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A casa às costas

Toni Conceição: "No Estrela da Amadora cheguei a fazer um jogo apenas com 10 jogadores aptos. Olhava para o banco e... nada”

À beira dos 58 anos, o mais recente selecionador dos Camarões, que começou a jogar com 12 anos no SC Braga, revela que nunca foi muito de namorar e que a maioria do seu tempo continua a ser dedicado ao futebol. Enquanto jogador esteve longe de brilhar, apesar de ter envergado a camisola do seu SC Braga e de ter atuado, entre outros, no FCP, antes de pendurar as chuteiras, após várias lesões. Como treinador foi na Roménia que atingiu maior sucesso - conquistou duas Ligas, três Taças e duas Supertaças -, mas andou também pelo Chipre e Arábia Saudita. Diz que não vingou mais porque nunca soube trabalhar a imagem, revela que ainda tem um sonho por cumprir e está apostado em vencer a CAN

Alexandra Simões de Abreu

Luís Sousa

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Nasceu em Maximinos, uma freguesia do concelho de Braga. Fale-nos um pouco do seu seio familiar.
A minha mãe era professora primária e o meu pai encarregado de oficina de mecânica. Tenho três irmãos mais velhos. Um está ligado ao ensino, outro já está aposentado depois de muito tempo ligado às vendas e tenho uma irmã que também trabalha com o têxtil e com o mercado estrangeiro.

Havia alguém da família ligado ao futebol?
Não propriamente. Os meus dois irmãos praticaram futebol a nível da formação, um ainda foi sénior durante três ou quatro anos, na 3ª divisão, mas desistiu facilmente porque entendeu que o seu percurso de vida seria outro. Tive uns tios que também jogaram mas em campeonatos locais.

Quando era pequeno o que queria ser quando fosse grande?
Curiosamente uma das ideias que tive para projeto de vida era ser polícia [risos]. Tem uma razão. Desde pequenino que joguei à bola no rua, só que naquela altura, antes do 25 de abril, jogar à bola na rua era problemático. Vinha o polícia ou vinha o guarda do jardim, tirava-nos a bola e às vezes até nos prendia para pagarmos as multas. Eu e os meus amigos tivemos muitos desses acontecimentos, conseguíamos fugir sempre, mas eles apanhavam-nos a bola e ficámos sem um número de bolas muito grande. Então um dia quando cheguei a casa disse “quero ser polícia para ninguém me roubar as bolas” [risos].

Torcia por que clube?
Sempre torci pelo Braga, ainda hoje é o meu clube do coração.

Gostava da escola?
Gostava, mas gostava mais da brincadeira e do futebol. Interrompi os estudos no 9º ano por causa do futebol e porque comecei a trabalhar.

Toni Conceição em bebé

Toni Conceição em bebé

D.R.

Quando vai pela primeira vez para um clube?
Aos 12 anos, para o Braga.

Como?
Desde os meus seis, sete anos o meu pai levava-me ao futebol, ele também gostava muito do Braga, ia para todo o lado com o clube e esse bichinho começou aí. Aos 13 anos, tinha colegas mais velhos que já andavam nas escolas do Sporting de Braga, nos iniciados, naquela altura não havia escolinhas. Por insistência desses meus amigos um dia acabei também por ir às captações do Braga. Eram sempre ao sábado e recordo-me que, naquele tempo, eles por vezes escolhiam pelo tamanho, pelo corpo. Ainda antes de mostrarmos as nossas qualidades físicas a decisão era, “aquele é maior, vem aquele...” Na primeira vez fiquei de fora, não fui escolhido. Não tinha altura. Fui para casa um bocado chateado, nem sequer cheguei a treinar. Mas houve persistência, acabei por voltar e por ser escolhido.

Disse que tinha começado a trabalhar. Com que idade?
Com 14 anos.

Foi trabalhar em quê?
Trabalhei numa oficina que estava ligada ao grupo do meu pai, muito contra a vontade da minha mãe. Ela não queria que eu fosse trabalhar, tinha medo que largasse os estudos, mas prometi-lhe que continuava a estudar à noite e a verdade é que o fiz durante três ou quatro anos. Fazia as três coisas, trabalhava, estudava e jogava futebol. Mas depois veio a possibilidade de me tornar profissional e abandonei.

Antes de continuarmos, lembra-se de alguma coisa do dia 25 de abril de 1974?
Lembro-me perfeitamente, tinha 12 anos. Ia para a aula quando os diretores fecharam a escola e mandaram-nos para casa: “Vão direitinhos para casa, não olhem, nem comentem nada, vai estar tudo fechado porque pode haver problemas nas ruas”. Naquele mesmo dia e nos dias imediatamente a seguir havia muitas manifestações na rua, inclusive também fui lá à câmara municipal de Braga para ir ver uma manifestação. Lembro-me do queimar de algumas sedes do partido comunista e lembro-me de ver na televisão os comunicados de que tinha havido uma revolução no país.

Vai fazendo a sua formação toda no SC Braga e estreia-se na equipa principal com o Mário Lino, certo?
Exatamente, com o Mário Lino, o meu primeiro treinador. Tinha 18 anos. Recordo-me que entrei nos últimos 25 minutos de um jogo, em Braga, salvo erro contra o Espinho. Ao fim de 10 minutos já sentia as pernas todas a prender com a adrenalina [risos].

Como foi definida a sua posição em campo?
Eu comecei como médio, depois houve um treinador que no meu último ano de juvenil teve a necessidade de me meter a lateral direito e desde aí nunca mais a larguei. Embora pontualmente, mesmo como sénior, cheguei a jogar a meio-campo, algumas vezes.

Passeio em família, Toni está ao colo do pai

Passeio em família, Toni está ao colo do pai

D.R.

Estava a contar que se estreou com 18 anos, é quando assina o primeiro contrato?
Sim. Recebia 12 mil escudos.

Recorda-se do que é que fez a esse dinheiro?
Comecei a juntá-lo, a minha ambição era comprar um automóvel porque andava sempre de autocarro ou a pé. E foi de facto com esse dinheiro que comprei o meu primeiro automóvel, um Austin Mini Cooper 1275, era assim que na altura se designava. Era verde e depois passou a vermelho, que era a cor dos carros desportivos.

E namoros, já havia?
Vou ser sincero, não fui de namorar muito. Não fui porque a minha vida tornou-se adulta muito cedo. Comecei a trabalhar, tinha os estudos, tinha o futebol, não me sobrava muito mais tempo.

Depois vai parar ao Riopele, porquê?
Primeiro sou emprestado ao Vizela, porque houve uma reestruturação financeira no Braga, decidiram reduzir o número de jogadores e os mais novos acabaram por ser as vítimas. Fui um dos contemplados com esse empréstimo e fui para o Vizela, na 3ª divisão. O Vizela nesse ano faz uma época excelente e subimos à 2ª divisão nacional, havia a zona norte e a zona sul. Mas depois saio do Vizela e vou para o Riopele porque o Vizela era uma equipa semi profissional, treinava à noite e eu tinha de estar o dia inteiro à espera da hora para ir treinar. Então coloquei a questão à direção do clube, que na altura era presidida pelo atual chefe da Associação de Futebol de Braga, o professor Manuel Machado. Disse-lhe que a minha prioridade era ser profissional e que não gostava de treinar à noite. Ou me compensavam por estar ali ou preferia sair porque tinha outras propostas para treinar de dia. E saí, fui para o Riopele, que era uma das equipas que me tinha abordado. Era pertinho de Braga e acabei por fazer uma época.

Nessa altura ainda vivia na casa dos seus pais?
Sim. Entretanto o Braga pede-me para rescindir o contrato porque não tinha interesse no vínculo contratual, eu rescindi e no ano a seguir ao Riopele vou outra vez para Vizela. Já o Vizela estava na 2ª divisão e ia passar a treinar de dia. Foi nesse ano que passámos da 2ª para a 1ª Liga e que casei, com a minha atual esposa, Maria de Fátima.

Como é que a conheceu?
Através de um amigo com quem trabalhava na oficina.

O que ela fazia profissionalmente?
Estudava. O pai tinha um café, ela às vezes ajudava-o e foi aí que a conheci. Ela tinha 15 para 16 anos e eu tinha 17 ou 18 e começámos a namorar. Tivemos três anos de namoro e casei com 21 anos, quando estou no Vizela.

Toni Conceição (no meio) com a mãe e os irmãos numa ida à praia

Toni Conceição (no meio) com a mãe e os irmãos numa ida à praia

D.R.

Fica no Vizela três épocas e vai outra vez para o SC Braga. Como?
No último ano do Vizela, na 1ª divisão, o treinador do Braga era o Quinito. O Braga vem contratar-me, para eu regressar, através do Quinito. Recordo-me que perguntei aos dirigentes do Braga que interesse é que efetivamente existia. “É para ser mais um ou é para ser titular?” Explicaram-me que o interesse era do treinador, ele queria que eu regressasse, porque tinha feito duas boas épocas no Vizela. Acabei por assinar contrato. Mas nos primeiros jogos não fui titular.

Mas não chega a jogar com o Quinito, pois não?
Não. Eu vou pela mão do Quinito, mas a época entretanto termina e o Quinito sai para o Kuwait. Acabo por trabalhar com o Henrique Calisto.

Gostou?
Gostei. O Henrique Calisto tem uma particularidade de que gosto muito, a frontalidade e a honestidade. Reconheço essas virtudes nele.

Correu-lhe bem a época?
Não lhe correu bem a ele, que acabou por ser despedido nesse ano. A mudança do ciclo do Quinito para o ciclo do Henrique Calisto não foi fácil, digamos que a forma de pensar, de treinar e de jogar era diferente e houve ali um choque porque a maior parte dos jogadores do SC Braga já estavam com o Quinito há dois ou três anos. Houve um choque de personalidades e as coisas não correram muito bem.

Na época seguinte apanha vários treinadores. Manuel José, Humberto Coelho...
O Henrique Calisto vai embora, na fase transitória fica o falecido Rodrigo Passos, que era diretor técnico do futebol do Braga, e o João Cardoso como adjunto e terminámos a época com eles. Na época seguinte vem o Humberto Coelho, que também não foi feliz, foi despedido, e depois é que entra o Manuel José.

Muito diferente do Henrique Calisto?
Em termos de personalidade não anda muito longe, homens muito verticais, personalidade bem vincada, muito frontais no trato, não são muito diferentes.

