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A casa às costas

“Não consigo ver um programa de desporto em Portugal. Ninguém respeita ninguém, os clubes são representados de forma estúpida”

O treinador de 49 anos Pedro Martins conta nesta segunda parte da entrevista como começou a carreira no banco, revela o acordo que fez com o presidente do Marítimo, explica por que razão não concorda quando dizem que as suas equipas são de transições, fala dos problemas que teve com Marega e Kléber e assume algumas coisas que lhe fizeram enquanto jogador e que agora recusa fazer como treinador. Mas também relata o choque que sofreu com a morte do pai e do irmão mais velho e de como pressentiu ambas

Alexandra Simões de Abreu

FERNANDO VELUDO / NFACTOS (EXCLU

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Começa uma nova carreira como adjunto do José Couceiro, em Setúbal. O que foi mais complicado na passagem de jogador a treinador?
Para já, devo dizer que não troco a minha profissão pela de jogador de futebol.

Gosta mais de ser treinador?
Gosto.

É mais difícil do que ser jogador?
Bem mais difícil. Mais responsabilidade. Temos várias vertentes em que temos de estar em cima, temos de ser competentes, temos de estar atualizados, obriga-nos a desafios constantes de querer mais e mais e mais, o que obriga a ir à procura de informação. Estou a tentar aprender o grego e a melhorar o meu inglês, tenho de falar francês, aprender a falar com novas culturas, novas mentalidades de dirigentes, de staff. O futebol dá-me isto. O futebol deu-me muita coisa. A experiência de ter sido jogador. Muitos treinadores que nunca jogaram à bola, se tivessem tido essa experiência, faço ideia o que eles podiam ser ainda mais como treinadores. Como treinador trabalho 24 horas por dia, estamos sempre a ir buscar coisas, estamos sempre a procurar o jogo, o treino, o que é que dizem as pessoas ligadas ao futebol, a imprensa. Não as redes sociais. Estou fora. Não faço, não leio.

Porquê?
Porque não me diz nada. É o tipo de crítica em que ela é mais negativa do que positiva e, mesmo que fosse positiva, se nos tira o foco do que é a realidade, do que é imprescindível, está errado. Eu não vou ver uma única vez as minhas redes sociais. A minha gente trabalha para isso e eu recuso-me a ver e às vezes os meus filhos querem falar sobre isso à mesa e eu não permito. Aliás, aconselho-os a não o fazer como uma forma de proteção.

Quando era jogador lia as críticas nos jornais?
Sim.

E afetavam-no?
Quando havia críticas que não eram objetivas e tinham outros contornos, não gostava. Para mim era perfeitamente normal: "Pedro Martins fez um mau jogo, não jogou bem", ponto final. Por isto ou por aquilo. Agora quando elas são subjetivas...

Como assim?
Quando diziam que provavelmente devo fazer outro tipo de posição... Não sei, não consigo explicar desta forma. Mas há críticas em que há segundas intenções. E que são para proteger outro tipo de pessoas, não propriamente uma crítica ao jogador. Por vezes, é para promoção de outro tipo de jogadores, também acontece isso. Mas globalmente aceitava bem as minhas críticas.

Enquanto treinador dá ainda mais importância ou pelo contrário?
À crítica? Não a ouço. Só das pessoas que estão comigo. Não leio jornais - e grego é complicado. Não consigo ver um programa de desporto em Portugal, daqueles que temos diariamente. Não consigo. Ninguém respeita ninguém, os clubes são representados de uma forma estúpida. Não é bom para ninguém, só para meia dúzia de pessoa, não faz sentido.

D.R.

Quando começa a carreira de treinador quem eram as suas referências?
Eu não tenho grandes referências, tenho pessoas que foram muito importantes na minha carreira, como o José Couceiro, Henrique Nunes, Carlos Queiroz, Otávio Machado, e deles recebi muita coisa boa e também recebi aquilo que acho que não devo fazer.

E o que não faz que lhe fizeram?
Não ponho nenhum jogador à parte. Mesmo com ameaça que esteja lesionado. Da minha parte, o jogador é para trabalhar, depois tomo as decisões que tenho de tomar. Tenho de adaptar toda a gente de forma a estarem todos aglutinados e motivados para o treino. Eu tive treinadores em que, num dia eu não podia fazer aquele tipo de treino, mas no outro dia já estava pronto e ele se recusava que eu fosse para o treino porque achava que a lesão continuava. E a razão era muito simples. Não era por ele estar preocupado comigo, mas porque ele pensava que eu estava a pressioná-lo para que no próximo jogo estivesse disponível. Tive esse problema com um treinador.

Pode contar o episódio?
Posso. Eu conheço bem o meu corpo, havia um exercício que consistia em muitos remates e o meu joelho começou a inchar. Disse ao treinador que tinha de parar porque já tinha o joelho inchado, mas que amanhã treinava normalmente. No outro dia, o meu joelho já estava porreiro, mas ele disse que eu não treinava. Estávamos a dois dias da competição. Perguntei porquê e ele disse: "Não vais treinar porque estás com o joelho assim". Respondi-lhe que me conhecia bem, que tinha feito o tratamento, sabia que estava bem porque aquilo acontecia com muita frequência nomeadamente quando fazia muitos remates com tanta intensidade. Mandei chamar o médico que conhecia o meu historial, confrontei-o com o treinador e o médico disse que podia treinar. Esse treinador, se tivesse algum jogador com uma dor no dedo punha de lado, porque era menos uma dor de cabeça para as suas decisões, para as suas escolhas.

