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A casa às costas

“Dizíamos aos atrevidos que o Bobó tinha uma irmã gira. Eles lá iam, ele ameaçava bater e aquilo assustava, porque era grande, forte e feio”

Homem do norte, bairrista e boavisteiro, Pedro Barny começa por descrever a falta de condições que encontrou na formação do Boavista, mas como tudo isso era ultrapassado com a carolice de treinadores que eram como uns segundos pais; conta como o major Valentim Loureiro era hábil nas negociações e como foi dificil trocar o Porto por Lisboa, quando vai para o E. da Amadora. Fala das partidas que fez e que sofreu, da época passada no Sporting, dos três anos no Belenenses e de como demorou a perceber que a carreira como futebolista tinha terminado. Amanhã, na parte II da entrevista, revela como tem sido a vida de treinador

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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Nasceu no Porto.
Sim, mais concretamente em Massarelos.

Os seus pais o que faziam quando nasceu?
O meu pai foi praticamente toda a vida caixeiro viajante, depois passou a técnico de vendas. A minha mãe foi cabeleireira desde os 14 até aos 68 anos, sempre no mesmo salão. Tenho uma irmã mais nova oito anos e tenho um irmão mais velho dois anos. O meu irmão é engenheiro, trabalha numa empresa em Vila do Conde, a minha irmã trabalha numa empresa ligada à saúde do trabalho.

Tinha alguém na família ligado ao futebol?
Tinha, o meu avô paterno, chamava-se Chaves, que jogou na equipa principal do Boavista, mas nunca tive um grande contacto com ele, porque a minha avó nunca viveu com ele e só mais tarde é que o conheci, quando eu e o meu irmão estávamos a jogar no Boavista, na formação. Ele falou com o meu pai, soube que nós lá estávamos e quis ir ver. Viu-o quando foi ver-nos jogar, mas pouco tempo depois acabou por falecer.

O Pedro era uma criança calma?
O meu irmão era mais tranquilo, eu gostava de andar na rua, não gostava de estar fechado em casa; ainda hoje, só quando estou no estrangeiro é que estou mais por casa, mas normalmente gosto de conviver, gosto de sair.

E da escola, gostava?
Gostava, era bom aluno, sempre cumpri com os meus deveres até ao 9.º ano, sempre fui dos melhores alunos da turma. Depois, o interesse pelo futebol começou a aumentar, comecei a misturar um bocadinho as coisas e o rendimento escolar foi decaindo; mas fui sempre fazendo as coisas, até que chegou uma altura em que tive de decidir: o Boavista propôs-me um contrato profissional e eu achei que estava na altura de optar por uma coisa ou por outra.

Torcia por que clube?
Boavista. Toda a minha família era boavisteira. Eu nasci num bairro que era encostado à maternidade Júlio Dinis, perto do Palácio de Cristal. e nesse bairro havia uma percentagem muito grande de boavisteiros, muito mais até do que adeptos do que do FC Porto. Fui influenciado quer pela minha família, quer por todo o ambiente que havia ali em redor.

Pedro Barny em criança

Pedro Barny em criança

D.R.

Quando é que vai para o Boavista?
Eu comecei por outro desporto. Na escola preparatória tinha um amigo que jogava voleibol e que na altura me levou ao Futebol Clube do Porto para jogar vólei. Era um desporto que eu gostava, aliás, gostava de praticar todos os desportos. Nas férias, tinha um grupo de amigos com quem fiz um clube. Eu era o mais novo - fui sempre o mais novo porque eu frequentava o grupo de amigos do irmão- e constituímos um clube com estatutos, com equipamentos, fizemos uma série de coisas, tínhamos sócios e praticávamos os desportos todos, desde os mais estáticos, como as damas e o xadrez, até ao atletismo, ao futebol, ao basquetebol. Utilizávamos as instalações do CDUP, o centro desportivo universitário do Porto, que era perto das nossas casas e que tinha uma quota baixíssima por ano e que nós podíamos pagar.

Como se chamava esse clube que criaram?
Estrelas Desportivas. O meu irmão ultimamente conseguiu fazer uma página no Facebook com a história do clube, que é a nossa história também. Para além do futebol que jogávamos na rua criámos com esse clube uma coisa mais organizada que nos permitia fazer outros desportos. Como estava a dizer, fui para o vólei do FCP e, entretanto, o meu irmão que também estava no FCP, mas no atletismo, mudou-se para o futebol do Boavista e eu fui atrás dele. Um dia, fui às captações e acabei por ficar no futebol e deixei o vólei. Tinha 13 anos.

Em que posição jogava?
Jogava como médio centro, médio defensivo. Depois, acabei por jogar mais atrás e fiz a carreira quase toda como defesa central. Mas há uma história muito engraçada ligada à minha mudança de posição.

Conte.
Um dia estava eu no segundo ano de juvenis, já perto do final da formação, no tempo em que só existia um ano de júnior, e fomos ao antigo estádio das Antas, ao campo de treinos,jogar contra o Futebol Clube do Porto. Antes do jogo faltava o defesa central, um rapaz que aliás tinha vindo do FCP. E nós esperámos, esperámos, mas ele não veio; o treinador não podia esperar mais e decidiu pôr-me a jogar como central. Ele não veio porque de manhã, ao tomar o pequeno almoço, abriu um armário e caiu-lhe um frasco de caramelos em cima que lhe abriu a cabeça e teve de ir para o hospital. O jogo correu-nos bem, empatámos, eu também fiz um bom jogo e quando ele regressou à equipa, o treinador decidiu trocar. Deixou-me a mim na posição dele, defesa central, e passou-o para médio defensivo. Desde aí nunca mais saí dessa posição. Foi nessa posição que acabei por ascender à primeira equipa.

Pedro Barny (à esquerda) com amigos, no bairro onde cresceu

Pedro Barny (à esquerda) com amigos, no bairro onde cresceu

D.R.

O que mais o marcou na formação?
Hoje fala-se muito na formação, na qualificação dos treinadores, mas a mim o que mais me marcou foi, por um lado, a falta de condições, que eram péssimas. O Boavista nem sequer tinha campo próprio, nem sequer tinha campo de treinos, havia semanas em que nem sequer tínhamos um treino no campo, treinávamos nas escadas superiores do Bessa, tínhamos um ringue de cimento atrás de uma das balizas onde treinávamos também, fazíamos corridas pela Avenida da Boavista até ao Castelo do Queijo, treinávamos poucas vezes num campo convencional. Às vezes. havia também um espaço atrás de uma das balizas que não tinha iluminação, mas servia para treinarmos. A formação no Boavista foi quase toda isso, por isso, acho que a minha formação foi o jogo. Os treinadores faziam o que podiam - no fundo, essa era a maior qualidade de quase todos eles. Eram pessoas que trabalhavam por amor à causa, tinham os seus defeitos, mas acabavam por ser excelentes com os jogadores, eram quase como um segundo pai. Muitos jogadores dessas gerações não tiveram condições para poderem eventualmente ser melhores quando chegavam a outros patamares, mas em termos de carácter e de princípios, de regras e de convivência, eram muito bons. Hoje em dia esquece-se um bocado esse lado, há todas as outras condições, mas está a descurar-se um pouco esse lado que eu acho que também é fundamental na formação dos jogadores.

