Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

“Contei o dinheiro, disse-lhe que tinha recebido a mais e o russo deu-me uma estalada à mafioso: 'Bem-vindo à família, podes ficar com ele'”

Um acidente de moto aos 17 anos, mudou-lhe a forma de jogar futebol e a vida. Madjer deixou, então, a relva e uma equipa de 11, para se dedicar ao futebol de praia e conquistou tudo o que um jogador pode ambicionar, entre títulos individuais e coletivos. À beira de completar 43 anos, despiu em dezembro o equipamento de jogador com mais um titulo mundial para Portugal e foi eleito pela France Football como o melhor jogador de futebol de praia de sempre. Para já quer ficar em Portugal, garante, numa entrevista onde passa em revista a sua história pessoal e profissional - e faz algumas confissões

Alexandra Simões de Abreu

Pedro Nunes

Partilhar

Nasceu em Angola. Lembra-se de alguma coisa de lá ou veio para cá pequenino?
Vim para Portugal muito pequeno, com seis meses, não tenho memória de Angola. As memórias que tenho são as memórias que os meus pais me transmitiram das suas vidas.

O que é que os seus pais faziam profissionalmente em Angola?
O meu pai, Fernando Saraiva, trabalhava na Cabinda Gulf era desenhador projetista, a minha mãe, Ivone Ribeiro, na altura já cantava fado para a comunidade portuguesa.

Tem irmãos?
Tenho quatro irmãs mais velhas. Duas nasceram cá e duas lá.

Já voltou a Angola?
Não. Mas gostava de voltar para conhecer o país onde nasci. Os meus pais já me disseram que agora não é a melhor altura para lá ir, tendo em conta as memórias que eles me passaram.

E que memórias são essas que eles passaram?
Contaram que quando lá chegaram era um país fantástico, muito acolhedor, com pessoas amáveis, relativamente organizado e que era um país de sonho. Por isso é que foram para lá viver, mas ao fim de um tempo tornou-se um pesadelo, pouco antes de vir para cá a minha mãe conta que, por causa da guerra, chegou a ter de saltar muros, a fugir, para ir comprar pão.

Quando veio para Portugal foi viver para onde?
Eu andei com a... casa às costas (risos). Primeiro fomos viver para Cascais, mais tarde fomos para o Estoril, mas sempre nessa zona, nunca saímos dessa zona.

Qual é a memória mais forte que tem da sua infância?
Tenho uma que guardo, e apesar de ser muito pequeno, ainda outro dia estava em conversa com a minha mãe e ela dizia "Como é que tu te lembras disso!?". Nós vivíamos em Cascais numa vivenda e o meu pai sempre teve aquele desejo de proporcionar aos filhos experiências diferentes. Então, ele montou uma tenda no jardim e uma cama de rede e eu lembro-me perfeitamente de estar a brincar nesse dia em que ele montou as coisas. Devia ter apenas dois anos anos. E ainda me lembro mais ou menos da disposição da casa, a minha mãe acha incrível [que Madjer se recorde]. São aqueles momentos que, apesar de estarem bem lá no interior da nossa mente, eu recordo.

Sendo o mais novo e único rapaz, era muito mimado?
Não posso dizer que não era (risos). Sim, como caçula acabei por ter um carinho ou uma atenção redobrada. Elas andavam sempre em guerras, sempre às lutas, aquelas coisas de irmãs, e eu sempre estive um pouco à parte disso porque era o mais pequeno. O meu pai tanto tentou, tanto tentou que acabou por sair aquilo que ele queria: um homem. Então, eu tinha uma proteção extra também.

Madjer com a mãe, Ivone, e o pai, Fernando.

Madjer com a mãe, Ivone, e o pai, Fernando.

D.R.

Qual foi o primeiro desporto que começou a praticar?
Desporto, mesmo, foi o futebol. Anteriormente, andei na natação mas por uma questão de segurança, porque a minha mãe achava que eu devia aprender a nadar rapidamente. E depois surgiu o futebol na minha vida, no Estoril Praia.

Tinha quantos anos?
Comecei no Estoril Praia com sete anos.

Foi o Madjer que pediu para ir, foi o seu pai que resolveu levá-lo, como foi?
Foi a minha mãe que, por acaso, conhecia um treinador no Estoril Praia e contactou-o para perguntar se eu podia lá ir fazer uns treinos à experiência.

Tinha ídolos?
Tinha imensos ídolos, porque eu sou do tempo de ir ao velhinho estádio José de Alvalade com o meu pai aos domingos à tarde ver os jogos. O meu pai fazia questão de me levar; eu tinha imensas referências do Sporting. Uma deles é o Paulinho Cascavel que eu achava que era um fora de série. O Balakov, mais tarde. Mas recordo-me sem dúvida do Paulinho Cascavel porque era um jogador que já fazia a diferença. E talvez por ser um nome diferente, acho que me chamou à atenção.

Foi treinando no Estoril Praia até que idade?
Fiz a formação até aos 17 anos entre o Estoril Praia e o Estoril Atlético Clube que é um clube também ali da zona do Estoril.

Jogava em que posição?
A extremo esquerdo.

A chatice da Física e da Química - e o bodyboard

Nunca apanhou sustos no mar?
Apanhei vários. Quando aprendi a fazer bodyboard quis sempre pôr a fasquia mais alta e correndo mais riscos. Apanhei uns quantos sustos, sem dúvida. Um deles, estava imensa corrente, e nós fazíamos bodyboard ali na praia da Poça ou na praia da Azarujinha. E dessa vez entrámos na praia da Azarujinha e, quando demos por nós, por causa da corrente, estávamos quase à frente do forte de Salazar. Começámos a remar, eu já estava exausto de tanto remar para tentar ir para a praia da Azarujinha, porque naquela zona era só rochas. Lá conseguimos sair mesmo pelas rochas, ficámos com os pés todos cortados, mas safámo-nos.

Madjer (5º em baixo à direita), com a turma da 2ªclasse na escola primária, no Estoril.

Madjer (5º em baixo à direita), com a turma da 2ªclasse na escola primária, no Estoril.

D.R.

O que aconteceu para deixar de jogar futebol 11 ?
Eu tenho outra paixão que são as motos. Nessa altura já andava de moto e há momentos na nossa vida em que... Lá está, é aquela parte dos teenagers inconscientes… Andei na moto de um amigo meu, sem carta, era uma moto em que não poderia andar e tive um acidente que me fez estar parado dois anos a recuperar. Levei 80 pontos numa perna, dei cabo da cervical, os dedos partidos...

Como foi o acidente?
Despistei-me e fui contra um carro estacionado. É daquelas coisas que eu digo: há males que vêm por bem, um acidente de moto acabou depois por transformar a minha vida.

