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A casa às costas

“Uma mulher ligou por engano ao Queiroz às duas da manhã: ‘Deixaste isto aqui’. O Queiroz foi ao quarto e viu vodka e mulheres”

Pedro Martins mantém as raízes em Santa Maria da Feira, onde ainda tem o primeiro negócio que abriu com a namorada, há 31 anos. Casou com ela e teve dois filhos, depois de ter feito toda a formação de jogador no clube do coração, o Feirense. Nesta extensa entrevista (cuja segunda parte será publicada no domingo), o treinador do Olympiacos relata vários episódios marcantes da sua vida pessoal e profissional, conta histórias que tanto falam de copos, mulheres e escapadelas de estágios, agressões e tentativas de "linchamento", desastres em rotundas do Algarve, como de malas metálicas com taças de champanhe ou de apostas de elevador

Alexandra Simões de Abreu

FERNANDO VELUDO / NFACTOS (EXCLU

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Nasceu em Santa Maria da Feira.
Sim, nasci na casa onde os meus pais viviam.

É filho único?
Não. Somos três, todos rapazes. Sou o mais novo, era a gaja (risos). Com uma diferença de nove e sete anos entre o primeiro e o segundo, estavam à espera que fosse uma menina. Mas um deles já faleceu.

Como?
Um enfarte do miocárdio, fulminante.

Quando?
O meu pai faleceu há 14 e no ano seguinte faleceu o meu irmão. Ambos de problemas cardíacos.

O Pedro tem cuidados médicos com o seu coração?
Sim, tomo pastilhas para o colesterol e de vez em quando tenho de tomar aspirinas para diluir o sangue. Ando controlado.

O que faziam os seus pais profissionalmente quando nasceu?
O meu pai trabalhava numa grande empresa, antes de se estabelecer por conta própria: era mecânico de automóveis. Trabalhava aqui na garagem da Arrifana, um grande núcleo empresarial que, infelizmente, agora acho que está com algumas dificuldades financeiras. A minha mãe tinha uma grande loja, onde vivíamos. Era a nossa casa e era loja.

Loja de quê?
Vendia roupa, farinha, tudo um pouco, e eu nasci nessa casa. No dia em que nasci a minha mãe estava a atender as pessoas. Ela dizia que tinha muita facilidade em ter filhos, que não lhe custava muito. Durante três anos vivemos naquela casa. O meu pai quando saia da garagem da Arrifana, fora do horário de trabalho, vinha para casa e tinha também uma pequena oficina onde arranjava motorizadas, bicicletas. Foi aí que começou a estabelecer-se sozinho. Mais tarde, criou uma empresa de grande relevância no concelho da Feira. Tinha a concessão da Nissan, da Honda, da Subaru, da Kia…

Era uma criança calma ou não?
Eu era do género traquina. Só via futebol, fugia para ir jogar à bola.

Fugia à escola?
Não, nunca o fiz.

Gostava da escola?
Respeitava. Havia momentos em que gostava, outros momentos nem tanto. A escola primária não era de facto aquilo que mais gostava, mas depois, no ciclo e no liceu, comecei a ter outro gosto.

Pedro Martins em bebé

Pedro Martins em bebé

D.R.

Havia alguém na família ligado ao futebol?
O meu pai era dirigente do Feirense em 1976/78 e, naquela época, quando se ia jogar fora, a 50, 60 quilómetros, cada dirigente levava os filhos. Recordo-me de ter cinco, seis anos e ir no meio deles para os campos onde iam jogar. Bons momentos. Lembro-me perfeitamente de estar no balneário, do cheiro da pomada dos jogadores, dos guarda-redes aquecerem no balneário e não no campo. Ainda sou desse tempo. Jogadores como o Silva Morais, um dos guarda-redes do Feirense, a aquecer no balneário, do Pinto... tenho uma grande recordação desses momentos. Tinha uma grande referência que era o Serginho, um ponta de lança que mais tarde veio a jogar no Porto.

Quando era pequenino torcia por que clube?
Pelo Feirense.

Dos grandes, tinha alguma preferência?
Tive sempre uma grande paixão pelo Feirense.

E ídolos, quem eram os seus ídolos?
Adorava o Jordão que, infelizmente, faleceu há pouco tempo. A classe, a forma como ele caminhava e corria era qualquer coisa. Tenho outros, o Chalana. Lembro-me do Europeu em 1984, absolutamente fantástico. Recordo-me desse dia. Chorei quando perdemos e tinha 14 anos; mas chorei porque nós devíamos ter chegado a uma final e para mim foi um impacto tremendo, negativamente, porque aquele grupo de trabalho merecia uma final.

Quando vai jogar à bola num clube?
Tinha sete anos e fui para o Feirense.

É o Pedro que pede?
Sim. No verão, havia no concelho da Feira as Olimpíadas, penso que ainda existem. Era muito tradicional as boas equipas lá irem e muitos jogadores eram observados a partir daquele momento. Recordo-me que um dos primos da minha esposa era um dos treinadores; eu tinha seis, sete anos e ele era o treinador do Feirense na altura. Fui fazer um treino e recordo-me que ele disse: “Tu vais ficar cá e vais ao torneio Olímpico”. Foi o meu começo.

Fez todo o percurso até profissional no Feirense.
Dos sete até aos 23 anos, sempre no Feirense.

Pedro Martins é o 3º de três irmãos

Pedro Martins é o 3º de três irmãos

D.R.

Nas camadas jovens o que o marcou mais? Quando fala com outras pessoas sobre a sua formação, qual é a primeira memória que tem?
Há vários pontos que foram marcantes para mim. Na formação, o primeiro torneio olímpico que fiz foi absolutamente sensacional, ninguém me conhecia e eu fiz vários golos e a partir daí toda a gente já me conhecia.

Nessa altura já jogava a médio?
Era ponta de lança, iniciei a minha carreira a ponta de lança. Quando estive pela primeira vez no Feirense, na I Liga, eu era o ponta de lança, andava sempre naquela zona mais ofensiva. Quando a equipa precisava de maior rigor, vinha para médio; quando precisávamos de ganhar os jogos forçosamente eu era o ponta de lança. Lembro-me desse torneio olímpico; lembro-me de um torneio internacional em que fui o melhor marcador em Aveiro. Aí já tinha 15 anos. Lembro-me que não era fácil, não tínhamos grandes condições, só mesmo a paixão e o amor por aquilo que fazíamos. Não havia as condições que temos hoje. Recordo-me que, com 12, 13 anos era eu que tinha que me deslocar, não eram os meus pais que me iam lá levar, nem era o clube que tinha uma carrinha que nos vinha pôr a casa. Até aos 12, 13 anos foi assim, a partir daí já começou a ser o clube a levar os atletas, a partir dos iniciados sensivelmente.