Depois de estar em Setúbal vai para o FCP, ainda como adjunto...
... Eu queria dizer ainda que acho que foi um ano extraordinário para mim, em Setúbal. Estava ávido de aprender com o Zé [Couceiro], o processo de treino, como é que ele planeava e estava também ávido de perceber o jogo, mais e melhor. Até chegar ao nosso dia de estágio, eu ia ver quatro, cinco jogos . Durante seis meses fiz milhares e milhares de quilómetros, tirei milhares e milhares de informações, comecei a perceber ainda melhor o jogo, como é que os treinadores pensam, qual era a filosofia. Chegava a determinada altura e eu já sabia: este aos 10 minutos vai fazer aquilo. Já conhecia as rotinas dos treinadores. Para mim, mais do que o treino, eu tinha necessidade de absorver essa informação.

Pedro Martins como treinador do Marítimo

Pedro Martins como treinador do Marítimo

EuroFootball

Quando vai para o FCP, sentiu grande diferença em relação a Setúbal. A tal mística do Porto é diferente?
Eu conheço bem o Porto, sou do norte, conheci muitos jogadores, conhecia bem a realidade do FCP. Mas o FCP que nós encontramos não era o Porto dos outros Portos. O FCP tinha sido campeão do mundo, campeão europeu, tinha grandíssimos jogadores e muitos deles foram embora. Outros, que fizeram grande época, queriam ir embora. Houve a contratação de muitos jogadores jovens; com qualidade, mas que ainda não estavam preparados para a nova realidade que é a Europa e do que é o FCP. Estavam sempre a fazer comparações com o passado, com o jogador X, Y e Z. Aquele é que era bom; que aquele que chegou não se sente adaptado, que já não havia fome de vencer do grupo de trabalho... Não foi fácil. Vieram jogadores com grandes nomes, mas muito jovens e exigiram muito deles quando eles não podiam dar e isso criou um grande problema.

Dê-nos um exemplo.
O caso do Fabiano. Para mim é um ponta de lança de top, se calhar dos melhores que o FCP teve e não teve sucesso no FCP. Não teve porque foi sempre visto como o grande reforço, de um momento para o outro queriam que fizesse 30 e 40 golos, quando o miúdo tinha acabado de vir do Braisl e não estava preparado. O FCP estava completamente dividido. Exigência top, elevadíssima, as pessoas não tinham paciência e por isso não foi o que se esperava.

O Pinto da Costa tem o peso que se diz ter dentro do balneário?
Ele é o presidente e é um líder. Ele tinha o peso dele, mas que as coisas não resultaram, não resultaram, por variadíssimas razões.

Era homem de ir ao balneário com frequência?
Chegou a ir uma ou duas vezes, mas não mais do que isso. Porque o ano estava a ser muito difícil a todos os níveis.

Só lá estão seis meses.
Depois é contratado Co Adriaanse, o Couceiro é convidado para ser o assistente dele, mas não aceitou. E vamos para o Belenenses. E não corre bem, descemos de divisão. Correu muito mal.

Consegue encontrar uma explicação?
Tínhamos jogadores de qualidade, o balneário era bom, curiosamente trabalhavam muito bem na semana mas chegava ao fim de semana e não ganhavam os jogos. Não tinha jogadores de malícia, de experiência, o grupo era muito bom. No momento em que se encontram lá em baixo - porque nós chegámos e aquilo já estava complicado -, se não tiveres grupos fortes, coesos, resistentes, por vezes não com tanta qualidade, mas que sejam fortes, não acontece. E o Belenenses tinha gente muito boa, mas é daqueles casos que não consigo dar uma explicação. Acho que tinha a ver com a maturidade competitiva que o grupo não tinha.

Pedro Martins assumiu a liderança do Rio Ave, depois do Marítimo

Pedro Martins assumiu a liderança do Rio Ave, depois do Marítimo

DANIEL MIHAILESCU

A seguir começa como treinador principal. Como foi?
Sempre disse ao Couceiro que o meu objetivo um dia era fazer a minha carreira, sozinho, como principal. Nunca lhe escondi. Até lá ia ser-lhe fiel, leal, mas no momento em que quisesse decidir sair... Então surgiu a oportunidade da seleção de sub-21. Ele foi para os sub-21 e eu disse: está na hora.Tu vais para as seleções e eu vou fazer o meu percurso. Vou começar de baixo, vou começar cá na zona.

Antes disso, tem um problema em Espanha em que é detido. Pode contar o que aconteceu?
Sobre esse assunto não vou falar, está resolvido, fui absolvido, que fique bem claro. Fui vítima de uma burla. Ponto final.

Entretanto o seu irmão faleceu, um ano depois do seu pai. A morte do seu irmão foi um choque maior do que a do seu pai?
Eu vi morrer o meu pai. O meu pai foi para o hospital na véspera de carro, estava tudo bem. Quando cheguei no outro dia ao Monte da Virgem a Matosinhos, quando vi o meu pai vi logo que ele ia morrer naquela altura. Estava à nossa espera para se despedir. Foi exatamente isto que aconteceu. O meu pai morreu nos braços da minha mãe, estava exausto, cansado e quando nós chegamos ele despediu-se e faleceu.

E o seu irmão?
O meu irmão.. Fui o primeiro a vê-lo. Eu tinha um jantar marcado para aquele dia com ele. De vez em quando era normal ele chegar atrasado, mas tínhamos marcado para às sete da noite, nove horas, nove e meia e nada, não achei aquilo normal. O meu irmão vivia sozinho. Tive de pedir a chave à minha sobrinha para ir a casa dele ver o que é que se passava. Eu estava com aquele feeling de que algo não estava a correr bem. Quando abri a porta ele estava estendido no chão com uma garrafa de água debaixo do ombro. Deve ter acordado, levantou-se com a garrafa de plástico na mão e tombou.

