Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

“Em Angola, estava com outros jogadores do Benfica dentro de água, veio um pescador e atirou uma granada. Os peixes começaram a saltar"

Geraldo Alves tem 39 anos e está a viver na Roménia, país que primeiro estranhou e depois entranhou. Chegou lá em 2010, jogou em três clubes diferentes, conheceu a mulher, teve uma filha e está a tirar o curso de treinador, embora sem a certeza de querer seguir essa carreira. Irmão mais velho de Bruno Alves, não tem dúvidas de que este é melhor do que ele e talvez por isso tenha torcido sempre mais por Bruno do que por si próprio. Entre várias histórias, conta que chegou a ter 200 pares de ténis, gosta de fazer tiro ao alvo e de bom pagode ou samba. Depois de pendurar as botas passou a cuidar melhor da sua alimentação, está quase vegetariano e puxa ferro todos os dias no ginásio

Alexandra Simões de Abreu

EuroFootball

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Nasceu no Brasil.
Sim, em Minas Gerais. Dos meus irmãos fui o único que nasceu no Brasil. Mas vim para Portugal com seis meses.

Porque é que os seus pais vieram para Portugal?
O meu pai é brasileiro e a minha mãe é portuguesa, vim para Portugal porque na altura o meu pai tinha mais mercado de trabalho em Portugal do que no Brasil.

Ele veio jogar para onde?
Se não me engano nessa altura veio para o Varzim.

A sua mãe fazia o quê?
A minha mãe era doméstica mas julgo que trabalhava numa fábrica de costura quando o meu pai veio para cá jogar futebol a primeira vez. Ele conheceu a minha mãe e entretanto foram para o Brasil. Estiveram lá pouco tempo, eu nasci e seis meses depois eles voltaram para Portugal.

Cresceu na Póvoa do Varzim, onde o futebol começa para si. Fez as camadas jovens no Varzim, certo?
Sim.

Gostava da escola?
Por acaso gostava, era bom aluno. No meu último ano de escola, no 11º ano, tive muita pena mas querendo ser jogador profissional comecei a dedicar-me mais ao futebol e menos aos estudos.

Quando era pequenino torcia por algum clube?
Pelo Flamengo, porque é o clube do meu pai e do meu tio, que já faleceu, e que jogava no Flamengo.

Clube preferido em Portugal não tinha?
Era o Varzim, o clube onde a gente jogava.

Geraldo em bebé

Geraldo em bebé

D.R.

O seu irmão Bruno Alves é um pouco novo do que o Geraldo não é?
Sim, o Bruno é mais novo um ano, para o meu outro irmão é que há dez anos de diferença.

Quando vai para o Varzim o seu irmão Bruno vai consigo?
Sim. O nosso pai foi o nosso primeiro treinador, ele era treinador dos infantis e levou-me a mim e ao Bruno. Eu tinha sete anos e o Bruno tinha seis.

Era incómodo ser treinado pelo pai?
Não, por acaso era muito bom.

Ele não era mais exigente com vocês?
Ele era exigente com toda a gente igual. Eu gostava muito porque já sabia como é que ele era. A gente gostou imenso.

Era um miúdo calmo ou hiperativo?
Era bastante calmo. Se calhar muito por causa do Bruno que era mais agitado. Por norma, tomava conta dele.Já tinha aquele sentido paternal em relação a ele e se calhar era por isso que era bastante calmo. Os meus primos também eram todos mais novos do que eu e cresci assim.

Estava a contar que fez as camadas infantis todas no Varzim. Quando é emprestado ao Benfica?
Fui para o Benfica com 19 anos, no ano em que passei a profissional. Mas tive um problema, acho que na altura saiu no jornal "A Bola" que não assinei pela equipa principal porque o meu pai não estava de acordo com os termos do contrato. Acabei por ser dispensado do Varzim e fui treinar à experiência, primeiro no Trofense, depois no Castêlo da Maia, e acabei no Benfica, na equipa B.

Como?
Uma história curiosa. O meu tio foi reconhecido pelo Mozer em Lisboa, porque o meu tio jogou no Flamengo nas camadas jovens. Acabaram por conversar um bocadinho e o meu tio aproveitou, sabendo que ele estava ligado à equipa B do Benfica, para pedir para eu lá ir prestar provas. Foi o Mozer que me levou para o Benfica por intermédio do meu tio.

Os primeiros namoros, as primeiras saídas à noite, quando começam?
Era raro, era muito pouco de sair à noite, tinha jogo ao fim de semana e como sempre vivi rodeado de amigos que faziam desporto, raramente saíamos à noite e quando o fazíamos a nossa brincadeira, com 15, 16 anos, era ir para a praia jogar futebol. É nessa altura que começam os primeiros namoros, na escola, com as miúdas do vólei.

Com o pai

Com o pai

D.R.

Quando ganha o seu primeiro dinheiro com o futebol, ainda é no Varzim ou só no Benfica?
No Benfica, quando assino o meu primeiro contrato pela equipa B.

Recorda-se do valor do seu primeiro ordenado?
Acho que foram 1500 euros.

O fez com esse dinheiro?
Mandei para casa, para ajudar em casa.

Não havia nada que quisesse muito comprar?
Ténis, foi a primeira coisa que comprei [risos]. Ténis e uma chuteiras, porque na altura tinha pedido umas chuteiras emprestadas à loja de desporto Limas, acabámos por pagá-las e depois comprei outro par de chuteiras. Sendo jogador do Benfica, tinha de ser.

Quando vem para Lisboa, para prestar provas ao Benfica, vem sozinho?
Vim com um tio, porque ia ficar a dormir em casa do meu tio Wilson e da minha tia Graça, onde fiquei a viver durante um ano.

Foi muito difícil sair da casa dos seus pais e deixar os seus irmãos?
A nível emocional foi, porque pouco ou raramente tinha saído de casa, nem para ir da Póvoa ao Porto os meus pais nos deixavam sair sozinhos. Foi a primeira vez e custou um bocadinho. Mas a verdade é que o meu tio ajudou imenso, eles no primeiro ano foram bastante importantes na minha performance e na minha carreira. O meu tio ia muitas vezes levar-me e buscar-me, ensinou-me a andar no metro e no comboio. E depois também a presença dos meus grandes e bons amigos Nuno Abreu, Cláudio Eira, Diogo Luís, Carlos Mota, Carlos Esteves, foram as pessoas que me acolheram. E o Vitor Madeira, que depois foi meu companheiro de quarto, mais novo do que eu mas sabia muito mais do que eu.

Quem eram os seus ídolos?
Como jogadores era o meu pai e o Ronaldo, o Fenómeno.

Sempre jogou como defesa?
Sempre joguei no meio-campo, um pouco defensivo, mas se calhar até fazia muitos golos. No Benfica mais como trinco, como médio defensivo. No Benfica sempre fui médio, no Beira-Mar ainda fui médio e quando passei para o Gil Vicente passei a central, e desde aí fui sempre central.

Geraldo (à esquerda) e Bruno Alves

Geraldo (à esquerda) e Bruno Alves

D.R.