Quando é que deixa os estudos?
Deixo a escola no momento daquela transição dos 16 anos. Pensei: o que é que vou fazer agora?

Sempre sonhou ser jogador de futebol? Nunca quis ser outra coisa?
Sempre disse que queria ser jogador. E vivia no meio dos carros, os meus irmãos eram funcionários da empresa do meu pai, cada um tinha a sua vida, era uma grande empresa, com bons ordenados, mas eu sempre disse que não queria carros e que queria a minha carreira como profissional no futebol. Fui um bocado pressionado nessa altura dos 16 anos, porque chegou uma altura em que disse que não queria ir mais à escola e fui trabalhar seis meses na empresa do meu pai... mas também percebi que não era por ali.

O que fazia na empresa do seu pai?
Estava na contabilidade, era o responsável pela facturação, em pouco tempo aprendi. Era responsável por receber o dinheiro das empresas, o valor da facturação, ir ao bancos, essas coisas.

O seu pai não ficou chateado quando lhe disse que não queria continuar lá?
Eu sempre lhe disse que não estava ali a tempo inteiro, que não era aquilo que queria. Na altura ficou chateado mas depois tenho a certeza – ele nunca me disse, nem a minha mãe –, mas tenho a certeza de que eles tinham orgulho nas minhas decisões.

Pedro Martins com a primeira sobrinha ao colo

Pedro Martins com a primeira sobrinha ao colo

D.R.

Quando assinou o seu primeiro contrato?
Foi nessa altura, com 16 anos. Era um contrato semi-profissional.

Até esse momento ainda não tinha ganho dinheiro com o futebol?
Não, nada. Na altura, o Sporting queria vir-me buscar e cheguei a ir para Alvalade. Estive lá cerca de 15 dias para assinar. Estava com o Paulo Torres, embora sendo mais novo. Era para assinar pelos juniores do Sporting. Entretanto, eles foram fazer um torneio a Espanha e eu não gostei.

Do que é que não gostou?
Não me adaptei ao centro de estágios, não me adaptei àquela vida. Não me sentia bem. Não me adaptei àquelas circunstâncias. Era um quarto para sete ou oito, havia muita confusão e eu não gostei muito.

Não era por estar longe da família?
Também, na altura tinha começado a namorar e também teve alguma correlação com isso.

Essa namorada é a sua mulher?
É, é a minha esposa. Conheci a Lina no liceu.

Estava a dizer que não se adaptou...
...Não, achei que ainda não era aquele momento. Algo me dizia: não vás para aí, o teu começo vai ser de outra forma. Eu tenho estas sensações, estas sensibilidades muitas vezes e, normalmente, tendo a fazer aquilo que a minha intuição diz. Acredito muito nela. Por vezes não percebo porque é que fiz ou porque tomei aquela decisão, mas mais tarde venho a perceber porquê. Mesmo no dia a dia, o tomar de decisões, inclusivamente num jogo de futebol, quando tenho de tomar uma decisão num minuto ou dois, eu tomo-a com base na minha intuição e depois vou perceber porque é que a fiz e ela dá-me respostas. Mas, como estava a dizer, não me adaptei, não gostava. Entretanto, eles iam a um torneio em Espanha, eu tinha sido convocado mas disse-lhes: “Foi um prazer mas eu não quero. Quero ir para a Feira, quero ir para a minha terra, não me estou a adaptar”. E vim para a Feira. Foi aqui que surge e que assino o meu primeiro contrato profissional.

Lembra-se do valor do primeiro ordenado?
Vinte e dois contos e quinhentos (112,50€). Assinei o contrato e, passado pouco tempo, comecei a jogar na primeira equipa. Na altura havia a tradição de que os jogadores da casa tinham um determinado rendimento, tinham um determinado ordenado – e os outros era à parte. Passado pouco tempo de jogar na primeira equipa, comecei com 15 contos, depois 22,50 e depois 50 contos (250€). E foi aí que tudo começou. Nesse ano, acabei o contrato a ganhar o que todos os jogadores da casa ganhavam na altura. Ainda com 16 anos.

O que fez com esse seu primeiro dinheiro?
Não me recordo. Provavelmente comprei umas boas botas de futebol.

Pedro Martins (em baixo à direita) com familiares na igreja durante a sua Primeira Comunhão

Pedro Martins (em baixo à direita) com familiares na igreja durante a sua Primeira Comunhão

D.R.

E da estreia na equipa sénior?
Foi contra o União de Coimbra, em São João de Ver, porque o campo relvado do Feirense entrou em obras de na relva e não tínhamos campo.

Tremeram-lhe as pernas por ser o primeiro jogo?
Antes, muito. Quando entrei estávamos a perder 1-0 e primeira coisa que fiz foi um tremendo disparate: peguei na bola e, quando ia fazer um passe para o guarda redes, isolei um avançado e eles fizeram o 2-0 (risos). Aguentei e, passados dois, três minutos, estava eu a fazer o golo 2-1, numa situação de canto. Acabamos por perder 4-1.

Tinha superstições?
Não, nunca fui disso. Tenho o benzer que é normal. De vez em quando, se estamos a ganhar vou levar sempre o mesmo casaco, mas nada de mais e eu sei que não é por aí, como é evidente.

Continuou a ser chamado à equipa principal?
Sim, embora como estávamos no campeonato nacional de juniores e o treinador, o Francisco Nóbrega, já falecido, infelizmente, viu que eu ainda não estava preparado, ainda era miúdo, então ia treinar com os seniores e ia jogar com os juniores. Quando ele precisava, metia-me de vez em quando.

Ficava chateado de não jogar nos seniores?
Achava que fazia parte do meu crescimento. Quando ia jogar aos juniores não ia chateado, antes pelo contrário. Sabia que para chegar lá tinha que trabalhar muito, mas sabia que ia chegar lá, só tinha de ter alguma paciência. A grande oportunidade surge nesse ano quando o Francisco Nóbrega sai e o Henrique Nunes assume a liderança. Tinha sido o meu treinador nas camadas jovens, começou comigo nos juvenis, nos juniores, e a partir dali nunca mais deixei de jogar no Feirense. Fui sempre um dos indiscutíveis até à minha saída para Guimarães.