Foi um choque brutal.
Levei um baque. Este custou. E o meu pai também como é evidente. Mesmo assim, o meu pai pegou no carro e foi ao hospital pela mão dele, à noite as coisas estavam bem e no outro dia tu sentes quando o vês pela primeira vez que ele vai despedir-se de nós. Tu não sabes que ele vai morrer, mas sentes que ele está ali a despedir-se de nós. O meu irmão mais velho não estava e eu só lhe mandava mensagens "anda rápido que o pai não vai aguentar". Eu tinha este feeling. E o meu irmão não chegou a tempo.

Pedro Martins no dia da entrevista a Tribuna em Santa Maria da Feira

Pedro Martins no dia da entrevista a Tribuna em Santa Maria da Feira

FERNANDO VELUDO / NFACTOS (EXCLU

Voltando à carreira. Como surge o União de Lamas?
O Luís Miguel chateou-se na altura com o presidente. O presidente ligou-me, fez-me o convite e lá fui eu abraçar a primeira experiência como treinador.

Estava nervoso?
Para a primeira palestra estava muito nervoso. Era muita coisa, primeira experiência, como é que vai ser?

Saiu-lhe bem a primeira palestra?
Muito bem. De um momento para o outro estou nervoso mas também começo a perceber que estou a chegar onde pretendo e já me estou a catapultar.

Como corre o resto de época?
O Lamas estava condenado à partida, com muitos problemas a todos os níveis. Não havia dinheiro, não havia contratos, não havia ordenados. Pedi a minha demissão no dia em que o presidente do clube recebe a verba da câmara, tinha prometido aos jogadores que ia pagar dois ou três meses de salário e não honrou com os seus compromissos. Nesse dia bati com a porta.

Segue-se o Lusitânia de Lourosa.
Porque o Lamas melhorou significativamente o seu jogo e os de Lourosa perceberam que o Lamas, em pouco tempo, mesmo com os problemas todos, era um equipa que tinha melhorado imenso. E foram buscar-me.

Ficou em casa duas épocas.
E que grandes épocas. Um ano e meio, mas que grandes momentos de aprendizagem. Gostei muito de Lourosa. Adeptos com fervor. Era sempre o rival do Feirense. Em Lourosa tive ano e meio absolutamente fantástico. Nós tínhamos muitos jogos fora. Mil pessoas a ver os nossos jogos e as pessoas iam porque tinham prazer. O Lourosa tinha graves problemas também, mas cumpriam. Orçamentos baixíssimos. E no outro ano era uma equipa que estava a lutar para subir de divisão, a lutar com o União da Madeira, com o Penafiel...E com uma equipa muito jovem. Tive grandes momentos em Lourosa.

Gualter Fatia

Como é que foi parar ao Espinho?
O Espinho na altura deu-me um projeto de subida de divisão, coisa que o Lourosa não podia fazer. E até o próprio Espinho não podia fazer, porque vivia acima do que realmente podia, ainda vivia no tempo dos lordes. As pessoas ainda não tinham percebido que o tempo dos lordes já tinha passado e que tinham de mudar rapidamente de mentalidade.

É no Espinho que sofre a primeira chicotada?
No Espinho fui eu que pedi a demissão. Não queria continuar no Espinho. Se alguém um dia me disse assim "vais-te embora", foi no Vitória. Não no Espinho. Quando saí do Espinho eu disse: "Não acredito em ninguém, não acredito no projeto, não acredito em vocês, vamos chegar a um acordo". Fechei a porta, não estava para aquilo.

É no Marítimo que dá o salto, mas começa por ir para a equipa B.
Vou para equipa B do Marítimo com a noção de que me dava mais do que o Espinho para a minha carreira profissional - e estava a lutar para não descer e supostamente no Espinho lutaria para subir, o que era uma mentira porque eles viviam de facto numa imagem de Espinho de há 30 anos, que se refletia perante aquilo que poderiam oferecer e que ao momento era zero. Preferi o risco Marítimo. Fui nessa altura, mas antes o presidente do Marítimo andava constantemente a sondar-me.

Foi com mulher e filhos?
Aí, não, porque aí os miúdos já estão numa fase mais crescida. Fui sozinho.

Está na equipa B três meses de uma época e três meses da seguinte. Como se dá a passagem para treinador principal do Marítimo?
Quando cheguei ao Marítimo B, faltavam oito jogos para o final da época, o Marítimo B estava em penúltimo, tinha 19 pontos, estava na iminência de descer. Fiz os oito jogos. Tivemos sete vitórias e um empate. Passamos do último para 5.º lugar. Houve logo um salto qualitativo. No ano seguinte, o presidente convidou-me, e fiz um acordo com ele que vou revelar e acho que não vai levar-me a mal. Eu disse-lhe que não íamos falar de verbas de contrato, mas queria duas coisas: formar uma equipa B boa para futuro e a segunda coisa era que se alguma coisa acontecesse ao treinador da equipa A, a primeira opção seria eu. E assim foi. Fiz uma grande equipa, muitos deles vieram a ser também jogadores da equipa A. Aliás, quando acabei a minha carreira no Marítimo, tinha 17 oriundos da equipa B, da formação. Muitos foram vendidos. Quando o Mitchell van der Gaag foi embora, ele ligou-me e cumpriu com a palavra dele. Foi assim que me tornei treinador do Marítimo durante praticamente quatro épocas.

A passagem de divisões inferiores para a divisão principal também provocou mudanças em si, percebeu que era outro mundo?
Como é óbvio. Primeiro, temos um conjunto de pessoas de grande qualidade que nos estão a ajudar. Nas segundas divisões era eu que tinha de fazer tudo. Era com a minha câmara de filmar que ia ver os jogos, não tinha ninguém para fazer os scout out dos jogos, era eu que fazia tudo. Na I Liga já começava a ter gente a trabalhar para mim, eu só tinha de pôr a máquina a trabalhar da forma como eu quero, cada vez mais profissional e autónoma. Há diferenças, claro, como passados 10 anos sou muito melhor treinador do que era na altura, já tenho mais bagagem e muito mais coisas assimiladas do que quando comecei no Marítimo. E daqui a dez anos vou dizer a mesma coisa.

