Tribuna Expresso

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A casa às costas

"A festejar o Europeu um jogador deu um pontapé na parede e ficou com a perna presa. Cada um que entrava no quarto, em vez de ajudar ria-se"

João Paiva começou no Olivais e Moscavide, passou para o Sporting e, aos 36 anos, confessa que a maior frustração da carreira foi não ter conseguido vingar na equipa principal do clube de Alvalade. Ainda assim, garante que não trocava nada do que tem agora por isso. Depois de épocas menos felizes no Marítimo e no SC Espinho e de histórias mal contadas com empresários, aventurou-se e nunca mais voltou. Começou pelo Chipre, onde diz ter feito a melhor época de sempre, que culminou com o título de campeão e o de "cozinheiro do Apoel". Mas foi na Suíça que criou raízes e construiu o futuro. Nesta entrevista conta histórias do Europeu sub-16, em 2000, e de como pegou fogo a uma cozinha, entre outras. Tem um curso de gestão desportiva, um Master em coaching do Instituto Johan Cruyff e está a tirar o nivel UEFA A do curso de treinador, função que já desempenha

Alexandra Simões de Abreu

EuroFootball

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Vamos começar pela família.
Tenho um irmão seis anos e meio mais velho do que eu. O meu pai era professor de educação física e tirou a especialidade em futebol. Foi treinador de futebol e depois passou a ser coordenador de futebol no Sporting, ainda chegou a ser responsável pela Academia, em Alcochete, nos primeiros anos. Agora está reformado, tanto do futebol como da escola. A minha mãe trabalhava na IBM desde os 18 anos. Na altura não havia cursos de informática nas faculdades e ela foi tirando as especialidades através da empresa. Durante muitos anos foi vendedora dos computadores grandes para bancos.

Cresceu em que zona de Lisboa?
Até aos meus dois anos vivi na Buraca, depois fomos viver para a Portela de Sacavém, onde passei a minha infância e adolescência. Quando me mudei para a Academia do Sporting, já mais velho, comprei uma casa no Montijo para ficar mais perto.

Torcia por algum clube?
Torci sempre pelo Sporting. Essa foi a coisa a que o meu pai e avô me incentivaram mais, a torcer pelo Sporting. Mais do que a jogar. Jogar foi espontâneo porque o meu pai estava bastante ocupado e não me podia incentivar e levar ali ou acolá. Foi até a minha mãe que começou a levar-me aos treinos. Mas primeiro comecei por jogar com os amigos dos meus irmãos, que eram todos mais velhos, dava-me um grande gozo jogar com eles por serem mais velhos.

Na escola que tipo de aluno era?
Gostava da escola, nunca chumbei nenhum ano, fui sempre um excelente aluno. Claro que a partir dos 16 anos tive mais dificuldades, por falta de tempo para estudar mas consegui conciliar o estudo até entrar na faculdade, no curso de medicina dentária. No 12º ano fui estudar à noite porque já era profissional, entrei na faculdade, só que tive de congelar a matrícula. Nunca consegui voltar a Lisboa para completar o curso. As prioridades também foram mudando e agora com 33 anos fiz um bacharelato em gestão de desporto, numa faculdade na Dinamarca, via online. Acabei também por ter um curso universitário.

João Paiva em criança

João Paiva em criança

D.R.

O primeiro clube para onde vai é o Sporting ou antes jogou em algum clube de bairro?
Aos domingos, na Portela, havia o futsal, que naquele tempo era futebol de salão, mas não tínhamos salão, era no exterior. Isto com sete, oito anos e fiz isso até aos 10 anos, altura em que comecei a jogar futebol de 11 e fui para o Olivais e Moscavide, onde joguei dois anos. Inicialmente era mais por diversão, depois comecei a aperceber-me que era muito superior aos outros e procurei ir para outros clubes. Inicialmente surgiu a possibilidade de ir para o Benfica mas como eu era um grande apaixonado pelo Sporting, num jogo contra o Sporting fiz uma boa prestação, eles ficaram interessados e fui para o Sporting.

Quando era pequenino, o que dizia que queria ser?
Não me lembro muito bem, mas lembro-me que tive uma negociação muito grande com a minha mãe durante anos. Sempre lhe disse que se não fosse um grande jogador de futebol, faria os estudos. Aos 16 anos quando fui campeão europeu disse-lhe que achava que ia ser um grande jogador e seguir a carreira profissional. Mas sempre tive o gosto por muita coisa, sempre me interessou a medicina, nem sei bem porquê. E só acreditei mesmo que iria ser jogador de futebol quando cheguei ao Sporting com 12 anos. Mas não teria sido infeliz se tivesse feito outra coisa, se bem que o futebol é, sem dúvida, para quem jogou, o concretizar de um sonho. Poder fazer de profissão a coisa de que mais se gosta...

Era uma criança sossegada?
Sossegado não era a palavra para mim (risos). E agora tenho gémeos de cinco anos e estou a pagar a fatura (risos).

Lembra-se de alguma traquinice que tivesse feito e que lhe tivesse custado mais caro?
Não me lembro de ter dado grandes chatices ao meu pai, acho que o meu irmão fazia coisas piores. Mas eram outros tempos, eu passava a vida na rua a jogar futebol até às onze da noite. A urbanização da Portela era bastante segura e ficávamos na rua uns com os outros. Tive algumas peripécias... Uma vez partimos o vidro da vizinha com um berlinde atirado por uma fisga. A polícia foi fazer uma visita a mim e ao meu irmão que estávamos sozinhos em casa. Eu com uns 10 anos e o meu irmão com 16. Aquilo tinha feito um furo pequenino na janela e os vizinhos acharam que alguém tinha tentado disparar uma arma. Essa foi uma das histórias, mas de resto eram coisas normais. Traquina mas relativamente bem comportado.

O seu irmão não quis seguir o futebol?
O meu irmão também jogou mas interessou-se mais pelo futsal porque na Portela o futsal foi sempre muito popular. Na baliza ainda jogou nos juniores do Sporting, que era o única equipa grande que tinha futsal, mas depois desistiu.

João (3º a partir da equerda) com a equipa do Olivias e Moscavide

João (3º a partir da equerda) com a equipa do Olivias e Moscavide

D.R.

Disse que foi para o Sporting com 12 anos. Lembra-se do primeiro dia em que lá entrou?
Do primeiro dia em si, não. Mas lembro-me do momento mais marcante, que foi quando vesti a camisola no primeiro jogo. Não me lembro propriamente do jogo em si, nem como correu, mas lembro-me do ambiente na cabine, iam miúdos de todo o lado, eu que estava habituado a miúdos só ali da minha zona, que já conhecia... Também me lembro que eram muito bons, eram muito melhores do que aqueles com quem eu jogava. Era outra exigência e fiquei completamente apaixonado, percebi logo que tinha sido a escolha certa, senti como um sonho a ser realizado.

Qual foi o primeiro dinheiro que ganhou com o futebol?
Eles pagavam o passe, se bem que eu nem sempre o utilizava porque a minha mãe levava-me aos treinos. Tirando isso, o primeiro contrato profissional que fiz foi com 15 anos e, não quero mentir, mas acho que eram 150 contos (750€).