O que lhe custou mais nesses dois anos?
Foi saber que, se calhar, não poderia praticar mais desporto. Inicialmente, não se sabia com que mazelas é que eu iria ficar e era o que me estava a custar mais. Saber que o jogar futebol era a minha vida e se calhar não iria poder praticar mais… Entre fisioterapia, tratamentos, eu só pensava: "será que vou conseguir? Será que vou conseguir?". De qualquer forma agarrei-me à parte mais positiva, graças a muitos amigos meus que me acompanharam nessa minha etapa e que me diziam "tu vais voltar, vai ver que vais voltar a 100%"... Claro que foi um período de interregno muito grande, mas a verdade é que recuperei fisicamente.

E volta ao futebol de 11?
Sim, mas quando regresso ao futebol 11 notei nitidamente que tinha perdido muita coisa. Dois anos é muito tempo e quando regressei, vi que realmente perdera muita coisa...

(E agora regresso um pouco atrás porque é uma coisa que vem de berço que a minha mãe me ensinou).

Há uma fase da minha vida em que os meus pais se separaram, eu ainda era pequeno e a minha mãe acabou por fazer o papel de mãe e de pai. Desde o berço, da educação que os meus pais me deram e que a minha mãe deu seguimento, que me ficou isto: temos de lutar sempre por aquilo que nós queremos, independentemente de ser ou não material. Sempre foi esta a educação que a minha mãe nos deu. Estando dois anos fora do futebol e depois querer ter as minhas coisas e não poder ter, tive de ir trabalhar.

Foi fazer o quê?
Fiz imensas coisas. Trabalhei numa bomba de gasolina no Estoril, isto ainda estudava e treinava, para comprar a minha primeira moto.

Madjer (de branco em cima do muro) com a irmã Delfina, o avô Gualberto, que tem a prima Vanessa o colo, a irmã Carla e a irmã Regina

Madjer (de branco em cima do muro) com a irmã Delfina, o avô Gualberto, que tem a prima Vanessa o colo, a irmã Carla e a irmã Regina

D.R.

Qual foi a sua primeira moto?
A minha primeira moto era a pedais, não me lembro do nome, era cor de laranja. Mais tarde fiz um upgrade de moto, mas também fiz um upgrade de trabalho: fui trabalhar para a Companhia das Sandes do CascaiShopping. Ou seja, acabei por fazer um pouco de tudo, porque tinha de trabalhar para ter as minhas coisas. Mais tarde, e isto é um contrassenso enorme para um desportista, porque são dois mundos que não se encaixam, fui trabalhar na noite, porque a minha irmã era gerente do Gringos, um bar em Alcântara. Acabei por acompanhá-la. Fui apanhador de copos no Gringos, depois comecei por ser apanha-copos no Dock's, depois passei para o bar e cheguei a gerente. Às vezes, conto isto às pessoas e dizem-me: "Como é possível tu, do mundo do desporto, trabalhares à noite, não faz muito sentido".

Gostava da noite?
Inicialmente, gostava, com 19 aninhos achava piada porque conhecia pessoas novas, porque era uma coisa gira e as pessoas divertiam-se imenso. Mas, ao fim de um ano, comecei a perceber que a hotelaria, principalmente a da noite, é desgastante.

Nessa altura ainda estudava? Quando deixa os estudos?
Fiz até ao 12.º ano. Acabei por deixar quando passo para o Dock's. Ainda pensei em acabar o 12.º ano e seguir para a faculdade, era essa a minha intenção, mas depois tive de abandonar.

Tinha pensado em fazer que curso?
Queria fazer gestão de desporto e nunca é tarde para fazer, porque agora estou a tirar o curso. Comecei a tirar o curso de gestão de desporto com um interregno muito grande. Ainda não fui às aulas porque tenho estado em actividade, mas a verdade é que estou inscrito.

Como é que vai parar ao futebol de praia então?
Tinha uns 18 anos. Em 1997 havia um torneio amador em Carcavelos e o Carlos Xavier sabia que eu tinha dotes porque jogava num campo pelado ao lado da minha mãe. E ele. às vezes, passava lá e ficava a ver. Sabia que havia miúdos com qualidade ali, convidou-me para fazer parte de uma equipa amadora de futebol de praia. "Vais lá miúdo, experimentas aquilo". E eu OK. Confesso que nem sabia que se jogava futebol de praia a nível organizado, estava habituado a jogar com os meus amigos à beira-mar, aquelas peladinhas, mas nem sabia que havia equipas e campeonatos. Ainda andei ali uma semana a dizer que não. "Epá agora vou lá experimentar isso"; "Anda lá, vais lá experimentar na boa, se não gostares tudo bem, mas tens de experimentar". Ao fim de duas semanas, lá me venceu pelo cansaço e fui experimentar futebol de praia num torneio amador.

E que tal?
Fui o melhor marcador dessa competição e quem estava a ver esse torneio era o selecionador nacional, o João Barnabé. Lembro-me perfeitamente das palavras dele como se fosse hoje, perguntou-me. "Miúdo, tu tens passaporte?"; "Não"; "Então é assim, se calhar tens de fazer um passaporte porque vais connosco para o Campeonato do Mundo em 98". Eu participei naquela competição no final de agosto e havia Campeonato do Mundo em janeiro de 98. Aquilo para mim foi um mix de emoções, eu nem queria experimentar e acabei por ser chamado à seleção. Cheguei a casa e disse à minha mãe: “Oh mãe eu fui convidado para a seleção de futebol de praia. Mas vou trocar o certo que tenho, porque estou a trabalhar e tenho a minha vida organizada, por uma coisa que é incerta?". E a minha mãe, que sempre teve esta forma de ser, disse-me assim: "Não é o teu sonho?" É. É ficar ligado a um sonho que deixei, que foi deixar o futebol 11, e se calhar ter a oportunidade através de outro futebol de manter o sonho que sempre tive. E ela diz-me assim: "Então vai". Foi assim.

Já tinha deixado o futebol de 11 nessa altura.
Já, completamente.

Com a última medalha de campeão do mundo, no dia da entrevista a Tribuna

Com a última medalha de campeão do mundo, no dia da entrevista a Tribuna

Pedro Nunes

Namoros, havia?
Alguns (risos).

Mas ainda nada muito sério.
Tive um namoro sério que durou alguns anos, mas era um daqueles amor/ódio, era uma coisa muito estranha de miúdos, mas foi duradouro.

Começa então a treinar com regularidade futebol de praia. No início o que é que lhe custou mais?
Quando joguei, nesse torneio amador, senti logo que tinha certas características úteis e que me podia adaptar facilmente àquela modalidade. Houve muita gente que me disse a mesma coisa também. Inclusivamente, nessa competição, havia amigos meus de infância; estava o Chiquinho que também veio à seleção mais tarde e disseram-nos que tínhamos algum potencial na modalidade. A dificuldade que tinha era sem dúvida o terreno irregular. Foi uma adaptação mais dolorosa porque eu estava habituado a controlar a bola, que na relva chega quase direitinha aos nossos pés. Ali tínhamos que ter uma reação rápida porque a bola bate e muda de direção.