Quando chega ao Benfica, para a equipa B, não teve dificuldades nenhumas de integração?
Fui super bem recebido pelas pessoas que nomeei, também pelo Toy que na altura jogou lá, e tive muita sorte.

Faz essa época na equipa B e na seguinte é chamado à equipa A pelo José Mourinho.
Sim, já tinha sido chamado à equipa A, pelo Jupp Heynckes, para os treinos. Quando ele sai, vem o Mourinho e comecei a ser mais chamado à primeira equipa. É com ele que faço o meu segundo contrato.

E é com ele que se estreia a jogar na equipa principal?
Exatamente, contra o Sporting, no estádio da Luz.

Ele chamou-o a si, ao Diogo Luís e ao Nuno Abreu e ficaram conhecidos por “Irmãos Metralha” não foi?.
Sim, é verdade [risos].

Lembra-se do que Mourinho vos disse, o que vos pediu?
Disse muito simplesmente que queria a nossa intensidade nos treinos, só isso. O Diogo Luís era um jogador mais refinado, mas da minha parte e do Nuno Abreu ele queria a intensidade, queria que déssemos tudo como dávamos nos treinos e que não tivéssemos vergonha. Era isso. Nós já tínhamos uma mentalidade diferente, tanto eu como o Nuno Abreu, a gente não tinha medo dos mais velhos, não queríamos saber se eram jogadores da seleção.

Acha que essa raça vinha do facto de ter crescido no norte?
Julgo que sim. O Nuno Abreu é do sul, mas tem uma vontade enorme de trabalhar e sentia-se em casa com esse estilo de jogo. Eu era mesmo por vir do norte, o meu pai sempre foi um jogador raçudo e a verdade é que o Varzim sempre transmitiu esse tipo de influências aos jogadores mais novos, jogadores de raça, de carácter e para mim, em Lisboa, sabendo que na equipa B havia jogadores com imenso talento tecnicamente, eu tinha de aparecer de uma maneira diferente, tanto é que, quando apareci lá, encaixei bem na equipa B. Na equipa sénior, como disse, precisava de algo diferente nos treinos, que não existia.

Os mais velhos receberam-vos bem ou chamaram-vos sarrafeiros e coisas do género?
[Risos] Receberam-nos bem e também não tinham alternativa porque a gente não escutava, a gente, como eu disse, não tinha problemas com ninguém, fomos super bem recebidos.

Geraldo e Bruno Alves com o cão de uma vizinha

Geraldo e Bruno Alves com o cão de uma vizinha

D.R.

Foram praxados?
Não [risos]. Eles se calhar é que eram por nós [risos]... Mas não, quando fomos para a primeira equipa eles diziam que nós batíamos muito, ganhámos logo o nosso respeito [risos].

E o Geraldo batia muito?
A gente gostava de chegar a roupa ao pêlo, como se costuma dizer. Era a nossa maneira de ser, não digo que era com maldade, a gente ia sempre à bola mas a intensidade era diferente.

Nunca tiveram problemas por causa disso?
Por acaso nunca tivemos. Eles sempre respeitaram e sempre entenderam a nossa parte e acho que o treinador também teve influência, ele gostava e a gente não ia mudar.

No jogo de estreia frente ao Sporting as pernas tremeram?
Acho que o meu pai sempre me preparou para o momento. É óbvio que antes de entrar no aquecimento, as pernas tremiam-me, porque eu nem pensava que ia entrar. A verdade é que antes, sim, mas depois de entrar no jogo, não, senti-me bastante bem.

Correu-lhe bem o jogo?
Correu, ganhámos 3-0 e eu entrei, se não me engano, uns 15 minutos, mas correu bem. Acho que joguei mais três ou quatro jogos mas depois o Mourinho foi embora.

Pensou que a sua sorte tinha acabado ou já se sentia seguro na equipa principal?
É assim, na altura achei que o mais difícil já tinha conseguido, que era chegar lá, e que depois de chegar lá seria mais fácil. Mas depois os problemas que existiram à volta do clube fizeram com que infelizmente o mister Toni e o mister Jesualdo não pudessem apostar nos jogadores jovens, o clube passava por momentos muito difíceis.

Custou-lhe ter que voltar à equipa B?
Na altura se não me engano continuei a época na equipa A, não sei se fiz alguns jogos pela equipa B, mas no ano a seguir pedi para ser emprestado. Foi a primeira vez que pedi. Em dezembro não joguei muito, pedi para ser emprestado e fiz seis meses no Beira-Mar.

Pediu para ser emprestado porque percebeu que não ia jogar.
Exato. Como já me tinha estreado e feito alguns jogos na primeira equipa, achei que tinha chegado a um patamar em que poderia jogar noutras equipas. Hoje em dia qualquer equipa aposta nos jovens mas antigamente era muito difícil um jovem impôr-se em qualquer equipa, independentemente de ser uma equipa que lutasse para o título ou para não descer de divisão.

Equipa de infantis do Varzim SC onde jogou Geraldo

Equipa de infantis do Varzim SC onde jogou Geraldo

D.R.

Há pouco disse que foi à conta do Mourinho que fez o segundo contrato com o Benfica.
Sim, foi quando o Mourinho nos subiu para a primeira equipa, renovámos os três.

É nessa altura que deixa a casa dos seus tios e começa a viver sozinho?
Exatamente, foi aí que comecei a viver ao lado do estádio. Até aí vivia do outro lado, em Almada, e tinha que vir de comboio todos os dias. Estando a jogar na primeira equipa, iria ser mais difícil. Eles pediram para vir para mais perto do estádio para não chegar cansado.

Foi viver já sozinho ou partilhou casa com alguém?
Partilhei casa com o Vítor Madeira e com o Nuno Correia, que ainda estavam nos juniores.

Quem cozinhava?
Nenhum de nós cozinhava [risos]. Íamos sempre comer ao lar, que ficava debaixo da bancada do estádio. Eu não tinha jeito, tinha saído há pouco tempo de casa, ainda não tinha experiência. Ali era bom, porque estávamos sempre com os miúdos do lar e eles tratavam-nos super bem.

Aí não houve a tentação de conhecer a noite de Lisboa?
Acabei por sair algumas vezes, mas nunca tive essa tendência de querer sair. A verdade é que não era muito chegado a sair à noite por muito atrativa que fosse.

O que fazia nos tempos livres? Iam para o centro comercial, jogar Playstation?
Era basicamente isso. Nós estreamos o Colombo, aquele centro era praticamente nosso [risos], ainda me lembro. Mas bastantes vezes ia passear com os meus colegas, com Nuno Abreu e com Cláudio Oeiras que tinham carro; com o Carlos Mota também, íamos muitas vezes a Cascais, eles passeavam imenso comigo para me mostrar diversos sítios. Era mais ou menos isso, ir ao cinema, jogar ping-pong, jogar snooker no antigo restaurante do Benfica, basicamente isso.

Enquanto esteve no Benfica nunca jogou contra o seu irmão?
No Benfica. Num torneio em Carcavelos quase que nos apanhámos, mas no Benfica nunca jogámos um contra o outro.