Apanhou vários treinadores, o Vitor Emanuel, o Valdemar Custódio, nesses quatro anos no SC Braga, antes de ir parar ao FC Porto. O que mais recorda?
Recordo que foram épocas difíceis para o clube. O Braga tinha sempre a ambição de chegar aos lugares europeus, conseguiu isso com o Quinito, e depois quando sou convidado para regressar ao Braga, vou exatamente com essa missão, de lutar por um lugar europeu e a verdade é que nesses quatro anos em que estive no SC Braga, não conseguimos.

Consegue explicar porquê?
Passou-se muita coisa no clube. Havia investimento, havia dinheiro, mas não havia um projeto bem consolidado para atingir esse caminho. E a verdade é que tivemos dois anos em que num deles nos safamos na última jornada num jogo com o Desportivo de Chaves, em que ganhamos 1-0 e garantimos a manutenção. As últimas sete jornadas foram incríveis, não podíamos perder sob pena de descermos. Foi uma época muito difícil. A época seguinte não foi tão difícil mas jogamos praticamente só para a manutenção. As outras duas foram ligeiramente melhores. Recordo-me que fomos a uma meia-final da Taça de Portugal. Perdemos no Restelo a possibilidade de ir à final com o Benfica. Nessa célebre final entre Benfica e Belenenses, em que o Belenenses ganhou ao Benfica. Nesse ano foi o Belenenses que nos eliminou na meia-final. De certa maneira sinto alguma frustração por não ter conseguido aquilo que era o meu objetivo pessoal, de ter ido com o SC Braga a uma competição europeia.

Toni (à esquerda) na procissão da Páscoa, em Braga, com dois irmãos

Toni (à esquerda) na procissão da Páscoa, em Braga, com dois irmãos

Como surge o FCP?
O Porto surge porque no meu penúltimo ano de contrato, houve uma abordagem direta do Futebol Clube do Porto. Estive com algumas pessoas do Porto e disse-lhes que tinha mais um ano de contrato. Eles disseram que não havia problema que iam esperar. E a verdade é que esperaram. Entretanto cheguei à seleção nacional também, fui chamado a primeira vez.

Por quem?
Pelo falecido Juca. O adjunto acho que era o professor João Barnabé. Por alturas de dezembro o Futebol Clube do Porto contactou-me e tiveram uma reunião comigo. Entretanto já andavam em negociações comigo para a renovação com o Braga. O presidente- que era um rapaz meu amigo de infância, o José Alberto Silva, não conduziu muito bem a renovação, houve ali um conflito mais pessoal do que outra coisa e eu entendi que, se eu sou da casa, sou dos jogadores que mais produtividade profissional tenho e vocês não querem compensar isso com um bom contrato, que provavelmente poderá ser um dos últimos da minha carreira, tenho de pensar de maneira diferente, tenho de arranjar outra alternativa. E a verdade é que quando tive esta conversa com o Braga, não tinha convite nenhum. Curiosamente passado um mês aparece o Porto e apareceu o Sporting.

O Sporting também?
Sim, na altura era o Gonçalves o presidente. Como eu já tinha sido abordado pelo Porto e achei muito interessante a conversa que tive com o presidente do Porto- que nessas coisas é implacável, fiquei comprometido com o Futebol Clube do Porto nessa altura.

Apanha o Artur Jorge.
Apanho o Artur Jorge dois anos e no último ano o Carlos Alberto Silva.

Com que imagem ficou do Artur Jorge?
O Artur Jorge era um gentleman, um senhor, uma personalidade... Não direi difícil porque não o considero uma pessoa difícil. É uma pessoa que gosta de estar no seu mundo, gosta de marcar a distância. Enquanto treinador de futebol gosta de marcar a distância entre ele e o grupo de trabalho, para manter o respeito há uma linha a dividir o treinador do jogador, mas era uma pessoa extremamente amável. Falei com ele em particular duas ou três vezes, ele foi simpatiquíssimo e foram muito interessantes as conversas que tive com ele.

Toni Conceição com 13 anos.

Toni Conceição com 13 anos.

D.R.

Teve lesões?
Esses três anos no Porto foram uma desgraça em termos de lesões. Na última época no Porto parti a perna. O pior momento da minha carreira, em termos de lesões.

Conte.
Tive uma rotura de ligamentos cruzados, no último jogo que fiz com o Braga, já tinha contrato com o Porto. Estive sete meses parado, só comecei a normalizar em janeiro. Entretanto a época aproximou-se do fim mas na última jornada fui convocado e ainda joguei uma vez. No ano seguinte tive fratura do perónio passados dois ou três meses depois de ter começado e também estive uma data de tempo parado. No último ano do contrato, por altura de outubro, novembro, num treino o Paulo Pereira deu-me uma entrada daquelas [risos], fora do tempo e partiu-me a perna. Estive sete meses a recuperar da tíbia.

Então quando termina contato com o FCP…
Termino a carreira. Decidi terminar a carreira. Tinha 30 anos, podia perfeitamente jogar mais uns três ou quatro anos, não ao nível de um Porto obviamente mas numa equipa média, mas decidi por mim que atendendo aos azares que tive não iria andar a mendigar nada a ninguém.

Nessa altura já sabia o que queria fazer a seguir?
Queria continuar a minha carreira no futebol, como treinador. Já tinha tirado os cursos de treinador. Depois de ter começado a minha carreira como treinador é que fui tirar o 3º e o 4º nível, mas já tinha feito dois níveis. Terminei a minha carreira no Porto e no espaço de uma época para a outra, fui convidado para integrar o projeto da formação do Braga e comecei a treinar os miúdos de 16, 17 anos, os juvenis.

Depois torna-se adjunto do Cajuda.
Tinha feito contrato com a formação para dois ou três anos. No segundo ano o Braga está a passar por um momento mau a nível financeiro e de resultados, vem o Manuel Cajuda e a direção dá-lhe a oportunidade de escolher um treinador que fosse da casa. O Manuel Cajuda não me conhecia, mas um dos adjuntos, o Rui Nascimento, tinha jogado comigo no Porto, conhecia-me bem: “Desses nomes todos o que eu conheço melhor e acho que se encaixa perfeitamente na nossa equipa técnica é o Toni. Conheço-o, fomos colegas”. E o Manuel Cajuda decidiu que seria eu e informou a direção. A partir daí integrei durante cinco ou seis anos a estrutura técnica da equipa principal, embora acumulando com treinador da formação e coordenador das seleções distritais, que fui durante 12 anos.

Toni (o 3º jogador em cima a partir da direita) e a sua equipa de juniores do SC Braga.

Toni (o 3º jogador em cima a partir da direita) e a sua equipa de juniores do SC Braga.

D.R.

Quando deixa de ser jogador e passa a treinador, o que foi mais complicado nessa transição?
O mais complicado foi deixar de fazer aquilo que a gente mais gosta. Se me perguntassem, queres ser treinador ou queres ser jogador de futebol, eu respondia jogador, sinceramente. É evidente que, com o passar do tempo, a gente muda de opinião, obviamente que vou querer prolongar a carreira que estou a fazer.

Mas é uma responsabilidade diferente.
É outra responsabilidade, é sentir que a nossa prestação enquanto funcionários, enquanto treinadores está sempre no limbo, está sempre a ser julgada, diariamente. Ou pelos próprios jogadores, os miúdos já julgam os treinadores. Estão sempre atentos a ver os comportamentos, a ver as atitudes e as decisões que os treinadores tomam. Ou pelos dirigentes que estão sempre a ver se estamos a dar seguimento ao processo, ao projeto. Estamos num processo de julgamento contínuo.

Quem eram os seus ídolos enquanto jogador?
Em concreto não tenho. Gostava e na altura falava-se muito do Eusébio, ainda o vi a jogar. Mas não tinha assim nenhuma referência.

Quando assume a pasta de treinador tinha alguma referência ou não?
Não. Procurei sempre ter a minha personalidade. Agora obviamente que nós temos alguma influência relativamente ao que vemos de outros treinadores. Na metodologia de treino, na forma como se expressam nas conferências de imprensa. Tudo isso é uma aprendizagem para nós. Não quer dizer que queiramos copiar, mas absorvemos essa informação.

Enquanto jogador qual foi o treinador de que mais gostou?
Não quero ser injusto para nenhum e não vou nomear nenhum. Bebi sempre alguma coisa de todos. Tenho uma pessoa que foi o meu treinador da formação, o senhor Carlos Baptista, que é uma referência em termos de postura, como pessoa. Hoje tento transmitir aos miúdos, sobretudo quando estou com miúdos, aquilo que me passou.

D.R.

Estávamos a falar da altura em que se torna adjunto de Cajuda. Ele é uma figura sui generis…
O Cajuda é uma figura incontornável. Também enquanto adjunto trabalhei com o Vítor Oliveira, um homem inteligente com uma forma muito própria de estar. O Carlos Manuel, que era um brincalhão, era muito mais aberto, com uma competência em termos de metodologia de treino muito acentuada para a altura. O Manuel Cajuda comparando com estes é diferente. É uma pessoa que gosta mais de entrar no íntimo dos jogadores. Digamos que o processo de trabalho dele é mais na condução, na relação, embora também tenha a sua capacidade como treinador. De todos eles fui tentando extrair alguma coisa de positivo e que serve para a minha carreira como treinador.

Os adjuntos têm mais feedback dos jogadores do que o treinador principal?
Sem dúvida, os jogadores abrem-se muito mais com os treinadores adjuntos e esses feedbacks são interessantes de ouvir para tentar sensibilizar o treinador principal e dizer: “Este não é o caminho, devíamos tenta fazer isto e tal…”, sem pôr nada em causa.

Entretanto é também treinador da equipa B do Braga.
Exatamente, do primeiro ano da equipa B, em 2001/2002, salvo erro.

Chegou a ser adjunto do professor Jesualdo Ferreira?
Três meses. Na saída do espanhol Castro Santos, no segundo momento que ele treinou o Braga, eu estava na equipa B, não posso precisar, mas por volta da 10ª jornada é despedido, eu faço a transição desse jogo para o jogo seguinte como treinador principal e depois vem o Jesualdo Ferreira, que solicita à direção do Braga que seja adjunto direto dele. E fiquei com ele até ao final da época. Lá está, outra figura completamente diferente. Um bom comunicador, conhecedor de como tem de se movimentar nas esferas do futebol, inteligente, conhecedor do treino, mas completamente diferente em termos de personalidade das outras pessoas. Com o seu cunho mais pessoal.

Estreia-se como treinador principal, mais a sério, na Naval.
É o meu primeiro ano com um projeto.

