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A casa às costas

David Caiado: “Na Polónia, aos 30 minutos racharam-me o maxilar, mas, como ganhava ao minuto, continuei a jogar para não perder 600 euros”

No Luxemburgo, onde nasceu, aprendeu a torcer pelo Benfica, mas foi no Sporting que David Caiado se formou como jogador e homem. Aos 13 anos, já a viver no centro de estágio, sofre a primeira grande cicatriz da vida ao ver o pai ficar numa cadeira de rodas na sequência de um acidente de viação. Depois da estreia no Sporting, de duas épocas no Estoril Praia, euma e meia no Trofense, inicia o percurso além-fronteiras na Polónia, passando por Chipre, Bulgária e Ucrânia, antes de voltar a pisar solo português, no V. Guimarães. Sem conseguir impôr-se devido à incapacidade de lidar com a pressão da expetativa criada, volta a sair, primeiro para os relvados da Ucrânia, depois de Espanha e, por fim, instala-se na Roménia, onde ainda joga. No meio disto tudo é pai, vive de perto a guerra da Crimeia, apanha sustos e foge com dinheiro debaixo dos pés

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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É filho de emigrantes. Quando é que os seus pais foram para o Luxemburgo?
A minha mãe foi para o Luxemburgo com 15 anos, o meu pai com 18, à procura de uma vida melhor. A minha mãe trabalhava como empregada doméstica em casa de várias pessoas e o meu pai era camionista. Tenho uma irmã com quase 36 anos que é assistente de bordo na TAP.

Ficou no Luxemburgo até que idade?
Até aos 12 anos. Até aos seis anos estive em casa dos meus avós maternos, que também lá viviam. Fui criado por eles até essa idade, porque os meus pais trabalhavam até tarde. Com seis anos, quando comecei a escola, já vivíamos todos juntos, eu, os meus pais e a minha irmã.

Gostava da escola?
Eu gostava da parte do recreio [risos]. Desde pequeno que sempre gostei de jogar futebol, foi sempre uma paixão, a minha mãe diz que eu queria dormir com a bola e as camisolas que ela me comprava de vez em quando [risos]. Nunca fui um grande amante dos estudos, ao contrário da minha irmã.

Torcia por quem quando era pequeno?
Na altura o FCP era a equipa que ganhava, mas a minha mãe, que adorava futebol, ao contrário do meu pai, é benfiquista ferrenha e obrigatoriamente tive de começar a gostar do Benfica. Desde pequeno foi-me incutido aquele sentimento benfiquista que mais tarde viria a dar problemas a nível sentimental, por causa do meu percurso de formação. Ou seja, fui criado numa casa de benfiquistas.

Sempre quis ser jogador de futebol ou sonhou ser outra coisa?
Não me lembro de pensar outra coisa a não ser em tornar-me jogador de futebol. Claro que quando somos novos não temos noção da dificuldade que é ser jogador de futebol. O Luxemburgo também não era um país onde se falasse muito de futebol.

David com os pais e a irmã, no dia em que foi batizado

David com os pais e a irmã, no dia em que foi batizado

D.R.

Começou a jogar num clube a partir de que idade?
A partir dos seis anos comecei a jogar futebol federado, no Swift Hesperange, na cidade onde eu vivia com os meus pais. Foi a minha mãe que me levou.

Quem era os seus ídolos?
O Ronaldo, o brasileiro, e o João Pinto, por ser do Benfica.

Jogava já como avançado?
Sim, jogava no meio, mas atacante, sempre gostei de fazer golos. Tinha o João Pinto como referência, eu era muito pequenino, só dei o salto a partir dos 12/13 anos. Gostava de jogar na frente. No Luxemburgo organizava-se um torneio que era muito conhecido a nível europeu e onde o Benfica participava. O facto de haver muitos portugueses no Luxemburgo levava a que muita gente fosse ver o torneio. Quando eu tinha 11 anos o torneio correu-me muito bem e houve interesse da parte do Benfica em que eu fosse para lá. Havia um pequeno problema, eu vivia no Luxemburgo. Mas o facto da minha mãe já estar um pouco farta do Luxemburgo e querer voltar para Portugal para desfrutar um bocado da vida fez com que, no ano a seguir, com 12 anos, eu fosse viver para Portugal com o objetivo, e com a palavra do Benfica, de ir jogar para lá.

Acaba por vir para Portugal à conta do Benfica?
Foi um bocado o juntar das duas coisas. A minha mãe também queria voltar e achámos que era a altura certa. Eu venho sozinho com a minha irmã, os meus pais ainda ficaram no Luxemburgo por causa das mudanças, e os meus avós já estavam a viver em Portugal. Através de um telefonema para o Benfica, foi-nos dito que o plantel já estava fechado e que só ia haver treinos de captações mais tarde. É aí que eu vou para a Académica.

Antes de continuar: quando veio para cá foi viver para onde?
Para Gatões, Montemor-o-Velho. Fomos para casa dos meus avós, que era mesmo ao lado da nossa.

Foi um choque muito grande, foi-lhe difícil a adaptação?
A fase em que os meus pais não estão é no verão, eles estão a tratar das mudanças, e aí estamos com amigos, são férias, é tudo muito mais ligeiro. Era igual aos anos anteriores, em que vinha passar férias a Portugal. No meu caso não foi tão difícil, já no caso da minha irmã foi mais complicado porque ela tem mais três anos do que eu, tinha feito mais amizades na escola lá. Eu vinha com o sonho de poder jogar num país onde o futebol era muito mais forte.

David Caiado ao colo da irmã

David Caiado ao colo da irmã

D.R.

Estava a dizer que foi para a Académica. Como?
Há um senhor nosso amigo que, sabendo que eu não podia ir logo para o Benfica, levou-me a um treino à Académica. As coisas correm-me bem e fico. Começa aí a minha etapa futebolística em Portugal.

Fica na Académica quanto tempo?
Começo em setembro e fico até maio. Foi tudo muito rápido. A nível escolar a adaptação foi mais difícil. Eu tinha tido aulas de português no Luxemburgo mas era completamente diferente. Aqui estava muito mais desprotegido, no Luxemburgo as crianças se calhar não eram tão evoluídas naquela parte de "maldade" e então naquele primeiro ano as coisas não me correram muito bem, estava um pouco perdido. Fui ameaçado várias vezes pela minha mãe, que sabia que o pior castigo que me podia dar era não me levar aos treinos. Acabou por nunca fazê-lo, mas foi um ano escolar complicado, em que tive alguns comportamentos que não eram os mais corretos. Eram fruto também da idade e de alguma inexperiência.

Que tipo de comportamentos?
Não gostava da escola em si e juntei-me a companhias que em vez de me ajudarem prejudicavam-me. Foi uma fase. Quando chegou o terceiro período e as coisas começaram a apertar mais, lá acabei por me safar. Apesar de não gostar de estudar, sempre fui uma criança inteligente e só o facto de estar atento nas aulas permitia-me ter notas positivas. No futebol as coisas começaram logo a correr bem, havia um rapaz que jogava comigo, o Bruno, cujo pai era o Jorge Manuel Mendes, um empresário muito conhecido em Portugal na altura, que tinha feito a transferência do Simão Sabrosa para o Barcelona. Ele acompanhou o filho ao treino e viu o meu primeiro treino na Academica. A partir daí começou a haver alguns contactos e o Sporting e o FCP foram as duas primeiras equipas a contactar-me passado um mês de eu estar lá.

Ficou deslumbrado?
Mexeu comigo sim. Foi uma fase em que o facto de estarem sempre a ligar para casa a querer falar comigo ou com os meus pais, inclusivamente cheguei a estar a treinar e do Porto ligam para o campo da Académica porque queriam falar comigo, a meio do treino… A minha mãe não estava a ver o treino, o meu treinador, Pedro Pinto, disse que ninguém podia falar comigo. Isto para dizer que aquela confusão toda acabou por mexer de certa forma comigo a nível escolar. Não desculpa o facto de não gostar da escola, mas mexeu porque foi tudo muito rápido, ver de um momento para o outro tanta gente a ligar... Deslumbrei-me um bocadinho e aquele sonho com que eu vinha estava a apressar-se. Foi tudo muito rápido.

David ao colo da avó e com a irmã

David ao colo da avó e com a irmã

D.R.

Por que razão escolheu o Sporting?
Também por influência do Jorge Manuel Mendes, que tinha ligação ao Sporting, e porque fui ao Porto e ao Sporting, e ao ver a Academia de Alcochete a acabar de ser construída, isso levou-me a ir para lá. Por outro lado, havia um colega meu da Académica que também ia para lá, os pais iam viver para Lisboa e eu tinha oportunidade de ir viver para casa deles, eles ofereceram-se para que eu lá ficasse, e isso também pesou na nossa decisão.

Foi uma decisão familiar.
Apesar de ter sido uma decisão familiar, claro, os meus pais sempre disseram que a decisão era minha e no dia em que eu quisesse sair dali bastava ligar e eu voltaria a casa.

