Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

“Nasci em Paris e jogava num parque onde apareciam skinheads com ratos no ombro e biqueiras de aço. Tinha de os deixar jogar senão...”

Filipe Teixeira jogou até aos 38 anos e está agora a viver a ressaca de quem acabou de pendurar as chuteiras. Quer continuar ligado ao futebol, mas ainda não descobriu como. Por enquanto joga Padel para matar o "bichinho" da competição e vai tomando consciência de que no final do mês já não há dinheiro a entrar na conta. Nasceu em Paris, onde jogou com skinheads com ratos pendurados no ombro, formou-se no Felgueiras, chegou ao seu PSG e esteve quase a jogar em dois dos três grandes portugueses, mas acabou por fazer carreira na Académica, Inglaterra e Roménia, com passagens pela Ucrânia e Dubai

Alexandra Simões de Abreu

RUI DUARTE SILVA

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Nasceu em Paris. É filho de emigrantes. O que faziam os seus pais?
O meu pai era carpinteiro, a mãe fazia limpezas.

Tem irmãos?
Uma irmã mais velha dois anos, que também nasceu lá.

Vivia onde?
Perto do Parque dos Príncipes. Vivi lá até aos 10 anos.

Que memórias de infância ainda guarda?
Éramos praticamente uma comunidade portuguesa, porque tinha lá vários primos. Havia muita família e passávamos muito tempo juntos. Era ir à escola e jogar à bola. Havia um parque muito próximo de onde eu vivia e íamos para lá jogar à bola. Lembro-me que às vezes aparecia um grupinho de skinheads e se eles quisessem jogar, tínhamos de os deixar jogar senão... [risos] Não havia como dizer que não. Alguns deles traziam ratos pendurados nos ombros e jogavam com aquelas botas com biqueira de aço. Jogar com eles era... [risos] Nem nos aproximávamos muito. Mas tenho muito boas recordações da minha infância.

Gostava da escola?
Não era a minha coisa preferida, mas gostava.

Ídolos?
Rui Costa, Zidane, Figo.

Torcia por algum clube?
O meu pai era benfiquista e se dizia que era Benfica, era Benfica. Em França torcia pelo PSG.

Filipe Teixeira em bebé

Filipe Teixeira em bebé

D.R.

Como e quando foi a vinda para Portugal?
Os meus pais assim o decidiram, tinha eu 10 anos e a minha irmã 12. Era uma altura em que ou continuávamos lá mas depois ia ser complicado para os meus pais voltarem para Portugal por causa da nossa escola, ou vínhamos embora. Entretanto o meu pai também tinha um pequeno negócio que não estava a correr muito bem. Foi toda uma conjuntura.

Foram viver para a onde?
Felgueiras. A minha mãe é de Guimarães e o meu pai é de Felgueiras.

Foi um choque para si?
Não, eu fiquei todo contente.

Porquê?
Porque ao viver perto de Paris a liberdade não era muita e eu sempre que vinha a Portugal ficava todo contente porque eram as férias, podia andar de bicicleta à vontade, sair de casa e ir até à minha madrinha ou até aos meus avós, que não era muito longe, pelos campos. Eu fiquei muito contente, a minha irmã não, já tinha algumas amizades lá.

O que dizia que queria ser quando fosse crescido?
Lembro-me que uma vez fui com o meu pai para o seu trabalho, ele também trabalhava aos sábados, e decidi que queria ser carpinteiro. Devia ter uns seis anos, mas depois dizia que queria ser jogador.

Quando é que começa o futebol mais a sério?
Comecei em França, aos seis anos, na ACBB, um clube.

Ficou nesse clube até vir para Portugal?
Sim. Treinávamos à quarta-feira e jogávamos ao sábado. Adorava.

Filipe Teixeira na escola primária

Filipe Teixeira na escola primária

D.R.

A integração na escola em Portugal correu bem?
Claro que não foi fácil, por causa da língua. Vínhamos com aqueles sotaques franceses, os “avecs” [risos]. Não foi fácil ao início. Tive a sorte de ter o meu primo Rui na mesma turma e isso ajudou-me. Viemos de vez para Portugal em dezembro e durante seis meses estive numa escola de aldeia, mas estava um bocadinho atrasado em relação a eles, principalmente em matemática. Mas o meu primo fez o teste por mim [risos]. Lembro-me que não sabia fazer contas de dividir, eles já sabiam, e ele dizia-me a resposta. Copiei e passei [risos].

Como se inicia o futebol em Portugal?
Quando cá chego lembro-me de ir com o meu pai ao Felgueiras, mas não havia escolas. Não havia nada para a minha idade, só a partir dos 12 anos. No início ainda fui treinar algumas vezes com os de 12 e 13 anos, mas era muito pequenino, o treinador até me chamava de ratinho, porque andava ali no meio a correr de um lado para o outro [risos]. Mas não foi por muito tempo, praticamente jogava pela escola. Aos fins de semana havia torneios de futebol. A partir dos 12, 13 anos sim, comecei a jogar no Felgueiras. Foi lá que fui formado, foi lá que assinei o meu primeiro contrato profissional.

Com que idade?
Com 16 anos.

Lembra-se do valor?
Então não lembro, foram 70 contos [350€].

O que fez com esse dinheiro?
Acho que abri uma conta.

Não quis comprar nada?
Devo ter comprado, não me lembro, mas devo ter comprado e devo ter comprado umas coisinhas para a minha mulher, a Carla.

Conheceu a sua mulher cedo.
Aos 16 anos. Na escola, em Felgueiras.

Foi amor à primeira vista?
Até foi, mas não podia ser logo tudo de uma vez não é [risos]. Além de que eu era só futebol, saía da escola e atravessava a estrada para ir jogar. Na escola tinha um intervalo e ia jogar futebol.

FilipeTeixeira com a irmã

FilipeTeixeira com a irmã

D.R.

Lembra-se de algum treinador que o tenha marcado na formação?
O Rui Luís, penso que foi o meu único treinador no Felgueiras. Quando assinei o meu primeiro contrato profissional fiz a pré-época com o Jorge Jesus a treinador.

E que tal?
Um espectáculo. Quando chegava a casa só queria ir para a cama, estava morto [risos]. Quando assinei o contrato profissional fui eu e mais três penso eu e, claro, queríamos mostrar-nos, estávamos cheios de força, e nas corridas íamos mais ou menos a meio do plantel, e ele dizia: “Ó miúdos, vão mas é para trás”. Não queria que estivéssemos à frente, era uma falta de respeito naquela altura. Hoje em dia é o contrário, vão todos à frente e não se pode dizer nada, os mais velhos é que têm de se calar. Antigamente havia muito mais respeito e era normal. Mas pronto, isto para dizer que ia treinar quando era necessário aos seniores, mas jogava pelos juniores. Ainda com 16 anos, o treinador Diamantino Miranda e o Jorge Castelo estavam a começar a nova época, a tentar fazer equipa e lembro-me que fui à Lixa com o meu primo ver um treino deles. Sempre que podia ia ver os treinos. Estava na bancada e não sei o que é que aconteceu, mas houve um jogador que não ia treinar no dia seguinte e ele perguntou ao Rui Luís, o meu treinador, se não tinha um jogador para treinar à tarde porque iam precisar de um jogador para fazer um determinado tipo de exercício. Ele disse-lhe: “Estás a ver aquele ali, é um miúdo jeitoso, se quiseres posso perguntar”. Chamou-me: “Amanhã à tarde podes vir treinar, não tens nada?”; e eu: “Sim, claro”, todo contente, todo nervoso e fiz o treino. Correu-me bem. A seguir ao treino o Jorge Castelo foi ter com o Rui Luís e disse-lhe: “O miúdo não vai mais sair daqui, vai começar a treinar connosco”. E assim foi.