Que características eram essas que reconheceu ter e que se calhar outros não tinham?
Remate fácil. Diziam que eu jogava bem com a bola no ar. Já tinha algo que me diferenciava, já fazia pontapés de bicicleta. Ao fim destes anos, acho que consigo explicar os pontapés de bicicleta.

Explique então.
Lembro-me perfeitamente que, em casa da minha mãe, às vezes juntava uma data de amigos - a minha mãe até ficava maluca - e jogávamos aos centros com uma bola de ténis contra uma parede. Uma baliza que às vezes era um armário, ou qualquer coisa. Arranjávamos sempre maneira de fazer pelo menos um quarto de campo para jogarmos. E eu às vezes estava sozinho, mandava a bola contra a parede e fazia assim um pontapé, meio gesto técnico do pontapé de bicicleta, mas aquilo era repetitivo. Se calhar, foi por isso que, quando cheguei à areia, já tinha o gesto técnico um bocado mais aprimorado.

Vai a esse Mundial de 1998 e como é que corre?
Foi um Mundial que não estávamos muito à espera porque isto era uma modalidade muita amadora e muito recente em Portugal. Sabíamos que havia seleções que tinham futebol de praia há mais anos, outras que já tinham jogadores talhados para o futebol de praia. Como era o caso do Brasil, do Chile, o Paraguai... Da América do Sul a maior parte das seleções já eram muito competitivas. A nível global foi bom porque foi a minha estreia e marquei golos; salvo erro, marquei cinco golos. A nível de coletivo não foi o ideal porque não passámos da fase de grupos, mas também sabíamos que ainda tínhamos muito que trabalhar.

Nessa altura já estava ligado a algum clube?
Não. Mais tarde, em 99, é quando tenho a minha primeira ligação ao Sporting, apesar de ainda não ser federativo. Ou seja, a Federação ainda não tinha abraçado o futebol de praia e então havia competições realizadas por organizações particulares em que convidavam o Sporting, o Benfica, o Boavista. Só que vinham sempre os ex-jogadores de futebol 11. Essas equipas eram praticamente formadas por ex-jogadores e o Carlos Xavier, que fazia parte dessa equipa e que basicamente organizava o Sporting, começou a convidar-me para jogar pelo Sporting. Mas era muito pontual, não era um campeonato corrido. Por exemplo, num fim de semana fazíamos seis jogos, muitas vezes chegávamos a jogar dois jogos por dia. Mas foi essa a minha primeira ligação a um clube, ao Sporting.

Ainda trabalhava?
Não, aí já a minha mãe me tinha empurrado para este meu sonho (risos).

Já ganhava dinheiro com o futebol de praia?
Não ganhava dinheiro, mas ganhava para as minhas coisinhas, eu também ainda morava com a minha mãe. Ganhava quando jogava e aquele pouco que ganhava, dava. Nunca fui de gastos supérfluos nem nada, ajudava a minha mãe naquilo que podia e guardava algum para as minhas coisas. Claro que não era como no Docks, em que eu chegava ao final do mês e recebia aquele dinheiro e às vezes até dava para fazer uma extravagância. Isso não, tive de me controlar um bocadinho mais. A minha irmã Cláudia, que trabalhava comigo no Docks, quando eu lhe disse que me ia despedir para ir para o futebol de praia, disse-me :"Tu és maluco. Agora vais brincar na areia!" (risos). A verdade é que brincar na areia deu certo.

A alcunha de Madjer já existia?
Já.

Quando e como surge?
Tenho a alcunha de Madjer desde 1987. Isto é um contrassenso enorme, porque eu sou sportinguista e acabei por adoptar o nome de um jogador do Futebol Clube do Porto. Mas em 1987, quando o Madjer, estava no auge da carreira aqui em Portugal, por causa do célebre golo de calcanhar na Taça dos Campeões Europeus, os meus amigos de infância, principalmente os mais velhos, depois dessa final, diziam que eu era muito parecido, a correr e a jogar, com o Madjer. Apesar de o Madjer ser destro e eu ser canhoto. Então começaram a chamar-me de “puto Madjer”. “Vamos chamar o puto Madjer para jogar". E ficou o “puto Madjer”. Tinha eu 10 anos.

Madjer (à direita) com um amigo de infância

Madjer (à direita) com um amigo de infância

D.R.

Começa com a ligação ao Sporting. E depois?
Depois, tenho um convite para jogar no campeonato italiano, numa equipa que se chamava Cavalieri del Mar. Tive esse convite por duas pessoas que me ajudaram muito na carreira e que foram os principais culpados por ter iniciado a minha carreira lá fora e que são os irmãos Fruzzetti. Na altura, a Itália já estava muito à frente em termos organizativos, tinha um campeonato mais longo, com várias etapas, que durava três meses, e eles fizeram-me esse convite porque já tinha jogado contra eles, contra Itália, em algumas competições. Acabei por ser o primeiro estrangeiro a ir para Itália.

É o início de uma aventura e calculo que seja aí que começa a ganhar um ordenado com o futebol de praia.
Não. Nessa altura não ganhava dinheiro mensalmente porque, até 2004, aproximadamente, os clubes e até mesmo as seleções funcionavam muito com cachés. Nós íamos participar num campeonato internacional, “fechávamos” um caché. Podíamos receber no início uma percentagem e no final o restante. Mas, por exemplo, no Cavalieri Del Mar, era completamente diferente, eu jogava as etapas e no final das etapas eles pagavam-me. A partir de 2004 começou-se a fazer contratos, mas eram contratos de boca. Tive alguns dissabores com esses contratos de boca.

Com essa equipa?
Não, com essa equipa nunca tive qualquer problema. Tive com a seleção de Pernambuco, com eles tive um pequeno problema, e com o Lokomotiv também. Com o Lokomotiv no último ano acertaram tudo e com eles era já com contrato. E porquê que é que isto acontecia? Porque nós íamos na base da amizade e da confiança, não havia contratos assinados. Corríamos um risco.

Madjer com os amigos de infância que se mantêm até hoje

Madjer com os amigos de infância que se mantêm até hoje

D.R.

Quando foi jogar pelo Cavalieri Del Mar ficou a viver em Itália?
Não. Ficava lá uns períodos, no máximo de mês e meio, porque às vezes jogávamos quatro etapas ao fim de semana no mesmo mês e eu tinha de ficar um mês para jogar essas quatro etapas. Depois, voltava a casa, por vezes tinha seleção nacional nesses interregnos. E a seguir voltava lá para jogar mais duas, três etapas; por fim, casa. Nessa altura era assim que funcionava.

