Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

“O prof. Alexandrino, o firme e hirto do Herman SIC, pôs as mãos nos nossos pés descalços e disse: ‘vou dar-vos técnica’. Só rir”

Carlos Fangueiro cresceu no bairro dos pescadores de Matosinhos, iniciou carreira no clueb do coração, o Leixões e saltou para as páginas das revistas quando foi pai de quadrigémeos. Esteve seis anos no V. Guimarães, mas pelo meio foi emprestado ao Maia e Gil Vicente. Depois de uma época na U. Leiria rumou a Inglaterra e depois para a Grécia, onde foi despejado de casa e chegou a comer só cereais por não ter dinheiro para mais. Passou pelo Vizela e Beira Mar, mas só conseguiu ser campeão no Vietname. Regressou ao seu Leixões onde praticamente arrumou as botas. Há oito anos a viver no Luxemburgo onde atualmente é o treinador da equipa líder da 1ª divisão, chegou a acartar sacos de 50kgs e foi camionista para garantir um futuro melhor para os filhos. Adora cinema, chegou a pintar quadros e segundo diz, tinha jeito. Porque no domingo há Luxemburgo - Portugal

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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Cresceu onde?
Nasci e cresci em Matosinhos, mais concretamente no Bairro dos Pescadores.

Apresente-nos a família.
A minha mãe trabalhou numa fábrica de iogurtes da Longa Vida, não muito tempo. Teve de parar devido a problemas físicos, na coluna. O meu pai estava seis meses fora – andava na pesca de alto mar nos navios de grande porte – e três meses em casa. Tenho uma irmã mais nova cinco anos e um irmão ainda mais novo oito anos.

Como é que foi crescer com o pai um bocadinho ausente?
Sempre tive um bom acompanhamento por parte da família. Nessa altura, vivia com a minha mãe, com os meus avós; tinha tios, primos tudo a viver praticamente junto e os que não viviam, estavam por perto. Obviamente que a presença do pai é muito importante, mas eu aproveitava o tempo perdido com o meu pai, quando ele passava os três meses em casa.

A bola começa na rua.
Sim, no Bairro dos Pescadores com os colegas. Tinha um gosto muito grande. Era a minha grande paixão. Aliás, o meu pai quando chegava do estrangeiro trazia-me sempre algumas prendas relativas aos futebol (equipamentos, chuteiras ou bolas) e isso fazia crescer ainda mais a minha paixão.

Torcia por algum clube?
Quando era pequenino, e ainda hoje obviamente, torcia pelo Leixões, o clube da terra. Sou sócio desde os seis anos. Foi o meu primeiro clube de paixão e continua a ser, mas depois de passar sete anos em Guimarães, a paixão pelo Vitória chegou e cresceu. Neste momento são estes os dois clubes que me fazem vibrar.

Nunca teve simpatia por nenhum dos clubes grandes?
Muito sinceramente, não. Acompanhava, logicamente. O meu pai é sportinguista, por isso gostava que o Sporting ganhasse porque gostava de ver o meu pai feliz. A minha mãe era mais ligada ao Benfica e também gostava que o Benfica ganhasse para a ver mais feliz. Era essa proximidade. Agora rir e chorar era com o Leixões – e mais tarde com o V. de Guimarães.

E ídolos?
O Paulo Futre. Adorava vê-lo a jogar.

Carlos Fangueiro em bebé ao lado da mãe

Carlos Fangueiro em bebé ao lado da mãe

D.R.

Da escola gostava ou nem por isso?
Tinha momentos. Tinha momentos em que gostava, outros nem por isso, mas aproveitava muito a escola e sobretudo os intervalos grandes para dar seguimento à minha paixão pelo futebol. Eu era completamente maluco por futebol. Via os jogos na televisão, a forma como os jogadores festejavam os golos e fazia exactamente a mesma coisa quando marcava um golo nos tempos livres da escola, era uma maluqueira.

Nunca quis ser outra coisa que não jogador de futebol?
Não. Lembro-me perfeitamente de, na escola primária, a professora perguntar a todos os alunos o que é que nós queríamos ser quando fossemos grandes, e eu respondi com toda a certeza que queria ser jogador de futebol. Felizmente, consegui. Há muita gente que não consegue ser aquilo com que sonhou; eu consegui.

Quando é que o futebol saí dos recreios e da rua, para um clube?
Tinha acabado de fazer nove anos e tinha um colega que jogava nos infantis do Leixões. Na altura não havia escolinhas, eram os infantis a partir dos oito, nove anos. Esse meu colega levou-me para ver um treino dele. Eu estava a ver, e o falecido e grandioso Óscar Marques do Leixões viu-me lá e como precisava de mais um menino para fazer um jogo – eu estava de calções e de sapatos (risos) –, não tinha possibilidade de ter umas chuteiras, convidou-me. Aceitei logo. A partir daí comecei a jogar no Leixões.

Tenho a informação de que começou como guarda redes no clube Atlético de Matosinhos. Não foi assim?
Isso também é verdade, mas isso não era oficialmente, eram aqueles torneios que se faziam com as equipas da zona e ia como guarda-redes. Tinha muito jeito para a baliza, só que era muito pequenino. E como também tinha jeito para jogar na frente, optei por jogar na frente. Mas sim, comecei a jogar na baliza.

Nos recreios e na rua jogava à baliza?
Não, aí jogava à frente, sempre a avançado.

Fangueiro com os pais

Fangueiro com os pais

D.R.

Também sei que mentiu num treino de captação. Disse que era defesa esquerdo. É verdade?
Exatamente, está bem informada (risos). Houve aquela primeira situação como Óscar Marques, mas naquela altura não fiquei imediatamente lá. Entretanto, um dia, houve umas captações, eu já lá estava, e foi quando começou a chegar muita gente ao clube. Como eu não tinha muita confiança em mim, perguntei onde é que eles estavam a precisar mais de jogadores. E esse meu colega que já lá estava há mais tempo, disse que só tinham um defesa-esquerdo e que precisam de outro. Então, na altura em que me questionaram, eu disse que era defesa-esquerdo. Até não jogava muito com o pé esquerdo, mas como sabia que precisam...(risos). E, aí sim, depois desse treino de captação assinei e fiz o meu trajeto de formação no Leixões.

Diz que assinou, mas com nove anos não ganhava dinheiro pois não?
Não. Fiz o meu primeiro contrato com o Leixões aos 15 anos, mas contrato profissional foi só aos 16. No primeiro contrato ganhava o equivalente a 100 euros.

Recorda-se do que fez a esse dinheiro?
Entreguei-o em casa aos meus pais. Sabia que o meu pai fazia sacrifícios, estava fora, a minha mãe não trabalhava porque não podia, e o pouco que fosse ia ajudar em casa. Não só nesse ano, nos outros também.

Não havia nada que quisesse muito comprar?
Queria uma daquelas aceleras, uma Vespa. Isso consegui no ano a seguir, quando assinei o meu primeiro contrato profissional. Eles ofereceram-me uma acelera como prémio de assinatura (risos). Já sabiam que eu queria muito.

Hoje, quando fala desse tempo, do Leixões e do tempo de formação, o que lhe vem logo à cabeça?
A qualidade que existia. Era uma escola de futebol muito boa, julgo que continua a ser. Na altura éramos muito conhecidos por isso, existam os “Bebés do Mar”. Tínhamos duas ou três equipas por cada escalão, conseguia-se organizar muito com poucos meios. Não havia muitos campos para treinar, às vezes éramos obrigados a treinar em 50 metros quadrados, na pista que envolve o campo principal e que era em areia. A organização que havia com tão poucos campos para trabalhar era o que mais sobressaia.

Fangueiro com o seu cão Ringo

Fangueiro com o seu cão Ringo

D.R.