Na 1ª Comunhão

Na 1ª Comunhão

D.R.

Estreia-se como sénior no Felgueiras ainda com 16 anos?
Entretanto fiz os 17 anos em outubro.

Lembra-se do jogo de estreia?
Penso que foi com o Belenenses, não tenho a certeza.

Estava muito nervoso?
Estava, sim.

É supersticioso?
Não tinha assim nada, só muita vontade, muita adrenalina.

Correu bem o jogo?
Entrei, joguei uns 15, 20 minutos e correu-me bem.

Histórias desses tempos no Felgueiras, não tem?
Uma vez, devia ter uns 17 anos, num treino em que recebo uma bola na linha, vem um central, o brasileiro Eliseu, um matador, para aí 1,90 cm, cabelo comprido, era de ter medo... Eu recebo a bola na linha, no lado esquerdo e vem o Eliseu, mas vem com toda a força, e eu faço-lhe uma cueca, e claro os meus colegas de equipa, tudo "ehehehehe" e a aplaudir e eu todo contente, dei uma cueca ao Eliseu. Levanto a cabeça e de repente só sinto as minhas pernas a saltar, ele vem por trás, deu-me um carrinho, fiquei completamente no ar, braços e pernas, caí ao chão, ficou tudo em silêncio. O treino parou, os treinadores não disseram nada, ninguém disse nada. Ele levanta-se e diz: “miúdo, faz mais isso não, senão te arrebento [sic]” [risos]. Quase que me matava mas ninguém disse nada [risos]. E não fiz mais.

Quando é chamado pela primeira vez à seleção?
Quando comecei a jogar com o Diamantino Miranda e o Jorge Castelo. Devo ter sido chamado no início da época. Lembro-me do Agostinho Oliveira ter ido a Felgueiras ver um treino e a partir daí fui sempre chamado. Comecei também a jogar mais regularmente no Felgueiras.

Filipe Teixeira (1º em baixo à esquerda) no ACBB de França onde jogou dos seis aos nove anos

Filipe Teixeira (1º em baixo à esquerda) no ACBB de França onde jogou dos seis aos nove anos

D.R.

Por que razão vai parar a França com 19 anos?
Tinha 18 na altura.

Já tinha empresário?
Já, o senhor Manuel Barbosa, a partir do momento em que começo a treinar no Felgueiras e vou à seleção. Ele já tinha alguns jogadores no Felgueiras, então assinei por ele. Entretanto fui à seleção, tivemos o campeonato da Europa na Suécia, em 1999. Fomos campeões. Correu lindamente e depois surgiu o interesse de clubes, havia olheiros a ver o campeonato da Europa, como é óbvio. Deveria assinar quatro anos com o Marselha. Saiu nas notícias, nos jornais, eu todo contente, uma boa equipa, um bom salário, mas foi uma coisa que nunca aconteceu [risos].

Porquê?
Não sei. Estive em Marselha duas semanas a treinar com a equipa, cheguei a jogar num torneio, foi um Mónaco-Marselha. Na altura estava o Delfim no Marselha, eu e o Agostinho, que também era jogador do falecido Manuel Barbosa. Uma noite estamos com o Manuel Barbosa e ele diz: “Pronto, está tudo resolvido. Acabei de sair do escritório deles, amanhã de manhã vamos lá e assinamos o contrato”. De manhã estamos os dois no escritório, estava também o empresário de um guarda-redes que ia entrar primeiro. Houve confusão, parece que na noite anterior tinham estado a ver os contratos e estava tudo ok, mas de manhã já não havia dinheiro para assinar com os jogadores. Então houve confusão entre o empresário do guarda-redes que já lá estava e o diretor, andaram à porrada. Lembro-me que o Agostinho e o Manuel Barbosa foram lá separá-los. Pronto, já sabíamos que não ia chegar a nossa vez.

Ficou muito desiludido?
Fiquei, mas sempre com a esperança de que, se não vai ser aqui, vai ser noutro sítio. Mesmo depois da reunião ficou sempre em aberto, estava um bocado confuso, mas fomos embora com a esperança de se resolver.

Mas não.
Não. Fui para Madrid com o Manuel Barbosa, estivémos lá dois, três dias para ver o que ia acontecer. Ligaram-lhe do Marselha a dizer: “O pequenino, nós queremos ficar com ele . Mas queremos que ele vá para o Servette de Genebra, que é a equipa satélite. Fica lá seis meses e depois vem para o Marselha”. Vou para Genebra, uma semana de treino e acontece a mesma coisa, exatamente a mesma confusão. Que já não era e tal... E daí fui para casa. Tinha contrato com o Felgueiras na mesma, o Manuel Barbosa tinha comprado o meu passe ao Felgueiras. Voltei, ficámos à espera e quando estão a acabar as inscrições, chamam-me a Braga. Fui com o meu pai e dizem-me: “Temos uma situação que vai ser boa para ti... Eu apesar de ainda ser miúdo percebi que a conversa não estava muito boa. “Vais para o Istres”; “Istres?”, nem sabia que clube era aquele. “Isso é o quê? É da primeira divisão?”; “Não, é da segunda divisão”; “então não vou”. Penso que na altura até chorei e o meu pai é que me convenceu: “Vai, vai correr bem, não te preocupes”. Fui com o objetivo de ficar seis meses.

Filipe com os pais e irmã

Filipe com os pais e irmã

D.R.

Vai sozinho?
Vou.

Como correu?
Não foi fácil. Procurei casa, fiquei a viver no rés do chão de uma vivenda. Por cima vivia uma senhora já com uma certa idade.

Ia comer fora, cozinhava?
Algumas vezes fazia comida, massa e carne, e outras ia comer fora. Agora passar de assinar com o Marselha e acabar no Istres é que foi uma desilusão para mim, mas o tempo em que estive lá correu bem.

Foi bem recebido na equipa?
Fui, e como falava francês, a língua não foi uma dificuldade. Correu bem dentro dos possíveis. Tinha ido para ficar seis meses e em dezembro liguei para o Manuel Barbosa, perguntei-lhe como era: “Ah e tal, se calhar no final da época...”; “No final da época? Mas eu não quero ficar mais aqui. Vou-me embora”; “Não faças isso”. Entretanto tinha-me ligado o Jorge Castelo que estava a treinar o Feirense na 1ª divisão e queria que eu fosse para lá. No último jogo já tinha tudo preparado, tinha o meu carro….

Qual foi o seu primeiro carro?
Foi um SLK preto coupé [risos]. Mas não me estampei [risos]. Eu era responsável. Ainda o comprei cá antes de ir para França.

Estava a contar, no seu último jogo...
O último jogo foi numa sexta-feira à noite e eu tinha pensado ir embora no dia a seguir, mas ninguém sabia que eu ia fazer a viagem. Já estava com tudo no carro. Quando acabou o jogo não consegui esperar pelo dia seguinte, meti-me logo à estrada. Sem dizer nada a ninguém.