Vivia em hotéis então.
Vivia em hotéis ou então em casa deles. No Cavalieri Del Mar vivia no hotel que era patrocinador da equipa. Mas, depois, e isto acaba por ser engraçado, acabámos por ficar com uma relação tão familiar com as pessoas que começámos a abrir as portas da nossa casa como se fossem família. Isso aconteceu-me com eles, aconteceu comigo também, abri as portas a jogadores que vinham jogar no Sporting. O investimento às vezes é tão baixo, que nós temos de abrir as portas da nossa casa, mas abrimos de coração aberto.

Quando andava sempre cá e lá, o que é que tinha de andar sempre consigo? Tinha algum objeto especial que fosse imprescindível?
Havia um objecto que a minha mãe me deu, uma santinha pequenina, de Fátima. Desde que comecei esta aventura, a minha mãe deu-ma, e disse que me iria acompanhar para me dar sorte. Essa santinha acompanhou-me sempre durante os primeiros três, quatro anos da minha carreira. Depois, infelizmente, perdi-a, porque era mesmo muito pequena, mas ia comigo para todo o lado. Atualmente, tenho outras coisas que são indispensáveis. Por exemplo, levo sempre uma fotografia dos meus filhos, anda sempre comigo. Cheguei a ter uma necessaire feita pela minha segunda ex-mulher com a fotografia dos meus filhos. Porque a necessaire é daquelas coisas que somos obrigados a levar e nunca esquecemos. Agora tenho de levar sempre também a minha coluna porque eu não vivo sem música.

Quais são os seus gostos musicais?
Tenho um leque muito alargado mas gosto imenso de música portuguesa. Oiço desde Rui Veloso a Dengaz. O meu filho , às vezes, até goza comigo por eu andar a ouvir músicas que são supostamente da geração dele. "Mas tu gostas disso, ouves isto?!". Gosto de música brasileira também. Também ouço desde Ivete Sangalo aos mais recentes, gosto de pop. Não tenho um estilo definido. Até gosto de fado.

Madjer numa das primeiras representações de Portugal em futebol de praia

Madjer numa das primeiras representações de Portugal em futebol de praia

D.R.

Entretanto, casa, tem filhos?
Tenho o meu primeiro filho, o Bernardo, em 2002. Conheci a Sónia, a mãe do Bernardo, no Mundialito da Figueira da Foz. Ela foi bailarina nesse Mundialito. É engraçado, porque morávamos relativamente perto: eu na altura morava em São João do Estoril e ela morava em Caxias. Foi daquelas coisas que não se explicam. Eu quando a vi foi assim... Epá houve qualquer coisa que mexeu comigo. Falámos e combinámos tomar um café depois de terminar o Mundialito. Desde esse dia nunca mais nos largámos até nos separarmos.

Foi nessa altura que saiu da casa da sua mãe?
Não, entretanto já tinha saído. Queria ter a minha independência, achava que a minha mãe, apesar de ela gostar de ter os filhos todos, como agora tem os netos, em casa, precisava de ter descanso e eu de ter a minha independência. Saí de casa dela com 22 anos. Mas fui viver sozinho para um apartamento quase na rua da minha mãe. Naquela altura não sabia cozinhar por isso era mais fácil ficar por ali (risos). Vivia a dois minutos da minha mãe, quase que vivia com ela na mesma (risos).

Casa com a Sónia e nasce o Bernardo. Assistiu ao parto dele?
Eu queria, mas acabei por não assistir porque ele nasceu com duas circulares à volta do pescoço e não me vieram chamar. Foi um grande susto, mas tudo correu bem.

Quando foi para Itália, e depois para o Brasil ,a sua mulher e o seu filho também foram consigo?
Ficaram cá. Havia alturas em que chegaram a acompanhar-me. Se por exemplo, eu tinha duas etapas e se fosse só uma semana, eles vinham comigo, aproveitávamos para estarmos mais próximos e vinham comigo, mas não nos períodos maiores, de um mês.

As lágrimas de tristeza e de felicidade pelo dever cumprido

O primeiro Mundial que Portugal ganhou foi em 2001 e o Quando é que decide que este era o seu último Mundial e que ia deixar de jogar? Já estava decidido há muito tempo?
Isto tem vindo a ser ponderado de há dois anos para cá. Aliás eu acabo por esticar um pouco mais por dois motivos. Motive um: o meu filho não queria que eu deixasse de jogar e prometi-lhe que jogaria mais um ano. E o outro, porque queria sair com um grande título. Prometi a mim mesmo, e às pessoas que me ajudaram ao longo destes 22 anos de carreira, que era merecido sair com um grande título, que era um prémio não só para mim, como para todas as pessoas que me ajudaram. E foi isso que aconteceu, graças a Deus.

Madjer num dos seus conhecidos pontapés de bicicleta

Madjer num dos seus conhecidos pontapés de bicicleta

VANDERLEI ALMEIDA

Voltando ao seu percurso, andou por uma data de países e de clubes. Depois de Itália com um Brasil vem para o Sporting, em 2009. Como é que isso acontece? O futebol de praia do Sporting já estava estruturado, já havia campeonato?
Em 2009 o campeonato ainda era um bocado amador. Em 2010, sim, é o primeiro organizado pela Federação Portuguesa de Futebol. De qualquer maneira é um campeonato organizado por um período muito curto, tivemos cerca de oito, nove jogos e uma fase final. Ao todo, jogámos 12 jogos num campeonato, o que é muito escasso. Por isso. o que acontecia muito no futebol de praia, era podermos ter mais do que uma ligação a um clube. Se eu tivesse só ligação ao Sporting, ia ter 12 jogos e o resto do ano ia estar parado. Então acabei sempre por compensar o Sporting com o Al-Ahli, com a Turquia onde joguei no Alanyaspor, joguei no Besiktas, na Roma, em Itália também. Houve um enquadramento de forma a que eu e muitos atletas dessa altura, conseguíssemos manter-nos ativos o ano todo - e conseguíssemos também estabilidade financeira.

Dos países todos por onde andou, qual o que lhe provocou maior choque culturalmente?
Dois. Um foi sem dúvida os Emirados Árabes porque é um cultura completamente diferente daquela que eu tinha encontrado nos outros clubes por onde passei. Apanhei muitas pessoas que levo para a vida, são pessoas fantásticas que conheci lá, algumas delas com quem tenho uma ligação muito frequente, mas culturalmente aquilo assustou-me um bocado. Havia várias regras que eu nem sabia que existiam, ao ponto de estar no shopping em Sharjah - e no Dubai quanto mais para norte se vai mais rigorosos são - de calções acima do joelho e parecia que tinha assaltado uma loja. Só vi seguranças à minha volta e depois aconselharam-me a sair porque não podia estar com os calções acima do joelho, porque era uma falta de respeito. Tive vários episódios desses (risos). Aquilo para mim foi um grande choque. Para além de que tive um papel muito mais do que o de jogador.

