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A casa às costas

Nani, parte II: “Vivi numa casa em que a sala e a cozinha eram túneis de ratazanas. Não tínhamos o que comer, vestir ou calçar”

As chegadas e as saídas do Sporting, a conversa com Sérgio Conceição para ir para o FC Porto, as aventuras pela Turquia, Espanha e Itália dominam a segunda parte da entrevista onde Nani também fala da relação com Bruno Fernandes, de como se tornou num pilar fundamental da família e da seleção, entre outras histórias

Alexandra Simões de Abreu

TIAGO MIRANDA

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Como foi regressar ao Sporting passado tantos anos? Estava tudo na mesma, ou estava tudo diferente?
É lógico que passados tantos anos encontrei alguma diferença. Mas eu foco-me sempre nas coisas positivas e foquei-me na época que fiz, fiz muitos golos.

Gostou do Marco Silva enquanto treinador?
Gostei. Cinco estrelas. Como treinador e como pessoa. É um treinador que ainda era muito jovem, estava a começar. A verdade é que todas as conversas que tivemos e se pensava no que ia acontecer, tudo aconteceu. Fico feliz por ele porque disse-lhe coisas que foram mesmo acontecer.

Que coisas?
Disse-lhe que ele era um treinador espetacular, que via muito potencial nele e que ele tinha de ir para Inglaterra que era ali que ia funcionar, porque um treinador como ele só ia ser respeitado e valorizado num campeonato como o inglês. Disse-lhe que ia desenvolver as suas capacidades e ganhar mais experiência ali. E que, quando chegasse, ia-me dar razão, ia perceber tudo aquilo que eu tentei transmitir quando cheguei ao Sporting. A diferença de mentalidade. Como é que se trabalha, a intensidade de trabalho, a mentalidade dos jogadores, a atitude dos jogadores, a agressividade dos jogadores. Foi muita coisa, muita coisa mesmo. Acredito que quando chegou a Inglaterra ele pôde presenciar o que lhe disse - e que está a desfrutar.

Também notou essa diferença? Quando veio do Manchester para o Sporting de certa forma baixou o nível?
Eu não digo baixar o nível. É diferente. É lógico que são clubes e culturas diferentes. São métodos de trabalho diferentes. Isso foi uma das coisas que se calhar fez confusão a certos jogadores, a certas pessoas. Quando vens de um clube como o Manchester e se queres tentar transmitir algo diferente, algo para a evoluir, para ajudar, podem interpretar-me de um modo... "Pois, vieste de um nível diferente". Eu digo, não é um nível diferente, é simplesmente diferentes mentalidades, diferentes métodos de trabalho que fazem a diferença quando estás a competir, como clube, como jogador, como pessoa.

Está a reconhecer que há uma diferença de nível.
Pois, mas quando se diz essa palavra, pensam logo: “Está-se a achar, acha-se que é melhor, que é mais do que os outros”. Mas, na realidade não é isso porque, no final, quando caímos na realidade e aceitamos, todos evoluímos. Mais tarde viemos todos confirmar que todos evoluímos.

Depois de sair de Alvalade a primeira vez, Nani, aqui ao lado de Liedson, regressou ao Sporting duas vezes

Depois de sair de Alvalade a primeira vez, Nani, aqui ao lado de Liedson, regressou ao Sporting duas vezes

© Marcos Borga / Reuters

Como foi parar à Turquia a seguir?
Devido a essa boa época no Sporting, houve interesse dos turcos que fizeram uma boa proposta, irrecusável. Eu achava que era uma oportunidade de experimentar também uma outra liga, um outro país. Foi interessante e gostei.

O Sporting não tinha capacidade para ficar consigo ou não quis?
O Sporting quis, na altura o Bruno de Carvalho antes de eu sair perguntou-me: "Vê lá, tens a certeza que queres sair? Eu posso falar com o Manchester para ficares mais um ano". Ele queria muito que eu ficasse. Mas disse-lhe que me tinha aparecido aquela oportunidade, era algo que eu queria fazer, agradeci-lhe muito e foi assim.

Foi só pela proposta que lhe fizeram ou também porque percebeu que o Sporting não estava no seu melhor?
Não, fui mesmo pela oportunidade. Sou uma pessoa que gosto de avaliar os projetos e os momentos e aquele era o momento, era o timing de saltar para um outro clube, uma outra aventura.

O Bruno de Carvalho foi um bom presidente do Sporting?
Na altura, quando estive lá, não tenho razão de queixa, foi cinco estrelas comigo, sempre se comportou bem comigo, sempre me respeitou muito e admirei o respeito que demonstrou por mim enquanto jogador. Isso é de louvar, o respeito entre as pessoas, pelo profissionalismo. Ele sabia que, ao contratar-me, eu era uma mais valia para o clube, que vinha para ajudar. Por isso só posso falar bem dele.