Como é que surge esse convite?
Tinha acabado a época como adjunto do Jesualdo Ferreira, o Braga estava a preparar a época seguinte e eu iria continuar na equipa técnica até porque tinha mais um ano de contrato. Estava com os miúdos da Associação Futebol de Praia, em Lisboa, quando me ligaram a dizer que o presidente da Naval queria ter uma reunião para saber da minha disponibilidade para ir para lá. Apresentou-me as condições, a ideia que queria para o clube, achei aquilo interessante, mas disse-lhe que ainda tinha mais um ano de contrato com o Braga. Tinha de falar com o presidente para ver se me libertava desse compromisso. Deu-me dois dias para tentar resolver. O presidente do Braga de início pôs algumas reticências, mas no dia seguinte ligou-me a dizer que se era a minha vontade, deixava-me sair. E saí para iniciar a minha carreira com outra responsabilidade.

Mudou-se para a Figueira da Foz?
Sim, fiquei lá a viver. A minha mulher ia e vinha, eu ia e vinha. A base era e é sempre em Braga.

Toni Conceição no dia da entrevista à Tribuna

Toni Conceição no dia da entrevista à Tribuna

Luís Sousa

Como foi a estreia como treinador principal?
Senti algumas dificuldades em termos de logística, de condições, mas ao mesmo tempo também percebendo que tinha ali uma responsabilidade diferente de todas aquelas que tinha tido anteriormente. Na altura o presidente da Naval tinha-me dito que não queria subir de divisão naquele ano porque tinha perdido muitos jogadores por não ter subido na última jornada, no ano anterior. Mas queria projetar a equipa para um ano ou dois. Tentar fortalecer e ter uma equipa que ao fim de dois anos estivesse em condições de lutar. A verdade é que acabei por ser despedido nesse ano, em fevereiro, estávamos em 5º lugar.

Porquê?
Não me deu justificação. Tínhamos perdido com o Santa Clara, é verdade, e tínhamos tido uma série de dois, três jogos em que não ganhámos. Baixámos. Andávamos ali sempre entre o 2º e o 3º lugar e baixamos para o 5º ou 6º e tínhamos sido eliminados nos quartos de final para a Taça com o Braga, em casa, depois até de um jogo bem conseguido, mas perdemos 3-2 e as coisas rumaram para esse caminho. Sinceramente não estava à espera. A verdade é que a equipa também baixou um bocadinho o nível, mas houve explicações para isso. Algumas lesões, um dos jogadores importantes acabou o contrato dele, curiosamente, no dia 31 de dezembro. E até que ele voltasse a jogar, andava ali um conflito entre a direção da Naval e o clube a que ele pertencia, um impasse até que ele pudesse ser inscrito outra vez. Houve uma série de coisas que contribuíram para que a equipa se afundasse.

Como lhe comunicaram a decisão?
O diretor desportivo, Pedro Falcão, convocou-me para uma reunião. Dei o treino da manhã, fiquei à espera que o presidente aparecesse mas não apareceu. No dia seguinte também não. E eu disse: “Pedro, se o presidente não aparecer para dizer o que quer, eu amanhã estou cá para dar o treino”. Apareci para dar o treino, e aí já apareceu o presidente que veio dizer que tinha acabado ali o meu ciclo. Não foi muito bonito, a verdade é que não foi muito bonito.

Ficou muito desiludido?
Fiquei. Fiquei muito desiludido, foi a primeira chicotada. O primeiro abanão que tive na minha carreira, que me deu para pensar muitas vezes no caminho que teria de percorrer a partir dali, porque senti que fui mais vítima e o comportamento do presidente foi um bocado de desilusão para mim.

Toni no dia do casamento com uma sobrinha ao colo

Toni no dia do casamento com uma sobrinha ao colo

D.R.

O que fez a seguir?
Fui para casa, não trabalhei mais até ao final dessa época. Esperei por uma nova oportunidade e a verdade é que apareceu. No final da época apareceram duas outras situações, acabei por abraçar o melhor projeto. Até hoje digo que foi dos melhores projetos que abracei, do Estrela da Amadora. Muitas dificuldades financeiras mas foi dos melhores grupos que tive para treinar.

Explique lá isso.
Porque na dificuldade vê-se a dimensão das pessoas. Nós tivemos muita dificuldade nesses dois anos em que estive no Estrela da Amadora. Chegámos a ter muitos meses de salário em atraso, mas a verdade é que os jogadores apareciam sempre para treinar com grande vontade, porque havia uma grande empatia entre jogadores e treinador e todos sentimos que tínhamos de viver o problema juntos e que íamos ultrapassá-lo. Ultrapassámos e isso marcou-me muito. Ainda hoje quando falo nisto me emociono porque foi um grupo que me marcou pela positiva. Em termos de personalidade, de comportamento, de saber viver a dificuldade. Conseguimos subir de divisão e no ano seguinte ficámos em 8º lugar.

Veio viver para Lisboa?
Sim. A minha mulher vinha de vez em quando, ao fim de semana. Ela tem duas lojas comerciais em Braga e não se pode ausentar muito.

Em que área?
De roupa. E dentro da possibilidade dela, arranja forma de vir, vem dois, três dias e acompanha-me.

Como é que escolhia os seus adjuntos? Já tinha uma equipa?
O meu adjunto Luís Baltazar anda comigo desde que saí do Braga. Até hoje. Tenho um preparador físico que andou comigo uns cinco ou seis anos, embora já não esteja comigo há três ou quatro anos porque entretanto foi para o Qatar, apareceu-lhe uma proposta de trabalho, foi para uma academia. Mas varia um bocadinho. Posso chegar a um clube que me propõe um ou dois adjuntos da casa, não tenho problema nenhum, desde que sejam pessoas leais e de confiança, se tenho oportunidade levo um preparador físico comigo e tem sido assim nessa base.

Toni (o 2º em baixo à esquerda) na sua primeira equipa de juniores do SC Braga

Toni (o 2º em baixo à esquerda) na sua primeira equipa de juniores do SC Braga

D.R.

Tem alguma história engraçada desses dois anos no Estrela?
No meu primeiro ano, o ano da 2ª Liga, começámos a propor plantel no sentido de ter uma boa equipa para tentar subir de divisão e a verdade é que ao fim de um mês de treinos estava-se a aproximar o início do campeonato e chega o presidente à minha beira e diz-me: “Toni, para domingo você só tem dez jogadores”; “Só tenho dez jogadores, mas está aqui tanta gente a treinar?! O que é que se passa? Não conseguiu inscrever jogadores?”; “Só tenho as inscrições dos jogadores que têm contrato e mais nada” [risos].

O que aconteceu?
Foi logo um choque. Íamos jogar com a Ovarense que tinha uma excelente equipa da 2ª Liga. “Ó presidente, diga-me só uma coisa. Como é que se vai resolver isto?”; “Você tem 12 jogadores inscritos mas dois não os pode utilizar”; “Então mas estão inscritos ou não estão inscritos?”; “Estão, mas estão aleijados, não os pode utilizar”. Era o Semedo, que andava com problemas de pubalgia desde o ano anterior e estava parado até à altura em que começámos a treinar e depois começou a fazer trabalho específico, a correr, a ir ao ginásio mas não tinha jogado ainda com bola. E era o Wesnalton, que na pré-época se tinha lesionado. Tinha feito uma entorse no pé, tinha o pé muito inchado. “Então tenho 10 jogadores, com esses 2, 12?”; “Sim”; “então como é que eu vou fazer uma equipa de 11? Há algum júnior inscrito?”; “Não, não pudemos inscrever os juniores porque tivemos aqui um problema com as inscrições e os juniores não podem ser inscritos na equipa principal”; “Como é que vamos jogar?”; “Ó mister, não sei, temos de entrar com nove ou dez”; “Vai ser uma vergonha. Uma equipa que quer subir de divisão com estes problemas todos, é uma vergonha”.

Como resolveu a situação?
Falei primeiro com o Wesnalton, sensibilizando-o para jogar, com grande sacrifício da parte dele. Contei-lhe a história e ele: “Ó mister, conte comigo. Eu vou, o enfermeiro dá-me aqui uma anestesia qualquer no pé e eu vou jogar. Pelo menos em campo eu vou entrar.” E falei com o Semedo, mas falei com ele de brincadeira: “Ó Semedo, já estás em condições para ir jogar?”. E ele: “Nem daqui a dois meses”; “Não, não é daqui a dois meses, no domingo vais ter de jogar. Prepara-te que vais jogar”. Ele começou a rir a pensar que eu estava na brincadeira com ele. E eu deixei andar, não disse mais nada. No dia a seguir voltei à carga: “Semedo, como é que estás?”; “Estou melhor, estou-me a sentir melhor, estou a recuperar bem”; “Então prepara-te que no domingo vais jogar”; “Ó mister, você ainda ontem me disse isso. Está a brincar comigo ou quê?”; “Não, vais jogar no domingo”. E a verdade é que o convoquei, convoquei toda a gente, só podia utilizar 12 jogadores, convoquei os jogadores todos. Tinha 26 ou 27 jogadores, convoquei todos e fomos para Ovar. Entretanto tinha saído a notícia no jornal, n' "A Bola", salvo erro, que o Estrela da Amadora não tinha jogadores para jogar em Ovar, porque tinha jogadores que não tinham sido inscritos. Chegamos ao Ovarense, entramos no túnel do balneário e ouço uma voz de uma pessoa do Ovarense: “Afinal eles vieram todos. Estão aqui os jogadores todos”. Aquilo terá sido um choque para as pessoas do Ovarense. Tentámos fazer ali uma jogada psicológica, eles ficaram um bocadinho abananados. Aqueles que já sabiam que não iam jogar ficaram de fora e equiparam-se aqueles que iam jogar. O Semedo equipou-se: “Mister, vou jogar?” “Vais. Não tenho mais ninguém, tens de jogar” e jogou 85 minutos. Depois meti o guarda-redes suplente e saiu ele. E empatámos o jogo. É uma história real. E foi o ponto de partida para conseguirmos arranjar o grupo que tivemos até ao final daqueles dois anos.

Toni (1º à esquerda em cima) jogou três épocas no FC Vizela

Toni (1º à esquerda em cima) jogou três épocas no FC Vizela

D.R.