É verdade que era um bocado rebelde nas camadas jovens?
Era, muito. Mas não era no sentido de ser mau menino, era rebelde no meu tipo de jogo, era agressivo. Não estando no futebol, era introvertido, mas no futebol soltava-me até demais. Quando lutava por aquilo que queria, dava tudo e por vezes acabava por ser agressivo demais e acabei um bocadinho prejudicado por isso.

Houve algum episódio mais marcante?
Tive chatices com colegas. A dada altura, virei-me para um jogador que competia muito comigo e que tinha um feitio parecido com o meu e disse-lhe: “a ti não te passo a bola no treino”. Isto com 15, 16 anos. O treinador parou logo o treino e, muito bem, repreendeu-me e castigou-me. Depois, caí em mim e pensei, realmente não posso ter estas atitudes.

Castigou-o como?
Mandou-me para casa dois dias e foi a pior coisa que me podia fazer (risos). É que eu, mesmo doente, ia aos treinos. Até aí nunca tinha falhado um treino. O pior castigo da minha vida foi esse.

Como é que se dá a passagem para o Vitória de Guimarães aos 19 anos? Tinha empresário?
Eu sabia que já me andavam a seguir há já alguns anos, mas nunca se tinha proporcionado a saída. Já tinha empresário, era o António Teixeira. Num jogo da 2.ª B, em Esposende, ganhámos 2-0, fui eu que marquei os dois golos, uma exibição muito boa. No final do jogo, soube que estava lá um olheiro do Vitória. Depois, contactaram o meu agente; o Teixeira tratou de tudo. Agradeço aos dirigentes e ao presidente do Leixões, o Américo Jorge, porque ele também facilitou um bocadinho a minha saída, sabia que era um salto grande para mim, pois o Vitória já naquela altura lutava pelos lugares europeus. Ele via que eu tinha potencialidade para fazer carreira a um nível mais alto, então negociou e bem. Eu tinha mais um ano de contrato com o Leixões e disse na altura que, se não houvesse acordo com o Leixões, não sairia, porque era o meu clube do coração. Mas como havia salários em atraso, aproveitou-se o facto do Vitória de Guimarães ter pago uma quantia que deu para me pagar também naquela altura.

Carlos Fangueiro

Carlos Fangueiro

D.R.

Antes de continuarmos com a carreira, quando é que começam os namoros e as saídas à noite?
Eu não era muito de saídas à noite, mas começaram com 17, 18 anos com um ou outro colega de equipa, sempre depois dos jogos. Os namoros começaram mais cedo, muito mais cedo (risos). A sério, a sério com 16 anos, mas antes disso já ia namorando. Com 16 conheci a minha atual esposa, Sónia Dias. Fizemos todo o trajeto junto e continuamos juntos.

Conheceu-a onde?
Num aniversário de um amigo comum onde havia aqueles jogos, o bate-pé, e calhou um beijo com a Sónia. A partir daí tivemos uma aproximação maior, começámos a sair juntos, a fazer praia juntos e a relação ficou mais forte.

Estudou até onde?
Até ao 10.º ano. Já estava difícil continuar porque tinha treinos de manhã e à tarde quase todos os dias. À noite, por vezes, ainda fazia com os juniores e quando dei comigo a dormir numa aula de manhã, disse que não conseguia aguentar, que ia largar os estudos e seguir o futebol. Mas foi o maior erro da minha vida porque, mais tarde, começámos a refletir e se calhar poderia e seria interessante ter continuado com as duas coisas.

Voltando a Guimarães, como foi o impacto ao chegar ao Vitória?
Nunca fui de grandes expectativas, de pensar como é que vai ser. Sou mais de viver o momento. Quando, no dia da apresentação, cheguei e vi uma multidão a cantar as canções do clube e a sermos todos os jogadores, de A a Z, do mais velho ao mais novo, aplaudidos de pé e da mesma forma, aquilo marcou logo à partida.

O primeiro cartão do Leixões que Fangueiro guarda religiosamente

O primeiro cartão do Leixões que Fangueiro guarda religiosamente

D.R.

Saiu do casa dos pais para viver sozinho em Guimarães. Como foi sair do ninho?
Não foi tão difícil quanto isso porque desde os 15, 16 anos já tinha um trajeto de muitas saídas para as equipas nacionais de Portugal, saídas mesmo para o estrangeiro, uma das quais para a Venezuela durante um mês o que me deu uma preparação para esse primeiro ano no Guimarães. Fazia tudo sozinho: limpeza de casa, passar a roupa a ferro, fazer a comida. Lembro-me de uma vez querer fazer esparguete com tomate e ligar à minha mãe. Recordo-me de estar ao telefone com ela e ela a explicar-me como é que fazia. São coisas que nos dão bagagem para o futuro. Mas uma vez por semana ia a casa.

Como correu a primeira época no Vitória de Guimarães?
Foi espectacular. O treinador na altura era o Jaime Pacheco. Tínhamos uma equipa muito forte, terminámos em 3.º lugar. O Jaime era adepto de jogadores que trabalhavam imenso, eu sempre fui assim, a minha carreira sempre foi marcada por muito empenho, muita raça, muito querer e dar tudo pelos clubes que representei. Fui feliz e ainda hoje vou a Guimarães e sou saudado pelas pessoas que me cumprimentam com um sorriso nos lábios. Houve anos positivos e negativos, sobretudo em termos colectivos, mas, mesmo nos anos menos bons, eu sempre dei tudo e por isso as pessoas ainda me respeitam apesar de já terem passado 15 anos. O Jaime acabou por ficar comigo nesse ano, com uma equipa cheia de nomes e fez-me jogar 19 vezes o que foi fantástico.

Nessa equipa estava alguém que também admirava, o Vítor Paneira, certo?
Sim, admirava-o muito, um grande jogador do Benfica, com um potencial enorme, com uma carreira já marcante, e o facto de estar com ele, de diariamente treinar com ele, fazer passes e receber a bola dele, foi espectacular e aprendi muito com ele.

Foi alvo de alguma praxe, de alguma brincadeira no balneário?
Por acaso, não. Nessa altura não havia muito esse hábito nas equipas. Hoje, sim, há muitas brincadeiras, mas naquele tempo não.

Fangueiro (3ª em baixo à esquerda), capitão de equipa nos infantis

Fangueiro (3ª em baixo à esquerda), capitão de equipa nos infantis

D.R.

O Jaime Pacheco já dava aquelas “tareias” de treino físico pelas quais ficou conhecido?
Já dava, sim. Mas eram treinos com qualidade. Eram treinos com muita vertente física, mas com as doses bem efectuadas, bem elaboradas, nunca entrávamos no exagero e acho que o objectivo que nós tínhamos para esse ano, que era ir à Liga Europa, foi conseguido por isso também – por estarmos bem fisicamente.

Entretanto na época seguinte é emprestado ao Maia.
Exato. Vou explicar. Nesse mesmo ano com o Jaime Pacheco, e porque as gentes do Vitória são muito exigentes, estávamos bem classificados mas, à 6.ª ou 7.ª jornada, o Jaime acabou por sair, porque a qualidade do futebol não estava a ser bem demonstrada, sendo que nós tínhamos um tipo de futebol muito directo. O Jaime saiu e veio o Quinito com uma metodologia de trabalho diferente, com uma gestão diferente, mas que deu seguimento ao bom trabalho que estava a ser feito. Não senti uma grande diferença.

Mas o Quinito é muito diferente do Jaime Pacheco, até na forma de relacionamento, ou não?
Sim, mas eram ambos muito próximos dos jogadores. A diferença era mais na ideia de jogo: o Jaime privilegiava mais o jogo directo, ganhar a segunda bola e estar perto da baliza adversária; o Quinito era um jogo mais trabalhado, muito mais em posse. Adaptei-me às duas formas de jogar, não tive problemas com isso. No segundo ano, como estava a dizer, veio o Zoran Filipovic, que não me conhecia, fiz a pré-época lá e depois acabou por me dispensar e emprestar.