Nessa altura ele já está no FCP?
Sim, estava também na equipa B do Porto.

Não havia rivalidade entre vocês?
Não, tanto que até existiu um episódio muito caricato no torneio de Carcavelos: ele foi expulso contra o Barcelona ou o Real Madrid, se não me engano. Quando ele é expulso, nós, Benfica, já estávamos a aquecer. Ele vem todo chateado e ninguém do Porto tinha conseguido acalmá-lo e eu, com a camisola do Benfica, peguei nele, levei-o para o balneário e acalmei-o dentro do balneário do Porto [risos]. Foi uma coisa engraçada. Toda a gente começou a olhar, como é que é possível um jogador do Benfica estar ali com um jogador do Porto e a acalmá-lo!? Depois viram que éramos irmãos.

Como vai parar ao Beira-Mar? Tinha empresário?
Não, não tinha empresário, pedi simplesmente ao Benfica para arranjar uma solução, para ser emprestado, para me tentar valorizar e creio que o Beira Mar estava a precisar de um médio defensivo. Propuseram-me e eles aceitaram.

Gostou da ideia de ir para o Beira-Mar?
Gostei, gostei bastante, tinha lá amigos, tinha o Gamboa, que era da Póvoa do Varzim, o Luís Manuel, que também era da Póvoa. Ajudaram-me muito na integração, foram como pais para mim, tanto é que voltei à minha cidade, à Póvoa, e fazia sempre Póvoa/Aveiro todos os dias.

Voltou a viver com os seus pais?
Sim, voltei a casa.

Não deixou nenhuma namorada em Lisboa, nenhum coração partido?
Não. Eu tinha uma namorada mas ela estudava em Coimbra nessa altura. Fazia muitas vezes Coimbra, Aveiro, Póvoa... não era fácil [risos].

Equipa do Varzim SC no campo de treino

Equipa do Varzim SC no campo de treino

D.R.

Como é que corre essa época no Beira-Mar com o António Sousa?
Do ponto de vista da experiência e maturidade foi muito bom. Do ponto de vista desportivo não, porque não joguei muito. Joguei o primeiro jogo contra o Paços de Ferreira, fui designado melhor jogador em campo, mas, a partir daí, chegou um argentino, e pronto, o argentino continuou a jogar. Do ponto de vista da maturidade, como disse, cresci bastante, porque tanto o Gamboa, como o Luís Manuel, fizeram-me ver o futebol de outra forma.

Explique.
Tornaram-me mais homem, entende? Eu achava que era "ah pois, o treinador decide" e muitas vezes não pode ser assim, a gente tem de mostrar a nossa insatisfação permanente, não só no treino, mas muitas vezes no modo de falar, no modo de agir, no dia-a-dia. Muitas vezes não é só pelo bom futebol que praticas ou pelo excelente jogo que fizeste mas se calhar pelo modo de lidar com as pessoas, tens de mostrar a tua insatisfação e crescer.

Não podia ser tão "bonzinho", é isso?
Exatamente, é essa a palavra. Não podia, nem devia ser tão bonzinho, e foi uma coisa que me ajudou bastante quando fui para Barcelos.

Mas chegou a questionar o António Sousa?
Não, nunca. Eles diariamente diziam-me que eu tinha de ser mais homem, que tinha que me mostrar insatisfeito e eu aí sempre fui muito inocente, muito bonzinho. Nisso ajudaram-me imenso.

A seguir vai para o Gil Vicente porquê? É o Benfica que decide?
Fui fazer a pré-época com o Benfica nos EUA, se não me engano, correu super bem.

Quem era o treinador nessa altura?
Julgo que o Toni. Disseram-me que ia ser muito difícil eu continuar, eu entendi e agradeci por serem tão diretos comigo e pedi outra vez para ser emprestado. Na altura surgiu logo o convite do Gil Vicente, do mister Oliveira, e foi aí que passei da posição de meio campo, para defesa central. Porque nos EUA comecei a jogar mais como defesa central.

E que tal o Vítor Oliveira, muito diferente do Mourinho?
Diferente mas de uma maneira muito positiva. Adorei ser treinado por ele. Tinham os dois métodos diferentes mas uma coisa em comum, que sempre apreciei, eram honestos. Sei que não joguei muito mais, porque perdi o meu lugar através de uma lesão e o outro que jogou na minha posição, o Nunes, estava muito bem.

Que lesão é que teve?
Torci o tornozelo e fiquei dois meses parado. Entretanto o outro jogador jogou, a equipa ganhou, teve vitórias importantes contra o Sporting e mais uma ou outra que já não me recordo e o Vítor Oliveira foi honesto comigo, disse-me: "Geraldo, os jogadores que estão a jogar na tua posição estão melhores, tens de esperar a tua oportunidade".

Enquanto esteve no Gil Vicente continuou a viver em casa dos pais?
Sim.

Equipa de infantis do Varzim onde jogou Geraldo

Equipa de infantis do Varzim onde jogou Geraldo

D.R.

Depois vai para o Paços de Ferreira, novamente emprestado.
Sim, emprestado no primeiro ano. Nessa altura o treinador do Benfica era o Jesualdo Ferreira, o adjunto era o mister José Gomes e o Chalana. O mister José Gomes decide ser treinador principal e ele e o Chalana vão para o Paços de Ferreira. Quando vão dizem-me: "Geraldo, tu vens connosco. Tu és o nosso principal jogador". E fui com eles.

Como foi a experiência no Paços de Ferreira?
Muito boa. Como jogador amadureci com o mister José Gomes, com quem era titular indiscutível. Estive 10 jogos a titular. Jogávamos bastante bem mas nunca conseguimos resultados positivos, o José Gomes e o Chalana vão embora e entretanto vem o mister Zé Mota. O mister Zé Mota é adorado ali em Paços de Ferreira. Ele disse-me diretamente que não era muito apologista de jogadores emprestados, foi sempre honesto e direto comigo, e nunca fui primeira opção. Ele punha jogadores que tinham contrato com o clube. Até que para o finalzinho, os centrais lesionaram-se e ele pôs-me a jogar. Acabamos por descer de divisão mas ganhei a confiança do mister José Mota e do presidente. No ano a seguir volto ao Benfica, outra vez para fazer pré-época, mas já em litígio, porque eles não queriam que eu continuasse, por intermédio do José Veiga. E o mister Zé Mota pediu-me para voltar. Disse-me que sendo o meu último ano de empréstimo do Benfica, iria jogar, o presidente também falou comigo e eu voltei.

Esse litígio surge quando o José Veiga entra no Benfica?
Exato.

Queria pôr jogadores dele?
Isso não sei. Simplesmente não gostava de mim como jogador. Como pessoa não, porque eu nunca interagi com ele, mas como jogador não me aceitava e queria rescindir contrato comigo. Também teve problemas com o Nuno Abreu e rescindiu contrato com ele. E com o Diogo Luís acho que também teve bastantes problemas.