O que fez com esse dinheiro?
Eu era muito poupado, acho que não fiz nada. Quando era miúdo juntava o dinheiro todo. Mas lembro-me que devo ter ido fazer uma viagem, com 16 anos.

Com quem?
Com amigos, fomos ao Algarve. Tenho de dizer que na realidade também vivi numa família onde nunca me faltou nada. Podia ficar com o dinheiro só para mim, para o que eu quisesse fazer. Nunca precisei de ficar à espera do primeiro trabalho para comprar alguma coisa, se eu quisesse podia pedir aos meus pais. Mas de certeza que na altura comprei umas roupas mais caras ou fui ao cinema com uma namorada ou jantar a um restaurante mais caro. Mas poupava muito, devia ficar com 80, 90% do salário anual na conta. (risos)

As primeiras saídas à noite começam quando?
Devem ter sido por volta dessa altura, dos 16 anos. Fui com amigos da escola, um grupo de amigos que ainda tenho hoje, apesar de estar há 14, 15 anos fora do país. As primeiras saídas foram sempre supervisionadas pelo meu irmão que ia para a mesma discoteca e ficava a ver se eu me portava bem. Antes, com 14 anos, foi aquela loucura da Expo e nós íamos para lá todos os dias porque ficava mesmo ao lado da minha casa e fechava às onze, meia noite. A partir de uma certa altura comecei a pensar que não podia sair à noite porque tinha de estar bem para o fim de semana, e tinha de estudar, comecei a sair menos vezes.

Quem foram os primeiros amigos no Sporting?
O Miguel Garcia, ele veio um ano depois de eu estar no Sporting. Na altura também era bastante amigo do Carlos Marques, também fiz uma boa amizade com o Quaresma, com o Lourenço, jogadores que me acompanharam durante muitos anos. Também tinha dois ou três amigos que tinham vindo comigo do Olivais Moscavide, um deles é o Tiago Larião que depois fez telenovelas. Também fiz amizade com o Pedro Monteiro, neto do Jesus Correia. Mas com o Miguel Garcia, Hugo Valdir e Hugo Viana ficou amizade até hoje.

O Quaresma nessa altura já era especial?
Sim, o Quaresma era especial, sempre foi especial. Era muito irreverente, também tinha as suas dificuldades. A mim sempre me surpreendeu como é que ele vinha sozinho com 12, 13 anos da Costa da Caparica. Eu que não tinha essa vida, surpreendia-me a força de vontade que ele tinha. Mas ele era especial, com uma qualidade acima da média. Jogámos muitos anos juntos, ainda houve alturas em que andámos meio picados para ver quem era o melhor, quem marcava mais golos, mas sempre em prol da equipa. Para mim foi bom ver e perceber que havia outras crianças com vidas diferentes da minha e que tínhamos de estar ali todos juntos a aprender uns com os outros.

João (à esquerda) com um colega, na seleção de Loures

João (à esquerda) com um colega, na seleção de Loures

D.R.

Quando se estreia numa seleção?
A primeira vez que fui chamado foi para um torneio interassocições de sub-14, que nesse ano foi em Fátima, fomos à final com o Porto e fui o melhor marcador. Fizemos um estágio nos sub-15 e fomos jogar dois jogos a França, em Marselha, e ganhámos os dois jogos.

E foi campeão europeu em 2000.
Nos sub-15 conseguimos uma medalha de prata para Portugal nos Jogos Olímpicos da Juventude na Dinamarca. Nos sub-16 fizemos uma qualificação excelente em Portugal e depois fomos a Israel onde fomos campeões europeus. Tivemos uma geração muito boa nessa altura. Não me lembro de outro grupo que fosse tão bom em termos de camaradagem e de amizade uns com os outros como aquele.

Vocês faziam muitas partidas uns aos outros quando andavam nesses estágios e nessas viagens?
Muitas. Isso são histórias… (risos)

Não pode contar uma ou duas?
Por exemplo, nesse Europeu, ganhámos à Alemanha nos quartos de final em penáltis e depois tínhamos uns quatro ou cinco dias livres para a meia-final com a Grécia. Em Israel, no verão, estavam uns 40 graus e o treinador avisou-nos que tínhamos de estar nos quartos, sossegados, não podíamos sair. Nós estávamos num hotel mesmo em frente à praia mas não podíamos ir porque havia o risco de ficarmos cansados, apanharmos sol, etc… . Claro que com 16 anos ninguém ouviu o que o treinador disse (risos). Sempre que havia uma oportunidade de descanso, estava o pessoal todo na praia. Entretanto o Quaresma apanhou uma insolação e ficou doente a dois dias da meia-final. O treinador ficou um bocadinho desconfiado. O médico viu que ele tinha apanhado muito sol, mas como tínhamos treinado em horários diferentes para não apanhar muito sol, percebeu que ele tinha ido à praia. O Quaresma não se descoseu, não entregou ninguém, mas achou que mesmo doente ia jogar a meia-final e ficou estupefacto quando viu que não ia jogar (risos). O treinador meteu-o no banco. Resumindo e concluíndo, estávamos a perder, ao intervalo o Quaresma entrou, fez uma segunda parte inacreditável, duas assistências, passámos à final, na final ele marcou dois golos e fomos campeões da Europa. Ou seja, a insolação é que lhe deu a ignição para jogar bem (risos).

Não faziam partidas nos quartos uns dos outros também?
Tivemos uma história com outro jogador que não conseguiu chegar a altos patamares e que era um ponta de lança do Porto. Nos festejos de termos sido campeões da Europa, a malta foi para os quartos e começou a saltar para festejar. Ele excitou-se demais e deu um pontapé na parede, só que as paredes eram daquelas paredes como têm os americanos, tipo cartão e ele entrou dentro da parede. Meteu a perna toda dentro da parede e ficou lá preso. Aquilo foi uma risota. Ele depois começou a chorar a pensar que nunca mais ia à seleção por ter feito aquilo, da festa passou ao desespero e nós fomos chamar outros para ver como é que podíamos resolver a situação. Só que cada um que vinha em vez de ajudar, sentava-se em cima da cama a rir. O rapaz deve ter ficado uns 20 minutos dentro da parede (risos). A sorte dele é que tínhamos ganho e quando fomos falar com o treinador ou com o diretor aquilo lá se resolveu.

Quando havia castigos, que tipo de castigos eram?
O maior medo dos jogadores nessa idade é não voltar mais à seleção. Porque não ir treinar uma vez ou ser punido com umas corridas a mais, isso para um jogador de 16, 17 anos tanto faz, tem corpo, vai correr, não há problema. O grande medo era não voltar mais por acto de indisciplina.

