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A casa às costas

“Não me deixavam entrar no jogo de cartas, agarrei num extintor, dei duas bombadas, fechei a porta e vi os pescocinhos deles da varanda”

Paulo Sérgio cresceu numa casa de benfiquistas, mas foi o Belenenses o clube que acabou por ocupar-lhe o coração quando se tornou jogador. Ponta de lança também do Paços de Ferreira e Salgueiros, andou por Setúbal, Santa Clara, Estoril e Olhanense, onde terminou a carreira e abraçou a profissão de treinador. Pelo meio ainda teve uma experiência no Grenoble, em França, casou e foi pai de duas filhas. O ar calmo e sereno escondem um jovem que gostava de fazer algumas noitadas fora de tempo, jogar às cartas e fazer inusitadas partidas. No domingo, o jogador dará lugar ao treinador, na segunda parte deste “A Casa às Costas”

Alexandra Simões de Abreu

Nuno Botelho

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É alfacinha. Apresente-nos a família de onde vem e com quem cresceu.
Tenho um irmão mais novo três anos. Vivi grande parte da minha vida em São João da Talha, perto de Sacavém. A minha mãe trabalhou a vida inteira numa multinacional forte. O meu pai fez de tudo o que havia mais duro para fazer no início da vida dele. Ele não tinha a 4.ª classe, só a tirou já em adulto para poder tirar a carta de condução de pesados. Teve uma vida dura, mas uma vida da qual me orgulho muito. Quando tirou a 4.ª classe eu já tinha nascido e com a carta de condução profissional de pesados fez a vida dele, venceu.

Como era o bairro onde cresceu?
Era muito agradável, os meus pais ainda hoje têm lá o apartamento, embora agora passem mais tempo no Alentejo, de onde o meu pai é natural, em Fronteira, porque o meu irmão é pai de trigémeos e os meus pais tiveram de o ajudar, e passam mais tempo lá, numa casita que têm lá, do que aqui em Lisboa.

Cresceu a jogar à bola na rua.
Era o que eu ia dizer. Hoje, no bairro em São Julião da Talha, quase não há espaço para uma bola saltar, não há espaço para estacionar um carro. Na altura jogávamos na rua, muitas horas eram passadas em frente à porta de casa, com duas pedras no alcatrão. Outra coisa que adorávamos fazer era andar nas obras. Quando os prédios estavam em construção, corríamos os prédios todos de alto a baixo, saltávamos do 2.º andar para os montes de areia… .

E da escola, gostava?
Gostava. Não fui um aluno top porque acho que também não me esforcei muito para o ser, mas era um bom aluno e terminei o 12.º ano com relativa facilidade.

Faltava às aulas para ir jogar futebol?
Não. Não, porque o respeito que eu tinha pelos meus pais era enorme e não me permitia fazer isso. Os meus pais tiveram uma vida dura, uma vida difícil. Nunca me faltou nada, porque eles não deixaram, sempre se esforçaram para que isso não acontecesse e passaram o sentido da responsabilidade. Eu não podia falhar-lhes quando eles faziam todos esses sacrifícios.

Quem eram os seus ídolos?
O meu ídolo foi sempre o meu pai; se falar de futebol é outro assunto, mas o meu ídolo pela história de vida dele foi sempre o meu pai e a minha mãe também.

E se falarmos de futebol ou de outro desporto?
Desde miúdo sempre fui um jogador à procura do golo, um atacante, por isso admirava o Néné no Benfica, o Fernando Gomes no Futebol Clube do Porto, o Jordão no Sporting. Depois, numa fase posterior, o Marco van Basten, em termos daquilo que era o tipo de jogador que eu gostaria de ser. Há atletas que eu admiro imenso, e que se calhar não são aqueles que mais aparecem, mas pela sua postura, por aquilo que representaram enquanto homens. Poderia nomear vários.

Dê-nos um exemplo.
Sou super fã do Puyol, o ex-capitão do Barcelona, e do Zanetti, do Inter de Milão. Homens com "H".

Torcia por que clube?
Eu cresci numa casa de benfiquistas. O meu pai é benfiquista, grande parte da família é benfiquista. Eu desde os 12 anos, em que passei a ser federado e com essa idade já a estudar em Lisboa, no Liceu Dom Dinis, depois dos nossos jogos de domingo de manhã nas camadas jovens, ia invariavelmente da parte da tarde para Alvalade ou a Luz, ver os jogos com o cartão de jogador. Naquela altura, havia a preocupação do Benfica e do Sporting jogarem desencontrados, eram os ditos grandes de Lisboa, e eu ou estava em Alvalade ou estava na Luz. Para além de ir muitas vezes a Sacavém, ao Sacavenense que era da 2.ª divisão, ou ao Oriental.

Paulo Sérgio guarda um quadro com fotos suas enquanto jogador

Paulo Sérgio guarda um quadro com fotos suas enquanto jogador

D.R.

Começa a frequentar o São Joanense muito cedo, com sete anos, certo?
Sim, fui muito cedo mas não podia jogar como federado, andei uns anos para poder jogar. O meu pai foi uma das pessoas que colaborou muito no desenvolvimento e nas obras do clube, e era quase natural os miúdos que gostavam de jogar à bola fazerem os testes ali para ver se tínhamos alguma habilidade ou não. As coisas começaram assim.

Fez a formação toda no São Joanense?
Não, fiz dois anos no São Joanense, depois o clube esteve um ano sem futebol e eu nesse ano mudei-me para a Bobadela, onde havia a Petrogal, que era o único clube da zona que, na formação, jogava em campo relvado, era um luxo. A partir dessa altura, acho que com 12 anos, fui pela primeira vez, e pela minha iniciativa, treinar à experiência ao Benfica e ao Sporting.

Como é que correu?
Digamos que no Benfica não me deram tanta atenção, enquanto no Sporting... Conheço o mister Aurélio Pereira desde esse tempo. Na altura, era o João Barnabé, o César Nascimento, o Osvaldo, o Aurélio Pereira quem trabalhava mais diretamente com os juniores. No Benfica era o Ângelo, o Eusébio e havia muitos miúdos. Nós íamos a um treino de captações e estavam lá uns 200, 300 miúdos para serem vistos naquela tarde. Era treino conjunto de duas, três horas seguidas, a ver se apanhávamos uns 30 minutos para ver se ficávamos para o dia seguinte. Fui sozinho, nunca foi o meu pai que me levou a lado algum; ele não tinha tempo para esse tipo de acompanhamento. Como estava a dizer, quem prestou mais atenção em mim, embora eu não tivesse ficado imediatamente, os outros eram mais fortes e melhores provavelmente, foram as pessoas da parte do Sporting, que começaram a acompanhar-me, a dar mais atenção. Mandaram-me lá ir no ano seguinte.

Foi?
Fui, claro. Chegou uma altura em que ia mesmo assinar, por instruções do Aurélio Pereira que estava com a equipa de juvenis, e salvo erro eu ia ser juvenil. Lembro-me que tínhamos tudo acordado, tudo falado e fui de férias com os meus pais para Vila Nova de Milfontes. E veio na página de "A Gazeta dos Desportos" que os escalões etários iriam mudar. E pensei: "Ao fim de tanto anos a tentar, agora que consegui isto ainda vai acabar mal". E assim foi.