Já lá vamos. Durante esse percurso, antes de ir para Guimarães, sai de casa dos pais, casa e tem filhos.
Casei com 22 anos, embora já tivéssemos negócios em comum com a minha esposa, aos 18 anos. E ainda temos. É uma casa, uma loja de prendinhas no centro de Santa Maria da Feira, que ainda hoje existe, já tem 31 anos. Prendinhas para crianças, para adultos, roupinha de criança. É um negócio que já faz parte da família, faz parte da minha esposa. E antes de casar já estava a construir a minha casa. Quando nos casámos, já tínhamos a casa pronta. O Ricardo nasceu quando eu tinha 23, antes de ir para Guimarães. Ficámos um ano na Feira. O ano do Vitória é em 94/95 e quando vamos para Guimarães o Ricardo tem um ano.

Assistiu ao parto do seu filho?
Não consegui. Estava a fazer a pré-época aqui no Feirense, estávamos a correr na mata, que na altura era o que se fazia, e quando acabou o treino da manhã vieram-me dizer: “Olha, o teu filho nasceu”. Não estava à espera porque nesse dia a Lina tinha ido para uma consulta de rotina com o pediatra. Não estávamos à espera que fosse naquele momento. Eram mais uns três ou cinco dias. Por isso, quando me disseram “já tens um filho”, para mim foi fácil porque não andei ali de um lado para o outro.

Qual foi a sensação quando viu e pegou nele pela primeira vez?
Uma enorme alegria, mas também um peso nos ombros tremendo, um sentido de responsabilidade. Foi logo ali o primeiro baque. Agora ele depende de mim, agora tens de ser o grande protector. Foi isso que senti, uma grande alegria, mas senti o peso da responsabilidade.

Pedro Martins (à direita) no casamento do irmão mais velho

Pedro Martins (à direita) no casamento do irmão mais velho

D.R.

Dos anos passados no Feirense tem alguma histórias que se lembre, momentos marcantes?
Primeiro tenho de lhe dizer uma coisa, o Feirense atingiu nessa altura um patamar, não digo de excelência mas conseguimos algo que não é normal e vou-lhe explicar porquê. A maior parte dos que jogaram nos juvenis manteve-se lá, coisa que no Feirense não acontecia e ninguém se lembra agora, mas na altura estar nos campeonatos nacionais não era fácil. Nós fomos para os juniores, subimos os juniores e mantivemos os juniores na primeira liga, na primeira divisão. Este mesmo núcleo chega, depois, ao campeonato da segunda divisão e de um momento para o outro começa a ganhar jogos, a ganhar jogos, a ganhar jogos e nós tínhamos equipas muito fortes, como a Académica de Coimbra, que tinha acabado de descer. O António Oliveira era o treinador da Académica, para terem a noção do poderio das outras equipas. E aquele grupo de trabalho, sem dinheiro, de um momento para o outro começa a ganhar, a ganhar, a ganhar, até que os outros quando acordaram viram que já não conseguiam lá ir. Eu acho que fizemos a diferença, um grupo de gente jovem, outros que chegaram e vieram ajudar, gente desconhecida. Nós éramos conhecidos pelos "Portugueses" porque o Feirense na primeira Liga não tinha nenhum estrangeiro. Fizemos um grande trabalho, sem dinheiro, fruto das camadas jovens do Feirense, fruto de muita carolice de muitos dirigentes, dos jogadores, pela paixão dos atletas.

Quem era esse núcleo duro? Recorde-nos alguns nomes.
O Artur, que era o mais velho não fazia parte desse núcleo, mas percebeu que tinha aqui muito ourinho. O José Augusto, outro dos mais velhos, também percebeu que esses miúdos ao serem ajudados o Feirense iria ter muita coisa. E do meu tempo, era eu, era o Quitó,o Pinto, o David, o Miguel Bruno, o ponta de lança, o Tó, o António Martins, o Couto, que trabalha agora na Câmara, o José Hermano, ponta de lança, era muita gente. O Feirense nunca esteve nos campeonatos nacionais, fomos nós os primeiros a abrir as portas. E era tudo feito com gente da terra, com orçamentos absolutamente irrisórios. Foi pena que não tivéssemos dado um salto qualitativo na mentalidade.

O que quer dizer com isso?
Este grupo de jogadores deveria ter tido um grupo de pessoas à frente que percebesse que podíamos ter dado muito mais. Isto é, não nos podemos cingir a isto: “A partir de agora vamos ter um ordenado de cinquenta contos para toda a gente, isso é impossível”. Se nós temos jogadores novos, com ambição e que querem ir para outro lado, já estamos aqui a criar um problema. O Feirense não pensava de uma forma profissional, continuou a pensar de uma forma amadora, de uma forma familiar. É verdade que houve muitos momentos de sucesso porque era familiar.

Como se dá a passagem para o Vitória de Guimarães? Tinha empresário? Quem o contacta?
Eu não tinha empresário . Nesse ano tive uma reunião com o engenheiro Brandão, o presidente. Tinha acabado contrato mas havia o problema da Lei Bosman e do pagamento das mais valias aos clubes. Tive a reunião com o engenheiro Brandão, não foi possível chegar a acordo, e naquele mesmo dia tomo a decisão de não querer jogar mais no Feirense, porque sentia que tinha de crescer e ali já não estava a receber aquilo que precisava em termos profissionais. Era o meu lado de ambição, embora houvesse muito o lado coração. Não foi fácil. Recordo-me que. nessa noite. saí de casa, estavam muitos agentes a ligar constantemente para casa. Quando cheguei a minha mulher disse-me: “Já ligaram não sei quantos empresários. É um para o Boavista, é outro para o Vitória de Guimarães, é outro para o não sei o quê. O que é que tu andas a fazer?!”. “Fui espairecer ”. Entretanto, recebi uma chamada do Vitória e, no outro dia de manhã, fui para Guimarães e cheguei a acordo com o Pimenta Machado e com o Ricardo Pimenta Machado, de quem ainda hoje sou muito amigo, uma pessoa extraordinária.