Vem para Lisboa, para casa do seu colega...
Sim, no segundo ano fui viver para o centro de estágio, porque a Academia ainda estava a ser construída. Aí foi mais difícil porque ia sozinho para a escola, tinha de apanhar o autocarro... No primeiro ano estava mais protegido, pelo facto de todas as noites ter aquela coisa de chegar a casa e estar com pessoas que eram como família, que me acolheram como um filho. Esse segundo ano foi difícil porque coincide com uma fase em que houve um problema com a matrícula do carro do meu pai e ele teve de voltar ao Luxemburgo para trabalhar mais seis meses. E nessa transição, em que já tenho 13 para 14 anos, nas férias, o meu pai tem um grave acidente, no último dia de trabalho dele dos seis meses, que o deixou numa cadeira de rodas.

Isso é um choque brutal.
É. Marcou-me bastante. Trabalhar tantos anos fora, lutar tanto, sacrificar a família, porque apesar do Luxemburgo te oferecer boas condições tu vais para trabalhar, não vais tanto para desfrutar... O Luxemburgo sempre foi visto pelos meus pais como país para trabalhar. para no futuro poder aproveitar melhor em Portugal. Essa situação naturalmente deixou-nos muito abalados, teve de mudar muita coisa na minha família. Mesmo assim ele teve a “sorte” de ter o acidente no Luxemburgo e através da empresa ficamos resguardados no aspeto financeiro, no entanto, a nível psicológico, para toda a família, foi complicado porque ele nunca recuperou, ficou paraplégico. A minha mãe mudou completamente, ficou a achar que a vida não faz sentido, porque estar a trabalhar tanto e depois acontece isto, isso levou-a a uma negatividade muito grande. Mas fomos superando, o meu pai é uma pessoa super positiva, que consegue transmitir essa energia positiva. Mas, claro, há sempre feridas que ficam.

Estava onde quando ele teve o acidente? Como é que soube?
Estávamos de férias, lembro-me de estar em casa quando recebemos o telefonema. Não nos foi dito a gravidade. Ele estava no maior hospital de França. No dia a seguir eu e a minha mãe apanhámos o autocarro para o Luxemburgo e depois deslocámo-nos para França para ir vê-lo. Foi um choque muito grande. Tenho a imagem dele numa cama, ele estava em coma, e foi complicado quando nos transmitiram que ele nunca mais conseguiria andar.

Na altura em que o seu pai podia começar a acompanhá-lo mais é quando o acidente acontece.
Sim, se eu já sentia a falta dele antes… No centro de estágio ele já estava no Luxemburgo e a minha mãe, irmã e avó vinham todos os domingos assistir aos meus jogos. Lembro-me de estar a viver em frente ao antigo estádio de Alvalade e do apartamento eu conseguia ver a 2ª Circular, eu via a carrinha da minha mãe a passar e ligava para voltarem para trás porque queria ir para casa. Quando ela chegava queria-me levar e eu já caía em mim e não voltava. Mas foram várias as vezes que estive a ponto de desistir. O pior era à noite. Durante o dia estás na escola, vais treinar, estamos mais ocupados, mas quando deitas a cabeça na almofada aí começas a pensar sobre tudo e é mais complicado. Não só para mim como para todos os atletas que viviam no centro de estágio.

David Caiado mascarado de mosqueteiro no Carnaval

David Caiado mascarado de mosqueteiro no Carnaval

D.R.

Ficou no centro de estágio quanto tempo?
Um ano. No ano a seguir já vamos para a Academia, em Alcochete.

Fez os estudos até que ano?
Até ao 12º ano, mas faltavam duas ou três disciplinas, que curiosamente acabei agora, neste verão. Era um objetivo que tinha.

A mudança para Alcochete foi pacífica?
Acaba por ser um bocado mais ligeira, embora tenhamos apanhado uma fase de transição no início porque já íamos para a escola de Alcochete, mas treinávamos na Torre, perto do estádio de Alvalade. Na Academia foi mais fácil, estamos mais protegidos. Andávamos todos na mesma escola, não era como em Lisboa em que cada um estava numa escola diferente.

Quando é que começam as saídas à noite e os namoros?
Nunca gostei muito de sair à noite. Gosto de tudo até chegar à parte da discoteca, da barulheira e da confusão. Ou seja, gosto de jantar com amigos, em família, com a mulher, com a filha, de ir beber um copo até chegar à fase da discoteca, a partir das duas, três da manhã já começo a não desfrutar. Sempre foi assim. Houve uma época em que saía um bocado mais com um colega meu, mas pouco. Sou uma pessoa muito familiar, gosto de estar em casa junto dos meus, gosto de sentir os meus.

Não tem nenhuma história que possa contar dos tempos do centro de estágio e da Academia?
Dava-nos um gozo enorme ir para o lado dos seniores, onde havia aqueles sumos Powerade, que para nós era impensável ter. Nós gostávamos de ir ao balneário deles roubar essas bebidas do frigorífico. Umas vezes éramos apanhados pelas câmaras e os seguranças fechavam os olhos, outras vezes éramos penalizados. Também pegávamos no carrinho maca e andávamos a conduzi-lo até sermos apanhados pelas câmaras e pelos seguranças.

Qual era o castigo?
Ficar sem treinar um dia ou no dia a seguir termos de ser nós a acordar toda a gente, para irmos para a escola, o que obrigava a levantar mais cedo.

E das saídas à noite, não há histórias?
Como disse, nunca fui de gostar de sair, mas tenho um episódio na Academia, com 16 anos, perto de fazer 17. Tínhamos jogo no sábado e eu e mais três colegas combinámos sair à noite. Não conseguimos sair sem avisar, ou seja, na sexta tínhamos de avisar que íamos sair no fim de semana, por causa das refeições que tinham de ser contadas. Dissemos na Academia que íamos para minha casa os quatro, porque eu ia fazer anos. O nosso objetivo era ir sair à noite e ficar a dormir numa pensão. Mas eles desconfiaram e ligaram para os meus pais, a minha mãe não sabia de nada, como é óbvio. Resultado, ficámos de castigo. Ou seja, o meu dia de anos ia ser passado na Academia. Tive sorte que o nosso mister, Luís Martins, foi à Academia no domingo e levou-nos para almoçarmos com ele, em Odivelas, onde ele vivia. Depois levou-nos a casa. São pequenos gestos que dizem muito sobre a pessoa que é. Foi assim a minha primeira tentativa de sair à noite [risos].

David Caiado com o bolo de aniversário dos seus oito anos

David Caiado com o bolo de aniversário dos seus oito anos

D.R.

Quando é chamado pela primeira vez à equipa sénior do Sporting?
Aos 17 anos sou chamado pelo José Peseiro, cujo adjunto era o Luís Martins, o meu treinador nos juvenis e juniores. Ele gostava bastante de mim, foi como um pai lá dentro. Fui chamado para um jogo que os seniores disputaram na Academia contra uma equipa da Arábia Saudita. Para mim foi um momento bastante marcante. Ia super nervoso. Foi o concretizar de um sonho de muito anos.

Quem era grandes figuras da equipa?
Sá Pinto, Beto, Carlos Martins, Ricardo, Liedson, Polga, era uma equipa com bastante experiência, não é como agora que apanhas equipas com mais miúdos.

Houve algum jogador que o tenha surpreendido mais?
Todos tentavam motivar-nos. Lembro-me que o Rui Jorge ajudava muito os miúdos. O Carlos Martins também, pelo facto de ter um irmão, João Martins, na equipa de formação. O Beto…

Mas enquanto sénior só fez um jogo oficial pela equipa principal.
Sim, estreei-me com o Paulo Bento. É a seguir, no meu segundo ano de júnior. Lembro-me muito bem. Dia 24 de dezembro à noite recebo uma mensagem do mister Leonel Pontes a desejar-me feliz Natal e a dizer para me preparar que a minha prenda de natal ia chegar no dia 27. Fui para a equipa principal no dia 27 para me estrear no dia 6 de janeiro. No primeiro treino que fiz com os seniores na era Paulo Bento, tinha 18 anos, começámos um jogo a meio-campo e o Sá Pinto vira-se para mim e diz me: “Ó miúdo, esta merda não é como nos juniores, solta a bola se quiseres voltar a treinar conosco.” Havia uma forma diferente de receber os jovens nessa altura. Era impensável faltar ao respeito a alguém mais velho e o compromisso era total. Hoje em dia os jovens valorizam tudo muito menos, respeitam menos e ouvem menos. Mas é essa ao mesmo tempo a imagem da nossa sociedade.

Quando assina o primeiro contrato?
Com 16 anos, no Sporting. Recebia 250 euros, depois já como junior de segundo ano tenho uma proposta do Real Madrid, e estive muito perto de assinar, porque só tinha contrato de formação com o Sporting. Havia uma pessoa do Real Madrid que me ligava praticamente todos os dias para a Academia. Eu estava inclinadíssimo para aceitar essa proposta.

E não aceitou porquê?
Porque na altura bastou uma conversa com o mister Luís Martins e bastou o facto de eles me terem prometido, entre aspas, que em breve podia estar na equipa principal. Puseram-me a treinar com eles, um ou dois treinos, e eu, claro, em vez de trocar o Sporting pelo Real Madrid… Até porque me foi dito que no R. Madrid nunca jogaria. E é verdade, se calhar à equipa principal nunca chegaria. O facto de me darem um contrato profissional e de meterem a treinar com a equipa principal levou-me a assinar pelo Sporting.