O que aconteceu?
Quando nos apresentámos em Alvalade, mudaram os escalões e em vez de juvenil passei a ser júnior de primeiro ano. Era treinador o meu grande amigo Ângelo Tomé, de Setúbal. Ele já tinha a equipa dele formada e, além disso, na minha condição havia mais uns sete ou oito juvenis, mas que já tinham uns três ou quatro anos de Sporting. Num primeiro treino com o mister Tomé, ele tinha uns 50 jogadores para fazer escolhas e aquilo de que se falava era que ia fazer uma equipa que ficava no nacional e uma equipa para andar no distrital, mas que eventualmente poderíamos ser chamados à primeira equipa. Só que, com tanto jogador e com tanta qualidade - eu reconhecia a qualidade nos outros - num primeiro treino de duas horas... acho que joguei uns 15 minutos. Mas queria o meu lugar e no segundo dia lá estava eu. Num desses treinos, quando voltámos para o balneário, um jogador da minha idade, mas mais atrevido, o Chico Zé, disse: “Eu vou mas é para o meu Moscavide, raios os partam, estar aqui e jogar só um quarto de hora...”. Aquilo ficou-me no ouvido porque o Moscavide estava no Nacional de juniores, tinha um trabalho importante na formação e já me tinha feito um convite. Vim no caminho para casa a pensar: eles são melhores do que eu, não vou ter muitas hipóteses de jogar, para ficar sem jogar, vou ficar só com a vaidade de ter jogado no Sporting, mas provavelmente não vai ser bom para a minha carreira. No Olivais e Moscavide, se calhar, teria mais probabilidade de jogar e fazer o meu caminho. Não perdi tempo: no outro dia fui a Moscavide falar com as pessoas. "Vocês tinham-me convidado para vir cá, queria saber se ainda há interesse". No outro dia havia um treino contra a Petrogal, que era a minha ex-equipa, fiz golo nesse jogo, ganhámos esse treino e fiquei no Olivais e Moscavide.

Tinha quantos anos?
16 para 17 anos.

Nessa altura já ganhava dinheiro com o futebol?
Não, não nada.

É no Olivais e Moscavide que assina o seu primeiro contrato?
Nos Olivais e Moscavide fiz dois anos de júnior e aquilo que me pagavam era o passe social, mais nada.

Continuava a viver em São João da Talha?
Sim. E estudava em Chelas, no Liceu Dom Dinis.

Sempre quis ser jogador de futebol?
Sonhava com isso. Ia no autocarro de manhã para escola e imaginava-me numa equipa grande a ir para estágio (risos). Tinha esse sonho. Coisas que vivi mais tarde.

Vai para o Olivais e Moscavide e fica lá quanto tempo?
Faço dois anos nos juniores e, no segundo ano, quando termina o campeonato nacional, fui o único júnior que subiu imediatamente. O treinador que estava nos seniores, Vieira da Silva, foi um homem muito importante na minha vida. Ainda realizei quatro ou cinco jogos pelos seniores com idade de júnior e no ano seguinte fiz a primeira época de sénior no Olivais e Moscavide na 3ª divisão.

Notou muita diferença quando passou para os seniores?
Não, nós já treinávamos contra eles várias vezes e havia uma boa relação também entre o meu treinador de juniores, o mister Mateus e o Vieira da Silva. O treinador apostou muito em mim, porque quando iniciou a nova época.

É nessa altura que assina o primeiro contrato?
É. Pagavam-me 12 contos (60€) e o passe social.

Recorda-se o que fez com esse dinheiro?
Nunca fui de gastar, era de guardar para alguma coisa que quisesse.

Ficava com o dinheiro ou dava aos seus pais?
Os meus pais nunca me pediram dinheiro nenhum.

Namoros já havia nessa altura?
Tive duas namoradas na minha vida. Uma rapariga com quem namorei na altura do liceu, quando era júnior, e a mulher com quem casei já com 28 anos e que é a minha esposa hoje.

Como é que passa para o Vilafranquense?
Essa época no Olivais e Moscavide foi muito boa, ficámos a um ponto de conseguir a subida de divisão. Começou logo a falar-se de clubes maiores que andavam a ver, porque eu tinha sido o melhor marcador do campeonato. Fizera 19 golos e havia alguns clubes que pagavam bem melhor, ali na zona, o Sacavenense e o Vialonga. O Farense, que estava na I Liga, também andava a ver-me. Mas como o treinador Vieira da Silva foi para Vila Franca de Xira, e convidou-me, eu achei por bem continuar com um homem que estava a apostar em mim, mesmo indo ganhar menos. Na altura fui ganhar 60 contos (300€) para o Vilafranquense e ofereciam-me mais nos outros clubes, mas optei por ir com o homem que estava a apostar em mim. Foi um ano difícil porque era a primeira vez que o Vilafranquense estava na II divisão, tínhamos equipas fortíssimas, como a Académica de Viseu, o Beira Mar e o Feirense, que tinham descido da I divisão. Fizemos um campeonato muito interessante, fiz 14 golos com 18 anos. E, nesse ano sim, andava já toda a gente a ver.

Tinha empresário?
Não, nunca tive um contrato com um empresário. Tenho alguns amigos que são empresários, alguns já me ajudaram a encontrar clube ou a estabelecer contactos, mas as coisas na minha vida sempre aconteceram de uma forma natural, quer como jogador, quer como treinador, nunca tive um vínculo com um empresário. Naquela altura havia muito os olheiros dos clubes. Lembro-me e estar a jogar em Vila Franca e estar o Eusébio, o Zé Águas e o Mário Coluna encostados ao varão do campo pelado a ver o jogo. Estavam tão próximos que até intimidava. O Zé Águas chegou a falar comigo pessoalmente e com o meu treinador quando fomos jogar contra o União de Leiria. Mas o Estrela da Amadora tinha subido à I divisão com o Joaquim Meirim e havia um colega meu que tinha sido jogador dele e ele pediu-lhe para me levar à Reboleira. Uma manhã, estava em casa, antes de ir à Reboleira, e aparece-me um senhor que tinha sido meu diretor no Olivais e Moscavide nos juniores, o senhor Bilhas. Fiquei super admirado.

O que queria?
Disse-me: "As pessoas do Belenenses pediram-me para vir ter contigo porque querem que lá vás falar com eles". Fiquei muito contente, porque o senhor Bilhas tinha deixado de ser diretor no Olivais e Moscavide e foi diretor dos juniores no Belenenses. Fui à Reboleira falar com o Joaquim Meirim e disse-lhe: "Mister, não vou estar a enganá-lo, combinei ir amanhã ou depois de amanhã ao Restelo falar com as pessoas do Belenenses". Ele disse qualquer coisa do género: "Se eu gostava de ti, ainda estou a gostar mais porque o diretor de futebol do Belenenses mora porta com porta com o senhor Glicínio e eu sei que tu vais ao Restelo. Ainda bem que não estás aqui a enganar-me. Vai lá ao Restelo, fala com eles e se as coisas não funcionarem, depois nós conversamos". E assim foi. Fui ao Restelo e assinei o primeiro contrato de três anos com o Belenenses.

No primeiro ano quem era o treinador?
Eu fui ao Restelo antes do campeonato terminar, um campeonato em que o Belenenses fica em 3.º lugar. Nessa altura em que vou lá, o treinador é o Marinho Peres. Assino e vou logo numa digressão que o Belenenses fez em Moçambique para pagar qualquer coisa da vinda do Chiquinho Conde. Eu ainda era jogador do Vilafranquense, mas já fui nessa digressão de final de época.

Paulo com a mulher e filhas

Paulo com a mulher e filhas

D.R.

Estava a contar que assinou ainda com o Marinho Peres como treinador…
...Mas quando começámos a nova época, o treinador era o John Mortimore.

