Tribuna Expresso

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A casa às costas

“Cheguei à Síria às quatro da manhã. Fui parar a um hotel que diziam ser de três estrelas. Quando lá entro... o choque foi grande”

As idas ao futebol a partir dos cinco anos criaram em Rui Almeida uma paixão tal pelo jogo que cedo percebeu que o seu caminho não era ser futebolista, mas estudar e conhecer o futebol profundamente. Esteve na génese das escolas de formação do Benfica, aventurou-se sozinho pela Síria, tornou-se adjunto de Jesualdo Ferreira - a sua referência - na Grécia, no Sporting, no SC Braga e no Egito, até decidir trilhar novamente o seu caminho como treinador principal, em França, onde vive há quase seis anos

Alexandra Simões de Abreu

Nuno Botelho

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Quais são as suas origens?
Nasci em Lisboa, mas os meus pais do norte. Mãe minhota, pai beirão, de Viseu. O meu pai foi empresário a vida inteira, no ramo dos eletrodomésticos, e a minha mãe doméstica. Tenho um irmão mais velho, Pedro Almeida, e uma irmã mais nova, mas todos acima dos 40 anos.

Cresceu em que zona?
Em Carnide. Sou da geração em que bastavam duas pedras e havia futebol na rua. Felizmente crescemos numa zona em que havia muito espaço para brincar. E desde muito novo gostei de fazer desporto. Fiz judo federado, porque tinha um vizinho, o Corrula, que era cinto negro de judo e esteve nos Jogos Olímpicos. Era amigo do meu pai e por isso fizemos judo durante muito tempo. Mas também pratiquei hóquei em patins e, claro, futebol.

Da escola, gostava?
Sim. Não era um crânio, mas sim.

Não faltava às aulas para ir jogar futebol?
Não [risos]. Não, porque nessas coisas o meu pai não facilitava. Tive, felizmente, uma infância muito boa, mas sempre direcionada. Pais muito assertivos, no sentido da responsabilidade.

Quando era pequeno torcia por que clube?
Sporting. Tem uma história. Tínhamos um amigo da família que era louco pelo Sporting e que a partir dos meus cinco anos começou a levar-me ao Sporting. Ele levava-nos logo de manhã, porque havia os jogos dos juniores; a equipa principal jogava às três da tarde. Víamos os seniores e ainda íamos ao hóquei em patins. O dia de domingo era passado assim. Isto com amigos, não com o meu pai, porque ele não gostava muito.

Rui Almeida com dois anos

Rui Almeida com dois anos

D.R.

O primeiro desporto federado foi o judo ou o futebol?
Judo. A partir dos seis anos. Aos 11 anos canso-me do judo. Aos 10 anos comecei no futebol em Carnide, depois vou para o Cultural da Pontinha, estive nos Unidos do Bairro Padre Cruz. Jogava futebol de cinco, que estava a iniciar. Aliás, acabo por jogar muito mais futebol de cinco, hoje futsal, do que de 11.

Até que idade?
Até à Universidade. Depois felizmente fui inteligente e percebi que aquele não era o meu caminho.

Quando e como descobre qual é o seu caminho profissional?
Na altura do 10º ano escolhi seguir desporto. Estava claro para mim a relação com o desporto. Tanto que tiro o primeiro nível do curso de treinador aos 20 anos. Muito cedo. Estamos a falar dos anos 90.

Nessa altura em que tira o nível 1 já está na faculdade?
Estava a começar a faculdade no curso de Educação Física. No ano 2000 faço pós-graduação e mais tarde ainda faço mestrado em Alto Rendimento.

Quando se estreia como treinador?
Começo a treinar os infantis em 1996, no CAC.

Depois vai para o Atlético.
Sim, através do professor Carlos Dinis. Ele estava ligado à Federação também, vai treinar o Atlético e faz-me um desafio, tinha eu 25 anos. Vou como adjunto dele. Ficamos lá alguns meses. Apanho o Silas e o Nuno Campos, adjunto do Paulo Fonseca.

O que é que o fascinava na profissão de treinador?
Aquela história de começar a ver futebol com cinco, seis anos marcou-me a vida inteira. Era o fascínio de ver o jogo de futebol.