Turquia. Era o que estava à espera?
Quando cheguei lá fiquei surpreendido. Aquela multidão, aquela receção foi fantástica. Aquele povo todo ali no aeroporto... assustei-me um bocado porque eles são loucos no modo como celebram e como recebem os jogadores. Para entrar dentro do carro foi uma guerra e depois de estar lá dentro, eram pessoas em cima do carro, a bater, pensei que iam amolgar o carro todo, que ia ficar ali esmagado (risos). Mas foi bonito. Depois de sair dali, consegues perceber que foi um momento histórico. Tanto como no Sporting. A minha receção aqui no Sporting foi brutal. Acho que não houve um jogador que tivesse tido uma receção daquelas pelos adeptos do Sporting. Uma multidão no aeroporto, cânticos bonitos, que transmitem aquela energia positiva e confiança de que as coisas iam correr bem no clube - e que podíamos ganhar algum titulo. E na Turquia foi a mesma coisa.

A adaptação foi fácil?
A adaptação à cidade foi fantástica, era um bom clima, era uma cidade bonita. Os turcos se gostam de ti dizem "king" e tratam-te como um rei. Os teus pais vão e não precisas de estar presente, só por saberem que são teus pais já não pagam nada. Eles têm um comportamento muito fora do normal que mexe com as pessoas.

E desportivamente?
É como em Portugal. Jogas no Estádio da Luz, Benfica-Sporting, e é dos melhores jogos do mundo, estádio cheio, as duas claques cantam, gritam, puxam pela equipa. Quando vais jogar a um clube com menos condições, já não é tão entusiasmante, mas não deixa de haver paixão. Na Turquia são assim. Os turcos se calhar são mais vibrantes nos jogos, mais impulsivos na maneira como falam e gritam, mas ficou marcado o Estádio do Fenerbahçe, aquilo cheio, nós a jogar em casa, não há coisa melhor, é incrível mesmo. Quem não está acostumado assusta-se. Tenho muito boas lembrança da Turquia

Não ficou lá porquê?
Foi uma outra oportunidade. Fiz uma excelente época na Turquia, fiz muitos jogos, deu seguimento para o Campeonato da Europa 2016. Faço o Europeu, correu-me muito bem, abriu o apetite de outros clubes, apareceram muitas propostas. E eu entusiasmei-me e quando apareceu a liga espanhola, o Valencia, achei que era uma boa opção ir experimentar a liga espanhola. Já tinha jogado em Portugal, Inglaterra, Turquia… A liga espanhola era a segunda liga mais forte do mundo, era interessante ir para lá.

Encontrou o que estava à espera?
Não foi exatamente o que estava à espera porque o clube vinha de uma situação complicada de há alguns anos, trocas de treinadores, estava um bocadinho instável, saída e entrada de jogadores novos, estava a tentar encontrar-se outra vez e eu naquele ano devido também se calhar a um acumular de muitos jogos, tinha muita fadiga nas minhas pernas, então ia tendo sempre pequenas lesões. Tive muitas lesões neste ano, nada muito grave, mas sempre no momento crucial parava uma semana ou duas. Não foi uma época estável por causa disso e juntamente com o clube e os problemas que a equipa tinha, estivemos muito mal na liga, não correu bem.

Nani já representou a seleção mais de 100 vezes

Nani já representou a seleção mais de 100 vezes

JOSE COELHO

O empréstimo à Lazio. Quem o propõe?
O empréstimo à Lazio foi porque eu cansei-me de todo aquele ambiente, de ter tido muitas lesões naquele clube e achava que, como era ano de Mundial e apareceu essa proposta da Lazio, pensei: "OK, vou sair deste ambiente um bocado e apanhar um ar novo".

Mas que ambiente era esse de que não gostava em Espanha?
Não era em Espanha, era no clube naquele momento. O clube não estava a passar por um momento bom.

Dos espanhóis em geral, gostou?
Não tenho razão de queixa, acho que me trataram sempre muito bem. Aplaudiram-me muito, porque apesar de ter muitas lesões, era o jogador que tinha as melhores estatísticas, mais assistências, mais golos, cada vez que jogava era o melhor em campo, então os adeptos estavam contentes comigo e sabiam que havia outras coisas por trás, que era a instabilidade da equipa e do clube, que estava a tentar livrar-se alguns jogadores; mudaram de treinador umas quantas vezes e isso também não ajudou. A Lazio apareceu no início da época e achei que era uma oportunidade de ir experimentar outra liga, mais uma aventura. Não tinha nada a perder, era um ano de campeonato do mundo e fui para ver se jogava. Infelizmente, quando estava na minha melhor forma a fazer golos, as opções do treinador eram outras e tive essa dificuldade.

Foi parar outra vez ao Sporting, numa altura conturbada. Como?
Surgiu por amizades. Porque não era para vir para o Sporting, tinha outras propostas.

De onde?
De clubes que pagam muito dinheiro, clubes dos Emirados e da China, esses clubes. Mas eu já tinha tido antes e nunca tinha escolhido ir para esses locais pelo dinheiro. A mim sempre me moveu a paixão. É lógico que as condições contam muito, o contrato que a gente faz com um clube conta muito, temos de olhar para o futuro. Mas temos de olhar para aquilo também que foi a nossa vida e eu sempre joguei futebol pela paixão. O dom que tenho foi-me dado para fazer isso, então olho para o futebol em 1.º lugar, e depois olho para as questões financeiras porque, graças a Deus, tantos anos de futebol deram-me uma estabilidade para eu poder escolher assim. E foi isso.