Pedro Martins durante um jogo do V. Guimarães, equipa que liderou de 2016 a 2018

Pedro Martins durante um jogo do V. Guimarães, equipa que liderou de 2016 a 2018

JOSE COELHO/ Lusa

No Marítimo já tinha algum modelo de jogo?
Já.

Qual é o seu modelo de jogo?
Como é que hei-de dizer... Isso é uma boa pergunta. O meu modelo de jogo tem a ver com o meu processo de treino. Por isso é que algumas críticas que vi de alguns colegas são injustas, por serem incompetentes muitos deles. Por não perceberem. Por vezes nós temos um chavão, e aquilo é chapa gasta para toda a gente. São muito apelidadas as minhas equipas de serem equipas de transições. É mentira. Os dados comprovam isso. Há momentos em que a minha equipa é forte nas transições e há outros momentos em que a minha equipa trabalha bem a organização ofensiva, tem um ataque planeado como deve ser, sabe aquilo que quer. Consigo dar isso à minha equipa porque eu trabalho estes momentos todos no jogo. Não podem chamar à minha equipa uma equipa de transições quando tenho 70 ou 80% dos jogos de liderança da posse de bola. Alguma coisa está errada. Se me disser que é forte na transição, sim senhor, mas é também uma equipa que sabe o que faz na organização planificada ofensiva. Os números falam por si. Eu vejo muita gente a cometer este erro continuamente. Se o fazem é porque estão distraídos, se estão distraídos não estão a ser competentes. É isso que quero dizer. E muitos deles estão distraídos. Eu tenho o meu modelo de treino, agora o modelo de jogo é levado pelas características dos jogadores que tenho.

É o tipo de treinador que se adapta às características do plantel em vez de ser este a adaptar-se ao seu modelo de jogo?
Eu tenho este modelo, mas eu tenho de ir ao encontro deles com o meu modelo. E se não tenho jogadores para fazer transições rápidas, posso ter jogadores em ataque rápido e tenho de fazer o meu exercício de treinos de acordo com as características deles. Eu tenho jogadores que são fortes na posse de bola, então eu tenho que pôr esta equipa a trabalhar bem nesse processo, sem esquecer que ter posse de bola por si só não serve para nada. Então. mesmo esses que tenham posse de bola, vão ter que aprender algo mais de forma a crescer no seu jogo.

É um treinador flexível.
Claramente, sou muito flexível. Estou sempre a tirar exercícios para ir de encontro às necessidades da equipa, as necessidades do jogadores e muitas vezes às vulnerabilidade que naquele momento a equipa tem. Se eu vejo que a minha equipa está a precisar disto ou daquilo, eu tenho de criar exercícios de forma a melhorar, sem nunca perder o meu modelo e a minha filosofia. Mas o meu modelo pode mudar de um ano para o outro.

Mudou já? Onde é que se dão as maiores transformações?
No Marítimo. No meu segundo ano. Uma equipa de jovens jogadores que joga de variadíssimas formas. Hoje tenho a certeza que se perguntar a todos os maritimistas qual foi a melhor equipa que viu jogar, toda a gente vai falar no ano dessa equipa. É a época em que atingimos o 5.º lugar com os chavalos, é a 2011/12. Chegou-se a uma altura em que diziam: esta equipa defensivamente está top, organização está top, transições excelente. E passados uns tempos diziam "isto aqui é o tiki-taka do Barcelona". Noutro dia já estavam a dizer que era matreira. Nós conseguimos isso.

Passou a seguir algum treinador em específico? As suas referências mudaram?
Não. O que eu é faço é, quando encontro uma ideia boa, meto no meu processo.

E de quem bebeu ideias boas?
Minhas. Do meu processo, quando estive no Sindicato, quando estive no Lamas, quando estive no Lourosa, em Espinho...as minhas ideias.

Desses quatro anos de Marítimo, o que mais o marcou?
A entrada na fase de grupos da Liga Europa. Foi um momento para mim extraordinário. Vocês não imaginam, nós ficamos em 5.º lugar, mas aquela equipa, até faltar cinco jornadas, podia ficar em 4.º ou 3.º - e era uma equipa só de chavalos. Toda a gente dizia que íamos descer de divisão. Ainda me recordo no primeiro jogo fora, em Braga, perdemos 2-0, jogámos mal, mal, mal. Acabou o jogo, eu estava preocupadíssimo, mas também cheguei no outro dia e disse: "Esta é a equipa em que confio, esta é a equipa em que eu acredito e esta é a equipa que acho que vai fazer a diferença". No jogo a seguir, ganhámos em Alvalade 3-2 e nunca mais parámos.

Pedro Martins com Jorge Jesus, quando este era treinador do Sporting

Pedro Martins com Jorge Jesus, quando este era treinador do Sporting

HUGO DELGADO / Lusa

Como se dá a ida para o Rio Ave?
Fui contactado pelo Miguel Ribeiro. O projeto do Rio Ave era interessante, com um orçamento já significativo, com bons jogadores, boas equipas, que me ia dar aquilo que precisava para a minha carreira. Ir para junto da família era outro fator importante.

Quando se está tanto tempo fora, longe da família, perde-se alguma coisa, muda alguma coisa ou ainda reforça mais os laços?
Reforça, perde-se muita coisa e volta-se a ganhar. Faz parte. Há coisas que foram positivas, outras negativas. Mas a distância para mim nunca é benéfica.

Teve um balneário onde figuravam jogadores como o Ukra. Como é que é ter um jogador como ele?
O Ukra é muito responsável. Dá a sensação que ele é maluco a toda a hora o que não é verdade, é só para aqueles momentos.