Mas o mais normal nessa idade é querer ser jogador de futebol...
Não fui para aí. Chego a jogar, não cheguei à parte profissional e algo me conduziu para o conhecimento. Nos anos 80 já havia escritos do professor Jesualdo Ferreira, do professor Carlos Queiroz, do Nelo também, as pessoas não tinham era conhecimento disso e não havia a publicidade que há hoje, nem as redes sociais. Mas esse conhecimento existia e atraiu-me muito. Quando começo a buscá-lo fascinou-me e a partir daí não parei mais.

Rui Almeida (à direita) esteve à frente dos infantis do CAC, em 1995/96

Rui Almeida (à direita) esteve à frente dos infantis do CAC, em 1995/96

D.R.

Foi adjunto do Carlos Dinis no Atlético em 1996. E depois?
Não ficámos muito tempo porque o Carlos sai para um outro projeto. Eu saio também e pego no projeto das escolas de formação do Benfica.

Como é que isso surge?
Um amigo também de longa data, o professor Mário Costa, que vai abrir as escolas de formação do Benfica juntamente com o Nené, pede a minha ajuda. Um desafio enorme, o Benfica está em plena transformação. Aceitei. Às vezes treinávamos no campo pelado, outras no campo de râguebi, no campo de seniores ou debaixo das bancadas do terceiro anel, porque o estádio estava a ser transformado. Esta era a realidade das escolas do Benfica no início.

Deixa de treinar seniores e passa para as crianças. Isso obriga a mudar completamente a agulha.
Sim, mas o drive era o conhecimento. Eu andava atrás do conhecimento e fazia toda a lógica treinar a formação. Nos seniores o maior desafio era naturalmente a relação com eles. Mas a aceitação foi fantástica. Mais tarde quando vai para lá o Peres, eu volto ao Atlético porque os próprios jogadores que lá estavam na altura, no Atlético, falam de mim. Estamos a falar de final dos anos 90, início de 2000. Trabalho com o Peres e depois com o Marinho, que foi jogador do Sporting.

Depois dessas experiências nas escolas de formação do Benfica e no Atlético assume o cargo de Coordenador Técnico na Associação de Futebol de Lisboa.
Sim. Fico dois anos como coordenador, sou responsável pelas seleções distritais de Lisboa. Temos muita gente, Rui Patrício, Pereirinha, Daniel Carriço, tantos jogadores... Sou o seleccionador e treinador das seleções e faço a coordenação dos cursos de 1º, 2º nível e, juntamente com a FPF, de 3º nível também. Estamos um bocadinho naquela génese destes cursos que existem agora.

Em 1998 Rui Almeida esteve na génese das escolas de formação do Benfica

Em 1998 Rui Almeida esteve na génese das escolas de formação do Benfica

D.R.

Como aparece o convite para o Estoril Praia?
Treino os juniores do Estoril que estão nos distritais, subimos ao nacional e o Estoril fica no nacional e no ano a seguir entra o José Veiga com o projeto de subida. Entra o Ulisses Morais e sou convidado para fazer parte da equipa técnica.

Qual era o seu papel em concreto?
Adjunto muito ligado à parte de metodologia do treino. Fizemos o percurso II B, fomos campeões, depois II Liga e I Liga. Faço esse percurso todo.

Era o treinador adjunto da casa. Faz parte da equipa técnica de vários treinadores do Estoril.
Sim, depois o Ulisses sai e fica o Litos, que assume interinamente o clube. Esse é o ano em que o José Veiga salta para o Benfica. E no final dessa época saio. Mas volto depois com o Litos, ficamos mais uma época e vem o Tulipa. Saio com o Tulipa para o Trofense. O Tulipa sai e eu fico no Trofense com o Vítor Oliveira que já conhecia e com quem tenho uma ótima relação.

Vítor Oliveira, Tulipa, Litos, Ulisses: personalidades completamente diferentes. Com qual foi mais fácil trabalhar e o que aprendeu com cada um deles?
O que fiz sempre foi tornar-me disponível para ajudar no que quisessem, na área da minha formação, a metodologia do treino. Eu não conhecia o Ulisses Morais mas era uma pessoa aberta que quis ouvir. O Vítor tem uma pitada de humor na vida que é fabulosa. Ele no momento certo consegue colocar a pedra de sal de humor nas coisas, o que às vezes nas situações mais complicadas escangalha um jogador. Do ponto de vista relacional o Vítor era diferente. Com o Litos tinha uma relação particular, porque o Litos foi meu jogador no Atlético. Ele naturalmente assentava a sua experiência de treinador na de jogador.

