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A casa às costas

Paulo Sérgio: “O Bettencourt dizia-me: 'Se admitir que o Sporting não pode lutar com os rivais, matam-me, penduram-me na rua'”

Despiu o fato de jogador para vestir o de treinador, no Olhanense. Seguiu-se o Santa Clara e o Beira-Mar, mas foi no Paços de Ferreira e no V. Guimarães que o seu trabalho passou a ser mais reconhecido, acabando por ser contratado pelo Sporting. Desiludido com a (des)organização leonina, lançou-se para o estrangeiro, primeiro no Hearts, da Escócia, onde conquistou a Taça, e a seguir na Roménia e no Chipre. Regressou a Portugal para treinar a Académica, mas o sonho de ficar foi interrompido com a ida para o futebol árabe. Primeiro Emirados Árabes Unidos, depois Irão e, por fim, Arábia Saudita. Num momento de pausa, confessa que um dia gostaria de treinar o “seu” Belenenses.

Alexandra Simões de Abreu

Nuno Botelho

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Sentia-se preparado para deixar de ser jogador e pegar no Olhanense?
Acho que a necessidade aguça o engenho. Tinha tido uma curta experiência no Estoril, em que a administração precisou que o Martins, o capitão, tomasse conta, e ele disse que só tomava conta se fosse comigo. No final do meu segundo ano no Estoril treinámos a equipa durante três ou quatro jogos. Já nessa altura tinha preparado treinos. Mas depois começou a nova época com o José Morais e eu como jogador. Portanto, preparado? Nós tínhamos a parte teórica dos cursos que tirámos.

Lembra-se da primeira palestra? Estava nervoso?
Não sou nada nervoso. Preparo-me, claro. Nesse primeiro ano de treinador costumo dizer que fazia praticamente tudo o que faço hoje, em termos de organização do trabalho, só que eu trabalhava por três ou quatro, porque só tinha um adjunto, que era o Hélder, que já era adjunto da casa. Inicialmente éramos só os dois. Depois veio o Mário Artur também ajudar-nos, mas eu metia os miúdos que não eram convocados a filmar os jogos, os treinos. Chegava a casa e não tinha tempo para dormir porque eu é que cortava e editava os vídeos. Andei com sofás às costas para fazer um gabinete, uma sala debaixo das bancadas do estádio José Arcanjo. Limpámos aquilo tudo, pintámos... O presidente Carlos Nóbrega tinha uns sofás que ia substituir num hotel que ele tinha e pedimos três ou quatro para fazer aquilo. Fiz uma rampa... Fazíamos com a colaboração das pessoas de lá. Tínhamos ideias, falávamos, eles tentavam ajudar da melhor maneira e se não havia gente para fazer, fazíamos nós.

Na passagem de jogador para treinador perdeu dinheiro?
Fui ganhar menos, sim, o orçamento baixou drasticamente. A minha grande vantagem nessa experiência foi que os últimos anos como jogador passei nesta divisão e conhecia os jogadores todos. Conhecia muito bem os adversários, conhecia tudo. Tínhamos muito pouco dinheiro mas acho que fiz contratações muito boas para Olhão, criou-se um grupo fabuloso e fomos campeões logo no primeiro ano. E andámos dois anos sem orçamento a tocar os lugares de subida à I Liga. Depois o Jorge Costa chega e, já com uma colaboração maior, com o FCP a emprestar jogadores, alcança-o.

Porque sai dali para o Santa Clara?
Tive uma proposta muito melhor. Achei que era o passo certo. Até porque adorava São Miguel, tinha lá jogado, tinha uma boa proposta e tinha um clube que tinha descido da I Liga e que estava a apostar forte. Tinha jogadores já com um outro nível.

A família vai consigo?
Vai.

As filhas nunca se queixaram de andar de um lado para o outro?
Não, eram pequenas, adaptaram-se bem e acho que lhes fez muito bem. A mulher também sempre se adaptou e não está arrependida da escolha que fez.

Como foi essa época e meia no Santa Clara?
Tinha tudo para dar certo.

Mas não deu.
Não. Houve ali uma guerra muito grande e dificuldades, aliás só há bem pouco tempo é que esses problemas se dissiparam. Eu vou para o Santa Clara com uma direção e uma política. Paulino Pavão presidente, Dr. Luciano Melo no futebol, com uma aposta para o regresso à I Liga, para dessa forma conseguir resolver os problemas. O que aconteceu foi que passado quatro ou cinco meses, quando andávamos em 2º ou 3º lugar, a lutar pela subida, houve eleições e eles perderam. Entrou uma outra direção com uma política diametralmente oposta. Uma excelente pessoa e presidente, o Cruz Marques, mas com uns cromos à volta dele que tornaram as coisas muito difíceis. Um deles a dada altura sacou a SAD e ficou dono daquilo tudo quase, só há bem pouco tempo é que os problemas se resolveram. Ele e mais dois ou três amigos complicaram-me a vida grandemente quando tínhamos excelentes resultados na altura.

Como?
A política passou a ser ver-se livre dos salários mais altos dos jogadores que eram importantes. Permitiu-se a saída, quase de forma gratuita, do Livramento, do Henrique e de mais alguns, porque ganhavam mais. Não vou dizer que a política é errada ou certa, mas mudou. E começámos a ter outro tipo de jogador. Apesar de isso tudo andávamos sempre ali no 3º, 4º lugar. Coloquei o lugar à disposição quando eles ganharam as eleições, o Dr. Cruz Marques disse que era para continuar. Os outros que não tinham a ver com o futebol é que foram prejudicando e houve uma altura em que confrontei um ou dois, para se porem no lugar deles. Houve coisas desagradáveis, a dada altura o melhor que eu tinha a fazer era sair. Aquilo já era guerra todos os dias.

Foi o Paulo que quis sair ou foram eles que o mandaram embora?
Fui eu que quis sair. O Dr. Cruz Marques nunca me mandaria embora. Eu é que, para lhe aliviar os problemas, saí.