Alinhava nas brincadeiras?
Eles faziam no momento e no espaço deles. Eles sabiam que havia momentos em que podiam fazê-lo, numa altura em que a ocasião o merecesse. De outra forma, à minha frente não o faziam, como é evidente. Ele sabia quando podia fazê-lo. Depois há uma coisa: o espaço e o local deles é muito sagrado. Eu não entro no balneário dos jogadores. Só quando tenho uma reunião e quero falar com o plantel na íntegra. De outra forma não vê o treinador Pedro Martins a entrar em nenhuma circunstância no balneário. Eu respeito o espaço, a privacidade.

Como caracteriza as duas épocas à frente do Rio Ave?
Falam por si. O Rio Ave entra na fase de grupos da Liga Europa, nunca o tinha feito. Até hoje é um marco na história. Vamos às meias finais da Taça de Portugal, somos eliminados pelo Braga. Perdemos uma final com o Benfica, em penáltis; tínhamos jogado na quinta-feira Liga Europa e jogámos logo a seguir no domingo e fomos aos penaltis com o Benfica. Até à penúltima jornada estávamos a lutar pela Europa, perdemos essa possibilidade na Madeira. No ano seguinte, fomos às meias-finais da Taça de Portugal, atingimos a Liga Europa. Acho que foram dois anos absolutamente fantásticos. No primeiro ano, o Rio Ave vendeu sete jogadores e no ano seguinte consegue um nova qualificação para a Liga Europa.

Antes de acabar a época já sabia que ia para Guimarães. Foi contactado pelo Vitória a meio da segunda época no Rio Ave, certo?
Sim. Eu não tinha só o Vitória - tinha mais clubes interessados. Tinha um na Grécia e outro na Turquia. E o António Silva Campos já sabia da minha parte que não tinha intenções de continuar no Rio Ave.

Porquê? Porque tinha esses contactos ou por outros motivos?
Primeiro que tudo, eu queria um projeto que me obrigasse a ser mais ambicioso... Não quer dizer que o Rio Ave não seja, e eu sei que as pessoas de Vila do Conde não me gostam de ouvir quando digo isto, mas o um clube como o Rio Ave, que é altamente profissional e organizado, não tem a cidade a acompanhar. Não tem as pessoas para lhe dar o transfer para outra realidade. Para mim começou a ser curto. É esta a crítica que faço. É porque de facto as pessoas não acompanharam o crescimento do clube. E, para mim, era importante porque esse é um sinal de excelência, de maior exigência e eu precisava disso. Portanto a minha decisão acima de tudo era pensar que o Rio Ave já não me podia dar aquilo que queria na minha carreira.

Pedro Martins com a mulher e filhos

Pedro Martins com a mulher e filhos

D.R.

E surge o contacto do Vitória. Era o passo que queria?
Era, porque é um clube onde fui jogador e tem uma dimensão social à Vitória.

Nesses dois anos de Vitória o que destaca?
Eu acho que voltei a unir os vitorianos. Os vitorianos voltaram a sentir-se donos do clube. Eu senti que nós não fazíamos serventia a ninguém. Há muita coisa boa que foi feita. E orgulho-me pelo meu reinado como treinador. Mais de 30 milhões entraram nos cofres do Vitória, em Europas, em jogadores vendidos. Do primeiro ano para o segundo perdemos oito jogadores, muitos deles foram vendidos por valores recordes. Os casos do Soares e Raphinha. Ainda hoje sinto orgulho quando ouço o hino, de que fui impulsionador, tenho orgulho durante aqueles dois anos, praticamente andou com casas acima dos 20.000 adeptos, independentemente do jogo, se era importante ou não, tínhamos sempre grandes casas. Aconteceu isso no meu tempo.

Mas é no Vitória que sofre a primeira chicotada.
Faz parte.

A primeira chicotada dói muito?
Como é evidente. O que me custa mais foi não ter tomado uma decisão antes. Estava agarrado a um contrato, mas devia ter tomado uma decisão antes. Porque a minha relação com o Júlio Mendes nunca existiu praticamente durante o ano todo, portanto era uma questão de tempo. Eu devia ter antecipado.

A sua intuição não funcionou dessa vez.
Funcionou. Eu tinha era um problema para resolver, que era um milhão de euros que tinha de pagar de compensação. Mas a partir do momento em que dei a primeira entrevista no final de agosto, a minha intuição bateu certinho. Sabíamos que íamos ter problemas. Mas faz parte.

Pedro Martins com os filhos

Pedro Martins com os filhos

D.R.

Como aparece o Olympiacos da Grécia?
O Olympiacos já tinha feito convite antes. Tentou em janeiro desse ano, falou com o presidente e o Armando Marques, não chegaram a acordo, tão simples como isto. Depois voltou outra vez.

Era algo que ambicionava, ser treinador fora de Portugal?
Sim, porque eu precisava de novo desafios.

Sentia-se preparado para sair?
Eu sinto-me preparado para qualquer desafio em Portugal e no estrangeiro e precisava disso.

Como foi a adaptação? O que custou mais?
Nada. Primeiro, o clube teve muitos treinadores portugueses e muito da organização penso que tem o dedo dos portugueses.

Em que se notava esse dedo português?
No dia a dia, na organização, por exemplo, o plano semanal era um plano típico dos portugueses, e a forma como o staff falava. Desde o chegar até o acabar do treino, aquilo notava-se que era de portugueses. Estar uma hora antes, o treino, que tipo de treino, a prevenção. E depois eles diziam, o Vítor [Pereira] fez isto, o Marco [Silva] fez aquilo, o Leonardo [Jardim] fazia assado, nota-se esses pormenores constantemente. Até os próprios aparelhos de ginásio, nota-se que estiveram ali portugueses, porque vai a outro lado e não existiam. Mais ninguém ali dominava o treino daquela há forma há dois ou três anos, tinha que ser o treinador português.