O que aconteceu consigo em concreto?
Tentaram pôr-me na equipa B e até a jogar à parte, mas eu fui ao sindicato, fiz valer os meus direitos. Entretanto arranjámos uma maneira, tentei sair a bem, continuaram a pagar-me o salário e fui outra vez para o Paços de Ferreira, emprestado, mas não prescindi do meu último ano de contrato do Benfica.

Pagaram-lhe tudo?
Pagaram-me sempre tudo, sempre foram corretos.

Geraldo (2ª atrás à direita) na equipa B do Benfica em 2000

Geraldo (2ª atrás à direita) na equipa B do Benfica em 2000

D.R.

Entretanto assina pelo Paços de Ferreira.
Sim, assino pelo Paços e fico lá as três épocas seguintes. Subimos de divisão, fomos campeões.

Em 2004/05.
Sim, invictos em casa. Depois no ano a seguir conseguimos manutenção quase no último jogo e no meu último ano de Paços de Ferreira, sempre com o mister Zé Mota, conseguimos a Europa, algo inédito no Paços de Ferreira, e é aí que sou vendido para a Grécia.

É vendido para a Grécia como?
Se não me engano os clubes da Grécia vieram ver jogadores. Não só da Grécia, também tinham vindo algumas equipas da Roménia. Falaram com o meu empresário, na altura tinha empresário, Marcelo Cipriano, antigo jogador do Tirsense, e quiseram que eu fosse para lá.

Como conheceu o seu empresário?
Os meus empresários eram o Cipriano e o Hugo Cabral. Foi através do Hugo Cabral que jogou no Benfica. Eu era amigo dele, tínhamos jogado no Benfica e ele propôs-me serem meus empresários. Na altura conseguiram que o AEK viesse ver um jogo contra o Porto. Um jogo muito difícil porque poderia decidir o título para o meu irmão e sabe como é que é... Existem sempre conflitos de interesses... Mas fui designado o melhor jogador em campo. O Porto conseguiu um empate quase a meio da segunda parte com alguma felicidade e ambos conseguimos, eu fiz um bom jogo e o meu irmão na altura não precisou daquele resultado.

Esse foi o primeiro jogo mais importante que fez contra o seu irmão?
Não, o primeiro jogo contra o meu irmão foi quando estava, se não me engano, no Paços de Ferreira. Porque ele jogou contra a minha equipa quando eu estava no Beira-Mar, mas eu não joguei e ele jogou. Depois, contra o Gil Vicente, ele jogou e eu não joguei, estava ele pelo V. Guimarães. Depois eu contra ele, estava eu no Paços de Ferreira e ele já estava no FCP.

Como é que é jogar contra um irmão? É uma sensação estranha? Falaram antes e/ou depois?
Antes não falámos muito, falámos depois. Encontramo-nos no jogo e foi tranquilo. Jogámos e depois disse-lhe: "Vocês quase perdiam aqui o título". Porque o Antunes fez o golo muito cedo e eles tiveram problemas até ao final. O golo foi um alívio na área, bateu nas costas de alguém e foi para a nossa baliza.

Vocês têm uma ligação forte?
Temos, as brincadeiras eram sempre juntos, na escola se calhar nem tanto, mas depois no Varzim estávamos muito tempo juntos. A partir de uma certa idade o conjunto de amigos era o mesmo. Querendo ou não, os gostos sempre foram os mesmos, tanto pelo futebol, como por outras coisas que fazíamos sempre juntos.

Depois de uma época no Beira-Mar e no Gil Vicente Geraldo (3ª atrás a partir da esquerda) jogou no Paços de Ferreira

Depois de uma época no Beira-Mar e no Gil Vicente Geraldo (3ª atrás a partir da esquerda) jogou no Paços de Ferreira

D.R.

Quando lhe dizem que pode ir para o AEK da Grécia, qual foi sua primeira reação?
Adorei.

Queria ir para fora?
Sim, era uma coisa que queria bastante, queria ir para fora se não conseguisse jogar numa equipa grande em Portugal, para lutar pelo título. Gostaria de ter aquele gostinho de lutar pelo título e o AEK sempre fez isso. Em Portugal, lembro-me que a dificuldade em ir para um grande era enorme. Ainda se apostava muito nos estrangeiros, os jogadores jovens pouco jogavam ou jogavam mais nas equipas pequenas e só depois iam para as equipas grandes. Eu queria sentir o gostinho de lutar pelo título e conhecer novos países.

Nessa altura sentia algum tipo de ciúme ou inveja em relação ao seu irmão por ele ter conseguido vingar no Porto?
Não, por acaso sempre senti bastante orgulho, sempre torci muito por ele, mais do que se calhar torço por mim mesmo. Não era, nem nunca fui obcecado pelo sucesso. Sempre fui obcecado pelo prazer de jogar futebol. O sucesso, como hei de dizer, o ser milionário ou o jogar numa equipa grande para ter fama, nunca foi algo que me tenha feito jogar futebol. O que sempre me fez jogar foi o gosto por jogar futebol, independentemente de onde fosse. Obviamente que o factor financeiro é determinante, mas nunca foi a fama.

Mas acha que ele conseguiu jogar no FCP tanto tempo e depois no Zenit e por aí fora por ter mais sorte ou por ser melhor jogador do que o Geraldo?
Ele é melhor jogador do que eu, sempre foi mais perseverante do que eu, e se calhar obcecado, no bom sentido. Já falei imensas vezes sobre isso, mas acho que foi isso que o fez chegar ao topo.

Porquê?
Penso que conheço a vida do meu irmão. Sei como é que ele chegou aos clubes. Ele nunca foi ajudado por um empresário, nunca foi ajudado ou empurrado pelo clube. Tudo o que conseguiu foi mediante o seu trabalho. Ele chegou ao Porto quando muita gente dizia que ele não era bom para o Porto.

Ele trabalha com o Jorge Mendes, que toda a gente diz ter uma influência enorme.
Exatamente, mas é o que eu digo, os clubes já queriam o Bruno quando ele não era do Jorge Mendes. A única coisa em que, no meu ponto de vista, o Jorge Mendes o ajudou, foi a sair do clube, a sair do Porto, porque o Porto dificilmente deixa sair jogadores. Ainda para mais do feitio do Bruno. E tanto é que se nota hoje em dia o não ter um líder no Porto.

Geraldo e Helder Postiga (à esquerda) durante um jogo entre FCP e Paços de Ferreira

Geraldo e Helder Postiga (à esquerda) durante um jogo entre FCP e Paços de Ferreira

MIGUEL RIOPA

Voltando a si. Vai para o AEK da Grécia sozinho?
Fui com a minha namorada da altura. Fui bastante bem recebido porque tinha muitos amigos portugueses, tinha muitos jogadores brasileiros também. Tinha o Manduca, com quem joguei no Paços de Ferreira. Fui muito bem recebido pelo Júlio César, que tinha jogado comigo no Estrela da Amadora e que tinha jogado com o meu irmão na Grécia, no AEK, e também fui super acarinhado pelo Rivaldo. Entretanto chegou o Manú, que jogava no Estrela da Amadora, o Edinho e o Moreto, e fizemos ali um bom grupo.