Paulo Sérgio começou a dar mais nas vistas como treinador quando esteve no V. Guimarães

Paulo Sérgio começou a dar mais nas vistas como treinador quando esteve no V. Guimarães

Icon Sport

Já tinha contactos com o Beira-Mar?
Não, saí sem ter contactos. Mas apareceu-me o Beira-Mar, passados dois, três dias de ser conhecida a minha saída. Adorei também Aveiro, é um sítio maravilhoso. Aí a família não foi porque faltavam quatro, cinco meses para terminar a época. O Beira-Mar estava muito mal classificado, em risco de descer de divisão, mas fomos acabar a época em 6º ou 7º lugar.

Mas não fica.
Tinha assinado contrato por ano e meio, mas mais uma vez havia problemas entre diretores, é um karma que tenho. Entre a direção do presidente Artur Filipe com o José Cachide. Andavam com disputas de terrenos lá em Aveiro, o campeonato estava a chegar ao fim e o sr. José Cachide chegou e disse: “Hoje à noite há uma reunião e ou fazem isto como quero ou meto a chave em cima da mesa”. Quando ele diz aquilo caiu-me a ficha. Fui ter com ele: "Vai fazer uma coisa. Vai dar a rescisão do contrato. Se você não mandar a chave para cima da mesa eu amanhã dou-lhe a rescisão do contrato e você rasga. Se você atirar a chave eu não sei com quem é que vou aqui ficar. Você não me vai fazer isso, não me vai deixar aqui numa situação dessas". Ele foi almoçar, veio de almoçar, estive ali horas em cima daquilo, não facilitei e ele foi meu amigo, fez o que lhe disse. No final desse dia o que é que aconteceu? Ele saiu. A direção caiu. Ele abandonou e eu fiquei sem clube. Fiz saber que saía e passado um dia ou dois recebi um telefonema para reunir com as pessoas do Paços de Ferreira.

Foi fácil chegar a acordo?
Foi. Era uma grande oportunidade de chegar à I Liga num clube que também me diz muito, porque tinha sido lá jogador.

Notou muita diferença pelo facto de ser a I Liga?
Claro, é tudo muito mais profissional, é onde todos queremos estar. Embora o nível em que trabalhávamos no Santa Clara fosse elevado, mas a responsabilidade é maior, é tudo muito mais visível. A família também foi comigo, ficámos a viver na Maia.

Ficou época e meia também.
A primeira corre muito bem, conseguimos a manutenção, que era o nosso objetivo, e vamos à final da Taça de Portugal, um feito único no clube. Conquistámos o lugar para a Liga Europa no ano seguinte. Portanto, foi um ano muito importante, porque tinha estado na final da Taça como jogador no Belenenses e chegar lá como treinador na minha primeira experiência na I Liga é importante. Estava a levantar voo, se calhar até a queimar etapas demasiado rápido, mas estava a conseguir ir para onde queria. Depois começa a nova época e ao fim de seis, sete jornadas o V. Guimarães foi lá e comprou-nos. Negociaram e fomos para Guimarães. Já tínhamos feito os jogos da Liga Europa, pelo Paços.

Era um passo bem maior.
Sim, V. Guimarães é um grande do nosso futebol, não há qualquer dúvida acerca disso, quer em termos de condições de trabalho, quer em termos de massa adepta. Foi um ano fantástico. Quando chegámos estávamos em penúltimo ou antepenúltimo e acabámos em 6º lugar com os mesmo pontos do 5º, não vamos à Liga Europa por diferença de goal average com o Marítimo.

É por isso que não fica?
Não, antes de acabar o campeonato já tínhamos assinado contrato com o Sporting. O Sporting foi lá e comprou-nos, tínhamos mais um ano de contrato com o V. Guimarães mas o meu presidente veio falar comigo. Perguntei-lhe qual era a ideia dele e ele respondeu que podia ser bom para os dois. Falámos, acertou-se tudo e... Sporting.

Paulo Sérgio foi treinar o Sporting em 2010

Paulo Sérgio foi treinar o Sporting em 2010

AFP

Notou uma grande diferença da realidade do Sporting para tudo o que tinha vivido até aí?
Não. Só para concluir. Uma coisa que foi muito má para mim foi o último mês em Guimarães, principalmente o último jogo em casa com o Marítimo, em que o empate bastava e nós estávamos com menos cinco jogadores. No último jogo em Vila do Conde tínhamos cinco jogadores à bica do amarelo e os cinco foram castigados e vamos muito desfalcados para a última jornada. O empate servia e perdemos 2-1 a acabar. Dá uma saída muito inglória para mim e com os adeptos a não me perdoarem porque foi anunciada a minha saída para o Sporting antes do tempo. Não fui eu que contribuí para isso.

O que aconteceu?
Houve também uma coisa muito mal feita, numa conferência de imprensa em que falo durante dois minutos, só 10 ou 15 segundos são sobre a ida para o Sporting e falo um minuto sobre o quanto agradecido estava ao V. Guimarães. Mas à noite, nas televisões, só passaram o que eu falei do Sporting e as pessoas ficaram indignadas. Não foi justo e fez-me muito mal porque quem viu na televisão só me viu a falar de Sporting quando eu falei muito mais sobre o quanto agradecido estava e como é que as coisas se tinham processado. A minha passagem por Guimarães foi fantástica pelo trabalho que realizámos e não temos o reconhecimento daquilo que fizemos por causa destes pormenores, em que as pessoas não tem informação sobre como as coisas se processaram.