Que tal, muito diferente dos que teve até aí?
Foi o meu primeiro treinador estrangeiro. Em termos de método, não houve assim nada que eu visse de muito diferente em relação ao nossos e não houve nada que eu estranhasse em relação ao que, por exemplo, o meu treinador Vieira da Silva fazia. Era uma pessoa muito rigorosa, já tinha trabalhado no Benfica, mas não falava nada de português e não se esforçava para tal. Mas era um bom treinador, que puxava por nós. Foi um treinador que apostou em mim e eu na altura fui chamado à selecção de Sub 21.

Foi a primeira chamada?
Foi, mas não cheguei a ser internacional porque, na véspera, num jogo em que ele me colocou a jogar, eu fiz a primeira rotura muscular da minha vida. Não sabia o que era e só parou na sala de operações.

Como assim?
Foi uma rotura muito profunda na parte frontal da coxa. Eu nunca tinha sentido uma dor assim e forcei a treinar porque foi na altura em que ele me pôs a jogar, eu não queria dar parte fraca e perder o comboio. O Carlos Ribeiro, que era o nosso lateral direito, dizia-me: "Paulinho pára, olha que eu já tive isso". E mostrava-me uma cicatriz que tinha na coxa. Mas eu não queria parar. Um dia, estávamos a fazer uns intervalados, a abrir a passada muito forte em 100 metros, eu ia com a "gazela" do Chiquinho Conde, dois a dois, costumo dizer que se não fosse a bola, eu tinha sido um jogador de top, a bola é que me atrapalhava às vezes um bocadinho (risos). Agora, nunca tive problemas de trabalhar ao lado de quem fosse. Trabalhava bem, trabalhava muito e, então, ia a dar o máximo com o Chico, mas o músculo prendeu mesmo e fiquei ali um bocado atrapalhado, tive de sair do treino. Ainda fui fazer testes antes da ida a Chaves. Estive uma semana a fazer tratamento e, no dia do jogo, em casa, estava lesionado, mas cheguei para ir ver o jogo e o doutor Camacho Vieira antes de me dizer "bom dia", disse-me assim: "Paulo amanhã às oito da manhã em jejum no hospital”. "Então doutor?!". "Com a idade que tu tens, é melhor deixar isso tudo limpinho do que ficares aí com fibroses". Aquilo foi uma surpresa, não estava nada à espera. Nesse dia fui operado - eu e o Zé Rafael que estava com um problema no tendão de Aquiles e que nunca mais conseguiu voltar a jogar como deve ser. Eu perdi quatro meses. Perdi o comboio da selecção com essa lesão.

E nessa época não jogou muito mais?
Essa época passeia-a no departamento médico. Depois da lesão, foram mais de quatro meses. Entretanto, dá-se o regresso do Marinho. Eu com o Mortimore participei em vários jogos da Taça, na caminhada para a conquista da Taça, mas quem treina nessa final é o Marinho Peres, que regressa. Ganhámos a Taça com os golos do Juanico e do Chico Faria.

Foi o seu primeiro título.
Foi. Há coisas muito caricatas e nós, ainda hoje, no dia da Taça de Portugal juntamos o grupo; temo-lo feito aqui bem próximo de Torres Vedras. Vemos a final da Taça e confraternizamos durante todo o dia. Temos feito esse encontro já há uns sete anos. Com o Jorge Martins, o Jaime, o Sobrinho, essa rapaziada toda.

Na época seguinte tem Mladenov, Dominguez e um brasileiro, Moisés Andrade, como treinadores.
Sim, o Dominguez era o adjunto do clube, estava sempre lá, fazia a transição. Esse senhor, o Hristo Mladenov já tinha treinado em Portugal o Farense, era uma figura muito caricata. Era uma pessoa muito esforçada, de uma grande humildade, que tentava passar as ideias mas acho que o grupo estranhou muito. A relação com o Marinho era de responsabilidade, mas uma relação de irmãos, quase, de muita liberdade, de muita comunicação. E passar para uma relação com uma pessoa que tinha muitas dificuldades em comunicar... Lembro-me de irmos aos pastéis de Belém e lá estava ele com um dicionário e um caderninho, onde escrevia em búlgaro e traduzia à maneira dele, não havia os translators de hoje dos telemóveis e escrevia à maneira dele. E, depois, no balneário ia tentar comunicar connosco em português. Aquilo não funcionava de forma alguma, porque não fazia sentido. A dada altura ele desistiu.

Não havia tradutor?
Não. Depois veio o Moisés. Uma pessoa muito carismática, gostei muito de trabalhar com ele. Tinha sido um bom jogador e era um óptimo treinador. Na época seguinte ele continua mas regressa o Depireux que já lá tinha estado na II divisão, um ano ou dois antes do Marinho. Depois veio o António Lopes, que foi adjunto do Zé Galo na seleção brasileira quando foram campeões do mundo, e foi campeão no Brasil com o Atlético Paranaense. O António Lopes apostou muito em mim.

Nessa época vocês contam também com o Chalana.
Exatamente.

Que já estava em final de carreira…
Estava em final de carreira, mas depois de estar comigo no Belenenses ainda foi fazer uma época ao Estrela da Amadora. Foi um prazer enorme pelo homem que ele é e pela qualidade que ainda mostrava já com idade avançada. Uma humildade de pessoa, uma jóia, adorei. Somos amigos até hoje.

Ensinou-lhe alguma coisa, lembra-se de algum conselho?
Lembro-me de muitas coisas, mas não era esse tipo de pessoa. Era uma pessoa que vivia muito a vidinha dele, no canto dele, mas muito engraçado, muito afável. A entrada do António Lopes foi dura para alguns dos mais velhos, mas para mim foi muito boa. Ele esteve dez jogos no Restelo e eu joguei os 90 minutos de nove jogos. No décimo jogo não joguei e ele foi despedido. Como apostou muito na juventude, alguns dos mais velhos, como foi o caso do Chalana, foram bastante penalizados. Durante algum tempo a coisa até correu bem mas depois descambou. E uma temporada com três, quatro treinadores não pode de forma alguma terminar bem.

Desceram de divisão, o Paulo continua e quem vem a seguir é o Abel Braga.
Que considero talvez o treinador com quem mais me identifico, de todos com quem trabalhei. Aprendi muito com ele. Identifico-me muito com aquele tipo de liderança dele.

Consegue caracterizar?
Há muitos que apregoam determinadas coisas, mas na prática não o fazem. Quando falamos de valores, da honestidade, de carácter, quase todos o apregoam, mas muitos jogam na base do truque, são bons actores. E o Abel não, o Abel o que é branco, é branco, o que é preto, é preto, olho no olho, sem tangas, aquilo que tem de dizer, diz. Nada se faz nas costas de ninguém e eu identifico-me muito com isso. Para além dos conhecimentos deles sobre futebol. Sempre com um bom preparador físico que trabalhava com ele, o professor Rui Oliveira, aqui de Mafra. Trabalhámos dois, três anos juntos e identifico-me muito com ele.

