Tribuna Expresso

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A casa às costas

“O clube ficava no meio do nada, liguei ao meu pai, pedi ao motorista para parar. Depois, despejaram maços de notas - e eu assinei contrato”

Vive atualmente em Inglaterra onde tem uma empresa de entregas e confessa que não pensa voltar a Portugal tão cedo. Criado na Zona J de Chelas, onde chegou a ajudar vizinhos na altura em que começou a ganhar dinheiro com o futebol, Rui Duarte revela algumas peripécias dos vários processos de transferências que viveu e conta como saiu furada a prometida ida para o Benfica. Pai de três rapazes, esteve cinco anos na Roménia e ainda jogou no Chipre onde, diz, parecia que estava de férias. A carreira terminou abruptamente por causa de um problema renal, mas não baixou os braços e passou a treinar Muay Thai, uma paixão antiga

Alexandra Simões de Abreu

EuroFootball

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Comece por descrever o sítio onde nasceu e apresente-nos o seu núcleo familiar.
Cresci em Chelas, na Zona J, o meu pai foi sempre vigilante e a minha mãe doméstica. Tenho quatro irmãos, uma irmã mais velha do que eu, o resto são todos rapazes mais novos.

Lá em casa torcia-se por que clube?
Sempre pelo Sporting, até hoje ainda torço pelo Sporting.

Quem eram os seus ídolos?
A nível de futebol sempre foi o Cafu.

Calculo que a bola tenha começado na rua.
Sim, lá no bairro, nos torneios de bairro.

Nunca teve problemas no bairro?
Não. Cresci ali e para mim sempre foi e será sempre a minha família. Crescemos todos juntos.

Nunca foi tentado e aliciado para outras vidas?
No bairro há essa possibilidade de se ser aliciado, mas sempre fui muito ligado ao futebol e a gente acaba por não ter o mesmo tempo que os outros miúdos e por não estar tanto tempo no bairro.

Tinha alguém na família ligado ao futebol?
Não.

Da escola gostava ou nem por isso?
Nem por isso (risos).

Baldava-se muito às aulas?
Muito (risos). Não era muito de ir às aulas. Quer dizer, eu ia e passava sempre. Mas ali, no meio do bairro, com as companhias “ah vamos só fazer mais um joguinho”...

Os seus pais não o chatearam por faltar às aulas?
Chatearam, mas a gente vem de uma família humilde e os nossos pais passavam muitas horas a trabalhar e acabavas por não ter esse tempo. Mas eles controlavam, sempre tive uma educação boa, os meus pais sempre tentaram dar a melhor educação possível, só que não tinham aquele controlo total, porque eles saíam de madrugada para ir trabalhar e chegavam à noite, era complicado gerir a situação dos filhos.

Então nunca levou nenhum raspanete mais a sério ou ficou de castigo por ter faltado às aulas?
De vez em quando levava umas boas lambadas (risos), mas ali no bairro é outra mentalidade. A gente nasce ali no bairro, tem ali a nossa vida, temos ali os nossos amigos, aquilo é uma família e acabas por... Hoje o pai ralhou, apanhas uma palmada, mas daqui a um bocado já nem te lembras.

Rui Duarte iniciou a sua formação no Sporting

Rui Duarte iniciou a sua formação no Sporting

D.R.

Como e quando é que surge o seu primeiro clube?
Comecei a jogar no bairro, aos oito anos, num clube que era os Falcões, uma equipa de futebol de cinco que nasceu no bairro. Tínhamos uma equipa que ganhava quase tudo na zona de Lisboa, onde jogava também o Miguel que depois foi jogar no Benfica. Jogava também um primo do Miguel que acabou por jogar no Sporting vários anos.

Quando era pequeno já jogava atrás na defesa?
Não, era avançado, porque era mais pequeno. Só ficava lá à frente para encostar (risos), porque os outros atropelavam-me todos, sempre fui pequenino. Naquele tempo notava-se mais a diferença, nos juniores acabas por não notar tanto.

Sempre disse que queria ser jogador de futebol ou queria ser outra coisa?
Sempre quis ser jogador de futebol. Nem me lembro de ter outras ideias. Acho que também tem a ver com a condição de termos nascido no bairro, não vês assim muitos horizontes. Hoje em dia já não se nota tanto, até há pessoas que vêm de fora, raparigas e rapazes que namoram com pessoas do bairro. Antigamente, o bairro era mais fechado às pessoas fora do bairro e a gente não via muitas oportunidades e então quando tinhas jeito para o futebol... era a escapatória de todos.

Esteve a jogar nos Falcões quanto tempo?
Passado um ano, o senhor Mala, lá do bairro, via os jogadores que eram bons e como o filho dele já estava no Sporting, ele levava os miúdos todos para irem treinar às captações do Sporting. Todos os que fomos, ficámos lá. Eu tinha nove anos quando fui para o Sporting.

Quem era o treinador na altura?
César Nascimento e o Osvaldo Silva depois, nos infantis, ambos já falecidos.

Ficou no Sporting até quando?
Até aos iniciados e depois fui um ano emprestado para o Fófó. Naquele tempo davam muita importância à altura, se fosses baixinho era muito difícil ficares, a não ser que fosses mesmo um fora de série, se não era muito difícil. Eles diziam que eu era franzino e emprestaram-me durante um ano ao Futebol Benfica, o Fofó.

Não ficou chateado?
Na verdade fiquei, quando jogas no Sporting, és miúdo e és emprestado, não tens aquela maturidade de perceber as coisas, ficas sempre um pouco revoltado, sabendo que até tens qualidade mas ainda não tinhas o corpo que eles queriam. Fui para o Fófó nesse ano e acabei por ficar praticamente sem jogar. Ia desistir de jogar porque entretanto não ia voltar para o Sporting, iam dispensar-me e a partir daí, ponderei, via os meus amigos a ficarem ali no bairro o dia todo, não tinham aquele hábito de horário, aquelas coisas e eu fiquei um pouco desanimado e comecei a querer ficar ali, estava naquela de já não ir jogar.