Pedro Barny com o imão mais velho e a avó

Pedro Barny com o imão mais velho e a avó

D.R.

Entretanto é chamado à equipa principal pelo Mário Wilson.
Sim, tinha 18 anos. Mas nunca fui utilizado enquanto ele esteve no clube. Fui treinando com a equipa principal. Na altura, a subida ao futebol profissional era muito difícil. Lembro-me que no ano em que nós subimos à equipa principal, da equipa que eu integrava, subimos seis, mas depois na segunda época acabámos só por ficar dois, eu e o Caetano, que já treinava com a equipa principal até antes de nós todos subirmos. Foi a primeira vez no Boavista que subiram tantos jogadores da formação à equipa sénior, mas mesmo assim só dois é que se aproveitaram e era muito difícil naquela altura subir à primeira equipa.

Quando chegou ao balneário sénior notou uma grande diferença, estava mais à parte?
Ninguém me colocava à parte. Eu acho é que quem chegava é que se colocava um bocadinho de lado, porque havia muito respeito pelos jogadores mais velhos. Por exemplo, eu não me dirigia a alguns jogadores porque não sabia como é que os havia de tratar. Se havia de tratar pelo nome ou se devia tratar por senhor; então, na dúvida, acabava por não falar com eles, mas isso acontecia com muita gente. Aliás acho que até era prática dos clubes terem dois vestiários, um para aqueles que jogavam habitualmente e outro para os que chegavam à equipa principal. Acho que cheguei num tempo em que isso estava a começar a mudar. mas quem chegava sentia bastante esse peso dos jogadores mais velhos. Eu tive a sorte de ser bem integrado. Mesmo aqueles que com quem não tínhamos tanta confiança nunca dificultaram o acesso. Tive essa felicidade, por isso nunca me senti à margem, senti-me sempre integrado se bem que havia sempre alguma distância.

Quando era pequeno quem eram os seus ídolos?
Eu era fanático pelo Boavista, ouvia os relatos e ia ver os jogos todos aos Bessa, ia ver alguns jogos fora quando podia, mas havia uma jogador que nem era um jogador de campo que era o Vítor Damas, o guarda-redes do Sporting, que eu admirava pela postura, pela forma de estar; não tanto pela maneira como defendia ou não, mas pela sua maneira de estar no campo. Era uma figura que eu admirava. No Boavista admirava o João Alves, que depois veio a ser meu colega e meu treinador. Eu era miúdo e assisti à gloriosa fase do Boavista nos anos 70 em que o Boavista ficou duas vezes em segundo lugar e ganhou duas vezes a Taça de Portugal. Ainda no ano passado houve um convívio com ex-atletas do Boavista e eu tirei uma fotografia com dois dos meus ídolos: o Mário João, um defesa central que tinha vindo da Guiné, e o Artur, que depois jogou no Varzim e creio que no V. Setúbal também. Tirei uma foto com os dois, para relembrar esses momentos.

Pedro Barny (de amarelo) e os amigos com quem criou o clube "Estrelas Desportivas". O irmão de Pedro é o 1º em baixo à esquerda

Pedro Barny (de amarelo) e os amigos com quem criou o clube "Estrelas Desportivas". O irmão de Pedro é o 1º em baixo à esquerda

D.R.

Os primeiros namoros surgem quando?
Até isso mudou, porque eu frequentei sempre escolas de rapazes. Até à 4.ª classe havia uma sessão masculina e outra feminina. No ciclo preparatório também frequentei uma escola que tinha uma secção feminina e outra masculina, depois até ao 9.º ano fiquei numa escola, a Fontes Pereira de Melo, que era virada para a mecânica e a electrotecnia que só tinha rapazes. Só no 10.º ano, em que forçosamente tive de mudar de escola. porque tive de mudar de área, é que fui para a Carlos Brandão onde pela primeira vez convivi com raparigas na escola. E foi nessa fase, por volta dos 14, 15, 16 anos, é que a coisa começou a mudar e a olhar para o outro lado de uma forma mais assídua, no fundo (risos). Mas namoro a sério, sério foi já quando cheguei à equipa principal. Casei bastante tarde, aos 28 anos. Mais tarde divorciei-me, e voltei a estar noutra relação, já há bastantes anos, e com alguns filhos, que é o nosso maior valor.

Já lá vamos. Estava a contar que foi chamado à equipa principal. Lembra-se do seu jogo de estreia?
Lembro-me. Eu não me lembro da maior parte dos jogos que fiz mas alguns lembro-me e esse é um deles porque são jogos que nos marcam. O primeiro jogo que fiz oficial foi numa competição europeia contra o Bruges, na Bélgica, para a Taça UEFA.

Isso já foi com o João Alves a treinador?
Já, foi na época seguinte à do Mário Wilson. Na época 1985/86. Depois, estreei-me no campeonato com o Covilhã, no Bessa.

Tremeram-lhe as pernas?
Em Bruges não tive tempo para tremer porque soube que ia jogar quase em cima do jogo. Aliás, quem ia jogar não era eu, creio que era o Jaime Alves, eu até joguei fora de posição, joguei como lateral direito. Na altura, o Bruges tinha uma equipa fortíssima com internacionais franceses, belgas, etc. Nós tínhamos ganho 4-3 na primeira mão, em casa. Eu estava no balneário e não sei se foi por lesão do Jaime, se por opção táctica de última hora, vieram-me chamar e disseram-me: "Vai aquecer num instante porque vais jogar de início". E pronto. Entrei no campo quase sem tempo para aquecer, voltei para o balneário, entramos, por isso nem tive tempo para criar aquela ansiedade pré-jogo porque as coisas foram muito rápidas.

Tinha superstições?
Quero dizer... eu acho que nós todos no desporto e mesmo na nossa vida pessoal, todos temos rituais que fazemos que não sei se é superstição, se é ritual, se é para nos sentirmos mais confortáveis, no fundo acaba por ir dar ao mesmo. Mas nunca tive um que mantivesse ao longo da carreira. Às vezes era um par de botas que gostava mais e que mantinha durante mais tempo, outras era a forma de me equipar. Começava, imaginemos, por vestir primeiro os calções e só depois a camisola, mas nunca foram coisas muito consistentes. Dependia. Imaginemos que havia um jogo em que as coisas me corriam bem, que eu fazia qualquer coisa que achava que devia manter, mantinha, mas rapidamente a coisa mudava para outro registo.