Isso alguma vez aconteceu, que tenha tido conhecimento?
Que me lembre enquanto estive na seleção, e inclusive nos sub-20 fui capitão durante algum tempo porque era o jogador com mais internacionalizações, não houve nenhum caso de alguém ter sido expulso ou que não tivesse vindo mais à seleção por motivos disciplinares. Na verdade a seleção tinha treinadores que para além de serem bons técnicos, tinham experiência como professores e por isso sabiam lidar muito bem connosco. O António Violante que foi nosso treinador quando fomos campeões da Europa e o Silveira Ramos, o Agostinho Oliveira, eram pessoas que sabiam muito bem como lidar com os jovens. Nós sabíamos o que era ter disciplina e que havia sempre ali uma margem para fazermos qualquer coisa. Quem passou pelas seleções jovens teve sempre uma boa experiência. Não sei como é agora mas na altura era uma plataforma excelente e os jogadores adoravam ir à seleção.

De férias em Ibiza

De férias em Ibiza

D.R.

Entretanto em 2003 o João é o herói de Toulon, entra e marca dois golos...
Herói para quem gosta de meter esses títulos. Eu sempre achei que esse torneio e esses dois golos foram a razão para as coisas terem corrido depois menos bem.

Explique lá isso.
Eu tinha feito uma época excelente, na teoria deveria ter jogado esse torneio a titular, e não o Hugo Almeida, porque fiz todos os jogos da seleção a titular. Mas aí entra a outra parte do futebol que comecei a conhecer, onde às vezes existem outros fatores que até essa altura não me tinha apercebido. Foi uma história complicada. Eu estava a acabar contrato com o Sporting e queria renovar, sempre quis. Sempre foi o meu sonho jogar na equipa principal do Sporting. O Sporting queria renovar mas queria uma coisa diferente da minha e nós estávamos numa negociação relativamente saudável. Esse torneio de Toulon era uma plataforma e o Sporting não queria que eu fosse a essa plataforma jogar sem contrato e fez de tudo para que eu não jogasse nesse torneio. Tanto que eu só joguei no último jogo porque realmente a seleção precisou. Eu tinha-me preparado muito bem para esse torneio, os golos aconteceram também porque eu estava muito bem preparado, mas também pelo factor sorte. Da primeira vez que toquei na bola fiz golo.

Mas porque é que o Sporting não queria que jogasse?
Porque eu estava sem contrato e se jogasse e estivesse bem, podia sair a custo zero.

O que é que estava em discussão em cima da mesa?
O que estava em discussão era o simples facto de eu querer ficar no plantel da equipa principal, ou seja, queria fazer a pré-temporada e o Sporting queria emprestar-me à Académica. Nunca foi uma questão de valores, era mais uma questão de eu querer saber se o Sporting contava comigo ou não. Na altura o Sporting tinha o Mário Jardel a titular, mas ele também tinha tido alguns problemas bem conhecidos e eu achava que pelo menos podia fazer a pré-temporada com o mister Fernando Santos. O que nunca veio a acontecer porque o mister Fernando Santos chegou e eu já tinha saído. Eu saí também porque não gostei do processo todo. Entretanto fiquei a saber que o Sporting tinha influenciado o selecionador para que eu não jogasse e eu senti-me atraiçoado pelo clube de que gostava.

Quem era o diretor desportivo do Sporting nessa altura?
Era o Carlos Freitas e no futebol juvenil quem tinha o controlo da equipa B era o Jean Paul e o Torcato.

Como acabou essa história?
Acabou com a minha saída do Sporting por iniciativa própria, um bocadinho pelo facto de estar um pouco magoado. Quando voltei de Toulon o Sporting tentou falar comigo, mas eu aí eu já sabia o que é que tinha acontecido e acaba com a minha saída do Sporting, provavelmente precipitada. Fui um bom jogador da formação do Sporting, até hoje acho que sou um dos melhores marcadores da formação do Sporting, se não o melhor, na altura era o que tinha mais golos. Tinha 20 anos.

No dia do seu 15º aniversário, antes de um jogo Sporting-Benfica

No dia do seu 15º aniversário, antes de um jogo Sporting-Benfica

D.R.

Entretanto foi emprestado ao Marítimo.
A história do Marítimo tem a ver com o meu empresário, o Jorge Mendes. Ele explicou-me que para irmos para Itália, para a Lazio de Roma, tínhamos de fazer uma ponte pelo Marítimo, para eu jogar na I divisão. Aí começou a história do diz A, diz B… Se calhar o maior falhanço da minha carreira foi ter ido para o Marítimo, porque é um clube que não está apto para ajudar, é um clube que espera mais que os jogadores o ajudem a ele.

Quando o João vai para o Marítimo ainda tinha contrato com o Sporting ou não?
Já tinha terminado no verão, mas o Marítimo ainda teve de pagar ao Sporting os meus direitos de formação. Eu fui para o Marítimo porque estava lá o Dani, que era meu amigo, tinha estado no Sporting e foi emprestado ao Marítimo. Ele tinha terminado o torneio de Toulon comigo e quando soube da minha situação, ligou-me: “Vem para aqui, aqui é bom, jogas comigo e fazemos uma data de golos. O Jorge (que era o mesmo empresário) ajuda, faz o processo e tal”. E foi assim.

Disse que o Jorge Mendes tinha-lhe falado na hipótese de ir para a Lazio. Por que é que isso não aconteceu?
Não aconteceu porque eu nunca joguei no Marítimo.

Porquê?
Fui apresentado e no segundo dia o treinador, o Manuel Cajuda, disse-me que não contava comigo, que iria ser muito difícil eu jogar. Nem percebi, já tinha assinado o contrato. Comuniquei a situação, falei com o Jorge Mendes, falei com o presidente e ele disse-me que era para eu continuar, que iria jogar, mas depois o que se veio a ver foi que estive um ano inteiro no Marítimo, nunca joguei e o curioso é que me mandaram para a equipa B do Marítimo. Se eu soubesse que ia para o Marítimo B, nunca teria saído do Sporting B, para isso tinha ficado lá, com todo o respeito que tenho pelos outros clubes.

Jogou na equipa B do Marítimo.
Comecei a jogar na equipa B e a jogar bem. O único jogo da equipa B que não joguei foi quando foram jogar contra o Sporting B. Nessa semana fui convocado para a equipa A e fiquei o jogo todo no banco. Na semana seguinte fui outra vez para a equipa B. Foi uma coisa bastante... curiosa. E isto tudo porque o Sporting B nessa altura estava a lutar para não descer. Se o Marítimo B tivesse ganho, na Academia, o Sporting B tinha descido de divisão nesse dia. Houve aí, sei lá, não vou dizer um arranjinho mas...

Uma coincidência?
Uma coincidência muito coincidente (risos).

Na primeira chamada à seleção nacional

Na primeira chamada à seleção nacional

D.R.

Não questionou também o Jorge Mendes?
Questionei mas foi na altura que o Jorge começou a delegar coisas a outros ajudantes que tinha e começou, como hei-de dizer, o jogo do gato e do rato. Eu ligava mas não o encontrava. Ele lidava já com coisas enormes, gigantes da Lazio e eu queria falar com ele sobre o problema do Manuel Cajuda me ter dito desde o início que eu não jogava. Entretanto ele foi à Madeira e foi ter com o presidente. No dia na reunião, ele disse-me “a partir de amanhã as coisas vão mudar” e mudaram, mas para pior, muito pior. Foi nessa altura que, passado uma semana, fui posto na equipa B. A equipa do Marítimo era uma equipa excelente que fazia bons resultados e por isso o treinador também nunca foi questionado porque é que não me punha a jogar.