Ainda estudava?
Estava na escola, sim. Depois um senhor que tinha um filho no Fófo, a quem tinha acontecido a mesma coisa, mas tinha ido jogar para o Benfica, levou-me às captações do Sacavenense.

Isso com que idade?
Com uns 15, 16 anos e depois fiquei lá, no Sacavenense.

Aurélio Pereira e Rui Duarte, no Sporting

Aurélio Pereira e Rui Duarte, no Sporting

D.R.

Foi no Sacavenense que começou a ganhar o seu primeiro dinheiro no futebol?
Foi, foi lá. Eram 12 contos (€60).

Lembra-se do que é que fez com esse dinheiro?
Não dava para nada, só para comprar o passe para ir treinar (risos). Tinha de apanhar a camioneta de Chelas, era só uma que passava, e o passe das camionetes era sempre mais caro que o dos autocarros. Então, tinha de ter aquele dinheiro para comprar o passe. Não dava para mais nada, nem para a sandes dava (risos)

Foi ficando no Sacavenense e quando é que larga a escola?
Nos dois anos de juniores, larguei a escola e fiz um curso de formação de mecânica na base do Alfeite. Tenho uma história engraçada na passagem dos juniores para os seniores.

Conte.
Na passagem dos juniores para os seniores no Sacavenense, eu não era para ficar e fui para casa. Jogar naquele clube não dava dinheiro, era só despesa e cansaço. Ter de ir treinar ao final do dia, sair de Sacavém tardíssimo para ira para casa...Então fui de férias e nunca mais disse nada a ninguém, fiquei já em casa, não queria jogar mais. Só que o diretor do clube, o senhor Barão, foi a Chelas umas três vezes à minha procura. Há terceira encontrou-me e disse que tinha conversado com o treinador dos seniores que lhe disse; “há aí um miúdo que tens de ver”. Então, ele levou-me aos seniores e eu fiz uns dois, três treinos e assinei logo contrato. De €65 ou €75, já não me lembro bem, era coisa pouca, dava para o passe e pouco mais.

Mas depois foi para o Casa Pia. Como?
Joguei o primeiro ano nos seniores, fiz uma grande época no Sacavenense, tinha vários clubes interessados da II Liga. Muita promessa, mas quando vais a ver em concreto, no final do ano, apareceu o Casa Pia, que tinha um projecto diferente do Sacavenense, já pagava um salário mais a sério e optei por ir para o Casa Pia.

O que é que chama de salário mais a sério?
600 euros.

Já deu comprar alguma coisa que quisesse muito?
Na verdade, não me lembro muito bem, mas provavelmente fiz o que fiz durante muito tempo: ajudar a minha mãe. Eu tinha mais irmãos e às vezes tínhamos um pouco de dificuldade, por isso acabava por tentar ajudar um pouco. Ficava com algum dinheiro para mim, para fazer alguma coisa que precisasse, mas basicamente era para a tentar ajudar em casa.

Ficou no Casa Pia duas épocas e meia. Como é que correram essas épocas e que memórias é que tem?
Correram muito bem, estive num grupo espectacular. Dos melhores grupos que apanhei fora e dentro do campo. É o grupo com quem tenho mais ligação até hoje. Claro que tenho amizade com jogadores de vários grupos, mas aqueles jogadores com quem tenho mais amizade e com quem falo mais são os do Casa Pia. Parecíamos mesmo uma família, íamos para fora, para jantar, para almoçar, para todo o lado.

As saídas à noite mais a sério começam nessa altura ou já tinham começado?
Por acaso nunca fui muito de sair. Saía, claro, como toda a gente sai, mas nunca fui muito de sair nessas alturas. Comecei a sair um pouco mais, entre a última época no Casa Pia e a ida para o Estoril.

Depois do Sporting Rui Duarte foi para o Sacavenense

Depois do Sporting Rui Duarte foi para o Sacavenense

D.R.

E como é que se dá a ida para o Estoril? Tinha empresário?
Na altura não. Há dias estava a ler a entrevista do Carlitos na “A Casa às Costas” e acho que foi exatamente o mesmo senhor que o foi buscar, que também me veio buscar. O Estoril estava em primeiro nessa época e nós estávamos a lutar para não descer. Mas eu tinha feito sempre boas épocas e tinha clubes a dizer que me iam comprar, fazer e acontecer. Lembro-me que num dia de treino normal, quando voltei para Chelas, para o bairro, estava lá tranquilo e ligou-me um senhor, que eu penso que é o mesmo que o Carlitos falou, mas eu não me recordo do nome dele, um senhor de cabelo branco que trabalhava para o Veiga. Perguntou-me se eu tinha algum interesse em ir jogar para o Estoril. Claro, era sempre um salto, também na parte financeira. E foi tudo tão rápido que às vezes até parece história.

Como assim?
Ele perguntou onde é que eu estava, dei-lhe como ponto de referência a esquadra, que era mais fácil para tudo, até para entregar pizzas (risos). Foi a primeira vez que o vi. Cumprimentei-o, ele falou de forma rápida, fomos para o escritório do José Veiga, que era acionista do Estoril, tinha lá um projeto. Aquilo para mim era tudo estranho, não tinha empresário. O Veiga naquele momento era empresário do Simão Sabrosa, do Figo, deles todos e eu fiquei um pouco assustado. O escritório era no Campo Grande, ao lado da universidade Lusófona. Entrámos pela garagem, subimos e quando vi o escritório, daqueles escritórios que metem respeito, fiquei: “Epá! Que é isto?”. O Veiga apareceu, falámos, ofereceu-me valores, eu não tinha como recusar, ia passar para um valor muito maior. Nessa tarde ou no dia a seguir, já não me lembro bem, fui treinar.

E o Casa Pia?
Ele tinha-me dito: “deixa estar que o resto eu resolvo”. Entretanto, acho que ele ligou para o director do Casa Pia e falaram. O diretor do Casa Pia estava intransigente, não me queria deixar sair por isto e por aquilo, aquelas coisas já se sabe, pedem logo mundos e fundos. Lembro-me que o Veiga chamou lá um director do Casa Pia para falarem pessoalmente, e quando voltou já vinha com outra atitude a dizer que estava tudo certo, que era só eu acertar com eles. Os meus colegas mais experientes até se riram: “Ele quando lá chegou ao escritório do Veiga deve ter tremido e aceitou tudo”. Mas foi tudo muito rápido. Foram-me buscar a meio da época, novembro, dezembro.