Paulo Sérgio no dia da entrevista, em Torres Vedras

Paulo Sérgio no dia da entrevista, em Torres Vedras

Nuno Botelho

Por que saiu do Belém?
Estive cinco anos no Belenenses e tinha mais dois anos de contrato. No final dessa quinta época estava a temporada a chegar ao fim, fui convidado a renovar por mais dois anos. Nesses dois, três anos, desde a II liga, fui capitão da equipa muitas vezes. O Abel fazia rodar a braçadeira entre três ou quatro elementos e eu era um deles. Acertámos os valores, eu não fui escrever no papel porque o presidente não estava, mas estava tranquilo. Ao fim de cinco anos sentia muito o Belenenses, como sinto até hoje. Se me perguntarem qual é o meu clube, digo que sou Belenenses. Deixei de seguir outros clubes grandes da forma que seguia até então. Apalavrámos um acordo e para mim era como se estivesse escrito. No dia da apresentação para começarmos a nova temporada, quando regresso e me apresento no dia do primeiro treino, um colega diz-me que estão a chamar-me para ir ao escritório e pensei que era para ir assinar o contrato. Nós dali seguíamos para Mafra, para a Tapada, para onde íamos fazer muitas vezes as pré-épocas. E, quando cheguei ao escritório, estava lá o doutor Carlos Janela, estava o Pascoal, a dizer: "Eh pá, temos que ver aqui os valores que acordamos". Queriam tirar-me uma parte substancial dos dois anos de contrato e eu tinha visto que, poucos dias antes, tinham comprado um jogador brasileiro por uma pipa de massa.

Qual foi a sua reação?
Esperava tudo menos aquilo: a falta de reconhecimento por aquilo que eu tinha dado, tudo o que me apliquei e a forma como sentia o clube e o que ajudei de todas as formas possíveis e imaginárias. Senti-me injustiçado e disse-lhes que podia voltar para o Olivais e Moscavide para ganhar 60 contos, mas não aceitava nem menos um escudo do que aquilo que tínhamos combinado. Nisto, chega o Abel, contei-lhe o que se estava a passar e que me ia embora. O Abel foi lá dentro e quando quando saiu disse: "Já falei com eles, não facilites". Pensei: bem o Abel deu-me uma ajuda. Mas quando voltaram a chamar-me, a conversa era a mesma. Eu nervosíssimo, de lágrima no canto do olho, mandei-os à mãe, toda a gente a chamar-me para irmos para o campo, eu peguei no carro - na altura não havia telemóveis - e fui direito a São João da Talha, para casa, não fui para Mafra.

O que aconteceu depois?
Cheguei a casa e sabia que havia clubes na I Liga, como o Salgueiros, o Paços de Ferreira, o Tirsense, que me queriam e que tinham perguntado por mim. Por isso, quando cheguei a casa, peguei nas Páginas Amarelas, podia ter sido no "T", mas foi no "P" e liguei para o Paços de Ferreira: "Olhe o senhor Vítor Urbano está por aí, posso falar com ele?". Eles estavam a jantar num restaurante, pedi o número e liguei para lá. Passado um bocado vem o Vítor Urbano ao telefone e eu: "Ó mister, é o Paulo Sérgio, o ponta de lança do Belenenses, passou-se isto, assim e assim e eu não aceito que me façam isto, portanto como soube que vocês estavam interessados, é para saber se o interesse se mantém". Eles já tinham começado a pré época e tudo. "Eh pá, dá-me só um bocadinho que já te ligo de volta". Passado meia hora ligou-me: "Podes vir para cima amanhã?". "Sim". No dia seguinte, fui direito a Paços de Ferreira, fui de avião, houve um empresário que ia levar um jogador ao aeroporto, pegou em mim e levou-me a Paços. Acertei tudo com os homens, no outro dia viajei para Lisboa e fui ao Restelo. Estava lá o Janela. “Quero a rescisão. Vou para o Paços de Ferreira".

Houve um problema com a rescisão...
Houve, o Belenenses prejudicou-me bastante. Quando cheguei ao Restelo e disse: "Amanhã vou apanhar as minhas coisinhas e vou direito a Paços de Ferreira". Quando fui lá no outro dia, o que me disseram foi "A gente deixa-te ir mas tens de assinar dois anos pelos valores que nós queremos". Portanto, acabei por assinar esses dois anos, tive sete anos de contrato com o Belém, e eles com a promessa de me emprestarem esse ano ao Paços de Ferreira. Perguntei às pessoas do Paços se estava bem assim, deram o OK e eu fui para cima. Comecei a treinar em Paços e, passados dois ou três dias, o Abel Braga deu um murro na mesa em Mafra. Que me queria, que me queria, que me queria.

E então?
Estou a jantar em Paços de Ferreira e de repente um senhor do restaurante: "Algum dos senhores se chama Paulo Sérgio?". "Sou eu". "Está aqui uma pessoa para falar consigo." Eu atendo o telefone e reconheci logo a voz do Janela. "O que é que tu já assinaste?". “Assinei aquilo que vos disse". "Tens de vir para baixo. O Abel zangou-se…”, etc, etc. O Belenenses é o meu clube, mas eles é que tinham de se entender com os homens do Paços. Conclusão: no dia seguinte estavam quatro ou cinco dirigentes do Belenenses a reunir em Paços para me levar para baixo novamente. Só que as pessoas do Paços não facilitaram. Com este braço de ferro entre o Belenenses e o Paços de Ferreira, eu só pude ser inscrito e jogar à 4.ª jornada, o que me fez perder o comboio inicialmente. Nesse sentido o Belenenses prejudicou-me.

Não se lembra de nenhuma história para contar dos tempos no Belenenses?
Lembro-me de uma em que num almoço, ou num jantar no ano da II Liga, ainda faltavam alguns jogos para terminar mas confirmamos a subida em Loulé. E estava lá a direção toda em peso, queriam lá estar todos no dia da festa, e o Emerson, que mais tarde foi para o Porto, fazia anos e a dada altura... Bom, lembro-me de que havia ali uma feira qualquer que tinha uns peluches e vi que tinham um macaquinho (risos)... Isto hoje vão-me chamar racista como fizeram com o Bernardo.

Conte lá. E depois?
Eu comprei o macaquinho, um peluche, e combinei com o doutor Miller que costumava vir aos nossos encontros, eu a deitar-me com o macaquinho debaixo do fato de treino em cima de duas mesas e o doutor fazia o parto. Eu para ali aos gritos, ai, ai, ai, ai (risos). É uma pena na altura não termos os telemóveis para termos isto registado. E de repente, ninguém sabe o que é que se está a passar, sei eu, o doutor Miller e mais um ou dois que estão a participar no parto, a segurar-me nos braços e nas pernas….Estavam os diretores, as esposas, estava tudo nas mesas, ninguém sabia o que é que se passava. Quando o doutor saca o macaquinho debaixo do fato de treino, imediatamente começa tudo a cantar os parabéns ao Emerson. Foi um cena brutal, o nascimento do macaquinho, o nascimento do nosso Emerson, foi um momento espectacular.

Nuno Botelho

Ficou no Paços e é a primeira vez que sai de casa dos pais. Como é que foi?
Fui viver sozinho. Adaptei-me. Em casa dos meus pais a única coisa que fazia na cozinha era aquecer a comida quando a minha mãe deixava alguma coisa. Naquele momento passei a cozinhar porque fartava-me de ir aos restaurantes, não gostava. Ligava à minha mãe: "Agora como é que faço? E agora faço como?" E foi assim que comecei e hoje gosto bastante de cozinhar.

No Paços de Ferreira é dirigido por Vítor Urbano, Jaime Pacheco e Carlos Padrão, nos últimos quatro ou cinco jogos. Muito diferentes uns dos outros?
O Vítor Urbano estava a fazer um excelente trabalho. Lembro-me que no fim da primeira volta estávamos em 6º lugar. Penso que, quando tiram o Vítor Urbano e trazem o Jaime, os diretores do Paços tinham a expectativa de matar dois coelhos com uma cajadada. Isto é, ter um treinador, mas que também viesse jogar o resto da temporada pelo Paços. A dada altura, o Jaime fez a rescisão em Braga e, quando chega a Paços, passado pouco tempo, os dirigentes apercebem-se que ele não pode jogar, só pode ser treinador. Houve ali qualquer coisa que ficou desconfortável entre eles, porque o Jaime acho que não se apercebeu que, na rescisão, não poderia voltar a jogar nessa temporada e isso criou algo de estranho entre eles. Houve uma quebra de confiança, ficaram desconfiados. Os resultados também não vierem e o Jaime esteve lá cinco jogos, salvo erro.

