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A casa às costas

“Houve pessoas a morrer no nosso balneário. Foi um filme, quase que tive de saltar por cima de polícias, só pensava: tenho de escapar daqui”

Pai de quatro filhos e com 53 anos, Pedro Barny iniciou carreira de treinador como adjunto de João Alves, na Académica. Depois assumiu o comando do Boavista por três jogos apenas e acabou por sair do Bessa, em litígio, que se mantém até hoje. Assumiu entretanto o comando do SC Espinho, mas acaba por não conseguir dizer não ao convite de Manuel José e volta a adjunto, primeiro em Angola, depois na Arábia Saudita, no Egipto e Irão. Em 2017, assume o papel principal como treinador do Ismaily, também no Egipto, país que o marcou pela Primavera Árabe e pelos acontecimentos de Port Said, que viveu intensamente e onde morreram 74 pessoas. Em dezembro passado assumiu a liderança do El-Gouna, no Egipto

Alexandra Simões de Abreu

El Gouna FC

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Inicia carreira como treinador-adjunto na Académica com o João Alves, em 2001. É ele que o convida?
É ele que me convida. Subimos de divisão, vamos para a I divisão. A meio da época saímos do clube, rescindimos o contrato por falta de pagamento, vamos para o Estrela substituir o Jesus, subimos de divisão com o Estrela e, na época seguinte, também acabamos por sair do Estrela a meio. O João Alves vai para o Egipto, nessa altura já não vou e é quando me inscrevo no curso de Gestão de Desporto.

E substitui o Jaime Pacheco, no Boavista.
Sim. Vou para o Boavista para o departamento de scouting e substituo o Jaime Pacheco no final da época, nos últimos três jogos.

Há uma polémica com essa substituição, não é? Supostamente não podia estar no banco.
Sim, porque nessa altura tinha o terceiro nível do curso de treinador, estava a frequentar o quarto e o estágio final seria nesse final de época. Como havia essa premissa de que eu poderia estar no banco se estivesse inscrito no quarto nível, e eu estava... Mas houve um ou outro comentário na altura, mas que não tinha razão de ser, porque eu estava inscrito no curso. Mas pronto, a saída do Pacheco foi inesperada, foram três jogos em que a solução foi-me proposta e quase que nem pude dizer que não, até porque não era uma situação muito cómoda porque eu nem fazia parte da equipa técnica do Jaime Pacheco.

Sentia-se preparado já para assumir o comando de uma equipa como o Boavista?
Não, claramente que não, mas a oportunidade surgiu e foi uma situação em que quase fui "empurrado", foi um espírito de missão porque se não fosse assim, provavelmente ninguém iria aceitar, não haveria treinador interessado.

Como foram esses três jogos?
Nós jogamos em casa com o Braga do professor Jesualdo Ferreira que na altura tinha uma belíssima equipa, perdemos o primeiro jogo. Depois fomos a Guimarães decidir a competição europeia, fizemos um bom jogo, mas acabámos com nove, houve alguma polémica com a arbitragem, jogámos a segunda parte toda com 10 e acabámos com nove: foi expulso o guarda-redes, o Carlos e o João Pinto, perdemos 2-1. Fizemos um excelente jogo mesmo com nove. E depois empatámos em casa 1-1 com o Benfica de Trapattoni, que deu o título ao Benfica. Também fizemos um jogo bom, mas era o último jogo do campeonato, já estávamos fora dos objetivos. A criança caiu-me nos braços e eu não pude deixá-la cair.

Pedro Barny começa a carreira como treinador-adjunto de João Alves, na Academica

Pedro Barny começa a carreira como treinador-adjunto de João Alves, na Academica

D.R.