Vai então para o Estoril Praia e começa a ganhar 2500€?
Sim.

Não se deslumbrou um bocadinho?
Eu nunca me deslumbrei muito porque a nível de carros, casas, roupas; nessas coisas eu sempre fui muito normal, não me preocupo muito com essas coisas do estilo. Acabas por tentar ajudar a família e depois moras num bairro e toda a gente te pede ajuda e queres ajudar toda a gente e por vezes é complicado.

Dava dinheiro a vizinhos do bairro?
Também. Naquela altura tu estás bem e isso não acontece só comigo, acontece com todos os jogadores de bairro, todas as pessoas acham que estás rico, tens mais algum dinheiro, mas não estás rico, tens um dinheirinho a mais e as pessoas vêm ter contigo, "tenho um problema assim e o outro tem um problema assado", um não tem isto, outro não tem aquilo, são pessoas que te viram crescer e tu acabas por tentar ajudar.

Foi enganado alguma vez?
Fui mais tarde, em alguns negócios.

Rui Duarte (2º em baixo à esquerda) chegou ao Estrela da Amadora em 2006/07

Rui Duarte (2º em baixo à esquerda) chegou ao Estrela da Amadora em 2006/07

D.R.

Já lá vamos. Quando estava no Estoril, continuou a viver em casa dos seus pais?
No primeiro ano continuei na casa dos meus pais, comprei apartamento no Montijo, mas fiquei na mesma em casa dos meus pais. Aluguei a casa. Gostava de estar no bairro, era onde me sentia bem. Isto no primeiro ano. No segundo, o Estoril, se calhar por uma questão de mais rendimento, preferiu alugar uma casa perto do campo. Alugaram uma casa na Parede e fui morar para a Parede.

Foi sozinho ou nessa altura já foi com namorada?
Já tinha dois filhos nessa altura.

Foi pai pela primeira vez com quantos anos?
Aos 19 anos. Ainda estava no Sacavenense. E da segunda vez foi já no Casa Pia, logo no primeiro ano. Eles só têm um ano de diferença. Mas já não estou com a mãe dos meus filhos.

Como se chamam e que idade têm?
O mais velho tem 19 e chama-se Diogo, o outro tem 18 e chama-se Sandro. Estudam ambos e vivem com a mãe deles.

Foi então viver para o apartamento da Parede com a namorada e filhos?
Sim.

O que mais recorda das três épocas que passou no Estoril?
As duas primeiras foram fantásticas. Subimos de divisão duas vezes seguidas e consegui chegar ao meu grande objetivo que era jogar na I Divisão. Primeiro, a subida à II Liga e logo a seguir à I. No terceiro ano as coisas não correram tão bem e acabámos por descer de divisão.

E foi emprestado para o Boavista, porquê?
Porque faço três épocas excelentes no Estoril, estive muito perto de assinar com um dos grandes na altura. Todos os jornais falaram disso na altura.

Com qual?
Com o Benfica, até por causa da ligação do Veiga ao Benfica.

Mas foi efetivamente sondado alguma vez?
Sim, sim. Havia coisas faladas sobre as contratações, só que no primeiro ano levaram o Carlitos, não podiam levar os dois de uma vez, porque éramos os dois do Estoril.

Acabou por não ir porquê?
Porque aconteceu aquela situação do jogo no Algarve e acabou por alterar as coisas. Ou seja, tive a infelicidade de ser expulso aos 25 minutos de jogo contra o Benfica e depois ficou uma situação que não tem lógica nenhuma, mas que eu entendo perfeitamente. Como já tinha saído nas primeiras páginas dos jornais que eu ia para o Benfica, até com a camisola do Benfica eu saí, toda a gente do universo da bola pensou que eu tivesse feito de propósito ou que tivesse combinado alguma coisa. Na semana anterior já tinha havido um zumzum, porque o jogo tinha passado para o Algarve e diziam que o Estoril estava a facilitar, para o Benfica ser campeão, porque o Estoril era de pessoas do Benfica,... Isso tudo junto, com uma expulsão aos 25 minutos, com o meu nome metido na mesa...

Foi expulso porquê?
Faltas normais, mas nada a ver. Até porque ainda agora lhe confirmei que o meu clube é o Sporting. Não tinha nada a ver. Foi até mais vontade de querer mostrar, para ver se fechava contrato do que propriamente o contrário. Aquela coisa de jovem, de estares a ver que está mesmo ali perto o acordo, e se fazes um jogo bom de certeza que fechava contrato. Se calhar fui com muita sede ao pote, como se diz.

A transferência não se concretizou mesmo. Ficou revoltado?
Na altura, fiquei, porque depois levantaram muitas suspeitas sobre essa situação e o que mexe com aquilo que é a minha pessoa, o insinuarem de poder fazer uma coisa dessas por algo em troca, deixou-me chateado, não foi o ir para o Benfica ou não, porque acho que se tivesse de acontecer, acontecia. Foi mais a situação de ver o meu nome associado a um possível aliciamento ou alguma coisa assim. Isso é que me chateou mais.

Rui Duarte (à esquerda) num jogo do E. Amadora com o Benfica

Rui Duarte (à esquerda) num jogo do E. Amadora com o Benfica

FRANCISCO LEONG

Foi para o Boavista através de quem?
O Veiga nessa altura deixou de ser empresário de jogadores e foi para o Benfica. Eu conhecia alguns empresários e comecei a trabalhar com o Paulo Barbosa. Entretanto, aparece o Jorge Gama que para mim foi o empresário que melhor me tratou a todos os níveis, uma pessoa séria que não andava com enredos. Ele apareceu com um clube. Chamou-me a um hotel e apresentou-me uma proposta concreta do Le Mans uma equipa de França que tinha acabado de subir. O Paulo Barbosa já não me dizia nada há meses e eu pensei: ele não me diz nada, vou resolver a minha vida.