Foi fácil a mudança para o Vitória?
Não foi fácil no início. O Dr. Pimenta Machado não era fácil. Primeiro, fez-me uma proposta e mostrou-me todas as condições da academia, que são aquelas que ainda prevalecem, com grandes condições de trabalho, era a única no país na altura. Nem FC Porto, Benfica ou Sporting tinham as condições como eles. “Isto é absolutamente excelente, é fantástico, agradeço-lhe, sei que inclusivamente há aqui direitos de compensação a pagar ao Feirense, mas se me tivesse dito que era esta a proposta, eu já não tinha vindo”. O homem foi aos arames. “Sim porque eu tenho a minha vida estabilizada e não vou deixar o meu clube para ganhar sensivelmente o mesmo, vindo para aqui. Tenho ambição, mas também quero que ela seja respeitada”. Na altura, era a grande preferência do Quinito que era o treinador. E ele: “OK. O que é que tu queres?”. Eu dei-lhe os meus números, ele já não discutiu, já não fui mais arrogante, bateu o contrato, apertou-me a mão e disse: “É destes homens que eu quero ter aqui no Vitória”. E ficou assim. Foi a primeira vez que falei com o doutor Pimenta Machado. E a última vez foi quando ele disse: “Ouve lá, tenho aqui uma proposta do Sporting. Como é que é, queres ir para o Sporting?”. “Faça o favor, vamos avançar”. Foi a primeira e a última vez, passados meses, que falei com ele.

Mas esteve uma época no Vitória de Guimarães.
Estive, mas o negócio foi feito antes de terminar a época.

Foi viver para Guimarães?
Sim, com a minha esposa e filho.

Pedro Martins no dia da entrevista a Tribuna, em Santa Maria da Feira, com um fã.

Pedro Martins no dia da entrevista a Tribuna, em Santa Maria da Feira, com um fã.

FERNANDO VELUDO / NFACTOS (EXCLU

Como é que foi o embate com o Quinito e com a equipa?
De início não é fácil, não venho com estatuto, venho da II divisão, era um chavalo. Para o Quinito, não, porque ele conhecia-me, sabia o que é que eu podia render. Quando estava no Feirense, fizemos muitos jogos contra o Espinho e a maior parte das vezes ele perdia contra nós.

Consegue traçar o perfil dele como treinador?
O Quinito era especial em várias situações, no timing. Temos várias histórias com ele que posso contar. Até uma palestra dele era tão simplista que se tornava à Quinito. Em determinados momentos ele não metia os nomes, metia as meias e dizia: “tu vais jogar aqui e desta forma”. Metia os onze jogadores, que eram as meias, e dava o exemplo com elas. Às vezes mexia muito connosco ao intervalo, na forma como nos dizia as coisas. Ou então esmagava-nos de forma a retirar da nossa parte algo que estava adormecido; ou então, sabendo que naquele momento nós estávamos mais tensos, falava com carinho, com um tom de voz mais suave, mais doce, mais calmo. O Quinito era diferente.

Alguma história que se lembre com ele?
Num jogo com o Belenenses, quando estávamos a passar uma altura difícil, o Belenenses tinha uma grande equipa, era o João Alves o treinador, havia uns zunzuns de que o Pimenta Machado estava em conflito com o Quinito e eu recordo-me que o Quinito tinha sempre uma malinha metálica, onde ele levava umas cuecas e umas meias. Naquele dia, ele abriu a mala, tirou uma champanhe e copos de plástico que meteu em cima da mesa, antes do aquecimento, antes de irmos para o jogo, e disse: “Meus queridos estamos a chegar ao final do ano, para vocês desejo as maiores felicidades, um novo ano brilhante e de sucesso. Eu tenho a certeza que hoje vamos ganhar, já antecipo a nossa vitória e por isso vou abrir o espumante, vamos brindar ao novo ano e à vitória. Sejam felizes e no próximo treino estamos aqui para nos divertirmos”. E foi assim, abriu a champanhe, deu um copinho a cada um, bebemos o espumante, fomos para jogo, ganhámos o jogo e viemos felizes. É uma história à Quinito.

E em termos de balneário foi uma diferença muito grande para o Feirense?
Mais profissional. Eu estava habituado a um círculo familiar, praticamente não tínhamos estrangeiros, e ali estamos a falar de brasileiros, de muitos jogadores sérvios, croatas, do Paraguai e do Chile.

Havia tendência para fazerem grupinhos?
Tive alguma dificuldade em perceber os sub-grupos. Mas é normal. Se nós somos brasileiros a tendência é ficarmos mais com os brasileiros, se somos portugueses é com os portugueses, os mais velhos é com os mais velhos, isto é perfeitamente normal, não quer dizer que haja grupos. Os sub grupos vão existir sempre, mas no momento em que haja o interesse maior, que é o clube, o grupo, toda a gente tem que se unir em torno dele. Mas fui muito bem recebido. Em 15 dias, três semanas, já tinha, digamos, o aval positivo de toda a gente, fruto daquilo que fazia em campo e no trabalho. Muitas vezes ninguém olha para o que somos como pessoas, o primeiro impacto é sobre aquilo tu que fazes dentro do campo. Este joga bem, podemos contar com ele, este tem esta característica... Então, rapidamente, o próprio grupo absorve-te e abraça-te.

Foi alvo de alguma praxe ou de alguma brincadeira?
Não. De vez em quando há aqueles chapos. Estamos no balneário e, quando estamos distraídos, levamos com a nossa roupa molhada, os chapos: Mas nunca fui praxado.

Pedro Martins no Feirense

Pedro Martins no Feirense

D.R.

Quando soube do interesse do Sporting isso mexeu consigo, já estava à espera, como foi?
As coisas estavam a correr tão bem que havia muita gente interessada na altura. Havia o interesse do Benfica, o Porto abordou, mas não sei até que ponto é que abordou. Havia um clube na Alemanha, o Bayern Leverkusen.

Era o Pimenta Machado que lhe dizia que tinha havido essas abordagens?
Também.

Já tinha empresário?
Não. Mas alguns empresários também me ligavam, a aproveitar o momento, se era possível fazer parte do negócio, e tinha a informação dessa forma. Eu sei que, na altura, o Benfica tinha um acordo em que metia jogadores no Vitória, mas não chegaram a acordo. Havia um intercâmbio de jogadores na altura, por isso é que disse que havia interesse do Benfica.

Assinou por quanto tempo com o Sporting?
Por três anos.

Qual foi a reação em casa?
De felicidade.

Nada chateados de terem de ir viver para Lisboa?
Não, nada. Foi um marco muito importante não só da minha carreira, mas também da própria família, como é evidente.

Na altura ainda só tinha o Ricardo?
Sim, a Bárbara veio mais tarde, nasceu quando eu já estava em Alvalade, em 1997.

Foi para Lisboa, calculo que para um apartamento do Sporting.
Eu era esperto (risos).