Continuou no Boavista como adjunto nas duas épocas seguintes.
Sim. Na época seguinte fico como adjunto do Carlos Brito que sai no final da época e entra o professor Jesualdo Ferreira. Fico como adjunto dele. Mas 15 dias antes de começar a época ele é contratado pelo FCP e eu volto a assumir o comando da equipa. Eu chego a um acordo com o clube, como treinador principal, para as duas épocas seguintes. No dia seguinte, o acordo não é assinado, nem é anunciado e eu fico a saber que o Boavista tinha contratado um treinador jugoslavo para substituir o Jesualdo. Nessa altura, eu queria sair do clube, mas o João Loureiro impediu a minha saída, dizendo que eu tinha um contrato para cumprir e acabei por ficar. O contrato como adjunto era o que eu já tinha assinado, mas já tinha um acordo, com verbas e tudo, para ficar como treinador principal. Fico no clube contra vontade. O treinador, o Petrovic, chega, eu faço o primeiro jogo em Alvalade com ele na bancada a ver - e passados seis ou sete jogos é demitido e a equipa técnica sai toda. Nessa altura saio do Boavista outra vez.

O Pedro mantém um diferendo com o Boavista desde essa altura?
Sim, está em tribunal até hoje. Porque quando a equipa técnica é demitida, tínhamos salários em atraso e tínhamos um contrato que tinha de ser cumprido.

Pedro no meio dos ídolos de infância Artur e Mário João

Pedro no meio dos ídolos de infância Artur e Mário João

D.R.

Como é que vai parar ao SC Espinho?
Estava na Maia a fazer o curso de Gestão e recebi um convite para ir treinar o Espinho. É um clube pelo qual tinha simpatia, é um clube que tem história, tem tradição, e, apesar de na altura estar na 2.ª B, tinha um projecto de subida. E fui, a meio da época, e estive lá essa época, cumpro a época seguinte, tinha um acordo para ficar na época a seguir e no início dessa última época, surge o convite do Manuel José para ir com ele, como adjunto, para a seleção de Angola, para fazer o CAN 2010.

Não hesitou?
Não. Primeiro pelo convite vir de quem é, depois pelo facto de participar num campeonato continental, num campeonato africano que tem alguma importância, que ia ser disputado em Angola. E também pelas condições diferentes que me ofereciam.

Como foi o embate quando chegou a Angola? Foi um choque? Era o que estava à espera?
Eu já tinha estado em Angola em 87 numa digressão com o Boavista, já tinha uma ideia de como era a cidade e o país, se bem que fui encontrar uma cidade muito diferente daquilo que tinha visto na altura. Mas tinha uma ideia do que iria encontrar, já tinha falado com algumas pessoas. São realidades muito diferentes, na altura Angola vivia um contexto muito diferente do que é hoje. O dia a dia lá é completamente diferente daquilo que estava habituado em Portugal.

Diferente como?
Por exemplo, o trânsito. Dentro de Luanda não há sítio para parar o carro, pode-se estar parado numa rua quase sem se mexer quase 20 minutos, sem mover o carro. Para ir ao banco ou a um restaurante não há sítio para parar, normalmente as pessoas utilizam o motorista para que ele as deixe no sítio, enquanto ele anda às voltas com o carro, porque não tem sítio para parar. Na altura era assim. Pode-se perder um dia só com uma ida ao banco. Depois, as pessoas utilizam esse facto para não cumprirem horários, para não cumprirem regras. Na altura também havia alguma insegurança e era preciso ter alguns cuidados à noite, uma série de coisas.

Não levou a família consigo.
Não, não. Quando vou para o estrangeiro, nunca levo. Nessa altura já estava separado da minha primeira mulher e já tinha uma relação com a minha atual mulher, a Teresa.

Pedro Barny com os pais e os irmãos

Pedro Barny com os pais e os irmãos

D.R.