Veio sozinho?
Sozinho. Depois do jogo devo ter andado duas, três horas e quando vi que estava cansado parei num hotel, mas não consegui dormir, era só para descansar um pouco. Às sete da manhã fiz-me à estrada outra vez, só parei em Felgueiras.

Quando o viram, qual foi a reação?
Só liguei ao meu pai porque me enganei. Eu ia a andar e só via "Portugal, Portugal", deve ter sido a viagem mais rápida que fiz de França a Portugal [risos]. Chego a Vilar Formoso. O que é isto? Eu queria ter ido por Chaves e liguei ao meu pai que ficou a saber. “Pai, onde é que é Vilar Formoso?”; “É na fronteira, porquê?”; “Porque estou aqui, venho para casa”.

E depois?
Depois tive de voltar, tinha contrato [risos]. Eles não me deixaram sair.

Ficou até final da época?
Sim, tive de ficar, tinha contrato assinado. Tentei resolver esse problema mas eles não quiseram saber. Tive de voltar com o carro [risos].

Filipe (1º jogador em baixo à direita) jogou um torneio em França com 15 anos, pelo Felgueiras, onde foi considerado o melhor jogador

Filipe (1º jogador em baixo à direita) jogou um torneio em França com 15 anos, pelo Felgueiras, onde foi considerado o melhor jogador

D.R.

Como é que surge o PSG?
Pelo que sei, tinham alguém que via os meus jogos. Fiquei muito contente. Assinei por quatro anos. O que devia ter acontecido com o Marselha acabou por acontecer com o PSG.

Volta sozinho para Paris?
Aí já fui com a Carla, que era minha namorada na altura. Ela só foi quando acabou os estudos dela em Lisboa.

Que estudos?
Fez uma licenciatura em dança.

O PSG era outro mundo comparativamente ao que tinha vivido até aí na carreira.
Completamente. Para mim, que era um miúdo, tinha 19 anos, ia fazer 20, cair ali é... Nem estava preparado.

O Hugo Leal estava lá na altura. Já o conhecia?
Na altura acho que não. Ficámos amigos, ele é uma pessoa fantástica. No ano seguinte também veio o Pauleta. Era uma equipa recheada de grandes jogadores.

Adaptou-se bem?
Sim. A nível futebolístico tive de evoluir muito para estar ao nível deles. Era um miúdo que tinha feito formação no Felgueiras, vinha do Istres e apesar de estar na seleção dos sub-18, não tinha nada a ver.

Teve Luís Férnandez como treinador, certo?
Sim. Foi um treinador que me ajudou muito e fez-me evoluir bastante, principalmente no meu primeiro ano. Não joguei muito, mas o que jogava ficava satisfeito, eram oportunidades. Lembro-me que já perto do final da época ele veio dizer-me: “Merecias teres jogado mais, não o fizeste porque a equipa tem muito bons jogadores.” Era complicado.

É por isso que é emprestado à U. Leiria?
O Leiria surge porque o Jorge Mendes, que não era meu empresário, liga-me e diz: “Não fiques aí porque aí não vais jogar, vai ser difícil para ti. Vem para o Leiria”. Recusei, mas depois vi que realmente ia ser difícil ali no Paris. Entretanto houve mudança de treinador, veio Vahid Halilhodzic, vi que não ia ter muitas hipóteses e aceitei depois vir para o Leiria. Foi um ano bom para mim.

Filipe Teixeira com pais e irmã

Filipe Teixeira com pais e irmã

D.R.

Quem estava como treinador na U. Leiria?
O Vítor Pontes, um bom treinador, métodos excelentes.

Sentiu que desceu um degrau ao vir do PSG para a U. Leiria?
Não, o importante para mim era jogar. Sabia que lá iria ser complicado, iria fazer grande parte dos jogos na equipa B. Com o novo treinador também percebi que, ao contrário do Luís Férnandez, não estava a contar comigo. Foi bom porque nunca tinha jogado na 1ª divisão portuguesa.

Foi o ano do Euro 2004. Tinha esperança de ser convocado?
Não, naquela altura era muito complicado ir à seleção. Ou jogavas nos grandes, mais o Boavista, ou era praticamente impossível. Mas correu bem no Leiria, o único azar é que naquela altura só davam três, quatro jogos na televisão, o Benfica, o Porto, o Sporting e o Boavista, e eu apanhei esses jogos todos seguidos no Leiria, mas não joguei.

Porquê?
Certamente porque eu não pertencia ao Leiria e o objetivo deles era vender jogadores. Então aqueles jogos que tinham mais impacto, em que queriam que as pessoas vissem os jogadores, eu não jogava. Joguei os jogos todos, mas quando chegava a esses...

Nunca questionou o treinador?
Claro que sim. Perguntei-lhe: “O que é que se passa? Aconteceu alguma coisa? Há alguma coisa que eu tenha de fazer para melhorar?”. Não havia explicação. Depois dessa série de jogos contra os grandes, comecei a jogar outra vez e comecei a perceber. Nunca ficamos muito contentes quando não jogamos, mas comecei a entender e foi engraçado porque acaba a época, eu tinha de regressar ao PSG e eles vieram falar comigo. Queriam ficar comigo, e nessa altura disse-lhes: “Continuar aqui, que lógica é que tem? Porquê? Então nesses jogos eu não joguei, nem sou titular aqui na equipa. Uns jogos jogo, outros não”.

Filipe Teixeira fez parte da seleção de sub-18 campeã europeia em 1999

Filipe Teixeira fez parte da seleção de sub-18 campeã europeia em 1999

D.R.

Quando regressa a Paris, já apanha o Pauleta e o Hélder Cristóvão na equipa.
Exactamente, o Hélder é espetacular, aprendi muito com ele também. A maneira de ser, de estar, a experiência dele, lembro-me que via-o nos jogos e achava estranho um central usar pitons de borracha, sempre. E não escorregava uma vez. A chover torrencialmente no Parque dos Príncipes e todos com pitons de alumínio e ele podia ter lama, chuva, neve, e era sempre de borracha, e sempre com um nível fantástico.

Entretanto casa.
Sim, a Carla foi comigo para Paris. Já tinha quem me faça o comer. Foi por isso que casei com ela, já estava farto de fazer massa e carne [risos]. Estou a brincar. O meu terceiro ano foi giro. A minha passagem pelo Paris também ficou marcada pelo contrato que eu tinha na altura.

Em que aspecto?
Em França 50% são impostos e o empresário fez um contrato em que alguns dos pagamentos passavam por uma offshore noutro país. No meu terceiro ou quarto ano em Paris acho que já era o terceiro presidente que lá passava em pouco tempo e isso começou a causar problemas. O clube foi auditado, levaram tudo e havia vários contratos com problemas, o meu era um desses. Percebi que da parte deles havia interesse que eu fosse embora. Mas isso foi mais no 4º ano. No 3º ano o Vahid Halilhodzic no início da época disse-me que não contava comigo. Eu pensei, vou trabalhar. Tinha esperança que ele mudasse de ideias. Mas não foi fácil. E comecei a ter problemas com casas, eles estavam a tentar de tudo para que eu me fosse embora. Criaram vários problemas, com a casa, o carro… Houve ali um tempo um bocado cansativo, tentaram fazer com que eu perdesse a cabeça e fosse embora. Felizmente surge a Académica.