Que papel?
Apesar desse lado cultural, é um país fantástico, só que como são um povo habituados a ter basicamente tudo sem grande esforço, principalmente os locais, que não eram muito chegados a treinar. Agora já são um bocado mais, mas na altura tive de fazer um bocado a preparação daqueles jogadores para eles saberem que tem de se trabalhar para atingir o expoente máximo do quer que seja. Eles na altura inventavam desculpas para não irem treinar. Costumo dizer isto na brincadeira, mas é uma realidade: eles "matavam" familiares (risos). Não matavam, mas praticamente quase todos os dias morria alguma familiar deles (risos). Então, eu e o Marcelo Mendes, que foi quem me levou para lá, tivemos um papel preponderante, tivemos de lhes dizer: "Meus amigos, se querem levar isto a sério, tem que ser assim, senão isto não faz sentido, nem faz sentido eu estar aqui". Eles agora não são uma das potências mundiais, mas uma das potências mais organizadas, que mais trabalha muito graças a esse período que passámos lá.

Madjer (à direita) festeja com Nuno Belchior depois de marcar ao Brasil durante o Mundial de 2005

Madjer (à direita) festeja com Nuno Belchior depois de marcar ao Brasil durante o Mundial de 2005

VANDERLEI ALMEIDA

Quando ia para fora ficava sempre em hotéis?
Não, no Dubai já tinha casa até porque era o país onde ficava mais tempo. Fiquei lá períodos de seis meses, vinha dois a casa, depois regressava.

Sempre sozinho?
Não, houve uma altura em que tive lá a minha mulher.

A primeira?
Não. A primeira durou quatro anos. Depois conheci a Marta Cruz, com quem tenho uma filha, foi ela que esteve lá comigo.

Como é que a conheceu?
A Marta Cruz já a conheço há muitos anos. Ela também é de Cascais, temos amigos em comum, mas não foi daquelas pessoas, como a minha primeira ex-mulher, que fez aquele clique. Cruzámo-nos, estivemos em alguns eventos mas nunca houve aquela proximidade ou aquele clique. Mais tarde, sim. Há um período em que eu estou sozinho, trocámos umas mensagens e achámos que aquilo era muito mais do que uma amizade.

Durou quanto tempo esse relacionamento?
Com a Marta durou dois anos e meio.

Na altura o processo pelo qual passou o pai dela, mexeu consigo, com vocês? Ou preocupou-o de alguma forma?
É assim, preocupou-me por ver o sofrimento daquela família, sem dúvida. Eles passaram por muito, sem merecerem. Isto é a minha opinião e vale o que vale. E ver a minha mulher a sofrer por causa do pai é complicado, por mais que se tente dar o apoio máximo, quando existe uma situação daquelas é muito complicado. Eu tentei ao máximo dar-lhe apoio, tentei abstraí-la. A ela e à minha filha. Isso foi uma coisa que acabou por ser mais ou menos um pacto, foi proteger a nossa filha de toda aquela situação, para que ela não percebesse o que é que se estava passar. Mas a verdade é que foi um período complicado, até porque eu apanho aquela transição da acusação passar a prisão efectiva e tudo.

Chegou a visitar o Carlos Cruz?
Cheguei, cheguei a ir e inclusivamente levámos a Kyara porque apesar de a protegermos dessa situação, não queríamos que ela perguntasse: "Então o avô está aonde agora?". Não queríamos ser acusados de não lhe termos dito a verdade ou de termos escondido alguma coisa, por isso fizemos questão que ela fosse visitar o avô.

A Marta gostou do Dubai?
Gostou, a minha filha gostou mais, porque aquilo tem muitos parques de diversão, tem tudo para as crianças.

Madjer com o trofeu de melhor jogador do mundo de 2006

Madjer com o trofeu de melhor jogador do mundo de 2006

ANTONIO SCORZA

Há pouco estava a falar que passou também pelo Lokomotiv. É difícil conectar a Rússia com praia e com futebol de praia não acha?
(risos) Essa é a pergunta legítima de toda a gente. Mas não é à toa que são bi-campeões mundiais também, porque fizeram uma grande aposta na modalidade. Os grandes clubes quiseram ter os melhores jogadores, não só europeus, mas os melhores jogadores a jogar o campeonato deles. Foram para lá na altura muitos jogadores brasileiros, muitos jogadores europeus, para haver uma evolução mais rápida do jogador russo e para haver uma evolução mais rápida do próprio campeonato. A verdade é que aquilo foi bem trabalhado, porque agora são uma das potências mundiais, sem praias. Mas, sem dúvida, quando existe um investimento e trabalho, os frutos colhem-se mais tarde.

Conte-nos lá algumas dessas aventuras.
Mal cheguei tive logo uma aventura engraçadíssima. Fui lá um fim de semana para assinar e depois regressaria para o campeonato que começava duas semanas depois. Vou lá, assinei contrato com o presidente do Lokomotiv, o Igor. Só que o contrato que eu assinei não era um contrato mensal, era um contrato que era pago por tranches e a primeira tranche era paga no final da primeira etapa. Aquilo são etapas concentradas e apesar do campeonato ser longo, nós fazemos entre três a quatro jogos, de sexta ou de quinta a domingo. Joguei a primeira etapa. No final ele chega com um envelope, o que para mim foi outra experiência (risos) e deu-me o envelope. Pego no envelope e para não estar ali no estádio a contar o dinheiro, quando chego ao hotel é que fui contar. Contei para aí umas 10 vezes o dinheiro e aquilo dava-me sempre dinheiro a mais. Pensei, há aqui qualquer coisa que não está a bater certo, eles enganaram-se de certeza. No dia seguinte, mandei uma mensagem ao presidente a dizer que precisava de falar com ele. Ele foi ao hotel. Cheguei ao pé dele e disse-lhe "Está aqui o envelope tal e qual como me destes só que contei e está aqui dinheiro a mais". E ele logo com aquele ar de máfia russa, deu-me uma chapada na cara, mas uma chapada mesmo, e disse-me "Agora bem vindo à família. Podes ficar com o dinheiro". Ou seja, aquilo foi um teste que me fizeram. Se por acaso eu não tivesse dito nada a ninguém e tivesse ficado com o dinheiro a mais, se calhar não tinha jogado lá cerca de quatro, cinco anos como joguei.

Têm campos artificiais obviamente.
Têm campos artificiais que usam com regularidade e são estruturas fixas, não são estruturas móveis, e outdoor também. Quando tive o convite do Lokomotiv, aceitei porque, para além da parte financeira - continua a ser dos campeonatos que paga melhor ao jogador -, já era um campeonato com alguma expressão e com alguma força. Aceitei, apesar das aventuras que tive, porque eles são um povo muito frio e eu não gosto de pessoas muito distantes e frias.