Veio por amizade a quem?
Na altura até o FCP veio falar comigo. Falou-me o treinador, Sérgio Conceição, perguntou-me como era. Disse-lhe que gostava muito, o FCP é um grande clube, mas que já estava a falar com o Sporting e que provavelmente a minha decisão seria ir para o Sporting porque seria mais fácil para mim. É um clube pelo qual tenho muito carinho e era um clube que precisava de mim no momento. Precisava de jogadores com nome, com alguma experiência para que pudessem dar estabilidade ao clube novamente. Era uma fase complicada em que sabíamos que dificilmente havia jogadores a querer vir para o Sporting.

Está arrependido?
Eu não. Não, porque eu vim, fiz o meu trabalho e depois fui. Aquilo que queria fazer eu fiz e as coisas aconteceram perfeitas. Porque assim que assinei e vim para o Sporting, praticamente tudo estabilizou. Voltaram os jogadores que não queriam ficar mais e que tinham rescindido, acreditaram que era possível o Sporting fazer uma boa equipa, acreditaram que era possível, se calhar, ganhar o título.

Mas nada disso aconteceu.
Não, conseguimos ganhar dois títulos.

Não foi o título mais ambicionado, o do campeonato. E foi um ano conturbado?
Como assim conturbado? Isso já é normal no Sporting. Conturbado foi o que aconteceu antes, no ano anterior, que houve confusão e invasão. Desde que eu estive no Sporting não houve nenhum problema. A única coisa que aconteceu no Sporting quando eu estive lá foi só a vinda de outro presidente, o Varandas, e mudaram um treinador. De resto, nada mais. E chegou a altura em que saio do Sporting.

Nani na chegada à Turquia

Nani na chegada à Turquia

Anadolu Agency

É verdade que teve um desentendimento com Bruno Fernandes?
Não. Eu ouvi essa história. Estava nos EUA e vi uma notícia "Nani saiu do Sporting por ciúmes do Bruno Fernandes", ou assim, e comecei a rir-me.

Nunca se deu mal com Bruno Fernandes?
Nunca. Acho que se calhar era mais fácil perguntar, não a mim, mas a eles jogadores que estão lá. Se tivesse havido um problema com certeza alguém dizia. Os jogadores falam a verdade. Foi engraçado, porque eu e o Bruno falamos, damos força um ao outro, tenho aqui as mensagens. "Espectáculo. Parabéns pela época que estás a fazer em Orlando. Estás a rebentar". Isso no seguimento da minha saída. Havia jogos importantes no Benfica e tudo teve continuação, falei com alguns jogadores, Jovane, Bruno Fernandes, Fredy Montero, Diaby, aqueles com quem tinha mais contacto. Bas Dost, também cheguei a falar com ele. Não tive problemas com nenhum e sai como um exemplo, isso é que me deixa mais feliz. Porque tenho uma personalidade diferente dentro de campo. Quando entro dentro do clube sou diferente, não sou a pessoa que sou cá fora. Eu não brinco. Não me rio tanto quando se trata de coisas sérias. E se eu vejo que as coisas não estão a ir bem eu mudo a minha cara, sou muito sério, muito direto, sou rígido às vezes e há pessoas que não estão preparadas para receber uma mensagem forte. Mas fora, sou totalmente diferente, até pareço uma criança. Por isso é que às vezes não me levam tão a sério.

Não é verdade que disse ao Bruno Fernandes que "pela qualidade que tem, tinha de chutar melhor do que estava a chutar em alguns jogos"?
Isso já estão a pegar numa entrevista que eu dei. Mas ora veja lá isto: uma vez cheguei ao pé do Bruno Fernandes e estava a dar-lhe moral porque era um jogador que não estava a passar pelo seu melhor no Sporting. Sabíamos que ele tinha sido o melhor jogador no ano anterior e sabíamos que no seu melhor era uma mais valia para a equipa. E um dia cheguei ao pé dele- íamos jogar para a Taça com o Loures - sentei-me ao lado dele e disse: "Mano, estou a perceber que estás um pouco stressado, as coisas não estão a correr bem. Vi hoje no treino, a bola está a escorregar. Mano, às vezes nós estamos focados em certas coisas e naquilo em que a gente deve realmente focar-se, não estamos. Depois, quando vamos bater na bola e tentamos fazer aquilo que queremos dentro de campo, não conseguimos. Então, se fosse a ti, pela experiência que tenho, já passei pelo que estás a passar, experimenta isto: quando estás dentro do campo e vais passar a bola focar-te só na bola. Quando vais chutar a bola, bate só na bola, tu nem precisas tentar fazer a técnica, porque tu já chutas bem naturalmente". Ele ouvi-me e disse: "Mano obrigado pelo que me estás a dizer, tens razão". No dia a seguir foi o jogo e se vocês virem quando ele marca o golo, como é que a gente celebra o golo. A reação, a minha e a dele. "Eu disse-te". E ele abraça-me. Esse calhar foi o único problema que eu tive com ele (risos). Dá-me graça (risos). Não sei porque é que as pessoas inventam essas histórias. E a importância que as pessoas dão a este tipo de histórias quando sabem que não é verdade. Mas pronto, estamos aqui é para isso, para contar as histórias verdadeiras.