Como é que surge a Académica?
A Académica surge no início do meu último ano, através do meu empresário. Era o Nelo Vingada o treinador. No início da época o Paris vem falar comigo desta vez muito claramente diz: “O teu contrato está a criar problemas, se puderes resolve a tua vida”. Chegámos a um acordo, rescindo com eles e fui para a Académica.

Foi viver para Coimbra?
Fui. Boa cidade, gente boa, dei-me muito bem. O treinador contava comigo que era aquilo que eu mais queria, um treinador que apostasse em mim. Adorei o Nelo Vingada tanto como treinador, como pessoa. No futebol existem poucas assim.

Filipe Teixeira no dia da entrevista, no Porto

Filipe Teixeira no dia da entrevista, no Porto

RUI DUARTE SILVA

Entretanto tem uma lesão séria.
É verdade. Foi a minha grande lesão. Fratura do perónio e rotura dos ligamentos. Faltavam quatro jogos para acabar a minha primeira época em Coimbra, e já tinha praticamente acordado com um clube dos grandes, aqui de Portugal.

Com o Benfica, na altura falou-se disso.
Sim, era o Benfica. Eu só queria acabar a época sem me magoar e que a Académica não baixasse. Mas num jogo em Vila do Conde vou receber uma bola a meio-campo, vêm por trás e... Percebi logo que era grave e não deixava que me mexessem no pé. Os próprios jogadores no campo disseram que se ouviu um “claque”. Levaram-me de ambulância, o meu pai foi comigo, estava muito preocupado.

Foi por isso que o negócio com o Benfica foi por água abaixo?
Foi. Disseram ao meu empresário que era melhor ver como é que eu ficava, como é que reagia e depois em janeiro logo se via. E assim foi. Treinei na época seguinte com o Manuel Machado, também correu bem. No início com ele foi complicado porque eu vinha da lesão e se calhar pensava que já estava no meu melhor e não estava, ele quis mostrar ao grupo quem mandava... Mas depois tive um ano fantástico com ele e dei-me bem.

Como é que vai para a Inglaterra?
Eu não estava para ir para Inglaterra. Entretanto em maio de 2007, nasce em Coimbra, o Tiago, o meu filho mais velho. Nasceu no meu primeiro dia de férias.

E sobre a ida para Inglaterra?
Antes de acabar a época, quando o Anderson do Porto é vendido ao Manchester United, nesse mesmo dia o meu empresário está reunido no Porto.

Ainda era o Manuel Barbosa?
Não, era o Nuno Amado. Liga-me a dizer que estava reunido com eles, que havia a possibilidade de um contrato de quatro anos com o FCP. Eu “Fantástico”, e ele “Sim, mas não podemos dizer nada”. Entretanto, eu tinha um ferro no perónio que tinha de ser retirado. As pessoas na Académica queriam marcar data para o tirar mas eu achava que era melhor esperar um bocado porque pensava que no final da época ia ser apresentado no FCP e ser apresentado com muletas... Enfim, uma confusão. Só pedi à Académica para marcar a operação para me retirar o ferro depois do Porto me dar autorização. Ainda não tinha contrato com o Porto mas disseram: “Vai lá fazer isso para começares a época”. Eu falei com a Académica, sempre foram fantásticos, e dois dias depois estava a retirar o ferro. Vou para casa descansado, a pensar que vou para o Porto. só que o tempo foi passando e o contrato nada. Ou seja, foi tudo muito bonito mas de boca só. O tempo começa a passar, falo com o Nuno e comecei a ver a coisa mal parada. Iam começar as pré-épocas, falava-se na altura que o treinador do Porto, o Jesualdo Ferreira, um dos treinadores que tive nos sub-21, tinha interesse, que havia o interesse, mas acabou por não se concretizar.

Porquê, sabe?
Aconteceram várias coisas, não podem ser ditas aqui. Várias coisas. Costumo dizer que o futebol é uma mentira, há muitas coisas por trás que fazem com que as coisas aconteçam ou não, por interesses. Interesses de dinheiro, principalmente. Começo a pré-época na Académica, sempre à espera. Entretanto liga-me o Jorge Mendes diz-me para ir ao Porto, encontro-me com ele e daí veio a proposta do West Bromwich, que na altura recusei por ser da 2ª divisão. Eles deviam achar que eu estava maluco, não tinha a noção do que é que era a Championship em Inglaterra. Mas eles insistiram e acabei por assinar. Eles pagaram perto de um milhão de euros à Académica e fui para Inglaterra.

Vai com a mulher e filho?
Sim.

Filipe Teixeira e alguns colegas da seleção de sub-18 que venceu o Europeu de 1999

Filipe Teixeira e alguns colegas da seleção de sub-18 que venceu o Europeu de 1999

D.R.

Era o que estava à espera?
Era. Nós temos um bom nível de adaptação, já tínhamos estado em França. O mais difícil foi a língua. Estava um bocado apreensivo e tinha recusado a primeira vez porque o futebol inglês parecia-me aquele futebol muito físico, principalmente na 2ª divisão, bola no ar... Achava que não me iria favorecer muito. Mas adorei. O meu primeiro jogo da época, ainda me lembro, no aquecimento o estádio não estava cheio, longe disso, vamos para dentro para nos equiparmos e quando voltamos ainda no túnel começo a ver os balões no ar e a ouvir uma barulheira, uma coisa incrível. “Que é isto?” Estava o Tininho , outro português que tinha assinado comigo, e quando entramos no campo o estádio está completamente cheio. Uma barulheira…

Gostou dos ingleses de uma maneira geral?
O inglês tem um estilo de vida o oposto ao nosso. Vai de manhã para o trabalho, comem as chips deles, depois do trabalho gostam de ir para os bares e por volta das sete horas já está tudo fechado em casa e o comércio fechado.

Na época seguinte sobe à Premier League. Muito diferente?
Não tem nada a ver. Quer dizer, ambas são muito competitivas. Mas havia ali muita diferença, via-se que as equipas eram mais fortes e praticavam outro futebol.

Chegou a jogar contra o Cristiano Ronaldo?
Cheguei. Não cheguei a estar em campo com ele, porque no final da minha 1ª época, que estava a correr lindamente, fiz rotura de ligamento dos cruzados do joelho esquerdo. Mais uma vez quando estava a correr bem... Segunda lesão grave. Subimos de divisão, e tive mais dificuldades para voltar. Ainda por cima eles em Inglaterra são muito cuidadosos e dizem logo, demora seis meses, mas precisas de nove até um ano para ficares mesmo bom.

Filipe (à direita) num jogo amigável pela seleção de sub-21

Filipe (à direita) num jogo amigável pela seleção de sub-21

John Walton - EMPICS

Na época seguinte ainda começa no West Bromwich mas depois é emprestado ao Barnsley. Porquê?
Porque queria jogar e tinha um treinador que não me achava muita piada. Tive algumas situações, fui falar com ele, e vi que não valia a pena insistir.

Não lhe achava piada porquê? Era rebelde?
Não, não era rebelde. Mas quando faço um jogo muito bom, em que sou praticamente considerado man of the match e no jogo seguinte vou para o banco e não entro... Começas a ver que há ali qaulquer coisa...Até os meus próprios colegas de equipa.