O russo que lhe deu uma chapada na cara e lhe disse: "Bem-vindo à família

É muito diferente jogar dentro de um pavilhão ou não lhe faz confusão?
A mim faz-me um bocado de diferença porque, como os primórdios do futebol de praia foram nas praias e havia aquele contacto com as pessoas e tudo, ali torna-se muito artificial, aquilo não é futebol de praia. Mas a verdade é que sempre disse que o futuro era esse. Não é à toa que os brasileiros não chamam de futebol de praia, chamam de areia. Porque a areia podemos colocar onde quisermos e, cada vez mais, o futuro passa por aí. Mesmo em Portugal já temos campos fora da praia. Um exemplo: no Sporting, onde treinamos e onde este ano vamos jogar, é na cidade universitária. Há cada vez mais as infraestuturas fora das praias. Para mim é um bocado triste porque eu fui criado dentro do futebol de praia, de ir às praias, Portimão, Figueira da Foz, Carcavelos. Mas acaba por fazer sentido. Toda a gente deve ter acesso aos jogos. Ainda o ano passado jogámos em Ancião que é mesmo no interior e a verdade é que aquilo encheu e as pessoas gostaram imenso da experiência. É o futuro.

Dizia há pouco que o Brasil é o país do futebol. Mesmo para nós, jogar futebol é uma coisa quase inata. Destes países todos por onde passou, qual foi o que o surpreendeu mais pela qualidade e pelo jeito, mais do que pela capacidade técnica? Foram os árabes, os russos, os turcos?
Colocando o Brasil à parte, encontrei em Itália muita qualidade. A própria seleção tecnicamente é muito comparável com a nossa. A Rússia também tem muita qualidade mas é um futebol, tal como eles, muito frio. É muito calculista, não é aquele futebol espetáculo. Aliás havia muita gente que via e que vê a seleção da Rússia a jogar e não acha muita piada porque não há muitos pontapés de bicicleta, eles atacam só pela certa e isso tira um bocado de brilhantismo à modalidade, mas de qualquer forma a verdade é que são objetivos e têm muita qualidade. Mas sem dúvida que o país que me chamou mais a atenção foi Itália.

Madjer num dos seus pontapés acrobáticos, em 2009

Madjer num dos seus pontapés acrobáticos, em 2009

Mike Hewitt - FIFA

Entretanto constitui nova familia. Como e quando conhece a sua atual mulher?
A Lynn é canadiana e dá aulas de dança. Já a conhecia há algum tempo, tínhamos amigos em comum e começámos a namorar em 2014. É difícil dizer isto depois de ter tido três mulheres, mas na Lynn encontrei aquela pessoa que é para a vida, que me equilibra mesmo. É aquela pessoa que basta olhar para ela, basta eu estar triste ou ela estar triste, que sabemos logo. Eu acho que ela é uma mulher de armas, depois do meu histórico, de ter um filho de cada mulher, ela entrar na minha vida sem preconceitos. Ela disse-me: “O teu passado foi uma história que tu viveste, vai ser a minha história também, porque os teus filhos vão ser os meus filhos…”. Acho que isso foi sem dúvida o que mais me cativou nela e agora comunicamos de olhos fechados praticamente.

Foram pais da Eva há quanto tempo?
Há um ano e três meses. Foi a única dos meus filhos que vi nascer porque a Kyara nasceu no Brasil, num período em que eu não estava lá.

Por que razão a Kyara nasceu no Brasil?
Porque a Marta morava lá. Ainda estava a organizar um bocado a vida dela para vir para cá. Tendo em conta o que aconteceu com o pai, ela refugiou-se no Brasil, onde a mãe, a Marluce, vivia. E antes de se mudar para cá tomámos a decisão ponderada da Kyara nascer lá. Ao da Eva assisti e adorei. Apesar de muita gente dizer que eu ia cair para o lado e que não ia aguentar...Espetáculo (risos). Eu como não tinha vivenciado ainda aquilo e tinha muita curiosidade, porque o que mais nos faz bater coração são os filhos. E ter a minha filha neste caos logo ali nos meus braços mal nascesse era um sonho, é um momento único. Para além do apoio à Lynn, e isto é uma mensagem aos pais, o apoio do marido naquele momento é um fator para atenuar tudo, por que as mulheres passam e sofrem num parto.

Madjer a incentivar os companheiros de equipa durante o mundial de 2015

Madjer a incentivar os companheiros de equipa durante o mundial de 2015

Alex Grimm - FIFA

Foi considerado o melhor jogador do mundo em 2002, 2005, 2006, 2015, 2016. São títulos que mexem consigo de uma maneira diferente?
São títulos importantes porque são fruto do reconhecimento não só do meu trabalho mas daquelas pessoas que nesse momento fizeram com que o título acabasse por me ser atribuído. Mas quem me conhece sabe que eu trocaria todos os titulos individuais pelos títulos coletivos. E é esta educação que quero para os meus filhos. Se estamos numa modalidade coletiva não podemos ser individualistas, para isso vamos jogar ténis ou outra modalidade individual.

Este ano foi um ano de glória, porque a France Football também o elegeu como o melhor jogador de sempre. Quando começou a preparar o pós carreira?
Ao longo da minha carreira fui preparando, deixando as tais portas abertas de outros países e de clubes. De há dois anos para cá tenho tido alguns convites para ser selecionador de países lá fora, mas não passa pelo meu ideal de vida, porque esse passa por ficar agora aqui e recuperar algum tempo perdido de família. Então, tracei o objetivo do meu futuro passar por Portugal. Também sou instrutor FIFA de futebol de praia, foi uma oportunidade que me deram e que agarrei logo. Agora, recentemente, e com mais tempo, vou tirar os cursos de gestão da federação e não só. Agora ainda tenho ligação ao Sporting, sou gestor de modalidade no clube e contratualmente tenho uma ligação ao Sporting. Mas com esta minha saída surgiram novas e grandes oportunidades em Portugal e não só. São oportunidades que vou ter de ponderar.

Madjer (ao centro com a taça), a celebrar com a seleção o título de campeão do mundo de 2015, conquistado em Espinho

Madjer (ao centro com a taça), a celebrar com a seleção o título de campeão do mundo de 2015, conquistado em Espinho

Christopher Lee - FIFA

O que falta para sermos ainda melhores no futebol de praia?
Precisamos de ter os três grandes. Isso é um dos passos fundamentais que temos de dar. Atualmente temos o Sporting e o Sporting de Braga, temos mais alguns clubes com algum impacto, mas tendo o Benfica e o FC Porto iria dar uma visibilidade completamente diferente ao futebol de praia. Eles têm um poder económico, uma massa associativa e um background em termos de estrutura e de comunicação muito bom.

Esses clubes ainda não aderiram porquê?
Não sei se é porque não houve ainda alguém que lhes tenha ido mostrar a realidade do futebol de praia, ou se alguém o fez não tenha mostrado qual é mesmo a nossa realidade e o potencial que esta modalidade tem.