E o Sporting era o que estava à espera?
Estava à espera de ter muitas coisas para aprender, pensava que era mais profissional, estava preocupado com o facto de ter de me adaptar a uma outra realidade, lembro-me de ter dito aos meus adjuntos: "Vamos lidar com gente que está num nível mais alto, por isso vocês durante as férias leiam, preparem-se para termos respostas para as questões. Vão aos cadernos dos cursos, tenham tudo na ponta da língua, não podemos chegar lá a fazer figura de tótós". Criei esta responsabilidade neles e em mim próprio porque estava à espera de algo que talvez nos transcendesse e não queríamos ser "comidos", queríamos ter sucesso. Mas isso não se verificou de todo. Antes pelo contrário, acho que tive de fazer coisas no Sporting que provavelmente não tive de fazer em Guimarães.

Como por exemplo?
Não vou dar exemplos, porque não vou falar cá fora sobre coisas que se passaram dentro, mas ao nível da organização e do planeamento havia coisas que não eram do futebol ou do treinador do futebol, mas em que eu tinha de participar e partilhar. Por exemplo, a saída do João Moutinho, eu vi a aflição das pessoas a lidar com um erro tremendo que se cometeu e chamaram-me às onze da noite para ir a Alvalade para discutirmos isso. A primeira pessoa a saber que alguém do Sporting tinha sido vendido ao FCP fui eu. Um amigo meu bancário, sportinguista, às nove e tal da manhã liga-me: "Eh pá, quem é que vendemos ao FCP?" Ele é que me liga: "Tenho aqui uma transferência do FCP de três milhões e tal, quem é que vendemos?" Liguei ao presidente a contar o que se tinha passado e a resposta foi: "Ó pá, não vendi ninguém". Conclusão, havia um empresário que tinha um documento que desde que arranjasse 10 milhões podia fazer o negócio, mas não havia lá nada a dizer que não podia ser cá para dentro. Houve isso, mas depois essa transferência veio para trás, acabaram por se sentar à mesa. Mas isto é um exemplo de uma coisa que me parecia impossível acontecer num clube daquela dimensão. Havia uma série de coisas... Mas tenho no presidente José Eduardo Bettencourt uma pessoa que respeito muito, muito séria, com quem me deu muito prazer de trabalhar e estar. Acho que ele poderia ter sido um excelente presidente do Sporting, precisava de outro tipo de pessoas à volta dele para lidar com a questão do futebol.

O responsável do futebol era o Costinha, certo?
Estava o Costinha mas eu acho que entre ele e o Costinha devia haver outro tipo de entourage até para facilitar também a vida ao Costinha, porque era a primeira experiência dele como diretor desportivo. Alguém que estivesse acima do Costinha, que pudesse dar outra força à estrutura e que não existia. Era eu, o Costinha e o presidente. Era uma coisa muito frágil e num ano em que o presidente contava com um determinado número de apoios que depois não aconteceram. Então ele viu-se na iminência de ter de fazer a venda do João para poder fazer face à temporada, porque não tinha dinheiro. Não havia dinheiro para investir na equipa e lembro-me de uma frase dele: "Ó Paulo, eu prefiro comer ovos com salsichas o resto da minha vida do que falir o meu clube". Quando ele me estava dizer que não havia dinheiro para ir ao mercado de outra forma para aquilo que eram as exigências do Sporting.

Não acaba a época.
Não. O José Couceiro entretanto entra para ficar digamos que entre o Costinha e o presidente, mas acho que o presidente quando mete o Couceiro já está a preparar o que acabou por fazer, que foi demitir-se, em dezembro. E de dezembro a março fico sem direção, sem presidente para tomar decisões de fundo. Está-se à espera das eleições em março. Ainda antes das eleições empatei em casa, tinhamos ido empatar a Glasgow com o Rangers, em casa estamos a ganhar 2-1 e aos seis minutos dos descontos o Glasgow fez o empate e ficamos fora da Liga Europa. As pessoas no clube à volta do Couceiro provavelmente começaram a fazer força para ele pegar naquilo, queriam mudança. Lembro-me que no final desse jogo o Couceiro vem ter comigo e diz-me: "Paulo, como é que te sentes?". Eu explodi. Eu dou-me bem com o Zé, ainda hoje, mas explodi. "Não é como é que te sentes. Se andam aí com merdas, é amanhã. Amanhã fazemos contas e eu vou à minha vida. Mas se não for amanhã vou até ao fim. Diz lá à rapaziada que é amanhã. Se não é amanhã, vou até ao fim". E no outro dia tinha dois diretores para almoçar comigo, Nobre Guedes e outro. Fomos conversar. Tratámos das coisas e saí.

Foi a primeira chicotada. Custou-lhe?
Não foi uma chicotada, fui eu que saí, porque eu sentia que já estava a ser não uma solução mas um problema. Porquê? Porque quando íamos para os jogos, passado pouco tempo, se não estivéssemos a ganhar por 2-0, as claques começavam a insultar ou a fazer pressão, ora isto estava passar para os jogadores dentro do campo e comecei a achar que a minha presença já estava a influenciar negativamente. Achei que era melhor vir outra pessoa e talvez aquilo acalmasse. Quando saí estávamos isolados em 3º lugar, tínhamos sete pontos à frente do SC Braga e o Sporting só vai à Champions porque no último jogo ganha 1-0 em Braga e recupera a posição; porque a vantagem que tínhamos para o SC Braga depois da minha saída foi perdida. A minha saída não beneficiou em muito os resultados mas se calhar beneficiou em termos de dar alguma calma e dar tempo e espaço para encontrarem solução para o futuro, já com a direção do Dr. Godinho Lopes.