Vai para França?
O Jorge Gama apresentou-me a proposta e viajámos para França. Cheguei a Le Mans, fiz exames médicos, fiz tudo, assinei contrato, ia ganhar muito mais do que ganhava no Estoril. Marcaram a minha passagem para eu vir a Portugal, chegaram a acordo com o Estoril, que pedia acho que uns 200 mil euros pelo meu contrato, eles propuseram-se pagar, estava tudo certo e... quando chego ao Estoril para rescindir o contrato e para ir buscar as minhas coisas, o Paulo Barbosa aparece, no Estoril, com o Hearts da Escócia, a dizer que eles não davam 200, mas 300 mil ao Estoril e que o meu salário era quase o dobro e mais não sei o quê e não sei que mais.

E depois?
O Paulo Barbosa tinha mais influência a nível do Estoril, tinha uma pessoa muito chegada a ele dentro da direção, e eles disseram que só iam fazer negócio com o Hearts. Isto aconteceu nas últimas semanas de mercado, acho que a pré época até já tinha começado, eu estava bastante magro por causa dos nervos, do stress de não saber nada da minha vida. Um falava uma coisa, outro falava outra e eu com pouca experiência; é mais aquela coisa de quereres resolver a tua vida, disse ok, tenho de ir para o Hearts, vou para o Hearts. Eu não queria era continuar no Estoril que tinha descido à II Liga.

Chega a ir para a Escócia?
Sim. Quando lá chego começo a treinar, o treinador adorou e tal, mas afinal eu estava à experiência. Eu pensei que estava tudo acertado e afinal estava à experiência, eles ainda iam ver, ainda era um teste. O treinador gostou, mas achava que eu era um bocado baixo e disseram que até podiam dar aquele dinheiro ao Estoril, mas iriam tirar muito dinheiro ao que iria ser o meu salário. Eu disse que não aceitava, que tinham de me dar o dinheiro que tinham falado ou então não ia, porque já tinha um contrato em França. E acabou por abortar (risos). Voltei para trás, para o Estoril faltava pouco dias para fechar o mercado.

Não confrontou o Paulo Barbosa nessa altura?
Não, porque a partir desse momento ele deixou novamente de estar em contacto comigo e eu não sou de ir atrás de ninguém. Aquela situação foi combinada entre eles e acabou por me prejudicar foi a mim.

Então e o Boavista?
No último dia de mercado, às oito ou nove da noite, quando pensava que já não havia hipótese, estava em casa, frustrado, e ligam-me do Boavista, falaram com as pessoas do Estoril e foi feito o empréstimo. Tudo muito à pressa, tudo muito rápido. Nessa mesma noite fui para cima, para o Bessa com o Paulo Gonçalves, que esteve no Benfica e que agora teve um processo [caso e-toupeira]. Na altura era ele o diretor do Boavista e ele é que tratou da papelada toda aqui em baixo, com o Estoril. No outro dia já estava a treinar no Boavista.

Com o Carlos Brito.
Sim.

Gostou dele?
Gostei, gostei. Gostei de tudo, no Boavista trataram-me muito bem, foi tudo cinco estrelas, não tenho nada a dizer do clube. O clube alugou-me um apartamento em Bessa Leite.

Foi com a família?
Nessa altura, fui sozinho. Eles estavam lá umas temporadas, mas depois como tinham escola em Lisboa, não quis tirá-los porque eu estava emprestado e não tinha a certeza de como é que as coisas iam ser no futuro. Não havia uma garantia de três ou quatro anos, ou uma coisa assim.

Como correu essa época no Boavista?
Correu-me bem, fiz mais de 20 jogos. Mas tive situações complicadas por causa do contrato. Acabei por fazer 22 ou 23 jogos porque acho que se fizesse 25 jogos tinha direito a um valor extra. Sabe como é que são os clubes: acabam por tentar jogar com isso. Depois, também estava emprestado, tinha de resolver a minha vida e, no final do ano, acabou por aparecer o Estrela da Amadora. E como queria voltar para casa...Os miúdos iam entrar para a 1.ª classe e eu queria acompanhar um pouco mais. Como não estava a ser opção total, não estava a jogar sempre, para estar assim, jogar uns jogos e não jogar outros, preferia estar mais perto da família e dos miúdos. Porque também foi o meu primeiro ano longe de casa. Não estava muito longe, não me posso queixar porque vinha várias vezes mas foi aquele o primeiro ano a viver sozinho.

Quais foram as amizades maiores que fez no Boavista?
Muita gente me ajudou, o grupo todo era fantástico. Na altura era um Boavista muito forte, tinha grandes jogadores. Mas o jogador que mais me marcou pela pessoa que é porque quem o vê dentro do campo não tem ideia da pessoa que é fora de campo, foi o Tiago, que jogou no Benfica e no FCP. É mesmo amigo, é mesmo de ajudar, é uma pessoa de acolher. Foi das pessoas que mais me surpreendeu nesse aspecto. Há outros, o Hélder Rosário, o Cadú, várias pessoas. O próprio João Pinto foi sempre sensacional comigo. Só que o Tiago foi aquele que mais me surpreendeu porque quando o vês a jogar tens uma ideia dele, aquele “nojento”, vá que a gente chama nojento (risos) e na verdade, fora de campo não é cinco, é dez estrelas.

O Estrela da Amadora surge através de algum empresário?
Sim, através do Paulo Barbosa. Ele ficou aqueles meses todos sem me ligar, aconteceu aquela situação, ficamos ali, não me disse nada durante meses e depois acabámos por falar numa altura, já não me lembro do motivo, ou ele me ligou e disse: “Tenho aqui o Estrela para te ‘relançar’, é um bom clube para estares perto de casa”. O salário também não ia mudar muito e decidi ficar perto de casa.

Foi viver para onde?
Aí já fui para a minha casa, no Montijo.

Porque é que escolheu comprar casa no Montijo?
Porque naquela altura em que comprei não ganhava um dinheiro por ir além, as casas tinham bom aspecto e eram em conta. Falavam que iam construir várias coisas e eu acabei por comprar lá.