Quando termina o seu vínculo ao Sporting?
Em Maio de 2020.

Madjer e o filho beijam o trofeu de campeão do mundo de 2015

Madjer e o filho beijam o trofeu de campeão do mundo de 2015

Dean Mouhtaropoulos - FIFA

Andou tanto de um lado para o outro, que de certeza viveu muitas histórias caricatas. Não quer partilhar uma?
É verdade que nós fizemos tantas viagens de avião que apanhamos valentes sustos. Um dos sustos foi para São Paulo, íamos para a Copa Latina, salvo erro em 2001 ou em 2002. Quando estávamos perto de chegar a São Paulo, o avião começou com imensa turbulência e apanhámos um poço de ar. Nem houve tempo para o aviso dos cintos. Vinha o Pedro Jorge, que era daqueles ex-jogadores de 11 que no início jogou comigo na seleção, quando apanha o poço de ar, tendo em conta que havia muitos de nós que não tinha o cinto posto, a primeira reação dele foi agarrar no cabelo da senhora que vinha no banco à frente (risos). Ficou com um tufo de cabelo suficiente para fazer uma peruca (risos). E depois daquela turbulência toda o engraçado foi o Pedro Jorge dizer: “Eu assustado? Não, isto foi uma coisa até tranquila. Vocês estão aí todos brancos”. (risos).

Onde ganhou mais dinheiro até agora?
No Al-Ahli.

Onde foi investindo?
O meu primeiro grande investimento foi numa casa. É um investimento seguro, do qual mais tarde podemos tirar alguma rentabilidade. E agora, mais recentemente, vou abrir uma loja de produtos naturais, porque a minha mulher é fã desse tipo de coisas e até trabalha com a mãe numa clínica onde receitam produtos naturais, então vamos fazer uma aposta numa loja dessas.

Tornou-se vegetariano ou vegan?
Não (risos). Como tudo. Só não como fígado, detesto.

Tem uma folga financeira que lhe permite não precisar de trabalhar?
Não. Preciso de trabalhar. E quero trabalhar. Eu arregaço as mangas para não faltar nada aos meus filhos e à minha família. Costumo dizer uma frase que a minha mãe dizia: "Se tiver que ir lavar escadas, vou lavar escadas".

É crente?
Acredito q.b.

O que é que isso quer dizer?
Sou cristão não praticante, mas tenho os meus rituais. Por exemplo, quando vou entrar em campo benzo-me sempre, entro sempre com o pé direito. Vou a Fátima com a minha família todos os anos. Acredito, mas é um acreditar controlado, sabendo que não é Deus que nos vai fazer algumas coisas que temos de ser nós a fazer.

Já fez promessas e foi cumpri-las a Fátima?
Sim, duas. Mas não revelo.

Madjer diz que não vive sem música e que gosta de vários géneros

Madjer diz que não vive sem música e que gosta de vários géneros

Dean Mouhtaropoulos - FIFA

Qual foi a primeira tatuagem que fez?
A primeira foi nas costas. É um escorpião com uma cara meio estranha, que é do primeiro álbum dos Red Hot Chili Peppers. Tinha um amigo, o "Francês", que tinha esta tatuagem também, ele teve um acidente de moto e faleceu e foi uma forma de o homenagear. Tenho os meus filhos nos braços, mas se continuar a ter filhos não vai haver espaço no corpo (risos).

Quer ter mais filhos?
Quero. Pelo menos cinco para criar uma equipa de futebol de praia (risos). Estou a brincar. Mas pelo menos mais um queremos ter. Tenho uma tatuagem de um samurai porque sempre disseram que eu era um guerreiro e sempre gostei da personagem do samurai. Tenho outra, conjuntamente com a minha mulher, que é o L, de Lynn, e o 7, que é o meu número. Tenciono fazer pelo menos mais duas, mas ainda não sei o que são, só sei onde as quero colocar.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Acho que foi ir jantar a um dos restaurantes mais caros do Dubai. Eu tinha de experimentar aquilo. Por acaso tínhamos uma amiga lá que era gerente e fez um desconto.

Valeu a pena?
Valeu. Tanto que depois repetimos. Mas também só voltámos porque tínhamos desconto (risos).

Tem moto?
Tenho. Tenho uma MP3 300, uma scooter só para as voltinhas. Porque tal como disse, quando temos filhos... E agora o meu filho já está naquela idade de começar a pedir moto porque vê os amigos a chegarem de mota ao colégio... E eu agora valorizo imenso as palavras da minha mãe quando dizia: "Cada vez que sais de moto eu fico com o coração nas mãos". E eu se der uma moto ao meu filho vou ter o mesmo sentimento. Então a moto é só para as voltinhas e não alimentar muito isto das motos.

Madjer centro como trofeu de campeão do mundo conquistado em 2019

Madjer centro como trofeu de campeão do mundo conquistado em 2019

Buda Mendes - FIFA

O seu filho joga futebol?
Joga futebol 11 no Belém SAD mas há pouco tempo ele disse que queria jogar futebol de praia apesar da formação aqui em Portugal ser muito escassa. Mas ele diz que quer seguir as minhas pisadas e um dos objetivos é jogar melhor do que eu, portanto, já meteu a fasquia lá em cima.

Fica contente se ele seguir as suas pisadas.
Agrada-me essencialmente que ele siga algo ligado ao desporto. O que sempre incuti nos meus filhos é que eles têm de praticar desporto, porque o desporto é um complemento essencial à educação deles. Ele ainda este verão passado jogou pelo Sporting numa equipa que fizemos para um torneio na Figueira da Foz de sub-16 e quando me mandaram as fotografias, porque eu não estava cá, os meus olhos brilharam. Para já, porque ele é igualzinho a mim, a correr, meio marreco, tudo. E vê-lo a jogar a modalidade que ajudei a construir é fantástico.

O número sete surge como?
O sete era número que estava disponível na altura. O CR7 ainda nem tinha o sete no Sporting e eu já jogava com o sete. Na altura havia os números intocáveis, que eram aqueles números do Carlos Xavier, do Nunes do Hernâni, que eram ex-jogadores de grandes clubes com grandes carreiras no futebol 11. Esses eram intocáveis e depois sobravam meia dúzia de números. E a verdade é que eu nem escolhi o número. A primeira vez na seleção foi " este é o teu", este é do João António, que foi outro rapaz da minha geração que entrou na mesma altura, este é o Chiquinho, e pronto fiquei com o sete. Acabou por ser uma coincidência engraçada, porque o sete é um dos meus números da sorte porque eu nasci em 1977.