Foi uma grande desilusão?
Foi, fundamentalmente porque no primeiro ano tinha feito 19 jogos. Um miúdo com 19 anos, que vem do Leixões, que na altura estava no equivalente à 3.ª divisão, chega ali e logo no primeiro ano, numa equipa recheada de excelentes jogadores, joga, marca e dá a marcar durante 19 jogos e depois é emprestado...Foi uma chapada que levei. Mas, pronto, aquilo não me abateu, deu-me força para continuar a trabalhar. Fui emprestado ao Maia, que estava na 2.ª divisão, com muitos jogadores emprestados do V. de Guimarães e do Boavista. Formámos uma equipa com grandes valores individuais, mas coletivamente aquilo não serviu, foi um ano muito decepcionante.

Fangueiro ficou em 1º lugar num corta-mato escolar

Fangueiro ficou em 1º lugar num corta-mato escolar

D.R.

Depois desse ano vai para o Gil Vicente.
O mister Álvaro Magalhães tinha acabado de subir o Gil Vicente, que eu tinha defrontado na 2.ª Liga, e nos dois jogos tinha estado bem. Ele falou com o Vitória de Guimarães para me contratar. Eu acedi e foi a melhor coisa que podia ter feito. Acabei por ser chamado novamente às equipas nacionais de Portugal. Havia a equipa B, que na altura tinha Ricardo Carvalho, Maniche, Simão Sabrosa, Nuno Gomes, Ricardo na baliza, Quim, grandes nomes. Fui chamado para o Torneio Vale do Tejo e um torneio em Itália.

Deu-se bem com o Álvaro Magalhães?
Muito bem. É uma pessoa que também privilegia a qualidade de jogo, mas sobretudo os jogadores que dão tudo pelo clube e pela equipa. Como eu era assim, adaptei-me perfeitamente na forma de jogar na equipa.

Quando regressa ao Vitória, vindo do Gil Vicente, quem é que apanha como treinador?
O Paulo Autuori. Fantástico, uma metodologia de treino fantástica, mas as contratações não foram as mais indicadas e sofremos um bocadinho. Agora, estou-me a lembrar bem que tivemos três treinadores nesse ano e isso já é a imagem de uma época menos positiva.

O Inácio é o último.
Sim. Ele acabou essa época, salvámo-nos de descer de divisão e no ano seguinte construiu uma equipa que voltou a mostrar um futebol super agradável e fomos inclusivamente apelidados como a equipa que melhor futebol apresentava e acabamos em 3º ou 4º lugar.

Entretanto, casa.
Casei-me sim, em junho de 2001.

É quando regressa também a Guimarães. Nessa altura já está a viver com a sua mulher?
Não logo no primeiro ano. Comprámos um apartamento em Matosinhos e passava mais ou menos metade da semana em Guimarães e a outra metade em Matosinhos porque ela também tinha o trabalho dela.

O que ela fazia profissionalmente?
Trabalhava como secretária num instituto de línguas e optámos por não a fazer sair logo. Mais tarde, sim, porque sentíamos falta de levar aquela vida em conjunto.

Fangueiro recebe prémio de melhor jogador do Torneio Oscar Marques

Fangueiro recebe prémio de melhor jogador do Torneio Oscar Marques

D.R.

É pai em 2003. Quando lhe deram a notícia de que ia ser pai de quadrigémeos qual foi a primeira coisa em que pensou?
Vou-lhe contar um episódio que é estranho, mas que aconteceu. Eu sempre que pude acompanhei a minha esposa aos exames e testes que tinha de fazer. E, logo no primeiro, constatámos a possibilidade de sermos pais de gémeos: viam-se bem duas bolinhas na primeira ecografia. A médica perguntou se gostaríamos que fossem gémeos, sempre dissemos que sim, até porque havia historial de gémeos do meu lado e do lado da minha esposa. Mas a médica avisou-nos para ficarmos calmos porque era muito cedo e poderia acontecer que uma daquelas bolinhas que estava ali naquele momento pudesse desaparecer, era perfeitamente normal. Na véspera da segunda ecografia, eu vi que a minha esposa estava um bocadinho triste. Já a conhecia muito bem, perguntei-lhe o que tinha, e ela respondeu-me: “Sabes, ficou-me aquela conversa da médica na cabeça. Nós queremos muito ser pais de gémeos, mas se calhar um vai desaparecer”. Eu, num jeito de brincadeira, até para a fazer sorrir, disse-lhe: “Ah, deixa estar que amanhã vais ter uma surpresa muito grande. Estavam duas bolinhas não estavam? Deixa lá que amanhã vais ter quatro, vai ser o dobro”. Ela começou a rir e eu também.

Que pontaria.
No dia seguinte, foi fazer o exame com a minha sogra, porque eu tinha treino bidiário, era uma quarta-feira, e não pude acompanhá-la. À hora de almoço, quando estava a sair do treino, ela liga-me toda sorridente e eu: “Então sempre se confirmou que vamos ter gémeos?”. “Vamos, vamos. Tu é que vais ter uma surpresa muito grande”. “Então, o que é que se passa?”. “Lembras-te daquelas duas cabeças que lá estavam?”. “Perfeitamente”. “Pois tinhas razão ontem. São quatro” (risos). Eu não quis acreditar, pensei que ela estava a brincar comigo. “Vá lá amor, diz a sério, como é que isso está?”. “Carlos, vou-te mostrar, tenho aqui tudo comigo, logo à noite quando chegares a casa vais ver, são quatro. Eu não sei como é que vamos fazer”. Eu quando constatei que era verdade o que ela estava a dizer... A partir desse momento eu queria falar, queria dizer qualquer coisa e não conseguia, gaguejava e estive ali uns onze, doze segundos, sem exagero, a querer dizer alguma coisa e não saía nada (risos). Isto é verídico. Mas foi uma alegria enorme, logicamente que foi.

Fangueiro com 15 anos

Fangueiro com 15 anos

D.R.

Depois desse momento de alegria não veio um momento de preocupação, do género: o que é que vou fazer à minha vida?
Veio. E é natural porque era uma transformação radical na nossa vida. Não tínhamos experiência de ser pais e quatro de uma vez... Logo à partida foi uma grande preocupação relativa à gravidez. A minha esposa quase não saía de casa, era uma gravidez de alto risco, e nisso ela foi uma campeã, fez exactamente o que os médicos pediram, sem tirar, nem pôr. Sofreu um bocadinho com isso, mas correu bem. E, depois, o facto de ter de mudar de casa, mudar de carro. Como éramos inexperientes, ter de ter alguém a tempo inteiro para nos ajudar… .

Quando disseram à família houve alguma reação mais engraçada de que se lembre?
Lembro-me das caras de surpresa e o facto de ver que as pessoas não sabiam o que dizer. Felizes, toda a gente ficou contente, óbvio, mas não sabiam como agir, o que falar e nós também sentíamos isso. Depois, descontraímos e levámos aquilo como sendo algo muito positivo e bom.

Assistiu ao nascimento dos quatro filhos?
Eu queria assistir, mas não me deixaram. Era um parto de alto risco. Eles nasceram no Hospital de São João e na altura não havia incubadoras para os quatro, conseguiram arranjar à última hora duas que vieram de Coimbra. Não sabiam muito bem como é que se ia passar, por isso não me deixaram assistir mas estava impaciente cá fora.

Já sabia qual o sexo de todos?
Sabia que havia duas meninas e um rapaz. Da terceira menina não sabíamos. O facto de ter vindo um rapaz lá no meio já me deixou muito feliz.

Era uma coisa que queria, ter um rapaz?
Queria. Nunca tive grande preferência, desde que fossem sãos, mas, como é lógico, um menino no meio das meninas é uma felicidade também.

Como se chamam?
Diogo, Sofia, Cátia e Raquel.