Nunca abordou o Manuel Cajuda?
Eu perguntei várias vezes, só que as respostas eram sempre as mesmas, “tens de trabalhar mais”. A mim, que nunca fui tido como um jogador que não trabalhasse. E todas aquelas conversas começaram a não me cheirar bem. Sempre disse, o treinador escolhe e eu tenho de treinar para ser melhor do que os outros, só que chegou uma altura em que via que já não chegava ser melhor que os outros todos no treino e percebi que alguma coisa não estava bem.

Chegou a perceber o que é que não estava bem?
Eu sei mas como tudo na vida, há coisas das quais não podemos falar em público quando não temos provas concretas, mas tenho 99% de certeza do que aconteceu. Agora não posso garantir, mas tem tudo para parecer que o Sporting não queria que eu triunfasse, principalmente em Portugal. O Sporting não queria que eu saísse. Na altura tive oportunidade de falar com o FCP mas houve maneira de não ir para o Porto. Porque ia haver problema e que não seria bom. Não sei se o Jorge não estava metido ao barulho...Se formos ver o historial no verão o Sporting vende o Cristiano Ronaldo. E não sei o que é que aconteceu nessas conversas, não posso garantir, nem quero falar nisso porque agora já estou noutra, mas a verdade é que houve aí muita coisa.

A maior frustração de João Paiva foi não ter conseguido vingar na equipa principal do Sporting

A maior frustração de João Paiva foi não ter conseguido vingar na equipa principal do Sporting

D.R.

Como vai parar a Espinho?
Porque no verão disse ao presidente do Marítimo que já não voltava mais, tinha mais quatro anos de contrato mas disse que não voltava mais. Entretanto eu tinha contrato com o Jorge Mendes mas ele nunca mais ligou, esteve seis, sete meses sem dizer nada e o Francisco Barão, que me conhecia das camadas jovens do Sporting e era o treinador do SC Espinho, perguntou-me se eu queria ir para lá jogar. Na verdade não me atraía muito a II Liga mas eu queria era arranjar uma solução para não voltar para a Madeira.

Ainda a propósito de Madeira, quando vai para o Marítimo é a primeira vez que deixa a casa dos pais.
É.

Foi complicado? Foi viver para onde?
Fui viver sozinho para um apartamento do presidente do Marítimo, mas não foi complicado. Diria que foi uma experiência de vida muito boa porque aprendi muita coisa. Aprendi a ter grandes dificuldades no futebol, o que me fez crescer como homem. Na altura não gostei da Madeira, mas tenho a certeza que não teve nada a ver com a ilha. Já lá voltei para visitar, passear, inclusivé já lá levei os meus filhos e a ilha é lindíssima e tem coisas maravilhosas, mas naquela altura tive realmente a sensação de que não tinha sido bem-vindo, nem ao clube. Mas hoje vejo que foi das melhores coisas porque aprendi muito. Uma vez queimei a cozinha toda.

Então?
Meti óleo a ferver para fazer um arroz e fui tomar banho. Quando voltei a cozinha estava a arder, estava tudo negro, passei uma semana a limpar e a pintar a cozinha de novo (risos). Mas aprendi a cozinhar um bife de atum 5 estrelas, ainda hoje é uma das minhas especialidades.

Nessa altura já namorava?
Comecei a namorar com aquela que é hoje a minha mulher, nesse ano que fui para a Madeira, no verão.

Como é que a conheceu, o que é que ela fazia quando a conheceu?
A Rita estudava em Loures e conheci-a através de José Font,e que jogava comigo no Sporting. Ela era prima da ex-mulher do Nuno Santos, guarda,redes do Sporting. Fomos a uma festa na Costa da Caparica, já no fim da época, isto um bocado antes de Toulon e foi aí que a conheci. Mas nunca mais falei com ela e dois meses mais tarde, ou um mês mais tarde, combinamos um café, depois um cinema e pronto assim começou o namoro.

João (à direita) com o amigo Miguel Garcia

João (à direita) com o amigo Miguel Garcia

D.R.

Estava a contar-me sobre a sua ida para Espinho. Como ficou a situação com o Marítimo, uma vez que tinha quatro anos de contrato?
Emprestaram-me e tive de abdicar de 50% do meu salário. Ou seja para jogar no Sporting de Espinho paguei, dei 50% do meu salário ao Marítimo. Ele disse-me que se eu quisesse ser emprestado era à minha conta, eles não pagavam. O Espinho só pagava metade do salário e o Marítimo não pagou nada, nada. Foi assim. Eu tinha 20 anos, queria jogar. Mas tive má sorte, porque sempre fui um jogador saudável e no último jogo de pré temporada, num lance com o guarda-redes, ele agarrou a bola, meti o pé para baixo, dei uma cambalhota e fiz uma luxação do ombro. Não pude jogar durante dois meses. Quando voltei o treinador já não era o Francisco Barão. Foi uma situação muito complicada. Joguei com o outro treinador, uns dois ou três jogos, fui a Santa Clara e marquei um golo. Depois no inverno aconteceu outra história inacreditável.

Conte.
Antes do natal, o Mariano Barreto passou a ser o treinador do Marítimo. Ele conhecia-me muito bem, porque tinha trabalhado em conjunto com o meu pai no Sporting e diz-me: “João, tens mais três anos e meio de contrato, está na altura de voltares e jogar”. Ficou combinado com o diretor desportivo do Marítimo que eu voltava. Mas para isso eu tinha de rescindir antes do Natal o contrato de empréstimo que tinha com o Espinho. Depois do Natal ia para a Madeira. Ficou assim. O Espinho tinha de rescindir o contrato em concordância com o Marítimo e estava tudo certo, tudo assinado. No dia 22 de dezembro ligo ao presidente do Marítimo a dizer que estava à espera da passagem e ele: “Não há passagem nenhuma, tu não vens”; “Mas o mister disse que eu tinha de ir, que tinha de me apresentar antes do ano novo”; “Não, não. O que tu fizeste, fizeste tu. Estás emprestado durante o ano inteiro”; “Mas eu já não tenho contrato”; “A culpa é tua, tu é que rescindiste”. Como se o Marítimo não soubesse, ele teve de assinar o contrato.

Ficou sem clube nessa altura?
Fiquei sem clube mas com contrato com o Marítimo para as outras três épocas. Entretanto encontrei o Carlos Gonçalves, empresário que estava a começar e que me ajudou na rescisão com o Marítimo. Mas, só para perceber a coisa, estive até há dois anos em tribunal com o Marítimo, que andou sempre há procura de 100 mil euros para eu lhes pagar. Ganhei passados cinco anos de estar em tribunal, desde os meus 29 até aos meus 34 anos, tive de ir uma vez por ano a tribunal para me defender. Gastei uns 20 mil euros para me defender, dinheiro esse que não vou rever.