Paulo conquistou a Taça da Escócia, o comando do Hearts

Paulo conquistou a Taça da Escócia, o comando do Hearts

Lynne Cameron - PA Images

Nessa altura ficou com receio do que poderia ser a sua carreira dali para a frente?
Não. Hoje é uma coisa que me preocupa quando isso acontece, porque não podemos ter muitas manchas no currículo, mas naquela altura não. Mas para além dos problemas que o Sporting tinha o maior era o grande poderio que tinham o Benfica e o FCP. É um ano em que o Villas-Boas tem uma super equipa e acho que ganha os jogos praticamente todos; o Jesus tem uma super equipa e não consegue e nós não temos uma super equipa e estávamos num lugar que as pessoas minimamente entendidas percebem que é o lugar que tínhamos de conseguir, o 3º lugar. Não tínhamos potencial na altura para mais. Hoje as pessoas já vão começando a perceber um pouco isso mas naquela altura ainda não. Eu cheguei a dizer ao presidente: “Você tem que assumir que não temos as mesmas condições, temos que fazer um trabalho diferente para chegar lá, não quer dizer que seja impossível mas, temos de comunicar de outra forma com os sócios”. E ele disse-me: "Se eu lhes disser isso eles matam-me, penduram-me aí na rua". Acabaram por nos matar na mesma. Acho que as pessoas do futebol, que são aquelas que me interessam, percebem que não tínhamos como, principalmente pelo poderio que tinham os outros dois. Não havia como, era o 3º lugar que tínhamos de garantir e era onde andávamos, mas aquela machadada em casa com o Glasgow Rangers...

Quando sai já tinha alguma coisa em perspetiva?
Nada. O Hearts da Escócia surge depois, através do Paulo Barbosa.

Era algo que queria, ir para fora, ou assustou-o um bocadinho?
Não me assustou. Ainda antes do Hearts apareceu o Cluj, da Roménia. Eu fiz praticamente o plantel do Cluj mas depois acabei por não ir. Só fui para o Cluj mais à frente, mais tarde.

Não ficou lá naquela altura porquê?
Estive lá, indiquei os jogadores, Camora, Sougou, uma série deles, depois vim da Roménia para o Porto, éramos para ter uma reunião no Porto, para fazer assinatura de contrato. Marcámos para as cinco e tal, e passou para as seis, às seis passou para as sete e eu disse ao empresário que estava no negócio: "A partir de agora vou para Lisboa. Amanhã é o aniversário da minha filha, se quiserem conversar comigo vão a Lisboa ter comigo". Estava ainda a jantar no Porto quando eles ligaram, o meu adjunto olha para mim e eu disse, se quiserem vão ter comigo a Lisboa. Já não foram. E é o Jorge Costa que vai para o Cluj. Senti que alguma coisa estava ali a acontecer e tomei aquela decisão. Depois acabou por aparecer o Hearts, já iam na 3ª ou 4ª jornada. E vou para a Escócia.

Sozinho ou com a família?
Sozinho. Elas andaram amigo sempre até ao Sporting, depois como já estavam adolescentes, fixaram-se aqui em Torres Vedras, fizeram aqui o resto dos estudos e já não foram mais.

O treinador foi atirado ao ar pelos jogadores do Hearts na conquista da Taça

O treinador foi atirado ao ar pelos jogadores do Hearts na conquista da Taça

Jeff J Mitchell

Sei que adorou a Escócia. O que mais o encantou?
Tudo. A cultura, a forma de ser e de estar das pessoas. A normalidade. Eu gosto de andar discreto, sempre gostei, não preciso de ser reconhecido na rua nem preciso de vénias, mas também não gosto daquilo que fazem em Portugal em que quando alguém te reconhece fala de ti entre dentes e não tem a naturalidade que o escocês tem, vê-te no outro lado da rua e levanta o braço: "Ó Paulo". Isso é natural. Aqui as pessoas mais facilmente baixam a cabeça e dizem entre dentes: "Olha vai ali aquele". Gostei daquela abertura e naturalidade, fossem fãs do Hearts ou do grande rival, o Hibernian, eu movimentava-me na duas partes da cidade sem qualquer problema. Adorei. Foi uma experiência fantástica, embora difícil.

Porquê?
Porque pela primeira vez tínhamos uma série de meses de salário em atraso, em que os jogadores não falavam em meses, porque estavam habituados à semana, e começam a falar-te em oito semanas, o que significa que são oito pagamentos, é uma coisa ainda mais drástica. Tínhamos um dono do clube que não estava a conseguir cumprir com as obrigações. Houve muitas dificuldades durante a temporada.

O futebol, muito diferente? Teve de adaptar coisas no seu treino?
Não, eles é que tiveram de se adaptar. Acho que se adaptaram bem e ficaram muito agradados com isso, porque nós tínhamos qualidade no que fazíamos. Fomos muito elogiados pelo futebol que praticávamos, batemos os grandes, ganhei ao Celtic para o campeonato, que era uma coisa difícil naquela liga; ganhei ao Celtic nas meias-finais da Taça; fomos muito competitivos em todos os jogos com os grandes. E depois terminar com a conquista da taça por 5-1, ainda por cima contra o grande rival da cidade de Edimburgo, são coisas que as pessoas não esquecem.

Mas não fica porquê?
Por causa dos problemas económicos. Ele fez-me perder tempo. Ganhámos a taça, havia propostas na mesa para eu renovar mais três anos mas quando a seguir à taça ele mete os números em cima da mesa, ofereceu-me menos de metade do que eu estava a auferir na altura. Iam baixar muito o orçamento. Eu não podia aceitar. Fez-me perder tempo porque tinha possibilidades, se tivesse feito por isso, de sair. A época correu-me lindamente e eu não fiz nada e já tarde porque a taça foi a 21 ou 22 de maio. Fiquei um bocado pendurado. Entretanto, estava decidido a aguardar que aparecesse alguma coisa ali no Reino Unido porque gostei muito, mas o que acaba por aparecer é o Cluj, com quem tinha estado em contacto na época anterior. Eles vieram a minha casa e tratámos de tudo.

Os torcedores do Hearts saíram para as ruas de Edimburgo para festejar com a equipa a conquista da Taça

Os torcedores do Hearts saíram para as ruas de Edimburgo para festejar com a equipa a conquista da Taça

D.R.