Como é que surge o Setúbal e por que razão sai do Estrela da Amadora?
Saio do Estrela por causa de umas histórias, diziam que eu já tinha assinado com um clube... O presidente do Estrela propôs-me a renovação do contrato e nós andávamos a negociar porque para mim, mais do que o meu contrato, precisava sentir que o Estrela tinha condições para os jogadores. Ou seja, podia cumprir atempadamente com os jogadores. Eu andava nesta situação com o presidente, e entretanto há umas insinuações de que eu estava com aquele tipo de argumento para assinar com outros clubes. Alguém deu essa informação no clube, que não era real porque eu acabei por não ficar no Estrela, nem fiquei em lado nenhum, fiquei desempregado.

E depois?
Estava em Braga e em setembro, devia ser a terceira jornada do campeonato, era o Hélio Sousa o treinador do Vitória de Setúbal, eles tinham perdido em casa 3-0 com o Heerenveen para a Liga Europa e ligou-me o Quinito no dia a seguinte a terem despedido o Hélio. Perguntou-me se eu tinha disponibilidade para discutir a possibilidade de ir para Setúbal. O Vitória de Setúbal é um grande nome do futebol português, embora a gente saiba que está numa fase mais instável da sua vida, é difícil dizer que não. Aceitei as condições e comecei a trabalhar. Mas ao contrário daquilo que eu tive no Estrela da Amadora, ali tinha um grupo completamente oposto e ao fim de dois meses, bati com a porta. Fui eu que bati com a porta.

Sentiu que o grupo não estava consigo?
O grupo não estava comigo nem estava disponível para inverter a situação, embora nem estivéssemos na linha de água. Quando saí estávamos acima da linha de água, mas enquanto treinador tenho de tomar as decisões pela minha cabeça e não pela cabeça de terceiros, muito menos pela dos jogadores, porque o líder é o treinador e eu senti que ali as coisas não tinham outro caminho a não ser o conflito, por isso decidi bater com a porta. Falei com o presidente, disse para mim chega, quero andar aqui como um profissional sério e honesto que sou.

Ou seja, um balneário pode despedir um treinador.
Pode, é verdade. Eu diria que já fui vítima disso. O treinador é muito isolado, o treinador só tem amigos no momento da vitória. Muitos amigos, às vezes a gente nem sabe de onde é que eles aparecem, mas aparecem muitos. São os tais amigos da vitória. Num momento de insucesso não querem perceber porque é que o treinador teve insucesso. Teve insucesso porque é incompetente. Este é o lema, a leitura que as pessoas fazem do futebol. Completamente errada. Por exemplo agora temos um caso de um clube onde para mim o treinador foi mais vítima, do que aquilo que eu acho que devia ser. O treinador do Sporting, o Leonel. Apanha um processo completamente disparatado e está a ser vítima desse processo todo. Com coragem assumiu, decidiu aceitar o desafio mas foi mais vítima do que outra coisa.

Toni durantea entrevista à Tribuna

Toni durantea entrevista à Tribuna

Luís Sousa

Como é que surge o Trofense?
É curioso porque das duas primeiras vezes que fui abordado, disse que não ia.

Porquê?
Porque não acreditava que o Trofense estivesse mesmo a querer subir de divisão. Eu tinha na ideia que só ia para uma equipa da 2ª liga que quisesse mesmo subir de divisão. A jogar pelo meio da tabela, não vou, não é o meu projeto de carreira. Eu não acreditava porque o Trofense tinha subido pela primeira vez à 2ª liga nesse ano. A verdade é que o diretor desportivo, o senhor Fernando Ramos, um homem conhecedor de futebol, um diretor à moda antiga, telefonou-me e eu rejeitei. No dia seguinte voltou a telefonar. “Ó mister, dê-me pelo menos o benefício da dúvida e oiça o meu presidente. Oiça o meu presidente”; “OK posso falar com o presidente, sem problema nenhum, podemos falar, mas vou manter a minha opinião”. Ele marca uma reunião em Braga, eu assumi a minha posição, disse que não estava muito convicto daquilo que eram as ideias dele e que não estava interessado em ir para um clube que não estivesse em processo de subir. A reunião terminou ao fim de algum tempo. A verdade é que eles andaram ali à volta um mês, o mês de junho, quase até ao final do mês de junho a tentar convencer-me a ir para a Trofa, até que o presidente marcou uma reunião e disse “Ó mister, diga-me lá porque é que você não quer vir para a Trofa, porque é que não quer aceitar o meu convite? É por causa do dinheiro, do salário?”; “Não, nunca me ouviu falar de salário, nunca lhe pedi dinheiro. Eu não acredito que o seu clube tenha condições para querer subir à 1ª Liga e eu só vou para a 2ª Liga se o clube tiver condições para subir”; “Mas quais são as condições que você quer?”; “Jogadores, uma boa estrutura a trabalhar é isso que eu quero, não quero mais nada. Condições para a equipa trabalhar”; “Eh pá, mas eu dou-lhe essas condições”; “você está disposto a gastar algum dinheiro em jogadores que me dêem garantia para fazer uma trabalho para podermos subir de divisão já neste ano? É que você apresentou-me um projecto para três anos, eu ao fim de um ano já não sou vosso treinador porque se não houver resultados você manda-me embora. Não acredito nos projetos longos. Acredito no imediato, no futebol tem que ser no imediato. Se você me quiser dar condições, para contratar determinados jogadores que me dão garantias para lutar para subir, aí a gente pode conversar de outra maneira”. E ele acabou por dizer: “Eu vou correr o risco de gastar já algum dinheiro em aquisições. Felizmente isso para mim não é problema, ponho do meu bolso e vamos procurar jogadores.”

E foram campeões.
A verdade é que ele fez o investimento, e parabéns ao presidente por isso, conseguiu a parte financeira para a contratação de alguns jogadores, e conseguimos o objetivo, fomos campeões da 2ª Liga esse ano.

Como é que foi a emoção de ser campeão?
Foi bonito. Lá está, para além de termos tido condições para trabalhar, não faltou com nada à equipa. Foi dos bons grupos com que trabalhei e tive a interferência na escolha da maior parte dos jogadores, uma coisa que hoje em dia não acontece.

A equipa do FC Vizela da 1ª divisão, antes do jogo com o Benfica. Toni é o 2º em cima à esquerda

A equipa do FC Vizela da 1ª divisão, antes do jogo com o Benfica. Toni é o 2º em cima à esquerda

D.R.

Na época seguinte ainda começa no Trofense…
Mas correu mal. Vou explicar porquê. Até aquela altura ninguém acreditava que o Trofense fosse um candidato a subir à 1ª divisão. Não apareciam empresários a dar grande dimensão àquilo que era um objetivo do Trofense, até que chegamos ali ao mês de março, abril e as pessoas começaram a perceber que o Trofense era mesmo candidato à subida. Então aí começaram a aparecer os tais amigos. Toda a gente quer bem ao clube, toda a gente quer ajudar o clube e o presidente começou a ouvir muita gente. Começou a ouvir muita gente e desviou-se daquilo que era o caminho que tinha sido até ali traçado pelo presidente, treinador e diretor desportivo. De uma decisão a três, passou a ser uma decisão de muita gente e foi tudo muito complicado, o defeso foi muito complicado. De um orçamento passou-se para outro, começaram a entrar jogadores no clube, vindos daqui e acolá… Quando as pessoas se aperceberam que o Trofense era um clube interessante, que havia dinheiro, que havia o projeto do clube se querer manter na 1ª liga, começou a aparecer muita gente e não quero dizer que fossem só os empresários. Começou a aparecer muita gente. O presidente desviou-se e fui embora por iniciativa minha, porque no defeso começamos a trabalhar já com conflito. O primeiro jogo do campeonato era com o Sporting e duas semanas antes estava a bater com a porta, para não começar a época.

Que tipo de problemas é que havia?
Eu queria ir por um caminho, eles queriam ir por outro, senti que havia muita gente a interferir e a partir desse momento o treinador perde o controle. E eu perdi o controle do que tinha feito no ano anterior e a partir desse momento vi logo que aquilo ia dar tudo errado. São muitos anos de experiência, muitos anos de futebol e não me enganei, infelizmente para o clube. Na altura se o presidente continua pelo mesmo caminho, porventura tinha ficado três, quatro ou cinco anos na I Liga.

Bate com a porta. Já tinha alguma coisa em vista?
Não, fiquei desempregado uns meses.

Nessas alturas em que ficava desempregado o que fazia?
Fui fazer um estágio com o Guardiola. Estive duas semanas no Barcelona. Solicitei através de um amigo português que tinha lá um conhecimento com determinada pessoa que tinha facilidade de colocar a questão ao Guardiola. Essa pessoa que foi comigo também é uma pessoa ligada ao futebol, é preparador físico, e fomos os dois.

E que tal?
Fiquei deliciado pela forma como pensa o futebol e vi isso nos treinos e nas pequenas conversas que tive com ele junto ao relvado.

O que é que ele tem de especial, de diferente?
É um homem muito inteligente com uma metodologia muito própria. Ele prepara as equipas com um modelo de jogo muito próprio e não abdica daquilo. Tanto é que esteve no Barcelona e não abdicou daquele jogo, foi para o Bayern de Munique e não abdicou e agora está no City e não abdica daquele jogo. Aquilo é uma ideologia que ele defende para o futebol e para as equipas dele. É um homem confiante nas suas ideias e no seu caminho. Isto é um exemplo para todos os treinadores.

O que aprecia mais na metodologia dele?
Aquilo que ele faz no treino é muito daquilo que acontece no jogo. Ele transporta o treino para o jogo. Estamos a ver, por exemplo, o Barcelona a jogar ou o City e estamos a lembrar-nos daquilo que ele fez no treino. É evidente que é preciso ter jogadores de qualidade, jogadores inteligentes. É preciso isto tudo e ele tem ao seu dispor, se precisa um jogador de 100 milhões tem um jogador de 100 milhões. E é isso que faço quando estou desempregado, faço cursos de formação, outras vezes vou ver jogos ao estrangeiro para manter-me constantemente atualizado.

Toni, como capitão de equipa (2º em cima à direita), num dos planteis que integrou no SC Braga

Toni, como capitão de equipa (2º em cima à direita), num dos planteis que integrou no SC Braga

D.R.

Como é que surge o Cluj da Roménia?
É uma história engraçada que tem a ver exatamente com a altura em que estava a treinar o Estrela da Amadora. Uma das vezes que estou a caminho do norte, tinha terminado o treino e tinha um dia de folga, ia para cima e recebi uma chamada de um número estrangeiro. “De quem é este número?!”, não conhecia. Era um sujeito que na altura estava a trabalhar para o CFR Cluj como manager e que conseguiu o meu número através de um jogador nigeriano que me conhecia. “Preciso de um treinador de Portugal que me dê feedback, que seja sincero, que seja honesto e não engane a gente”. E esse jogador disse “Eh pá, está aqui o número deste treinador, fala com ele que ele não te vai deixar mal”.