Como é que era o Jaime Pacheco nesse altura como treinador?
O Jaime era louco (risos). É uma pessoa de quem gosto muito, é um autêntico, um genuíno, cada vez que nos vemos é uma festa, mas era louco. Matava-nos com a corrida. Ele na altura não tinha adjunto, era ele sozinho. Era correr, correr até à morte e às vezes nós já nos esquecíamos da bola, era só correr. (riso). Lembro-me que, depois, foi treinar o Lamas e ainda me tentou levar para lá. Quando ele foi treinar o Vitória de Guimarães, eu tinha lá um “irmão”, o Pedro Espinha, guarda-redes. E disse ao Pedro: "Agora é que tu vais ver o que é correr. Depois vais-me contar. Vais correr até morrer" (risos). Passado algum tempo, estava à conversa com ele, e ele diz-me: "Nada do que me disseste se verifica". Acho que foi quando o Jaime começou a ter sucesso e o professor Natal juntou-se a ele. Houve provavelmente ali um conhecimento enorme de futebol que o Jaime tem, com uma metodologia se calhar mais certa, e começou a ter resultados. E foi uma coisa memorável, ter sido campeão no Boavista, não é para qualquer um.

Como se dá a passagem para o Salgueiros?
A época terminou no Paços e o Mário Reis, treinador do Salgueiros, mandou uma pessoa ir falar comigo. Eu fui ao Vidal Pinheiro, assinei contrato, vim cá abaixo dizer ao Belenenses que não ia ficar, que ia embora.

Qual foi a reação dos dirigentes do Belenenses dessa vez?
Foi a seguir à última jornada. Nós perdemos 3-1 em Alvalade e no dia seguinte estava no Restelo, onde estava montes de gente para resolver casos pendentes. O doutor Janela estava-me sempre a dizer quando eu jogava lá: "Paulo, toda a gente vem aqui chatear ao gabinete e tu nunca aqui passas, nunca me dizes nada". "Não tenho nada para dizer". Naquele dia estava lá tanta gente e eu não estava para brincadeiras e bati-lhe à porta. Ele entreabre a porta e quando me vê: "Eh pá, ó Paulo...". E vejo por entre a porta aberta que lá dentro estava o treinador, o Zé Romão com um fulano que se calhar não devia estar ali. "O doutor estava a sempre a dizer que eu não vinha cá, vou ser curto e grosso. E não se incomode porque eu não tenho nada a ver com o que se está a passar aí dentro, só quero esclarecer a minha situação. Vou para o Salgueiros e quero a rescisão, mas desta vez venho buscá-la em mão amanhã, não me vão fazer a mesma coisa do ano passado." E ele: "Mas está aqui o mister", abriu-me a porta, eu cumprimentei o Romão e o outro que era meu colega no Paços e disse-lhe: "Mas o mister ainda não me disse nada. Se ele já cá está no clube há quatro, cinco meses, se tivesse interesse em que eu regressasse, já me tinha dito alguma coisa. Portanto, quero a rescisão e vou para o Salgueiros”. Desta vez foi mais pacífico e fiz essa temporada no Salgueiros. Se calhar com um dos melhores grupos que tive.

Gostou do treinador Mário Reis?
O Mário Reis treinou-me em duas situações. No Salgueiros e mais tarde no Setúbal. O Salgueiros era a casa dele, deve ter treinado durante uns 10 anos ou mais, tipo o Ferguson. Tinha uma grande colaboração do presidente, o já falecido José António Linhares, que foi dos melhores presidentes que eu tive. Amigo dos jogadores. Eu só tenho a falar bem da pessoa. Foi um presidente excelente enquanto lá estive e tínhamos um grupo de amigos, uma família.

O que mais o marca nessa época?
Dessa época tenho uma coisa que é inesquecível. Um dia fomos jogar às Antas com o Futebol Clube do Porto e o Mário Reis tinha os dois únicos centrais indisponíveis, porque estavam à bica do amarelo que dava castigo. E o jogo seguinte ao jogo contra o Porto era um jogo muito importante para nós, para a manutenção. Então o Mário Reis não arriscou usar os dois centrais e joguei eu a defesa central e o Vinha.

Que tal é que correu?
Levámos quatro, não correu mal, podia ter sido pior (risos). O Domingos e o Yuran na frente e nós lá andámos atrás deles ... Essa é uma daquelas. Mas desse ano há tanta tropelia, tanta tropelia, um grupo super divertido.

Conte lá uma história que se lembre.
Eu pertencia a um grupo de seis ou sete que vinha sempre a jogar às cartas no autocarro, à lerpa, ao sobe e desce. Jogava sempre e o meu lugar era um daqueles dois de trás, não era o último mas era por ali e era ali que nós costumávamos sempre jogar às cartas. Um dia, íamos jogar a Leiria, chegámos à Marinha Grande e, assim ,que chegámos, tínhamos uma ou duas horas antes do jantar e eu fui descansar um bocadinho, não fui logo jogar. Alguém tomou o meu lugar para jogar às cartas. A seguir ao jantar íamos jogar uma ou duas horas e eu, que jogava sempre, queria jogar, mas o que entrou no meu lugar, acho que estava a perder e queria recuperar e fez feio: "Não saio nada, agora estou a perder e tenho que recuperar". Aquilo prolongou-se mais do que era esperado. Saí para o corredor e o que é que me vem à cabeça: uma irresponsabilidade. Estava um extintor e eu que nunca visto o que é que um extintor fazia, parti o selo, abri a porta do quarto e dei duas bombadas no extintor. Nem queira saber (risos). Eu assustei-me com o que duas bombadas do extintor fizeram. Ninguém via a um metro e como o pó estava a querer vir para dentro do corredor, fechei a porta, fiquei ali agarrado à porta e eles aflitos dentro do quarto.

O que fizeram?
Fugiram todos para a varanda. Ao fim de um tempo vi que já não havia força na porta, pus o extintor no sitio e fui para fora do hotel. Quando saí, e isto passados uns cinco minutos, estavam seis ou sete, os que estavam dentro do quarto, numa varanda com uns dois metros quadrados, todos com o pescocinho de fora para não estarem a respirar aquilo, porque pensavam que eu ainda estava segurar a porta (risos). Fiquei à espera do pior, que aquilo desse bronca. Havia uns chateados comigo, outros riam-se, mas ninguém deu com a língua nos dentes, nunca fui chamado à razão por causa dessa asneira. Mais tarde tive de ir ajudar a limpar o quarto, com mais três ou quatro, com as toalhas, porque aquilo ficou com pó em tudo o que era fresta.

Mariana, Joana e Sandra, as filhas e mulher de Paulo Sérgio

Mariana, Joana e Sandra, as filhas e mulher de Paulo Sérgio

D.R.

Setúbal, como é que lá vai parar?
Um telefonema direto do Quinito.