Como foi o primeiro impacto na Grécia?
Adorei, é uma cultura completamente diferente da nossa, uma língua completamente diferente, hábitos diferentes. Existe loucura pelo futebol, apreciei, foi uma experiência extraordinária.

Foi viver para onde?
Para um apartamento arranjado pelo clube e fiquei lá os três anos. Foi uma altura excelente, fiz imensos amigos, melhorei aspetos sociais. Melhorei 100% o meu inglês, aprendi o grego, relacionei-me com imensas pessoas e também melhorei o meu espanhol, porque no primeiro ano conheci argentinos e espanhóis.

O que mais o marcou nesses três anos de AEK e da Grécia?
Foi mesmo isso, as amizades que fiz, os convívios que tínhamos todos os dias, o viver fora muito tempo, eu quase que ficava lá um ano sem vir a casa porque eles não celebram o Natal como nós em Portugal.

Esteve os três anos sempre com a mesma namorada?
Não, estive um ano e depois vivi sozinho.

Do que gostou menos da Grécia?
Os problemas que encontáamos no clube. Foi a primeira vez que encontrei um clube com tantos problemas.

A que nível?
No pagamento. Fiquei um ano sem receber. O último.

Viveu das suas economias?
Exatamente, não posso dizer que vivia a pão e água que é mentira. Ganhava muito bem, foi o meu melhor contrato. Foi aí e no Estrela de Bucareste, foram os meus melhores contratos. No primeiro e segundo ano ganhava bastante bem e deu para me aguentar o último ano.

Geraldo começa a aventura no estrangeiro no AEK da Grécia

Geraldo começa a aventura no estrangeiro no AEK da Grécia

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Tem alguma história engraçada da Grécia que se lembre e nos possa contar?
Tenho imensas... Uma vez estávamos a ganhar um jogo mas os adeptos não gostavam da forma como estávamos a jogar e entraram no campo. Tivemos de fugir do estádio [risos]. São doidos a esse ponto. Outra situação caricata foi o facto de eu num ano ir mais de 30 vezes ao controlo anti-doping. Outra que também posso contar: foi uma vez que fui ao centro de Atenas e eu não sabia dos riots, eles vieram para a rua e começaram a destruir tudo por causa da política. Fui apanhado desprevenido num café no centro da cidade. Tivemos de nos enfiar para dentro do café e esperar até que aquilo passasse.

Sentiu medo?
Não tinha muito medo, porque a maior parte das pessoas que o faz, eles chamam de anarquistas, mas são metade dos adeptos do AEK, metade dos adeptos do Olympiacos, e do Panathinaikos, e eles respeitam bastante os jogadores de futebol. Não tive medo, mas eles são bastante violentos.

Na Grécia também não lhe fizeram nenhuma praxe?
A gente lá não era muito disso. O que fazíamos bastantes vezes era jogar à porrinha, um jogo que o Rivaldo trouxe e que era ter pedrinhas na mão e contávamos o total que tinha na mão de cada um. Cada um dava um número. Depois davamos berloques nas orelhas [risos]. Era o nosso vício, dos estrangeiros, lá. É uma coisa assim de criança mas é a coisa de que eu mais me lembro até hoje. De resto o que mais me lembro eram os convívios, era excecional. Éramos brasileiros, espanhóis, argentinos, tínhamos um do Canadá, um argelino, era uma coisa absurda.

E dos treinadores, teve algum que o tivesse marcado mais pela positiva ou pela negativa?
O espanhol que nos levou para lá marcou-me obviamente, o senhor Serra Ferrer. O pior foi o sérvio Bajevic, tanto é que no ano a seguir os adeptos entraram e bateram nele.

Bateram-lhe porquê?
Eu acho que ele era um pouco racista, se calhar mais xenófobo. Afastava muito os estrangeiros, punha-os de parte. Sempre me senti preparado para isso, mas vi outros jogadores a terem problemas, lembro-me de um episódio em que tanto eu, quanto o Edinho, que joga no Farense, tivemos de salvar um colega nosso, o argelino Djebbour, de cenas de violência dele dentro do balneário.

O treinador queria bater nesse jogador?
Foi, porque aconteceu uma cena lamentável entre o jogador argelino e um jogador argentino, e o treinador e o técnico reagiram de forma violenta e queriam bater nele. Eu e o Edinho fomos separá-los para não deixar que batessem nele. Foi uma situação difícil.

Depois da Grécia, Geraldo (com a bola) vai para o Steaua de Bucareste, na Roménia

Depois da Grécia, Geraldo (com a bola) vai para o Steaua de Bucareste, na Roménia

ben radford

Como se dá a sua ida para a Roménia?
A minha ida para a Roménia foi um pouco de desconfiança no início. A gente tem uma má perceção da Roménia e dos romenos. Quando cheguei aqui tive um pouco de medo e de receio dos métodos que eram utilizados ao início.

Tinha esse medo e esse receio porquê? Eram coisas que outros jogadores lhe contavam, eram coisas que lia, era o quê?
Basicamente pelo que as pessoas diziam sobre os romenos em Portugal, pura e simplesmente isso. Ou seja, indiretamente toda a gente fala dos romenos, era uma imagem que a gente tinha e tem em Portugal, mas cheguei aqui e foi completamente o contrário. Encontrei um excelente país, atrasado em algumas coisas mas bom para jogar futebol.

Quando vai para a Roménia joga primeiro no Steaua.
Sim, o presidente do clube ligou-me diretamente, falou comigo, disse que me dava o que eu quisesse, que apanhasse o primeiro avião e que viesse para cá. Ao princípio nem aceitei, pensei que eles estavam a brincar, mas depois eles insistiram "anda, anda, anda" e lá vim. Falei com os meus empresários para me acompanharem e ajudarem na parte legal.

Qual foi o primeiro impacto quando aterrou?
Foi muito mau. Entrei num aeroporto antigo, ultrapassado, entrei no carro e as negociações começaram logo no carro. As estradas e a cidade pareciam-me muito velhas, antigas. Quando fui fazer os exames médicos as coisas não eram como eu estava habituado, num hospital e com tudo como devia ser. Comecei a assustar-me. Quando chegámos, a negociar com o patrão, pedi tanta coisa que acho que se tivesse pedido mais alguma coisa eles já não queriam. Mas eles aceitaram, queriam mesmo que eu ficasse.

Geraldo com a mulher, Adela, e a filha, Maya

Geraldo com a mulher, Adela, e a filha, Maya

D.R.