E depois?
Ele contactou-me, já estava no Porto com o presidente do clube. Eu estava a caminho de Braga mas passei no Porto para falarmos. Eles disseram que tinham vindo a Portugal contratar jogadores para um projeto que a equipa tinha. O Cluj tinha subido há dois anos salvo erro para a 1ª divisão e agora queriam ir à Europa e mais tarde ganhar o campeonato e ter acesso à Liga dos Campeões. Procuravam jogadores para esse efeito. Perguntei-lhes que tipo de jogadores queriam, que margem financeira tinham, que essa não era a minha área, não era empresário de futebol, mas que se quisessem um conselho, eu podia dar-lhes um conselho sobre jogadores que podiam levar. Ele perguntou-me por dois ou três que tinham pensado, um deles era o Pedro Oliveira, que tinha estado no Vitória de Setúbal, e depois começou a dizer-me que tipo de posições é que precisavam e eu indiquei alguns jogadores do Estrela da Amadora, sabia que o presidente precisava de dinheiro. “Deixem chegar ao final da época e levem este e aquele e paguem”. A partir daí construímos uma amizade. Isto foi em 2004/2005, passados três anos aparece a possibilidade de ir para a Roménia. Depois do Trofense, estava precisamente no estágio com o Guardiola e liga-me esse fulano, o Marcel Popescu. Eu nunca tinha ido à Roménia. Depois de terminar o estágio fui até à Roménia.

Toni Conceição torna-se treinador adjunto de Manuel Cajuda em 1994

Toni Conceição torna-se treinador adjunto de Manuel Cajuda em 1994

D.R.

Como foi o primeiro impacto?
Eu sabia que era um país com alguma falta de desenvolvimento a nível das estradas, das infra estruturas. Mas cheguei ao clube e fiquei maravilhado com as condições, a parte dos gabinetes, dos balneários, do relvado, fiquei bem impressionado. Porque naqueles dois anos em que eles vieram aqui contratar jogadores, fizeram investimentos no estádio que já era um bocado obsoleto. Já tinham sido campeões da Roménia um ou dois anos seguidos e começaram a ter alguma hegemonia no futebol romeno. Quando fui, nesse ano o campeonato não estava a correr muito bem, eles estavam em 6º ou 7º lugar, já tinham sido eliminados das competições europeias e queriam entrar num processo de renovação. Fui com uma malinha para dois ou três dias, o presidente veio ter comigo, no dia seguinte havia jogo à noite. Fomos ver o jogo que até correu bem à equipa, ganharam 2-0 e no final mandaram o treinador embora, despediram o treinador.

Porquê?
Acho que havia muitos conflitos internos. Lá está, o balneário se quiser despedir o treinador, despede. Aquele treinador foi despedido por causa dos jogadores. Havia muita queixa dos jogadores sobre o treinador e o presidente convidou-me para eu ficar como treinador. “Então tu ganhaste o jogo, a equipa até não se bateu mal, estás na luta por um lugar europeu e vais mandar o treinador embora?”; “Não vou mandar o treinador embora por causa dos resultados, vou mandar embora porque o balneário não se entende com ele. Há muito conflito no balneário”. Fiquei lá uns meses, terminei a época, recuperamos o 4º lugar e ganhámos a Taça.

Até aí nunca lhe tinha passado pela cabeça ir para o estrangeiro?
Não. Estava à espera de um convite em Portugal, tinha saído do Trofense.

Mas era um objetivo que tinha treinar no estrangeiro?
Sim. Nunca pus de parte, mas tinha de surgir uma coisa que me interessasse, eu procurar para ir para o estrangeiro, não. Sinceramente, não tinha essa ambição. A partir dali aguçou-me o apetite. Fui a primeira vez, depois continuei a ir mais vezes.

Estava a contar, termina a época, ganha a taça…
E começamos a projetar a equipa para o ano seguinte, para tentar atacar o campeonato e irmos à Liga dos Campeões. Entramos na segunda época com um jogo oficial para a Supertaça, ganhámos. À 15ª jornada passamos para 1º e eu também sou despedido.

Toni (à direita) com o seu colaborador mais próximo e amigo, Luis Baltazar

Toni (à direita) com o seu colaborador mais próximo e amigo, Luis Baltazar

D.R.

Passam para primeiro lugar e é despedido?
Sim.

Porquê?
Perguntei ao presidente que chamou o dono e tivemos uma reunião a três. Já toda a gente sabia que eu tinha sido despedido, já lá andava o outro treinador a ver as instalações e tudo, eu sabia, mas como oficialmente pelo clube não sabia de nada, continuei a dar os treinos durante uma semana e no final dessa semana, o campeonato parado, chamaram-me para uma reunião no estádio. Disse-lhes: “É essa a vossa vontade, não há problema nenhum, vamos chegar a um acordo. Mas qual é o motivo?”; “Não temos motivo, a gente aqui na Roménia volta e meia, fazemos estas coisas, trocamos”.

Chegou a perceber?
Até hoje não percebi. A verdade é que passados quatro anos voltei para lá, estavam eles na insolvência, falidos. Convidaram-me, fui, tirei-os da descida e ganhamos a taça outra vez (risos). É caricato.

Mas entretanto é despedido. Vem para Portugal e aparece o Belenenses.
Sim. Ligou-me o presidente da altura, o Viana de Carvalho. Eu tinha ido a Lisboa, estava com o presidente do Estrela a combinar para ir ver o Benfica na Luz. O tempo começou a ficar muito cinzento, começou a chover e disse ao presidente “Olhe o tempo está a ficar mau, não vou à bola. Vou mas é meter-me no carro e vou para cima”. Assim fiz, fui para casa. A meio do caminho, perto das Caldas toca o telefone. Era o presidente Viana de Carvalho. Tinham ido a Leiria, tinham perdido e o presidente tomou a decisão de despedir o treinador que era o João Carlos Pereira. “Por acaso estou a sair de Lisboa, estou a passar pelas Caldas”; “Então fique aí nas Caldas que eu vou ter consigo, tomamos um café e falamos um bocado”.

E que tal a experiência em Belém?
Eu estava cá há um mês, conhecia pouco a equipa do Belenenses, estavam em último lugar, não conhecia o plantel na generalidade, conhecia mais ou menos o 11 base. Achei que se naquele período entre dezembro e janeiro fizéssemos cinco ou seis aquisições, podíamos dar a volta à situação, mas a verdade é que não conseguimos. A equipa melhorou bastante, começou a ter outros comportamentos, mas só ao fim de dois meses de eu lá estar. Porque os reforços que a equipa precisava, chegaram mesmo no final de janeiro, no limite das inscrições e depois já era tarde. Naquele mês de janeiro em quatro jogos perdemos três e empatámos um. A descida deixou marcas. Sinceramente fiquei desiludido, foi o meu primeiro insucesso como treinador. Assumi a minha parte da responsabilidade mas o plantel era extremamente desequilibrado.

Toni Conceição foi treinador do Moreirense e levou o clube à I Liga. Aqui com o troféu de campeão.

Toni Conceição foi treinador do Moreirense e levou o clube à I Liga. Aqui com o troféu de campeão.

D.R.

Segue-se o Brasov da Roménia.
Surge na sequência do meu trabalho no Cluj. A mesma pessoa que me pôs em contacto com o presidente do Cluj era muito amiga do presidente do Brasov. Entre estar parado e regressar à Roménia, vou trabalhar para a Roménia. E fui.

Foi melhor, pior?
Brasov tem turismo de inverno. Tem montanha e de inverno é muito bonito com a neve. Muita gente a fazer esqui, muito envolvimento de pessoas e a própria cidade é gira. É uma cidade antiga, mas gira. Gostei de lá ter estado e fizemos um excelente trabalho.

Também foi sozinho?
Sempre sozinho. A minha mulher como tem os negócios não pode ir comigo a tempo inteiro, mas passa algumas temporadas.

Quando está lá fora o que faz nos tempos livres?
Passamos muito tempo a trabalhar porque é a melhor forma de passar o tempo. Ou temos treino ou vamos para o gabinete preparar o jogo, ver vídeos dos adversários, ver vídeos dos nossos jogos. Praticamente só temos tempo para ir jantar ou almoçar. E de longe a longe ir tomar um café a um shopping, não fazemos muito mais do que isso. Passear e para outras cidades, raramente o faço.

Ficou no Brasov quanto tempo?
Seis meses. Era para ficar mais uma época. Já tinha tudo acertado no final da época para o ano seguinte e no final dessa época até tive o convite do Estrela de Bucareste e eu recusei para ficar no Brasov porque havia a promessa por parte da administração de me dar os jogadores que queria. Assinei o contrato, começamos a trabalhar nesse processo, mas quando dou por ela estão a ser contratados jogadores que não pedi. Começou a haver um conflito. Fui desautorizado. E o curioso é que contrataram alguns jogadores em Portugal que eu nem conhecia. Comecei a pensar, amanhã vão conotar o treinador que é português com a vinda destes jogadores, se isto corre mal a responsabilidade é do treinador. Vim embora e já tinha começado a fazer a pré época.

Toni foi treinador do Cluj da Roménia em três ocasiões diferentes

Toni foi treinador do Cluj da Roménia em três ocasiões diferentes

D.R.

Mas vai para o Astra Ploiesti, também da Roménia logo a seguir.
Sim, vim a Portugal, fui para o Astra em janeiro do ano seguinte. Curiosamente nesse clube havia um diretor desportivo que era o Mário Branco, que agora está no PAOK. Entendi-me com o dono do clube e acertámos para seis meses. Mas também não estive lá muito tempo, estive lá dois meses.

O que é que correu mal?
Cheguei lá e encontrei um grupo enorme de romenos que estavam juntos há muito tempo e que não se identificaram com o meu processo de trabalho, com as minhas decisões e começou a haver conflitos.