Qual foi a sensação quando os viu pela primeira vez?
Lágrima no olho, uma alegria tremenda. A primeira vez que os vi foi quando saíram da sala de partos nas incubadoras. Foi um momento único, sendo que não consegui logo passar muito tempo com eles, porque saíram a correr com eles para o elevador para irem para a neonatologia. Mas o facto de os ver ali, são meus, chegaram (risos), foi uma sensação de felicidade tremenda.

Ganhou uma alcunha à conta disso no balneário do Guimarães não foi?
O Super Pai (risos). Super Pai e Super Mãe porque havia um ambiente formidável e o núcleo duro do Vitória fazia muitos jantares com as mulheres e com as namoradas dos jogadores.

Quem é que fazia parte desse núcleo duro?
Eu, o Bessinha, o Nuno Assis, o Romeu, o Rui Ferreira, o Abel, o Rogério Matias, o Pedro Mendes, o Mário Couto que é agora director desportivo do Moreirense também.

Fangueiro (3º à esquerda) com 16 anos, ao lado de Eusébio

Fangueiro (3º à esquerda) com 16 anos, ao lado de Eusébio

D.R.

Depois da era Inácio no Guimarães, a sua última época no Vitória de Guimarães é com o Jorge Jesus. Como foi essa experiência?
Foi um ano mais difícil, com uma equipa com bons valores individuais em que andámos a lutar praticamente até ao fim pela manutenção. Quando chegou o Jorge Jesus para substituir o Inácio, o Jorge ainda não tinha o nome que tem hoje, mas acho que aquele ano também fez com que ficasse mais forte e lhe desse bagagem para o futuro, porque foi um ano difícil e o Jorge conseguiu meter a mão naquilo e liváamo-nos da descida.

Hoje quando vê o Jorge Jesus, quando o ouve falar corresponde à imagem que tem dele?
Corresponde. A primeira coisa que devo dizer é que constatei é que o Jorge tem aquela imagem de todo poderoso cá para fora, mas no vestiário com os jogadores é fantástico. É próximo, faz-nos rir, passámos bons e excelentes momentos com ele. Depois tem uma cultura tática fantástica. O trabalho tático que ele faz... o empenho, as horas que ele perde a preparar a equipa sobretudo com o conhecimento que ele tinha do adversário... Fez um trabalho fantástico. Eu sabia e nós víamos e falávamos entre nós, que mais cedo ou mais tarde ele ia dar um salto, ia explodir com tudo. E, de facto, aconteceu.

Mas há jogadores que confessam que ele intimida um bocadinho pela forma como às vezes fala, sobretudo aos mais jovens e nos treinos...
...Sim, mas sabendo com que intenção aceitávamos naturalmente e seguíamos o trabalho. Pelo menos nesses cinco, seis, meses em que estivemos juntos foi assim.

Equipa de juvenis do Leixões Sport Clube da qual fez parte Fangueiro

Equipa de juvenis do Leixões Sport Clube da qual fez parte Fangueiro

D.R.

Que outras recordações guarda dos seis anos em Guimarães?
Dos bons momentos, em que arrastávamos multidões, casa sempre lotada, fora sempre lotado ou praticamente lotado, com a imensidão de pessoas que nos acompanhava para todo o lado. Era uma coisa que nunca tinha vivido enquanto profissional de futebol, com essa grandeza. E também me lembro dos anos menos positivos em que tivemos de lutar para não descer e que queríamos sair do estádio e não conseguíamos. Por exemplo, recordo-me de um jogo com o Gil Vicente às quatro da tarde em que saímos com escolta policial à uma e meia da manhã, ou perto disso. Choviam pedras, parecia que estávamos ali numa batalha, numa guerra.

Apanhou uma era da liderança de um presidente carismático, Pimenta Machado.
Nós adorávamo-lo. Eu, particularmente, cada vez que reunia com ele, quando entrava na sala era um respeito tremendo. Era: “Uau, estou aqui na frente do homem”. Mas depois de falarmos alguns minutos, sentia-me tranquilo e à vontade. Adorei ter esse líder, acho que fazem falta no futebol pessoas que saibam distinguir as coisas, que defendam os clubes como ele o fazia, que fosse assertivo, mas que soubesse dar a mão à palmatória quando fosse necessário. Relativamente ao dr. Pimenta Machado só tenho coisas positivas a dizer.

Acaba por não jogar tanto com o Jesus, como jogou com o Inácio.
Sim, mas foi devido a algumas lesões musculares que tive. Eu até essa altura nunca fui, graças a Deus, um jogador de lesões, mas nessa altura sofri algumas lesões musculares, posso dizer que foi o meu pior ano em termos de rendimento. Isso era fruto também do mau descanso que tinha. Foi no ano que os miúdos eram bebés, não dormiam, nós passávamos noites em claro e isso refletiu-se no treino.

Foi essa também a razão pela qual não continuou em Guimarães?
Não, foi uma fase transitória, com mudança de presidente, mudança de direções e como nesse ano efetivamente não consegui dar o contributo que habitualmente dava, queriam que eu renovasse, mas fiquei muito sentido na altura porque eu já não era dos jogadores mais bem pagos, tendo em conta que tinha sido em dois anos o melhor marcador da equipa, e mesmo assim na proposta de renovação queriam baixar bastante o salário. Levei a peito, fiquei muito sentido depois de saber as contratações que estavam a fazer: eram jogadores que iam ganhar muito mais, se calhar o triplo ou o quádruplo daquilo que estava a ganhar. Surgiu a possibilidade de ir para o Leiria e fui, assinei por um ano.

Dia do primeiro treino na seleção nacional. Fangueiro tinha 15 anos

Dia do primeiro treino na seleção nacional. Fangueiro tinha 15 anos

D.R.

Não tem nenhuma história dos tempos do V. de Guimarães que possa partilhar?
Lembro-me que numa das épocas mais difíceis, as pessoas com mais responsabilidade no clube acharam por bem contactar o professor Alexandrino, que ficou conhecido como o homem da barra de ferro, no Herman SIC. Contrataram o homem para estar connosco e passámos ali uma semana espetacular, que acabou por desanuviar o ambiente de stress e a pressão que havia. Nessa semana, houve alguns episódios um dos quais num estágio pré-jogo de campeonato. Estávamos a estagiar na pousada Santa Marinha, em Guimarães, e antes de um jantar houve uma reunião inesperada dentro do salão nobre da pousada. Os jogadores estavam sentados nas mesas que formavam um U e após um pequeno discurso do professor Alexandrino, em que os jogadores estavam a rir, ele pediu-nos para tirarmos os ténis e os chinelos, o que tínhamos calçado, e colocar rapidamente os pés em cima da mesa, dizendo que ia passar por cada um de nós, individualmente, e mexer com as mãos deles nos pés do jogadores. E que nos ia dar técnica para vencermos o jogo (risos).

Mudou-se para Leiria com a sua família?
Sim, mudei para lá e levei a família. Comprámos casa. Acabou por ser um ano positivo porque jogámos a final da Taça Intertoto com o Lille, que dava acesso à Taça UEFA na altura. Acabámos no 6.º lugar se não estou em erro e foi um ano bom, não existia aquela pressão do Vitória de Guimarães, que eu até gostava. Vou para um Leiria que tinha 400 pessoas a ver o jogo.

Como se dá a passagem para Inglaterra? Era algo que ambicionava?
Sim, eu sempre adorei o respeito que existe em Inglaterra, a forma de jogar, a intensidade. Surgiu a hipótese no casamento do Carlos Carneiro; estava lá um agente que ainda hoje respeito muito, o Amadeu Paixão, que tem um trajecto profissional em Inglaterra de várias décadas e que, numa conversa à mesa, me falou do Millwall. Fui fazer um jogo-teste, quiseram ficar comigo imediatamente e adorei. Infelizmente, nesse ano e no meu melhor momento, até porque no primeiro jogo que fiz fui o “man in the match”, tive uma lesão grave que me deixou de fora dois meses e meio num jogo-treino com o Chelsea.