A Roménia foi uma realidade completamente diferente da Escócia?
Completamente. Nós chegámos a adaptámo-nos. Costumo dizer, seja com 50 graus no deserto ou na neve da Roménia ou aqui em Lisboa, eu faço a mesma coisa, preciso é de boas condições para treinar. Eu saio do treino para casa e vou de casa para o treino e tendo boas condições para desenvolver o meu trabalho é isso que me realiza. É claro que se estivermos em Lisboa ou em Edimburgo temos uma vida social muito agradável, e se estivermos a falar da Roménia não é a mesma coisa.

O que fazia nos tempos livres?
Ia a um restaurante argentino de que gostava muito, jantávamos lá, eu e os adjuntos. Entretanto passo muito tempo em casa porque além de preparar o trabalho, também tenho o hóbi de aprender a tocar guitarra em frente ao YouTube. E isso mata-me muitas horas mortas.

Já aprendeu a tocar guitarra assim?
Alguma coisa. Fico viciado em tirar novas músicas e acabo por não me aperfeiçoar a tocar aquela até ao fim. Tenho um caderno cheio de músicas e se calhar toco bem meia dúzia delas apenas. Mas o que aprendi da guitarra já ninguém me tira.

Qual foi a primeira música que quis aprender?
Não me lembro, mas é capaz de ter sido o "All I Want is You" dos U2.

É a sua banda preferida?
Uma das. Gosto de todo o tipo de música. Depende do momento. Gosto muito de Rolling Stones, Pink Floyd, U2. Mas depois gosto de muita coisa que não tem muito nome, como Everlast, entre outros. Gosto de música brasileira. Adoro fado. É um gosto muito geral.

Como termina a aventura na Roménia?
Na Roménia fizemos um trabalho fantástico. Chegamos à 4ª ou 5ª jornada, com o clube em penúltimo lugar, muito mal classificado, e em dezembro estávamos no 2º lugar, a sete ou oito pontos do Steaua de Bucareste. O último jogo antes da pausa de inverno foi a vitória que conseguimos no Manchester United, na Champions. O Manchester passou em 1º lugar no grupo mas nós fizemos os mesmo 10 pontos que o Galatasaray. Passou o Galatasaray por goal average. O primeiro jogo depois da pausa de inverno, que dura dois meses e tal, foi com o Inter de Milão, em Itália, para a Liga Europa. E foi surreal. Nós estávamos em 2º lugar quando foi a pausa de inverno e o presidente naquele momento vendeu cinco jogadores, fez mais de €20 milhões em vendas, para além do que tinha conquistado com a Champions. Fez uma boa pipa de massa, só que precisou desse dinheiro para investir naquilo que era um negócio que lhe estava a correr mal, um canal de televisão em Cluj. Arranjou-me um jogador, um atacante que veio da 3ª divisão de Itália e que não se revelou nada de especial. Fomos muito enfraquecidos para a segunda parte do campeonato. Para além de que depois de um mês de férias tivemos 47 dias de estágio no sul de Espanha, para a segunda parte da época. Uma coisa medonha. E dali fomos diretos para Itália para jogar com o Inter. Perdemos lá 3-0 e, salvo erro, fomos quase no mesmo avião com eles para Cluj para jogar a 2ª mão, passado uma semana. Portanto ainda ficamos uma semana em Novara, onde aliás conheci o Bruno Fernandes, que na altura era um rapazito. Eu estava a tomar café ele veio bater-me no braço: "Ó mister, eu sou português". Veio apresentar-se, muito humilde, eu desejei-lhe boa sorte e disse-lhe que ia seguir a carreira dele. No dia seguinte fomos lá ver um jogo e vi que estava ali um miúdo com potencial. Depois segui sempre a carreira dele. Engraçado, hoje só se fala dele.

Como foi a 2ª volta do campeonato?
Os resultados não estavam a ser os mesmos, não estavam a ser maus, mas não estavam a ser os mesmos. E saímos.

Depois da Escócia, Paulo Sérgio treinou o Cluj, da Roménia

Depois da Escócia, Paulo Sérgio treinou o Cluj, da Roménia

PAUL ELLIS

Vai para o Chipre, para o APOEL.
Um dos melhores presidentes que tive. Só conversar com aquele homem... Tem uma história de vida riquíssima, que partilhou comigo, é um homem que fala seis línguas, é sócio de uma empresa na Rússia com o Putin. Adorei estar no Chipre e conhecer o meu presidente. Tinha recuperado o clube financeiramente e estávamos também na Champions, mas tinha uma oposição forte. Estávamos a viver os primeiros anos da grave crise que atravessámos na Europa e, a dada altura, íamos em 2º lugar a um ponto do 1º no campeonato, tínhamos saído da Champions e conquistámos a presença no grupo da Liga Europa, e a SAD caiu. Andavam a pressionar muito. São "ultras" à antiga, aquilo que a gente vê na Grécia. Foram pintar os muros da casa de alguns dirigentes, os carros das mulheres, ameaçaram... E o meu presidente com 73 anos era o homem mais teso e rijo daquela gente toda. Só que a SAD caiu. Ele chegou junto a mim e disse: "Estes gajos maricas estão com medo da pressão, isto vai acontecer sempre, eu estou sem SAD e vou abandonar. Já chega. Dei seis anos da minha vida a isto, depois desta, também não estou para lutar contra mais, tenho 73 anos, vou embora. Queres sair comigo, vamos fazer as contas, queres ficar na mão dos que vão entrar, és tu que decides"; "saio consigo". Saí do Chipre assim, ninguém me mandou embora, simplesmente o presidente da SAD caiu e eu saí com ele.

Vem para a Académica.
Acho que foi o clube ideal para regressar a Portugal. Estive por duas vezes quase para ser jogador da Académica e quando o convite surgiu fiquei super feliz. Era o clube certo para relançar a minha carreira cá dentro, tentar novamente chegar ao topo. Mas a Académica é também um clube muito complicado, como acho que toda a gente sabe. Uma casa onde todos ralham e ninguém tem razão. E vê-se as dificuldades pelas quais a Académica continua a passar. Mudam as políticas, as direções, quem está agora era a oposição ao meu presidente quando eu lá estava, mas os resultados hoje são ainda piores do que na altura. É uma pena que na Académica não se consigam entender entre eles.