O que pediu que não estivesse à espera que eles aceitassem?
O salário, a casa. Pedi que o apartamento estivesse mesmo no nome da equipa porque sabia que se eles não dão o dinheiro para pagar o apartamento, como na Grécia, acabas por ser tu a pagar, foi o que aconteceu comigo na Grécia. Eles não me davam o dinheiro mensalmente para pagar o apartamento e eu tinha de tirar dinheiro do salário que tinha guardado. Acabava por ter de pôr sempre dinheiro do meu bolso e não podia dar desculpa porque o apartamento estava no meu nome. Aqui não, aqui o apartamento esteve sempre no nome do clube. Se eles me mandassem embora, ia para um hotel, mas estava sempre em nome do clube e é raro os clubes fazerem isso. Deram-me carro, deram-me apartamento e não sei quantas passagens, deram-me tudo. E o ordenado era acima da média, foi notícia. Eles aqui têm muito a mania de pôr cá para fora os números e de fazerem listas, o jogador mais bem pago e depois o rendimento. É muito extrapolado. E eram números normais, eram números de um Braga se calhar, não eram números do Benfica, do Porto ou do Sporting. Eles aqui não têm a possibilidade de pagar isso. Mas para a Roménia e para o nível de vida aqui, era bastante bom.

Então ficou porque lhe deram tudo o que pediu…
Na verdade também existia a possibilidade de ir para o Leeds, mas o Leeds estava na II divisão de Inglaterra e lá eram imensos jogos. Aqui eram menos, existe sempre a paragem de inverno, uma coisa que agrada, e eles lutavam pelo título, que era algo que eu queria para ter a hipótese de jogar a Liga dos Campeões, algo que nunca aconteceu na minha vida.

Inicialmente vai viver sozinho para a Roménia?
Não, vou com a pessoa que estava comigo, mas não aguentou ficar muito tempo. Aqui os estágios são uma coisa absurda. Acabamos por ficar dois dias de estágio antes dos jogos e um dia depois. E eu tendo jogo domingo e quarta-feira, ou sábado e quarta ou quinta-feira, quase só ia um dia por semana a casa. Acabava por ser bastante difícil e acabei por ficar sozinho.

Na primeira época tem cinco treinadores.
Sim, e na seguinte outros cinco.

Como é que um jogador consegue adaptar-se a tanto treinador em tão pouco tempo?
Eu consegui. A primeira coisa que fiz quando cheguei aqui foi adaptar-me à cultura, adaptar-me à língua, aprender a língua rapidamente. Aqui o mais difícil é adaptar-se ao estágio. É muito tempo em estágio. Estágios maus, muitas viagens de autocarro, estradas muito más... É o mais difícil na Roménia.

E aos cinco treinadores?
Nem sei... Nós tivemos cinco treinadores e mais de 100 jogadores.

100?
Sim, se não me engano em dois anos foram 100 jogadores trocados. Logo no meu primeiro mês vieram 10, o treinador foi embora depois de um mês, esses 10 foram mandados embora, vieram outros 10 de outra equipa... foi uma coisa... É a loucura mesmo.

Mesmo assim ganharam a Taça na primeira época.
Nessa primeira época conseguimos ganhar a Taça mas no campeonato ficámos bastante mal, se não me engano ficámos em sexto ou em quinto.

O Geraldo tinha assinado por quantos anos?
Por dois anos. No segundo ano foi a mesma coisa, a mesma história. Conseguimos um brilharete na Liga Europa mas no campeonato perdemos quase no final. Outra vez muitos treinadores, muitos jogadores e muitos problemas na equipa. Eles pediram-me para renovar mas eu não aguentava mais os problemas todos, não haver um bocadinho de paz e sossego na equipa.

Geraldo passa do Steaua para o FC Petrolul Ploiesti

Geraldo passa do Steaua para o FC Petrolul Ploiesti

EuroFootball

Como se dá a passagem para o FC Petrolul Ploiesti?
O Steaua queria renovar mas disse-lhes que não queria. Queria algo sem problemas. Porque o problema do Steaua não era sempre os jogadores, depois começámos a não ter campo nem para treinar, nem para jogar, porque eles começaram a ter problemas com a identidade, um pouco à semelhança do Belenenses. Não têm campo, não têm clube, só têm nome para poder disputar a I liga. Foi também por este motivo. O presidente entretanto também foi preso. E pelo meio tive uma proposta de Espanha.

De quem?
Do Jerez de la Frontera, que na altura tinha descido para a II Liga. Fui falar com eles mas não aceitei, mentiram-me.

Mentiram como?
Por telefone disseram-me uns valores e cara a cara já eram outros e quando assim é... Eu gosto de ir pela primeira impressão. Entretanto do Petrolul liga-me. Disseram-me "é isto" e eu "é isto. Se for vou se não fico". Fui, fui super bem tratado e acabei por ficar no Petrolul e acho que foi a melhor decisão que fiz. De todos os clubes, foi onde me senti melhor.

Porquê?
Deram-me mais importância, valorizaram-me bastante, nomearam-me capitão de equipa, ganhámos uma taça. É uma equipa que se assemelha muito ao V. Guimarães. Ou seja, toda a gente da cidade é adepta do clube. É uma cidade grande, com 500 mil habitantes. Tinham um estádio novo. Foi interessante. Uma equipa que veio da II liga e conseguiu bater-se pelo título, fizemos coisas muito boas. Infelizmente o clube, depois do terceiro ano, entrou em insolvência.

Encontrou vários portugueses nessa equipa.
Sim. Dois dos meus melhores amigos atuais, o Filipe Teixeira e o Peçanha estiveram lá comigo. Filipe Teixeira com quem vivi grandes momentos e fiz uma amizade muito grande; e Peçanha também, conheci-o em Paços de Ferreira, depois estive com ele na Grécia e por fim cruzámo-nos na Roménia.

Foi viver para onde?
Sempre vivi em Bucareste, comprei casa aqui. A minha namorada é daqui.

Conheceu-a como e quando?
Conheci a Adela Barcan no meu segundo ano de Steaua. Ela estava na universidade anglo-romena a tirar Direito. Conheci-a por acaso, através de amigos. Trocámos olhares, depois encontrei-a na internet e comecei a cortejá-la. Entretanto ela veio viver comigo e engravidou.

Tem quantos filhos?
Tenho uma filha de cinco anos, a Maya. Nasceu aqui e já faz ballet.

D.R.

Estava a dizer que ano seu terceiro ano o Petrolul vai à falência...
Sim, e eu e o Filipe Teixeira somos despedidos do clube [risos]. É a primeira vez que me acontece, ser despedido de um clube de futebol.

Mas porquê? Porque ganhavam mais?
Sim, ganhávamos mais e não aceitávamos o que eles estavam a fazer connosco. Normalmente tens de aceitar um plano de reestruturação e nós não aceitámos. Aconteceu assim connosco.

Quando ficou sem clube o que fez?
O nosso mercado na Roménia, tanto o meu como o do Filipe, era muito bom. Éramos jogadores conhecidos e amados. Sempre fomos super bem tratados, com muita influência no campeonato, o Filipe foi muitas vezes designado o melhor jogador na Roménia, o melhor estrangeiro. E eles aqui dão muito valor a jogadores profissionais, que não saem à noite. Fomos para o Astra logo no ano seguinte, com o mister Sumudica, que já esteve em Portugal.