O jogador romeno é muito diferente do jogador português?
É. O jogador romeno tem muita qualidade técnica, tem capacidade para atingir alguns patamares, não digo um patamar muito alto, mas tem capacidade para atingir bons patamares. A sua mentalidade é que é muito curta para a carreira que tem de ter. Ou seja, não é compatível com as ambições de um jogador. Eles fazem um contrato razoavelmente bom e esquecem do resto que é tentar atingir objetivos. Não são por natureza jogadores ambiciosos para atingir determinados objetivos. Embora me queira parecer que esta nova geração de jogadores, que veio dos sub 21, e fez um bom campeonato da Europa, está a querer mudar. Mas é um bocado influência do Hagi, ele montou uma escola, começou com o escalão sub-14 e agora tem uma equipa sénior e já foi campeão há dois anos com jogadores da academia. A partir dessa circunstância, quer-me parecer que isso está a contagiar outros jovens na Roménia. O jogador romeno jovem tem potencial, mas tem que desenvolver a sua mentalidade para ser um jogador mais competitivo.

Estava a dizer que ficou pouco tempo no Astra.
Sim, não houve empatia com o grupo. Decidi vir embora.

Toni (no centro) a ouvir os colaboradores mais próximos num jogo do Cluj

Toni (no centro) a ouvir os colaboradores mais próximos num jogo do Cluj

D.R.

Vai parar ao Braga B. Sentiu que era andar um bocadinho para trás ou não?
Não. Em termos de carreira foi, temos que ser sinceros, foi. Mas fui pelo sentimento, ouvi o nome Braga e fiquei logo... Eu não estava a trabalhar, passou-se o mês de julho, agosto, setembro, outubro e a equipa B do Braga estava no fundo da tabela. O presidente Salvador entende despedir o treinador e liga-me. Ele nem estava em Portugal, estava fora, mas ligou a dizer que queria uma reunião urgente comigo. Convidou-me para treinar a equipa B. Até pensei que ele queria perguntar-me sobre algum jogador, nem sabia sequer que o treinador tinha sido despedido. Quando ele me confronta com a situação, disse-lhe que não era o meu trajeto de carreira, nem era o meu projeto profissional, ir para a equipa B do Braga. Mas ele disse que me dava melhores condições, e é verdade, a equipa B do Braga hoje tem melhores condições do que muitas equipas da I Liga, não falta nada. Começou a argumentar até que me tocou no coração, que era importante para o clube que eu fosse para lá e bem ou mal, decidi aceitar. Sabia que em termos de carreira não era bom, mas eram oito meses até ao final do campeonato, depois logo se via.

Correu bem?
O trabalho correu muito bem, rapidamente tirámos a equipa da descida e num curto espaço de tempo alguns jogadores começaram a ir à equipa principal e a impor-se definitivamente. O António Salvador propôs-me a renovação do contrato. Disse-lhe que aceitava ficar mas tinha uma condição: “Quando o treinador da equipa principal for embora, por qualquer motivo, não interessa qual, mas quando ele for embora, o treinador que vai aproveitar o projeto que está a ser desenvolvido aqui, serei eu. Se for assim, eu assino os dois anos de renovação do contrato sem problema nenhum. Caso não seja assim, não é o meu trajeto de carreira e sigo a minha vida”. E foi o que aconteceu.

Ele não quis.
O Salvador não quis assumir essa responsabilidade, não podia assumir essa responsabilidade e eu decidi seguir o meu caminho.

E vai para o Moreirense?
Vou para o Moreirense já passados sete meses. Acabou a época na equipa B e fiquei desempregado, fiquei sem trabalhar.

O que fez durante esses sete meses?
Via os jogos de futebol de fora e internos, de II Liga e da Liga principal.

Com o dinheiro que tinha ganho, já tinha feito investimentos?
Felizmente tenho a minha vida estabilizada. Não preciso do futebol para viver.

Investiu onde, no imobiliário?
Sim, tenho alguma coisa, a minha esposa também tem o negócio dela, temos a vida organizada para quando acabarmos de trabalhar não termos qualquer tipo de problemas. Eu não ando no mundo do futebol só por dinheiro. Ando no futebol porque gosto de futebol. No dia em que entender que estou cheio de futebol, ponto final parágrafo, sigo a minha vida por outro caminho.

Toni Conceição a dar uma entrevista na Roménia

Toni Conceição a dar uma entrevista na Roménia

D.R.

Como é que vai parar ao Moreirense?
Depois de estar aqueles, seis, sete meses sem trabalhar, o presidente do Moreirense despediu o Vitor Oliveira e telefonaram-me. Fui lá a Moreira falar com as pessoas, o presidente não estava, foi por telefone e acertámos as coisas rapidamente. Comecei a trabalhar nessa semana, subimos de divisão e acabámos por ser campeões nacionais. No final da época não continuei.

Não continuou porquê?
Não sei. Primeiro porque eu não aceitava as condições que o presidente me queria dar. A segunda razão porque achava que o presidente devia seguir um caminho diferente. Tinha subido, tinha descido, tinha subido, descido, achei que devia apetrechar a equipa com jogadores com mais capacidade para poder dar estabilidade. E tinha de melhorar o salário ao treinador. Ele decidiu seguir outro caminho e eu vim-me embora. Não fiquei.

Vai para o Olhanense.
Sim, através do italiano que estava na SAD do Olhanense. Ligou-me, fui ter com ele a Lisboa, disse que tinham um projeto para subir de divisão. “Ok, toda a gente quer subir de divisão e condições há?”; “Vai haver condições mister, nós estamos para vender dois jogadores, vamos faturar bastante dinheiro, perto de um milhão de euros”, ou dois milhões, qualquer coisa assim do género; “Portanto há dinheiro para investir e comprar jogadores, para pagar aos jogadores prémios de objetivos, não vai haver problemas”. As promessas foram fáceis, daí ao cumprimento...

Então?
Dois meses depois aproveitei uma derrota, bati com a porta e fui-me embora. Passado um ano ou dois, o Olhanense desceu até à 2ª B.

Luis Sousa

A seguir vai parar à Arábia Saudita.
A Arábia Saudita foi uma curiosidade. Foi em março, um empresário estrangeiro que eu até nem conhecia pessoalmente, telefonou-me através de um rapaz que tinha sido meu jogador, para saber se eu estava interessado em ir para a Arábia. Falei com os meus adjuntos “Como é?”; “Vamos experimentar, vamos ver como aquilo é”. E fomos.

E como é ou como foi?
O contrato em termos financeiros era excelente, fomos por dois meses, mais um ano de contrato. Eram os dois meses finais da época para tentar reestruturar a equipa para o ano seguinte e era mais um ano. Ao fim de quinze dias já me queria vir embora.

Porquê?
Achei aquilo tudo muito estranho, não me adaptei. Vida social não há. Fui para um clube de uma cidade do interior da Arábia, praticamente no deserto, não havia nada. Havia as casas, o hotel onde nós estávamos, que era mais uma estalagem do que um hotel e não havia mais nada. Tínhamos de ir a Riade que era a duzentos e tal quilómetros para termos um bocadinho de vida, ir a um shopping ou qualquer coisa e depois era treino à noite. Ou vinhas para o hotel ou ias para o estádio trabalhar um bocado para passar o tempo. Depois senti que naquela época o objetivo que era a manutenção já estava conseguido e os jogadores já não queriam nada com aquilo, nem com o treino, nem com o jogo, nem com nada. Eu vim para aqui treinar amadores? Só por causa do dinheiro? Não.

Ruma novamente para o Cluj da Roménia.
Estavam numa altura difícil, a equipa estava para descer de divisão. Havia muitos problemas financeiros. Não iam à Europa por estarem insolventes. O presidente apelou-me: “Toni, quero convidar-te para vires para aqui mas não há dinheiro. Dinheiro não te posso pagar”; “Presidente não quero saber do dinheiro. Se tens a vontade que eu vá para aí, eu vou e conversamos. Agora quero saber que condições é que há para a equipa? Salários em dia, se for preciso contratar um ou dois jogadores para melhorar, é possível?”; “Estamos sob o efeito da insolvência temos que ter os salários em dia. Se for preciso contratar um ou dois jogadores, fazemos o sacrifício, vou tentar arranjar dinheiro porque isto está a ser gerido por um director judicial, ele é que controla a parte financeira, o resto as condições são as que tu sabes, tu conheces-nos”.

Foi para lá sem ganhar?
Não, fui ganhar um salário. “Faz o salário que quiseres. Não te vou pedir valor nenhum, faz o salário que quiseres, mas com justiça”. E assim foi. Ele ajustou-me um ordenado dentro daquilo que podia pagar. Eu não fui por causa do dinheiro, fui porque o presidente me apelou e embora se tivesse portado mal comigo, tinha-me despedido quando estava em 1º lugar, fui. A verdade é que correu tão bem... A equipa safou-se da descida de uma forma muito ligeira e acabamos por ganhar a Taça da Roménia.

Mas não fica.
Tinha tudo acertado para continuar e até recusei um convite do Aves, que tinha um projeto para a subida da 2ª à 1ª. Disse ao meu presidente: “Atenção que eu tenho a possibilidade de me ir embora. Para ficar aqui tens de me dar condições. Tens de melhorar o nosso salário, o meu e dos meus colegas treinadores e tens de contratar quatro ou cinco jogadores para o ano podermos discutir um lugar entre os primeiros quatro”; “Vou te dar as condições, está descansado”. Confiei na palavra dele. Isto foi uma conversa entre mim e o presidente, não passou pelo diretor judicial. Vim de de férias, umas férias muito rápidas, e quando regresso está tudo na mesma. O que é que aconteceu, o presidente foi suspenso da atividade pelo departamento de investigação e corrupção, teve um processo qualquer antigo e foi chamado. A sanção foi estar afastado dois meses, sem contactar as pessoas do clube, não podia contactar ninguém, só no fim dessa pena poderia regressar ao clube sem problema nenhum. Esses dois meses coincidiram exatamente com a preparação do início da época. Como eu não podia falar com ele tive de falar com o diretor judicial. Quando lhe falei das promessas que o presidente me tinha feito, esse mesmo diretor disse-me que aquilo era impossível. “Não há a mínima hipótese”; “então se não há a mínima chance arranjem outro treinador porque eu fui enganado e vou-me embora”. E vim-me embora, estive lá dois dias e ao terceiro dia vim embora.

Toni (à direita) à conversa com o selecionador da Roménia (no centro), antes de uma convocatória

Toni (à direita) à conversa com o selecionador da Roménia (no centro), antes de uma convocatória

D.R.

E depois vai para o Chipre.
Depois fiquei sem trabalhar. O Chipre foi já no final da época. Eu fiquei essa época praticamente sem trabalhar. Vou para o Chipre em finais de março também só para fazer a manutenção de uma equipa que estava para descer de divisão. Mas aí fui pela curiosidade de conhecer o futebol cipriota. Tanto é que eles no final propuseram-me a renovação, eu é que não quis.