Depois da Turquia Nani representou o Valência

Depois da Turquia Nani representou o Valência

BIEL ALINO

Porque saiu do Sporting para os Orlando City?
Eu saio do Sporting porque achei que era o timing certo para dar mais espaço aos jovens como Jovane, Raphinha. Mas não foi a causa principal. Porque eu até nem queria sair do Sporting, por mim ficava até final da época. E se calhar no final da época teria outros planos, que já estavam na minha cabeça. Mas comecei a ouvir boatos de que o Sporting não estava bem financeiramente, iria faltar dinheiro para pagar aos jogadores. Comecei a ouvir isso, mas nunca ninguém me falou nada. Passado um certo tempo, chegaram ao pé de mim e disseram: "Estas pessoas vieram falar connosco, perguntar se podiam falar contigo, para saber se estarias interessado nisto e naquilo". Eu respondi: "Os meus planos não estão virados para aí neste momento, mas já ouvi uns boatos em relação às contabilidades do Sporting e se eu vou ser um problema para o Sporting daqui a um mês ou dois, eu não quero isso. Não quero ser um problema para o Sporting e não quero que o Sporting seja um problema para mim. Tenho de avaliar isso bem, se no final ficarmos todos contentes, eu tomo uma decisão". Avaliei, vi que era uma boa oferta, que o projecto era aliciante, havia a oportunidade de ir conhecer a América melhor... Decidi que aceitava e tirava um peso também dos responsáveis do Sporting porque era muito dinheiro realmente que eles tinham para lidar nos próximos seis meses.

O que lhe disse o presidente do Sporting?
Explicou-me a situação e eu disse-lhe: "Espero que fique bem claro que não é a minha prioridade sair agora. Eu entrei aqui com um objetivo, lutar até ao final da época pelos objetivos do Sporting e ajudar o Sporting a erguer-se". Eles disseram: "Sabemos de tudo isso, para nós como clube também nos custa, mas sabemos que és um jogador com quem não podemos falhar nesse aspeto". E eu também percebi esse lado e foi a melhor decisão.

Resumindo percebeu que mais cedo ou mais tarde ia haver ordenados em atraso.
E isso não é bonito. Ninguém gosta.

Foi essa a principal razão que o leva a ir para o EUA.
Sim, também o projeto era aliciante. Também gostei do que me apresentaram.

Mas disse que tinha outros projetos para o final da época?
Eu tinha contrato com o Sporting e queria ficar até final da época. Se tivesse de sair era no final da época, porque é assim que se faz, não a meio da época. Eu tinha contrato com o Sporting de dois anos e mais um de opção. Não estava nos meus planos sair já naquela época.

A foto que marcou o Europeu de 2016, o momento em que Cristiano é reconfortado por Nani depois de confirmar a lesão que o afastou da final

A foto que marcou o Europeu de 2016, o momento em que Cristiano é reconfortado por Nani depois de confirmar a lesão que o afastou da final

© Christian Hartmann / Reuters

Voltando à sua vida pessoal. Quando e como conhece a sua mulher, a Daniela?
A Daniela conheci antes de ir para Manchester, aqui em Portugal. Já conhecia o irmão dela e uma vez fomos sair e encontramo-nos numa discoteca, fomos apresentados.

O que ela fazia profissionalmente?
Naquela altura não tinha conhecimento. Ela vivia em Londres com os pais. Cresceu lá. Depois, passados uns meses, fui para Manchester e lá começamos a conviver.

Têm um filho, o Lucas.
Sim, vai fazer seis anos agora em dezembro.

Assistiu ao parto?
Assisti. Tinha de assistir. Foi em Manchester. Lembro-me que quando tivemos de ir para o hospital às cinco da manhã, fomos a correr, pensamos que ia acontecer tudo naquele momento e, quando chegámos, tivemos de nos aguentar até às dez da noite. Passei lá o dia inteiro. Quando fui a casa só para trocar de roupa, ligaram-me a dizer que tinha de ir rápido porque ia acontecer (risos).

É crente?
Sempre fui. Desde pequenino. Sempre pedi nas minhas caminhadas, muitas das vezes sozinho na rua, muita coisa a Deus e ele dava-me, tudo aquilo que eu pedia ele dava-me.

O que pedia?
Às vezes pedia só um euro para comprar um bolo (risos). E aquela moeda aparecia ali. Era incrível (risos). Sempre sonhei, sempre pedi a Deus para que me acompanhasse, para que me protegesse. Mas era muito inocente. Acho que era natural.

Excerto da entrevista de Nani à Tribuna Expresso

Se não fosse jogador de futebol tinha sido o quê?
Talvez um servente, carpinteiro (risos). Estou a brincar (risos). Não sei. Tenho jeito para adaptar-me, tenho habilidade para qualquer coisa. Acho que só o facto de tentar fazer, perder tempo a praticar e a aprender, acontece com naturalidade. Talvez naquela idade se me dedicasse a outra coisa, podia ser outra coisa.

Se pudesse escolher, o que escolhia?
Se calhar, cantor. Quando eu era miúdo um dos meus irmãos era muito amigo do Boss AC e nós ouvíamos muito as músicas dele. Até hoje ele é um grande amigo da família. Ele ia lá a casa, eu era miudinho e era muito fã dele. Tornámo-nos amigos.