Como é que correm as coisas em Angola e como é que se dá a passagem para a Arábia Saudita?
Em Angola havia uma exigência muito grande em relação à equipa porque era o país organizador, as pessoas tinham uma expectativa muito grande. A equipa não correspondia às expectativas, aliás, colocámos alguns jogadores que nem clube tinham, mas que nós considerávamos melhores do que outros. E, no fundo, a seleção foi um espaço de treino para eles, durante alguns meses antes do campeonato. Tivemos uma ou duas lesões importantes, no Mateus e no André, que eram jogadores importantes na altura - lesionaram-se antes do campeonato começar -, e a equipa não tinha condições nenhumas para poder corresponder às expectativas. No entanto, fizemos uma boa fase de grupos, qualificámo-nos e no jogo dos quartos de final acabámos por perder com uma das seleções finalistas, o Gana. Juntamente com outra, até foi a melhor participação de sempre de Angola no CAN, mas pelo facto de ser em casa, a exigência das pessoas em relação a nós era maior. Nós também não nos sentíamos muito satisfeitos na relação com a Federação Angolana de Futebol porque havia muitas falhas. O Manuel José foi falar com eles, disse que não se sentia bem a trabalhar e a receber quando achava que a equipa e as condições não seriam as ideais e que o trabalho dele não iria dar muitos frutos. Conseguiu fazer um acordo para sair e fomos para a Arábia Saudita no início da época seguinte.

Outra realidade completamente diferente.
Sim, uma realidade muito diferente da nossa até em termos de costumes, comportamentos. Mas quando vou para o estrangeiro só trabalho e depois o resto do tempo passo em casa. Normalmente vivo num hotel quando estou fora. Na Arábia Saudita era o tempo do treino, fora era o trabalho que fazia para o treino e para o jogo e o resto era passado em casa a ler, a ver televisão, a falar com a família, a navegar na internet. De vez em quando, a equipa técnica fazia uns jantares fora, mas convivíamos no hotel onde estávamos.

Não tem nada a realçar dos hábitos deles que lhe tenha feito mais confusão?
Na altura, era o facto das mulheres fazerem jogging todas tapadas, de não poderem conduzir, de terem de estar separadas num restaurante. Por exemplo, se fosse eu e um colega da equipa técnica jantar, havia zonas distintas para homens e para mulheres, se fossemos jantar com o Manuel José e com a esposa, já podíamos ficar nos sítio onde ficavam as famílias e ter uma mulher connosco. No hotel onde estávamos, quando havia casamentos, dividiam os elevadores, de um lado era para mulheres, do outro para os homens (risos). O ginásio era separado, havia um mundo de diferenças. Havia biombos por todo o lado para separar as mulheres. No treino, quando coincidia com a altura da reza, tínhamos de parar para os jogadores poderem rezar. A alimentação também muito diferente.

Pedro Barny iniciou carreira como treinador pricnipal no SC Espinho

Pedro Barny iniciou carreira como treinador pricnipal no SC Espinho

D.R.

Qual era a sua função enquanto adjunto?
O meu papel era ser o primeiro auxiliar do treinador principal, neste caso do Manuel José. Passei a estar mais próximo dele, mais por dentro do método de treino que ele utilizava. Em termos de tarefas, inicialmente, ele tinha mais assistentes nos treinos, mas com o passar do tempo começou a perceber que podia confiar em mim, sentia que eu podia fazer as coisas e foi deixando-me assumir mais a componente do treino, com ele relativamente afastado, só a observar; intervinha quando achava que devia intervir e a relação entre nós foi evoluindo de uma forma diferente. Quer na forma da avaliação dos adversários, quer no treino. No fundo, eu era alguém em quem ele confiava e com quem regularmente trocava impressões sobre tudo.

Mas a vossa relação enquanto jogador/treinador não tinha acabado muito bem.
Durante todo o tempo em que ele me treinou, sempre mantivemos uma boa relação e ele sempre mostrou confiar em mim. Só houve um desacordo. Anos mais tarde, em 2004, na altura em que assinou contrato com a FPF, houve um grupo de ex-jogadores que fizeram um jantar de apoio à entrada dele na selecção nacional; convidaram-me e fui com todo o gosto. No final do jantar ele sentiu que aquilo não tinha ficado bem resolvido, deu-me uma palavra nesse jantar, eu disse-lhe que eram coisas do passado e que para mim estavam completamente esclarecidas. Não havia nenhum grão de areia na relação e a conversa ficou por ali. Mais tarde, ele acabou por convidar-me para ser seu adjunto. Segundo ele, perguntou a um amigo que é de Espinho o que achava do meu trabalho e o que ele me disse foi que o amigo em quem ele confiava lhe terá dito: ganhas tu, perde o Espinho. Resolveu contactar-me e perguntar se eu queria trabalhar com ele.