Lembra-se como gastou o primeiro ordenado?
O dinheiro era praticamente todo controlado pela minha mãe. Não fazia nada de especial, porque também não me faltava nada, quando precisava de roupa ou de alguma coisa os meus pais sempre mostraram disponibilidade e sempre me ajudaram.

A equipa de juvenisdo Sporting onde David Caiado (no meio em baixo) foi campão nacional

A equipa de juvenisdo Sporting onde David Caiado (no meio em baixo) foi campão nacional

D.R.

Assina com o Sporting, mas entretanto vai para o Estoril.
Eu assino por dois anos, mais um de opção. Assino o contrato profissional, vou para o campeonato da Europa de sub-19, com a seleção, e sou emprestado ao Estoril durante dois anos.

Custou-lhe muito ser emprestado?
Custa sempre. Na altura não beneficiávamos da equipa B, que hoje torna essa fase de transição muito mais fácil, porque estás dentro de um ambiente que te é familiar, numa forma de jogar que é igual, com treinadores que já te conhecem. Jogas sempre para ganhar. Então essa transição foi difícil para mim, apesar do treinador ter sido o Litos e de me ter ajudado. Mas é completamente distinto chegares a um ambiente em que és o mais novo, és visto como um jovem com muito potencial, mas ali o que conta são os resultados. Tive um balneário muito bom, com o Diogo Luís e o Marco Silva, por exemplo, com quem mantenho amizade. A época teve varias situações complicadas, que, no sentido psicológico, me fizeram crescer. Também fui viver sozinho.

Como foi a mudança da Academia para um apartamento, sozinho?
Também foi complicado. Não sabia cozinhar, não sabia fazer nada. Ia sempre a um restaurante que ficava por baixo da casa onde vivia.

Disse que houve alguns problemas no Estoril. Pode especificar?
A equipa não estava a ter os resultados que desejava. O Litos teve alguns conflitos, porque tínhamos um ou dois brasileiros que eram mais complicados e começou a haver problemas no grupo. A nível de salários, apesar de eu receber só uma parte do Estoril, lembro-me que havia problemas. O nosso presidente era o António Figueiredo e eu não sabia, mas ele estava ligado ao Benfica. Um dia o António Figueiredo entrou no balneário para falar dos salários. Estávamos com dois ou três salários em atraso e quando ele está a dizer que o dinheiro está a chegar, para não ficarmos preocupados, o telemóvel dele começa a tocar e o toque era o hino do Benfica [risos]. O pessoal riu-se e tal, mas pronto, era aquela coisa de que ele realmente estava ligado ao Benfica e estava mais preocupado com os problemas do Benfica do que com os do Estoril. Foi um ano atípico.

E a segunda época, foi melhor?
Estou no meu último ano de contrato, estou em casa, a minha mãe e uma amiga dela decidem ir a Fátima a pé e eu digo que também vou com elas. Faço o percurso de Coimbra a Fátima a pé, que são cerca de 100km e durante a viagem recebo uma chamada do Tulipa, que ia ser o novo treinador. Mostrou-se bastante interessado em que eu voltasse para lá. Eu, pelas sensações que tinha tido no ano anterior, não queria voltar. Mas o Sporting achou que era a melhor opção para mim e o facto do mister me ter convencido, fez com que acabasse por, durante essa viagem, chegar a acordo com o Estoril, para ser emprestado mais uma época. À terceira ou quarta semana da pré-época, faço um carrinho num treino e fico com o pé virado ao contrário e faço apenas o primeiro e último jogo desse campeonato. Tive a sorte de ter recuperado no Sporting, mas lembro-me do Marco Silva, que me ajudou bastante na altura.

David (ao meio em baixo) nos juniores do Sporting, clube onde fez a formação

David (ao meio em baixo) nos juniores do Sporting, clube onde fez a formação

D.R.

Depois como vai parar ao Trofense?
Acabo contrato com o Sporting. Ligaram-me da Academia, havia mais uma época de opção por parte do Sporting, mas o facto de ter feito apenas dois jogos nessa época... Fui chamado pelo Paulo Bento e pelo Pedro Barbosa, o diretor desportivo, e foram muito honestos comigo. Disseram-me que o ideal seria desvincular-me do Sporting e seguir o meu rumo. Recebo entretanto a chamada do Trofense, que me oferece três anos de contrato, na Liga, um projeto interessante, o treinador era o António Conceição... Acabei por aceitar.

Muda-se para a Trofa?
Sim. Na altura conheci e comecei a namorar com a minha ex-mulher, Sofia, a mãe da minha filha, Maria Beatriz.

Como corre essa época desportivamente?
A nível coletivo, não foi boa, porque acabámos por descer de divisão na última jornada. É o António Conceição que me liga para ir para o Trofense, faço a pré-época e temos quatro derrotas iniciais que acabam por despedi-lo. Um ano antes, apesar de ter tido aquelas lesões, tenho um conflito com o Tulipa, no Estoril. Na altura eu era miúdo, queria jogar. Sentia-me bem depois da lesão e não estava a ser opção, estava com aquela ansiedade toda dentro de mim, porque sabia que acabava contrato e queria voltar ao Sporting. Há um treino em que lhe respondo e acabamos por entrar em conflito, acabo por não jogar mais e só faço o último jogo do campeonato. No Trofense, quando despedem o António Conceição, quem foi lá parar? O Tulipa [risos].

Voltou a correr mal?
Não, até acabou por correr bem. Não joguei tanto como desejava, porque ele também não jogava num sistema que me favorecesse muito, ele punha os mais experientes. Mas fiz mais de 20 jogos. Jogava eu ou o Hélder Barbosa, que na altura estava emprestado pelo FCP. Podia ter sido uma época mais positiva, mas acabei por fazer bastante jogos. E durante essa época recebo uma proposta.

De onde?
De uma equipa da 1ª Liga da Rússia, mas situada na Tchechénia. O Trofense acaba por aceitar, fiz muita força para sair. Inicialmente não queriam aceitar. Como não estava a jogar sempre, decido aceitar a proposta e viajo para a Turquia para negociar com eles, junto com o Mário Branco, que agora é diretor desportivo do PAOK. Fazem-me uma proposta financeiramente do outro mundo, cinco anos de contrato. Entretanto vou à Rússia. O presidente do clube era o presidente da Tchechénia, Kadyrov, que tem ligações muito fortes ao Putin e ele estava lá. Na altura não o conhecia. Ele era uma pessoa super respeitada, entramos no hotel e ele tinha oito seguranças de volta dele, eu tinha 21 anos, nunca tinha visto nada assim. Conheço-o e no dia a seguir fui fazer um treino ligeiro, de recuperação. Acaba o treino e o Mário Branco chama-me: "Não sei o que se passou, mas os gajos querem alterar o teu contrato". Fiquei a pensar que o treino tinha corrido mal. Chego ao hotel, vejo o Mário Branco e o outro empresário romeno a rir-se. Eu super preocupado. O presidente chega e pede para transmitir que tinha gostado muito do meu treino e aumentava-me o ordenado em mais 5000 euros mensais. Fiquei perplexo [risos]. Depois de estar 20 minutos a fazer uma posse de bola, uma coisa normal e ele aumenta-me... Eu na altura ia receber 20 mil euros por mês, mas não sabia que era o jogador mais mal pago no plantel praticamente [risos]. Era jovem, para mim era muito dinheiro. Havia lojas dentro do hotel e eu já queria comprar tudo. Mas era um grupo complicado. Tenho uma história...

Força.
Chego a um jantar e estão quatro romenos numa mesa, eu sento-me ao lado deles, porque era onde havia lugar livre. Havia uma garrafa de sumo de maçã na mesa e quando vou pegar na garrafa eles dizem-me para não beber aquilo porque aquilo não era sumo de maçã, era whisky. Ou seja, eles enchiam as garrafas de sumo de maçã com whisky e estavam nos jantares de equipa a beber whisky como se fosse sumo de maçã [risos].

Mas não chegou a jogar nessa equipa pois não?
Não. Porque eles não chegam a acordo com o Trofense, queriam pagar em duas vezes, nós íamos ter um jogo importante no fim de semana com o V. Guimarães e o clube mandou-me para trás. Nunca mais faziam transferência do dinheiro, nunca mais chegavam a acordo e voltei para o Trofense. Já tinha assinado contrato com eles, mas só seria válido a partir do momento em que a transferência entrasse no Trofense.

David Caiado com a Taça da Bulgária conquistada ao serviço do Beroe

David Caiado com a Taça da Bulgária conquistada ao serviço do Beroe

D.R.

Como surge a Polónia?
Também através do Mário Branco. No final da época o Trofense desce de divisão eu não queria jogar na 2ª Liga, o clube também queria tentar vender os seus ativos e surge a proposta da Polónia, um contrato de empréstimo com opção de compra. Foi a minha primeira experiência fora do país. Fui sozinho.