De onde apareceu o salto mortal para festejar os golos?
Quando comecei a fazer capoeira na escola com os meus amigos. Muito rápido eu quis aprender o salto mortal porque via os meus primos e amigos a sair da escola e do nada metiam-se em cima de uma cadeira e, para trás, um mortal. Penduravam-se num muro e, para trás, um mortal. Eu via e perguntava: "Como é que eles fazem isso? Parece que têm mola nos pés". Interessei-me em aprender e enquanto não tivesse aprendido não parava. Cai, bati com as pernas, os joelhos, os dedos dos pés, cabeça... Já tive quedas perigosas. Mas quando somos crianças somos protegidos, né? E nada aconteceu, graças a Deus. Mas tive aventuras muito perigosas a tentar fazer os mortais, porque eu era muito destemido, queria sempre fazer o mais difícil.

Nani entre Fernando Santos que ergue a taça de Campeão Eurropeu e Pepe

Nani entre Fernando Santos que ergue a taça de Campeão Eurropeu e Pepe

Thanassis Stavrakis

É a pessoa de maior sucesso da sua família. Sentiu o peso e a responsabilidade de ajudar a família?
Como eu vejo as coisas é: os meus amigos chegados e a minha família são meus e eu sou deles. Lógico que é tudo feito com cabeça, controlado, tudo o que seja possível. Quando comecei a ganhar dinheiro a sério quis que os meus irmãos que cresceram comigo e que conhecia na altura tivessem uma casa onde pudessem viver e só se preocuparem em trabalhar para sustentar a sua própria casa e os seus filhos. Sempre que há possibilidades e que há necessidades, pode-se ajudar, mostrando que há que correr atrás das coisas também, que tudo vem com sacrifício.

Então comprou uma casa para cada um dos seus irmãos...
...Sim, comprei. Senti necessidade de partilhar com eles tudo o que a vida me deu, porque antes de ser quem sou, eu era o mais novo e era o rei da família e não era ninguém. Eu podia chegar a casa de uma irmã minha a que horas fosse e, quando chegava, a casa era minha, tivesse namorado ou marido ou não, ele não contava, quem tinha moral era eu - e eu era pequenino. Chegava lá, tinha de comer a papinha dos filhos dela (risos). Comia e ia-me embora. Essas coisas para mim não têm preço. A ligação que eu tenho com os meus irmãos. O carinho que eles demonstravam por mim desde sempre, a paciência que tiveram. As nossas histórias, as nossas dificuldades, por tudo aquilo que passámos.

O que foi mais difícil?
O mais difícil? Nós éramos muitos e não tínhamos o que comer, o que vestir, tínhamos de repetir sempre. O sapato já não existia, às vezes andávamos com o sapato todo roto, meias a fazer língua de gato, como a gente dizia. Condições para tomar banho, não tínhamos. Chegámos a viver numa casa, éramos muitos, aquela casa tinha um quarto, que era da minha mãe e do marido dela, tinha uma casa de banho que não tinha sanita, tinha uma banheira só, não tinha torneiras, nem chuveiro. Tinha uma cozinha e uma sala. A sala e a cozinha eram túneis de ratazanas e nós dormíamos na sala, uns no sofá e outros no chão. Passámos por isso tudo, passámos por momentos difíceis, mas que eram já um hábito e lutávamos todos os dias para que não se notasse tanto, mas em certos momentos era difícil.

Nunca sentiu quando era mais novo que ter de ajudar tanta gente era um fardo e uma responsabilidade muito grande?
Senti, senti e ainda sinto. Só que agora eu vejo as coisas de uma maneira diferente. Sei como lidar e responder. Às vezes se tiver de dizer um não, digo. Porque as pessoas têm de perceber que se [o dinheiro] acabar daqui, acaba para todo o lado. Mas é assim, nós temos de saber viver com aquilo que é nosso e, como eu disse, são meus e eu sou deles e nós temos de saber lidar com a vida de cada um. Eu sei lidar com a minha, eles têm de saber lidar com a deles, mas estamos aí, se precisarem de ajuda estamos sempre uns para os outros. Graças a Deus hoje em dia todos na minha família têm condições para batalhar, para lutar, têm um teto, têm o seu trabalho, têm os seus negócios, as suas coisas. Há dias maus, mas sabemos que isso acontece a qualquer pessoa.

Qual foi a situação mais complicada com que teve de lidar?
Isso não interessa. O mais importante são as coisas boas que se fazem. As que nos fazem perder horas de sono ou que alguma vez nos causou sensações más, não são importantes. Nós temos de saber é olhar para frente e ser positivos. Esse é o meu lema. Não gosto de guardar rancores, não gosto de estar a tocar nas coisas negativas porque graças a Deus, porque por tudo aquilo que tenho, sou abençoado. Tenho de ser feliz, tenho de ser contente, para que continue a ser.