Porque queriam 100 mil euros?
Porque nessa rescisão ficou acordado que se no futuro fizesse uma transferência, eu tinha que dar 100 mil euros ao clube. Isto tudo porque o Carlos Gonçalves na altura queria-me levar para Espanha. Eu estive em Espanha durante vários meses enquanto não podia jogar. Estive no Valladolid, depois no Saragoça. Nessa altura verdade seja dita, já estava bastante desmotivado. Se bem que as coisas correram bem em Espanha e eu gostei de lá estar, mas depois no verão surgiu a oportunidade de ir para o Chipre e foi a melhor coisa que aconteceu. Desapareci um bocado do mapa mas fui ser feliz, fui jogar. Foi a melhor coisa que me aconteceu nessa altura em termos futebolísticos. Se tivesse ficado por Espanha teria atingido outros patamares mas fui para o Chipre, fui campeão, fui muito feliz no Chipre.

Em Israel onde jogou a final do Europeu sub-16, no ano 2000

Em Israel onde jogou a final do Europeu sub-16, no ano 2000

D.R.

Vai com a ainda sua namorada para o Chipre?
Não, fui sozinho.

Como foi o primeiro impacto?
O primeiro impacto foi excelente. Chegámos no verão e deviam estar uns 40º todos os dias. Fui com dois colegas, o Hélio Pinto e o Filipe Duarte. Éramos todos miúdos, eu era o mais velho dos três. Eu e o Hélio vínhamos de duas más experiências, ele no Sevilha e eu no Marítimo e ali sentimo-nos muito bem porque as pessoas gostavam muito de nós. Era um estilo de vida diferente, muito tranquilo. De um dia para o outro tínhamos o estádio cheio com 12 mil pessoas para irem ver o Apollon Limassol. E 12 mil aos gritos, tudo a cantar, a mandar very lights. Aquilo para nós foi uma excelente experiência. Se calhar essa foi a melhor época que fiz no futebol porque não perdemos um jogo. O clube não era campeão há 18 anos. Fizemos uma época espetacular, todas as semanas eram exibições inacreditáveis, também tínhamos um treinador [Stange] que tinha sido selecionador da antiga Alemanha do leste, e era um gajo cinco estrelas. Tudo correu bem, deu-nos moral que era algo que estávamos a precisar, principalmente nós os dois, o Filipe era mais novo e não jogou tanto. Mas nós os dois éramos jogadores com talento, tinham falado muito de nós mas não tínhamos correspondido e realmente nesse ano tivemos os dois uma grande época.

E a vida lá?
Foi espectacular, a minha namorada depois terminou o 12º ano, quis melhorar as notas de biologia e físico/química então tirou quatro ou cinco meses e esteve lá comigo. Foi a primeira vez que ficamos juntos diariamente e foi aí que percebi que podia ser alguma coisa com futuro.

Tem histórias para contar de lá?
Tenho, pois. Quando chegámos ao Chipre, eu, Hélio Pinto e Filipe Duarte, o Apollon era uma equipa que na teoria não lutava para o título, mas nós começamos bem o campeonato e ganhamos os dois primeiros dois, três jogos. No quarto jogo íamos jogar contra o Apoel de Nicosia, em Nicosia e começaram a escrever umas coisas nos jornais sobre os portugueses que tinham chegado, um bocadinho para denegrir o que estávamos a fazer. Nós não percebíamos grego mas muitos dos adeptos que nos encontraram nas ruas durante essa semana começaram a contar-nos que eles disseram que nós éramos jogadores de futebol como podiamos ser cozinheiros, que não importava porque eles iam ganhar o jogo. Aquilo ficou na nossa cabeça. E em casa com o Hélio, começamos a pensar e disse: “Se somos cozinheiros, vamos lá ganhar o jogo e temos qualquer coisa preparada para eles”. Fomos lá fizemos um grande jogo, ganhamos 2-1. O segundo golo fui eu que marquei, piquei a bola por cima do guarda redes, num bonito golo. Isso foi mesmo em frente aos ultras, os fãs do Apoel e fiz uma celebração que ficou muito famosa. Com um dos braços fiz como se estivesse a agarrar num tacho e com o outro braço fingia que mexia o tacho, como se fosse um cozinheiro. A partir daí foi a galhofa total com os nossos adeptos que nos jogos a seguir começaram a levar chapéus de cozinheiro. Fiquei conhecido como “o cozinheiro do APOEL”, porque os tinha cozinhado. Foi o ano inteiro assim, e no fim dos jogos eu tinha de pôr o chapéu de cozinheiro também. De uma brincadeira parva em casa surgiu um modus cozinheiro nas bancadas dos estádios do Chipre nesse ano.

Mais alguma?
Lembro-me que n​​o Chipre por causa do verão ser tão quente, muitas vezes os treinos eram ao final do dia, por volta das sete e meia. Isso fazia com que os nosso horários fossem um bocadinho trocados e a malta jantasse às dez e meia onze da noite e estivesse acordado até tarde em casa. Muitas vezes aconteceu eu e o Filipe, o Hélio, a mulher do Hélio, Leila e depois a minha mulher, fossemos por volta das três da manhã, a umas pastelarias que estavam 24h abertas e tinham uns doces típicos, uns crepes com açúcar caramelizado. Só que saíamos de casa e íamos lá comprar todos vestidos de pijama e fazíamos fotografias. Às tantas entramos numa disputa de quem é que ia mais ridículo buscar os crepes (risos).

Com a taça de Campeão Europeu de sub-16, em 2000

Com a taça de Campeão Europeu de sub-16, em 2000

D.R.

Ficou no Chipre...
Três anos, três épocas.

Mas a última época já foi no AEK de Larnaca não foi?
Não, eu comecei a época no Apollon só que depois no início dos playoffs o Apollon teve muitas dificuldades para se apurar e então para eu não estar a jogar no Apollon para nada, porque do 5º ao 9º lugar não se joga para nada, o AEK perguntou se eu queria ir para lá e fui. Mas não foi nada de especial.

O que gostou mais e menos do Chipre?
Mais, em termos de país, foi a segurança. O estilo de vida é muito diferente de tudo o que vivi. Tudo muito devagar, muita praia, o tempo passa muito devagar, pouca gente no inverno, as pessoas estão à vontade. E a paixão que as pessoas têm e demonstram pelo futebol, gostavam de mim, deram-me sempre apoio. Do que gostei menos foi o facto de ser uma ilha. Sou uma pessoa muito ativa, nasci em Lisboa, gostava de ir a concertos, a teatros, ver e fazer atividades diferentes e isso faltou-me. E o facto de estar longe. Apesar de que ainda viajei bastante, fui ao Egipto, ao Líbano e a vários países ali à volta, mas não era a mesma coisa. Por isso é que depois fui para a Suíça, a minha ideia inicial era voltar e jogar na Europa central.