Que tal o primeiro impacto quando chegou a Lubin?
Uma cidade muito pequena. Foi outro português comigo, o Fernando Dinis. O treinador é alemão, eu pelo facto de ter nascido no Luxemburgo falo francês e alemão. O primeiro contacto foi bom. O clube tinha condições. A adaptação foi tranquila, tinha o Fernando Dinis e a esposa que me ajudaram muito nessa fase, estávamos sempre juntos. Lembro-me que, salvo erro na segunda noite lá, estamos em casa dele e há um jogo da supertaça da Polónia. Fizemos um jantar lá em casa, tínhamos bebido uma caipirinha e ouvimos da janela eles gritarem 'Zaglebie, Zaglebie', que era o nosso clube. E nós, da janela, começámos a gritar também. Os adeptos começam a olhar para cima e reconhecem-nos, sei que acabámos a noite num bar com os adeptos a beber uns copos. Fomos bem recebidos.

A época como corre?
Começámos mal a época, à 5ª jornada querem mandar o treinador embora. Estamos a treinar e vemos uns 200 adeptos a chegar encapuzados, e eu disse ao meu colega: "Vamos fugir, isto vai dar confusão para nós de certeza". Os adeptos chegaram, começaram a falar em polaco, diziam que até ganharmos um jogo era melhor não sairmos de casa porque senão faziam-nos qualquer coisa. Tivemos sorte porque como a nós, portugueses, as coisas estavam a correr bem, eles disseram aos outros que deviam seguir o nosso exemplo porque tínhamos acabado de chegar e damos tudo pelo clube. Mas tenho outra história engraçada.

Conte.
O contrato que assinei era por minuto, ou seja, eu recebia 20 euros por cada minuto que jogasse, mais prémios de jogo. Eram 1800 euros se jogasse os 90 minutos. Há um jogo em casa, está um igual e num contra ataque eu vou cabecear a bola e o jogador da outra equipa cabeceia contra o meu maxilar. Quando vou tentar fechar a boca os dentes batiam todos errados, nunca tinha sentido nada assim, pior que isso eu não conseguia mexer a boca. O Fernando Dinis veio ter comigo e digo-lhe: "Acho que tenho o maxilar torto". Quando ele olha vê que tenho a boca torta e diz: "David, pede a substituição, vai para o hospital porque o maxilar está fraturado de certeza". Eu olho para om arcador, ainda estávamos com 60 minutos de jogo e digo-lhe: "Pá, faltam 30 minutos. 30 minutos são 600€, eu não vou sair agora do jogo" [risos]. Fiquei encostado a uma linha a desejar que ninguém me tocasse. Acabei por fazer o jogo todo e vou logo a seguir para o hospital. Tinha uma fratura no maxilar, andei a beber leite e a comer sopa por uma palhinha durante uma semana [risos].

David Caiado (à esquerda) jogou no SC Traviya da Ucrânia

David Caiado (à esquerda) jogou no SC Traviya da Ucrânia

D.R.

Gostou dos polacos e da Polónia?
Gostei. Achei que têm o rigor e a exigência da Alemanha, eles copiam muito os alemães. Os polacos são um bocado fechados, no entanto gostei. Depois o treinador foi embora, apanhámos um polaco que era muito complicado, o Smuda, muito conhecido, era selecionador e foi assumir a nossa equipa. Ou seja, o nosso clube tinha muito poder financeiro e resolveu ir buscar o melhor treinador, entre aspas. Azar o nosso, era um treinador que não gostava de estrangeiros, pôs-nos completamente de parte. Era um treinador à antiga, todas as segundas-feiras punha-nos a correr à volta de um campo uma hora e quinze. Ele nem sequer aparecia, era uma pessoa super difícil. A verdade é que a equipa ganhou uns jogos e acabaram por lhe dar razão.

Vem embora da Polónia porquê?
A minha filha nasce em novembro, em Lisboa, tenho a felicidade de ter assistido ao parto. Na altura até estava jogar mas ele disse-me: "Não há problema, David, tu podes ir a Portugal. Vais assistir ao parto". Fui a Portugal num sábado, no domingo assisti ao parto, na segunda-feira fiquei em Lisboa e regressei na terça porque tinha-me dito que tinha de lá estar para treinar na quarta. Depois do parto voltei já com aquela saudade da família, foi complicado. Pedi no clube para sair em dezembro com a ideia de voltar para Portugal para o Trofense, a equipa que me tinha emprestado.

Depois vai para a o Chipre.
Sim, o Bruno Baltazar falou-me dessa hipótese e aceitei. Um contrato de dois anos, financeiramente bom, o clube ia apostar em bastantes portugueses. Tinha estado a ver o país e era parecido com Portugal, por isso...

Vai para o Olympiakos de Nicosia sozinho ou com mulher e filha?
Vou com a minha ex-mulher e filha. É um país com calor, as pessoas apesar de serem boas pessoas são, como hei-de dizer, estão habituadas a deixar tudo para amanhã. "Ávrio" é a palavra mais utilizada e quer dizer amanhã. Qualquer coisa é sempre amanhã, amanhã a gente trata disso. São muito relaxados. Gostam de beber o café deles, o frapé. O Bruno Baltazar contou-me uma história dos tempos em que ele tinha lá jogado, em que os próprios polícias, mesmo quando há acidentes, estão com o frapé na mão, põem o copo em cima do carro acidentado, mesmo que este esteja de pernas para o ar, para escrever, com a maior das calmas [risos]. Gostei, só que é um país cujo futebol tem pouca visibilidade.

E é um país de jogos viciados…
Sim, sim, mas sobre isso não posso falar.

David Caiado (à direita) com o colega e amigo Nuno Pinto com quem jogou na Ucrânia

David Caiado (à direita) com o colega e amigo Nuno Pinto com quem jogou na Ucrânia

D.R.

Por que não ficou as duas épocas?
No primeiro ano tenho uma lesão no menisco e queria vir para Portugal para ser operado. Mas sou operado pelo médico do Olympiacos de Nicósia, que era conhecido pelo homem da noite, porque estava sempre na noite. E ele opera-me numa sexta-feira de manhã. Passado três horas aparece-me no quarto. Na altura o clube estava com problemas financeiros, não sei se foi por isso ou não, mas ele vira-se para mim e diz-me que temos de ir embora. Eu não sentia as pernas ainda da epidural que levei. "David anda lá que temos de ir embora"; "Como é que vamos embora se eu ainda não sinto as pernas?". "Eh pá, começa a tocar nas pernas, eu vou-te ajudando, tenta vestir-te". Eu não conseguia vestir porque não sentia as pernas. Eu ia ficar em casa de um colega, o João Paulo, porque na altura eu estava lá sozinho. O Dr. lá conseguiu meter-me numa cadeira de rodas, no corredor, fui começando a sentir as pernas pouco a pouco e nem me deu muletas nem nada, leva-me para o estádio, ainda os meus colegas estavam a treinar no campo que ficava a 150m. E ele: "David, ficas aqui. Onde está o carro do João Paulo?". "É aquele, mas não me vai deixar aqui agora, nem tenho muletas nem nada". "Eh pá, eu tenho de ir para casa, tenho de me ir vestir, tenho um jantar importante..." Deixou-me lá. Eu tinha um pequeno bidon com sangue que era o dreno no joelho. Pus o bidon em cima do carro do meu colega e fiquei lá à espera que eles acabassem o treino [risos].

O que acontece depois?
Em dezembro vou para Portugal e eles recebem uma proposta da Bulgária. O Iliev, que jogou no Benfica, ligou-me em dezembro. Era uma proposta financeiramente inferior ao que recebia lá, mas como estava há três meses sem receber, eles concordaram e acabei por aceitar.

E que tal a Bulgária?
Fui sozinho e foi um choque bastante grande. Vinha de um país com bastante calor e cheguei lá em janeiro, com neve por todo o lado, uma cidade que não era propriamente uma das melhores da Bulgária. Foi um choque enorme também porque logo no primeiro dia eles vão mostrar-me uma casa e o prédio estava todo rebentado, parecia da guerra. Disse logo: “Com todo o respeito, eu não vou ficar neste apartamento". Ele pediu para ter calma que os apartamentos por dentro eram bons. Quando entro no elevador, havia sangue por todo o lado, não sei o que é que se tinha passado. Eu só dizia: “Vocês estão a brincar, não me vão meter aqui”. Mas depois quando subo o apartamento por dentro era espetacular. Mas tudo o resto era mau, havia baratas. Foi complicado. Eles depois acabaram por arranjar essa parte, mas o choque inicial foi este.

Estavam lá mais portugueses?
Estava lá um brasileiro, o Elias, e depois veio um português, o Livramento. A seguir vamos para a Turquia fazer o estágio. O treinador falava português, o que ajudou. Foram quatro meses bons em que acabo por fazer bastantes golos. Depois surge uma proposta da Turquia que o clube não aceita. Eu na altura ganhava cerca de 5000€/mês e o Antalya oferecia quatro vezes mais. Estou de férias, pego um avião para a Bulgária para falar com eles e quando chego não está lá ninguém. Não me deixaram sair. Já não era o Iliev o treinador porque ele tinha ido para um clube grande da Bulgária e tinha assinado no contrato que não podia levar-me. Porque na altura falava-se que ele me ia levar.