Fica duas épocas no Estrela. Foi fácil sair do Bessa para a Amadora?
Os primeiros seis meses não foram assim muito bons. Custou-me um bocadinho a adaptar a tudo, não foi um grupo muito fácil de início.

Porquê?
Acho que foi mais porque quando cheguei já lá estava o Toni como lateral direito e o Toni, que era para ter sido vendido naquele ano, acabou por não sair. Quando me contrataram ele já lá não devia estar, já tinham isso como garantido, mas afinal ele não saiu e aquilo ficou um pouco, como é que posso dizer, um pouco entulhado, do estilo estava lá um titular indiscutível e cheguei eu também para jogar e isso criou uma situação um pouco...

Desconfortável?
O outro era da casa, já estava lá e era um excelente jogador, tu acabas de chegar ao clube, ainda não provaste nada a ninguém, é normal que tenhas de começar do zero, como se diz. Mas a partir de dezembro ele saiu e eu comecei a jogar sempre.

O treinador era o Daúto Faquirá?
Sim. Foi uma boa experiência, bom treinador, até me admira não estar a treinar agora, se calhar passa por opção, não sei. Para a altura tinha bons métodos. Dei-me bem e correu tudo bem, foi tranquilo. Tivemos campeonatos tranquilos e alcançamos os nossos objetivos.

Rui Duarte (à direita) foi para o Rapid de Bucareste em 2010/11

Rui Duarte (à direita) foi para o Rapid de Bucareste em 2010/11

DANIEL MIHAILESCU

Duas épocas no Estrela e vai para a Roménia. Como é que isso acontece?
Acontece que eu estava no Estrela e, no final da época, aparece uma proposta. Eu tinha vários clubes em Portugal a sondar, mas só com conversas, tudo mais ou menos dentro do valores que eu já recebia no Estrela, e apareceu um contrato acima da média na Roménia por intermédio do Marinescu que jogou na Académica e que fazia muita intermediação na altura. Aparece com um clube com um projecto muito interessante que era o Brasov. Não conhecia, só conhecia o Rapid, o Estrela e o Dínamo de Bucareste e fiquei assim um pouco... mas pelos valores. Estava naquela fase, naquela idade de querer ganhar dinheiro e disse “Eu vou”. Eles pagaram ao Estrela da Amadora porque eu tinha mais um ano de contrato e lá fui para a Roménia.

Como é que foi o primeiro impacto?
Epá aí tem história. Fui para a Roménia, mas atenção a Roménia de hoje para onde muitos jogadores vão, não tem nada a ver. Hoje já têm uma noção do que vão encontrar porque já têm lá uns 100 ou 200 jogadores estrangeiros nos campeonatos e já toda a gente falou da Roménia. Na altura, só havia o Tony que tinha ido para o Cluj que era de outra cidade. E o Carlos que tinha ido para o Steaua e já tinha estado comigo no Estrela, mas era pouca coisa, era ainda muito cru a nível de jogadores estrangeiros, ainda estava a começar essa era. Foi a minha primeira aventura sozinho, já estava separado da mãe dos meus filhos. Aterro num mini-aeroporto (risos), um pouco estranho, um aeroporto mais antigo. Olho pela janela do avião e era só aqueles verdes, aquelas manchas de floresta verde da Roménia e começou-me a dar uns calafrios. Mas pronto até aí tudo bem. O Marinescu, que estava a intermediar, agarrou-me e disse: “Tranquilo, a gente agora vai sair do avião e vêm aqui buscar-nos de carro, ainda não é aqui”.

Ficou mais calmo.
Eu pensei, tranquilo, a cidade via-se quando estávamos a aterrar, e eu disse ok. Entro no carro, começamos a andar, andar, andar, sobe montanha, desce montanha, vira, vira...Na Roménia, as cidades têm muita qualidade, mas nos caminhos entre as cidades, vês muita gente com muitas dificuldades, muita gente pobre. Passava por aquilo, via as casinhas velhas e andávamos, andávamos. A meio da viagem liguei para o meu pai e disse-lhe: “Não vou ficar aqui, nem pensar, vou-me embora”; “Tem calma, vai lá ver primeiro”. Entretanto, virei-me para o Marinescu e disse-lhe para dizer ao motorista para dar meia volta na próxima saída, para irmos para trás. “Vamos para o aeroporto porque eu quero ir embora. Não quero ficar aqui, nem morto”; “Calma amigo, calma. Quando a gente chegar lá, tu depois decides”, estava a tentar aguentar o negócio, mas eu: “Não pá, vamos voltar para trás não quero ficar aqui”. Brasov, para ter noção, é mais ou menos como a nossa Covilhã. É uma estância turística de neve que fica lá no meio das montanhas.

O que aconteceu quando chegou ao clube?
Quando lá chego para fazer o contrato, vamos para uma sala com uma mesa grande como eles gostam. eEstava eu, o presidente e o Marinescu. Quando passam o contrato para assinar eu pensei, vou dizer que não quero assinar o contrato, quero ir embora, não vou aguentar ficar aqui. Mas quando ele foi buscar os contratos para assinar, trouxe um saco de dinheiro (risos), das luvas, do prémio de assinatura.

O que fez?
Ele disse: “Está aí o contrato e está aí o dinheiro” e virou o saco com os baralhos de notas em cima da mesa (risos), mas uma quantidade, uma coisa boa, uma coisa em grande. Eu fiquei a olhar para o contrato e para as notas, olhava para o contrato, olhava para as notas, olhava para o contrato, olhava para as notas. E agora? Não me posso ir embora, não posso mandar este dinheiro para trás, não dá para mandar este dinheiro para trás, não consigo…(risos) E assinei o contrato. Depois fui para o hotel, liguei para o meu pai, estava a falar com ele e a ver a cidade pela janela, ai minha mãe do céu, onde é que eu vim parar. Mas olhava para o lado e via o saco com as notas, falava um bocadinho ao telefone e olhava para o saco e pronto lá acabei por ficar. E foi muito bom, foram dois anos muito bons.

Jogou os jogos todos não foi?
Só falhei dois jogos. Falhei um antes do natal, já estava a nevar e fiz de propósito para levar amarelo e vir embora. E foi mais um no final da época. Acho que “joguei” com os amarelos para vir 15 dias antes, uma semana antes ou coisa assim.