Turma do 11º ano de Pedro Barny (o 6º a partir da esquerda), ao lado de Paulo Jorge Pereira, atual selecionador de andebol.

Turma do 11º ano de Pedro Barny (o 6º a partir da esquerda), ao lado de Paulo Jorge Pereira, atual selecionador de andebol.

D.R.

E brincadeiras, praxes, partidas que faziam uns aos outros, recorda-se de algumas?
Tínhamos muitas. Acho que tive a sorte de em quase 90% dos grupos por onde passei termos tido ambientes excecionais e com muita ligação entre nós. Começou no Boavista em que tínhamos umas entrevistas que fazíamos a quem chegava (risos).

Explique lá isso.
Uma das praxes que fazíamos era no estágio de pré-época. Ligávamos para o quarto de um, dois ou três, àqueles que achávamos que poderia ser mais engraçado, e dizíamos que éramos jornalistas do Expresso ou de A Bola ou do Record, e que gostávamos de fazer uma entrevista. Na altura tinha que ser por telefone, não havia telemóveis. Então, combinávamos uma hora para falar e perguntávamos sobre tudo. Sobre a vida pessoal, mas com perguntas mais incómodas (risos). Houve alguns a quem fazíamos a entrevista durante vários dias. Perguntávamos desde o champô que usavam, até às namoradas e às vezes eram perguntas mais ousadas...

Lembra-se de alguma por exemplo?
Por exemplo, houve um jogador brasileiro a quem perguntámos qual era a mulher preferida dele e ele disse o nome de uma modelo da época. No outro dia, no treino, porque havia sempre o colega do quarto que ouvia as respostas e vinha contar, nós já sabíamos mas fazíamos aquele "teatro" montado à volta. "Então ele ontem disse ao jornalista que a musa da vida dele é a fulana tal? A tua namorada quando ler a entrevista vai achar que ....", Enchíamos a cabeça de tal forma que ele no dia seguinte pedia para trocar: "Não ponha esse nome, ponha o da minha namorada" (risos). A do champô também foi muito engraçada: perguntámos qual era o champô preferido dele e ele disse que era o Dove, mas no dia seguinte os colegas começaram a dizer que dizer aquilo numa entrevista daquelas não tinha nada a ver e então ele mudou para Kerastase (risos). Houve muitos episódios desses, coisas muito engraçadas com vários jogadores. No Estrela da Amadora fazíamos outra, com o comando da televisão.

Conte.
Normalmente era o Nelo que fazia nos estágios de pré-época. Ele entrava no quarto dos jogadores, que estavam aos pares, metia-se dentro de um armário ou debaixo da cama e ficava com um comando da televisão extra. Como não havia telemóveis nem internet na altura, a televisão era o entretém. Havia sempre dois jogadores por quarto. E o Nelo ia mudando os canais ou alterando o volume. Eles estavam os dois deitados na cama a ver televisão e começavam a olhar um para o outro a tentar perceber o que tinha acontecido. E houve situações muito engraçadas de discussões entre eles, havia um que dizia: "eu não mexi no comando, vou pousar aqui no meio e vais ver que não estou a mexer em nada". Depois o canal mudava ou aumentava o som e eles ficavam doidos. O Nelo até teve um episódio no Benfica, eu não estava, ele é que contou. Ele fez a mesma brincadeira e o Caniggia ficou tão nervoso com o que estava a acontecer que atirou o comando à televisão (risos). Nós fazíamos muitas brincadeiras e praxes... Lembrei-me de outra

Força.
Fizemos uma brincadeira no Boavista, que era mais atrevida, com uma suposta irmã do Bobó. Um ou dois de nós tentávamos convencer algum jogador que ele tinha uma irmã muito engraçada e que tinha de ir junto do Bobó dizer que gostava de conhecer a irmã. O Bobó reagia de uma forma irada, a querer bater-lhe e eles ficavam muito assustados porque o Bobó era grande, forte e feio (risos). Eles vinham ter com outros de nós que estavam por dentro de tudo, a dizer que não percebiam o porquê daquela reação dele e nós ainda acrescentávamos mais lenha, dizíamos: "Mas tu és maluco, a irmã dele tem um problema de saúde grave, anda numa carreira de rodas" (risos). E eles muito assustados: "Opá, não sabia, eles é que estavam a dizer que ele tem uma irmã bonita, se calhar essa é outra" (risos). E o Bobó alinhava nisto e fazia aquilo na perfeição. Durante uns dias o Bobó olhava para eles e eles não sabiam onde é que haviam de se meter (risos). Normalmente fazíamos aos que chegavam ao plantel e estavam a querer adaptar-se rapidamente, que eram mais atrevidos.

Equipa júnior do Boavista em 1983/84. Pedro Barny é o 2º atrás à direita

Equipa júnior do Boavista em 1983/84. Pedro Barny é o 2º atrás à direita

D.R.

E a si, que lhe partidas é que fizeram?
Lembro-me de uma que foi um grande amigo meu, o Ricardo, que esteve comigo no Boavista, que fez com o comando do carro. Mas praxe, praxe, acho que estive sempre do outro lado (risos) e raramente estive do lado contrário.

Mas que brincadeira com o comando do carro é essa que o Ricardo lhe fez?
Nós convivemos muito e um dia um amigo nosso entregou-lhe uma segunda chave do meu carro. Eu tinha mandado o carro para a oficina porque tinha um problema com o comando de abertura das portas. O carro entretanto veio e esse nosso amigo da oficina entregou a chave ao Ricardo; quando saímos do treino, eu tinha a chave do carro, só que ele tinha uma que eu não sabia que ele tinha. Quando chegámos junto do carro, eu abria o carro e ele fechava-o com o comando, dentro do bolso, sem eu saber. Ele sabia que eu ficava um bocadinho irritado com aquele problema; aliás, por isso é que tinha ido para arranjar. Então, eu abria e ele fechava. Comecei a falar alto, incomodado, a começar a ferver, e ele sempre muito tranquilo com o comando no bolso. Deixou-me ligar para a oficina, deixou-me discutir com esse nosso amigo e só no fim é que disse que ele tinha um comando e que o carro estava bom (risos).