A língua é difícil?
É (risos). Tenho muita dificuldade. Tenho tradutor mas não preciso diariamente, só para as conferências. O inglês é suficiente para me expressar no dia a dia, só tenho alguma dificuldade quando eles não percebem inglês.

O facto de ir para um país estrangeiro levou-o a fazer exigências que não tinha feito até então?
Uma das exigências que fiz a mim próprio - e que não cumpri até hoje, porque ainda não tive tempo, porque é muito absorvente -, era aprender o grego. Quando fui para lá, já sabia ler o grego. Sabia o alfabeto todo e ia na rua e lia perfeitamente. Não percebia. tive quatro, cinco aulas ainda em Portugal. Já percebo muita coisa deles.

E exigências ao clube?
A minha equipa técnica anda sempre comigo, desde a Madeira, e portanto é uma exigência.O presidente Marinakis desde o primeiro dia em que cheguei que me disse vê o que tens a fazer, limpa como tens de limpar, faz o que tu quiseres, eu dou-te suporte. O ano passado, 21 jogadores foram embora e vieram 20 jogadores. Foi uma equipa completamente nova, jovem, o Olympiacos já não gastava as fortunas que gastava antigamente. Esta equipa que temos é uma equipa jovem, hoje está muito mais experiente passados 18 meses.

Prefere trabalhar com jogadores mais jovens?
Eu gosto de trabalhar com jogadores inteligentes e com jogadores que percebem o jogo. Não tenho problemas em trabalhar com jovens ou com menos jovens, a idade não me vai dizer nada. Tenho um jogador, o Guilherme, que é muito inteligente e já não é propriamente novo, tem 28 anos, e não é por aí. O capitão neste momento tem 35 anos e saiu do Olympiacos, foi para o estrangeiro e provavelmente diziam que tinha vindo para o Olympiacos para acabar a carreira e hoje está a jogar. Gosto de equipas com intensidade e normalmente a intensidade está mais inerente ao mais jovem, ao mais novo. Mas tem de haver um equilíbrio.

Nesta época e meia que já leva de Olympiacos o que está a ser mais difícil de gerir e de lidar?
As expetativas. Na Grécia é tudo paixão, num momento está tudo bem, tudo excelente e no jogo a seguir as coisas estão todas mal. É o triplo do que se passa em Portugal. Aqui já nos queixamos, na Grécia temos de potenciar isso três vezes mais.

Teve algum problema com algum adepto ou algo do género?
Nunca. Sou muito bem tratado. Se você fosse na rua comigo ia perceber a forma como sou respeitado, considerado e acarinhado. Mesmo muito.

Pedro Martins na final da Taça de Portugal que perdeu pelo V.Guimarães contra o Benfica por 2-1, em 2017

Pedro Martins na final da Taça de Portugal que perdeu pelo V.Guimarães contra o Benfica por 2-1, em 2017

MANUEL DE ALMEIDA

Tenciona continuar na Grécia ou gostava de ter outro projeto na próxima época?
Neste momento é este o meu projeto. Fico onde me sinto bem. Eu estive cinco anos na Madeira e no último ano não continuei porque achava que estava na hora, já não estava lá, já não queria, já não era a mesma coisa, o desgaste com os jogadores, o staff e o presidente já se fazia sentir. E não tem nada a ver com o presidente, estou muito agradecido ao Carlos Pereira, como treinador ele foi um pai para mim, não me esqueço aquilo que ele fez. Mas eu estava cansado, nós também temos este desgaste. Às vezes, faz-me confusão é como alguns treinadores estão há 10, 15 anos. Eu não podia dar nada já ao Marítimo.

Acha que há um prazo, um limite?
Quando tu não podes, ou já não estás a dar coisas boas e positivas a um clube, está na hora de sair. Eu já não podia dar mais ao Marítimo e se calhar o Marítimo também não podia dar-me a mim.

Ainda tem para dar à Grécia e vice-versa?
Na Grécia ainda vamos ter grandes momentos, tenho a certeza disso.

Mas tem o PAOK do Abel Ferreira, em boa gíria, a morder-lhe os calcanhares...
É o futebol.

Há rivalidade entre os treinadores portugueses quando estão lá fora, no mesmo país?
Não, da minha parte não há. Mas ele também está a 500km de mim.

Não costumam falar, trocar ideias?
Não. Mas não por nada, também não o faço em Portugal, não só lá.

Notou muita diferença na qualidade do futebol de Portugal para a Grécia?
Eles são competitivos.

Mas a qualidade não é tão boa.
Mas são jogos muito competitivos. Há uma coisa que devo realçar que é a qualidade dos relvados que maioritariamente é fraca. Os estados, a grande maioria, carne de maior qualidade. A maior parte dos clubes não tem grandes infra-estruturas para o futebol profissional.

Tendo em conta os problemas do Rúben Semedo no passado, teve alguma conversa especial com ele?
Sim. Fica entre mim e ele. E com alguma frequência temos várias conversas. O Rúben para ter a noção o compromisso dele é tão grande, tão grande tão grande, que ele neste menos tem menos 8kg do que quando chegou ao Olympiacos. Ele é hoje um homem, um jogador com um compromisso muito grande.

A primeira experiência fora de Pedro Martins como treinador é no Olympiacos da Grécia

A primeira experiência fora de Pedro Martins como treinador é no Olympiacos da Grécia

GettyImages

Disse recentemente que o campeonato português comparado com o de há cinco anos está pior. Porquê?
Estamos sempre a vender os melhores vamos perdendo qualidade. Não há hipótese. Não aparecem João Félix todos os anos para ir renovando, acontece uma vez de 10 em 10 anos. Perdemos tanto jogadores... Basta ver as nossas participações na Europa para perceber o nível dos nosso clubes. Perdemos qualidade.