E percebeu porquê?
Não. O treinador era o Roberto Di Matteo. Fui falar com ele. Pedi-lhe para me explicar o que era preciso fazer. Sendo que nunca fui género de jogador de ir para cima do treinador. Ia falar com ele, mas sempre com cuidados.

Regra geral acha os treinadores não gostam de ser abordados pelos jogadores que não põem a jogar?
Depende, há uns que aceitam, há outros que vão fazer de conta que aceitam e não aceitam, penso que era o caso do Di Matteo. Porque à segunda vez que fui falar com ele, ele não teve resposta. Disse só que são opções. E estava em final de contrato, queria jogar. O Barnsley demonstrou interesse. Acredito que entre clubes devem ter falado e fui para o Barnsley.

Teve de mudar de cidade?
Sim, fomos viver para um hotel perto de Leeds. Mais para o norte, mais frio. O tempo é horrível. Mas guardámos o apartamento em Birmingham e sempre que podíamos íamos para lá.

A sua ideia era continuar a jogar em Inglaterra?
Sim, Inglaterra ou noutro sítio qualquer.

Filipe Teixeira foi para o Paris Saint-Germain em 2002/03

Filipe Teixeira foi para o Paris Saint-Germain em 2002/03

Stephane Reix

Foi parar ao Metalurh Donetsk da Ucrânia como?
Em Inglaterra eles fazem as coisas muito tarde, ou seja, quando aqui acaba a época e já estão a refazer os plantéis, em Inglaterra não, eles são muito tranquilos, deixam andar, têm tempo. Preferem resolver primeiro os jogadores que tenham pendentes para sair e só depois... Eu sabia que iria ter possibilidades em Inglaterra, seja na Premier ou na Championship ou até mais abaixo, iria ter, só que... Para nós jogadores, quanto mais rápido tivermos as coisas resolvidas, melhor. Foi um bocado o que aconteceu comigo. Tinha de esperar em Inglaterra, entretanto surgiu uma proposta para a Ucrânia, que era uma boa proposta financeiramente, tendo em conta que Inglaterra os impostos tinham subido de 40 para 55%, a libra tinha descido... E pronto.

Não hesitou.
Pois, mas antes tivesse hesitado. Lembro-me que estávamos no Algarve a passar férias e o empresário foi ter comigo para arrancarmos no dia seguinte. De madrugada fui ter com ele e disse que não ia, que não dava porque a minha esposa não queria ir. Ela nunca se meteu, disse sempre, onde fores eu vou e vai correr tudo bem. Mas naquele momento ela abriu a torneira, começou a chorar, a chorar, a chorar. Eu disse-lhe, diz-me que não queres ir e não vamos. Mas ela não queria dizer [risos]. Ela estava grávida, ia ficar sozinha no Algarve com o nosso filho de três anos, com uma gravidez de risco... Mas passada uma semana acabámos por aceitar. Fui ter diretamente com eles à Áustria. Mas correu tudo mal, em todos os aspetos.

Como assim?
A pré-época correu bem, treinador porreiro. Começou a época, fiz um jogo que até correu bem e depois disso praticamente não tive mais oportunidades para jogar. Achei aquilo muito estranho. Mais tarde vim a saber que o treinador recebia dinheiro de alguns jogadores, para jogarem. Eu não sabia disso. Fiquei também quatro a cinco meses sem receber. Eles quiseram-me tanto, fizeram um esforço financeiro... Fiquei sem perceber.

Filipe (2º em baixo à esquerda) na 2ª época ao serviço do PSG

Filipe (2º em baixo à esquerda) na 2ª época ao serviço do PSG

D.R.

Mas chegaram a viver na Ucrânia?
Sim. Quando saí da Áustria, no último dia o treinador chama-me e diz-me que venho de uma realidade diferente e que agora íamos para a Ucrânia, para Donetsk, que tinha de me mentalizar.

O que é que o impressionou?
Logo à chegada ao aeroporto vem um trator trazer-te as malas. Estás na pista e esperas por um trator com um atrelado que traz as malas. As casas são velhas, por dentro estavam impecáveis, as que fui ver, mas é tudo muito velho. É um choque muito grande, as pessoas muito frias, não dizem bom dia, a língua muito diferente... Tinham acabado de fazer um shopping, mas de resto era tudo antigo, os carros... Quem vem de uma realidade como a inglesa... Em alguns dos prédios ainda se via os buracos dos tiros. Lembro-me que um dia tinha estacionado o carro em frente ao centro de estágio, mas como não estava muito bem estacionado pediram-me para tirar o carro. Lá fui e estavam três carros à espera para estacionar. Tiro o carro, saio do carro e vou para entrar outra vez no centro de estágio quando estacionam os tais três carros. Do primeiro e último saem guarda-costas com armas da mão, a olhar para todo o lado, e do carro do meio sai um senhor. Fiquei impressionado com aquele aparato, foi a primeira vez que vi tanta arma. Depois fiquei a saber que era o dono do clube.

Também não correu bem desportivamente, pois não?
Não, porque não joguei. Agora se fui eu que não estive tão bem... Depois soube daquilo do pagamento dos jogadores, mas não sei se é verdade ou não. Sei que foi muito estranho, porque em qualquer situação dá-se oportunidade ao jogador para poder mostrar-se e adaptar-se e depois se realmente não está bem em três, quatro ou cinco jogos, aí sim, vai para o banco. No meu caso foi logo ao fim de um jogo. E mandaram-me para a equipa B. Fiquei sem receber.

Chegaram a pagar-lhe tudo?
Sim.

Filipe (à direita) jogou duas épocas pela Academica, de 2005 a 2007

Filipe (à direita) jogou duas épocas pela Academica, de 2005 a 2007

CityFiles

Entretanto é emprestado ao Brasov da Roménia.
Em janeiro eles mandam-me fazer a pré-época com a equipa B. Estavam a fazer tudo para eu rescindir contrato e ir embora. Começo a tentar chegar a acordo com a Académica, por empréstimo. E não aconteceu por horas. Não conseguiram fazer a inscrição a tempo. Saiu nos jornais. O António Conceição, que estava no Brasov, viu a notícia e como era dos poucos países onde ainda havia possibilidade de inscrever jogadores, ligou-me. Perguntou-me se eu queria ir. Eu queria era sair do Metalist. No início não aceitaram, disseram que se eu fosse eles teriam de me pagar o ordenado, o que era impossível. Estivemos à espera outra vez até quase à última e tive de abdicar de algum dinheiro para poder jogar. E fui emprestado.

Que tal o impacto na Roménia?
O impacto foi na Ucrânia, porque quando vens da Ucrânia e vais para a Roménia, para mim foi fantástico. Achei um país parecido com Portugal. Qualquer pessoa num café, num restaurante, fala duas línguas, é mais europeu, não é como em Donetsk em que ias a um café falavas em inglês e eles riam-se, tinhas de falar russo senão não te safavas. Na Roménia, assim que cheguei ao aeroporto estava o treinador à minha espera e outras pessoas do clube. Fui para uma cidade bonita, Brasov, com alguns turistas , pessoas simpáticas, comida boa, fala-se francês, inglês... A única coisa boa que trouxe da Ucrânia foi o meu segundo filho, porque a minha mulher, que tinha abortado entretanto, engravidou lá.