Ainda tinha o Carlos Gonçalves como empresário?
Não, o Carlos Gonçalves foi só até a assinatura do contrato no Chipre, depois ele estava muito distante. Eu mandava-lhe todos os dias DVDs dos jogos para ele ver como eu estava a jogar bem, para voltar outra vez, nunca fui para o Chipre com a ideia de ficar lá. Mas ele nunca fez nada, nunca vi empenho para que eu voltasse para Espanha, Portugal ou Inglaterra. A época acabou, ele não me disse nada e o presidente do Apollon contou-me ali uns truques que o Carlos Gonçalves tinha feito com contratos de outros jogadores e com o meu contrato e na altura por acaso acreditei no presidente do Apollon. O treinador disse-me para eu ficar mais um ano que depois me levava com ele. Só que entretanto o treinador saiu e toda a carreira que fez a seguir foi só como selecionador, nunca mais apanhou nenhuma equipa (risos). Ou seja não me pode levar para lado nenhum.

No dia do casamento com Rita

No dia do casamento com Rita

D.R.

Como surge o Luzern, da Suíça?
Havia um empresário suíço que acompanhava jogos de futebol cipriota e quando soube que eu estava livre, abordou-me. Entretanto eu aceitei ficar no Chipre mais um ano com outra equipa, o Alki, que era uma equipa nova que contratou os melhores jogadores, só que aquilo era uma "máfia". Ainda fiz a pré-temporada, havia vários jogadores portugueses nessa equipa, o Nandinho, Hugo Machado, etc. Mas eles não me deram casa, nem carro, como estava no contrato, não tinha nada a haver com o Apollon. Como não cumpriram o que estava no contrato, já tinha passado dois meses e meio e ainda não tinham pago nada, nem o prémio de assinatura, falei com um advogado do Chipre, rescindi contrato, meti o contrato na FIFA, viemos embora do Chipre e fomos para Portugal. Esse empresário ao saber o que tinha acontecido, contactou-me passados uns cinco, seis dias, quase no final do mês de agosto.

Como o convenceu?
Ele disse que tinha uma equipa na Suíça que estava com problemas em marcar golos e perguntou-me se não queria ir para lá. Na altura a proposta em termos financeiros era horrível. Mas ou assinava ou ficava três meses sem jogar e era coisa que eu não queria. Então resolvi assinar um contrato de quatro meses, porque o futebol acaba a meio de dezembro e logo se via. E foi assim. Vim para aqui por quatro meses e estou cá há 11 anos (risos).

O primeiro impacto na Suíça foi bom?
Lucerne excelente, lindo, cidade maravilhosa, as pessoas também me acolheram muito bem, só que de outra maneira, não são tão efusivos como no Chipre. É outra coisa. Mas na altura era aquilo que eu precisava. Precisava de um bocadinho mais de ordem e não daquele caos do Chipre. Ao início foi um bocado difícil por causa do tempo, logo quando cheguei, passado um mês, em outubro ficou muito frio. Comecei a jogar com neve. Ou seja, aquele impacto foi diferente, mas encontrei uma excelente equipa, jogadores muito porreiros que me ajudaram. Também tinha um treinador, o Fringer, que conhecia a realidade do Chipre porque um ano antes de eu ir para o Chipre ele tinha sido treinador do Apollon Limassol. Era um treinador com muita experiência que já tinha sido selecionador da Suíça. Foi um crescendo de confiança.

Ou seja, no final dos quatro meses renovou contrato.
Na realidade no último jogo da época faço uma grande exibição contra o Basileia, fiz dois golos, ganhámos 5-1 e na altura o Basileia era o campeão. E renovamos contrato de uma maneira mais adequada àquilo que eu achava que era o meu valor.

A sua namorada foi consigo?
A minha namorada entretanto passava a vida entre a Suíça e Lisboa. Ela entrou na universidade de enfermagem e tirou o curso. Quando acabou o curso é que nós casamos, em 2010. Mas aí eu já estava no Grasshoppers e fiz transferência para Zurique.

João (ao centro) foi campeão cipriota com o Apollon Limassol

João (ao centro) foi campeão cipriota com o Apollon Limassol

D.R.

Ficou no Grasshoppers duas épocas e meia.
Duas épocas e a terceira época fui emprestado ao FC Wholen.

Que é um clube da II divisão.
Sim.

Porque é que isso aconteceu?
O Grasshoppers tinha uma excelente equipa, na realidade até fiz bons jogos. Ficamos em 2º lugar, ganhámos a Taça, tínhamos bons jogadores e eu tinha concorrência também. Na altura como deixei de jogar durante dois ou três meses, fiquei no banco, e como era um jogador caro para ficar no banco, começaram a falar comigo para arranjar uma solução. Inclusive tive uma oferta do campeão da Hungria. Só que a minha mulher ficou grávida de gémeos, além disso tinha passado dois anos a tirar um curso de alemão para poder trabalhar na Suíça. Por isso nessa altura pesou mais o facto de: será justo novamente pegarmos nas minhas coisas e irmos fazer a minha vidinha, para fora, para a Hungria, só porque vamos jogar no Play-off da Liga dos Campeões? Decidimos ficar aqui. Mas aqui na Suíça, a partir dos 28 anos se não jogas, já és velho e ninguém quer apostar, porque todos os clubes trabalham para vender jogadores, de 20, 21 e 22 anos. Por outro lado nenhum clube, mesmo da I divisão, conseguia pagar o salário na totalidade.

Porquê?
As equipas mais fortes, os Young Boys, Basileia e o Zurique, não iam buscar nenhum jogador ao Grasshoppers que não jogasse e as outras que estão abaixo, são só mais cinco, não têm o potencial económico do Grasshoppers. E o Grasshoppers não queria emprestar nenhum jogador para um concorrente da mesma liga. Só vender. O FC Wohlen tinha um potencial económico bom para II Liga e que podia pagar metade do meu salário. O Grasshoppers aceitou. Eu continuei a receber o mesmo e o Grasshoppers reduziu para metade o encargo comigo. A minha mulher entretanto tinha arranjado um emprego como enfermeira um bocadinho antes de engravidar e por isso decidimos ficar.

Assistiu ao parto?
Assisti a tudo. Os gémeos chamam-se Miguel e Pedro, nasceram num hospital muito bonito em frente ao lago de Zurique, num dia de sol, em janeiro de 2014. Vão fazer agora seis anos.

Quando teve a notícia de que eram gémeos, como foi a reação?
Foi muito bom, muito agradável, nós já queríamos ser pais há uns tempos. Mas depois quanto mais pensamos, mais atrasamos o processo, até que acabou por acontecer. Ficámos uns tempos ali a pensar se um deles seria menino ou menina, foi engraçado. Depois soubemos que eram dois meninos e ficamos contentes. A minha mulher ficou gigante. Ela mede 1,70m e ficou com uma barriga de 1,70m para a frente (risos). Ficamos muito felizes. Eu, por acaso, não sei porquê, quando era mais novo sempre pensei em ter gémeos, mas não sei porquê porque na família nem tínhamos gémeos.

João foi para o Luzern em 2008/09 e não voltou a sair da Suíça

João foi para o Luzern em 2008/09 e não voltou a sair da Suíça

EuroFootball

Entretanto continua a jogar na II divisão suíça, mas passa para o Winterthur.
Na II divisão eu era um nome muito atrativo mas para a I divisão, com 31 anos, já não era um atrativo para vender. Passei para o Winterthur por dois anos. Aí já não interessava tanto a escolha do clube, embora o Winterthur fosse uma escolha acertada, mas era mais a ideia de ficar no mesmo sítio. Estou a viver na mesma casa desde que vim para o Grasshoppers. Ainda não mudei. Isso é bom. Entretanto no Wohlen comecei a tirar a licenciatura em Gestão Desportiva.