Rui (à esquerda) com irmãos Carla e Pedro

Rui (à esquerda) com irmãos Carla e Pedro

D.R.

O que o leva a aceitar ir para Síria, primeiro à frente da seleção de sub-23 e depois da principal?
Saio com o Vitor do Trofense e pouco tempo depois o professor Mário Costa do Benfica liga-me e diz: "Tenho uma pessoa amiga que precisa de uma pessoa com o teu perfil, que queira construir algo e tenha paciência para ensinar, mas é na Síria". Eu não sabia nada da Síria. Sabia que era no Médio Oriente, mas longe de saber o que era o país. Aceitei ouvir as pessoas de lá. Falo com elas primeiro por telefone e fui. Intuição.

Nessa altura já era casado e tinha filhos?
Já era casado com a Maria José, sim.

Como a conheceu?
O pai dela tinha uma casa ligada a motas e bicicletas. E houve uma altura na minha vida em que fiz também triatlo e ia lá comprar as coisas. Cruzei-me com ela assim. Depois deixo de vê-la mas mais tarde acabamos por nos reencontrar. Ela era comercial imobiliária. Temos uma filha, a Alice, que tem 17 anos, nasceu em 2003. Eu faço a licenciatura, dou aulas durante dois, três anos. Sou destacado para a AF Lisboa, ainda sou destacado para o Instituto Nacional do Desporto, exatamente por causa dos cursos de treinador; e acumulava como treinador de futebol. No ano em que nasce a minha filha eu disse: "Acabou. Eu quero ser treinador". E deixei de ser efetivo, de dar aulas e dediquei-me a ser treinador apenas.

Quando disse em casa que tinha um convite da Síria, que estava a pensar aceitar, qual foi a reação?
A minha mulher acompanhou-me mentalmente e nas decisões. Ela conhece-me muito bem e àquilo que tem sido feito, que tem alguma lógica, ambição e coerência. Mas sempre com base e suporte em família. Desde muito cedo que decidimos em família que a Alice tinha de começar a estudar em colégios internacionais. Ela vai para a 1ª classe na altura em que estou no Trofense e colocamo-la num colégio internacional porque já sabíamos que mais tarde ou mais cedo a minha carreira poderia continuar além-fronteiras. Portanto já havia uma ideia de preparar as coisas de maneira a que elas pudessem andar comigo. A minha esposa sempre me acompanhou e apoiou.

E foi consigo para a Síria?
Não. Quando eu digo isto, é preciso ver que depois há decisões estratégicas. Eu não conhecia a Síria.

A primeira aventura fora de Rui Almeida enquanto treinador é na Síria em 2010

A primeira aventura fora de Rui Almeida enquanto treinador é na Síria em 2010

D.R.

Como foi o primeiro impacto?
Mais do que o primeiro impacto, no dia em que vou, morre o meu sogro. Só soube quando cheguei. E estamos naquela situação em que não tenho como voltar para trás, ou melhor, mesmo que quisesse não chegava a tempo ao funeral do meu sogro. Felizmente tenho um irmão e uma família muito forte, que acompanhou e ajudou a minha esposa nesse momento. Bem, mas falando do país. Eu tento fazer sempre o trabalho de casa e antes de partir como tenho um primo que é embaixador, falei com ele para tentar perceber o que é que ia encontrar, porque eu nunca tinha estado no mundo árabe. Essa conversa alertou-me e preparou-me para algumas coisas.

Mas quando chega o que o marcou mais?
Cheguei muito tarde, eram três, quatro da manhã. Tinha um contrato bem protegido onde estava escrito “hotel ou alojamento de quatro ou cinco estrelas”. Faltou foi o pormenor de dizer que eram quatro ou cinco estrelas internacionais [risos]. Fui parar a um hotel que correspondia a um hotel de três estrelas em Portugal. Era um hotel do regime sírio onde viviam ministros, incluindo o ministro do Desporto que lá estava com a família toda. Mas, claro, quando entro no hotel [risos]... Pensei que ia para um género de Four Seasons e o choque foi grande [risos].