Ficou sempre sozinho?
A minha ex-mulher e filha foram lá ter, estiveram lá um ano praticamente em permanência e depois às temporadas.

O que fazia nos tempos livres?
Tinha bastantes zonas verdes, até tinha um jardim zoológico engraçado, um shopping, e quando havia uma folga íamos até lá ou íamos a Sofia. Acabou por se passar bastante bem, o clube também tinha boas condições, as pessoas eram simpáticas.

David Caiado com dois soldados ucranianos

David Caiado com dois soldados ucranianos

D.R.

Histórias da Bulgária, não tem?
Tenho um jogo amigável na pré-época contra uma equipa da 2ª divisão. Há um rapaz que se chateia e dá-me um pontapé numa perna por causa de uma ação que tinha havido antes. Sinto uma dor muito forte, tento levantar-me para ir ter com ele e pedir explicações, mas não consegui. Achei aquilo estranho, já não consegui jogar nesse jogo e quando o médico me vê, diz que não há problema que vou ter um hematoma e que vou ficar parado quatro ou cinco dias. No dia a seguir fui fazer um raio X porque sentia muitas dores. O raio X não deu nada e eles mandaram-me fazer tratamento para uma clínica em Sofia, que ficava a duas horas de distância. Estive lá cinco dias e quando voltou, tinha aliviado mas ainda sentia bastante dor. E o médico de Sofia tinha dito que eu podia começar a correr para ir tirando o hematoma. Nesta segunda começo a correr e senti umas dores enormes. O meu treinador era o Petar Hub Chev, que foi selecionador da Bulgária, era muito exigente, ele queria puxar por mim mas eu não conseguia acompanhar os meus colegas por causa das dores, estava chorar à volta do campo. Ele era uma pessoa tão exigente e conhecida na Bulgária que o nosso médico tinha medo dele, olhava para mim e dizia: “Eh pá, tens de correr porque ele está a mandar”. Eu a chorar à volta do campo, a aguentar as dores. Fui fazer outro raio X, voltou a não dar nada. Fui falar com o treinador e disse que não era normal, eles mandaram-me para um endireita, porque diziam que podia estar o pé torcido. Fui ao endireita e pega no meu pé, de um lado para o outro, de um lado para o outro, e eu com dores e às tantas dá um estalo no pé e a verdade é que me aliviou um bocado na altura, mas a dor voltou. Disse ao treinador o que se tinha passado, no dia seguinte mandaram-me a outra clínica e ao terceiro raio X é que se verificou que tinha o perónio fraturado.

Fica duas épocas e meia na Bulgária e depois vai para a Ucrânia.
Vou parar a Ucrânia depois de ganhar a supertaça da Bulgária e jogar a Liga Europa. Nem cheguei a comemorar a Supertaça porque, nesse jogo, estamos no prolongamento e o Nuno Pinto, aos 115 minutos, dá-me uma pancada sem querer com o piton e abre-me a pálpebra do olho. Quando percebo que não estou a ver nada fiquei ainda pior ao ver que o médico está mais assustado do que eu. Dali vou diretamente para um especialista de oftalmologia. Chegamos a dezembro, estava a seis meses de acabar contrato, fizeram uma proposta de renovação que não aceitei e venderam-me para um clube da Ucrânia, o Sports Club Tavriya Simferopol. E pronto aí começam as aventuras a sério [risos].

Porquê?
Curiosamente vou para esse clube e está lá o Nuno Pinto, que me tinha aberto a pálpebra. O clube ficava situado na Crimeia. Vamos para a Turquia porque eles estão em estágio lá e começam os confrontos em Kiev. Ficamos um bocado assustados, as famílias ficaram assustadas porque ouviam as notícias. Mas é como se as coisas se passassem em Lisboa e nós estivéssemos no Algarve, tudo tranquilo. Vamos para a Ucrânia, tudo tranquilo. Um dia acordamos no centro de estágio, estamos a tomar o pequeno-almoço, eu e o Nuno Pinto estávamos no mesmo quarto, e começamos a ouvir notícias de que a Crimeia estava a ser invadida por russos.

Aí ficaram mais assustados.
Sim, mas eles continuavam a dizer para estarmos tranquilos porque era uma zona habitada por pró russos. Estamos a fazer um jogo amigável ao final da tarde e o jogo é interrompido a meio. Há confusão e o nosso treinador diz: "Vão para os vossos quartos, façam as malas que temos de ir embora daqui porque está a começar a haver confrontos na cidade". O centro de estágio fica a 20km da cidade e claro nós estávamos a ficar assustadíssimos. As notícias que passavam para Portugal era que a Crimeia estava a ser invadida. Estamos no quarto a despachar as coisas, nós tínhamos acabado de receber dois salários, em dinheiro, e o Nuno pega nas coisas e diz: "Ó mano, vamos embora, isto está uma confusão". E eu: "Ó Nuno, estás a brincar ou quê? Então o dinheiro vai ficar aqui? Nós sabemos lá se vamos voltar para aqui"; "Ó pá, deixa estar o dinheiro, não te preocupes com o dinheiro"; "Estás maluco". [risos] Lá guardamos o dinheiro. Era muito dinheiro e era muita nota para tentar meter em todos os lados.

E depois?
Foi um susto grande. Havia um clima de tensão muito grande dentro do autocarro porque não sabíamos o que íamos encontrar pelo caminho. Ia tudo calado. Até que estamos a passar a suposta fronteira que os russos fizeram com sacos de cimento e de areia, e o autocarro para. Entram dois homens com uma metralhadora e encapuzados a querer ver os passaportes. Aí senti uma sensação de impotência tão grande... Eles podiam fazer o que quisessem, podiam dar-te um tiro que ninguém podia fazer nada. Acabamos por sair dali com o coração a 1000 e vamos para Donetsk. Ficamos lá uma noite para depois apanhar o avião e ir para a Turquia de novo e sair da Ucrânia.

David Caiado jogou no V. Guimarães em 2014

David Caiado jogou no V. Guimarães em 2014

D.R.

Ainda volta à Ucrânia?
Vamos para a Turquia e lá estamos à espera que o governo da Ucrânia tranquilize tudo pra voltarmos. Nós éramos a única equipa naquela zona. Aquilo um dia era da Ucrânia, no outro era da Rússia e já só podíamos pagar na moeda russa, era uma festa na cidade, era aviões russos a passar por cima do nosso centro de estágio. O Putin vai visitar a cidade. Acabamos o campeonato a saber que o clube ia acabar. Assinamos um contrato de dois anos e meio, a nível financeiro muito muito bom, que nos dava a nossa independência financeira e o clube afinal fecha e ficamos com muito dinheiro a arder.

Vem para Portugal sem clube.
Sim. E o Nuno Pinto também. Mas eu não gosto de ficar muito tempo à espera. Apesar de ter feito boa época, a nível financeiro recebia muito mais do que se podia pagar em Portugal, a expectativa estava alta. Tive várias propostas de Portugal, e o coração levava-me a escolher a Académica, era na altura o Paulo Sérgio o treinador, até que surgiu a proposta do V. Guimarães, através do Rui Vitória, e nesse próprio dia viajo para Guimarães.

Mas termina a época na equipa B.
Também tenho uma história nesse dia em que assino contrato porque, o empresário que me tinha levado para Ucrânia tinha-me dito: "Não assines no V. Guimarães que vamos ter propostas muito melhores". Estou com o meu empresário no gabinete com o sr. Armando Marques, vice-presidente, ele está a preparar os contratos e começo a ouvir o meu telefone a tocar. Era o empresário ucraniano: "David não assines aí". Depois tocava o telefone do meu empresário, esse ucraniano manda-nos a proposta que tinha de uma equipa da Rússia e que nos dava quatro vezes mais do que aquilo que estávamos a assinar ali. O Armando Marques sai da sala, o meu empresário todo aflito pergunta-me: "David, o que vamos fazer?"; "Agora não podemos voltar atrás. Já assinei um contrato, ele foi agora buscar as outras cópias, não podemos voltar atrás". Acabo por assinar e o outro empresário ficou doido. Tínhamos a proposta no mail e tudo e era uma proposta financeira muito, muito melhor. E sabendo depois o que aconteceu mais para a frente, teria sido a melhor opção, mas...

Que equipa era?
Torpedo de Moscovo.

David com o sobrinho Miguel

David com o sobrinho Miguel

D.R.

Fica em Guimarães com o Rui Vitória…
E com a expetativa muito alta. Era um dos jogadores mais bem pagos do plantel e isso acabou por criar em mim uma ansiedade grande. Tinha de mostrar serviço. No primeiro dia o Rui Vitória vem falar comigo: "És tu quem vai falar à imprensa". O campo de treinos cheio. Faço o primeiro golo da pré-época. Na minha cabeça tinha aquele desejo de mostrar em Portugal o meu real valor, só que isso começou a jogar contra mim porque criou uma grande ansiedade em querer fazer tudo rápido e bem. As coisas acabaram por não correr da melhor forma. Não pelo treinador, mas por mim, o grande culpado fui eu porque não aproveitei as oportunidades, tive também uma pequena lesão... Mas como felizmente na Ucrânia as coisas tinham corrido bem, recebo uma proposta em fevereiro, quando o mercado em Portugal já tinha fechado. O Rui Vitória, e toda a equipa técnica também, foi muito sincero comigo, disse-me que não iria jogar muito até final da época, ia jogar mais na equipa B. Quando recebo a proposta do Metalist, um grande da Ucrânia, resolvo aceitar apesar da minha família estar contra. "Vieste da guerra há seis meses e não te serviu de experiência?". Mas eu senti essa necessidade porque financeiramente era muito melhor e eu queria jogar. Assinei por um ano e meio.