O João Alves era muito diferente do Mário Wilson como treinador?
Sim, o Mário Wilson era um treinador que tinha um estatuto grande, já tinha uma carreira por trás, tinha um perfil diferente. O João Alves tinha acabado a carreira de jogador no ano anterior, aliás, foi a meio da época anterior que ele passou de jogador a treinador, em 1984/85. Vinha com ideia novas. Mais, o João Alves tem uma capacidade grande de análise do jogo e de escolha de jogadores, tem um feeling bom. Rapidamente as coisas começaram a ser diferentes. Os resultados apareceram e as coisas correram bem.

Mas ao nível do treino, eram muito diferentes?
Sim. O Mário Wilson era baseado numa escola tradicional que na altura estava implementada.

Um treino mais físico e com menos bola?
Sim. O João Alves, como tinha jogado em Espanha e em França, tivera contacto com outro tipo de treinadores e de métodos de treino, e, entre aquilo tudo que foi adquirindo, foi construindo um perfil e um método que começou a utilizar. Houve alguma diferença em termos de treino. Ele tinha sido treinado pelo Eriksson que, na altura tinha, trazido algumas novidades em termos de treino. Por isso, ele fez um mix de várias coisas que acabou por se constituir no método dele.

E em termos de personalidade, tinham maneiras muito diferentes de se relacionarem com o plantel?
Sim, muito diferentes. O Mário Wilson era um treinador mais afastado dos jogadores, uma figura carismática que tinha o perfil do treinador da época, a quem os jogadores tinham muito respeito. Ele mantinha uma distância grande em relação aos jogadores, dava mais importância aos jogadores principais - os que não jogavam tão habitualmente não se sentiam tão próximos do treinador porque estavam até mais afastados da área de observação dele. O João Alves não, dava mais atenção aos jovens, aliás rapidamente começou a apostar em jovens que vieram de outros clubes e em mim por exemplo, no Caetano e noutros. Ele apostou em vários jogadores da formação e marcou essa diferença. Que acabou por ser decisiva para mim e para outros.

Os novos jogadores do Boavista para a época 1984/85. Pedro Barny é o 5º a partir da direita

Os novos jogadores do Boavista para a época 1984/85. Pedro Barny é o 5º a partir da direita

D.R.

Depois do João Alves ainda apanha o José Torres.
Sim, o João Alves sai, vem o José Torres, que apesar de mais próximo dos jogadores era dentro da mesma escola do Mário Wilson. Até sair para o Estrela da Amadora ainda tenho o Pepe, um brasileiro, com uma escola e métodos bastante diferentes. Treinávamos às vezes na praia (risos), que era habitual na escola brasileira.

Como se dá a passagem para o Estrela da Amadora? Tinha empresário?
Nunca tive. Nessa altura acho até que não havia de todo, depois apareceu o Manuel Barbosa, que era quase o único e depois é que começaram a aparecer os outros. Mas eu como tinha chegado até determinado ponto da carreira sem empresário... . Depois a figura do empresário, quando apareceu, não se sabia bem até que ponto é que ia, o que é que fazia, como é que trabalhava e acabei por nunca ter.

E o Estrela?
Essa história também é engraçada porque eu tinha contrato com o Boavista ainda. Com o Pepe tinha feito dois terços da época a jogar e depois na parte final deixei de jogar.

Porquê?
Ele optou por outros. Na altura vieram jogadores brasileiros também, o plantel era extenso e a época não correu assim muito bem no geral. Ele foi tentando alterar, optar por outros jogadores para ver se melhorava ou não. Ele acaba por sair na época seguinte. Mas no final dessa época, eu estava algo insatisfeito porque tinha um contrato de formação que era baixo em termos salariais.

Quando assina o primeiro contrato?
O meu primeiro contrato assinado quando subo a senior. Eram 18 contos (90€).

O que fez a esse dinheiro?
Tive de juntar durante três meses para comprar um casaco de couro (risos).

Ainda vivia em casa dos pais?
Sim, até casar, até aos 28 anos, vivi em casa dos meus pais.

Estava a dizer que tinha um salário baixo...
Sim, tenho uma história engraçada. Ainda antes da minha estreia como profissional contra o Bruges, nós vamos a um torneio em La Linea, em frente ao rochedo de Gibraltar, e o Cádiz e o Barcelona estavam nesse torneio. Foi a primeira vez que começo a jogar pela equipa principal, foi um jogo amigável de pré-época. Então, joguei contra o Cadiz, fiz um bom jogo, as pessoas não me conheciam. No final do jogo os jornalistas vieram procurar-me, para saber quem era a nova estrela da formação. Estávamos a falar fora do balneário e passa o Major Valentim Loureiro, cumprimenta-me, dá-me os parabéns e pergunta-me: "Quanto é que ganhas, rapaz?". E eu, ao ouvido dele, timidamente, disse 18 contos, e ele disse alto e bom som: "Vais ganhar o triplo". Os meus amigos, as pessoas que não sabiam quanto eu ganhava, quando saiu na rubrica Cautchu do jornal "A Bola" que eu tinha renovado o contrato pelo triplo do valor que auferia, toda a gente pensava que eu tinha um contrato milionário (risos). Não imaginavam que eu ganhava tão pouco.

Passou a ganhar o triplo ou não?
Sim, passei a ganhar perto de 60 contos (300€) o que continuava a ser baixo na altura.

Pedro Barny no Boavista, em 1984

Pedro Barny no Boavista, em 1984

D.R.

O major Valentim Loureiro era uma figura. Tem mais alguma história com ele?
Tenho a que ia contar sobre o Estrela da Amadora. Como estava a dizer, estava algo insatisfeito e tinha convites de alguns clubes, a Académica, o Rio Ave e do Estrela, que tinha subido à I liga e contratado o João Alves. Eu fui falar com o major porque era ele que, na altura ,tratava de tudo e pedi-lhe para sair porque tinha uma proposta do Estrela muito melhor em termos financeiros e era uma hipótese de jogar. Ele disse: "Não, não, tu não podes sair, fazes parte da equipa e eu não te vou deixar sair". Eu fui forçando, mas o Boavista foi sempre intransigente. Até fui falar com o treinador, expliquei-lhe porque é que queria sair, ele disse: "Eu entendo a situação, também não quero que tu saias. Mas percebo que queiras melhorar o teu contrato e ganhar mais, por isso se o Major aceitar, da minha parte eu liberto-te". Voltei a falar com o Major.