Não acaba a época lá também.
Não acabo a época. Não fomos muito felizes, acho que praticávamos bom futebol, mas não tivemos muita sorte, não tínhamos também muitas soluções. Mas, lembro-me que fizemos 14, 15 empates. Não perdíamos mas não ganhávamos. Foi uma enormidade de empates. Também na altura o presidente não queria que eu saísse, reunimos, e chegou uma altura em que eu disse: "Chega, basta. Não andamos nem para a frente nem para trás". Eu saio numa quinta-feira e no sábado a Académica vem ao Estoril com o José Viterbo e ganha no Estoril. Portanto, houve ali uma mudança da sorte.

Tinha problemas de balneário?
Não. Sentia os problemas que todas as equipas sentem. É óbvio que se eu pudesse ter mexido naquele grupo, teria mexido, mas não havia dinheiro para isso. Acho que o presidente era bastante lúcido em relação ao que tinha de mudar lá dentro mas ele também não tinha capacidade financeira e não era uma pessoa fácil.

Seguiu-se uma experiência no APOEL do Chipre

Seguiu-se uma experiência no APOEL do Chipre

VIRGINIE LEFOUR

Fica um ano sem treinar.
Quase um ano.

O que fez nessa altura?
Eu não gosto de fazer muita publicidade de mim próprio. Mas aproveitei para ver alguns trabalhos de treinadores que eu admiro.

Que são?
Não gosto de dizer. Também prometi às pessoas que não o ia fazer. Porque acho que há gente que vai beber um café com o Mourinho e vem dizer publicamente como se isso os fizesse mais treinadores ou mais competentes. E eu não gosto disso. Quando faço essas coisas é para aprender, é para evoluir, não é para me promover. Nunca disse cá para fora com quem é que estive, que trabalhos de que treinadores já acompanhei. Mas andei a fazer isso durante um ano, estive em seis sítios diferentes.

Como aparecem os Emirados?
Antes disso surgiram outras possibilidades. Antes dos Emirados estive na Arábia Saudita com o Ettifaq. Deixei lá meia dúzia de fatos e passadas duas semanas comecei a receber mails para rescindir o contrato que tinha acabado de assinar e não percebia porquê. Perguntava ao agente que tratou disto, ele também não me sabia responder e depois viemos a saber que neste período a direção caiu, entrou outra que queria um outro treinador. E acabámos por rescindir esse contrato. Depois aparece o Dibba Al Fujairah dos Emirados, uma coisa diferente, uma equipa pequena. Uma liga interessante.

Culturalmente chocou-o?
De alguma forma. Inicialmente não mas com o avançar do tempo começamos a conhecer as pessoas e a perceber que aquilo tem pouco que ver com futebol. As coisas fazem-se por múltiplos interesses. Se formos analisar a Liga dos Emirados, tirando a equipa que é campeã e talvez mais uma ou duas, toda a gente mete dois, três, quatro treinadores por ano. Toda a gente muda os estrangeiros pelo menos uma vez. É um campeonato onde mexer com o dinheiro, fazer rodar o dinheiro, isso acontece com uma facilidade muito grande. Não tinha estádio, jogámos num estádio a 60km de onde estávamos. Vivia num hotel e parecia que estava em Miami porque em frente ao hotel tinha a praia, mas quando saía para o outro lado do hotel era uma realidade bastante diferente, não tem nada a ver com o Dubai.

Em termos de costumes o que lhe fez mais confusão?
Eu como vivia no hotel não vivia muito a realidade. Mas os costumes. Toda a gente diz o mesmo. Temos de parar na hora da reza. Dava comigo a preparar o trabalho de forma a que naquele minuto da reza fosse a mudança entre um exercício e o outro para não haver ali uma grande quebra. Mas encontrei gente boa e interessada que se queria desenvolver, como encontrei gente que está confortável daquela forma e não quer aprender, nem mudar. Isto falando de jogadores também. É gente que recebe uma pipa de massa desde o dia em que nasce até ao dia em que morre e o futebol para eles é um extra. Depois ainda têm emprego, em que não trabalham, mas recebem pelo emprego. Ou seja, não os obrigam a lutar por nada, a vida é-lhes muito fácil e por isso é que o futebol nos Emirados dificilmente crescerá.

É substituído.
Sim, não terminamos a temporada. Nem eu, nem quase todos os treinadores.

Paulo volta a treianr em Portugal em 2014/15, desta vez a Académica

Paulo volta a treianr em Portugal em 2014/15, desta vez a Académica

D.R.

Segue-se o Sanat Saft do Irão.
Sim, passados uns meses. Uma equipa também pequena mas de um sítio com muita cultura de futebol, mesmo no sul do Irão.

Quando diz passado uns meses, foram uns meses largos, porque voltou a estar muito tempo sem treinar.
Sim, apareceram algumas coisas mas não achei que valessem a pena. Nesse período voltei a estar fora uma vez para ver outros trabalhos. Cá não vou muito aos estádios.

Porquê?
Há muita gente que anda nos estádios para se mostrar e muitas vezes isso é cobarde. Está um colega no banco e há muita gente que se anda a insinuar nessas visitas aos estádios. Eu mais facilmente vou ver o Torreense ou o Mafra do que vou à Luz ou a Alvalade, Restelo ou Setúbal. Embora tenha amigos lá. Cheguei a ir duas ou três vezes a Setúbal quando estava lá o Couceiro mas ligava-lhe a dizer: "Vou ver o teu jogo hoje".