Como correram essas duas épocas no Astra?
O primeiro ano foi incrível. Foi a primeira vez que consegui jogar futebol realmente com muito prazer. Fomos campeões. Ninguém dava nada por nós, a equipa com os jogadores de mais idade, toda a gente achava que já estávamos acabados. Éramos a equipa que melhor futebol praticava. Acabámos por eliminar o West Ham, eles com um budget superior ao nosso seis vezes, nas competições europeias. Ganhámos um campeonato que, tenho de dizer, é inédito, não pela qualidade que apresentámos mas pelas condições em que a gente o viveu. Tenho mil e uma histórias para contar.

Conte lá duas ou três.
Sei lá, ao ponto de não termos água quente, não termos campo para treinar, andar equipados dentro do carro à procura de campo, não ter bolas para treinar [risos]. Uma equipa profissional. Era algo do outro mundo. O que a gente fez foi mesmo um milagre. Mas se calhar foi algo que nos uniu bastante, aos jogadores. Eles tinham muitas dificuldades para pagar. Mas apanharam jogadores que já tinham alguma condição financeira para se aguentar algum tempo sem receber. E como sabíamos que eles ao fim e ao cabo tinham de pagar, porque se fossemos campeões, para se manterem na I divisão tinham de nos pagar... Por isso, continuámos. Tanto que desde que fomos para 1º lugar mais ninguém nos tirou lá de cima. E competimos na Europa a bom nível.

Também assinou por duas época?
No Astra foi uma mais uma. Com a consequência de ganhar o campeonato e assinar mais um ano. Com o efeito de toda a gente baixar o salário e eles mesmo assim não pagavam [risos].

Mais já receberam esse dinheiro?
Já.

Geraldo esteve quatro épocas no FC Petrolul Ploiesti

Geraldo esteve quatro épocas no FC Petrolul Ploiesti

EuroFootball

Nesse seu último ano de Astra pendura as botas.
Sim, chegou uma altura em que já não dava. Porque houve uma série de problemas. Fomos campeões, no ano a seguir recebemos menos salário porque os jogadores queriam jogar juntos, porque gostaram do ambiente e de como o treinador geria os treinos. Mesmo assim eles demoraram quatro meses a pagar o nosso prémio de campeão. No campeonato íamos mal, mas na Europa íamos bastante bem. Chegou uma altura em que nos foi prometido o pagamento do prémio de campeão e que se fossemos campeões naquela época receberíamos prémio outra vez, porque eles inicialmente não queriam dar-nos prémio de campeão na segunda época. Estávamos em último lugar quando nos disseram que se entrássemos no play-off e nos grupos na Europa assinavam um papel em como nos pagavam tudo.

O que aconteceu?
Fizemos 10 jogos sem perder. Pusemos a equipa do último lugar no 6º lugar e qualificámo-nos contra o West Ham outra vez na fase de grupos da Europa. Ou seja, fizemos um super esforço. Depois de fazermos isso, e isso aconteceu antes do Natal, pensámos que quando chegássemos ao Natal eles iam dar-nos as folhas antes de irmos para estágio. Porque normalmente vão para estágio um mês. Não só não nos assinaram as folhas como ainda nos puseram de estágio quase interno. Aquilo começou a fazer-me confusão. Foi super desmotivante. A minha filha também estava com dois anos, a gatinhar, a dizer as primeiras palavras, e eu queria seguir esse crescimento, já não queria estar longe da minha filha a jogar futebol onde as condições não eram nem as mínimas. O teu tempo é valioso, se não é para jogar à bola em boas condições e nem receber, então não vale a pena jogar. Foi muito por isso que deixei de jogar.

Custou?
Não me custou nada. Tinha na cabeça que queria estar dois, três anos sem fazer completamente nada, sem ter objetivo... Era estar em casa mesmo, levar a minha filha à escola, ir buscá-la. Ir a Portugal quando quisesse, viajar quando quisesse. Queria estar sem preocupações e tratar um bocado da minha saúde.

Como assim da sua saúde?
Sobretudo curar as mazelas, tendão de Aquiles, joelhos, costas. Comer melhor, alimentar-me melhor. Tínhamos uma alimentação muito errada, toda a gente dizia que era bom nós comermos massas e a ciência veio dizer-nos que não é tão bom comer massas depois ou antes dos jogos. Comia bastante açúcar, muitos doces, e pensava que por fazer desporto podia. E não é bem assim. Não tinha nenhum problema de saúde, apenas percebi que fazia muita coisa errada. E queria alterar isso. Também tinha a influência do meu irmão, que foi determinante. Ele começou a mostrar-me, a dizer o que fazer, para ter maior longevidade no desporto. Peguei tarde, só quando deixei o futebol, mas uso hoje em dia para que a minha vida seja melhor e também para influenciar a minha filha.

Com a mulher e filha

Com a mulher e filha

D.R.

Então está há três anos sem fazer propriamente nada?
O meu primeiro ano não fiz nada. No meu segundo ano sem jogar, acabei o 12º ano em Portugal, via online. Estudei para que pudesse começar o meu curso de treinador aqui, em setembro deste ano, em romeno.

Já percebe assim tanto de romeno?
Percebo bastante bem, já estou aqui há oito anos. Existem algumas coisas que são difíceis, na parte escrita e gramatical tenho dificuldades, mas leio e entendo tudo, também me faço entender bem quando falo, a parte difícil é ser coerente na escrita. Mas acho que nem em português sou capaz disso, quanto mais em romeno [risos].

Está a gostar do curso?
Sim. É bastante intenso. Começa às nove da manhã e acaba às sete da noite. Consigo ir a todas as aulas, a maior parte das pessoas não consegue, às vezes estou sozinho. Em Portugal seria muito mais fácil, porque, se não me engano, é pós-laboral, duas horas em três dias por semana.

Como descobriu que queria ser treinador?
A verdade é que eu não quero ser treinador. O meu pai forçou-me a fazer o curso, a minha esposa também, caso volte o gostinho tenho o curso, caso surja oportunidade e queira, tenho o curso. Vou estar sempre atualizado e em termos de mercado de trabalho vou estar qualificado.

Mas tem alguma ideia daquilo que gostava de fazer no futuro?
É muito difícil. Quando se faz o que se ama é muito difícil pensar no que se vai fazer pós futebol, não precisando. Dizer que vou fazer isto para ganhar dinheiro, não. Mas se tiver de fazer, faço qualquer coisa, arranjo emprego, pego e faço. Já tive convites aqui de muitas equipas para ser treinador, não fui porque não quis.

Significa que o dinheiro que ganhou ao longo da carreira permite-lhe estar descansado.
Sim, investi bem.

Em quê?
Em imobiliário, deixo o dinheiro trabalhar por mim no momento.

Está então totalmente focado na família.
Sim, na minha vida, também em me redescobrir, saber o que eu quero fazer, porque a verdade é que se fiz futebol a minha vida toda e é aquilo que eu amo, não é agora quando acabou o futebol e tenho possibilidades, que vou fazer alguma coisa que não goste. Se houvesse necessidade, estou saudável para fazer, mas no momento acho que não preciso.

O que faz para manter a forma agora, além da alimentação mais saudável?
Ginásio todos os dias. Pego pesos de forma saudável e faço ioga. Quando estou em Portugal pratico futevólei com os meus irmãos e amigos. Mas nada de futebol.