Esteve lá sempre sozinho?
Não, tive a visita dos meus filhos. Estiveram lá no mês de agosto. Estiveram lá comigo durante as férias. Depois entretanto comecei a namorar com a minha actual esposa.

Que se chama?
Maria João.

Conheceu-a lá?
Não, éramos amigos. Já nos conhecíamos há alguns anos. Ela vivia em Inglaterra, encontrámo-nos nas férias em Portugal e começámos a namorar.

O que fazia profissionalmente?
Era empregada doméstica. Depois ela começou a ir ter comigo de vez em quando. Durante algum tempo ia e vinha e depois quando fui para o Rapid de Bucareste já era mais fácil. Ali, no Brasov, era complicado. A viagem do aeroporto para lá é cansativa, são quatro ou cinco horas de carro, era super desgastante para ir poucos dias, é uma viagem que não desejo a ninguém porque é no meio das montanhas.

Nesses dois anos no Brasov que histórias é que tem para contar?
O grupo era tranquilo, tínhamos um grande treinador e um grande projecto, tanto é que acabamos em 5.º ou 6.º lugar a um ponto da Europa. Tínhamos um treinador que hoje é um treinador de referência, o Razvan Lucescu.

Não teve dificuldade com a língua?
Por acaso, não. Eu não falava muito inglês na altura. Mas na altura, e estou a falar de 2008, as pessoas também não queriam falar inglês, muito menos em Brasov que nem é a capital. Queriam falar a língua deles e então eu pensei, entre aprender inglês, já que estou aqui vou aprender romeno e em cinco meses estava a falar romeno.

Então adaptou-se bem.
Adaptei porque tinha lá um jogador, o Paulo Adriano Almeida, que jogou na Académica. Ele falava bem inglês e ao início quando lá cheguei traduzia-nos tudo, a mim e ao brasileiro Ezequias que lá chegou ao mesmo tempo. Então foi fácil essa parte. Tínhamos um restaurante por baixo do bloco dos nossos apartamentos que era o mais novo da cidade e acabamos por fazer amizade com os empregados. Ficávamos lá o dia quase todo a brincar com eles. Eles iam puxando por nós, iam dizendo como é que se dizia isto e aquilo. A gente dava-lhes bilhetes para irem à bola (risos).

Diogo, o filho mais velho de Rui Duarte

Diogo, o filho mais velho de Rui Duarte

D.R.

Como vai parar ao Rapid de Bucareste?
Através do presidente. Tinha feito grandes épocas e falava-se que tanto eu como o Ezequiel íamos para o Steaua. Ele chamou-me e disse: “Não vais para o Steaua porque eu vou para presidente do Rapid e quero levar-te. Faz parte do acordo, vou levar quatro ou cinco jogadores daqui”. Ele já era uma pessoa muito influente, ele próprio tinha feito aquele projeto.

No Rapid encontrou outra realidade.
Sim, claro. Ali a minha casa estava a 5/10 minutos do aeroporto, estava na capital onde tudo acontece. O Rapid não é o clube com mais adeptos na Roménia, mas é a equipa cujos adeptos são os mais ferrenhos do país. O Steaua é quem tem mais adeptos na Roménia, mas num jogo normal, não mete nem metade dos adeptos do Rapid.

Quando o Rui chega ao Rapid estavam lá outros portugueses?
Fui dos primeiros a chegar ao Rapid. Estava o Ricardo Fernandes, o central que era português, depois havia brasileiros. O Spadacio e o Césinha que jogou no Braga. Mais tarde acho que chegou um autocarro (risos). O Ezequias, o Cândido Costa, o Cássio, o Marcos António, o Filipe Teixeira, etc.

O Rui voltou a ser pai?
Sim, em 2011, do Gabriel que tem oito anos.

Esteve duas épocas e meia no Rapid. Quais as melhores e as piores memórias que tem?
As melhores foram os primeiros anos que foram fantásticos por tudo. Pelo grupo de trabalho, pela forma como as coisas estavam a correr, eu era muito acarinhado no clube, graças a Deus, e continuo a ser. Se fores ver as redes sociais... Eu raramente uso as redes sociais, são eles mais que comentam. Mas a última época talvez seja a pior, a última meia época que fiz lá foi a pior. Na altura o homem forte, o homem da massa, abandonou o futebol e foi essa a pior fase. Foram seis meses em que estivemos sem receber e foi complicado. Entretanto o clube entrou em falência e depois cada um teve de começar a procurar outra solução.

Como surge então o Chipre?
Surge nessa altura. O clube entra em insolvência, o Steaua de Bucareste entra em contacto comigo para eu ir para lá e o Anorthosis, do Chipre, também. Os valores eram idênticos, tudo igual, mas eu tinha vontade de conhecer o Chipre, havia muitos jogadores portugueses lá. Aquela coisa de jogar no Chipre por ser uma ilha, os valores e condições era tudo igual. Também não fazia sentido eu jogar no Estrela porque tenho um carinho enorme pelo Rapid, pela maneira como me acolheram, por tudo, e como há aquela rivalidade, então “preferi” ir para o Anorthosis.

E que tal o Chipre?
Não gostei, arrependi-me. Tens uma vida fantástica, é praticamente como estar em férias. Estás a trabalhar e com férias. A nível do clube era um clube bom, com história mas tudo muito complicado, tudo muito sobre pressão e as coisas não corria com normalidade, não te dava tranquilidade para trabalhar.

Pode dar um exemplo?
Coisas mínimas. Por exemplo, um dia perdíamos um jogo e os adeptos ficavam à tua espera na porta para irem falar contigo. Para mim aquilo não tinha lógica. Tinha estado no Rapid que era um clube grande e tu sais, claro que os adeptos têm direito a dizer as coisas, a manifestarem-se, mas não vais ficar ali tu sozinho a falar com eles. Comigo não havia problema porque não tenho esses problemas de medo mas a questão é que fica desagradável. Tu já perdeste o jogo, já estás chateado e tens que dar justificações aos adeptos. No Rapid os adeptos podiam chamar-te mas havia uma grade e seguranças e ias lá falar com eles se quisesses. No Chipre nunca jogavas com essa segurança. As coisas começavam a correr mal, começavam a atirar coisas para o campo.