Assistiu ao parto do segundo filho?
Não. A minha mulher tinha-me dito para pôr o telemóvel em silêncio e para descansar. E foi nessa noite que o Lucas decidiu nascer. Ela ainda ligou umas oito vezes, mas como estava a dormir e com o telemóvel em silêncio... Às oito da manhã liguei-lhe a dizer que estava a caminho. Só que não há voos diretos, tinha de fazer escalas. Basicamente fui o último a conhecer o meu filho porque só cheguei à noite. Mas quando ele nasceu eu já estava no Rapid.

Depois da Academica Filipe Teixeira foi para o West Bromwich de Inglaterra

Depois da Academica Filipe Teixeira foi para o West Bromwich de Inglaterra

Stephen Pond - EMPICS

Como se dá a passagem do Brasov para o Rapid de Bucareste?
Brasov foi bom, porque joguei, a minha equipa tinha muitos estrangeiros, vários portugueses, o treinador era português também, por isso foi fácil para mim. Depois houve o interesse do Rapid, que me viu jogar no Brasov. E aí já não hesitei muito porque o Rapid era um grande da Roménia, o pouco tempo que estive lá deu para perceber isso. Tinha de chegar a acordo como Metalurh da Ucrânia o que não foi fácil, mas chegou-se a acordo. E fiquei nove anos na Roménia.

Mas pelo meio ainda esteve na Arábia Saudita. Recapitulando, esteve uma época e meia no Rapid…
...O clube entrou em insolvência, antes disso, há uma tentativa do Steaua de me comprar ao Rapid. Os donos dos clubes tinham chegado a acordo entre eles, não se sabia quais eram os valores, e eu recusei.

Porquê?
Para já não gostei como eles tentaram fazer o negócio em si. Já se falava nas notícias e a mim ninguém me falou. Até comentei com o meu empresário, Marcelo Cipriano "Vais ver que estes tipos vão esperar o último dia de inscrições para fazer isto". E assim foi. De manhã estou no shopping a tomar o pequeno almoço e toca o telefone. Era o dono do meu clube. Quiseram que fosse ter com eles, recusei, disse que falassem com o meu empresário, eu estou para jogar e o empresário está para negociar. Não chegámos a acordo. Eu pedi uma quantia, eles não quiserem pagar esse montante. Ficaram chateados. Passado dois meses surge a notícia de insolvência e aparece-me possibilidade de ir para o Dubai, não hesitei.

Uma realidade diferente.
Completamente. A nível profissional, sinceramente, é amador. Financeiramente é muito bom. Não foi o melhor contrato que tive, mas era um clube que tinha acabado de subir à 1ª divisão e queria manter-se lá. Havia quatro estrangeiros, mas não era um clube que pagasse muito dinheiro.

A mulher e filhos também foram?
Sim, ficámos a viver num aparthotel durante seis meses. Adorei a experiência. Só não gostei do facto de ficar o dia todo à espera para treinar. Durante o dia havia muito calor, de vez em quando ia a praia. A adaptação não foi muito fácil, não foi onde senti que estava no meu melhor. Estar o dia todo à espera para treinar acaba por criar um certo desconforto, parece que fico molengão. Depois há calor também à noite. Eu não sabia mas a maior parte dos jogadores da equipa ou eram do exército ou eram polícias. Trabalhavam até à uma, depois tinham de fazer a sesta e à noite é que treinavam, ou seja, para eles era um passatempo. Foi um choque porque as muito boas equipas têm os melhores jogadores, as outras não, há um desequilíbrio muito grande. Se fosse tão bom o parking dos carros como no campo, era o Real Madrid [risos].

Que carro tinha lá?
Eles deram-me um Jeep grande, com motor 4000... A gasolina é mais barata que água... Mas nem sei qual era a marca.

Na época 2009/10 Filipe (à direita) jogou pela equipa inglesa do Barnsley

Na época 2009/10 Filipe (à direita) jogou pela equipa inglesa do Barnsley

PA Images

Como vai parar outra vez à Roménia, mas desta vez ao FC Petrolul Ploiesti?
Como joguei sempre bem lá tinha mercado. Não ficando nos Emirados, porque não houve continuação...

Porquê?
Eles não mostraram interesse.

Tinha vontade de ficar?
Se calhar tinha ficado. Acho que tinha ficado, não sei. Os objectivos foram cumpridos, a manutenção, e já iam fazer uma equipa melhor no ano seguinte. Na altura quando acabámos a época foi-me dito que era para continuar. Mas não foi. E pronto, surgiu o Petrolul, tinha dois amigos que já lá estavam, um deles era o Geraldo Alves, o treinador era um romeno mas que estava a viver em Espanha, que é agora o treinador da seleção romena. Fizeram-me uma proposta de dois anos e aceitei. O clube fica numa cidade a 40 minutos de Bucareste.

Gostou dessa experiência também?
Foi muito boa. Por onde eu passei na Roménia foi sempre bom, porque desportivamente correu bem, salvo alguns problemas de insolvência em que perdemos dinheiro, no Rapid, para me deixarem sair, depois acontece também com o Petrolul. Tínhamos uma equipa muito boa, adeptos fantásticos, o estádio era novo e, bom, foi um clube onde quando cheguei disse "posso facilmente acabar aqui".

Curiosamente é nos últimos anos que joga mais e faz mais golos. Sendo que jogou até aos 38 anos. Sente que atingiu o auge tarde?
Talvez.

Filipe (com a bola) jogou pelo Rapid de Bucarest em 2011/12

Filipe (com a bola) jogou pelo Rapid de Bucarest em 2011/12

Josef Bollwein

Depois vai para o Astra Giurgiu, também da Roménia.
Astra é uma cidade que também fica a uma hora de Bucareste. Nós ficámos sempre a viver em Bucareste. Ia e vinha todos os dias. Correu bem. O Petrolul entrou em insolvência e fui mandado embora, eu e o Geraldo. Porque na insolvência eles têm um determinado número de dias para rescindir contrato com quem acham que devem rescindir para atingir aquele determinado orçamento. Fizeram isso comigo e com o Geraldo porque talvez fôssemos os jogadores mais bem pagos. Isto 10 dias antes de acabar o prazo que era de quatro meses. Ou seja, eles aproveitaram, nós jogámos e deve ter sido das minhas melhores épocas de sempre em termos de golos.

E no Astra?
Um clube que anda sempre lá em cima, o clube onde houve mais dificuldades a nível financeiro, mas fomos campeões. Eles sempre souberam fazer as coisas. Diziam-nos "não há dinheiro, vão ficar dois ou três meses sem receber, mas têm aqui um papel que vos dá a segurança de que assim que o dinheiro da televisão entrar, vocês recebem tudo". Eram honestos e nós "Ok vamos aguentar isto que vamos receber". O dinheiro nem entrava no clube, entrava na federação e da federação diretamente nas nossas contas. Foi um ano com muitas dificuldades. Lembro-me que fomos fazer a pré-época em janeiro e quando voltámos não tínhamos luz, água. Tínhamos de ir treinar a outro campo. Isto durante mês e meio e nós em 1º lugar a lutar para ser campeões.