E deixou-o sair?
Não, sempre intransigente. Começou a pré-época, começaram os treinos e depois há aquela fase em que vamos para estágio de início de época. Já estávamos todos dentro do autocarro para ir para estágio, se não me engano era para Espanha, e o autocarro que saía sempre a horas, não saía. Estava toda a gente à espera para saber o que se passava quando veio alguém chamar-me dentro do autocarro, para ir falar com o Major. Eu fui ao gabinete dele, ele apanhou-me de surpresa, eu era menino ainda, e perguntou-me: "Então tu queres ir para o Estrela?"; "Eu quero"; "Então vamos fazer assim, eu vou-te deixar ir mas tu vais renovar por mais dois anos (eu ainda tinha dois anos de contrato), porque além destes que tens eu quero que te vincules mais ao clube. Vou-te fazer uma proposta para esses dois anos e eu deixo-te ir para o Estrela e deixo-te fazer um contrato com eles". Na altura a minha vontade de sair era tanta que nem pensei bem. A ideia dele também foi essa, ele era muito hábil a negociar, apanhou-me de surpresa com aquela vontade toda de ir, negociou o contrato comigo por valores mais altos mas que no futuro acabariam por ser baixos. Só que, como era melhor do que aquilo que eu tinha... Acabei por assinar contrato e no fim de termos chegado a acordo ele diz-me assim: "Agora tens de fazer uma coisa, tens de dizer junto dos outros clubes que és tu que não queres ir" (risos).

Como assim?
O Boavista tinha um acordo de cedência de atletas para alguns clubes, entre eles o Rio Ave e a Académica. Reuni-me com as pessoas desses clubes, já com contrato assinado com o Estrela Amadora, e tinha de dizer que não queria ir. O Major pressionava-me nas reuniões com esses clube. Dizia: "Vai para lá que eles querem". E eu é que tive sempre de negar, e ele no fim dizia: "Epá o rapaz não quer ir, eu não posso fazer nada" (risos). O ónus caiu sempre em cima de mim (risos).

Então quer dizer que vai emprestado para o Estrela.
Sim, vou emprestado por uma época. Na altura, o Estrela pagou uma quantia ao Boavista pelo empréstimo e ofereceu-me a mim um salário melhor, E eu fui.

Pedro Barny (o 1º em baixo à esquerda) na sua primeira época como profissinal 1984/85

Pedro Barny (o 1º em baixo à esquerda) na sua primeira época como profissinal 1984/85

D.R.

Como é que foi sair de casa dos pais pela primeira vez, sair do Porto para Lisboa?
Foi difícil, porque na altura teria 21, 22 anos, sempre vivera em casa dos pais e havia aquela questão Porto-Lisboa, do norte e do sul, e eu era um tripeiro genuíno. Como até hoje. Sou bairrista, sou fã da minha terra, mas na altura era mais ainda. Ir viver para Lisboa era algo assustador, porque eu não gostava de Lisboa, só gostava do Porto cidade (risos). Cheguei a Lisboa em agosto, por altura do incêndio do Chiado. A cidade estava praticamente deserta, muitos estabelecimentos fechados. Fui para a Amadora, ainda pior, no início fui ver algumas casas e não gostei, acabei por ficar numa pensão no centro da Amadora. Depois, como não gostava de viver na pensão e o Ricardo (Lopes), que também estava emprestado pelo Boavista desde o início de época, já vivia numa casa perto do estádio da Reboleira, eu disse que ficava em casa dele até arranjarem uma de que eu gostasse. Fui ficando, até que em setembro há uma chuvada grande e a água entrou pela casa, escorria pelas paredes abaixo, estragou a televisão. No outro dia, disse que não ficava mais naquela casa. Arranjei uma casa na Parede, o Ricardo acabou por mudar-se também para a Parede - ele no R/C e eu no 1.º andar. Por isso, os primeiros tempos em Lisboa foram muito difíceis. Tinha o Ricardo como companhia, porque ele era também do Porto e as nossas famílias já se conheciam. Apoiámo-nos um ao outro.

Mas sempre que podiam fugiam para o Porto?
Sim, até dezembro desse ano sempre que tínhamos oportunidade íamos para o Porto imediatamente. No dia de folga não falhávamos uma. Perdemo-nos imensas vezes em Lisboa, uma vez queríamos ir à Feira Automóvel na FIL. Fomos a casa de um amigo perto das Amoreiras e eu disse: deve ser fácil, descemos até à marginal e depois ou para um lado ou para o outro devemos ir dar à FIL. Só que entramos num acesso à Ponte 25 de abril, fomos parar à Costa da Caparica (risos). Houve algumas situações dessas que no fundo até foram boas porque acabámos por conhecer a cidade e os caminhos. Até ao natal andámos muito saudosistas, pensávamos no que tínhamos deixado, mas a partir do fim do ano as coisas começaram a mudar, começámos a conhecer algumas pessoas fora do futebol na Amadora.

Quando chegaram ao clube, foram bem recebidos, foram praxados ou olhados de lado?
Praxes não tivemos. O Estrela tinha subido de divisão e fez uma equipa praticamente nova. Manteve a base, mas foram contratados uns 15 jogadores, muitos vindos de outros clubes e muitos vindos no norte. Do Boavista fomos quatro, mais três do Sporting, uns quantos do Vitória de Guimarães, veio muita gente nova. No início, eu e a malta que vinha do norte, senti alguma animosidade daqueles que eram de Lisboa e que tinham subido de divisão. Na época seguinte, como a opção passou a recair sobre os jogadores que tinham chegado e alguns deles não jogavam, houve ali alguma desconfiança. Mas quando perceberam que nós não éramos rivais. mas colegas que lutavam pela posição - e quando perceberam que éramos boa gente e que estávamos ali para fazer a equipa mais forte -, as coisas melhoraram e tivemos um grupo sempre muito bom. Esse ano e a época seguinte foram excepcionais em termos de camaradagem e boa disposição. Aliás, nós tínhamos treino, imaginemos, às três e às duas já estava toda a gente no campo e toda a gente a rir, ou seja, nós não íamos para o treino mesmo em cima, íamos antes porque gostávamos muito de estar uns com os outros. Fora do clube, nós sentíamos alguma saudade de casa. Mas a partir do momento em que começámos a fazer amigos fora do clube, tudo melhorou.

Que amigos?
Começamos a criar um grupo de amigos numa confeitaria da Amadora, a Confeitaria Florença, que era onde se reunia um grupo de amigos de infância que seguiram caminhos diferentes mas continuavam a encontrar-se ali diariamente. Nós quase que integrámos o grupo, até hoje tenho muitos amigos que faziam e fazem parte desse grupo. Ou seja, começámos a jogar, começámos a deixar de ir a casa tantas vezes, algumas vezes até devíamos ir e não fomos. Começámos a gostar de estar em Lisboa.

Pedro Barny (3º atrás à esquerda) foi para o Estrela da Amadora em 1988

Pedro Barny (3º atrás à esquerda) foi para o Estrela da Amadora em 1988

D.R.