Pedro Barny, com os irmãos, os filhos e sobrinhos

Pedro Barny, com os irmãos, os filhos e sobrinhos

D.R.

Depois da Arábia Saudita foi para o Egipto. Muito diferente?
Sim. Apesar de ser um país muçulmano também, tem uma história e as pessoas têm uma forma de estar completamente diferente. E depois de tudo o que aconteceu, tenho uma ligação especial ao país porque passei por vários acontecimentos intensos no Egipto, que acabaram por criar uma relação diferente.

Nomeadamente em 2012, com os acontecimentos de Port Said, no jogo entre o Al-Masry e o Al-Ahly, em que morreram 74 pessoas.
Sim. O campeonato não chegou a acabar, foi suspenso.

Sei que já o relatou, mas peço-lhe que nos recorde esse dia.
Nós sentíamos que não era um jogo normal. Havia muita tensão à volta do jogo, na chegada ao hotel, quando chegámos ao estádio... Havia muitas coisas que não eram normais, as pessoas dentro do campo deitaram fogo de artifício para o meio dos jogadores no aquecimento, havia uma grande animosidade contra nós, embora isso fosse algo habitual naquele sítio, já havia ali uma história para trás. Mas o que aconteceu foi uma coisa completamente diferente, não tinha nada a ver com futebol. No final do jogo as luzes apagaram-se, as pessoas entraram no campo, entraram pela bancada onde estavam os adeptos do Al-Ahly e... houve pessoas que morreram dentro do nosso vestiário... Foi um filme daqueles.

Sentiu medo?
Eu acho que foi mais instinto do que medo. Na altura da entrada dos adeptos no campo, acho que foi o instinto de sobrevivência que prevaleceu. Tive de fugir como os outros, tivemos de correr em direção ao balneário. Pelo caminho houve alguns que tiveram mais dificuldade, a polícia em vez de agir, formou uma barreira para impedir a entrada das pessoas no balneário e impedia também a nossa entrada, tivemos quase de saltar por cima dos polícias. Foi instintivo, quase que nem me recordo do que fiz naqueles momentos. O que é facto é que conseguimos chegar ao balneário. Foi adrenalina pura a funcionar, não sei, nem consigo explicar. O que senti é que tinha de escapar daquele sítio, daquele problema. E isso transforma, há qualquer coisa que muda em nós, não conseguimos perceber a forma como vamos reagir, sem antes passar por isso.

O que mudou em si? Passou a ser mais desconfiado?
Não. Não tenho nenhum tipo de trauma em relação a essas coisas. Já tinha vivido a Primavera Árabe, em 2011, também no Egipto. Estávamos quase a chegar quando as coisas sucederam, houve situações muito complicadas também.

Os filhos mais velhos de Pedro Barny com as irmãs mais novas, fruto do segundo relacionamento

Os filhos mais velhos de Pedro Barny com as irmãs mais novas, fruto do segundo relacionamento

D.R.