Nunca teve nenhum problema mais complicado?
Eu não. Quando nasces em Chelas todos os problemas que venham a seguir já estás, como se diz, vacinado (risos). Já não estás com grandes problemas. Mas a questão não é essa, a questão mesmo, é que tu para exerceres a tua profissão tens de ter a tua tranquilidade, não tens de estar sob pressão. E depois era um clube que também começou a ter problemas com os pagamentos e então acabei por me arrepender.

Não lhe pagaram tudo o que deviam?
Passado algum tempo, depois de me vir embora, pagaram. Foram pagando devagarito, mas pagaram.

Estava a dizer que aquilo quase que dava para ser umas férias. Ia para a praia depois dos treinos?
Sim, sim, ia passear à beira-mar, há esplanadas na praia e passas a tarde ali tranquilo, e isso não tens em quase mais lugar nenhum. Tens qualidade de vida.

Calculo que a sua mulher e o seu filho tenham ido consigo.
Não, não foram porque eu só fiquei lá seis meses.

Ficaram onde?
Em Portugal. Eu tinha a minha vida organizada em Portugal, entretanto o meu filho foi para uma escola particular e deixei-o lá estar. Não ia tirá-lo por seis meses. Tinha contrato por mais um ano, se eu continuasse, se as coisas corressem bem, eles iam lá ter.

E não ficou porquê?
Derivado a um problema de saúde.

Então?
Nesse verão estive muito mal, tenho um pouco de insuficiência renal, não é total. Não preciso de fazer tratamentos e essas coisas.

Descobriu quando?
Começou a dar os primeiros sinais no Rapid, no último ano. Notaram nas análises que os rins não estavam a trabalhar bem, mas nunca me deu grandes problemas. Mesmo nos exames do Anorthosis deu tudo mais ou menos normal. Viram lá umas alteraçõezitas mas não era nada que não pudesse competir. Só que nesse verão quando vim de férias as coisas agravaram-se. Comecei a ter febres e emagreci uns 10 ou 15 quilos. Fiz bastantes análises, começaram a suspeitar de coisas piores e entretanto depois viram que era essa situação do rim.

É só um dos rins ou são os dois?
Tenho um a 75% e o outro a 50%. A médica avisou-me que para competir a alto nível, poderia ter problemas no futuro, poderia ter de fazer um transplante se por acaso tivesse algum embate naquele rim que está mais fraco. Tive de fazer algumas opções. Foi aí que optei por parar.

Mas ainda jogou no 1.º Dezembro.
Sim. Estava em casa, já há um ano que estava parado e estava a dar-me aquele bichinho e eu fui lá fazer uns treinos. Aquilo não é alta competição e a médica tinha-me falado em alta competição. Estava lá um amigo meu e pensei, vou ficar aqui e vou matando também um bocadinho o “bicho”.

Nessa altura em que percebeu que tinha de deixar de jogar, sentiu que lhe estavam a tirar o tapete debaixo dos pés?
Não, eu nunca dramatizo nem fico a pensar como é que agora vai ser isto e aquilo. Se a médica me está a avisar que era um risco, tenho simplesmente de aceitar. É porque tinha que ser assim, essas coisas só Deus sabe. É porque tem de ser. Eu acho que é sempre assim, tudo o que tem de acontecer, acontece.

Mas podia ter ficado em pânico, a pensar em como ia ser a sua vida dali para a frente.
Claro que ficas um pouco apreensivo, nunca fizeste mais nada na tua vida.

Já sabia o que queria fazer depois do futebol?
Queria ficar ligado ao futebol, tipo como diretor, mas depois percebi que não. Ou então trabalhar na área dos jogadores, agora já faço algumas coisinhas de vez em quando, com alguns amigos.

Faz mais alguma coisa?
Agora, agora não. Vivo em Inglaterra, onde tenho uma empresa de delivery (entregas). É o rendimento da família.

Porque decidiu viver em Inglaterra?
Estou a viver aqui há quase cinco anos. Porque tinha umas coisas em Portugal que na altura não estavam muito...

Que coisas?
Os negócios, não estava numa fase boa para se fazerem negócios. Eu que estava mais no ramo da restauração, estava tudo muito fraco, muito caído há cinco.

Ao longo da sua vida, onde é que ganhou mais dinheiro?
No Rapid, na Roménia.

Investiu o seu dinheiro onde? Que negócios é que foi tendo?
Enquanto estive em Portugal, estive metido na área da restauração. Num restaurante no Pateo Bagatela, perto das Amoreiras.

Ainda tem esse restaurante?
Não, já faz tempo que não. Entretanto vim para Inglaterra porque a minha esposa sempre gostou de fazer vida aqui. Ela já aqui tinha vivido.

Está em Londres?
No início estava em Londres, agora estou em Litz. Quando vim para aqui comecei a ver outras alternativas de investimento e fui fazendo outras coisas. A minha esposa tem uma empresa de limpezas deirecionada para casas de luxo. Graças a Deus, estamos felizes e bem. E já não troco isto por nada (risos). Tenho também a minha enteada, a Fabiana, que criei desde os sete anos e a nível de estudos aqui é muito melhor. Ela está com 18 anos, está a tirar o curso para ser hospedeira de bordo.

Algum dos seus filhos joga à bola ou tem jeito para jogar?
O Gabriel, o mais novo. Os outros gostam mais de lutas. O mais velho foi campeão de Jiu Jitsu brasileiro em Portugal. Eles todos jogam à bola, mas com jeito acima da média, é o mais novo.

Gabriel, o filho mais novo de Rui Duarte

Gabriel, o filho mais novo de Rui Duarte

DR

Os seus filhos mais velhos nunca lhe cobraram o facto de não estar tão presente?
Não, porque eu estou bastante presente. Claro que no futebol acabas por não ter tanto tempo. Mas ainda hoje não fico um dia sem falar com os dois. Todos os dias falo com os dois. No final do dia, quando acabo os meus afazeres, ligo sempre para eles.