Então?
Eu era inteligente, sempre muito à frente. Fui escolher um apartamento, mas sabia que o apartamento que eu ia escolher era por pouco tempo. Então escolhi o mais caro, não o que gostasse mais, mas o que fosse mais caro em termos de arrendamento. Porque eu tinha feito um acordo com o Sporting. “Se eu eventualmente quiser mudar de apartamento vocês continuam a pagar aquela verba que está pedida?”. Eles disseram: “Não há problema nenhum, se amanhã decidires ir para outro lado, aliás nós vamos fazer o seguinte, vais receber directamente o ordenado, como renda e não há problema nenhum”. E eu assim fiz. A primeira escolha foi no Parque dos Príncipes, escolhi um apartamento mais caro, estive lá três meses, saí, comprei um apartamento e o dinheiro que o Sporting me pagava de renda, eu pagava à banca. Foi assim que adquiri o imóvel em Lisboa.

Ainda o tem?
Vendi-o há dois, três anos porque já precisava de obras e a proposta que me ofereceram foi muito simpática.

Quando começam as primeira saídas à noite?
O normal, com 16, 18 anos.

Nunca chegou tarde a um treino por causa de uma noitada?
Não, nunca. Nunca perdi uma noite, nunca me deitei mal, sempre respeitei os horários. Não estou a dizer que não houve momentos em que me deitasse mais tarde, aconteceu, mas sei que, naquela fase, naquela altura não teria consequências negativas. A única situação em que eu não dormi na véspera de um jogo, estava nos juniores, mas o treinador soube: foi no casamento do meu irmão. O casamento foi à noite, aquilo prolongou-se e eu praticamente não me deitei. Mas ele até me veio buscar a casa; íamos jogar a Paços de Ferreira, eu acho que até foi o primeiro jogo do campeonato, o primeiro campeonato nacional de juniores do Feirense. Ele virou-se para mim: “Dormiste bem?”. “Não, estou praticamente sem dormir, mas estou pronto”. Foi a única vez que me deitei tarde e más horas e não respeitei o protocolo, mas fui para o jogo e estive bem.

E no Sporting?
Quando tinha de sair, saía, mas sem problemas.

Nem com adeptos?
Individualmente, não. O último ano no Sporting foi difícil, foi uma época muito complicada e, por vezes, quando saiamos à porta, as pessoas estavam insatisfeitas e insultavam-nos, algo normal.

Quando chega ao Sporting quem apanha como treinador?
Carlos Queiroz. Depois, Fernando Mendes e Octávio Machado.

Não chegou a explicar como passa de ponta de lança para médio.
O Feirense sobe de divisão e eu sou ponta de lança, vou para a I divisão como ponta de lança, embora já fizesse alguns jogos a médio. O Álvaro Carolino chama-me e diz-me: “Olha, eu acho que tu não és ponta de lança, acho que és jogador para jogar na posição 6, a médio defensivo. O que é que tu achas?”. Eu, que já vinha a fazer jogos a médio, achei inteligente da parte dele e aceitei porque ele sabia o que estava a fazer e eu também achava que essa iria ser a minha posição de futuro. Percebi em vários jogos que os meus rendimentos a médio eram superiores aos de ponta de lança. Comecei a jogar naquela posição, comecei a gostar, estava sempre em contacto com o jogo que era algo que eu precisava e foi fácil.

Pedro Martins com os pais, no dia do seu casamento

Pedro Martins com os pais, no dia do seu casamento

D.R.

Voltemos ao Sporting. Como foi o primeiro impacto quando lá chegou?
Percebi que era um clube grande. Cresci, em pouco tempo.

E cresceu como?
Mentalmente. Costumo dizer que há tantos jogadores com tanta qualidade, há tantas equipas com qualidade, que se fossemos pôr nelas um branco, um verde, um vermelho ou um azul... Aquele grupo de trabalho era muito bom só por causa de uma camisola. Para mim é o aspecto mental.

A camisola tem peso.
Tem peso e obriga os jogadores a crescer, obriga-os a dar o salto qualitativo no seu rendimento. Eu, a partir do momento em que sabia que estava lá, sabia que tinha de errar muito menos e que o meu jogo tinha de evoluir muito. E em pouco tempo evoluiu, porque nós abrimos os horizontes, pusemo-nos ao nível de uma equipa que luta pelo título e até lá era: “Ah, é o 4º ou o 5º lugar, não passamos disto”. Mas se tivéssemos a mesma exigência que, se calhar, tinha um Porto ou um Benfica. Se calhar, estávamos a lutar pelo titulo ou não? Eu acho que tive um salto de crescimento muito grande, principalmente, no aspecto mental.

Mas esse aspecto mental, passava só por si? Não foi também o treinador, na altura o Carlos Queiroz, que de alguma forma...
...Passa por nós, passa também pelas pequenas informações que vamos recebendo do clube naquele momento, mas passa por nós. De um momento para o outro percebemos, atenção que isto é desta forma. O grau de exigência que eles passam, obriga-nos a tornar-nos jogadores completamente diferentes. Foi isto que eu senti.

Carlos Queiroz é diferente de Quinito. Ensinou mais?
Ensinou mais, claramente, mas também acho que teve muito a ver com o meu aspecto mental. O Queiroz ensinou muitas coisas, é um facto, mas não me ensinou tudo em dois meses e eu em dois meses senti um nível muito diferente daquele com estava no Vitória e tinha a ver com o aspecto mental, é isso que quero dizer.

E em termos de balneário?
Tivemos grupos muito bons, nomeadamente no segundo ano, com o Octávio Machado, em 96/97.

Um Octávio Machado também muito diferente de um Carlos Queiroz.
Completamente, no treino, na liderança.

Dê-nos exemplos.
O Octávio Machado em termos de treino, ainda trazia muito aquela ligação com um treinador de educação física, havia aquela relação. O Queiroz já vinha com o treino adaptado. Tudo o que era futebol, tudo o que era componente física tinha que se inserir no aspecto técnico, táctico e estratégico. O Octávio não tinha esta capacidade, esta riqueza de processos que tinha o Queiroz. Mas o Octávio era muito mais esperto a ler o jogo no banco, o Queiroz não tinha essa experiência que ele tinha. O Octávio Machado era muito forte na comunicação para o exterior e a forma como o fazia, conseguia proteger o grupo de trabalho. O Queiroz era forte na comunicação, mas nunca protegeu o grupo de trabalho. Nas estratégias de arranjar um inimigo comum, o Octávio usava isso para fechar ainda mais o balneário. Com o Queiroz, o nosso grupo era muito mais aberto, muito mais suscetível a pressões e a momentos negativos. Eram estas a grandes diferenças para mim, entre os dois.