Estava a contar sobre o Irão.
O Irão correu muito bem. Fizemos o campeonato todo, num ano terrível ao nível de dificuldades financeiras, mas um presidente que estava comigo até à morte. Tive convites para sair mas comprometido com ele também não saí. Estivemos nove meses sem receber no Irão.

E recebeu esse dinheiro?
Recebi no último dia antes de vir embora. O homem pagou. Sempre acreditei nele.

Não ficou lá mais tempo por causa do dinheiro?
Sim. Estar a trabalhar nove meses sem receber não é muito saudável para ninguém. Só eu sei o que passamos. Perdi 15kg no Irão. Só me fez bem, porque eu estava soprado. O stress era brutal, a comida era diferente, tudo isso fez com que perdesse aquele peso todo. O clube levava o almoço e o jantar a casa, mas chega uma altura em que não podes ver aquela comida. Começas a comer menos e o estômago habitua-se. Por outro lado, tinha muitos problemas para gerir todos os dias. Jogadores a querer ir embora... Mas foi dos trabalhos em que me senti mais recompensado porque quem nos faz o brilharete da época, em que acabamos em 6º lugar, é um grupo de seis, sete miúdos com 18, 20 anos, que no início do campeonato não contavam para o totobola, entre aspas, porque tínhamos jogadores mais experientes. Entretanto um saiu, outro desistiu, outro portou-se mal e estes miúdos a crescer, a crescer, e são eles que acabam o campeonato a jogar. Fazemos sete, oito vitórias seguidas e acabamos em 6º lugar. Num ano difícil, em que tivemos jogos à porta fechada porque os adeptos mandaram pedrada no árbitro; sem dinheiro, enfim, trinta por uma linha.

Paulo Sérgio treinou o Al Fujairah dos Emirados Árabes Unidos em 2016/17

Paulo Sérgio treinou o Al Fujairah dos Emirados Árabes Unidos em 2016/17

D.R.

Volta à Arábia Saudita. Mas saiu em dezembro de 2019. Porquê?
Ninguém percebeu, o Rui Vitória até me mandou mensagem a perguntar: "Então, fartaste-te dos gajos?", porque ele pensava que tinha saído por iniciativa própria. Mas não. Foi o Al-Taawoun que tomou a iniciativa, mas ninguém percebe. Tinha a Supertaça para disputar passados cinco dias e estava a dois pontos do 2º lugar. Nos últimos quatro jogos andava com quatro, cinco jogadores no banco, não tinha mais. Clubes da dimensão do Al-Taawoun vivem muito do empréstimo de um, dois ou três jogadores dos grandes, como o Al-Ahli ou ao Al-Nassr do Rui Vitória. Esses clubes têm todos 40, 50 jogadores e por isso têm sempre dois ou três interessantes para se ir buscar por empréstimo. Depois do Al-Taawoun ganhar a taça o ano passado e ficado em 3º lugar, com o Pedro Emanuel, este ano ninguém quis emprestar nada porque começaram a olhar como concorrente na disputa dos títulos. Inclusive o Rui Vitória foi lá buscar o melhor ponta de lança e deixou jogadores na pré-época com a cabeça a andar à volta porque os queriam e eles não estavam focados no trabalho, queriam sair, como é óbvio. Tudo isto foram grandes dificuldades iniciais, depois com mais uma lesão ou outra, o campeonato começou muito difícil, mas com mais uma situação.

Qual?
Quando vamos para a 5ª jornada eu ia jogar o meu 3º jogo, porque a 2ª jornada foi adiada e a 4ª também. Os outros com cinco jogos e tu com dois, obviamente estava encostado à linha de água. Nessa altura eu já não prestava, já ninguém era bom, era tudo mau. Mas como é que eu posso estar bem posicionado se os outros têm cinco jogos e eu vou fazer o 3º agora? Andei com esta guerra logo no início. Quando acertámos as jornadas com os outros, ainda por cima coincidiu com uma vitória sobre o rival da cidade, em que ganhámos 3-0, passámos a ser os melhores do mundo naquele momento. E agora estávamos a dois pontos do 2º lugar, com a Supertaça para jogar e com estas dificuldades todas de não ter jogadores. Depois houve outras histórias.

Conte lá.
O ano passado o Pedro teve grandes dificuldades com o pagamento dos vencimentos, havia atrasos, este ano estava tudo certinho. Porquê? O ano passado o meu presidente precisava de dois ou três sponsors que são pessoas fortes na cidade e manteve-os por perto. Começou a existir um problema com esses sponsors no dia da final da taça. Esses sponsors ficaram desiludidos porque no dia da vitória na taça não puderam subir para ir ao camarote beijar a mão ao rei. Toda a gente queria ir ao beija mão ao rei e aparecer na fotografia. Aí iniciou o problema. Adensou-se porque este ano com o governo a meter o dinheiro certinho, com as verbas da taça e o sucesso do 3º lugar, mais a venda do ponta de lança ao Al-Nassr, o meu presidente estava com os cofres cheios e como não tem muita paciência para os outros, que se afastaram um pouco, ele deixou-os afastar. Ora, essa gente começou a fazer um trabalho sujo por fora junto de alguns dirigentes do clube e a criar uma grande pressão ao presidente. A dada altura por onde é que eles vão atacar o presidente? Através do jogador que não presta, querem mudar o jogador A, o B, o treinador, e começaram a criar essa pressão. O homem disse-me que não queria que eu saísse mas se não fizesse isto, acabava por cair ele. Perante isto não há muito a dizer, eu saí.

Entretanto já recebeu convites de outros clubes?
No dia a seguir tive convite para regressar ao Irão. Não fui por decisão própria. Acho que não é o momento. Nem consigo tirar uma camisola e vestir a outra na manhã seguinte. Acho que preciso de um momento de pausa, para carregar baterias e mudar a página.

Paulo Sérgio ass imiu a liderança do Al Taawoun da Arábia Saudita em 2019/20

Paulo Sérgio ass imiu a liderança do Al Taawoun da Arábia Saudita em 2019/20

D.R.