Daniela e Lucas, mulher e filho de Nani, estiveram nas bancadas do Europeu 2016

Daniela e Lucas, mulher e filho de Nani, estiveram nas bancadas do Europeu 2016

Jean Paul Thomas

Onde ganhou mais dinheiro?
Eu digo que foi no futebol. Tudo o que tenho é o acumular de todos os lugares por onde passei. Tive sempre a preocupação de amealhar um bocadinho.

Investiu o dinheiro onde?
Nunca fui de me meter em negócios porque tive sempre o medo de perder. Uma coisinha aqui, outra ali, mas nada de outro mundo. Mas acredito que com o tempo e a experiência que já ganhei agora já consiga meter-me num negócio ou outro mais seguro. Mas não sou muito de negócios, nunca cometi o erro de alguns que se meteram em negócios e perderam metade das fortunas e o trabalho e o suor de uma vida.

O que é o projeto 360?
Foi algo que criei há alguns anos. Gostava de fazer sempre um torneio para os mais jovens, criar uma tarde diferente, divertida, com comida, com atividades, em que eu pudesse participar um bocado com eles. Depois, ao longo dos anos, fui desenvolvendo um pouco mais esse projeto. Isto na Amadora. Há pouco tempo tivemos a possibilidade de ir a Cabo Verde expandir por lá também porque sabemos que lá há muitas crianças que precisam. Fizemos uma coisa pequena mas teve um impacto muito grande no dia daquelas crianças. Gosto de sentir alegria nos outros.

A ideia é criar uma escola de futebol em Cabo Verde?
Eu tenho a ideia de criar uma escola de futebol já há muitos anos. Estou a ver ainda onde vai ser, onde há possibilidades e de que maneira porque não quero fazer e depois deixar as coisas acontecer sem um controlo. Quero fazer uma coisa como deve ser.

O seu filho tem jeito para o futebol?
Quem me conhece quando eu era da idade dele, costuma dizer que ele é igual a mim sem tirar nem pôr. Lembro-me que, quando era mais novo, também tinha o cabelo encaracolado, grande. E muitas vezes revejo-me nele em algumas atitudes, algumas brincadeiras ou sorrisos. Ele gosta de futebol, só que hoje me dia tem mais facilidades em poder ver ao vivo um basquetebol ou outro tipo de desporto - e ele gosta de fazer e eu não impeço. Ele tem que se divertir. Quando quer jogar futebol, joga, quando não quer, não joga. Não há que forçar.

Ele torce por algum clube?
Sim, pelo Sporting.

É verdade que gosta de novelas?
Para ser sincero neste momento já não ligo tanto, porque como estou a viver lá fora já não vejo muita televisão e foco-me mais no dia-a-dia. Mas gostava muito de seguir as novelas brasileiras, é verdade.

Houve alguma que o tenha marcado mais?
A "Avenida Brasil" foi uma das que me marcou.

Ouvi dizer que não gosta que o acordem.
Se estiver muito cansado e tiver de me deitar, não me toquem porque senão vou acordar bem mal-disposto (risos).

Depois da Espanha, Nani foi jogar para a Lazio, em Itália

Depois da Espanha, Nani foi jogar para a Lazio, em Itália

Marco Rosi

Qual foi a pior partida que lhe fizeram?
O meu irmão fazia-me muitas. Quando eu dormia ele enrolava papelinhos, molhava e depois metia-me na orelha no nariz e eu pensava que eram mosquitos ou moscas e ficava horas e horas a gozar com a minha cara (risos).

Não se lembra de nenhuma partida que tenha feito ou que lhe tenham feito no futebol?
Lembro-me que o Gerard Piqué era muito brincalhão e um dia eu, o Evra e mais alguns companheiros decidimos pegar numa t-shirt dele e vestimos um dos bonecos da barreira com a t-shirt dele e começámos a chutar as bolas naquela t-shirt. Toda a gente, pum, pum, pum. Ele chega ao campo, vê aquilo e começa também a chutar e depois é que lhe dá um clique: "De quem é essa t-shirt?" Quando deu conta que era a t-shirt dele começou a insultar toda a gente (risos), mas só depois de ter chutado umas três, quatro bolas na sua própria t-shirt. Lembro-me de uma outra que fizemos ao Anderson. O Anderson vestia-se para o treino, não interessava o dia, se estava a chover ou sol, ele ia de calção pantufa, óculos escuros e t-shirt. Chegava cheio de estilo ao balneário. E a malta um dia disse-lhe: se voltas a vir com essas pantufa para o treino vais ver. Ele voltou a vir com a pantufa. E fizemos um buraco à frente na pantufa, via-se bem que estava queimado. Ele quando viu aquilo, ficou todo lixado, começou a mandar vir com todos. Mas no dia a seguir voltou com a mesma pantufa, queimada (risos).

Tem tatuagens?
Tenho.

Qual foi a primeira?
É o nome de família, Almeida, da parte da minha mãe. A outra é na perna, é um desenho de uma foto minha com o meu filho de mão dada no Fenerbahçe.

Pensa fazer mais?
Sim (hesita). Talvez. Tenho de ganhar coragem outra vez porque dói.

Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?
Talvez quando mudo de Portugal para Manchester. Saio do meu país pela primeira vez, para ir viver sozinho. Fiquei um bocado na expectativa. Eu não sabia falar outra língua. Ter a noção de como é que era viver sonho num país em que não conheces a cultura, não conheces nada.