Qual foi a situação em que sentiu mais medo pela sua vida?
Talvez em Port Said. Mas na altura da revolução, da Primavera Árabe, eu estava num hotel relativamente perto da praça Tahrir onde tudo acontecia e a primeira vez que houve uma manifestação grande ainda levei com gás lacrimogéneo, tive de andar a fugir da polícia para poder entrar no hotel. Depois, um avião português veio buscar todos os portugueses ao Cairo e eu acabei por não ir nesse avião. Fiquei eu, o Manuel José e a mulher. Eu fiquei sozinho no hotel onde vivia, era o único hóspede do hotel. Num hotel com centenas de quartos, só estava eu, cinco jornalistas russos e os funcionários do hotel. Durante uns dias, à noite, eu e os funcionários do hotel estivemos juntos das barricadas à volta de umas fogueiras para impedirmos que houvesse pilhagens e para nos defendermos também. Por isso nessa fase, não era medo, era uma tensão permanente de incerteza em relação ao que poderia acontecer. Isto aconteceu durante uns dias e não foi agradável. A sensação de não se saber o que pode acontecer a seguir - e pode acontecer tudo - é uma coisa que não se consegue controlar, é aquela insegurança, aquela incerteza. E por isso o Egipto ficou marcado, por episódios assim e que de alguma forma me aproximou um bocadinho mais das pessoas e do país.

Vem embora em 2012. O que faz de então para cá até à época passada?
Ainda vamos para o Irão treinar o Persepolis, a seguir ao Egipto. É outra experiência forte. A partir de uma determinada altura as coisas também não correm bem. Eles queriam rescindir o contrato e chegar a acordo, houve uma tensão grande entre nós e eles. O Manuel José não aceitou acordo nenhum, exigindo que paguem o contrato na totalidade, eles pressionam-nos de todas as formas. Põem adeptos à porta do hotel, param-nos na auto-estrada, provocam acidentes na auto-estrada. Tentam por todos os meios que nós cheguemos a um acordo, mas nós não chegámos. Rescindimos o contrato, saímos do país na véspera do natal e foi também um tempo com muita tensão, sem saber se nos era permitida a saída ou não. Foi mais uma aventura, mais uma experiência forte e mais uma etapa no percurso que tem sido marcado por muitas aventuras.

Pedro Barny(no meio) com Manuel José (à direita), no Persopolis do irão

Pedro Barny(no meio) com Manuel José (à direita), no Persopolis do irão

D.R.

E depois do Irão?
Depois do Irão há um período em que o Manuel José está para acabar a carreira. Vai recebendo sempre muitas propostas mas vai declinando todas. E eu fico naquela expectativa, fico um período sem treinar e colaboro sem vínculo com uma empresa que leva estudantes e praticantes de futebol para os EUA e depois surge-me o convite de Ismaily, em 2017, e eu não aceito. Uns meses depois, voltam a contactar-me e aí já aceito e vou treinar o clube em 2018.

Que tal?
Entro em janeiro, o Ismaily é um clube com uma história muito grande, quer no Egipto, quer em África - a última vez que foi campeão foi em 2000, andava há muitos anos a tentar chegar a uma competição continental, neste caso à Liga dos Campeões africana. Quando chego faço um contrato em que o objetivo é chegar à Liga dos Campeões, até porque já estávamos muito longe do primeiro classificado. Ao terceiro ou ao quarto jogo perdemos fora e... os adeptos têm uma pressão muito grande sobre a equipa tanto que os jogadores nem vivem na cidade, preferem viver no Cairo, que é a 120 quilómetros. Eu tenho ali uma fase em que vou sozinho, não tenho adjunto, estou completamente só no clube e na cidade. Há uma altura em que sinto que a coisa pode não correr bem e tenho um discurso mais forte com a equipa, com os jogadores. O jogo seguinte corre melhor, iniciámos uma série de sete vitórias consecutivas, ganhámos distância para o 3.º e o 4.º classificados, e depois temos uma semana decisiva, fomos à meia final da taça. Tínhamos ganho para o campeonato em casa e tínhamos colocado o Zamalek fora da disputa pelo 2.º lugar. Era talvez o nosso mais forte concorrente, com uma distância grande em termos de orçamento e em termos de qualidade do plantel em relação a nós. Temos a meia-final com o Zamalek, numa segunda-feira, e na sexta-feira seguinte temos o último jogo em casa do 3.º classificado em que podemos perder o 2.º lugar se perdermos e eles ganharam esse jogo. Numa semana, tínhamos que decidir tudo.