Comparações com algum jogador gostaria que fosse com o Cristiano Ronaldo?
Há muita gente que desde que comecei a ter algum destaque no futebol de praia, às vezes até escrevem nas redes sociais, "o CR7 das areias". Claro que é ótimo quando somos comparados a uma pessoa que vemos como um exemplo. Ele sem dúvida é um exemplo, de profissionalismo, de trabalho, é uma das maiores bandeiras nacionais e, quando assim é, é sempre gratificante. Apesar de quando me escrevem gosto que escrevam "Madjer das areias", porque eu comecei um pouco antes dele (risos).

Depois de vencer o campeonato do mundo de 2019, no Paraguai, Madjer não conteve as lágrimas

Depois de vencer o campeonato do mundo de 2019, no Paraguai, Madjer não conteve as lágrimas

Alex Grimm - FIFA

Há algum jogador português que considere mais parecido consigo?
O [português] Jordan que, atualmente, é o melhor jogador do mundo, é o jogador que mais se aproxima daquilo que eu fui. É canhoto também, é magrinho, tem a perninha fina e é alto também (risos). E, para além disso, tecnicamente é um dos melhores executantes do mundo. Muita gente diz que é o meu sucessor, mas em conversas com ele já lhe disse: "Tu não tens de pensar em ser sucessor de quem quer que seja. Tens de pensar em fazer o teu nome na modalidade".

Madjer com a sua família

Madjer com a sua família

D.R.

Em termos técnicos que é a sua mais valia e o que nunca conseguiu melhorar?
Eu sempre fui um finalizador nato. Defensivamente sempre foi a minha maior lacuna (risos), apesar de ter evoluído muito ao longo dos anos.

Tem uma competição com o seu nome. Como nasceu?
Foi criada há dois anos. Sempre tive uma ligação fortíssima à Figueira da Foz por causa dos Mundialitos. E via com imensa tristeza o desaparecer do mapa daquela região, desde o tempo de Santana Lopes. Realmente era a grande bandeira do futebol de praia e dos desportos de praia. Entretanto, em 2014, retomámos conversações para tentar catapultar outra vez a Figueira da Foz, para ser uma das cidades embaixadoras do futebol praia, e a partir daí começámos a ver de que forma conseguiríamos fazer uma coisa que fosse novidade. Que não fosse um Mundialito ou uma etapa da Liga Europeia; que fosse algo diferente que nunca tivesse sido feito até ao momento. Foi aí que eles criam a Figueira Beach Sport City, que é uma empresa da Câmara Municipal, para desenvolver um projeto de desportos de praia e convidaram-me para ser embaixador.

O tipo de areia tem influência no jogo?
Tem. Uma equipa mais técnica gosta de uma areia mais fofa, mais solta. É mais cansativo, mas por outro lado quem tem mais técnica joga mais a bola pelo ar, então para nós é espetacular. Quando a areia está molhada ou é uma areia mais compacta, favorece os jogadores menos dotados tecnicamente. Há várias seleções em que os jogadores praticam futebol de praia e praticam futsal. Na Rússia até praticam o futebol sete. E quando apanham essas areias para eles é espetacular porque eles podem jogador com a bola pelo chão. Nós, portugueses, gostamos mesmo da areia fofa, fininha. Por exemplo, a Nazaré tem das piores areias para jogar em termos de cansaço, porque exige muito mais, mas sabemos que tecnicamente acaba por nos ajudar.

Qual foi a pergunta mais difícil que lhe fizeram?
Quem é o pior jogador português de futebol?

E quem é?
O Alan (risos). Mas não é o pior tecnicamente. É o pior porquê? Porque o Alan é, em bom português, o gajo mais chato com quem eu joguei. Porque nós temos que lhe ler a mente, temos de saber qual é o pensamento dele. A bola para ele tem de chegar ali redondinha, porque senão ele passa-se. Mas atenção que ele acabou por me ajudar imenso porque é um perfecionista nato. Se faz um passe para ali e nós não vamos ele diz logo: "Já sabias, só havia espaço ali"; "Mas eu não estou na tua cabeça" (risos). O Alan chegou a Portugal a meio de 1998 e ficámos logo com uma ligação enorme os dois, a tal ponto de ele chamar mãe à minha mãe. Ele acabou por ser o irmão que nunca tive.

Neste momento a seleção nacional só tem jogadores de futebol de praia ou tem ex-jogadores de futebol 11?
É toda de futebol de praia. Só há um miúdo, o Ruben Brilhante, que esteve connosco agora no Campeonato do Mundo, e tem 19 anos, que ainda joga nos Nazarenos. Mas ele estava dizer que ia abdicar e dedicar-se a 100% ao futebol de praia.

Já não é aconselhável ex-jogadores de futebol 11 irem para o futebol de praia.
Sim, até porque o nível competitivo aumentou ao longo destes anos muito.

Qual foi o melhor ex-jogador de futebol 11 a jogar futebol de praia?
São vários. O Júnior do Brasil, o Carlos Xavier. Nós fomos Campeões do Mundo com vários ex-jogadores de 11. O Hernâni, o Nunes, o Zé Miguel, o Pedro Jorge. O próprio Cantona adaptou-se muito bem. Ele agora está adaptado ao nosso país, parece. O filho do irmão dele é nosso guarda-redes na equipa B do Sporting de futebol de praia.

Madjer beija a taça de campeão do mundo 2019

Madjer beija a taça de campeão do mundo 2019

Buda Mendes - FIFA

Qual é o ordenado médio de um jogador de futebol de praia em Portugal?
De 800 a 1000. Na Rússia é onde se paga melhor, um ordenado médio alto se calhar já estamos a falar de valores na casa dos €5 mil. Depois, temos jogadores, que é o meu caso e do Jorginho, que conseguimos estruturar a nossa vida só com o futebol de praia, mas 80% dos atletas não, têm outro emprego. Temos o exemplo do Torres, que é professor de Educação Física, o Petroni trabalha numa empresa de venda de produtos para cafés/restaurantes. E aquilo é o que eles têm seguro.

Para terminar, não se lembra de mais nenhuma história que possa contar?
Lembro-me de uma do nosso primeiro selecionador nacional, o prof. João Barnabé. Ele era um revolucionário, ou achava que seria um revolucionário do futebol de praia. Dava treinos de uma forma tão peculiar que, em cada treino, havia sempre algo que nos surpreendia e fazia rir bastante. Uma vez, chegamos à praia de Carcavelos, logo no meu início na modalidade, e o prof. Barnabé tinha um treino preparado que incluía dar pontapés de bicicleta sem bola. Ele dizia: “Vocês imaginem que têm a bola aqui e executem o pontapé de bicicleta. E façam com que a vossa imaginação aperfeiçoe o vosso gesto técnico. Ora imaginem que a bola está muito alta, vocês têm que saltar mais, se a bola está mais baixa têm que saltar menos”. A verdade é que éramos cerca de 15 atletas a dar pontapés de bicicleta sem bola na praia de Carcavelos e recordo-me que as pessoas passavam na muralha, olhavam para baixo e riam-se.