Quando começam as primeiras saídas à noite, ainda é no Boavista, no Porto?
Sim. Na altura o Boavista já tinha uma organização boa, tinham algum controlo sobre os jogadores e normalmente só saímos depois dos jogos. Havia um grupo de jogadores mais velhos que tinha os circuitos próprios, mas eu não entrava nesse circuito. Eu saía depois dos jogos. Mas nunca tive nenhum problema disciplinar. Não quer dizer que não tenha feito algumas coisas que não devia, mas sempre tive algum cuidado quando as fazia, por isso, passava sempre ao lado.

Em Lisboa também não teve problemas com as saídas?
Não, sempre soube separar as coisas, sempre tive alguma consciência profissional. Eu acho que os jogadores hoje em dia são muito mais profissionais do que eram no meu tempo. Aliás, acho que é por volta da minha geração que alguma coisa começa a mudar no futebol português. Depois vem a geração que é campeã do mundo em Riade e em Lisboa, começa a haver algum sucesso e os jogadores começam a perceber que têm de mudar alguma coisa em termos de hábitos. Mas acho que está sempre ligado à sociedade.

Como assim?
Os jogadores fazem parte da sociedade, acompanham-na e faziam aquilo que a sociedade lhes exigia. Hoje. a sociedade mudou completamente, os jogadores também, a forma de estar também. Atravessei essa mudança. A minha geração começa a ser ligeiramente diferente. Eu ainda apanho alguns dos hábitos antigos, mas já começo a sentir que a coisas têm de ser de outra forma.

Quando se refere a esses hábitos antigos, refere-se a beber uns copos no dia a dia...
...Sim, fumavam muito, havia o jogo, a noite. Mas isso não era exclusivo dos jogadores de futebol, era da sociedade. Quando querem separar e dizem que o futebol é um mundo à parte, não acho, porque os jogadores de futebol foram criados na sociedade, não estão fora da sociedade; no fundo, eles refletem a sociedade.

Pedro Barny (3º à direita) a festejar a conquista da Taça de Portugal pelo E. Amadora

Pedro Barny (3º à direita) a festejar a conquista da Taça de Portugal pelo E. Amadora

D.R.

Na segunda época de Estrela da Amadora, conquista a Taça de Portugal.
Sim. O João Alves faz essas duas épocas consecutivas no Estrela. Nós fazemos uma primeira época excecional para uma equipa que nunca tinha estado na I divisão, creio que ficámos na primeira metade da tabela classificativa. Jogámos bem, as pessoas gostavam de ver o Estrela, mesmo na Amadora as pessoas começaram a criar algum envolvimento à volta do clube. A pressão não era grande porque estávamos sempre acima daquilo que esperavam de nós. Na segunda época. a equipa ainda ficou melhor, mas a partir de determinada altura - e quando percebemos que a descida de divisão estava fora de questão e estávamos na Taça -, o João Alves conversou connosco e disse: "Temos na Taça uma hipótese de fazer algo diferente e histórico, por isso a partir de agora vamos dar prioridade aos jogos da Taça". Sempre que havia uma eliminatória da Taça, no jogo anterior para o campeonato o João Alves utilizava jogadores que habitualmente não jogavam. Tínhamos um plantel bom, com muitas soluções, creio que fizemos até um jogo com o Sporting e outro com o Benfica quase com uma segunda equipa, porque tínhamos jogo para a Taça a seguir. As coisas foram correndo bem na Taça, fomos passando eliminatórias e acabámos por conquistar a Taça. Parece uma coincidência. mas não foi, porque desde muito cedo começámos a pensar que podíamos fazê-lo. Há até uma história engraçada relacionada comigo.

Conte.
Eu não bebo álcool, nunca bebi, não gosto. Mas no futebol, e mais antigamente, a pressão para os jogadores mais novos beberem álcool era fortíssima. Tive sempre uma guerra grande e consegui sempre manter-me à margem, porque eu não gostava, não gostava do cheiro, até que... A seguir a um jogo da Taça, de uma eliminatória que ganhámos, fomos sair à noite, eles queriam que eu bebesse, disse que não, que não gostava e alguém disse: "Se nós ganharmos a Taça tu bebes". Nessa altura, ainda estávamos numa fase inicial da prova, eu disse ok, mas a pensar que nós nunca íamos ganhar. Acabámos por ganhar. (risos)

Teve de cumprir a promessa. Como foi?
Tive de cumprir na festa do grupo à noite, depois da final da Taça. Bebi tudo o que eles queriam, mas acho que alguns, ou a maior parte deles, ficaram pior do que eu. Não conseguiram destruir-me totalmente (risos). Mas foi engraçado.

Essa final da Taça foi contra o Farense, decidida numa finalíssima.
Sim, o percurso todo é engraçado porque fizemos muitos empates e foi sempre no limite. Empatámos em casa com o SC Braga, no jogo de desempate em Braga fomos a prolongamento e ganhámos na última grande penalidade marcada por todos os jogadores de campo. Os 22 jogadores marcaram, foi só à 22.ª que conseguimos marcar e desempatar. Na meia final, jogámos em casa com o Vitória de Guimarães, empatámos e ganhamos a meia final em casa do Guimarães também no prolongamento. E, na final, empatámos o primeiro jogo 1-1 e ganhámos 2-0 na finalíssima. Por isso, foi uma Taça arrancada a ferros.

Pedro Barny (2º atrás à esquerda) chega ao Sporting em 1992/93

Pedro Barny (2º atrás à esquerda) chega ao Sporting em 1992/93

D.R.

Depois regressa ao Boavista com quem tinha contrato, mas também por causa do João Alves que foi para lá, certo?
Sim. voltámos atrás na história. O João Alves é contratado pelo Boavista no final desse ano, eu tenho os tais dois anos de contrato que tinha renovado antes de ir para o Estrela, e vou ganhar quase metade do que tinha ganho no Estrela. O primeiro ano é com o João Alves e o segundo com o Manuel José.

João Alves e Manuel José são muito diferentes?
Sim, em termos de liderança, de treino, são bastante diferentes.

Em que é que são diferentes?
O Manuel José, como treinador, adotou um estilo de liderança mais duro, mais exigente, mais virado para a disciplina. O João Alves era um treinador era dado um bocadinho mais ao lado criativo dos jogadores, um bocadinho mais imprevisível na forma como alterava as equipas. Era mais de intuição.

E no relacionamento com os jogadores?
O Manuel José era uma liderança mais virada para a disciplina, de regras muito rígidas, não que o João Alves não o fizesse, mas a forma de atuar era diferente: mais distante o Manuel José, mais duro até muitas vezes, e o João Alves umas vezes mais próximo, outras mais zangado, um bocadinho menos consistente nesse lado. Mais emocional. Os dois com perfis diferentes, mas muito importantes na minha construção quer como jogador quer como treinador.