O que aconteceu?
Perdemos a meia final com o Zamalek, dois jogadores meus a seguir ao jogo são suspensos pelo presidente do clube porque supostamente se teriam vendido ao Zamalek; vamos para o jogo de decisão do campeonato com menos cinco ou seis jogadores, empatámos 1-1, ficamos classificados em 2.º lugar, chegámos à Liga dos Campeões 20 anos depois. Mas a minha relação com a administração do clube nessa altura já é muito tensa porque eles na fase em que as coisas não estavam a correr bem, tentaram interferir e a coisa descambou e a relação ficou inquinada. Depois, com as vitórias que fomos somando, os argumentos deles foram-se perdendo, mas depois da derrota na meia-final voltei a sentir que as coisas não estavam bem entre mim e eles e acabei por sair no final da época, também com ordenados e prémios por receber. Voltei para Portugal pensando eu que o trabalho que tive lá tivesse repercussão e pudesse ter outros convites. Entretanto, os convites que chegaram não me agradaram e eu fiquei à espera de outras propostas. Até que surgiu agora outra vez o convite do Ismaily para regressar e o convite do El-Gouna para ir treinar o clube.

Pedro Barny treina atualmente o El Gouna, do Egipto

Pedro Barny treina atualmente o El Gouna, do Egipto

D.R.

Mas esteve um ano sem treinar.
Sim, praticamente uma época sem treinar.

O que fez nessa época?
Quando se está sem treinar, estamos sempre à espera... O que eu faço é estar mais tempo com a família, vejo jogos, vou vendo o que se passa no meio e tento recolher alguma informação.

Voltando à família, da sua segunda mulher tem algum filho?
Tenho duas meninas. A Teresa, que nasceu no mesmo dia em que cheguei ao Egipto, e esse é outro ponto de contacto que tenho com o país. No dia em que cheguei ao Cairo, à noite, ela estava a nascer, no Porto, em janeiro de 2012. Só um mês depois, quando volto a Portugal, é que a vejo pela primeira vez. Três anos depois, nasce a Alice que fez seis anos em dezembro. Agora já somos uma família grande. A Sílvia é licenciada em economia pela faculdade de economia do Porto e está a fazer um mestrado em gestão e marketing em Inglaterra. O Pedro está no quarto ano da faculdade de engenharia do Porto, joga futebol no Foz, na primeira distrital do Porto.

Está sozinho no Egipto?
Sim.

Os seus filhos nunca reclamam as suas ausências?
Eles reclamar nunca reclamaram, mas eu sei que lhes custa e custa-me a mim também.

Quando foi para o El-Gouna levou adjuntos?
Não, vim sozinho outra vez. Tenho a possibilidade de trazer mais uma pessoa comigo, mas ainda estou a tentar perceber em que área é que tenho necessidade, que tipo de pessoa é que posso trazer, mas tenho alguma abertura para o poder fazer.

D.R.

Sente que chegou tarde a treinador principal?
De alguma forma, sim. O meu plano era começar a treinar o SC Espinho, um clube de que eu gostava e que dava alguma visibilidade apesar de estar na 2.ª Liga. Eu substituí no Espinho o Armando Barreiras, que tinha acabado de substituir o Vítor Pereira que está hoje na China. A seguir a mim, quem me substituiu foi o Pedro Martins, que hoje está na Grécia, portanto eram treinadores que naquela altura estavam mais ou menos com o mesmo percurso que eu. Sabia que o meu trabalho estava a ser observado no Espinho. A minha ideia era começar a treinar um clube mais modesto, apresentar trabalho e poder motivar o interesse de outros clubes. Era esse o meu plano para a minha carreira enquanto treinador - plano que depois foi modificado pelo convite do Manuel José ter surgido.