Porque são muito amadores ainda?
Aquilo ali há muita manipulação de resultados e eu não quis entrar por aí. Desculpem lá, mas não fico cá mais.

Regressa à base e vai treinar o Penafiel. Quem é que o contacta?
O presidente. Reunimos no Porto, perguntei qual era o objetivo concreto do clube, ele diz-me que queria subir de divisão, mas queria correr por fora porque não tinha a dimensão orçamental de muitos outros clubes. Tinha de ser um outsider. Preparar a equipa sem assumir a subida. Disse-lhe que isso para mim não era um problema, desde que tivéssemos as condições de plantel para lutar por fora. Ele disse-me que não havia problema nenhum, que estavam em aberto 10 posições na equipa e que eu podia ter a minha influência nessas contratações. Isto foi numa sexta-feira, fiquei de pensar durante o fim de semana e ficamos de nos entrar na terça-feira em Penafiel. Quando lá chego na terça-feira para reunirmos já têm oito ou nove jogadores contratados sem o meu cunho e achei aquilo muito estranho, mas acabei por aceitar para não ser deselegante. Mas fiquei...

De pé atrás?
Exatamente. Mas aquilo não foi iniciativa do presidente, foi iniciativa de outras pessoas que estão na estrutura e que sabendo que o presidente já tinha a conversa adiantada com o treinador, trataram das contratações para não ser o treinador a trazer os jogadores. Foi muito complicado. Fiquei logo com uma má impressão e não me consegui curar dessa má impressão. Tanto é que no processo mais à frente, bati com a porta também. Ao fim de dois meses e tal. O início da época foi difícil, recordo-me que para o primeiro jogo da Taça da Liga, em julho, levei doze jogadores para a convocatória, não tinha mais ninguém. Para o primeiro jogo do campeonato que foi com o Nacional da Madeira, que empatámos a um, a equipa fez um excelente jogo e merecia outro resultado, mas empatámos, estivemos a ganhar quase até ao fim e com certeza não ganhamos porque eu queria mexer na equipa e não tinha soluções, tinha dois jogadores defensivos no banco. Depois jogamos em casa com o Famalicão e empatamos, também o mesmo problema. Só a partir daí é que começou a normalizar os candidatos subiram para 18. E aquilo começou-me a fazer um bocado de confusão. Aquilo não era coisa de um clube que queria subir de divisão, não era coisa de um clube bem estruturado. Tínhamos perdido com o Real Massamá aqui e a seguir fomos jogar para a Taça de Portugal com o Vilafranquense e perdemos. E eu penso vai ser agora que vou embora. Disse ao diretor desportivo para dizer ao presidente que queria falar com ele e disse-lhe: “Presidente não conte mais comigo, quero ir embora”.

Toni (no centro) a preparar-se para mais um jogo do Cluj da Roménia

Toni (no centro) a preparar-se para mais um jogo do Cluj da Roménia

D.R.

E volta à casa da partida da Roménia, ao Cluj.
Sim mas já foi com condições diferentes. O presidente ainda estava na estrutura mas já não tinha ação nenhuma, aí já foi o dono do clube que era um dono diferente dos anos anteriores. Tirou o clube da insolvência, pagou as dívidas, assumiu a responsabilidade financeira e passou a ser o sócio maioritário da SAD, começou a ser ele a tomar as decisões e foi ele que me contactou porque tinha ouvido dentro do clube muitas opiniões favoráveis ao meu regresso. Também cheguei lá numa altura muito difícil, a equipa estava quase a ser eliminada dos preliminares da Liga dos Campeões, tinha perdido o campeonato, já tinha perdido a Supertaça, mandou o treinador embora e chamou-me. Depois havia jogos quase de três em três dias. Andei um mês e meio a jogar de três em três dias. O meu cunho em termos das ideias de treino e de mecanismos para uma equipa de futebol não funcionou de imediato porque não havia tempo para treinar. Aquilo era jogar, recuperar, jogar, recuperar, foi muito difícil mas com o tempo conseguimos pôr a equipa a jogar bom futebol e a ganhar jogos. Depois perdemos a eliminatória da Liga dos Campeões e fomos para a Taça UEFA. Fomos eliminados, isso causou mossa na equipa mas depois reagiu bem no campeonato e começou a disparar. Entretanto o treinador que lá tinha estado antes no ano em que foram campeões e que tinha ido para a China, ficou livre. Havia uma fação que tinha saído do clube e voltou a entrar e que queria mudar o treinador mas não tinha argumentos para mandar o treinador, eu, embora. O homem está a ganhar, está em 1º lugar como é que o vamos mandar embora? Então aproveitaram dois empates e mandaram-me embora para meter o outro. Fui mandado embora em 1º lugar.

E eis que está agora como selecionador dos Camarões. Já lhe tinha passado pela cabeça ser selecionador?
Já me tinha passado pela cabeça até porque gosto muito do CAN. Até já vi in loco, no Egipto. Estive lá uma semana a acompanhar. E achei aquele ânimo dos povos africanos que acompanham as suas seleções, muito giro, muito interessante e o nível competitivo é até bastante acentuado. Pensei que um dia até gostaria de treinar uma seleção africana para estar presente no CAN, mas nunca me passou pela cabeça que isso um dia pudesse acontecer e logo agora. Tenho um amigo meu espanhol que é advogado, tem muitas conexões e que foi confrontado com a possibilidade de saber de um nome para treinar a seleção dos Camarões. E ele “Toni interessa-te treinar os Camarões?”; “Interessa-me mas depende das condições e do que eles disserem”. Mandei-lhe o meu currículo e passadas duas horas estavam a ligar.

Chegou rapidamente a acordo?
Fui a Paris, juntamente com esse meu amigo, ter com eles, a reunião correu muito bem. É evidente que devia haver mais candidatos. Depois dessa reunião em Paris passaram três semanas e eu pensei que aquilo não ia dar em nada. E há um mês o meu amigo advogado telefonou-me “Toni prepara-te que tens de viajar amanhã para os Camarões”. Fiz a mala rápido e fui.

Neste percurso todo em que foi várias vezes para fora, como é que se “safava” com a língua?
Com o inglês. Não tinha e não tenho um inglês muito desenvolvido. Na Roménia utilizei um tradutor, embora eles tenham muitas palavras semelhantes às nossas, fui começando a desenrascar-me e não foi problema. Depois claro fui tentando assimilar o romeno não só para comunicar melhor com os jogadores da equipa, mas também com as pessoas da estrutura do clube. Obviamente que fui tentando desenvolver o meu inglês e hoje não é um inglês fluente mas já dá para entender.

Toni a receber a medalha pela conquista da Taça da Roménia, feito que alcançou três vezes

Toni a receber a medalha pela conquista da Taça da Roménia, feito que alcançou três vezes

D.R.

Quais são os seus objetivos nos Camarões?
São muito claros. Tentar ganhar o CAN. Somos o país organizador. E tentar ganhar a pool de apuramento para o Campeonato do Mundo.

Sente que tem condições para isso?
Em termos de qualidade de jogadores tenho para poder lutar por isso. Agora falta o resto porque isso só não chega.

Qual foi o primeiro impacto quando chegou aos Camarões?
Foi difícil, adaptar-me ao que vi não é fácil.

O que pode ser mais complicado?
Ainda não sei o tipo de vida que a gente possa lá ter. Eu já defini o caminho, trabalhar, casa, casa, trabalhar, nada mais do que isso. Trabalhar, casa, vais ser a minha vida ali, um bocado à semelhança da Roménia. Aqui vai obrigar sobretudo a um trabalho de investigação maior e isso implica muitas horas. Temos de acompanhar muitos jogadores que estão na Europa, dos quais não temos informação total sobre eles.

Vai ter de viajar mais. Tem alguma obrigatoriedade de passar “x” tempo nos Camarões ou não?
Não. O que combinei é que vou passar algumas temporadas lá. Durante três semanas, um mês, e depois saio, venho à Europa ver jogos, venho a Portugal e depois volto para lá outra vez. Mas comprometi-me porque eles gostam de sentir a presença do selecionador. O povo gosta muito de futebol e da seleção camaronesa, vive muito os resultados da seleção e gostam de sentir que o selecionador esteja muito envolvido. Eles acusam um bocadinho o antigo selecionador que aparecia nas concentrações, acabava o jogo e ia-se embora. Mas eu disse-lhes que comigo eles não iam ter essa questão, que lá ia passar algum tempo.

E como treinador, acha que vai ser mais complicado porque são jogadores que vêm de vários países, que não estão habituados a jogar juntos?
É mais complicado pela simples razão de que nós não temos os jogadores disponíveis diariamente. Há uma concentração num domingo à noite ou numa segunda-feira, passados três dias a equipa está a jogar. Portanto o espaço entre a concentração e o jogo são dois, três dias no máximo.

O que é que já percebeu que tem de fazer diferente no seu trabalho?
Onde tenho de incidir, no sentido de irmos ao encontro dos bons resultados, é no ponto de vista mental. Os jogadores têm de vir à seleção com sentimento, com orgulho. E parece que isso está arredado. Um jogador vem porque é convocado e pronto. É o país e vai, mas não vem com aquela ambição. Vamos criar aqui uma equipa forte, laços de amizade, uma equipa com um carisma.

E como é que pretende fazer isso?
Muita conversa com os jogadores. Ainda recentemente falei com um jogador aqui em Portugal e ele disse-me exatamente aquilo que eu pensava: “Mister, nós precisamos de muita união. Não há união entre os jogadores. Vão, jogam, vamos embora e acabou.”

Mas como é que acha que vai conseguir fazer isso, através de almoços, jantares?
Não, não é preciso almoçar, nem jantar. A minha tarefa neste momento é motivar os jogadores para virem à seleção nacional. Mas motivá-los para virem com ambição e com objetivos bem definidos. Para atingir esses objetivos eles têm de estar cientes que têm de passar pelas dificuldades, não podem vir à seleção a pensar que vão encontrar as condições que têm nos clubes, porque não tem. Os clubes de Inglaterra, da França, da Bélgica estão bem organizados, nos Camarões têm muito pouco. Às vezes até têm falsas promessas e é isso que eles acusam a federação. Eles este ano ameaçaram não ir ao CAN. À última hora não queriam ir porque havia falta de pagamentos e prémios. Portanto, vou procurar sensibilizá-los de que eles vêm à seleção mas não vêm por esses motivos.