O que gostou mais e menos de Inglaterra?
Menos: o clima. Aquilo dia e noite chovia, muito frio. Mas ao longo dos anos acostumas-te. Só que depois vens a Portugal e está sol e perguntas-te: "O que é que eu estou a fazer ali?" (risos). A coisa boa foi a experiência que tive.

Ficou com algum hábito dos ingleses?
O hábito de beber chá. Passei a beber chá com leite e virei uma pessoa que bebe chá com frequência. Basta estar frio.

E dos outros países?
Na Turquia também têm o hábito do chá mas do que gostei foi do baklava.

Ainda continua a gostar muito de doces?
Gosto, gosto muito. Mas já controlo.

Cuida-se muito e tem feito vídeos sobre a sua preparação física. Inclusive até boxe tem feito nos EUA.
Eu já tinha feito boxe uma vez ou outra em Portugal com os amigos e eu queria muito. Quando cheguei à Turquia fiz amizade com um rapaz que era professor de kickboxing e comecei a treinar diariamente com eles e estava a gostar dos resultados. Estava a ajudar-me muito na minha performance, na minha resistência. Passei a treinar sempre, ganhei-lhe o gosto e fiz um ano espectacular lá com ele a treinar. E quis sempre treinar. Agora quando cheguei nos EUA arranjei uma pessoa.

Como surgiu a ideia de fazer vídeos com as suas dicas e momentos de treino?
Eu não era muito disso, mas desde que comecei a trabalhar com uma equipa muito boa da Empower Sports, eles ensinaram-me como trabalhar a imagem e valorizar as coisas boas que fazemos, porque hoje em dia funciona assim. E depois tomas o gosto.

Nani com a mulher e o filho Lucas, no estádio dos Orlando City

Nani com a mulher e o filho Lucas, no estádio dos Orlando City

D.R.

Já pensou no pós-carreira, no que quer fazer quando tiver de pendurar as botas?
Ainda não. Passa-me muita coisa pela cabeça. No final das contas acabo por dizer sempre a mim próprio: "Tranquilo, quando chegar o momento focas-te naquilo que queres e vais e tentas e fazes. Se der, deu; se não der, vai para outro lado, vai apanhar sol". Porque neste momento não posso desviar o meu foco daquilo que tenho de fazer e nós, jogadores de alta competição, de alto nível, sabemos que se queremos manter um nível, não podemos desviar o foco, apesar de haver muita a gente a dizer que temos de começar a preparar o futuro.

Tem alguma meta definida para parar de jogar?
Não. A minha meta é cada dia ser mais forte, trabalhar para poder estar sempre me forma e continuar a fazer o que sempre fiz. Continuar a ser atrativo no campo, para que as pessoas continuem a dizer que sou bom jogador, ainda rápido, ágil. Esse é o meu objetivo. É esse o meu foco e isso tira-nos muito tempo. Não há tempo para outras coisas.

Espera ainda voltar à seleção?
Acho que há possibilidades. é uma decisão. Se o selecionador achar no momento que precisa de mim, que sou uma mais valia naquela altura, será possível. Neste momento têm havido outras opções, os jogadores que têm ido têm respondido da melhor maneira. São jogadores de talento, que estão a crescer, que com certeza vão ser o futuro da nessa seleção como eu já fui há uns anos. Levo isso com naturalidade.

Nem se sente magoado?
Não, porque já fiz muito pela seleção. Joguei muitos jogos. O meu nome está lá na lista dos mais internacionais. Marquei muitos golos. Dei muitas alegrias à seleção e ao povo. Se me perguntar: achas que ainda podes dar algo semelhante ou dar mais algum contributo?. Respondo: com certeza, porque estou a jogar, estou a jogar bem, estou em boa forma, estou numa idade em que ainda posso produzir o meu melhor futebol. Mas, depende sempre de decisões e nós temos de respeitar as decisões do momento. Mas isso não significa que as decisões do futuro não passem por mim.

O facto de estar nos EUA e não num campeonato europeu pode prejudicá-lo?
Não. Nós vimos que houve jogadores que jogaram em campeonatos mais distantes e continuaram a ser chamados. Não é por aí. O selecionador já mostrou que, quando precisa dos jogadores, chama-os. Nunca tive nenhum problema com Fernando Santos e foi sempre um treinador que mostrou admiração pela minha disponibilidade em todos os jogos, qual fosse a posição que ele precisasse. Ele sabe que pode contar comigo e como funciona a minha cabeça, por isso nunca teria problema em chamar-me se precisasse. Há tempo. Vou começar uma nova época em janeiro, tenho tempo para me preparar, dar o meu melhor e demonstrar se realmente mereço ser chamado ou não.

Não pensa terminar a carreira nos Orlando City pois não?
Eu aprendi uma coisa, eu não posso antecipar as coisas. À medida que os anos vão passando, as decisões vão começando a aparecer. Neste momento sinto-me feliz onde estou, gosto da qualidade de vida, do clube, de tudo o que está a acontecer à minha volta, por isso não posso dizer o dia de amanhã.