O Pedro ainda apanhou o Fernando Mendes e o Robert Waseige.
Sim, o Waseige faleceu há pouco tempo.

Que tal como treinador?
Muito físico, poucos conceitos técnicos ou tácticos. Um pouco na base do Octávio, mas mais atrasado no processo todo. Digamos que muito conservador nas suas ideias e essas ideias já as trazia há 20 anos.

Pedro Matins jogou no V. Guimarães na época 1994/95

Pedro Matins jogou no V. Guimarães na época 1994/95

D.R.

Do seu primeiro para o segundo ano de contrato, também há mudança de presidente: sai Santana Lopes e vem Roquette. Isso mexe muito com os jogadores?
O Sporting viveu em vários momentos uma convulsão, mas este grupo era bom. Este grupo ficou em 2.º lugar, ganhou a Supertaça, entrámos na Liga dos Campeões, fizemos boas provas. No outro ano não, mas na Liga dos Campeões recordo-me que entramos até muito bem, ganhámos ao Mónaco, que tinha jogadores como o Thierry Henry, o Trezeguet, Barthez, tinha uma grande equipa. No meu segundo ano é a mesma equipa, ficamos em 2.º lugar e a equipa dá um salto qualitativo. Vem o Waseige que está dois meses connosco, vai-se embora e é o Octávio que assume novamente o comando. A equipa começa outra vez a galgar. Mas, na altura, o Sporting tinha um departamento de scouting que, quanto a mim, cometeu erros crassos. Jogadores contratados por grandes fortunas, com peso considerável, em que o Octávio se queixava que não tinha influência na contratação dos jogadores.

Estamos a falar de quem?
Estamos a falar do Giménez, estamos a falar do Saber, estamos a falar do Leandro, estamos a falar do Nenê... vieram vários jogadores a peso de ouro e que não resultaram. E há conflito entre o Octávio Machado e o departamento de futebol.

Que era liderado por quem, já era o Couceiro?
Não, ainda era o Norton de Matos. Entrou tudo em conflito e os grandes problemas do Sporting começam a partir daí. Tivemos muita entrada de jogadores naquela altura. Se olhar para o plantel da altura, posso-lhe dizer mais nomes, mas estes foram a base dos jogadores que foram contratados a um custo elevado e de quem o Octávio Machado não gostava. Na minha opinião, ele não foi escutado para dar a sua avaliação. Quando entrou o Couceiro, o Sporting já estava todo partido. O Sporting já tinha graves problemas e não foi pelo facto do Couceiro ter vindo que se desmembrou, já estava completamente partido, muito antes, bem antes. O Sporting a partir desse tempo viveu numa paz podre e num ambiente de muitos interesses.

Que parece ser a história do Sporting...
...Que é a história do Sporting, infelizmente. Mas havia um bom grupo de trabalho e ele foi desmantelado em pouco tempo, em prol dos interesses.

Interesses de quem, de empresários?
O futebol começou a mudar.

É na década de 90 que mais se ouve falar em arbitragens viciadas, no poderio do norte… Sentiam isso dentro do balneário?
Toda a gente sentia e quem era favorecido também sentia e provocava inclusivamente os colegas.

Durante os jogos?
Durante os jogos e em estágios de seleção. Em situações normais, eles às vezes provocavam.

Está a dizer que os que se sentiam privilegiados, provocavam os outros que não eram?
Sim.

Pedro Martins jogou no Sporting de 1995 a 98

Pedro Martins jogou no Sporting de 1995 a 98

Matthew Ashton - EMPICS

Por falar em seleção: quando é que foi chamado pela primeira vez?
Foi naquele episódio do Sá Pinto com o Artur Jorge (risos).

Que pontaria. Estava lá quando se deu a agressão?
Eu estava no balneário e veio o Paulinho Santos: “Eh pá, o Sá Pinto deu na tromba ao Artur Jorge”. Este gajo está a brincar comigo, o Sá Pinto vinha aqui dar no trombil? Não foi convocado, ele não é maluco. E como era um gajo do Porto [e Sá Pinto era jogador do Sporting] eu não dei muita importância. Daí a um bocado entra o Oceano: “Então o Sá veio aqui e derreteu o Artur Jorge?”. Foi difícil, foi difícil. E acho que o Sá também cresceu muito e arrependeu-se mais tarde. Mas foi difícil para nós. Felizmente, na altura, ainda tivemos a protecção do Figo, porque o primeiro comunicado que eles tinham era de aniquilar profissionalmente a carreira do Sá Pinto. Eu e o Oceano não permitimos.

O Pedro e o Oceano não permitiram?
Sim. E nomeadamente para mim, que era a primeira experiência, provavelmente seria a última, ao não concordar com aquele comunicado. Atenção, não que eu estivesse a proteger ou que o Sá Pinto não tenha errado profundamente ou que merecesse uma medida exemplar. Mas toda a gente fez muita porcaria no futebol português e foram sempre protegidos – e muitos deles queriam a cabeça do Sá Pinto e se calhar tinham feito coisas tão ou mais desagradáveis, do que aquelas que lhe aconteceram. Eu acho que toda a gente merece uma segunda oportunidade, como felizmente o próprio selecionador Artur Jorge acabou por lhe dar, sabendo que foi um momento de infelicidade. E teve consequências para o Sá Pinto, que deixou um ano de jogar e provavelmente em termos financeiros e em termos de futuro inclusivamente teve repercussões, foi isso que ele teve de assumir. Agora, na altura havia muita gente que o queria aniquilar, nós também estávamos em guerra com o Porto, o Sá Pinto era um dos grandes activos que tínhamos [no Sporting], por isso também havia aquela necessidade de o crucificar. E recordo que não foi fácil. Quando chegou aquela primeira declaração eu disse: “Estou fora, não contem comigo, não faço parte dela”. E fizeram outro mais soft, diferente e sem mencionar medidas drásticas.