Há dois anos ofereceu-se ao Hearts. Como e porquê?
Na Escócia e no Reino Unido funciona muito assim. Há um lugar que está vazio e a forma como se proporciona é mandares o curriculo através de um empresário, mostrares que tens interesse no cargo. Fiz isso. Depois és chamado ou não para entrevista. É assim que funciona ainda na maior parte dos clubes no Reino Unido. Não ao mais alto nível. De certeza que o Mourinho não mandou o currículo para o Tottenham, mas ainda há muitos clubes a funcionar assim no Championship. Não fui chamado para a entrevista. Mas o mais grave é que o diretor desportivo recebeu currículos de imensas pessoas e ficou ele manager do clube. Acho que isso é uma grande falta de respeito por toda a gente. Tanto que ele acabou por sair. Eles agora mudaram de treinador e voltaram a pressionar-me porque há muita gente a querer o meu regresso e volto a ser questionado pelos jornalistas. Mas disse que nunca mais iria mandar o meu currículo ao Hearts porque as pessoas conhecem-me, sabem que gostaria de voltar, sabem onde estou.

O Bruno de Carvalho disse numa entrevista que lhe estavam a dever dinheiro. É verdade?
A mim? Não, é mentira. O Sporting portou-se perfeitamente comigo. Tudo o que nós acordámos, o Sporting cumpriu, quer a direção que estava na altura, quer depois a de Godinho Lopes.

Onde é que ganhou mais dinheiro enquanto jogador e como treinador?
Enquanto jogador acho que foram os meus contratos no Paços de Ferreira e Salgueiros. Enquanto treinador foi agora na Arábia.

Alguma vez se meteu em algum negócio?
Não. Até hoje não investi em nenhum negócio. Só em imobiliário.

É crente?
Sou. Não sou um assíduo. As igrejas são locais onde às vezes gosto de me encontrar comigo próprio, mas não sou homem de ir à missa ou de ser grande frequentador.

E superstições?
Não.

Enquanto treinador quem são as suas referências?
Há treinadores que, por exemplo, não estão no topo e que eu admiro bastante, há outros que estão no topo, ganham títulos e toda a gente os identifica como melhores do mundo. O Mourinho foi um treinador muito importante para o futebol português e para o treinador português. Não nos podemos esquecer do Manuel José porque também lá fora conquistou muitos títulos e estamos a falar de dois tipos de treinador completamente diferentes. Aquilo que Fernando Santos fez na Grécia. O professor Jesualdo. Todos estes treinadores que tiveram grande sucesso lá fora permitiram que outros, como eu, sintam a responsabilidade de quando estão fora ter de fazer bem, ter uma boa imagem.

Tem tatuagens?
Tenho uma na parte interior do braço, não é para ninguém ver, é só para eu ver. É uma N. Srª Fátima.

O treinador português saiu da Arábia Saudita em dezembro de 2019

O treinador português saiu da Arábia Saudita em dezembro de 2019

D.R.

Qual foi a situação mais difícil com que teve de lidar enquanto treinador, num balneário?
A situação negativa que se calhar mais me marcou é a do meu último jogo nos Emirados. Porque claramente foi um jogo preparado para eu cair naquele dia. Eles já tinham um treinador para começar no dia a seguir. Eu não sabia, mas havia jogadores que sabiam. E quando me apercebi disso, foi um momento de frustração, de loucura, porque corri com diretores, com toda a gente do balneário. Ao intervalo estávamos a levar quatro do Al Nassr. Nós tínhamos ido lá ganhar 2-1 três dias antes para a Taça. A mesma equipa, os mesmos jogadores, deles e nossos. E ao intervalo vejo um a rir-se, associei a imagens que tinha visto antes do início do jogo e achei aquilo tudo muito estranho. Ao ver o que estava a acontecer, claramente tinha jogadores dentro do campo a abrir as pernas, por orientação superior. Tive a confirmação disso no final do jogo, através de um jogador brasileiro que se aproximou de mim e disse: "Não tive tempo nem oportunidade de te dizer nada mas o que é facto é que quando o jogo ia começar um deles falou: 'tranquilos, amanhã vem outro treinador, amanhã é outro dia, hoje é muito tranquilo, ninguém se aleije'".

Essa foi a derrota que mais lhe custou?
Foi. Foi uma frustração muito grande.

E a vitória que mais gozo lhe deu?
Todas, mas quando, com o V. Guimarães, viemos eliminar na Luz o Benfica, de Jesus, uma equipa muito forte, para a Taça de Portugal, essa foi uma vitória muito importante. A vitória contra Ferguson, pelo Cluj, no estádio do Manchester United; a vitória na final da Taça na Escócia; quando ganhei a Supertaça no Chipre, com o APOEL.

Qual o clube de sonho que gostava de treinar?
O Belenenses. Mas o Belenenses que está no distrital, não a B SAD. O Belenenses que é o meu clube, pelo qual sofro, de que sou adepto e sócio, com as quotas em atraso e que vou ter de pôr em dia [risos].

  • “Não me deixavam entrar no jogo de cartas, agarrei num extintor, dei duas bombadas, fechei a porta e vi os pescocinhos deles da varanda”

    A casa às costas

    Paulo Sérgio cresceu numa casa de benfiquistas, mas foi o Belenenses o clube que acabou por ocupar-lhe o coração quando se tornou jogador. Ponta de lança também do Paços de Ferreira e Salgueiros, andou por Setúbal, Santa Clara, Estoril e Olhanense, onde terminou a carreira e abraçou a profissão de treinador. Pelo meio ainda teve uma experiência no Grenoble, em França, casou e foi pai de duas filhas. O ar calmo e sereno escondem um jovem que gostava de fazer algumas noitadas fora de tempo, jogar às cartas e fazer inusitadas partidas. No domingo, o jogador dará lugar ao treinador, na segunda parte deste “A Casa às Costas”