De quem se sentia mais próximo?
Em diferentes momentos da carreira, de um e de outro. De João Alves mais no início, mais quando começo, dá-me a oportunidade de jogar, acredita em mim, leva-me para os clubes onde está porque gosta do meu estilo. O Manuel José não me conhecia de lado nenhum e chega ao Boavista e eu sinto também que tem grande confiança em mim.

Na segunda época do Boavista, com o Manuel José, conquista novamente a Taça de Portugal.
Sim, contra o FCP, que tinha sido campeão. Eliminámos o Benfica na meia-final.

Alguma história para contar desses dois anos no Boavista?
Foram dois anos importantes, a primeira época não foi extraordinária, depois chega o Manuel José, a época começa muito bem com a eliminação do Inter de Milão que. na altura, tinha uma equipa fortíssima e era quase impensável o Boavista afastar uma equipa como aquela. O campeonato também começa bem, com uma vitória no Estádio da Luz, contra o Benfica. O Boavista nesta altura não tinha era o peso que mais tarde haveria de ter e, perto do final, afastámo-nos da luta pelo título, mas conseguimos no último jogo ficar em 3.º lugar.

Pedro (1º à esquerda ao lado de Luis Figo) numa digressão pelo Sporting na África do Sul

Pedro (1º à esquerda ao lado de Luis Figo) numa digressão pelo Sporting na África do Sul

D.R.

Como foi parar ao Sporting a seguir?
Acabo contrato, o interesse do Sporting surge a meio da época, mas na altura havia uma lei que, mesmo sem contrato, os clubes tinham de ser indemnizados. O Sporting falou comigo durante alguns meses, mas no fim acabou por retroceder por não querer nenhum conflito com o Boavista. Jogámos a final da Taça, eu andava também a renegociar com o Boavista, e não chegávamos a acordo. A seguir à final da Taça, no dia seguinte, num almoço com o Major, rapidamente cheguei a um acordo para renovar por dois anos. Três dias depois, estava no café com os amigos, já de férias, e telefonam para minha casa, vão-me chamar ao café para ir ter com o Major e o Sousa Cintra a um restaurante, junto do estádio do Bessa. Quando chego estão os dois a negociar a minha saída para o Sporting. E pronto.

Que tal Bobby Robson?
Fui encontrar um treinador com um carisma muito forte, uma equipa muito jovem, um clube algo desorganizado. A época não correu bem. O grupo era bom, com um talento incrível, com muitos campeões do mundo de Lisboa: o Figo, o Capucho, Paulo Torres, Nelson, Marinho, Amaral, o Peixe, uma série de jogadores da formação do Sporting com muito talento. Estrangeiros com bom perfil. Mas, apesar de todo o talento, a equipa era muito jovem, era desequilibrada nesse aspecto, os jogadores ainda estavam em início de carreira, não eram os mesmos que foram anos depois, e a desorganização do Sporting na altura também ajudava, havia salários em atraso, tudo isso acaba por se refletir nos resultados e no rendimento da equipa.

Bobby Robson muito diferente dos outros treinador que teve?
Sim, era um treinador com um carisma muito forte, tanto estava muito longe dos jogadores como estava tão próximo como nenhum outro. Com um sentido de humor excecional, um método de treino muito diferente em relação aquilo que era habitual na altura, muito baseado na finalização. Liderança incrível, era uma figura do futebol, era uma pessoa que impressionava.

Nessa altura já namorava com a sua primeira mulher?
Sim, já namorava a Silvia. Conheci-a no Porto antes de ir para o Sporting. Ela estudava na faculdade de desporto e vivia perto de minha casa. É a mãe dos meus dois primeiros filhos, o Pedro e a Silvia.

Que nasceram quando?
A Silvia nasceu um ano depois de eu ter casado, em 1995.

Nessa altura já estava outra vez no Boavista com o Manuel José. Porque só ficou um ano no Sporting? Só assinou por um ano?
Não, assinei por três anos, mas no final da época o nosso guarda redes era o Ivkovic, as pessoas não estavam satisfeitas com o rendimento dele, ele já tinha alguma idade e o Sporting mostrou interesse em contratar o Lemajic, guarda redes do Boavista. E o Boavista tinha também nessa altura o Costinha, que era um jovem da formação. O Sporting acabou por adquirir os dois. Só que, na altura, os clubes para reduzir um bocadinho o montante a pagar trocavam jogadores. Foi assim que eu fui. Quando eu fui para o Sporting, o Sporting pagou uma verba por mim e em troca ainda mandou três jogadores. No ano seguinte, o Boavista também propôs alguns jogadores em troca para o negócio e o meu nome não foi proposto pelo Sporting, foi o Boavista que colocou o meu nome em cima da mesa. Quando o meu nome é avançado, os responsáveis do Sporting abordam-me para saber qual era a minha posição. E eu senti-me desconsiderado, um bocado orgulhoso, daquele orgulho bacoco, pelo facto de terem considerado sequer que eu poderia entrar nesse acordo. E por isso acabei por ceder porque achava que o interesse do Sporting em mim afinal não era assim tanto.

Hoje está arrependido?
Arrependimento não tenho, mas acho que foi uma má decisão porque eu tinha jogado a época praticamente toda, e por isso é que também achei que tinha havido alguma falta de consideração.

Pedro Barny com os dois primeiros filhos, Silvia e Pedro

Pedro Barny com os dois primeiros filhos, Silvia e Pedro

D.R.

Faz duas épocas com o Manuel josé no Boavista...
...Faço as duas épocas, acabo esse contrato, que no fundo era o contrato que tinha assinado com o Sporting e vou para o Belenenses.

Porquê?
Nesse período em que estive no Boavista, jogo os jogos todos, só não joguei um jogo por acumulação de amarelos. Acabo contrato e durante esse período, apesar de ter jogado sempre, tinha um problema no joelho que já vinha a incomodar-me há muito tempo. O Boavista decidiu não renovar. Eu tenho uma conversa no final da época com o Manuel José que me informa que vou sair. A conversa foi um bocadinho mais acalorada, uma troca de argumentos maior em relação à decisão, acabei por sair e fui para o Belenenses. Na altura, com o João Alves novamente. Assim que ele soube que não ia renovar pelo Boavista, telefonou-me. Fui para Belém e fiquei lá três anos.

Vai para Lisboa com a família?
Sim, nessa altura já tinha casado, a Silvia tinha nascido nesse verão e fui com a família para baixo, fui viver para Oeiras.