Nesses três anos no Sporting, fez parte de plantéis marcantes. Não tem nenhuma história que possa contar?
Tenho muitas que não posso contar. Mas posso contar esta história. Tivemos um jogo amigável em Valência, chegámos numa quinta-feira – íamos ter jogo no sábado – e, à chegada, o Queiroz quis meter toda a gente no hotel e disse que só nos libertava no dia seguinte, após o treino. Toda a gente foi para os seus quartos e o Carlos Queiroz, eram duas ou três da manhã, recebeu uma chamada de uma mulher que se enganara no quarto, porque ligou para o quarto do Carlos Queiroz e pensou que era o quarto de um jogador. O do Queiroz era o 215 e o do jogador era o 315, então ligou para o Carlos Queiroz por engano. “Ainda cá deixaste isto”, disse ela. O Queiroz assumiu o papel do jogador e respondeu: “OK, já vou, já vou, diz-me lá qual é o teu quarto”. Foi ao quarto e, quando chegou, estava cheio de vodkas, eram três mulheres… (risos). O que é que aconteceu: os gajos tinham chegado, falaram com elas, elas já estavam no seu quarto, fizeram uma festinha e depois foram para a cama. O Queiroz viu aquilo tudo e foi um problema tremendo, mas aquilo ficou por ali. Só passados dois meses é que o Queiroz avançou com um processo disciplinar. Quando as coisas estavam bem, ele deixou lá, quietinho; quando as coisas começaram a ficar tremidas, instaurou um processo disciplinar.

O que aconteceu?
Não deu em nada. Eu fui ouvido para saberem se o Dani tinha estado comigo ou não naquela noite. Ele estava no meu quarto. Eu disse: “Ele esteve comigo, eu adormeci quando ele estava comigo, quando acordei ele estava comigo, é o que eu sei, nada mais do que isso” (risos). Outra. Num estágio na Holanda, o meu primeiro estágio, estávamos num lugar onde não havia ninguém, no meio do mato. E, do nada, vi o Dani a passar. Estava no meu quarto e vi-o passar pela janela. “Aonde é que vais?”. “Tenho ali umas miúdas, vou dar uma volta de bicicleta com elas”. De um momento para o outro, apareceram as miúdas e lá foi ele (risos). Nós acabadinhos de chegar à Holanda. O Dani era uma coisa, nunca vi ninguém tão solicitado, era a toda a hora, a toda a hora, era impossível ele ser jogador. Há tantas historias…

Força.
Por exemplo, na altura, os elevadores nos hotéis ainda não mostravam o andar em que iam passando e a gente não sabia qual é que chegava primeiro. Uma vez, num desses hotéis, o Carlos Xavier e o Oceano chamavam o elevador e apostavam para ver qual vinha primeiro. Na altura ainda era em escudos e o que chegasse primeiro... OK, está aqui, está pago. Faziam-se apostas assim (risos).

Pedro Martins com Paulinho o roupeiro do Sporting

Pedro Martins com Paulinho o roupeiro do Sporting

D.R.

Lembra-se do seu jogo de estreia na seleção?
A minha estreia foi na Irlanda e fui muito bem recebido por todos; pelo Luís Figo, que era a nossa grande referência do futebol, era um grande capitão.

Depois não voltou a ser chamado?
Não. Fui duas vezes chamado. Numa delas, participei no jogo; na outra, não.

Em sua opinião não voltou a ser chamado porquê?
Porque havia outros melhores para aquela posição. O Paulo Sousa, o Paulinho Santos, o Paulo Bento. Mas não guardo nenhum tipo de frustração na minha vida em relação à seleção, convivo muito bem com isso. Decisões são decisões.

Entretanto, foi pai outra vez, da Bárbara. Assistiu ao parto dessa vez?
Não, mas passei três, quatro horas de trás para a frente, não queria assistir, mas estava sempre presente, estava por trás da porta, para saber se estava bem. Ela ainda demorou a nascer.

Sentiu outra vez um peso nos ombros?
Não. Isso aconteceu com o impacto do primeiro. Mas tenho com ela uma maior cumplicidade e o Ricardo é mais com a mãe.

Voltando ao Sporting: na última época ainda apanha o Cantatore como treinador. Que tal?
Esteve três semanas, foi um senhor. Um gentleman. Gostando ou não do seu treino, achei um homem com um carácter fora do normal. Porque ele viu que o Sporting estava completamente dividido internamente, chegou uma altura em que disse disse: “Não acredito nisto”. Passados três meses, foi-se embora. Rescindiu. Acho que o Sporting devia ter aprendido nesse momento com aquilo que se estava a passar e não aconteceu.

Veio o Carlos Manuel entretanto.
Mas as coisas já estão tão partidas que eu não posso avaliar como é que é o Carlos Manuel, numa situação normal, seria como treinador.

Como estava o ambiente nessa altura?
Estava tudo diferente, partido, cada um a olhar para o seu lado. Posso dizer que, num dos primeiros jogos no Algarve, houve um jogador que tinha chegado ao Sporting naquela altura, estava no meu quarto e pronto para ir sair à noite. E nós na véspera de um jogo contra o Farense. Eu perguntei-lhe: “O que é que vais fazer?”. “Ah, eu vou dar uma volta”. Eu aí era implacável. Uma coisa é tu estares em estágio, de pré-época e ok, um jogador foge, tem umas miúdas à espera, ok, não há problema. Outra coisa é tu saberes que amanhã vais ter um jogo importante, aquele jogador vai jogar e preparou-se para sair para a noite. Eu disse: “Oh pá, vai para a noite, mas não estejas à espera que eu te dê cobertura, porque não vou dar. Toda a gente vai saber e amanhã temos que ganhar. Eu não venho para aqui para brincar. E não me vais chamar bufo, porque eu quero é ganhar dinheiro, quero é ganhar títulos”. Então, ele ficou. Mas a primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi sair antes de um jogo. E sei que ali era só o primeiro passo. No Algarve, houve um jogador do Sporting que foi muitas vezes apanhado, inclusivamente com taxas de alcoolemia muito grandes, e acidentes na rotunda... Portanto, os jogadores que vieram...Proteção aqui, proteção acolá, começou a ficar tudo partido.

Pedro Martins foi chamado pela primeira vez à seleção A, em 1997

Pedro Martins foi chamado pela primeira vez à seleção A, em 1997

Neal Simpson - EMPICS

Como surge o Boavista?
Através do presidente, João Loureiro. Assinámos o contrato num hotel em Lisboa, num guardanapo. Ele ainda fazia aqueles contratos num guardanapo. Assinámos, chegámos a acordo.

Por quanto tempo?
Um ano e meio.

Jaime Pacheco, que tal?
Fez grandes trabalhos. Tenho um enorme respeito e consideração por ele. Não fui feliz com ele. Acho que, quando cheguei ao Boavista precisava de ser ajudado de variadíssimas formas, ele não teve essa paciência, já tinha um grupo feito.

Por que diz que precisava de ser ajudado?
Porque não tive pré-época, porque são praticamente seis meses em que não tens praticamente contacto com bola, porque estava à parte no Sporting.

Porquê?
Porque quando veio Jozic, ele meteu vários jogadores à parte e os que não tinham colocação continuaram a ficar à parte.