Culturalmente houve alguma coisa que tivesse mais dificuldade em aceitar e adaptar?
Acho que o maior desafio era ir para selecionador nacional, em que há uma relação direta com o presidente da federação e com o ministro do Desporto. Isso é um desafio gigante para quem vem de adjunto. Todas as decisões que tomo têm repercussão diretamente com eles. Os primeiros seis meses foram mais ou menos tranquilos. Entramos em setembro de 2010. Em março de 2011 rebenta a Primavera Árabe. Começam ali os primeiros movimentos nas orações de sexta-feira. E a partir dali começo também a ter uma relação muito direta com o ministro, que estava no meu hotel. Eles mais tarde mudam o presidente da Federação, por isso a minha relação passa a ser quase estritamente com o ministro.

Ao nível do futebol, era pior ou melhor do que estava à espera?
Muito melhor. Neste momento não faço ideia do que se passa lá, mas na altura havia qualidade dos jogadores. Naturalmente eles levam jogadores e treinadores europeus porque querem evoluir, percebem que podemos acrescentar alguma coisa. O jogador sírio não fica muito atrás do jogador do Irão, é o mesmo perfil de jogador, com robustez, altura. Agora têm tido muito mais problemas do que o Irão. O Irão teve um treinador português oito anos à frente deles. E isso mudou completamente a vida do futebol iraniano.

E em termos organizativos?
Isso sim, modéstia à parte, acho que acrescentei muita coisa. Essa foi a minha maior batalha com eles. A nível de organização de um departamento profissional da federação. Passava ao dia na federação a trabalhar e isso para eles era uma grande mudança. Nunca mais me esqueço de que quando cheguei perguntei: "Onde é que é o meu escritório?" E eles ficaram a olhar para mim: "Escritório?" Lá encontraram uma sala [risos]. É essa minha organização que leva a que eu, que vou para lá para a seleção de sub-23, acabe por chegar à seleção A. Exatamente porque eles pensam: "Se ele faz ali aquilo, então vamos levá-lo para a equipa principal". Passado dois meses estou com a seleção A, na China, a fazer um torneio.

Já como treinador principal.
Sim. As seleções árabes mudam muitas vezes de treinador. Quando chego estava um sérvio que acaba por sair. Depois estou eu ali um bocadinho, mas depois tenho uns jogos da seleção sub-23, não há muita atividade da seleção principal, porque ela já estava qualificada para a Asian Cup, que é em janeiro. Sou convidado mas não faço essa Asian Cup.

Porquê?
Porque disse: "Tudo bem mas eu é que vou escolher os jogadores, não há interferências". Eles não aceitam essa exigência. Até ao verão consigo a qualificação dos sub-23. E fico com a equipa a seguir.

Descobriu por que razão eles têm essa necessidade de interferir tanto na escolha de jogadores?
Naquele caso, eles já não iam à Asian Cup há muito tempo e havia muitos interesses. Eu chego lá em setembro e eles começaram a dar-me nomes, nomes, nomes, mas eu disse-lhes logo, eu vejo os nomes, mas eu vou ver os jogadores todos ao vivo. Eles ficaram espantados. E assim fiz. Durante os primeiros três meses não fiz outra coisa que não fosse ver jogos, com o meu tradutor.

Nunca apanhou nenhum susto, sobretudo desde que começou a Primavera Árabe?
Felizmente, não. Se não tinha vindo embora. Eu na parte final já não vivia sempre na Síria. Vivi na Jordânia e no Qatar.

Porquê?
Porque há uma altura em que a embaixada começa a aconselhar a não ficar lá. E como também tinha muitas observações para fazer... Quando comecei a sentir mais insegurança foi em março de 2012, que é quando eu termino. Sou convidado para continuar como treinador principal da seleção, mas disse que não.

Tem alguma história engraçada que possa contar desses tempos?
Tenho uma que aconteceu num dos primeiros jogos que faço com a seleção nacional da Síria. Estamos a jogar no centro de Damasco contra a seleção do Kuwait. Era um jogo importante porque as duas seleções são rivais e porque era um jogo de qualificação. Ganhámos 3-0. A meio da segunda parte, mais ou menos aos 60 minutos, o meu tradutor recebe uma chamada. Um minuto depois chama-me e diz: “Coach, tenho aqui uma chamada”; “Estou num jogo não vou atender chamada nenhuma”; “Sim, mas é o presidente da federação”; “Que seja, mas diga-lhe que falo com ele depois do jogo. Se quiser que deixe mensagem, mas falo com ele mais tarde”. A mensagem era que ele estava ao lado do homólogo do Kuwait, que a tendência do jogo estava um bocadinho perigosa, porque o Kuwait já estava a perder 3-0 e o jogo estava longe de terminar e que o seu homólogo estava com medo de terminar e sair com uma grande vergonha do jogo. Portanto era para ver se abrandávamos um bocadinho” [risos]. Por coincidência, o jogo terminou com aquele resultado. Mas é sempre uma coisa estranha para nós, que acabamos de chegar da Europa, ouvir uma coisa daquelas.