Acaba por ir para o FCSB...
Que é o Steaua. É como se fosse o Belenenses aqui de Portugal. Eles tiveram um problema e ainda têm, está há muitos anos em tribunal, e o dono do clube perdeu o direito de utilizar o nome Steaua. Continua a ser o Steaua mas chama-se FCSB. Ou seja, foi-lhe retirado a patente Steaua, o símbolo teve de ser mudado porque pertence ao exército. Ou seja, há outra equipa que é o Steaua, que começou de novo na 4ª divisão e está agora na 3ª divisão. O FCSB continua na divisão principal, jogámos a Liga Europa.

Como foi lá parar?
Como fui parar aos outros, um bom desempenho no clubes e aos 36 anos, quando assino pelo Steaua, a equipa já me queria quando eu estava no Rapid. Assino por uma época, eles depois querem renovar.

No dia da entrevista, no Porto

No dia da entrevista, no Porto

RUI DUARTE SILVA

Entretanto, no final da época passada aparentemente termina a carreira. É o Filipe que decide deixar de jogar ou não há renovação nem clubes interessados?
É toda uma conjuntura. A família, as crianças precisam de estabilidade, estão com 12 e oito anos, já estamos há muito tempo fora...

Eles andaram em escolas internacionais?
No ano passado andaram a fazer ensino doméstico, era a minha esposa que lhes dava aulas, o que é complicado e não dava para ser um segundo ano assim. Por isso, este ano, a família falou mais alto porque eu poderia continuar a jogar na Roménia, tinha interesse de vários clubes, o mercado que tenho lá dava para jogar mais dois ou três anos, estando bem. A partir dos 35 anos foi um bocado assim, é só mais um ano, depois a época corria bem, fisicamente sentia-me muito bem e era mais um.

Então a paragem deve-se sobretudo a questões familiares.
Sim. Também não continuar no Steaua pesou. A verdade é que não me enquadro na politica do dono do clube, quer vender, e eu entendo perfeitamente. Vim para cá um bocado para ficar à espera daquilo que já sabia que ia acontecer, que é parar. Tinha pensado em talvez voltar a jogar em Portugal, mas com a minha idade não é fácil. Mas ao mesmo tempo também acho que preferia parar.

Estão a viver onde?
Em Felgueiras. Os miúdos estão lá inscritos. O Tiago teve de fazer exames a nível nacional do 5º e 6º ano e passou. A verdade é que não estávamos à espera que ele passasse por estudar em casa. O outro tem oito anos, a escola ainda não é tão exigente.

Filipe Teixeira também representou o FC Petrolul Poliesti da Roménia

Filipe Teixeira também representou o FC Petrolul Poliesti da Roménia

EuroFootball

Como é voltar a viver em Portugal ao fim de 12 anos fora? Também houve um choque?
Para já está a ser bom. É um bocado novidade. É como se estivesse de férias [risos]. Vamos fazer coisas que não tivemos oportunidade durante estes anos. Na Roménia eu tinha férias em dezembro, duas três semanas, e depois tinha duas semanas em finais de maio, início de junho. Não nos permitia muita coisa, porque os miúdos tinham escola. Eu já não vou a um casamento há uns 15 anos e fui a um no início de setembro, de um primo, conheci primos que não conhecia pessoalmente.

Tem muita coisa para pôr em dia...
A começar pelas ideias. Tenho noção de que não vai ser fácil.

Não tinha pensado ainda no que fazer depois de deixar de jogar?
Tinha pensado mas é sempre uma coisa que vamos adiando.

O que tinha pensado?
Várias coisas. Treinador, se fosse há uns anos atrás dizia logo que não e agora já fico na dúvida.

Já tem algum nível do curso feito?
Não e vou precisar de uns oito anos da maneira que isto está, fizeram disso um negócio bom para eles, para quem ganha com isso.

Mas está a pensar tirar o curso?
Talvez. Se o fizer não é com o intuito de dizer que vou ser treinador, não, sou jogador. Vou tirar porque tenho tempo, e é uma maneira de ocupar o meu tempo e ir fazendo alguma coisa.

Deixou os estudos quando?
Quando vou para o estrangeiro. Estava no 12º ano, deixei três disciplinas para trás.

Ainda está a tentar descobrir o que vai fazer da vida daqui para a frente.
Quero continuar ligado ao futebol, disso não tenho dúvidas, como diretor, agente ou treinador, não sei. Ainda estou a digerir isto e acho que ainda não passei pelo pior momento, acho que ainda não estou muito convencido.

Filipe (à direita) num jogo da Taça UEFA ,pelo Astra Giurgiu da Roménia

Filipe (à direita) num jogo da Taça UEFA ,pelo Astra Giurgiu da Roménia

DANIEL MIHAILESCU

Acha que vai voltar a jogar?
Acho que não, sinceramente. O facto de ter parado... Não estou a ver daqui as uns meses recomeçar, isso faz-me confusão. Perde-se o ritmo. E depois, continuar onde? Jogar aonde? Teria que ser aqui para estar com a família.

Não está disposto a ir para o Campeonato de Portugal...
Mais vale parar.

Onde ganhou mais dinheiro?
Em Inglaterra.

Onde investiu?
Imobiliário sobretudo. Tive um negócio de decoração de interiores em Guimarães e depois em Felgueiras, mas não correu bem e fechámos passados cinco ou seis anos.

Perdeu muito dinheiro?
Algum.

Mas continua numa situação financeira confortável?
Penso que sim. Mas nunca sabemos o dia de amanhã. Até agora fomos vivendo de uma forma em que vais gastando mas vai entrando salário. Neste momento já estamos a cair um bocado na realidade e a perceber que se calhar não podemos ter a mesma vida que tivemos até agora.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Não me lembro. Tenho juízo com carros. Acho que o melhor que tive foi um Range Rover, mas nunca comprei carros novos. Coisas de perder a cabeça é sapatos e relógios. Digamos que é onde gastei mais dinheiro.

Disse que não tinha superstições, mas foi criando algumas ao longo dos anos?
Sim, antes dos jogos. São coisas simples de comida, acordar e comer praticamente a mesma coisa. Sempre tive muito cuidado com a alimentação. Antes do jogo é só massa. Por exemplo, pelos clubes onde passei, principalmente na Roménia, três horas antes dos jogos praticamente ninguém pedia massa. Se o jogo era às oito da noite, almoçávamos as duas e depois punham umas bolachas ou assim mas eu sempre pedi esparguete. E era o que eu comia. Depois do jogo também tinha de ter as minhas coisas prontinhas, sumos para recuperação, etc. Sou preocupado com a alimentação porque ao fim e ao cabo acaba por te ajudar fisicamente. E é importante conhecer o corpo, se tens problemas de costas tens de saber fortalecer aquela zona, ter cuidado com o corpo no ginásio, etc.

Além da alcunha do ratinho teve ou tem mais alguma?
Nos juniores era "França". Ainda hoje alguns me chamam "França".

Filipe com a mulher e filhos

Filipe com a mulher e filhos

D.R.

Nunca foi convocado para a seleção A. Essa é a sua maior frustração no futebol?
Não. Não é frustração nenhuma. Se houve uma altura em que pudesse ter sido chamado era quando estava na Académica. Ainda se chegou a sondar e acho que ainda cheguei a entrar numa pré-convocatória.

Qual foi a sua maior tristeza no futebol?
Tristeza são as lesões em alturas que me daria possibilidade ir mais acima.