Quando diz "se não percebermos que o negócio não pode ser gerido de forma clubística, corremos o risco de passar a disputar uma espécie de II divisão da Europa", o que quer dizer em concreto?
Nós vamos correr esse risco, nós vamos participar na II liga da Europa, não tenha dúvidas. Esse é o passo que vai acontecer daqui a 10 anos nós vamos estar a falar de uma grande liga europeia e as equipas portuguesas vão estar a jogar na 2ª liga.

Acho que isso acontece só por causa da venda dos melhores jogadores ou há outros factores?
Quando falei que não podemos ver isso com olhos clubísticos é exatamente isso. O Benfica não pode jogar com o Nacional e ganhar 10-0 ou 8-0. Não tem aqui competição. O Benfica, o FCP ou o Sporting não podem ter orçamentos de 80 milhões e os outros terem de 4/5 milhões e viverem grandes problemas financeiros.

Como é que se dá a volta a isso?
O que toda a gente já devia saber. Dividam os direitos de TV, façam um pacote global dos direitos financeiros televisivos e distribuam com maior equidade, reforcem estas equipas para dar-lhes grandes competições, independentemente de quem é o campeão ou não. Com mais competitividade o negócio é apetecível para as televisões, se conseguirmos reter os nosso melhores ativos dois anos, três anos e não só seis meses, há maior qualidade, maior competitividade, que são os fatores importantes. Agora não queiram vender e depois vir dizer "nós vendemos mas vamos lutar para..." Mentira, é mentira. O presidente do Vitória quando vendeu os sete ou oito jogadores não pode dizer que o nosso objetivo é o mesmo. Não é. Não é. E ele sabia que não era. Ou assumimos isto ou não assumimos. Se os clubes grandes não perceberem isto vão perder competitividade na Europa, porque não têm competição cá dentro. E os clubes pequenos vão-se contentando com pouco, muitos deles são subservientes aos grandes o que é um erro. Agora, então com as Sociedades Anónimas há aqui interesses bem mais evidentes, que é um problema.

Na Grécia é muito diferente?
Pior. Claramente. O campeonato é mais competitivo, mas está atrasado muitos anos relativamente a Portugal. Para já, não tem a qualidade do jogador português. Está muito atrasado a todos os níveis.

Está sozinho na Grécia ou com a família?
A minha esposa está comigo, os meus filhos não. Eles já têm 26 e 22 anos.

O seu filho chegou a jogar futebol.
Sim. Mas neste momento tem um ginásio e está a trabalhar lá. Tirou a licenciatura de Desporto, não está a exercer, não é fácil dar aulas, e tem um ginásio. A minha filha está na faculdade de veterinária, a tirar aquilo que mais gosta. Mas eles ainda estão por casa.

MIGUEL A. LOPES/LUSA

É verdade que recusou recentemente uma proposta da Arábia Saudita onde iria ganhar 4 milhões/ano?
É verdade. Não vou falar em números, mas é verdade que recusei a proposta.

Porquê?
Já recusei ir para Arábia várias vezes. Porque ainda não está na altura. Estou muito focado noutras coisas.

Em quê?
No campeonato e num título na Grécia.

E depois disso, qual a sua maior ambição enquanto treinador?
Depois disso? Vou para Inglaterra. É o campeonato da paixão, é o grande campeonato. Tem tantas grandes equipas.

Já houve algum costume grego que tivesse adoptado para si?
O que me chateia é o trânsito. É eu estar nos semáforos e por exemplo querer cortar à esquerda, que até posso ser o primeiro, mas vem o de trás, não quer estar à espera e mete-se a frente dos semáforos. Isso irrita-me profundamente (risos). É constante, há sempre fila e está sempre alguém, um, dois, três, quatro a meter-se à frente. É uma grande falta de respeito. Eles não respeitam as autoridades por isso, porque falar ao telemóvel, não há problema, este tipo de situação, não há problema, vermelhos, stop, seja o que for não há problema.

Qual foi o melhor jogador que lhe passou pelas mãos até agora?
Na Grécia, o Fortounis. Em Portugal houve gente muito importante...Não sei. Não é fácil.

Pergunto de outra forma. Qual foi o jogador que mais o surpreendeu mais pela positiva, do qual não estava à espera tanta qualidade?
Sami.

E já apanhou grandes desilusões com jogadores que julgava serem fantásticos e afinal...
Muitas. Rincon, vitoriano. Eu pensei que ele ia ser o futuro Marega.

Qual foi a situação mais difícil com que teve de lidar enquanto treinador?
Tive alguns problemas. O Marega criou-me alguns problemas. Houve um jogo em que ele é expulso, insulta os adeptos, vai-se embora, não espera pelo final do jogo e de um momento para o outro está toda a gente a pedir a cabeça dele e eu tenho de assumir um papel de liderança. Para 99% das pessoas, se eu fosse por eles, eu teria criado problemas ao Marega por aquele infeliz comportamento. Mas é um grande profissional, é top. Uma excelente pessoa que teve um momento infeliz. Mas eu também acho que é aqui que se faz a diferença porque eu não fui pelos 99%, eu fui pela minha cabeça e achava que ele podia ser muito importante como jogador para o Vitória e foi isso que aconteceu. Esta foi uma das situações delicadas, tive outras.