Fartou-se do futebol?
Fartei-me. Gostava muito de futebol, mas tudo o que envolve futebol é chato, é muito complicado, em praticamente todo o lado. Aqui na Roménia é um bocadinho complicado. Para jogar futebol tem de ser só na relva, porque hoje existe o hábito de querer jogar nos sintéticos e acho que é pouco saudável para qualquer pessoa, muito menos para uma pessoa da minha idade.

Segue algum outro desporto?
Gosto de ver NBA. Ainda gosto de ver futebol de vez em quando. Gostei de ver o campeonato brasileiro este ano, fique emocionado com o Jesus, que ganhou com a minha equipa de coração. Também gosto de seguir o Cristiano e o meu irmão. De uma maneira geral, gosto de ver os portugueses que estão lá fora. Fala-se tão pouco em Portugal e Portugal tem tanto sucesso lá fora.

Alguma vez foi chamado à seleção?
A única vez que fui chamado à seleção foi num amigável dos sub-21, mas nem contou como internacionalização.

Nunca foi praxado em lado nenhum?
Não. Aprendi com o meu pai que me dizia "nunca penses como um miúdo, pensa sempre como um profissional". Ou seja, quando chegava nos clubes, chegava mau, no treino não brincava. No balneário era super tranquilo, mas no campo fazia prevalecer a minha maldade, isso fazia com que fosse muito respeitado.

Qual foi a maior frustração e a maior alegria na carreira?
A maior frustração foi nunca ter jogado a Champions League, nunca ter conseguido ouvir aquele hino que me emociona, no campo. E a minha maior alegria no futebol foi poder ter conhecido muitos países, foi ter vindo para a Roménia e ter feito a minha família aqui.

Geraldo terminou a carreira no Astra Giurgiu da Roménia

Geraldo terminou a carreira no Astra Giurgiu da Roménia

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Vai continuar a viver na Roménia?
Vamos ver. Temos um plano a médio prazo, ou seja, de quatro anos. A minha filha vai entrar na escola, queremos ficar até à 4ª classe dela, para que aprenda bem o romeno e o inglês e eu vou-lhe lecionar português em casa. Depois, o mundo é ilimitado. Vamos ver onde o curso de treinador me pode levar. Tanto eu como a minha esposa queríamos conhecer o mundo e se pudermos fazer assim, a minha filha já levava uma boa base do inglês, que pode usar em qualquer lado, eu tenho sempre o futebol e a minha esposa também fala muito bem inglês e pode lecionar.

A sua mulher trabalha?
Neste momento ela está a tratar mais da parte dos investimentos que temos, em construção de casas. Começamos por fazer apenas compra e venda de casas, agora metemo-nos na construção também.

Tem algum hobby?
Tiro ao alvo, com arma de verdade. Experimentei aqui na Roménia uma vez e adorei. É uma adrenalina grande. Isso e o futevólei, só que no futevólei preciso de parceiro e aqui nem há campo de futevólei. Tenho de arranjar outro hobby [risos]. O Filipe Teixeira bem me diz para jogar paddle que vou gostar. Mas eu não vou muito à bola com raquetes.

Se não tivesse sido jogador de futebol o que teria sido?
Professor. Gosto muito de crianças, gostaria muito de ensinar.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Sempre fui uma pessoa muito comedida. Mas se calhar, os ténis. Cheguei a ter 200 pares de ténis. Vendi e dei todos, porque não tenho tempo para usá-los. Era uma obsessão, há uns cinco ou seis anos tinha um quarto mesmo só de ténis. Agora tenho para aí uns 30 pares.

É crente?
Não sou religioso, mas acredito em Deus. Gosto de ler a Bíblia, ou li há algum tempo a Bíblia. Não sou cristão, não sou protestante, não sou muito com a igreja mas acredito em Deus.

E superstições? Tem ou tinha?
Nenhuma. Acreditando em Deus não dá para ser supersticioso, acho que é um contrasenso.

Mas sabe que há muitos jogadores que acreditam em Deus e têm superstições.
Eu sei, é verdade. Mas se calhar nunca leram a Bíblia, porque na própria Bíblia está escrito que não deves ser supersticioso.

Tem tatuagens?
Não. Não sou muito de modas, não faço as coisas porque fica bem ou fica giro.

Nas andanças pelo estrangeiro o que lhe custou mais?
Ficar longe da família e dos meus amigos. Porque eu saí de Portugal com 18 anos e os meus melhores amigos vivem em Portugal. Fiz alguns amigos no futebol, muito poucos, aqueles que já nomeei, mas os meus amigos de infância, da escola, vivem na Póvoa, e é com eles que passo as minhas férias. É o que me custa mais. Estar longe dos meus irmãos, do meu irmão mais novo que, querendo ou não, a partir de uma certa idade pouco me relacionei com ele, só em férias.

Há algum hábito que tenha adquirido da Grécia ou da Roménia?
Não. Os gregos tinham realmente muitas particularidades, como a mania do frappé, e de estar sempre nos cafés ao final do dia, mas nada me ficou. Gostava muito do queijo feta, mas acabei por renunciar porque é um produto lácteo.

Cortou com os produtos lácteos?
Sim.

Tornou-se vegetariano?
Ainda não. Ainda lhe dou no ovo e como carne. É o meu próximo passo, cortar com isso.

Gosta de música?
Muito. Adoro um bom pagode e um bom samba. Gosto de hip hop.

Teve ou tem alguma alcunha?
Não. Aqui na Roménia chamam-me Geri, por ser uma abreviação e mais rápido de dizer.

E mais histórias para contar, não tem?
Lembro-me de uma em Angola, quando fomos lá pelo Benfica. Num dos dias de pausa eles deixaram-nos ir até uma das províncias um pouco mais distantes de Luanda, para passearmos, vermos a paisagem. A certo ponto parámos para entrar na água. Não me recordo se era um rio ou no mar. Enquanto estávamos a tomar banho, parou perto de nós um barco que parecia de pesca. Ficámos indiferentes. Até que um dos senhores que estava a pescar lançou uma granada para dentro de água, ouviu-se um estrondo enorme e os peixes todos a saltar cá para fora. Assustámo-nos e saímos logo todos dentro de água [risos]. Eles disseram que era super normal. Nos EUA também aconteceu uma boa.

Conte.
Muitos dos jogadores mais importantes do Benfica já estavam muito aborrecidos de lá estar. Houve uma altura em que íamos para o treino e o autocarro demorou umas duas horas, e ficámos no hall do hotel à espera durante muito tempo. Dois jogadores cujo nome não vou dizer, muito aborrecidos, lembraram-se de brincar com a bola. O que é que eles fizeram? Um estava na frente do hotel e o outro passou para o outro lado da estrada e começaram a fazer passes por cima dos carros. Quem errasse o passe começava a tirar roupa. Até que ficaram os dois em cuecas, em plena autoestrada nos EUA. Nós, os outros jogadores, riamo-nos e os chefes do Benfica estavam estupefactos, não tiveram coragem de ir lá falar. Até que chegou o capitão, veio e disse para pararem [risos].