De que forma é que os filhos o mudaram?
Antigamente antes dos jogos eu ficava em silêncio, muito concentrado, não falava com ninguém umas horas antes do jogo. A partir do momento em que eles nasceram, as coisas começaram a mudar. Cada vez que chegava ao estádio ligava à minha esposa, ultimamente fazia uma foto dos meninos e da minha mulher antes do jogo. Antes quando entrava no estádio não procurava ninguém na bancada e nestes últimos anos antes do jogo eu tinha de ver os meus filhos na bancada. Depois já não olhava mais, mas tinha de saber onde estavam. Era uma motivação extra.

Algum deles tem talento para o futebol?
O meu baixinho, que é o mais novo [risos]. O mais velho não gosta de futebol, nem tem muita apetência para o desporto. O outro gosta de futebol e o ano passado tive a possibilidade de o levar para os treinos comigo todos os dias.

Há algum outro desporto além do futebol que goste de seguir?
O ténis. Eu jogava nas férias. Agora desde que acabei de jogar futebol tenho-me dedicado um bocado ao padel. É viciante. Costumo jogar com um primo e com amigos. Eles sabem que para já estou livre e ligam-me. Tem sido o que me tem ajudado a colmatar a falta do futebol, tanto a nível físico como de competição.

É crente?
Sim. Já fui mais de ir à igreja. Tive uma altura em que sempre que vinha a Portugal nas férias ia a Fátima. Mas há um momento que me marcou, na passagem do escudo para o euro. Sempre que ia acendia uma velinha para o meu pai, a minha mãe, para a família toda. E uma vez em que lá fui as velas já se vendiam em euros. Vi o preço das velas e pensei "isto é um negócio". Que dizer, uma pessoa vai lá e sente-se bem, eu sentia que até saia de lá, sei lá, mais... Gostava de pôr as velas, mas... Porque é que é tão caro? Isto é um negócio. Desde aí nunca mais fiz questão de pôr as velas. Ver aquilo como um negócio matou-me esse desejo. E agora faz-me confusão em qualquer missa, batizado, virem pedir.

Tem tatuagens?
Não. Nem vou fazer. Não gosto muito de seguir o que toda a gente faz. O Cristiano Ronaldo disse uma vez uma coisa engraçada: "Já viu alguma vez um autocolante num Ferrari?" [risos]. Não foi por isso, foi porque se fizesse uma, ia fazer mais. Por isso preferi não fazer nenhuma.

Filipe aqui em representação do Steaua Bucuresti e Adrien Silva (à direita) num jogo da Liga Europa, em 2017

Filipe aqui em representação do Steaua Bucuresti e Adrien Silva (à direita) num jogo da Liga Europa, em 2017

Brazil Photo Press

Histórias da Roménia, deve ter algumas.
Uma vez, estava no Petrolul e tínhamos de estar às seis e meia num hotel onde tomávamos todos juntos o pequeno-almoço para sairmos às dez. Faltava um jogador, cujo nome não vou dizer. Tomámos o pequeno almoço, estávamos na conversa, vem o treinador e pergunta: “Estão todos? Podemos ir?”. E eu: “Não, não estamos todos”. Saio, ligo para ele, mas ele não atende. Ninguém tinha estado com ele na noite anterior, mas pensámos que se calhar devia ter ficado a beber e estava em casa a dormir. O treinador veio e disse: “Vamos embora.” E eu: “Não, dá-me vinte minutos”. Perguntei ao diretor se estava com carro e pedi-lhe para ir comigo à casa dele. Fui eu, o diretor e mais dois jogadores. Quando chegamos a casa dele, ele vivia naqueles prédios em que ou sabes o código ou alguém tem de abrir de dentro. Por acaso estava lá uma velhota a passear o cão que nos abriu a porta. Subimos ao andar dele. Batemos na porta dele e nada. “O homem não está aqui, vamos embora”. Enquanto chamávamos o elevador ouvimos a chave e ele abre a porta, de calções, todo f*dido. “Que é que foi?" "O que é que foi!? Anda lá c*ralho, temos de ir, está tudo à tua espera”. Ele vestiu-se, vinha a sair de chinelos: “As tuas sapatilhas?” Lá as foi buscar [risos]. Voltámos, entrámos no autocarro, ele nem comeu nem nada. Entra no autocarro mete uma coisa no chão do autocarro e dormiu o tempo todo. No dia seguinte tínhamos jogo para a Taça, ele no campo, estava lá, mas não estava [risos].

O treinador não disse nada?
O treinador só me dizia: “Fala com ele, fala com ele, a gente precisa dele”; “Já falei mas o gajo está apático. Se tiveres de o tirar tira-o que ele assim nem para atacar nem para defender” [risos]. No final, ele não tinha feito nada durante o jogo, e num livre marca o golo, ganhámos 1-0 [risos].

O Filipe era de noitadas?
Não. Comecei a sair mais em Inglaterra, onde eles tinham muito o hábito depois dos jogos de ir beber uma cerveja.

Nunca teve problemas por causa das saídas?
Na Roménia tive, mas porque é um país de fofocas. Uma vez saímos à noite, fomos a uma discoteca, tínhamos folga, só que uns estavam bêbados e eles seguiram-nos de táxi até entrarmos em casa. Nunca tive problemas, mas tive amigos que tiveram. Eles respeitavam-me. Uma vez estava a fazer um test drive de um carro em Bucareste. Eu saio do restaurante, vou para o carro, vou levantar dinheiro, e a história deles no dia seguinte é: “Filipe Teixeira, com um carro de 128 mil euros foi ao multibanco e 'arrebentou' com o multibanco”. Eu estava a fazer um teste drive a um Audi Q8, mas eles estão sempre há procura de coisinhas. Se me vissem à mesa com uma mulher, iriam dizer que estava com outra mulher ao lado, gostam muito de criar problemas. Mas sempre tive sorte. Tinha de estar às onze horas em casa e se calhar às vezes à meia-noite e meia ainda estava a conversar com os amigos, ms nunca tive problemas.

Filipe com a mulher e filhos no estádio do FCSB na Roménia

Filipe com a mulher e filhos no estádio do FCSB na Roménia

D.R.

Qual foi a maior amizade que fez no futebol?
O Geraldo.

Melhor e pior treinador que teve?
Melhor tenho que dizer vários, o pior não vou dizer porque fica mal. O melhor... São tantos. O Nelo Vingada marcou-me, a dupla Diamantino Miranda e Jorge Castelo também.

Ficou com algum hábito de Inglaterra ou da Roménia, por exemplo?
Na Roménia tinha o hábito de beber café latte ou cappuccino, mas aqui em Portugal se pedir uma meia de leite ao almoço é meio chunga [risos]. Lá tinha esse hábito de beber café com leite ao almoço. As comidas bio também fiquei com esse hábito de lá.

Não tem mais nenhuma história que possa partilhar?
Sou péssimo, não tenho memória nenhuma para essas coisas... assim, de repente, lembro-me uma vez no PSG, num treino, o brasileiro Reinaldo como não sabia francês pediu ao Pauleta para lhe dizer o que fazer e quando é que tinha de cruzar a bola. O Pauleta foi ter com ele e disse-lhe baixinho, o treinador disse para chutares à baliza. O Reinaldo chuta à baliza, o treinador dá um grito e pergunta: “Então o que é isto?”. Olho para o Pauleta e está no cantinho dele a rir.