Que tipo de lesão?
Foi uma lesão muito estranha. Aquilo que me transmitiram foi que existe um ligamento que passa entre a tíbia e o perónio que depois segue para o pé. E esse ligamento ficou mesmo entre a tíbia e o perónio mesmo antes de chegar ao pé, e para o tirar de lá para fora ou era por cirurgia - e isso eu não quis logo -, ou então era com o tempo e com as mãos para o fazer sair. Demorou cerca de dois meses e meio.

D.R.

O Millwall é conhecido por ter adeptos ferrenhos, alguns até violentos...
...Sim, sim, mas atenção, dentro do estádio nunca se viu nada, só apoio, a todo o momento, quando jogávamos fora ou em casa. Fora do estádio sim, houve algumas histórias que eu não vi, felizmente, porque não ia gostar, mas contavam-me histórias em que havia pancadaria entre eles.

Levou a mulher e filhos consigo para Inglaterra?
Nos primeiros quatro meses fiquei sozinho, mas sentia muito a falta dos meninos, queria acompanhá-los, sentia falta da minha esposa e foram todos viver para Inglaterra. Nessa altura, também tínhamos duas empregadas internas que ajudavam a tratar das crianças que era fundamental.

Entretanto vai para o Walsall.
Porque, lá está, a época não foi muito boa Millwall, não joguei tanto como o esperado. Além disso, o clube desceu de divisão e surgiu esse projeto do Walsall, através do Amadeu Paixão. Era uma divisão inferior, mas que tinha o projecto de subida - e subimos à Championship. Em Inglaterra tenho uma subida de divisão e uma descida.

Mudaram de armas e bagagens para outra cidade?
Tínhamos de mudar, mas porque o contrato era de meio ano, fui sozinho e a minha esposa seguiu para Portugal com os miúdos. E ainda bem porque nesse ano surgiu uma proposta para ir jogar para a Grécia com o Inácio. Eu estava bem, mas o Inácio gostava de trabalhar comigo, sabia que eu gostava de trabalhar com ele e aceitei.

Mas na Grécia as coisas não correram bem.
Não porque, mal cheguei, o clube estava a lutar para não descer, tinha muitos jogadores, mas não tinha qualidade. Lembro-me de ter lido na imprensa que o Inácio queria no mínimo 10 jogadores e desses 10 só me conseguiu ter a mim, mais ninguém. Passados 15 dias, o Inácio foi-se embora, não conseguia trabalhar ali. E eu fiquei. Não recebíamos salário, mesmo assim tive uma proposta de renovação, mas eu sabia que eles estavam com dificuldades, eu tinha família para fazer crescer e arranjei forma de … Porque eles adoravam-me e eu era o único jogador da equipa que o presidente chegava e cumprimentava com dois beijos, falei com ele. “Presidente agradeço muito a proposta de renovação, mas a minha família não está aqui comigo, sente a minha falta e eu quero regressar a Portugal”.

Fanguero foi pai de quadrigémeos e por isso foi tema na revista Nova Gente

Fanguero foi pai de quadrigémeos e por isso foi tema na revista Nova Gente

D.R.

É verdade que chegaram a falsificar documentos seus?
Falsificaram. Eu deixei cerca de 60 mil euros na Grécia.

Mas falsificaram como e porquê?
Nós tínhamos quatro ou cinco salários em atraso e isso aconteceu na altura em que não aceitei a renovação do contrato. Eles levaram a mal, pensavam que eu ia ficar. Disse ao presidente: “Do dinheiro que está a dever-me, tire dois meses, você paga-me o resto e eu vou embora à minha vida. Agradeço imenso o facto de me ter deixado jogar aqui, mas sabe porque é que eu quero ir embora”. O gajo meteu a mão no peito: “Muito obrigado, Carlos. Agradeço imenso o teu gesto”. E tratámos da rescisão. Só que o processo é diferente do português. Existe um documento que estava a ser feito em grego e o reconhecimento da assinatura tem que ser numa esquadra de polícia. Então o que é que ele me disse: “Carlos, tem aqui dois cheques, com o valor que a gente deve e agora vai à polícia, assina este documento, voltas aqui e eu dou-te os cheques”. E eu: “OK presidente”. Numa hora fomos à polícia, assinei o que tinha de assinar, quando regressei ele perguntou: “Posso ver?”. Dei-lhe o envelope com os documentos para a mão e ele pegou nele, deu ao secretário que saiu da sala e regressou passados cinco minutos. Aí já fiquei com um bocadinho de medo. Quando o secretário chega passa o documento para a mão do presidente que abriu outra vez o documento, deu-mo para a mão e disse: “Carlos, olha, tenho aqui como tu vês os dois cheques, mas falta a assinatura do meu irmão. Sem a assinatura dele isto não é válido. Tens aqui o documento” e passa-me para a mão. “Vem amanhã de manhã, entretanto eu recolho a assinatura do meu irmão, tu dás-me o documento, eu dou-te os cheques e ficamos assim”. “OK, presidente”. Olhei para o documento, aparentemente era o que eu tinha assinado na polícia. No dia seguinte, fiz conforme o combinado, cheguei ao escritório e ele não estava. Ligava para ele e ele não me atendia, às mensagens não me respondia, perguntei à secretária e ao secretário privado dele que me disseram que ele não vinha ao clube. Senti que havia qualquer coisa que não estava a bater certo. Acionei o sindicato dos jogadores grego que estavam sempre em sintonia com o português, o meu empresário foi ter comigo.

Ainda era o Amadeu Paixão?
Sim. Fomos a um minitribunal na Federação Grega e é aí que eles me dizem. “Não percebo porque é que estás aqui. Eu tenho muito dinheiro a receber do clube”. “Sim, mas tu rescindiste”. “Rescindi?!”. Expliquei a situação. Eles respondem: “Mas nós temos aqui o documento em como rescindiste”. “Como é que podem ter esse documento se é o que tenho aqui na minha mão”. E mostrei. Foi aí que constatei a marosca que tinham feito.

Explique lá.
Eles guardaram o original, no original acrescentaram um texto em grego a dizer que eu abdicava de toda a dívida financeira que o clube tinha comigo e deram-me uma cópia. Mas nessa cópia não tinha esse texto em que eu abdicava do dinheiro. Eles entregaram o original na Federação e a cópia entregaram-me a mim com a falsificação do documento. Eu ainda disse: “OK se isto é uma cópia na pior das hipóteses, esta cópia tem de estar exatamente igual a esse original”. Mas, no original, estava o texto que eles juntaram, um carimbo de um advogado a dizer que tinha ido comigo, o que era mentira. Meti o processo na FIFA e infelizmente perdi-o. Mesmo demonstrando que tinha havido falsificação de documentos.

Nunca mais conseguiu falar com esse presidente?
Nunca, até hoje.

É verdade que o clube deixou de pagar a renda do apartamento onde vivia e chegou a comer só cereais?
Sim. Foi tudo a partir do momento em que recusei renovar o contrato com eles. Estava sem dinheiro. Felizmente tinha o Carlos Carneiro que jogava num clube próximo e, quando eles deixaram de pagar a renda e fui despejado, fui viver com o Carlos que morava perto de mim, no último mês. Foi difícil.

A primeira saída para o estrangeiro de Fangueiro (à direita) é para o Millwall de Inglaterra

A primeira saída para o estrangeiro de Fangueiro (à direita) é para o Millwall de Inglaterra

Adam Davy - EMPICS

Quando vem embora da Grécia já tinha clube?
Não. Estive a treinar com o Jorge Amaral, que era o treinador do Lousada, só para manter a forma. Comecei a ficar um pouco preocupado porque as inscrições estavam a terminar e, quase no último dia, surge o Vizela com um projecto de subida da 2.ª Liga. Comecei a ver a equipa que tinha, os valores individuais que tinham contratado e os investimentos que estavam a fazer, e aceitei ir para o Vizela e não subimos de divisão por um ponto de diferença.