Conseguiu conciliar tudo? Ser pai, jogador e tirar um curso?
Sim. Jogar na II divisão deu-me vantagens. Fiz excelentes épocas, no Wohlen fui o melhor marcador do campeonato, no Winterthur marquei o segundo melhor golo do ano das ligas todas, fiz bons campeonatos e os jogos todos mas não posso dizer que jogar no Grasshoppers é o mesmo que jogar no Wohlen; seria a mesma coisa que dizer que jogar no Benfica é a mesma coisa que jogar no Paços de Ferreira; não é. Na verdade havia um impacto menor o que me ajudou a meter o meu foco noutras coisas da vida.

Começou a pensar no pós carreira quando passou para a II divisão suíça?
Já antes. Comecei a pensar no pós carreira quando no Grasshoppers comecei a preocupar-me com os jogadores mais jovens e dizer-lhes: "Tens de chutar assim, tens de passar assado". Até essa altura nunca tinha pensado em ajudar os meus colegas. Era aquela competição inerente aos jogadores, do "quero jogar e tenho de ser melhor do que os outros". A partir de determinada altura começou a acontecer esse processo e até pensei que se calhar por querer ser pai estava já a começar a pensar de maneira diferente. Procurei a forma de poder estudar sem ir à faculdade, o meu alemão ainda não era suficiente para frequentar um curso universitário, e entretanto surgiu em conversa com uma pessoa que trabalhava no sindicato de jogadores aqui da Suíça, que a FIFPRO, que tem um acordo com todos os sindicatos do mundo, tinha feito um curso especial de gestão desportiva, em inglês, numa universidade na Dinamarca, para profissionais de desporto. No mínimo, além do inglês fluente, para entrar era necessário ou ter estado numa universidade ou ter notas para entrar numa universidade. Fui pesquisar, aquilo interessou-me, e inscrevi-me. Durou quatro anos, era online, mas os exames eram feitos numa universidade aqui na Suíça na presença de um professor. Já terminei.

João Paiva tirou um Masterem Coaching no Cruyff institute

João Paiva tirou um Masterem Coaching no Cruyff institute

D.R.

Quando pendurou as chuteiras definitivamente?
Eu pendurei as botas do futebol profissional aos 33 anos, já vai fazer quatro anos.

Custou-lhe muito?
Custou. Custo porque é triste, o contrato acabou, e no meu caso não houve festas de despedida, não houve nada desse tipo de coisas que a gente pensa que vai haver. Acabou, tirei as minhas coisas do cacifo e vim para casa.

Isso foi quando estava United Zurich?
Não. O United Zurich e o FC Dietikon já não conto como futebol. O United Zurich era uma equipa do sindicato e eu fui ajudar. Já não fui jogar. Comecei a ajudar o treinador, comecei a tirar o curso de treinador. Mesmo no Dietikon, também fui ajudar, fui treinador dos juniores e ajudava o Dietikon quando precisavam de alguém para jogar.

Neste momento tem um curso de gestão desportiva e que nível do curso de treinador?
Acabei o curso de gestão desportiva em maio de 2018 e nesse ano fui tirar um Master em Coaching no Instituto Johan Crujff, em Amesterdão, que durou um ano. Ao mesmo tempo fui tirando o curso de treinador e agora estou a tirar o UEFA A, em alemão. Coisa de que tenho orgulho porque sou o único estrangeiro que entra no curso este ano, e somos 24 na Suíça a tirar o curso. Por ser aqui e em alemão tem uma metodologia diferente da portuguesa.

Aprendeu alemão sem tirar nenhum curso?
Não, em Lucerna eu inscrevi-me num curso de dois meses, duas vezes por semana. Não foi como a minha mulher, que foi intensivo, ela fala muito melhor que eu. Eu tenho um vocabulario muito mais extenso do que ela, mas a nível de construções de frase ela é muito melhor. Eu ainda dou calinadas (risos).

Os seus filhos falam português ou só falam alemão?
Eles em casa só falam português. Eles só podem entrar na escola para estudar português a partir dos oito anos.

A limpar a neve no campo do FC Winterthur

A limpar a neve no campo do FC Winterthur

D.R.

O que tenciona fazer no futuro? Continuar como treinador e viver na Suíça?
Agora estou a formar-me como treinador. Há dois anos treinei os juniores desta equipa, subimos de divisão. Depois fui convidado a ficar com a equipa principal, que está ao nível do campeonato de Portugal, subimos de divisão o ano passado e este ano estamos na I liga clássica como eles chamam aqui. Temos tido mais dificuldades, temos uma equipa mais jovem.

É muito diferente ser treinador. O que o surpreendeu mais?
O nível de tempo que tenho de dispender. É inacreditável. É quase o dia todo. Imagino como será numa liga principal. Também não tenho um staff grande por isso é que também trabalho como um louco. ainda por cima tenho outro trabalho. Aqui na Suíça é muito difícil a pessoa ter só um trabalho. Na verdade tenho três trabalhos.

Quais são?
Sou treinador da equipa principal do Dietikon, sou player relation manager do sindicato dos jogadores profissionais da Suíça, ou seja, sou o responsável pelo primeiro contacto com os jogadores da I e da II divisão da Suíça, todos os problemas que possam ter em termos contratuais, até ao trabalho depois da carreira, etc., sou eu o responsável. Vou aos clubes fazer apresentações de vários temas. E no verão fazemos um estágio do jogador tal como o sindicato português, são quatro semanas e eu sou o treinador do sindicato durante essas semanas. E também tenho, já de longa data, desde quando jogava no Winterthur, uma empresa de estágios de futebol em que levo equipas suíças a estagiar a Portugal. É uma coisa que também me dá muito gozo. Trabalho com algumas equipas, todos os anos levo 10 a 15 equipas a estagiar a Portugal. Se bem que esse trabalho da empresa é um bocado sazonal.

O futuro passa para já pela Suíça então.
Sim. Até porque tenho de terminar o curso UEFA A, que só acaba daqui a um ano. Depois de ter esse curso feito, outras portas poderão abrir-se outra vez. A carreira de treinador é também um bocadinho de casa às costas.

Está disposto a voltar a essa vida?
Não sei. Com filhos as coisas mudam totalmente de figura. A pessoa fica a pensar, será que vale pena? Mas quando isso acontecer, se aparecer essa possibilidade metemos as coisas em cima da mesa e vemos quais são os prós e os contras.

Com a mulher e os filhos vestidos com as cores da seleção nacional

Com a mulher e os filhos vestidos com as cores da seleção nacional

D.R.

Quando andou de um país para o outro, o que é que teve de ir sempre consigo?
Eu não mudo de casa há 10 anos, mudei de clube mas não de casa. Mas acho que em termos materiais nunca nada teve de vir comigo. Trouxe sempre o meu cão comigo.