Com quem fez maior amizade no futebol?
No Sporting, eu, Yannick e Miguel Veloso, até hoje temos uma boa relação, falamos muito por telefone, estamos sempre a apoiar-nos uns aos outros. No futebol foram aqueles com quem, desde pequeno, sempre tive o melhor relacionamento, por termos crescido juntos. No estrangeiro, jogadores do estrangeiro, o equatoriano António Valencia e o Patrice Evra; jogámos muitos anos juntos e chorámos juntos, partilhámos momentos delicados e ganhámos o respeito uns dos outros e até hoje mantemos o contacto.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Gastar dinheiro? As únicas coisas em que gastei dinheiro a sério foi comprar um carro.

De que carro está a falar?
O Ferrari 448. Mas acho que isso não é extravagância, é comprar um carro.

Tem algum hóbi? Alguma coisa que goste muito de fazer para além do futebol?
Gosto muito de jogar ténis, mas não tenho tempo. Gosto de jogar ping-pong mas também não tenho tempo.

Quem mais admira no ténis?
Sou muito fã do Nadal. Tive uma vez a oportunidade de presenciar uma final em Londres e pude tirar uma foto com ele, fiquei muito feliz.

Nani com o filho Lucas nos EUA

Nani com o filho Lucas nos EUA

D.R.

Alguma vez foi vítima de racismo?
Graças a Deus, não. Às vezes uma palavrinha lá atrás, mas nem chega a atingir. Assim, cara a cara, não. Já sou muito viajado, convivi com várias culturas. E, quando convives com muitas culturas diferentes, aprendes a lidar e a estar no meio delas, por isso quando aparecem situações dessas tu ignoras, nem dás importância a esse tipo de pessoas, porque nós sabemos que em toda a parte do mundo há esse tipo de pessoas. Agora, se uma pessoa te confrontar diretamente, isso é diferente. Tudo o que é bocas indiretas, tento sempre desviar e olhar para quem importa.

Qual é o seu maior medo?
Tenho muitos medos, mas não são grandes. Eu sou um tipo de pessoa que posso ter medo, mas se aparecer o momento eu já não tenho medo, porque eu sei adaptar-me à situação. E quando me aparece alguma coisa que não estava à espera, a única coisa que me passa pela cabeça é como é que vou resolver. Aprendi isso. Quando eu era pequeno às vezes aleijava-me, eu era um mariquinhas, bastava ver sangue era gritos, desesperava, até que, tantas vezes que depois, se tornou um hábito. Chegou um ponto em que quando as coisas me aconteciam e eu estava sozinho, eu parava e pensava: "Não, não há pânico. O que é que eu tenho de fazer?" E comecei a desenrascar-me sozinho e ganhei aquele sangue frio que é necessário.

Quem foi o treinador que mais o marcou?
Tive uns quantos. Eu não me esqueço das pessoas. Tive treinadores desde o Real Massamá que muito me ajudaram. E por isso gosto de falar o nome deles. Quando estava no Real Massamá tive uns quantos treinadores e todos eles tinham uma preocupação que era levar-me a casa, se eu já tinha comido; se sobrava roupa dos filhos, davam-me; se tinham uma Playstation ou videogame que já não usavam, davam-me. Eu era mais um filho para eles. Era rebelde e malcriado muitas vezes, e eles olhavam para mim como um filho e corrigiam-me como um filho. Punham-me de castigo, davam-me na cabeça. Esses treinadores marcaram-me muito. E, depois, quando vim para o Sporting, o João Couto e o Paulo Bento marcara-me muito. O Paulo Bento marcou-me porque estive com ele na liga principal e na seleção, temos muita história. Ele também foi uma das pessoas que foi muitas vezes levar-me a casa, pagou-me mil e uma vezes o táxi quando eu me atrasava e não apanhava o autocarro do clube no Campo Grande. Eu chegava e dizia: "Mister tive de apanhar táxi". E ele "Quanto é que é?". Pagava e depois dizia-me "depois pagas um jantar". Ele dizia na brincadeira, mas por dentro estava chateado porque eu não me podia atrasar. Muitas vezes ele veio falar comigo sobre comportamentos errados meus para o qual o tinham alertado.

Que comportamento eram esses?
Por exemplo, tirar as chuteiras de um colega e dizer que eram minhas porque me tinham emprestado. Ou seja, um colega emprestava-me, mas depois emprestava a outro e quando esse vinha buscar, eu não dava, dizia que a chuteira era minha (risos). Ficava com as chuteiras porque eram boas e não tinha outras e só as dava quando vinha mesmo o dono buscá-las.

Quando é que dentro de si houve esse clique, essa mudança de atitude de comportamento?
Quando as coisas começam a acontecer. Quando o Sporting faz o contrato comigo. Fui aos EUA, fazer uma visita a um núcleo leonino e eu senti-me privilegiado. Quando voltei e comecei a jogar, tudo mudou. Eu senti que havia algo diferente. Quando ganhámos o campeonato de juniores, com o mister Paulo Bento, e fui escolhido para fazer a pré-época, aí tudo mudou: cheguei à equipa principal. Aí cai tudo. Quando vês os teus colegas a irem embora porque chegaram ao final do contrato e não quiseram renovar ou fazer contrato profissional e tu és dos poucos que foste escolhido... . Isso aí mexe.