Sente que deu um passo atrás na carreira?
Eu constatei fundamentalmente que um jogador, quando sai de Portugal, não é seguido da mesma maneira, o que acaba por ser compreensível, e fiquei ali um bocadinho esquecido.

Segue-se o Beira-Mar.
Sim, com um projeto de desenvolver o clube e voltar à 1.ª liga. O primeiro ano foi difícil, sobretudo a nível financeiro, que eu já estava habituado a ganhar um bocadinho mais. Fui ganhar muito menos do que estava habituado e nem sempre era certo. Chegámos a estar quatro meses sem receber, mas acrescentou-me mais um bocadinho de bagagem.

Esteve com o António Sousa como treinador?
Com o António Sousa e com o Bruno Moura, e no ano a seguir com o Leonardo Jardim.

Foi viver para Aveiro?
Não, fazia o trajecto. Havia jogadores que viviam mais a norte e era uma semana cada um a conduzir no seu carro e dar boleia aos outros.

Gostou de Leonardo Jardim?
Fantástico. Não o conhecia, sabia do trajecto dele, que estava a conseguir impor-se no futebol português, que todos os anos ele tinha um projeto melhor. Chegou ao Beira-Mar e pôs a sua metodologia e personalidade em prática. Contratou muitos jovens, tinha três ou quatro jogadores mais experientes: eu, o Palatsi e o Fary.

São campeões e sobem de divisão.
Sim. A partir do momento em que começou o campeonato, a máquina já estava bem afinadinha e foi ganhar sempre. Conseguimos ser campeões e subir à 1.ª liga.

Fangueiro (no centro) celebra depois de marcar pelo Walsall, a sua segunda equipa em Inglaterra

Fangueiro (no centro) celebra depois de marcar pelo Walsall, a sua segunda equipa em Inglaterra

John Walton - EMPICS

Não continua em Aveiro porquê?
Já estava um bocadinho velhote, digamos assim.

Estava com quantos anos?
Nesse ano ia fazer 34 anos. Tinha jogado com o Cristiano, que jogou no Beira Mar e que tinha jogado no Benfica anteriormente. Ele tinha ido para o Vietname e entretanto regressou a Aveiro para jogar comigo. Só que ele foi outra vez para o Vietname e falou comigo. Disse que se ganhava um bocadinho de dinheiro ali, que era um projecto interessante de um clube que queria ser campeão. Perguntou se queria ir e acabei por ir. Pensei que ia assinar imediatamente mas afinal não, era para fazer um teste. Estive lá quatro dias em teste, acabei por ficar e fui muito feliz porque fomos campeões. É o maior clube do Vietname, na altura era um clube recente.

Como foi o primeiro impacto quando lá chegou?
Bem, eu sou uma pessoa que me adapto rapidamente. Obviamente que o centro de estágios não tinha tantas condições. Mais tarde deram-me um apartamento fantástico na melhor zona de Hanoi, uma zona nova, fantástica, mas quando cheguei de facto não havia grandes condições, tirando os campos. Onde dormíamos até ratos passavam. Se deixávamos um bocadinho de comida à mostra, quando chegávamos ao quarto já estava tudo roído. Mas, como disse anteriormente, sou uma pessoa que me adapto rapidamente e com facilidade às adversidades.

Comeu alguma coisa muito diferente do que estava habituado?
Comi. Eles tinham o cuidado de fazer algo diferente para os estrangeiros. Nesse ano estava eu, o Cristiano, um brasileiro que tinha passado pelo Nacional da Madeira e pela Académica, não me lembro do nome dele, o Cauê, também brasileiro e o Gonzalo Marronkle, um argentino que também tinha jogado em Portugal, no Chaves. Dávamo-nos muito bem, formávamos um grupo bom que ajudava a passar as dificuldades, mas em relação à alimentação, como estávamos a falar, eles tinham o cuidado de fazer uma comida diferente para nós, o mais aproximado possível da comida europeia. Mas de vez em quando eu perguntava: “O que é que vocês estão a comer? Vou comer isso também”. Conseguíamos ganhar dessa forma também a confiança dos vietnamitas.

E gostou do país?
Gostei. É um país muito acolhedor. Gostei das tradições, da cultura. Têm sítios maus em termos de qualidade de vida, mas também têm sítios fantásticos. Uma extremidade de pólos muito grande e acabou por ser uma experiência muito positiva.

Esteve lá sem a família?
Sim. Foram cinco meses sem a família. Essa foi a parte mais difícil.

Fangueiro (com a bola) fez parte do Beira Mar em 2008/09

Fangueiro (com a bola) fez parte do Beira Mar em 2008/09

D.R.

Da sua experiência no Vietname o que é que mais o marcou?
O povo. É um povo apaixonado por futebol. A forma como nos acolheram foi fantástica, eles respeitam muito o estrangeiro. Achei isso extraordinário.

Não ficou mais tempo porquê? Não quis continuar?
Queria. Para além de estar a gostar da minha última fase da carreira, ainda me permitiu ganhar dinheiro e talvez recuperar algum que tinha perdido. Mas havia um limite para jogadores estrangeiros, cinco estrangeiros. Quando cheguei eles queriam que eu assinasse por três anos, mas disse que não. Tinha acabado de chegar, não sabia se me ia adaptar e depois podia ser um problema. Por isso, optei por assinar pelos cinco meses. Eles tinham essa questão do limite de estrangeiros que na época seguinte passou de cinco para quatro, e eu era o único que não tinha contrato. Como era o único que não tinha contrato, todos os outros tinham renovado o contrato nesse ano, tive de vir embora.

Fangueiro com a mulher e os quatro filhos

Fangueiro com a mulher e os quatro filhos

D.R.

Vem sem clube ou já tinha o Leixões?
Não, não tinha até porque eu estava a negociar com o clube rival que jogava no mesmo estádio, e que me prometeram aquilo que aproximadamente eu estava a ganhar no T&T Ha Noi. Mas, perto do fecho do mercado, dizem: “Ah, Carlos afinal já não é isto, é isto”. E era cerca de metade. Então, por metade, preferi aguardar mais um bocadinho por propostas de Portugal, até que acabei por terminar a minha carreira da melhor forma possível, no clube onde comecei.

E volta a ter o Inácio como treinador.
Exatamente (risos). Há coisas incríveis. Eu tinha 34 anos, já não era o Fangueiro explosivo de antigamente, perdi algum tipo de características mas ganhei outras. Mas, quando lá cheguei, e devido ao meu carácter e desempenho em cada treino e em cada jogo, em que dava o máximo sempre, fiz o jogo de preparação no Varzim que ganhámos 3-0 e eu marquei dois golos. No dia imediatamente a seguir, jogámos com o Libolo, equipa angolana que estava a estagiar no nosso país, e o Inácio fez-me jogar novamente. Mas talvez porque ainda não tinha feito uma boa fase de preparação, não consegui aguentar esses dois jogos seguidos e acabei por me lesionar logo à partida. Tinha expectativas altas.

Mas faz ainda faz essa meia época. A seguinte, 2011/2012, é que já não.
Fiz essa meia época toda com o Inácio. Depois, renovei contrato para a época seguinte, sendo que eu próprio fiz um acordo com o presidente do Leixões. Agradeci o facto de me renovar o contrato, mas disse-lhe que se eventualmente sentisse algum tipo de dificuldade em contribuir com o meu melhor, falaria com ele para terminar o contrato. Foi isso que aconteceu. No ano seguinte, com o Litos, estávamos a mostrar um futebol espectacular, não joguei tanto quanto esperava porque a minha performance já não era a mesma. Tive uma lesão muscular, recuperei e voltei aos treinos. Como eu era muito intenso nos treinos voltei a lesionar-me e nessa altura vou ter com o presidente: “Agradeço-lhe imenso, mas está na hora de terminar a minha carreira enquanto jogador de futebol”.