Uma fígura ímpar.
É. O Quinito é o homem e a forma dele liderar. Tem um carinho especial, uma forma especial de comunicar com os atletas.. Há um episódio que tenho com ele e que revela a habilidade que tinha. Eu vivia num apartamento que era colado ao Estádio do Bonfim e, numa quarta-feira, adormeci e atraso-me para o início do treino. Estava tão ferrado que ligavam-me, mas não ouvia, até que houve um que foi bater-me à porta. Acordei, vi que estava atrasado e abalei a correr. Estou a entrar na relva, eles estavam a terminar o aquecimento. Fui ter com ele e disse: "Mister desculpe, adormeci, peço-lhe desculpa. Não venho aqui com tangas, ontem deitei-me tarde e não ouvi o despertador". E ele: "Ok, dá aí duas voltinhas e entra aqui na equipa de vermelho". Ia fazer um torneio de cinco contra cinco ou seis contra seis. Isto passou-se quinta-feira de manhã, passou-se a sexta, passou-se o sábado, tudo normal, domingo ele vai dar a palestra antes do jogo, eu vinha jogando, costumava ser titular, estava a fazer uns golos, e ele dirige-se ao grupo e diz: "Temos aqui um jogo difícil, uma equipa difícil, precisamos de homens. Precisamos de homens de barba rija para ganhar este jogo. Precisamos de homens como o Paulo". Um gajo ouve aquilo e fica inchado não é?. E ele continua: "Chegou aqui na quinta-feira, adormeceu, não veio com tangas, nem com mentiras, disse-me que se tinha portado mal na noite anterior e por isso é que não acordou. Não veio cá com mentiras, nem com tangas. Não vai jogar, mas também já não ia, não é por causa disso". Quando eu menos esperava (risos), deu-me um doce com uma mão e uma paulada com a outra. Este tipo de coisa com o Quinito era muito frequente.

Agora conte-nos lá o que é que esteve a fazer? Portou-se mal como?
Portei-me mal, mas honestamente não era hábito.

Noitadas?
Era no dia do jogo, a seguir ao jogo nós íamos sair, nunca escondemos isso de ninguém. Naquela altura éramos solteiros, bons rapazes, íamos jantar e depois íamos dar a nossa volta, própria da idade, no dia seguinte era folga. Durante a semana era muito raro, mas isso aconteceu. Não sou mentiroso, isso aconteceu meia dúzia de vezes durante a minha carreira. Mas eu não escondia que a seguir ao jogo saía. O treinador sabia, muitas vezes os treinadores saíam connosco. Cheguei a estar num convívio a seguir a um jogo, onde estava o Bobby Robson, o Abel Braga, jogadores do Sporting, nós. Essa que me aconteceu em Setúbal foi durante a semana, foi uma fugida que dei a Lisboa. Foram dois erros, fazer a asneira e ser apanhado. Mas podia ter inventado uma qualquer mentira e não o fiz. Fui honesto. Queria que o Quinito soubesse pela minha boca e não por outra pessoa.

Essa é a época da subida.
É, subimos de divisão em Setúbal, com o Quinito.

Ele não fica porquê?
Eu adoro o Quinito, ainda há pouco tempo houve uma homenagem em Setúbal onde estive presente e lamento o momento que ele vive hoje de profunda tristeza. Estivemos os dois a conversar sobre isso. Adoro o Quinito, mas ele enquanto profissional comigo não foi justo e eu nesse final de época tinha tudo acertado para ir para Faro, com o Paco Fortes. Tinha mais um ano de contrato com o Setúbal, mas tinha tudo acertado para ir. O Ricardino Neto e o Paco Fortes falaram comigo. O Quinito saiu e o Mário Reis vem e é ele que diz: "Não, tu não sais para lado nenhum, ficas aqui comigo". E tive de dar o dito pelo não dito às pessoas de Faro. Porque se o Quinito continua e eu repito, adoro o Quinito, é um amigo, mas se ele continuasse, eu tinha saído.

Mas porquê? O que é que não lhe agradava?
Porque a II Liga foi muito fácil para o grupo de trabalho que tínhamos, posso dizê-lo assim. Éramos muito melhor do que os outros. E ao ficar tão fácil o Quinito, e eu percebo o ponto de vista do clube, teve liberdade lançar uma série de jovens de grande talento, de uma equipa que tinha sido campeã nacional de juniores. É a equipa de onde sai o Carlos Manuel, o Sandro, o Portela, o Rolo, o Bruno Ribeiro, o Mamede. Havia ali muito bom jogador em Setúbal, o José Carlos Pires, o José Carlos Barbosa. Nós tínhamos uma vantagem confortável, mas não fomos campeões nacionais e deveríamos tê-lo sido. É um título que não temos, mas que devíamos ter no nosso currículo, porque isso permitiu o Quinito fazer todo o tipo de experiências, apostando nos miúdos e os mais velhos acabaram por ser um pouco prejudicados. Do ponto de vista do clube eu percebo, mas obviamente do ponto de vista individual não posso esquecer de que aquilo para mim não foi bom. Venho de uma sequência de três jogos a marcar e de repente apanhei um cartão amarelo e fiquei de fora no jogo seguinte e no outro não me deu a titularidade novamente. Havia essas mágoas que tinha com ele, ele sabia. Eu estava lá sentado à espera que ele chegasse para resolver as coisas, queria-me ir embora. Ele ainda vinha lá no carro a 100 metros: "Ó Paulinho, não te vás embora que eu quero falar contigo". Era ele logo a acalmar-me (risos).

Vem o Mário Reis mas a coisa não corre bem.
Foi um ano, aliás foram dois anos, do ponto de vista financeiro, muito complicados em Setúbal. No final do segundo ano eu queria casar e o Vitória de Setúbal devia-me nove meses, quatro do primeiro e cinco do segundo.

Como é que conhece a Sandra?
Tinha um amigo meu, de há vários anos, que tinha uma irmã e eu não sabia. E um dia aparece-me com ela em casa (risos). Eu tinha-o convidado para um petisco em minha casa, em Setúbal, e quando ele aparece com ela em casa, digo-lhe: "Então, namorada nova?!". E ele: "Estás parvo, não vês que é a minha irmã?" (risos). Não começamos logo a namorar, mas foi assim.

O que é que a Sandra fazia quando a conheceu?
Trabalhava como técnica de turismo numa agência de viagens. Mas não começámos logo a namorar, havia essa responsabilidade de ser irmã de um amigo meu, não se pode arriscar e depois perder o amigo. Depois nem a namorada, nem o amigo (riso). Levámos algum tempo, mas estamos aí até hoje.

Quando é que começaram a namorar? No primeiro ou no segundo ano do Setúbal?
No segundo. Namorámos nove meses. Ao fim de quatro meses pedia-a em casamento, na passagem do ano.

Muito bem. Estava a contar que o Setúbal na altura estava com nove meses de ordenado em atraso?
Nós estávamos muito bem no campeonato, em 5.º ou 6.º sexto lugar, e o Mário Rei,s em dezembro, saiu para o Boavista. Ficámos ali um período com o Mourinho Félix e depois vem o Manuel Fernandes.

O Manuel Fernandes é outra figura...
É uma pessoa conhecedora do jogo... Mas passávamos o tempo a ver vídeos de quando ele fazia golos (risos). É uma pessoa extremamente orgulhosa do seu passado, obviamente, mas a dada altura aquilo não fazia muito sentido, estarmos a ver os golos que ele marcava em 1980. Mas pronto, ele como ponta de lança, naquela fase de minha carreira, ensinou-me algumas coisas.

Pode dar um exemplo?
Determinados posicionamentos, formas de atacar a bola, acho que deu um contributo positivo tecnicamente à minha posição.

Paulo com pais e irmão

Paulo com pais e irmão

D.R.