Arrepende-se disso?
Não. Essa foi uma decisão tomada em consciência, completamente assumida por mim, porque na altura achava que era o melhor. Mas sempre na perspectiva de dar o salto. Aliás, ele sempre me incentivou para que isso pudesse acontecer. Só que o facto de ter estar afastado... Há muitos motivos que contribuíram para isto. Eu também estou fora do futebol, não mantenho um contacto muito grande com os agentes que no fundo têm mais influência na área. Há uma série de fatores que contribuíram para que eu de alguma forma pudesse ter retardado a minha chegada aqui, mas acho que ainda vou a tempo.

Qual é a sua maior ambição enquanto treinador?
É evidente que no futebol há uma medida de avaliação dos treinadores que são os títulos e as vitórias - e eu quero isso. Mas, enquanto treinador, o que mais me motiva é mesmo a relação com os jogadores ou o crescimento das equipas; saber que em algum momento contribuí para que este jogador ou aquele ou aquela equipa pudesse apresentar um jogo melhor, que as pessoas gostam, enquanto estão sob o meu comando. Isso é tudo aquilo que eu depois guardo. Não sou de guardar troféus, nem medalhas, nem camisolas, nem botas. Para mim, a recordação mais importante e tudo aquilo que guardo são todas essas histórias, todas essas relações que se estabelecem.

D.R.

Tem algum treinador como referência, a quem o Pedro vá beber mais informações ou que segue mais?
Gosto do Klopp, do Liverpool, acho excepcional, pela forma como as equipas jogam, pela simplicidade com que está no relacionamento que tem com os jogadores, com os jornalistas, com o público. Gosto do Guardiola pela forma como ele soube introduzir mudanças na forma como se joga, na forma como as equipas dele se apresentam, na coerência que tem. Estes dois são duas boas referências que tenho, mas há muitos outros que gosto e que aprecio. O Manuel José e o João Alves, que tiveram muita importância na minha carreira, quer de jogador, quer de treinador.

E ambiciona treinar alguma equipa da primeira liga portuguesa?
Claro que sim. Não numa equipa qualquer, mas alguma equipa ou alguém que me motive a que isso aconteça. Eu acho que tenho algumas dificuldades, porque já rejeitei alguns convites e talvez esse atraso na minha carreira porque quando o convite surge, se na primeira conversa tenho algumas dúvidas em relação às qualidades do clube ou ao projeto, rapidamente acabo por pôr de parte. Muitas vezes nem é por uma questão de divisão ou de oferta financeira, tem a ver com aquele sentimento que imediatamente tenho se é algo que vou gostar ou não. Porque eu gosto de estabelecer relação com as pessoas e de sentir do outro lado que há pontos em que possa rever-me. Se não for assim não gosto de trabalhar.

Tem algum hóbi?
Ver desporto, não só futebol, quase todos os desportos. Gosto do andebol, porque tenho muitos amigos ligados à modalidade - o selecionador nacional foi meu colega de escola. Gosto de voleibol porque pratiquei, gosto de atletismo, de basquetebol, hóquei em patins, da NBA, da F1, gosto de ver tudo.

Se não fosse jogador de futebol o que teria sido?
Se calhar algo ligado a gestão de pessoas, gosto das relações humanas, não gosto de trabalho de escritório, gosto de relações públicas.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Não sou dado a extravagâncias. Os carros só troco ao fim de vários anos. O primeiro relógio que comprei com algum valor foi quando nasceu o meu filho, com a ideia de depois ficar para ele. Faço sempre tudo sem entrar em loucuras.

Tem alguma alcunha?
Tenho. Chamavam-me Mequinho durante muitos anos no futebol. Porque o meu pai chamava-se Américo e, na altura em que comecei a jogar no Boavista, no futebol profissional, havia um colega que era o Paulino, e como o meu pai andava sempre bem vestido porque tinha de visitar os clientes, ele dizia que o meu pai parecia um bonequinho. Depois como ele se chama Américo, havia alguns colegas que chamavam Mequinho ao meu pai, esse colega começou a chamar-me Mequinho e os outros foram atrás. E até hoje, aqueles que têm mais intimidade comigo ainda me chamam Mequinho.