Regressa à Ucrânia sozinho novamente?
Sim. No dia em que estou na Turquia a negociar contrato com eles, azar dos azares, há um confronto qualquer em Kharkiv e morrem seis pessoas. Estou a assinar o contrato e está a minha irmã a ligar-me a contar o que se tinha passado e a pedir para voltar. O diretor do clube dizia para estar descansado e acabei por assinar.

E que tal?
Tinha um treinador que nem sequer falava inglês. Comecei a época a jogar a extremo direito, depois fui para extremo esquerdo, a seguir para segundo ponta de lança, joguei a avançado um jogo e chegou a uma altura nas palestras em que nem sequer sabia onde jogava. Ia para o balneário e perguntava a um colega que falava inglês onde ia jogar. Estava numa confusão grande. Havia problemas financeiros no clube que eu desconhecia e outras coisas...

Que outras coisas? Levante um bocadinho a ponta do véu.
Eu tive um jogo em que estávamos a perder 2-0 e a partir do minuto 70 vejo que os outros começam a abrandar. Eu estava a jogar a avançado e os dois centrais adversários a dizerem-me: "Entra dentro da área, entra que a gente faz penálti". Pensei, estes gajos estão a brincar. E aos 93 e minutos, eles já desesperados, há um colega que entra dentro da área e há um deles que lhe dá uma porrada que o vira ao contrário. Fui eu que marquei o penálti. Mas depois soube que tinha de haver mais um golo no jogo. Eu na altura não me apercebi de nada e até o árbitro estava feito. Acho que o árbitro tinha apostado no jogo. Estava combinado que tinha de haver três golos naquele jogo e pronto ele apitou o penálti e na altura devem ter ganho o dinheiro deles, não sei. Só soube que aquilo tinha sido combinado passado bastante tempo. Havia muitos jogos assim, mas nós não nos apercebíamos, havia outras pessoas que de certeza controlavam isso. É a parte triste do futebol.

O que fazia nos tempos livres lá?
Era ocupado no meu quarto no centro de estágio, que era muito bom. Portugal tinha estagiado lá na altura do Euro. Havia tudo lá dentro, restaurante, não nos faltava nada. Vivia num quarto minúsculo. Os ucranianos são muito fechados, no refeitório, se for preciso, há 14 mesas e um ucraniano está de um lado o outro no outro, comem rápido e vão-se embora. São pessoas poucos comunicativas até ao momento em que começam a beber. Bebem muito. Tenho uma história a propósito disso com o Nuno Pinto, ainda no Tavriya.

Conte.
Estamos no centro de estágio, antes de um jogo, e às três da manhã começamos a ouvir um barulho no corredor, gente a rir, a bater nas paredes... Era o nosso defesa direito e o extremo direito completamente bêbados. Antes de um jogo. Escusado será dizer que aos 20 minutos os dois jogadores tiveram de ser substituídos, porque já tínhamos sofrido dois golos pelo lado deles. Aquilo era de uma forma que o diretor desportivo acabava o treino e já ia com a mochila para deixar no quarto deles, com cerveja e outras bebidas.

David no Metalist da Ucrânia

David no Metalist da Ucrânia

D.R.

Voltando ao Metalist.
Eu vivia num quarto sozinho e o meu dia era, ia para o treino, almoçava, ia para o quarto, lia, falava com amigos e família... Era uma vida um bocado triste. Dos quatro ou cinco meses em que lá estive recebi dois salários. Eu recebia bastante bem mas cheguei a um ponto em que disse, este dinheiro não vale estar a perder seis meses da minha vida, ficando num quarto, sem fazer nada. Tinha assinado contrato de ano e meio. Acaba a época e eu já não quero ficar ali, estávamos há três meses sem receber. Mas o treinador que vai para lá queria que eu ficasse. Vamos para estágio, para uma cidade que tinha um pequeno aeroporto. Peço-lhes para ir embora, digo que quero ir para Portugal. Eles disseram: "Se quiseres ir embora, o clube para onde fores tem de pagar um milhão de euros, porque o treinador conta contigo". Não há hipótese nenhuma. Não me deixavam sair. Mas eu tinha uma cláusula no meu contrato de um prémio de assinatura de 75 mil euros, que só vim a saber depois.

Explique melhor.
Quando assinei o contrato vejo aquilo, pergunto e eles dizem, não te preocupes que esse dinheiro não é para ti, esse dinheiro é para os diretores. Ou seja, aquele dinheiro ainda não tinha sido pago e por esse facto eles estavam a tentar bloquear-me a saída. Na altura o advogado, Dr. Gonçalo Almeida, foi uma grande ajuda. Eu estava desesperado, em estágio, com o treinador a dizer que me queria e eu a querer ir embora. O Dr. Gonçalo Almeida é que me disse: "David, a única coisa que pode acontecer se tu fores embora, uma vez que estás há três meses sem receber, é metermos a carta e eles ou têm dinheiro e pagam-te, e tu tens de voltar, ou vais ter de pagar uma multa de 25 mil euros, que é o equivalente a um mês de salário teu". Eu tinha mais de 400 mil euros para receber lá. Disse que pagava a multa mas que queria ir embora.

E veio embora?
Eu estava numa cidade tão pequena que aquilo só tinha um voo de dois em dois dias. Era tipo uma avioneta com 10 passageiros. O avião era às seis da manhã. Havia um rapaz que falava inglês e que era dessa mesma cidade, estava lá com o carro. Decido marcar a viagem, entro no quarto dele às onze da noite. "Tens de me fazer um favor. Vais-me levar ao aeroporto às cinco da manhã porque eu tenho de sair daqui"; "Tu és maluco, não posso fazer isso, se me apanham...". Expliquei-lhe que estava a entrar em desespero. Lá fomos para o aeroporto às quatro da manhã. Eu, claro, cheio de medo que alguém fosse ter comigo ou que me fizessem alguma coisa no meio do nada. O avião era horrível, abanava por todo o lado. Nem havia controlo, nem de bagagem nem de nada. Era um descampado, mete as malas ai para dentro e vamos voar. Tinha tudo para correr mal [risos]. E vou para Kiev. Aí começo a receber chamadas deles, a dizer que estou lixado porque se assinar por outro clube eles vão meter um processo e tenho de pagar a cláusula de rescisão que era de um milhão de euros.

Teve de pagar alguma coisa?
Não. Tive azar que o clube acabou entretanto e não tive a sorte de ganhar um processo na FIFA, entraram dois, mas não tive sorte. Na Ucrânia deixei muito dinheiro. No Tavriya foram 300 e tal mil euros e ali foram mais de 450 mil euros.

É muito dinheiro...
Tenho várias histórias com dinheiro. Outra. Na altura em que saio do V. Guimarães e vou para o Metalist, tivemos um jogo com o Shakhtar Donetsk, uma equipa fortíssima, e tínhamos um prémio de jogo de 18 mil dólares para cada jogador titular, se ganhássemos ou empatássemos. Antes do jogo, como a nossa equipa era inferior, nunca pensamos nesse dinheiro a sério, no entanto, aos 20 minutos temos um penálti, fazemos 1-0, a equipa estava bem, até que sofremos um golo de penálti e houve expulsão de um nosso defesa antes da primeira parte acabar. Foi o fim para nós. Eles na 2ª parte fazem o 2-1, têm oportunidade para fazer o 3-1, 4-1, no último lance do jogo fazemos o 2-2 e foi uma alegria enorme. Passados dois dias, o nosso capitão chegou com uma mala cheia de dinheiro e começa a distribuir o dinheiro. Foi o maior prémio que tive. Mas o clube nem nos abriu conta, havia dificuldade em transferir tudo para Portugal e pagavam-nos em dinheiro. Só que no aeroporto não podemos passar com mais de 10 mil euros. Durante dois dias não dormia porque não sabia como fazer para levar o dinheiro para Portugal.

O que fez?
No aeroporto de Kiev havia muitos seguranças que sabiam que os jogadores de futebol recebiam muito dinheiro e paravam-nos. O meu fisioterapeuta tinha-me dado umas dicas de como levar o dinheiro. Por baixo das meias levava uma grande quantidade de dinheiro, dentro dos livros, e de tudo onde era possível. O que me foi aconselhado é que quando chegasse ao pé dos seguranças se me perguntassem se tinha dinheiro eu devia dizer de forma natural que não, que levava algum dinheiro comigo na carteira e mostrava a carteira. Um segurança reconhece-me e automaticamente chama-me para entrar numa sala. A minha sorte é que há um adepto do Metalist que também era segurança e que disse ao outro segurança “não te preocupes porque o Metalist está com muitos problemas de dinheiro e eles não recebem há cinco meses, é público, ele não tem dinheiro”. Consegui passar naquela primeira segurança em Kiev. O problema é que eu tinha uma escala na Suíça. Na Suíça mandam-me tirar os sapatos porque tinha apitado na máquina. Eu a suar por todos os lados, assustado, tentei disfarçar e de forma natural tirar os sapatos. Tinha o dinheiro debaixo nas meias, debaixo dos pés (risos). Não fui apanhado por sorte.