Como se chama?
Chamava-se Zazzoo. Eu e a minha mulher encontramos o cão, um poodle cipriota, na rua, no Chipre, ele era pequenino e ficamos com ele. Andou sempre connosco de um lado para o outro. Fosse de férias para algum lado ou a Portugal. Mas há um ano e meio morreu. Agora o que vai sempre comigo e irá sempre comigo é a família. Na verdade não me vejo a viver sozinho outra vez.

Onde é que ganhou mais dinheiro?
No Grasshopper.

Onde investiu, além da empresa que criou?
Em imobiliário, em Portugal. E na bolsa. Aqui na Suíça tenho investido bastante dinheiro na minha formação. A empresa que criei não é um investimento muito grande porque o escritório é o mesmo do sindicato, por isso não tenho custos de escritório. O investimento da empresa é mais de tempo.

É crente?
Não. Eu não acredito no Deus do céu. Acredito noutras coisas. Na energia dos seres humanos uns com os outros.

É supersticioso ou tinha superstições enquanto jogador?
Tinha, mas eram muito estúpidas. Na altura fazia coisas do género comer o mesmo tipo de pequeno-almoço, usar os calções de uma maneira diferente porque dava sorte, etc. Tinha uma coisa que gostava de fazer e que sempre fiz, mas que para quem não é crente não deveria fazer porque eu não acredito mesmo...Mas a minha avó dizia sempre para eu olhar para o céu porque o meu avô estava a ver-me. O meu avô morreu no ano em que fui jogar para o Sporting, com 12 anos. Ele era um sportinguista ferrenho, acho que até era o sócio número 500 ou 600, morreu nesse verão. Passei a olhar sempre para o céu porque acreditava que ele lá estava. Isso aconteceu durante muitos anos. Entretanto depois comecei a olhar para a bancada para ver se via a minha mulher e os meus filhos. Mas nada de extraordinário ou de coisas que já vi que são loucas.

Como por exemplo?
Já vi tudo. Já vi meterem sal nas botas e nos cantos das cabines para dar sorte.

Em Portugal ou fora?
Em Portugal vi muitas rezas que os brasileiros faziam, sobretudo no Marítimo. Mas aqui fora também. No Chipre no início do ano vão uns padres benzer a cabine com folhas e benzem os jogadores, deram-me com ramos nas costas, por exemplo, à frente dos adeptos todos. É uma tradição que têm. Eu e os outros jogadores portugueses rimo-nos.

João já nas funções de treinador, na Suíça

João já nas funções de treinador, na Suíça

D.R.

Tem tatuagens?
Tenho uma, mas sou bastante contra (risos). Fiz esta depois dos meus filhos nascerem. É igual à que a minha mulher tem, que são as iniciais dos meus filhos. Fiz no braço, logo depois da mão, nem se vê muito bem. Eu nem gosto muito de ver tatuagens e sempre tive um bocado de medo de agulhas. Mas a minha mulher gosta de tatuagens, foi fazendo algumas, ficam giras, gosto de ver, mas no meu corpo nunca pensei em fazer. Gostei daquela das letras dos miúdos e quis fazer, não ia deixar de fazer só porque tenho medo de agulhas (risos). E fiz.

Qual foi a maior extravagância que fez?
As extravagâncias maiores é mais quando viajamos. Ainda agora fui a Nova Iorque com a minha mulher e quisemos fazer tudo, fomos à Broadway duas vezes, fomos ao Seinfeld, fomos ver um jogo da NBA ao vivo. É mais nesse tipo de coisas Mas a maior extravagância de todas foi umas férias às Maldivas em 2010. Hoje, quando olho para trás... Se calhar foi demais (risos). Mas daqui a uns anos do que é que uma pessoa se vai lembrar mais? É das viagens, é das experiências.

Tem algum passatempo?
Gosto de construir legos com os meus filhos.

Tem algum outro desporto que goste de praticar ou ver?
Gosto de ver todos os desportos em geral. Houve uma altura em que gostava muito de hóquei em patins, especialmente ao vivo. Já fui ver aqui alguns jogos de hóquei no gelo, muito mais rápido e quase não se vê o disco o que é um bocado perturbante. Tem crescido o meu interesse também pelo futebol americano até porque o meu irmão vive no Canadá e ele é um grande fanático.

João com os filhos gémeos

João com os filhos gémeos

D.R.

Qual foi a sua maior alegria e a maior frustração no futebol?
Maior alegria foram todos os títulos que conquistei. Provavelmente por ter sido o primeiro grande, ser campeão da Europa de sub-16, foi realmente especial. Mas porque foi o primeiro. Este ano subir de divisão no primeiro ano como treinador principal deu-me uma alegria inacreditável, se calhar coisas que não tinha sentido como jogador porque a posição de treinador também é muito singular.

É mais difícil do que a de jogador?
Sim, é mais difícil.

A maior frustração?
A única frustração que tenho é não ter sido jogador da equipa principal do Sporting. Joguei uns cinco ou seis jogos pela equipa principal mas nunca a nível oficial, no campeonato, e daí ter tido essa frustração. Mas hoje já não tenho essa frustração. Foi durante alguns anos, mas hoje, como tudo mudou, mesmo não tendo feito uma carreira de acordo com aquilo que se esperava do meu potencial, foi uma carreira feliz. Tive oportunidade de conhecer outros países, tenho dois filhos felizes. Não trocava nada disto agora, para ter jogado no Sporting.

Acha que algum dos seus filhos vai seguir as suas pisadas?
Aqui há pouca brincadeira na rua. Um deles que gosta mais da bola e parece ter mais jeito do que o outro, mas o outro é muito mais atleta, mais forte, só que por enquanto não liga nada à bola. Gosto que eles participem em muitos desportos, em muitas coisas. Já me perguntaram por que razão não os pus num clube e não vou pôr até que um deles me diga que quer. Não vou incentivar à força. É preciso querer muito, trabalhar muito e dedicar muito para se ser jogador de futebol e as pessoas às vezes não têm essa noção. As escolhas não podem ser feitas pelos pais mas por eles próprios.

Da Suíça, não tem histórias?
Quando cheguei à Suíça deparei-me com um ambiente completamente diferente, tudo muito mais organizado do que no Chipre, os jogadores mais sérios. Mas descobri que no Carnaval é diferente. Os jogadores estão proibidos de ir ao Carnaval, mas claro que ninguém deixava de ir porque, eu não saía, mas é uma festa muito grande em Lucerne. Três ou quatro jogadores suíços disseram-me que iam buscar-me a casa e que levavam qualquer coisa para eu vestir. Logo no primeiro Carnaval levaram-me um fato, fui mascarado de múmia. Quando eles chegaram nem queria acreditar porque estavam todos disfarçados para não serem reconhecidos, um deles estava mascarado de árvore. Fomos para o Carnaval por volta das quatro da tarde e ficamos até à uma da manhã. No dia seguinte havia treino mas, claro, ninguém se conseguia mexer. Só que o treinador e a equipa já sabiam como era. Para mim foi engraçado perceber que o suíços também se conseguiam abrir e fazer algumas porcarias, porque até lá tinha sido tudo muito sério.