Fangueiro no Vietname onde também jogou

Fangueiro no Vietname onde também jogou

D.R.

Quando pôs o ponto final já sabia o que queria fazer a seguir?
Não. Logo de imediato surgiu a possibilidade de vir para o Luxemburgo.

Através de quem?
Do Ádamo Sousa, que foi guarda-redes em Portugal, no Belenenses, Nacional, Moreirense, Esposende... Ele já tinha emigrado para cá, tornou-se um empresário de sucesso e fui falando com ele, ele ia-me encaminhando. Quais eram as minhas preocupações? Escola para as crianças, porque se ia para o Luxemburgo, a família ia também.

Qual foi a proposta que ele lhe fez inicialmente?
Era para jogar num clube onde o treinador era um grande amigo dele, um luxemburguês. E ao mesmo tempo para trabalhar, porque aqui não são permitidos contratos profissionais de futebol, é uma federação amadora, não se conseguem fazer contratos profissionais. O que ele abertamente me falou foi: “Carlos eu sei que tu és um guerreiro, que encaras a vida de uma forma tranquila e que te adaptas, vem para aqui. Vais receber 350 euros por mês do clube e o clube compromete-se a arranjar-te um trabalho porque aqui o futebol não é profissional e para teres garantias para a tua família precisas de ter um trabalho, caso contrário não vais ter direito à segurança social, à tua reforma, se estiveres doente vais ter que pagar do te bolso”. E assim fiz. Tive, na mesma altura, uma diferença de dois dias, uma proposta para jogar na 1ª Liga luxemburguesa onde ia ganhar muito mais, mas recusei ir para a 1ª Liga e ganhar muito mais, sendo que não eram contratos profissionais, portanto não poderia descontar esse dinheiro. Optei por ganhar 350 euros por mês e ter um trabalho que o clube me tinha facultado e comecei assim a minha vida aqui no Luxemburgo.

Que trabalho era esse?
Como eu não falava a língua, fui trabalhar para um armazém. Trabalhava diretamente com os agricultores, tínhamos um armazém enorme com sacos de 50 quilos de semente e produtos químicos. Fui para o armazém para fazer as paletes com as mercadorias. Foi uma fase muito dura da minha vida, mas eu motivava-me. Sabia que tinha de ser assim para ter direito e permitir que a minha família estivesse aqui comigo no Luxemburgo.

Fangueiro (à direita) jogou pelo T&T Ha Noi

Fangueiro (à direita) jogou pelo T&T Ha Noi

D.R.

Como é que a sua mulher reagiu quando o Carlos colocou a hipótese do Luxemburgo?
Mandaram a possibilidade para trás, mas comecei a dizer que se calhar era capaz de ser bom, que tinha acabado a minha carreira, que não sabia o que havia de fazer...

Não tinha conseguido juntar dinheiro suficiente para estar descansado o resto da vida...
...Não, não, definitivamente. Ganhei algum dinheiro no futebol, mas não me permitiu ganhar o suficiente para estar dos 35 anos até à hora da reforma sem nada fazer.

Onde é que ganhou mais dinheiro?
Em Portugal foi no Vitória de Guimarães. Em toda a carreira foi em Inglaterra.

Investiu esse dinheiro em alguma coisa, em algum negócio ou em imobiliário?
Não. Investi no primeiro apartamento que comprei, depois tive de mudar de casa para uma maior, mas sempre fui uma pessoa com receio de investir o dinheiro. Foi um erro grande que fiz, porque se o tivesse feito se calhar tinha ficado em Portugal e as coisas até podiam ser diferentes. Como não investi em mais nada, sabia que o que tinha amealhado não me permitia ficar sem fazer mais nada nos anos que ainda tinha pela frente.

Ainda mais com quatro filhos.
Exactamente. Hoje, depois de passar por isso, posso dizer que arriscava mais e investia em qualquer coisa, mas sempre fui melindroso em relação a isso e a minha esposa também.

Estava a contar que a sua família ao início não gostou da ideia.
Não, não gostaram. Era uma transformação, mais uma na nossa vida, enorme. Foi quando disse: “Escuta, se calhar é uma boa opção. Sabes que eu não tenho nada agora aqui. Vamos ter de ir tirando dinheiro onde metemos e esse dinheiro dificilmente iremos repôr. É um sacrifício mais meu, porque vou trabalhar em algo que não conheço e em algo que nada tem a ver com o futebol, mas estou preparado para isso. O que interessa são os miúdos, eles vão crescer, vão precisar de várias coisas e a gente vai ter de estar preparados para isso”. Vim sozinho na primeira fase, fiquei oito meses sozinho até ao momento em que consegui ter as condições necessárias para trazer a família.

Fangueiro (ao centro atrás) conquistou o campeonato da liga vietnamita

Fangueiro (ao centro atrás) conquistou o campeonato da liga vietnamita

D.R.

E foi jogar para o tal clube, o FC Atert Bissen.
Exactamente. Não me deu trabalho logo, mas passados quatro meses conseguiu arranjar-me trabalho nessa empresa. Foi um grande esforço, estava habituado a ter uma vida de jogador profissional de futebol que é a melhor coisa que existe. Depois, vir para cá e ter de trabalhar no duro, ter de respeitar à risca aqueles horários, foi uma diferença de vida enorme e ao início foi muito duro. Mas consegui e hoje estou feliz.

Tem conseguido fazer os vários níveis do curso de treinador?
Eu já tinha feito em Portugal o I e II níveis, e no ano passado consegui dar seguimento aqui na Federação Luxemburguesa de mais um nível do curso de treinadores. Já quando jogava à bola ambicionava um dia agarrar a possibilidade de ser treinador de futebol.

Continua a trabalhar nessa empresa ligada a produtos agrícolas?
Não. Joguei nesse clube, não subimos de divisão, porque fizemos um play-off no final da época, e perdemos no último minuto. Perdemos a oportunidade de subir de divisão. Entretanto, o treinador foi embora e o presidente teve uma conversa comigo porque gostaria que eu ficasse à frente da equipa, visto que já tinha formação. Assumi.

Isso foi em que ano?
Foi em 2013/2014, se não me engano. Entretanto, mostrei um bom trabalho aqui no futebol, conseguimos subir de divisão, conseguimos chegar a finais de taça, conseguimos mostrar um excelente futebol contra equipas de topo na Taça do Luxemburgo, o meu trabalho começou a ser visto e fui convidado para o clube actual, Titus Pétange, para ser diretor desportivo. Fui convidado ao mesmo tempo para desenvolver um projecto de futebol de formação e passei um bocadinho por tudo no clube. Faz já cinco anos que lá estou e hoje sou o treinador principal.

Tem a equipa em primeiro lugar.
Tenho a equipa em primeiro lugar na 1.ª divisão do Luxemburgo, uma 1.ª divisão que evoluí muito em termos qualitativos, com muitos estrangeiros que chegaram, com o trabalho de formação que está a ser feito no país e que permite a alguns jovens sair para Inglaterra, para a Alemanha, França e Bélgica, fundamentalmente para esses países, um ou outro para Portugal.

Fangueiro terminou a carreira em Portugal no clube onde começou, o Leixões

Fangueiro terminou a carreira em Portugal no clube onde começou, o Leixões

D.R.

Atualmente vive só do futebol?
Poderia. Já vivi enquanto diretor desportivo e diretor geral de toda a formação. Entretanto, quando passei para treinador principal da equipa, o presidente queria que eu só fizesse isso mas disse-lhe “Não presidente. Escute, eu confio em mim, você fez um esforço grande para me trazer aqui para o clube e quero retribuir também. Eu assumo a equipa, mas faço numa das suas empresas 20 horas de trabalho”. Ele ficou todo contente e é isso que estou a fazer agora. Faço 20 horas de trabalho na empresa dele.