David assinou pelo Ponferradina, de Espanha, em 2015/16

David assinou pelo Ponferradina, de Espanha, em 2015/16

MB Media

Veio para Portugal sem clube?
Sim, nem estava preocupado. Estávamos em finais de julho.

Onde era a sua base em Portugal?
Perto dos meus pais. Tenho casa perto dos meus pais. No entanto não posso dizer que tenho uma base porque já estou há tantos anos fora... Vim do Luxemburgo para Portugal com 12 anos, depois fui para Lisboa e depois andei sempre de um lado para o outro...Por isso não posso dizer que tenho um sitio em que seja o meu sítio onde tenho os meus amigos... Tenho os meus pais, tenho um ou outro amigo mas, na minha casa, dormi lá muito poucas vezes, não a sentia tanto como minha casa. Daí que o sítio onde me sinto bem e querido, onde me sinto mesmo em casa, é a casa dos meus pais.

Veio para Portugal e depois?
A informação que aparece aos clubes é que eu tenho contrato com o Metalist. Os clubes não querem arriscar porque estou num processo de litígio com o clube. Entramos em agosto e começo a ficar um bocado mais preocupado, até que surge uma proposta de Espanha, 2ª Liga, do Ponferradina. Foi a minha sorte, é a cidade onde descubro a minha atual namorada, Teresa, e acaba por ser uma cidade e clube de que gostei muito. Fui bastante feliz.

Entrevistei colegas seus que dizem que os espanhóis são um bocadinho “racistas” com os outros jogadores. Sentiu isso?
Já tive a oportunidade de falar com alguns jogadores que passaram por essa experiência. O que penso é que os espanhóis pelo facto de nunca terem saído muito do seu país não têm essa sensibilidade para receber um estrangeiro. No entanto cheguei a um clube em que o capitão era brasileiro, o Yuri, que ainda lá está, que jogou em Portugal e me ajudou muito. Cheguei a um clube familiar e fui tratado de forma incrível, tanto é que no segundo ano sou eleito pelo grupo como um dos capitães de equipa. A minha experiência a nível de balneário foi muito boa. Se bem que comparado connosco, nós, portugueses, recebemos melhor. Os estrangeiros quando chegam ao balneário são muito bem recebidos em Portugal, são recebidos de forma acolhedora. Em Espanha não te acolhem mal, mas não facilitam.

David Caiado jogou duas épcoas e meia pelo Ponferradina

David Caiado jogou duas épcoas e meia pelo Ponferradina

Juan Manuel Serrano Arce

Como e quando conhece a sua atual namorada?
Conheço-a na minha terceira época em Espanha. Ela tinha uma loja, mas a primeira vez que a vi foi numa piscina, depois mantivemos contacto através de uma irmã dela, até que passados uns tempos estivemos juntos. Eu tinha acabado de me divorciar e surgiu mais ou menos nessa fase, nessa transição, acabamos por nos conhecer e estamos juntos até hoje.

Tenciona ter mais filhos?
Sim. Desde novo sempre tive o desejo de ser pai. Tenho uma pena enorme de neste momento não poder acompanhar diariamente a minha filha. Tenho realmente pena porque gosto de estar presente, de ir levá-la à escola, de ir buscá-la, gosto de toda essa parte. Quero voltar a ser pai, espero que num futuro breve possamos ser pais.

Não tem histórias para contar do Ponferradina?
Tenho uma história com um treinador. O primeiro treinador foi tudo normal, mas a equipa estava a passar por uma fase mais complicada e trocámos de treinador. Há uma transição e acabam por assinar com o Fabri González, que esteve em Portugal, no Campomaiorense. O clube contrata-o porque achava que precisávamos de um general que metesse respeito. Quando no balneário sabem que vai ser ele o treinador dizem: “É a pior pessoa que pode vir para aqui nesta altura”. Nunca imaginei que fosse tão mau, porque era completamente desequilibrado, no sentido psicológico, foi o único treinador que conheci que insultava os jogadores. Desde os dois primeiros treinos que dizia que a equipa era uma merda, que os jogadores eram uma merda. No primeiro jantar com a equipa, o pessoal ria-se porque ele tinha atitudes que não eram normais para um profissional, ele aparece com um fato de treino do Panathinaikos. Nós no jantar nem sabíamos o que pensar, parecia mentira, ele não podia estar bom da cabeça. E o capitão da equipa foi falar com ele, chamou-o à parte: “O mister não pode vir assim com o fato de treino do Panathinaikos”; “Mas porquê, estou mal vestido?!”; “Não é a questão de estar mal vestido mas não pode vir com o fato de treino de outra equipa”. No jantar seguinte, passadas umas duas semanas, já estava vestido de fato e gravata [risos].

Acha que não tinha mesmo noção ou terá feito de propósito?
Não tinha noção, não sei o que é que se passava com ele. Era incrível a forma como insultava os jogadores. Há um jogo com o Leganés, fora de casa, em que ele passa o jogo a insultar os nossos jogadores, “Vocês não valem nada, são uma merda, não jogam nada. Porque é que eu me fui meter aqui”. Até que aos 80 minutos olho para o banco e já não estava ninguém no banco, só estava ele. Só ficou ele, o adjunto que era argentino e não estava mais ninguém. Todos os jogadores tinham saído, fisioterapeuta, tudo tinha saído do banco, já estavam no balneário.

Já ninguém o aguentava.
Claro, estavam fartos dele. O presidente era tão boa pessoa que não se dava conta daquilo. No dia a seguir há reunião no relvado. Ele não estava, os jogadores falámos com o adjunto da casa, não o dele. “Isto não pode continuar assim, com ele vamos descer de divisão de certeza. A equipa está toda rebentada. Nós não somos ninguém para mandar o treinador embora mas vocês falem com o presidente, digam alguma coisa”. O adjunto diz que vai falar com o presidente. Acabou o treino e ele diz: “Vamos ter uma reunião no balneário. Soube aqui de uma informação...” e lá fomos. Ele cheio de estilo chega lá, mete a cadeira no meio do balneário e diz: “Então ouvi dizer que vocês não estão contentes comigo, certo?” Nós não dissemos nada e o capitão é que diz: “Estivemos a falar um bocadinho, há coisas que estão mal...”; e ele “Não, não. Vamos fazer uma votação e vamos ver como é isto. Os jogadores que querem que eu vá embora, levantem o braço”. O balneário todo que levantou o braço, só dois que tinham estado com ele no Granada é que não levantaram o braço. Ele fica a olhar para nós e diz: “Muito bem, mas não são vocês que decidem se eu vou embora ou não, por isso podem ir tomar banho” [risos]. E ficou lá. No dia a seguir foi dar o treino [risos]. Podia pensar, eh pá estes gajos não querem que eu fique aqui, vou-me embora, vou falar com o presidente e dizer que os jogadores não querem. Mas não, ele começou a rir-se a olhar para nós e disse: “Pois é, o problema é que não são vocês que mandam” [risos]. Mas o presidente acabou por saber dessa conversa e mandou-o embora depois.

David Caiado com a atual companheira e a filha Maria Beatriz

David Caiado com a atual companheira e a filha Maria Beatriz

D.R.

É verdade que o Real Oviedo e o Saragoça mostraram interesse em si?
Sim. Eu assinei dois anos de contrato com Ponferradina mas temos o azar de descer de divisão e acabamos por rescindir o contrato porque os contratos eram diferentes tanto na 2ª liga como na 2ª B e o clube não tinha potencial económico para nos pagar. A maioria dos jogadores ficaram livres e eu tive uma abordagem do Oviedo, do Maiorca, e do Saragoça falou-se mas nunca houve nada em concreto. Houve a possibilidade de voltar a Portugal, mas com a minha experiência no V. Guimarães não queria voltar a Portugal. Hoje sinto-me bem mais preparado, mas na altura não quis voltar a Portugal e o Ponferradina ofereceu-me três anos de contrato, com um salário muito bom e um projeto de subir à 2ª Liga. Eu adorava estar ali, gostava muito da cidade, as sensações apesar de termos descido de divisão, eram muito boas, sentia-me querido e acabei por ficar. Foi um erro porque cair na 2ª B que é um campeonato bastante difícil com muita qualidade com 28 anos... Apesar de estar a receber bem, sentia que estava a desvalorizar-me e depois acabou por não correr muito bem. Desses três anos de contrato, estive um ano e meio e acabamos por trocar cinco vezes de treinador. Foi uma fase difícil, mas ficaram coisas boas. Fiquei com bastantes amizades lá. Tal como por todos os sítios onde passei.

