mulher e as filhas num passeio por Bruxelas

D.R.

É crente?
Eu acredito em Deus, mas acho que já acreditei mais, porque vejo tanta coisa a acontecer que fico "hum..."

Tem superstições?
Não. Quem acredita em Deus não pode ter superstições.

Tem tatuagens?
Não. Não é uma coisa que aprecie e não é importante para mim. E não sou grande fã de agulhas.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Sou completamente apaixonado por relógios. E foi ter comprado um Rolex de quase 50 mil euros. Já comprei carros de 200 mil euros.

Qual o melhor carro?
O meu carro atual, um Porsche turbo S.

Tem algum hóbi?
Eu estou muito envolvido no mundo imobiliário e acompanho muito, principalmente na região do Porto. Sigo muito as tendências. Tento acompanhar o mercado. Ao contrário da maior dos meus companheiros não sou grande fã de Playstation, nem da NBA [risos]. Dedico muito do meu tempo a tentar melhorar-me enquanto pessoa, por isso estou a tirar este curso. Tive aulas de inglês, francês, italiano. Tento ocupar-me com coisas que sei que me vão ser úteis no futuro.

Há mais algum desporto que goste de seguir?
A F1 e Moto GP. Sou apaixonado por velocidades, motas e carros. Não o posso praticar, como é óbvio, mas sempre que posso vou assistir aos GP, como aconteceu aqui na Bélgica recentemente.

Quando era pequeno quem eram os seus ídolos?
Eu nunca fui muito de ídolos. Sempre soube apreciar as melhores qualidades de cada pessoa. Se calhar olhava para o Jardel e tentava perceber como ele era tão bom a cabecear, olhava para um João V. Pinto, com quem tive a felicidade de partilhar balneário no Braga, e tentava perceber como tinha a facilidade de criar espaços e fazer assistências. Nunca tive um ídolo de meter a foto no quarto. Tinha várias referências.

Em sua opinião qual o seu ponto mais forte e o mais frágil enquanto futebolista?
O mais frágil é eu não conseguir engolir sapos. Não papo grupos, como se diz no norte e isso já me custou muitas vezes. Apesar de que as pessoas acabavam sempre por me dar razão, por perceber o porquê de eu ter dito o que disse ou ter feito o que fiz. Não sou capaz de dar um sorriso a uma piada quando não acho piada. Nem sou capaz de ir bater nas costas de uma pessoa que não me diz nada, só porque me interessa. Prefiro ter à mesa cinco amigos do que ter uma mesa com 20 e não saber quem são os meus amigos.

Algum clube de sonho onde gostasse de ter jogado?
Não vou responder a essa pergunta. Ter jogado na seleção foi um sonho tornado realidade. Só tenho pena de não ter tido mais oportunidades.

Orlando Sá com a filha Maria Benedita recém nascida, ao colo, ao lado da sua cadela "Zara"

Orlando Sá com a filha Maria Benedita recém nascida, ao colo, ao lado da sua cadela "Zara"

D.R.

Para terminar, não acredito que não tenha mais histórias para contar...
Posso contar uma. Quando fui para o Fulham tinha um Mercedes SL 500 cabrio. E eu não queria conduzir um carro do lado contrário. O que fiz? Mandei para lá o carro. Quando lá chego fui jantar de carro com uma pessoa, que não vou dizer quem é, para o centro de Londres. Eu nem tinha a permissão para conduzir no centro de Londres e o meu carro ainda por cima era de volante à esquerda. Nesse dia, depois de jantar, decidimos ir beber um copo, e como estava bom tempo abri a capota para apanhar um bocado de ar [risos]. Estávamos a passear e, de repente, há uma emboscada da polícia por nossa causa. Carros de um lado, carros do outro, rua fechada. Mandaram-nos sair do carro de pistolas apontadas a nós [risos]. Eles explicaram que é muito, muito raro ver dois estrangeiros num carro de alta cilindrada de matricula portuguesa com a capota aberta, sem permissão do carro para lá andar.

O que aconteceu depois?
Levaram-nos para a esquadra, fizeram-nos 500 perguntas. Algumas do tipo, que idade tens, qual é a cor que estás a ver à tua frente? Estás em que cidade? Uma coisa bizarra. Se calhar pensavam que devíamos ser uns drogados ou delinquentes. E nós estávamos simplesmente a aproveitar dois dias que tínhamos livres [risos)].

E do Standard Liège, não tem também histórias? Afinal é o clube onde está há mais tempo fora.
Tive um episódio caricato uma vez, na rua. Num jogo contra o Beveren, em que eu estava um pouco doente, mesmo assim marquei dois golos na 1ª parte. Estávamos a ganhar 3-0, salvo erro, e ao intervalo eu e o treinador decidimos que era melhor eu ser ser substituído porque o jogo estava praticamente ganho. Como não me estava a sentir bem, tomei banho e a meio da 2ª parte fui para casa. No caminho encontro um senhor um pouco tocado, a cambalear e a pedir boleia. Pensei que era um sem-abrigo, mas deu-me um clique, parei o carro para dar boleia porque estava mau tempo, a chover imenso. O engraçado é que acabei por perceber que o senhor tinha bom aspeto, estava bem vestido e simplesmente tinha bebido uns copos a mais e não sabia onde tinha deixado o carro. Era sócio há muito tempo do Standard e uma pessoa muito bem formada. Quando entrou no carro e me reconheceu nem queria acreditar que era eu [risos]. Pediu-me ajuda para encontrar o carro e acabámos por descobrir o carro dele a mais de 1km do estádio.