Há pouco disse que tinha sido um enganado nos negócios. Isso foi quando? Em que negócio?
Foi em Portugal, acreditei em algumas pessoas, mas não quero falar disso. É uma fase que já passou e que mexe muito com o meu interior.

Mas perdeu muito dinheiro?
Perdi algum, mas é mais a mágoa do que a parte financeira que custa.

Já percebemos que acredita em Deus. Costuma rezar e ir à igreja?
Sim, vou à igreja.

Com que frequência?
Agora por acaso ando um pouco mais ocupado, mas normalmente todos os domingos.

Alguma vez fez alguma promessa e foi a Fátima cumprir essa promessa?
Sim.

A promessa estava relacionada com a sua doença?
Também.

Tem superstições?
Não, não sou muito dessas coisas. Apenas me benzia quando entrava no campo e dizia umas palavrinhas que a minha mãe dizia sempre para eu dizer.

Quando é que a sua mãe faleceu?
Há cinco anos. Foi de repente. Ela tinha um café restaurante que eu lhe tinha dado, perto da minha zona. Dei-lhe para ela ter e fazer o negócio dela, ter as coisas dela. Estava tudo bem, ela serviu os almoços. Depois foi para casa descansar e teve um AVC. Era nova e cheia de vida. Tinha 53 anos.

Foi um choque brutal.
Foi. Eu cresci com o meu pai e com a minha mãe, mas eles separaram-se e eu sempre fui mais ligado à minha mãe. O meu pai era mais daqueles homens à antiga (risos). Sempre fui muito chegado à minha mãe que foi sempre uma lutadora. Trabalhava de manhã à noite para nos sustentar a todos. Ela era a pessoa com quem eu falava, com quem eu desabafava, que me dava conselhos. Se tivesse ouvido a maior parte dos conselhos dela muita coisa tinha sido diferente, mas como a gente acha sempre que os pais nunca têm razão... Faz-me muita falta. Para além de que ela sempre foi e será como uma mãe para os meus filhos. Quando eu estava fora, a minha mãe é que tomava conta deles. Tanto é que o meu filho, há coisa de um mês, tatuou a cara dela no braço e diz que a mãe dele é a avó. Todos eles têm uma ligação enorme com ela.

Sandro, o filho do meio de Rui Duarte

Sandro, o filho do meio de Rui Duarte

DR

A propósito de tatuagens, tem tatuagens?
Tenho. A primeira acho que foram umas letras chinesas no braço, devia ter uns 18, 19 anos. Depois disso tatuei o nome de dois filhos, falta-me fazer do mais pequenino. E tenho a cara da minha mãe nas costas.

Como está a lidar com o processo do Brexit?
Normalmente. Para mim até agora não notei diferença nenhuma. Talvez uma coisinha ou outra mais cara, porque as exportações e as importações já não estão iguais. Embora, as pessoas também se podem estar a aproveitar dessa situação.

Quando o Brexit se concretizar vai continuar em Inglaterra?
Vou ficar aqui. Tenho carta de condução daqui, toda a documentação daqui, tenho a minha vida aqui.

Acha que não vai ter problemas?
Espero que não, mas se tiver, como lhe disse, estou salvaguardado em Portugal tenho casas alugadas e comprei mais um apartamento na zona de Sesimbra para deixar pronto, para quando vou a Portugal ficar num sítio fixo.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Acho que foi um carro. Um Mercedes. Paguei 120 ou 125 mil euros.

Ainda o tem?
Não, já não cometo esses erros (risos).

Tem algum hóbi ou alguma coisa de que goste muito para além do futebol?
Tenho, a luta. Faço regularmente Jiu Jitsu e Muai Thai, porque aqui não há kickboxing.

Então e os seus rins?
(risos) Treino dentro da segurança e não me sinto mal. Treino só por gosto, não compito. E faço um controlo sempre.

De onde é que surgiu esse gosto pelas lutas?
Sempre tive, sempre gostei e os meus filhos pelos vistos também gostam. Mas não fazia porque tinha o futebol que é a minha paixão.

Alguma vez se meteu em alguma confusão, em alguma luta?
Não sei, acho que já (risos). Até no campo, na Roménia, nada de mais, aquelas confusões dos derbis. Uma confusão grande e tu acabas por te meteres no meio da confusão e um dá dali e outro dali e acabas por dar também (risos). Tive sorte porque na altura as provas por vídeo não contavam então deu uma grande discussão lá nas televisões, mas não deu em nada.

Qual foi o melhor e o pior treinador que teve?
Isso é difícil. Os que mais me marcaram foi o Ulisses Morais, o meu primeiro treinador no Estoril. Foi a pessoa que me passou a outro nível. E na Roménia tive um treinador que ainda hoje me surpreende, o Razvan Lucescu, que para mim é um treinador top. Vai ser um treinador de top na Europa.

Alguma vez sonhou com a seleção ou sempre achou que nunca lá chegaria?
Eu ainda cheguei a ir aos estágios da seleção B, em Rio Maior. Mas a seleção tem a ver com vários factores, não é só o tu seres bom. Tem a ver com o clube onde jogas, o empresário que te representa, entre outras coisas. Jogar num clube grande ou estar num clube médio e seres representado pelo empresário do momento, vamos dizer assim, torna as coisas muito mais fáceis com certeza. Se fores representado por outro empresário, tens de ser um fora de série. Se fores um fora de série podes ter o empresário que quiseres. Ter o empresário do momento e estar no clube certo. Não sei se ainda funciona assim, mas no meu tempo era assim.

Qual a maior frustração que tem no futebol e a maior alegria?
A maior alegria foi ter sido profissional de futebol, foi aquilo que ambicionei e consegui. Ser profissional de futebol, jogar na I divisão portuguesa com muitos jogadores que na altura só via na televisão. E a maior frustração foi ter de parar prematuramente, com 32 anos. Ainda era cedo e eu tinha contrato por mais um ano com a Anorthosis, um bom contrato e se calhar podia ter regressado e ainda ter jogado em Portugal. Foi tudo muito rápido. Vivo bem com isso mas foi o momento mais complicado.