Vai apelar ao coração.
Exatamente, mas isso passa por conversas individuais e por conversas de grupo. E quem quiser vir com este espírito a porta está aberta para todos, quem não quiser, a porta fecha-se para alguns. Isto vai ser dito com clareza, não venham depois pôr o problema de meia dúzia de tostões que têm de ganhar aqui, comparativamente com o que ganham nos vossos clubes, porque não é isso que vos vai dar a vossa estabilidade financeira. Isto aqui vai projetar o vosso nome em termos de país e em termos de imagem perante o povo. Ganhar dinheiro, ganham lá fora que isto aqui não é para ganhar dinheiro.

A primeira equipa escolhida por Toni, como selecionador dos Camarões

A primeira equipa escolhida por Toni, como selecionador dos Camarões

FETHI BELAID

Qual é a sua maior ambição enquanto treinador?
Conquistar títulos. Tenho uma ambição muito pessoal, mas essa cada vez a vejo mais distante para cumprir (risos). Não vou dizer o que é.

Mas é em Portugal?
É em Portugal, claro.

Tem a ver com o seu SC Braga?
Tem a ver com o meu Braga. Mais não digo.

Ao longo da sua carreira teve muitos altos e baixos...
Tive e vou dizer uma coisa: foi porque às vezes escolhi mal os projetos, precipitei-me a escolher os projetos, é verdade.

Mas porquê? Porque decide mais com o coração do que com a cabeça?
Exatamente. Às vezes não meço as consequências do insucesso. Tenho sempre a ideia de que através da capacidade de quem trabalha, porque acredito muito na minha equipa técnica e em mim, vamos conseguir sempre fazer melhor e às vezes não é possível. Porque o sucesso do treinador está inerente a determinado número de factores que têm de vir de outros estágios, tem de vir de cima para baixo e às vezes eles não vêm. É por isso que hoje em dia é fácil despedir um treinador. Olha-se para o resultado, se é fraco, rua com o treinador. Mas tem de se perceber porque é que o treinador teve insucesso e muitas vezes não se chega a essa conclusão.

É mais difícil lidar com o balneário, com os presidentes ou com os empresários?
Para mim tem sido mais difícil lidar com todos os agentes que andam à volta das equipas de futebol, menos com os jogadores. Já confessei aqui que tive problemas de afinidade, de ideias, com o grupo do Vitória de Setúbal, é verdade. Mas foi um caso que tive. Mas com os dirigentes, com toda a gente que gravita à volta do futebol, agentes desportivos, é difícil, muito difícil. Quando se metem interesses que não têm a ver diretamente só com o futebol, é complicado.

Tem algum treinador que seja uma referência para si? Ou que considere ser o melhor treinador?
O melhor treinador é aquele que ganha mais vezes, mas às vezes há treinadores que têm competência e não ganham porque não têm tido a oportunidade de ter as melhores condições. É difícil ajuizar ou comparar um treinador que tem todas as condições, com outro que tem as mesmas competências mas não tem as mesmas condições. É difícil fazer este tipo de avaliação.

Alguns treinadores portugueses têm tendência para dizer que José Mourinho é o melhor. Qual é sua opinião, acha que é o melhor treinador do mundo?
Não vou dizer que é o melhor, vou dizer que é um excelente treinador, um treinador muito inteligente, que tem a sua conceção de ler o jogo, o seu pragmatismo, é um treinador que joga para o resultado e isso é bom porque quem atinge os resultados, obviamente tem que ser julgado como um treinador que tem muita competência, mas depois isso é uma questão de conceito, daquilo que nós entendemos como futebol. Para mim futebol também é espetáculo, não é só resultados. A gente tem de proporcionar um jogo atrativo para que as pessoas venham ao estádio. É evidente que uma equipa que ganha sempre, as pessoas vêm ao estádio, se é uma equipa ganhadora. Mas por vezes há equipas que não jogam tão bem, como outras que não ganham, e que jogam melhor futebol.

Na sua opinião, qual é a sua mais-valia, aquilo que considera ser o seu ponto forte?
Não lhe vou dizer qual é, vou dizer antes outra coisa, eu tenho pontos fracos. Agora ando a dar mais entrevistas, desde que sou treinador dos Camarões, estou a aparecer muitas vezes... Acho que isso é uma necessidade, mas não é o que me dá mais prazer. E esse é um ponto fraco que tenho porque hoje em dia, a imagem de um jogador de futebol, de um treinador, tem de ser bem vendida, tem de ser bem preenchida, temos público e as pessoas gostam. Eu sei que há colegas meus que têm boa imagem em termos públicos porque trabalham bem a sua imagem junto da comunicação e das TVs. Não sou uma pessoa que trabalha muito nisso, não me preocupo, sinceramente não me preocupo. Agora tenho o outro lado, aquilo que acho ser a minha mais-valia e que é a capacidade de trabalho, a capacidade de seguir aquilo que penso e a capacidade de comunicar com os jogadores, que é a mais importante para mim. Pelo menos com quem vivo diariamente. Falho depois no resto.

São essas as falhas que não o levaram ainda a outros patamares?
Provavelmente. Tive dois momentos na minha carreira em que podia ter dado um salto qualitativo, para patamares superiores, de ir treinar outras equipas e recusei.

Que equipas foram essas?
O SC Braga. Eu estava no Trofense no ano da 2ª divisão e tinha feito exigências ao presidente. Exigi ao presidente que me desse condições, o presidente andou atrás de mim um mês, para me convencer. Acabou por me convencer e deu-me as condições todas que eu achei que eram importantes para termos sucesso. Isto foi em junho. Salvo erro em outubro, o treinador do Braga era o Jorge Costa, o Salvador despediu-o e ligou para mim. “Toni, quero convidar-te para vires para o Braga, dou-te três anos de contrato, quero que sejas treinador do Braga”, falou-me até nos valores. Mas eu disse-lhe: “Estou a trabalhar no Trofense”; “Está bem, mas isso resolve-se”; “Eu não dou um passo para sair daqui da Trofa. Se me perguntares se quero ir para o Braga? Quero ir para o Braga. Mas se me pedes a mim para ir falar com o presidente do Trofense para sair daqui, não faço isso”; “Estás a dizer que não ao Braga?”; “Não, estou a dizer-te quais são os meus princípios. Estou a trabalhar, fiz determinadas exigências ao presidente do Trofense, ele cumpriu com essas exigências, eu não sou pessoa para agora chegar à beira dele, nem tenho essa coragem, e dizer quero ir-me embora porque o Braga está ali à minha espera. Não faço isso”. Estamos a falar de um Braga europeu, com um contrato fantástico em termos financeiros, mas não fui. Disse-lhe: “Se tu quiseres, vais tu falar com o presidente do Trofense, eu não falo”.

O presidente falou ou não?
Ele ficou ali, disse que ia meter alguém, e eu sei quem é esse alguém, alguém de peso para falar com ele. Se falaram ou não, não sei, eu não falei, e no dia a seguir continuei a treinar.

Qual foi a outra situação?
A outra situação foi na Roménia. Estamos a falar do Estrela de Bucareste, campeão europeu há muitos anos, mas um clube em termos comparativos ao Benfica em Portugal. Tem sócios, adeptos por toda a Roménia e nesse tempo do Brasov eu tinha jogado com eles para a Taça. E no final da época o dono do clube convidou-me para ir para lá. Ainda não tinha assinado com o Brasov mas como já estava em negociações com eles, não fui. Decidi não ir. “Se o Brasov disser que não, podemos falar. Se o Brasov disser que sim, tenho de assinar o contrato aqui porque tenho ética, tenho respeito por quem trabalho”. Estamos a falar de um super contrato, não de um contrato de dois tostões. Tem a ver com princípios. Perdi a minha grande oportunidade de ir para o Braga, a partir daí mais nunca mais me convidaram para ser treinador principal do Braga e já teve oportunidade para o fazer, o Salvador. Porque já despediu treinadores e eu estava desempregado. Mas nunca mais me ligou.

Luís Sousa

E histórias caricatas. Deve ter algumas que possa contar…
Lembro-me já de uma. De um determinado presidente de um clube ter ligado para o banco para fazer uma substituição.

Conte.
Ele ligou para o diretor que estava no banco, para tirar o fulano e meter o beltrano.

O que fez?
Azar do dono, aconteceram duas coisas. Ligou para o diretor que já tinha sido meu jogador e que conhece bem o caráter do treinador que tem. Pensou, se vou fazer isto, o treinador manda-me dar uma volta. O diretor ficou tão agitado no banco que o meu adjunto se apercebeu e perguntou-lhe: “O que é que se passa que estás aí tão aflito?”. Eu normalmente estou sempre fora do banco e portanto não me apercebi. Só soube no final do jogo, ele acabou por confessar ao meu adjunto o que se tinha passado e o meu adjunto disse-lhe logo: “Não digas nada ao mister, tu conhece-lo, não lhe digas nada e no final do jogo vais falar com ele ou eu ponho-te a falar com ele”. O diretor não disse mais nada, ficou apoquentado, continuou a receber mensagens e a ficar aflito porque estava a ver a vida dele a ficar em perigo (risos). Só pedia a Deus que ganhássemos o jogo. E ganhámos. No final do jogo, a caminho do balneário, o meu colaborador puxou-me para o lado “Eh pá, tivemos um problema tremendo. O boss lá de cima sugeriu uma substituição, para tu tirares fulano. Agora no fim do jogo vai para cima do diretor de certeza”. Mandei chamar o diretor e perguntei-lhe o que se tinha passado. “Ó mister, o homem já me ligou duas vezes, estou lixado”; “Tranquilo, vais dizer-lhe que me deste o recado. Estás protegido, ficas fora, eu trato disso”. Ele voltou a confrontar o diretor, que lhe disse que me tinha dado o recado e se eu não tinha feito a substituição, era melhor ser ele a falar comigo. Depois recebi um telefonema do dono mas disse-lhe: “Aqui o treinador sou eu. Se quiseres fazer substituições vens falar com o treinador ou vens tu para cá”. A partir daí, foi só ter duas ou três derrotas seguidas e estava feito o caminho para me ir embora. Isto só para dar uma ideia daquilo pelo que passamos no mundo do futebol. Por isso é que eu digo, é mais difícil lidar com todas as pessoas que gravitam à volta de uma equipa, do que propriamente com o grupo em si, os jogadores, os adjuntos. Tudo o resto é mais complicado.