Conte lá outra.
Tive com o Kléber no Marítimo. Tive alguns problemas de início os jogadores do Marítimo não me levavam a sério numa primeira fase, porque sendo um treinador da equipa B, pensavam que eu era interino. O meu segundo jogo foi com o V. Setúbal e o Kléber portou-se mal. Aos 20 minutos está a pedir para ser substituído, eu substitui-o e ele saiu como se nada fosse. E no final do jogo, os adeptos não gostaram, eu não gostei do comportamento do Kléber e a partir do momento em que ele fez aquilo publicamente, da forma como o fez, eu também tinha de tornar pública aquela situação porque também tinha de proteger o treinador, e foi uma situação que não foi fácil. Acabou o jogo, conferência de imprensa, e eu fui muito, muito agressivo com o Kleber e ainda bem que o fiz, porque a partir de então começámos a ter o jogador que até à altura não tínhamos; não tinha nada. Mas foi difícil. Foi uma decisão que tive de tomar e inclusivamente disse, nesse mesmo dia, ao presidente o seguinte: "Se você quiser que eu continue vai ter dizer a toda a gente que eu vou continuar no clube, sob pena de amanhã até me poder mandar embora, mas vem ao balneário e vai dizer que isso de ser interino ou deixar de ser, ou de omissão, acabou. Ou você faz isso e depois faz o que bem entender no próximo jogo, daqui a dez dias, seja o que for, mas agora vai ter de tomar esta postura, porque senão não há hipótese nenhuma para segurar o meu balneário". E foi exatamente que o Carlos Pereira fez no dia a seguir.

Pedro Martins continua no Olympiacos e está na liderança do campeonato grego

Pedro Martins continua no Olympiacos e está na liderança do campeonato grego

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Qual foi o pior castigo que infligiu a um jogador?
Castigo? De vez em quando são multados.

Quando chegam atrasados ao treino?
Isso já é normal. Agora, quando o mesmo jogador chega repetidamente atrasado, há uma altura em que o cesto dele já está no meu balneário e ele tem de bater à porta para apanhar o cesto e a partir dali fica outra vez controlado. é só para alertá-lo. As multas que acontecem, como aconteceu no Marítimo e aconteceu aqui no Olympiacos, porque eles estão discutir entre eles e passou para outra fase em que tenho que intervir. E vem a multa para nós jantarmos. Aconteceu com o Marítimo. Posso contar a história.

Força.
Dois jogadores. Acabou a primeira parte do jogo, eles estavam a discutir: "Porque é que não me deste a bola, eu tinha hipótese de fazer golo, devias ter-me dado a bola"; "tu és isto, tu és aquilo". Cheguei lá: "Calou, ninguém abre a boca". E eles continuaram. Mais 30 segundos, dei outro berro e acabou. Segunda parte, tudo calmo. No dia seguinte, disse-lhes: "Meus meninos amanhã vamos jantar, esta vai ser a ementa no nosso restaurante normal e vocês vão pagar o jantar". Aí já nem abrem a boca (risos). Depois estão a correr e andam com aquela cara de azia (risos). Mas depois passa.

É um homem de fé?
Sou. Não quer dizer que vá à igreja com frequência, mas sou um homem de fé. Quando chego a Portugal vou ao cemitério visitar o meu pai, avós e irmão. Tenho essa comunicação, ligação.

Tem algum hóbi, alguma coisa que goste muito de fazer extra futebol?
Não. De vez em quando jogo padel com o meu filho. Gosto de uma peladinha com amigos. Mas só isso.

Há algum outro desporto que goste de seguir?
Quando os jogos da NBA estão "quentinhos", nas fases finais, gosto de ver.

Na Grécia continua a seguir o campeonato português?
Tudo, a minha televisão é portuguesa.

Gostava de volta a treinar em Portugal?
Agora, não. Nesta fase não. Inglaterra é um grande passo.

E se fosse um dos grandes portugueses a chamá-lo?
Não me parece.

Acha impossível um dos grandes convidá-lo?
Não, não. Acho perfeitamente possível, cada vez mais possível.

Em que é que o facto de ter ido para fora o enriqueceu enquanto treinador?
Enriqueceu a todos os níveis. Uma equipa líder, o perceber e comunicar numa equipa top, a exigência, embora no Vitória ela também seja muito grande. Não posso avaliar que no Vitória é inferior a do Olympiacos, não me parece. Mas tem sido um grande desafio e crescimento, pelo facto de sair da minha zona de conforto, mesmo pessoalmente e para o meu grupo de trabalho, um ou outro não sabia falar inglês e fui obrigado a comunicar com eles.

Acha que já é melhor treinador do que foi jogador?
Eu sinto isso, claramente. Muito melhor.

Se não fosse jogador de futebol que teria sido?
Treinador (risos). Não me vejo de outra forma. Nunca vi nada mais do que isto. Sinto-me preparado, se amanhã tiver de abraçar um projeto como dirigente desportivo sinto-me completamente preparado ser na parte financeira quer a nível desportivo.

Gostava de um dia passar para esse lado?
Neste momento não me vejo nessa situação. Mas, daqui a 15 anos, sei lá. Estou preparado para isso, claramente.

Qual foi a maior amizade que fez no futebol?
Ai, eu tenho tantos amigos. Tantos e bons. Não é fácil eleger um. Tenho amigos na Nazaré, tenho amigos do coração em Guimarães, em Lisboa, sei lá...

Qual é o seu pior defeito e a melhor qualidade?
O maior defeito a teimosia. A maior qualidade, sou persistente, perseverante.

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    A casa às costas

    Pedro Martins mantém as raízes em Santa Maria da Feira, onde ainda tem o primeiro negócio que abriu com a namorada, há 31 anos. Casou com ela e teve dois filhos, depois de ter feito toda a formação de jogador no clube do coração, o Feirense. Nesta extensa entrevista (cuja segunda parte será publicada no domingo), o treinador do Olympiacos relata vários episódios marcantes da sua vida pessoal e profissional, conta histórias que tanto falam de copos, mulheres e escapadelas de estágios, agressões e tentativas de "linchamento", desastres em rotundas do Algarve, como de malas metálicas com taças de champanhe ou de apostas de elevador