Como é que lhe aparece o Gaz Metan, da Roménia?
Através do Rui Gomes, que é o meu agente e meu amigo. Tenho contrato de mais um ano e meio em Espanha, a nível pessoal estou bem, estou a três horas de casa que é algo muito importante, posso passar tempo com os meus pais, com a minha irmã, com os meus sobrinhos, um tinha acabado de nascer e foi difícil mudar. Aliás todas as mudanças são difíceis quando estás num sítio onde te sentes bem. Mas achava que devia mudar para uma 1ª Liga quando estava numa 2ª B. Ia acabar contrato passado ano e meio e depois com 31 anos seria muito mais difícil encontrar clube. Comecei a ponderar, surgiu-me essa proposta e foi uma escolha que se veio a revelar acertada. As coisas começaram a correr bem. A adaptação foi muito boa à Roménia.

Gostou dos romenos?
Tive a sorte de ir para um balneário em que havia vários portugueses. O romeno é uma pessoa que respeita aquilo que fazes dentro de campo. Respeitam-te por aquilo que fazes dentro de campo no fim de semana. Mas são pessoas muito desconfiadas e interesseiras. Estão muito atrasados em termos de educação, o simples atendimento num restaurante é fraco, parece que te estão a fazer um favor, não conseguem ser agradáveis e simpáticos. É muito raro encontrar isso. No entanto, a minha experiência, a nível pessoal, tem sido muito boa, a nível desportivo também. Como a nível de balneário tive sempre a sorte de encontrar bastantes estrangeiros e portugueses, acabamos por controlar mais ou menos as coisas. Agora já tive colegas que estiveram em balneários só com romenos e aí as coisas complicam-se.

A namorada foi consigo?
Sim. Fomos para Medias, uma cidade que não é bonita, mas que deixou boas recordações porque vivi lá com a minha namorada e ela própria começou a mexer-se e a trabalhar lá, trabalha com sobrancelhas, faz micropigmentação e microblading. Acabou por se adaptar bastante bem, apesar de ser uma cidade triste, com muito poucos jovens e muita gente de raça cigana. Estivemos lá um ano e meio, já nos sentíamos um bocado desgastados e daí a minha troca este verão pelo rival, Hermannstadt, que fica em Sibiu, uma cidade muito melhor.

A nível desportivo está a correr bem?
Não está a correr tão bem, mas é uma fase de certeza. Assinei dois anos aqui, gostava de cumprir, mas confesso que está um pouco aquém das expetativas.

David no banco do Ponferradina

David no banco do Ponferradina

D.R.

Já passou por muitos campeonatos. Em Portugal fala-se muito da arbitragem; lá fora é muito diferente?
Antes de mais devo dizer que fico triste quando se fala tanto de arbitragem e não se fala do jogo. Comparado com Espanha, lá tens muito mais programas que falam daquilo que realmente se passa dentro das quatro linhas do que do árbitro. A crítica está muito fácil, criticar um árbitro tornou-se tão fácil em Portugal que se tornou difícil alguém colocar-se na pele deles, empatizar com eles e perceber que é muito difícil ser árbitro. A nível de arbitragens vejo problemas em todo o lado. Aqui também há problemas com os árbitros e as pessoas queixam-se. Só recalcam aquilo que é o erro e falar daquilo que é realmente importante, a estratégia de uma equipa, se o treinador acertou nas substituições ou não, fica em segundo plano. Em Espanha estão muito à frente nesse aspecto. Mesmo os árbitros em si sabem que são um alvo fácil. Tive muitos árbitros em Espanha em que ele dizia: "Vocês podem chamar-me o que vocês quiserem, não há problema, eu entendo que enquanto jogadores vocês possam estar frustrados com uma decisão ou outra, mas vocês tem que entender que eu estou dentro do jogo e estou a ser avaliado também, posso descer ou subir de divisão também, por isso quero dar o melhor de mim. Se eu errar em alguma decisão não é porque goste mais de um do que do outro, é porque vou errar da mesma forma que vocês vão errar um passe. Portanto se eu errar por favor não me levantem os braços porque isto vai passar na televisão e é uma falta de respeito para fora e aí já perco o respeito. Agora se me chamarem nomes, tudo bem". Eles tinham essa conversa antes do jogo e tu aí já ficas à vontade com o árbitro e percebes que tanto ele como tu podem errar no jogo. Nós temos de pensar que os árbitros são avaliados em todos os jogos, são pontuados, também podem descer de divisão.

David joga atualmente no Hermannstadt da Roménia

David joga atualmente no Hermannstadt da Roménia

D.R.

É crente?
A minha mãe é muito crente e por isso eu também ia à igreja. Hoje, e com o passar dos anos, acredito muito mais nas pessoas. Já conheci muitas pessoas que iam à igreja todos os dias praticamente e revelaram-se as piores pessoas e conheci outras que nunca falavam em Deus ou vão à igreja e são muito boas. Por isso acredito nas atitudes das pessoas.

Tem superstições?
Antes de entrar em campo e depois da minha avó falecer, porque foi uma pessoa muito importante na minha vida, muito mesmo, entro em campo e olho para o céu e tenho a sensação sempre que está a olhar por mim, está a proteger-me.

Tem tatuagens?
Tenho. A mais importante foi a que fiz há três anos, do Principezinho, que diz: "O essencial é invisível aos olhos". Tem muito a ver com a minha família.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Não sou de cometer extravagâncias. Acho que a maior foi ter saído do V. Guimarães e ter voltado à Ucrânia, passado seis meses de ter saído de lá com guerra.

Tem algum hóbi?
Gosto e aprendi a gostar de ler. Sobretudo livros relacionados com a parte mental. Dou-me muito bem com o Pedro Vieira, que é coach em Portugal. Comecei a interessar-me pela parte mental, porque enquanto atleta senti-me prejudicado, ou melhor, fui atraiçoado muitas vezes pela minha própria cabeça, então gosto de estudar essa parte.

Há algum outro desporto que costuma seguir?
Não. Nem vejo muito futebol, mas gosto de ver bom futebol. Gosto muito do campeonato espanhol. Para mim é o mais apelativo.

Tem algum clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Gostava de ter jogado no Real Madrid.

David agradece o apoio dos adeptos do Hermannstadt

David agradece o apoio dos adeptos do Hermannstadt

D.R.

Qual a maior frustração na carreira?
A expetativa que havia em relação a mim nas camadas jovens era muito grande e à medida que vais crescendo e vês que não estás a corresponder crias dentro de ti uma ansiedade e acabas por andar sempre a correr atrás. "Tenho de voltar a ser aquele jogador em quem criavam tanta expetativa". Tenho essa frustração por não ter conseguido atingir o nível que as pessoas, neste caso no Sporting, o senhor Aurélio Pereira, depositavam em mim.

Acha que não conseguiu por aspetos técnicos e físicos ou pelo lado psicológico?
Pelo lado psicológico. Em alturas importantes da minha carreira, criticava-me bastante por as coisas não correrem bem e quando as coisas corriam muito bem e todas as pessoas me elogiavam eu não tinha essa noção. Era como se tivesse dentro de mim uma pessoa que estava sempre a criticar-me. Castigava-me muito. E se é bom que tenhas a noção de que podes melhorar numa coisa ou outra, também é bom que quando as coisas correm bem tenhas capacidade de reconhecer que fiz as coisas bem. O que sinto é que se as coisas não correm tão bem, estou a desiludir as pessoas que apostaram em mim e tenho dificuldade em lidar com isso.

E a seleção? Não sente nenhum tipo de frutração por não ter sido chamado à equipa principal?
Fiz dos sub-16 até aos sub-20. Disputei o campeonato da Europa de sub-19, mas naqueles dois anos iniciais de sénior, que são anos cruciais, estive ano e meio parado com lesões, o que acaba sempre por travar um bocado a tua evolução. Mas estou muito contente com a carreira que fiz.

David Caiado numa foto recente

David Caiado numa foto recente

D.R.

Tem alguma meta definida para deixar de jogar?
Gostava de jogar até que o meu corpo permita. Mas acho que ainda faltam alguns anos.

Depois de pendurar as botas o que tenciona fazer?
Quero ficar ligado ao futebol, quer seja na parte diretiva, quer seja como treinador, embora como treinador vai ser complicado, mas na parte diretiva ou como agente de jogadores. Quero e sou bom a transmitir a experiência, só bom a dar conselhos e transmitir experiência aos outros, mas depois eu próprio faço o contrário [risos].

Já tirou algum curso de treinador?
Tirei o primeiro nível em Espanha, falta-me completar as sessões de treino. Quero tirar um curso de gestão desportiva, estou à espera da resposta da Universidade de Coimbra, para começar a fazer à distância, se for possível.

Onde ganhou mais dinheiro?
Na Ucrânia. E foi onde deixei mais dinheiro também.

Investiu em alguma coisa?
Tenho casa perto dos meus pais. Comprei casa em Setúbal para investir e de resto... A minha ex-mulher abriu uma loja de roupa mas as coisas acabaram por não correr bem e gastou-se bastante dinheiro. Tenho noção de que tenho de continuar a trabalhar e quero trabalhar, ser útil.