É uma empresa de quê?
Ele tem várias e aquela onde estou é um armazém enorme, onde sou eu que recebo a mercadoria e faço a mercadoria sair. Recebemos portas, cozinhas, uma variedade muito grande de materiais de construção.

Neste percurso no Luxemburgo não foi motorista também?
Fui motorista de camião na empresa onde o meu primeiro clube no Luxemburgo me permitiu trabalhar. Nessa empresa comecei numa primeira fase com as encomendas no armazém, com os sacos de 50 quilos, onde meti na cabeça que aquele era o meu ginásio (risos). Depois, e porque tinha a carta de pesados feita em Portugal por curiosidade, tive a possibilidade nessa mesma empresa de fazer durante seis meses entregas com o camião.

Só no Luxemburgo ou pela Europa?
Só no Luxemburgo. Fui uma vez ou outra à Alemanha, mas não muito distante da fronteira, embora percorresse o país todo. Depois, ainda nessa empresa, tive um pequeno acidente com o camião, uma coisa ligeira, mas fui chamado à atenção e ainda não tinha o meu contrato definitivo. Chamaram-me ao escritório da grande chefe e eu com pensamento “ui, já fui”. Mas ela chamou-me e disse: “Carlos não quero saber do acidente, foi uma coisa pequena, quero convidar-te para ficares responsável pelo nosso depósito grande”. Era onde tínhamos os químicos, os herbicidas, os inseticidas, tudo o que tinha a ver com isso. Era uma responsabilidade tremenda. Nessa empresa, tínhamos vendas de 20 milhões de euros por ano, era uma responsabilidade enorme, sem saber falar ainda muito bem francês permitiu-me ser chefe e gerir um depósito enorme com essa responsabilidade toda.

Fangueiro tornou-se treinador do Titus Pétange do Luxemburgo

Fangueiro tornou-se treinador do Titus Pétange do Luxemburgo

D.R.

É crente?
Já fui mais (risos).

Tinha ou tem superstições?
Não.

Tatuagens?
Tenho uma que fiz no Vietname. Um desenho que fui eu que o fiz e que passei para o tatuador que tem a ver com a família.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Ter comprado um carro de 52 mil euros. Um carro familiar, mas foi antes dos meus filhos nascerem. Foi uma Audi A4 todo equipada, xpto, quando renovei o meu contrato com o Vitória de Guimarães.

Qual a maior alegria e frustração na carreira?
A maior alegria e frustração tem a ver uma coisa com a outra. Estive muito próximo, mas mesmo muito próximo, posso dizer que só faltou a assinatura, de representar o Benfica.

E isso não aconteceu porquê?
Porque a negociação foi difícil com o Vitória, com o Pimenta Machado que, segundo a informação que me passaram, tinha pedido um valor ao Benfica que ficou acordado mas mais tarde pediu um bocadinho mais. E tive o azar de nesse ano o Alex, que estava a jogar no Moreirense e também estava a fazer um ano espectacular, o Benfica não tinha de pagar nada por ele. O Alex jogava na mesma posição que eu. Como não tinha de pagar nada ao Moreirense e a negociação por mim estava no “é hoje, é amanhã, é depois”... acabei por não ir para o Benfica e continuei no Vitória. Ou seja, uma felicidade por ter interesse do Benfica - e eu tinha falado com o responsável pelas contratações na altura, o António Simões, que me disse estar tudo acordado, era um contrato de quatro anos. E, depois… Se calhar não sei da história toda, aquilo que sei foi o que lhe disse agora. Foi uma alegria tremenda que depois passou a frustração, a maior de todas.

Aconteceu em que época?
Foi em 2002/03, no ano em que jogávamos no campo do Felgueiras porque o nosso estádio estava a ser construído para o Euro2004.

Fangueiro (2º à esquerda) com a sua equipa técnica do Titus Pétange

Fangueiro (2º à esquerda) com a sua equipa técnica do Titus Pétange

D.R.

Os seus filhos estão com 16 anos, calculo que completamente integrados no Luxemburgo e que já não queiram vir para Portugal?
Completamente integrados, fizeram grandes amizades aqui. Vão a Portugal e adoram Portugal, são malucos por Portugal, mas já começo a sentir que quando vão ficam cerca de dois meses e meio, mas no final já estão desejosos de regressar porque há qualquer coisa aqui que já lhes faz falta também.

Algum deles tem jeito para futebol ou pratica?
Não. Por incrível que pareça há uma menina, a Cátia, que gosta um bocadinho de futebol, gosta de jogar, todos os outros não ligam, mesmo o Diogo não liga. Eu gostaria, mas nunca demonstrei, nem nunca incuti isso no meu filho. Sempre lhe dei liberdade total para escolher aquilo que ele gostasse ou quisesse fazer.

Há algum desporto que eles gostem de praticar ou seguir?
Para além de serem bons alunos, e isso já lhes ocupa grande parte do dia, fazem hip hop, são professores de hip hop.

Eles torcem por algum clube?
Por todos aqueles por onde passei, desde que nasceram (risos). Já foram do Vitória de Guimarães, já foram do Leixões, já foram do Beira-Mar, já foram do Vizela, já foram do Bissen, hoje são do Pétange.

O Carlos tem algum hóbi?
Gosto muito de cinema, sendo que não tenho muito tempo para isso. Gosto de viajar, adoro viajar e não tenho muito tempo para isso. Apesar de saber que a empresa é do meu presidente, dou o meu melhor e eles também estão satisfeitos com o meu trabalho, porque sou uma pessoa mesmo muito séria e muito competente. E depois há o futebol. Sou maluco por futebol, todo o resto do tempo é futebol, futebol, futebol e talvez também por aí, estar a conseguir ter o sucesso que estou a ter.

Fangueiro com a família

Fangueiro com a família

D.R.

Soube que gosta de pintar.
Gostei muito, foi uma fase na minha vida, estava no Vitória de Guimarães, tinha tempo livre e meti-me a pintar e fiz coisas engraçadas, mas a pintura requer muita concentração, também muito empenho, que nessa altura tinha. Neste momento, não, e devo ter perdido o jeito, aos anos que já não faço nada. Mas confesso que tinha algum jeito.

Qual é o filme da sua vida?
A “Vida é Bela”. Pelo dramatismo, por ser cómico e por no final ser um drama absoluto. E gostei muito do Sexto Sentido.

Chegou a ser convocado para a seleção A?
Não, mas esteve próximo. Sobretudo depois de um jogo do Torneio Vale do Tejo, contra o EUA. Fiz um jogo espectacular e transmitiram-me que o Scolari estava a ver e que haveria possibilidade de ser chamado para os treinos, mas isso nunca aconteceu. Nem sei se foi verdade.

Dos locais que visitou qual o que lhe encheu mais as medidas?
Punta Cana na Republica Dominicana.

E do Luxemburgo, não tem histórias para contar?
Tenho uma logo no primeiro dia de trabalho no Luxemburgo. Tive a sorte de ter um chefe que é um adepto ferrenho do Standard de Liège e gosta de futebol. Colocou-me algumas questões quando lá cheguei. Eu não sabia falar francês, mas ia transmitindo a ideia de que sabia falar só respondendo “oui, oui” ou “non, non”, era o que eu sabia dizer na altura. Ele perguntou se eu tinha licença para conduzir uma empilhadora e eu, como não tinha percebido, mas não queria dizer que não, porque eram os meus primeiros dias de trabalho, disse, sim, sim. E ele “então vá, pega ali naquele e começa a conduzir”. Foi aí que tive a noção clara e exata de que se estava a referir a uma empilhadora, que nunca tinha visto à frente, não sabia conduzir, logicamente. Mas não dei parte fraca, subi, liguei a chave e depois fiquei bloqueado. Ele apercebeu-se, começou a rir-se e mandou-me fazer outra coisa (risos).