Não houve nenhum bate-boca?
Houve uma análise crítica, depois da decisão que o Sporting tomou. Antes disso, nunca tive problemas com o Sporting. Agora, eu tenho uma reunião num dia, ninguém me diz absolutamente nada, e passados dois, três dias, quando tinha várias propostas, várias soluções para resolver o meu problema, veio o treinador que tinha sido contratado a dizer que não conta com este, com este e com aquele, quando o diretor podia ter-me informado disso antes... Não foram sérios comigo, não foram corretos, e depois apresentaram isto de uma forma em que lesaram o meu lado profissional. Isso é que eu não posso estar de acordo. Porque se ele não conta comigo, não há problema. No Boavista, o Pacheco disse-me no segundo ano: “Eu não conto contigo”. E não houve problema. Isto é que é frontalidade. Eu não sei se era uma decisão tomada do treinador ou se era já uma decisão tomada pelo departamento de futebol.

Que ainda era liderado pelo Norton de Matos?
Que ainda era o Norton de Matos. Em muitos períodos eles quiseram acabar com o núcleo Octávio Machado, o que é uma estupidez porque não há núcleos Octávio Machado, há núcleos de Sporting. Eu tive problemas, o Oceano teve problemas, o Pedro Barbosa teve problemas, entre muitos. Mas o Sporting era a instituição que devíamos preservar e não misturar as coisas. Daí a minha crítica nessa altura e da forma como foi, porque dias antes, o Norton de Matos podia ter-me dito isso. E, inclusivamente, apresentando-me daquela forma fechou-me a porta de outros clubes.

Que clubes?
Um deles era o Vitesse da Holanda e o outro era o Valencia. E não viram sequer os interesses do Sporting, porque podia ter sido ressarcido. Mais tarde, fui para o Boavista e o Sporting teve de pagar metade dos meus salários. Não houve a noção de proteger isso. Notava-se que havia no Sporting um quadro para a parte negocial e outro quadro para a parte futebolística – e que não estavam em sintonia. A minha crítica foi essa; não foi pela tomada de decisão porque essa aceitava, podia não gostar mas aceitava.

Estava dizer que também não correu bem com o Jaime Pacheco. Aliás, praticamente não jogou.
Não. Cheguei mal fisicamente, a equipa estava bem, forte.

Estava em baixo, psicologicamente?
Precisava de ser ajudado. Não havia tempo. E eu compreendo. Naquele momento eu precisava de facto de uma aposta forte para continuar, mas não aconteceu.

Foi uma época e meia penosa?
Mas aqueles seis meses nos Açores foram importantes para mim, para ganhar adrenalina novamente.

Pedro Martins com os dois filhos Ricardo e Bárbara

Pedro Martins com os dois filhos Ricardo e Bárbara

D.R.

É o Pedro que pede para sair do Boavista ?
Fui eu. Na altura, o Manuel Fernandes também me tinha ligado e juntou-se o útil ao agradável. A família não foi para os Açores, mas ia lá com alguma frequência.

Fizeram-lhe bem esses seis meses no Santa Clara?
Em termos futebolísticos, sim. Era o que eu estava a precisar: jogar, jogar, jogar.

Gostou dos métodos do Manuel Fernandes?
O Manuel é um apaixonado, vive as coisas com muita paixão. Fez grandes trabalhos no Santa Clara.

Estava no nível Sporting, as expectativas estavam altas e de repente dá por si no Santa Clara. Nessa altura sentiu que de alguma forma tinha já perdido o comboio?
Sim, claramente.

Custou a aceitar, assimilar.
Não. Encarei com naturalidade comecei a procurar outras coisas, comecei a preparar-me para treinador.

Quando é que começa a tirar o curso?
Quando vou para o Alverca, a seguir.

Já sabia que queria ser treinador?
Eu sabia que queria ficar ligado ao futebol, de que forma é que ainda não sabia. Comecei a tirar os cursos e comecei a ter mais uma noção quando fui para o Alverca, porque sou o mais experiente do clube, já com 30 anos, tenho uma boa relação com o José Couceiro, tinha passado momentos difíceis em Alvalade e ele sabia disso. E, então, comecei a ver o futebol de outra forma, a preparar-me de outra forma.

Mas em Alverca ainda joga durante quatro épocas.
Sim. A última época já não a queria fazer, foi obrigação do José Couceiro. Obrigação porque, quando ele diz “eu quero que faças, eu preciso de ti aqui”, não lhe podia dizer que não. Já não queria fazer a última época, não me sentia em condições.

Voltando um bocadinho atrás, quando chega ao Alverca ainda apanha Jesualdo Ferreira. Qual a mais valia dele?
O professor Jesualdo tem uma qualidade tática assinalável, percebe bem o que é o futebol. Mas tem algumas dificuldades na gestão de grupos. É um grande problema na minha opinião e não estou a dizer nada que não seja aquilo que já não tivesse dito frontal e diretamente. Se ele tivesse o que o Otávio Machado ou o José Couceiro tinham, com o conhecimento que ele tem do jogo, do futebol, se ele tivesse conhecimento do ser humano e da gestão global coletiva de uma equipa seria... .

Também teve como treinador o Vítor Manuel, que é outra figura.
(risos) À antiga. Aquele treinador tem muita paixão, muito grito de apelar ao sacrifício , um terra-a-terra, é diferente. Em termos do que é a estratégia de jogo, o aspecto tático, ele não dava grande relevância a isso; dava muito valor aos aspectos humanos, emocionais, para ele era fundamental. Era diferente deles todos, porque ele próprio tinha essa necessidade de se conectar completamente e com todos os jogadores de uma forma muito mais próxima.

Coloca o ponto final na carreira de jogador nesta época 2003/04. Já tinha algum nível do curso de treinador feito?
Penso que já tinha os dois primeiros níveis.

Já se tinha metido em mais negócios?
Tive um restaurante em Santa Maria da Feira, chamado “Fair Play”, durante quatro anos, com um sócio daqui da Feira. Acabámos a ligação em 2002. Era um restaurante ligado ao futebol, muito giro, e trabalhava muito bem.

Há uma sapataria chamada Pedro Martins...
...Não tem nada a ver comigo. Toda a gente pensa que é minha, mas não.

Tirando o restaurante, mais algum negócio?
Tive uma marca de desporto com o Paulo Alves, que era a Kronos, italiana, e estive cinco ou seis anos com ela. Começámos com lojas de rua, mas depois deram problemas; entretanto, começámos a vender para o grupo Sonae e entretanto lentamente fomos acabando.