No Belenenses teve também treinadores míticos, como o Quinito, o Vitor Manuel, o Cajuda. O que tem a dizer sobre eles?
A primeira época foi excecional com o João Alves, com um grupo excelente, jogadores muito bons; o João Alves tinha até a intenção de na época seguinte lutar pelo título nacional, estava a tentar contratar jogadores para fortalecer ainda mais a equipa, mas o Belenenses financeiramente estava de rastos e acabou por dar um estouro grande. Ele acabou por sair, foi para o Salamanca, eu não fui com ele porque tenho uma lesão num joelho e reprovei nos testes médicos no início de época.

Jogar fora era um sonho?
Não, na altura não era muito habitual os jogadores jogarem fora do país. Mas quando surgiu o interesse do Salamanca, também com boas condições salariais, ainda por cima relativamente perto, era uma ideia que me agradava. O João Alves sabia que aquela lesão no joelho continuava a incomodar-me, fui observado em Salamanca praticamente um dia inteiro só ao joelho esquerdo, no fim o diagnóstico era de que estava em risco de terminar a carreira se não fosse operado imediatamente. Regresso ao Belenenses, o Belenenses acha que a lesão não é suficientemente importante para eu ser operado. Começo a época a jogar, com o Quinito, mas ao sexto jogo tenho de ser operado e perco essa época praticamente toda.

Pedro Barny chegou ao Belenenses em 1995

Pedro Barny chegou ao Belenenses em 1995

José Oliveira

E que tal o Quinito?
O Quinito chega ao Belenenses já com alguns acontecimentos na vida dele que, acho eu, lhe foram transformando a personalidade. Chega um bocadinho com falta de motivação. O contacto connosco é bom porque ele é bom de fundo, mas sentia-se que haveria alguns problemas que o perturbavam. Os resultados não foram bons, ele acaba por sair do clube, entra o Vítor Manuel na altura em que eu estou em convalescença da cirurgia e acabei por jogar os dois últimos jogos da época, contra o Sporting e contra o Benfica. Depois, começa a época seguinte e veio o Mladenov, a começar a carreira como treinador, excelente no relacionamento, a fazer um trabalho bom mas os resultados acabaram por não confirmar. Surge-me também um problema no pé, um quisto entre o segundo e o terceiro dedo, muito comum, chamado Neuroma de Morton. Andei uns tempos em sofrimento, também acharam que não deve ser operado - na altura, o Belenenses era um clube complicado porque o dinheiro escasseava e as coisas eram difíceis de acontecer.

Não é operado?
Acabei por ser operado só depois do resultado de um exame que diz operação imediata. Perco outra vez a passagem de treinador; o Mladenov sai e entra o Cajuda. A recuperação é mais rápida, o Cajuda começa a conhecer a equipa quando eu regresso, vou jogando praticamente até ao fim mas essa época foi para esquecer. A equipa não era boa, o ambiente não era bom. O Cajuda entra numa fase em que a equipa também já não atravessa um bom momento, a motivação dele também acaba por não ser... As dificuldades eram tantas que acabámos a época com maus resultados e descemos de divisão.

O que acontece a seguir?
Saio do Belenenses e surge um convite do Campomaiorense. Na conversa com os dirigentes, há um deles que diz que pelo valor que eu estava a pedir ele ia ao Brasil buscar dois ou três iguais. E eu disse: "Então, faz o favor de ir". Desligo o telefone, nunca mais volto a falar com eles. Outra vez aquele orgulho a funcionar (risos). Não vou para o Campomaiorense, acabo por não aceitar proposta de nenhum clube que me satisfizesse e fico sem jogar durante seis meses. Entretanto, o Desportivo das Aves muda de treinador, o prof. Neca entra, eu estou a treinar na altura junto do plantel do Salgueiros para manter a forma. O meu filho Pedro nasceu. O Aves demonstra interesse nessa altura, eu vou para o Aves no final do ano e fico até ao final da época. O último jogo com o Aves, no Santa Clara, para decidir a subida de divisão, o Santa Clara acaba por subir, o Aves não sobe e eu acabei a carreira nessa altura.

Pedro Barny esteve no Belenenses até 1998

Pedro Barny esteve no Belenenses até 1998

Ilídio Teixeira

Já tinha noção de que a carreira iria acabar?
Não. As coisas foram correndo sempre bem, quando a equipa perde o último jogo, na preparação da época seguinte eu senti que eles queriam mudar alguma coisa, senti que não estava nos planos, houve alguma coisa que até hoje me escapa, não sei o que é que aconteceu, porque eu achava que iria continuar... Não sei. Acabei por perceber que não iria continuar e também me afastei rapidamente. Depois, houve ali um período em que pensei que eventualmente poderia ainda continuar, mas as propostas que foram chegando não foram suficientemente boas ou atrativas para eu continuar.

Quando é que se dá mesmo conta de que a carreira tinha terminado?
Depois, há ali um período de alguma indefinição, aqueles primeiros meses em que não sei se vai terminar e assim que abre o mercado e eu não encontro espaço em lado nenhum, decido então começar a olhar para outro lado.

Até essa altura já tinha pensado no futuro ou não?
Não, fui sempre avaliando as coisas ano a ano, nunca fui de projectar muito para a frente, até porque no futebol, tudo o que me tem acontecido até hoje, tem sido sem ser programado.

Então nunca tinha pensado naquilo que queria fazer pós-futebol?
Quando aos 18 anos abandonei a escola, até aí nunca tinha perdido um ano, ia para o 12.º ano. Como tinha assinado contrato como profissional com o Boavista, fiz o 12.º à noite. Aliás, até levei alguns jogadores mais velhos para estudarem. Um desses casos de sucesso foi o Queiró, que acabou por falecer muito novo. O Queiró tinha o ciclo preparatório feito, consegui levá-lo para o externato onde fui estudar. Eu fui fazer o 12.º ano, o Queiró foi fazer o 7.º, o 8.º e o 9.º, o 10.º, o 11.º, fez o 12.º e ainda concluiu o curso na FCDEF quase com 37 anos, no final da carreira. Nem que não fosse só por isso, já tinha valido a pena eu ter ido estudar. Conclui o 12.º ano, candidatei-me à faculdade e entrei no Instituto Superior do Desporto, em Coimbra. Mas foi na altura em que fui para o Estrela e não pude frequentar. Depois, quando fui para o Belenenses, ainda pedi a transferência para um instituto em Lisboa, mas também não fiz. Entretanto, nascem os filhos e acabei por não fazer. Quando acabei o futebol, pouco tempo depois inscrevi-me no Instituto Superior da Maia para fazer o curso de Gestão de Desporto. E aí começo a preparar o futuro. Já pensava em ser treinador, já tinha feito o primeiro e o segundo nível. O primeiro tinha-o feito enquanto jogador.