Depois vai para o Feirense.
Termina a época do Setúbal na I Liga e o doutor Campos Coroa queria que fosse para a Académica, mas recebi um convite para ir ao Toluca, no México. Já estava casado, tínhamos vindo de lua de mel de Cancun e estávamos com isto na mesa. Ou vou para Coimbra assinar com a Académica ou vou ao México. Isto do México passava por treinar quatro dias com eles, para o treinador ter a certeza das minhas características. Estava à espera das passagens para ir ao México, quando, um dia a almoçar em casa, num sábado, toca o telefone. Era o doutor Campos Coroa. Como os homens nunca mais mandavam as passagens eu disse-lhe:"Doutor os homens não mandaram as passagens, segunda-feira estou em Coimbra para nós acertarmos tudo". Não demorou trinta minutos e tocou o telefone a dizer que tinha as passagens no balcão da TAP no aeroporto em Sacavém (risos). Pego no telefone_ "Ó doutor parece mentira, estamos uma semana à espera disto, eu digo-lhe isto e passados 30 minutos estão-me a dizer que tenho as passagens para embarcar amanhã. Agora, só vou se você desobrigar-me da palavra que lhe acabei de dar. Se você me disser que tenho de estar aí na segunda-feira, eu estou ai. A proposta é muito superior à que você me está a oferecer, estou com 29 anos para 30, isto era muito interessante para mim, mas se você me disser que segunda-feira tenho de estar em Coimbra, eu estou".

O que lhe respondeu?
Ele que é assim uma pessoa desabrida a falar... "Eh pá vai lá para o car.... está bem, vai lá, desaparece". "Isto são três dias e eles podem dizer que não sou eu o homem que eles querem, eu ligo-lhe imediatamente e você conta comigo". "Está bem, dou-te mais três dias". E lá fui para o México. Estive segunda, terça, quarta, quinta-feira começava o campeonato e, na quarta-feira de manhã, já estava nos jornais de Toluca: “Paulo Sérgio o quinto estrangeiro eleito”, blá, blá, blá. Fomos para o treino, eles iam viajar a seguir ao treino e o gerente do clube veio ter à relva: "Então Paulo, queres ficar connosco?". "Claro, então vim cá foi para isso". "Ok, a seguir ao treino, passa ali no gabinete". Lembro-me que estava a tomar duche e estava o Zé Carlos, que era o defesa central do Futebol Clube do Porto, e que tinha sido estado emprestado ao Marítimo já no final da última época, e eu a dizer-lhe: "A ver se arranjamos casa perto um do outro". Quando acabámos de tomar duche e fomos lá, encontrámos um reboliço, uma coisa brutal.

Então?
Porque à uma da tarde no México são aqui sete da tarde. Ninguém estava na Praça da Alegria, na antiga sede da Federação em Portugal, porque já tinha fechado. Não havia ninguém para enviar certificados internacionais. À meia-noite no México, que era quando as inscrições já tinham de estar encerradas, são aqui sete da manhã, portanto não havia horário, digamos assim. E eu fico agarrado ao contrato no México por esta situação. Mas o mais grave é que, nesse dia, eles viajaram, era a primeira jornada, não estava ninguém no clube, nem tive treino. Passados dois dias, quando chegam, a solução era eu ficar na equipa B até novembro, quando reabria o mercado, e depois passavam-me para a primeira equipa. Mas eu pensava: “Eu não vim cá para tirar fotografias, a proposta é que me interessa para organizar a minha ida”. Só que isto impediu o meu regresso e o meu telefonema ao Campos Coroa para regressar e ir para a Académica.

Porquê?
Porque o empresário desapareceu, foi colocar um treinador, salvo erro na Colômbia, eu já estava ali há uma semana, não disse nada ao Campos Coroa, portanto, ia ficar. Passou uma semana, 10 dias, eu a treinar, a treinar, sempre com a primeira equipa e nada. E há um dia em que acaba o treino e fui ao escritório falar com o gerente que me diz que estava à espera que o tal empresário voltasse, era um tal de Aurélio. Eu tinha a passagem de regresso, andava sempre a adiar a passagem mais um dia, mais uma semana. Cheguei ao hotel, tinha lá a agência de viagens, perguntei se tinham voo para aquela noite. Fui ao quarto, apanhei as coisas, deixem montes de coisas lá que já tinha comprado, uma série de bugigangas, ficaram lá no quarto e algum empregado ficou com aquilo. Meti a mala no carro, não disse nada a ninguém, direito à Cidade do México. Quando vi o aeroporto que estava à esquerda, tinha uma placa que me obrigava a dar uma volta aquele quarteirão, andei ali meia hora, às tantas vi um passeio espaçoso meti o carro lá em cima, tranquei o carro, abri a mala, tirei as minhas coisas, atirei a chave para dentro da mala, fechei a mala, fiz 500 metros a pé e vim embora. Quando cá cheguei, falei com o Campos Coroa. Tratou-me mal ao telefone: "Ainda por cima pá, o brasileiro que aqui meti é uma merda" (risos). Só que, entretanto, o Feirense ligou-me, porque estava lá o Chico Oliveira, que tinha jogado comigo no Salgueiros, sabia que eu estava livre. Não estava muito feito a ir, mas acabei por ir para o Feirense.

Mas esteve lá pouco tempo.
Até novembro, até abrir o mercado, porque o Campos Coroa queria-me na Académica. Então, rescindi com o Feirense. Tinha tudo tratado para ficar em Coimbra e, à última da hora, o Henrique Calisto disse ao presidente: "O Benfica empresta-nos o Martin Pringle, se calhar ficamos melhor servidos". Depois de rescindir com o Feirense fiquei pendurado na Académica. O Pringle acabou por não ir, eu fiz-me à estrada e naquele momento tive os convite do Santa Clara e do Portimonense. Na altura, estavam os dois na segunda B, para subir de divisão. Negociei com os dois, ainda fui a Portimão, passei lá a passagem do ano com a Sandra, mas a proposta do Santa Clara era superior e acabei por ir para o Santa Clara.

Que correria. E que tal os Açores?
Adorei. Adorei São Miguel, é fabuloso, com uma grande qualidade de vida.

Apanha Álvaro Magalhães e Manuel Fernandes. Sobre de divisão mas não fica.
Não fico e acho que o Manuel aí não se portou à altura comigo. Eu até estive zangado com ele, nem lhe falava, mas isso já passou, coisas que já lá vão. Porque na última jornada fomos campeões nacionais, subimos de divisão, e, na última jornada, que foi na Figueira da Foz, com a Naval, acordámos a minha continuidade; negociámos na véspera à noite e havia duas propostas. Ou era para mais um ano, e era uma proposta, ou para dois anos, que era a outra proposta, com outros números. Era uma questão de saber se ia renovar por um ou dois anos. O Manuel queria que eu continuasse e mandou falarem comigo. Só que os do Continente já não regressaram à ilha, eu depois desse jogo já viajei para casa e fiquei à espera.

Nessa altura a sua casa era aonde?
Ainda não era aqui em Torres Vedras, ainda era no nosso primeiro apartamento em São João da Talha.

Foi pai entretanto?
Fui pai quando estava no Santa Clara. Mas a Mariana nasceu em Lisboa. Pedi autorização ao Manuel para me deixar vir a Lisboa e ele deixou. Assisti ao parto, cortei o cordão umbilical e tudo.

Estava a contar que tinha acordado ficar no Santa Clara.
Mais um ano ou dois. Ficámos em Lisboa, lembro-me que na altura fui participar com a malta do Belenenses num torneio de futebol de praia na Costa da Caparica. Fomos à final com o Sporting, que tinha o Madjer, que tinha os da seleção nacional do futebol de praia, e ganhámos o torneio. Ganhámos o torneio e não sabíamos que tinha prize money, acho que ainda foram uns 150 contos a cada um. Lembro-me que eu e o Rui Gregório juntámo-nos e alugámos uma casa enorme e fomos as duas famílias até às Açoteias passar 15 dias. E estávamos aí de férias, eu à espera do telefonema do Santa Clara, à espera, à espera e o telefonema nunca mais vinha. Eu ia ligando ao Figueiredo, que era capitão e que estava lá. "Então pá?". "Eles estão a contar contigo. Deixa-me falar com este, deixa-me falar com aquele...". Passaram-se 15 dias e nada andava. Acabámos as férias, viemos para casa e recebo um telefonema para ir para França e fui para França.

Para o Grenoble.
Sim, para o Grenoble. Fomos campeões, fui o melhor marcador do campeonato.

Como é que foi a adaptação?
Para mim foi excelente, mas para a minha mulher não foi fácil, com uma bebé de meses, ali sozinha.

A nível de futebol muito diferente do que se praticava cá?
Não. O Grenoble não era um grande clube, mas a organização do clube era top a todos os níveis.

Sabia falar francês?
Tinha umas bases da escola, mas hoje falo muito bem francês devido ao ano que lá passei. Foi muito fácil para mim o francês. E adorei, é uma zona lindíssima no Vale de Isère, nos Alpes, estávamos a 140 kms de Genebra, onde íamos às vezes, mas onde eu gostava de ficar era na fronteira, numa cidade que parece Veneza, os canais de água entram por Annecy adentro, é muito bonito, gostava muito de ir lá. No dia de folga ou estava lá em cima nos Alpes a esquiar, ou íamos até Annecy passear com a bebé. A Mariana fez lá um ano em maio.

Não continuou porquê?
Porque a Sandra engravidou da segunda filha. A primeira foi programada, a segunda não. Eu tinha convites até de clubes de outra dimensão, fui o melhor marcador do campeonato, fomos campeões, subimos de divisão.

Tiveram receio de quê?
Era difícil, ela sozinha com uma bebé de um ano e grávida, em França, onde eu por vezes estava três dias fora por causa dos jogos. Nós tínhamos um autocarro com camas, aquilo era fabuloso para viajar, mas eu ficava três dias fora muitas vezes. E enquanto eu estava nesta dúvida, o meu pai ofereceu-se para ir para lá ajudar, uma vez que estava reformado, mas eu também não queria tirar o meu pai da vida dele. Entretanto o Rui Águas que tinha pegado no projeto do Estoril, liga-me e pronto, vamos a isso.

Nuno Botelho

Esteve duas épocas e meia no Estoril. O que lhe vem à memória desses tempos?
Alguma frustração porque tivemos boas equipas no Estoril, o objetivo era subir o clube de divisão. No primeiro ano não conseguimos o objetivo, porque o Rui, a meio do projeto, sai por convite do Vitória Setúbal e leva o Paulo Ferreira, que mais tarde vai para o Chelsea e leva o Nelson Veiga. E acho que o projeto ficou um bocado hipotecado. E há algumas más opções no segundo ano, apesar de termos boa equipa. O terceiro ano é aquele em que o Estoril vende a SAD ao grupo do Manuel Damásio, do Figueiredo e do Janela. É o Janela quem vai tomar conta do futebol. É quando conheço o Ulisses Morais, que mais tarde pega na equipa. Mas acho que, quando o Ulisses entra, já estamos sem hipótese de subir esse ano.

Essa última época não lhe corre bem.
Nesse ano tive três lesões. Estive toda a primeira volta do campeonato praticamente lesionado, dei cabo do tornozelo na mata do Buçaco na pré-época. Pisei mal a raiz de uma árvore a correr, com o José Morais a treinador. Estava a recuperar do tendão, fiz uma rotura parcial do ligamento interno num treino, estive mais dois meses com isto. E quando ainda não conseguia bater na bola, com a bola no chão, mas já treinava com o grupo, ao fazer uns cruzamentos, ataco uma bola de cabeça, vejo o Pedro Albergaria, guarda-redes, sair para socar a bola, eu preparei o corpo para receber a pancada do Pedro, mas o joelho dele entrou-me debaixo do cotovelo e parti três costelas. Foi das coisas mais assustadoras, porque lembro-me de estar deitado no chão a querer respirar e não saía o oxigénio. Na sequência disso, quando já estava com as costelas em fase final de recuperação, fomos jogar a Olhão, eu estava no banco, não entrei nesse jogo. O Vítor urbano, que me tinha treinado no Paços, estava há duas ou três semanas em Olhão e disse-me: "Eh pá, não estás a jogar aí, vinhas aqui dar-me uma ajuda". E eu disse-lhe: “Diga ao diretor para me ligar e conversamos”. O Isidoro ligou-me, de Olhão, acertei as coisas com ele, disse que ia falar com o Ulisses para ver o que me dizia. Disse ao Ulisses: "Estou a ver muita gente a chegar, se calhar não faço parte dos projeto futuro que estão aqui a criar, se calhar era bom para mim, deixava-me ir para Olhão". Na altura já estava com 32, 33 anos.

O que lhe disse?
Inicialmente não tinha resposta, mas, no outro dia, disse que se era a minha decisão, tudo bem. E fui para Olhão com a mulher e com as filhas. O Olhanense estava em penúltimo e fomos acabar em 8-º lugar: fiz 12 golos em 12 jogos. Faltavam 14 jogos para acabar, mas houve dois que não pude jogar porque fiz uma rotura muscular. Depois, fiz a última época lá, em que começou o Vitor Urbano e depois veio o Rui Gorriz e nesse ano ainda fiz 16 ou 18 golos . Estava a contar continuar a jogar, apesar de já ter o nível III do curso de treinador.

Quando começa a tirar o curso de treinador?
Com 21 ou 22 anos tirei o primeiro nível.

Já sabia que queria ser treinador?
Já. Nunca escondi isso de ninguém e sempre me preparei para isso. Até ao 12.º ano, a minha opção também era Desporto, o objectivo era ir para o ISEF na altura, hoje FMH, depois com o profissionalismo não concluí o curso. Aliás, acabei por entrar para informática de gestão, que anda a tentar fazer à noite, mas abandonei durante o período em que estive no Belenenses. O nível III do curso de treinador tirei já quando era jogador do Estoril.

Apesar de já ter o futuro pensado, estava dizer que pensava continuar.
Sim, pensava jogar. Quando o Isidoro me chamou, para mim foi uma surpresa aquilo que ele me disse, porque pensava que me chamava para renovar o contrato.

E o que ele lhe disse?
Ele disse que queria dar-me a equipa para treinar. Fiquei muito surpreendido até porque eu gostei muito de treinar com o Rui Gorriz, achei que era um treinador muito interessante. Disse-lhe que ele tinha um bom treinador e ele: "Paulo uma coisa te garanto é que se não aceitares, não vai ser o Gorriz o treinador. Pensa nisso”. Ainda perguntei: “Mas como jogador não estão interessados?”. E ele respondeu: "Esquece lá o jogador. Pensa nisso".

Foi um choque para si?
Na altura, foi, não estava preparado. Tanto que não lhe respondi, fui para casa falar com a Sandra e pensar. Lembro-me de nesse próprio dia ter ligado ao Gorriz a contar-lhe o que se estava a passar. Ele disse que sabia e para eu aproveitar que era uma boa oportunidade, um bom clube. Deu-me força para eu começar. E acabei por aceitar.