Rui Almeida torna-se adjunto de Jesualdo Ferreira no Panathinaikos, da Grécia, em 2012

Rui Almeida torna-se adjunto de Jesualdo Ferreira no Panathinaikos, da Grécia, em 2012

D.R.

Entretanto vai para a Grécia.
Saio da Síria em março, estou para assinar por um dos primeiros clubes do Kuwait e nesse momento um amigo comum com o professor Jesualdo Ferreira liga-me, porque entanto vai sair um dos adjuntos. Já tinha saído o NES [Nuno Espírito Santo] e é o momento em que sai o José Gomes. E o professor Jesualdo queria alguém com o meu perfil.

Já o conhecia?
Dos anos da faculdade. Mas tinha estado muito tempo sem estar com ele pessoalmente.

Aceitou logo?
Na altura, quando falo com a minha esposa, lembro-me que a conversa foi: "Tive um convite para ser adjunto"; e ela, depois de um pequeno silêncio, responde: "Vais ser adjunto outra vez?". Mas quando lhe expliquei... "Ok". Eu não tinha como recusar ser adjunto do professor Jesualdo Ferreira. Sabia quem ele era, conhecia a pessoa, a sua forma de estar no futebol...

Não é uma pessoa fácil...
Não, mas pessoalmente é uma pessoa fantástica. Por isso nem pensei duas vezes. Acho que não havia muitas pessoas que me levassem a ser adjunto outra vez.

Foi só por ele que aceitou?
E o desafio, novamente. A Síria foi um desafio e lá vou eu outra vez atrás de um desafio. Quando o professor me liga e diz estamos no play-off da Champions League, vamos para a Europa League, no mínimo, o clube está numa mudança muito grande, o orçamento vai baixar porque os donos, a família que gere o clube, está a sair... Nós nessa época temos jogadores como Katsouranis, Karagounis, Seitaridis, jogadores que jogaram em Portugal. Fomos buscar jogadores com perfil diferente, porque o orçamento tinha baixado muito e portanto era um desafio. E estávamos a lutar pelo título.

Rui Almeida fez parte da equipa técnica liderada por Jesualdo Ferreira, no Sporting de 2012/13

Rui Almeida fez parte da equipa técnica liderada por Jesualdo Ferreira, no Sporting de 2012/13

D.R.

Como foi trabalhar com Jesualdo Ferreira?
Fantástico. O professor leva-me para uma área em que o desafio era ser o braço dele em tudo o que era a parte de metodologia em relação à organização do dia-a-dia das sessões de treino. O José Gomes estava com ele há muito tempo e sai também. O Rui, que era da parte da observação e análise de vídeo, vai com o NES também. Portanto o professor fica só com o Nuno Almeida, que estava com ele há um ano, e entro eu. Entro para a área de tudo o que é construção, planeamento, treino.

Vai para a Grécia sozinho ou com a família?
Vou no início sem família, iriam ter comigo em janeiro, mas quando estamos para mudar surge o convite do Sporting.

Aí o professor Jesualdo não pensou duas vezes?
Mas eu percebo. Adorei a Grécia, vivíamos em Glyfada, no sul de Atenas, e adorei. Adorei o povo, a forma como fomos recebidos. O campeonato é agressivo, claro, muito diferente, mas quando recebemos um convite do Sporting... Ainda por cima o professor entra primeiro como manager, nem entra como treinador. O Sporting realmente é um clube apaixonante, com todas as suas virtudes e defeitos. E foram seis meses verdadeiramente desafiantes.

Porque é que foram só seis meses?
Decisão do professor. No final do ano o professor tem convite para ficar e decide não ficar. Nós apanhamos a mudança de direção. Apanhamos a saída do engenheiro Godinho Lopes para a entrada do Bruno de Carvalho, em março. Estamos a meio da época e está a mudar a direção, exatamente com a mesma agitação das últimas entre Bruno Carvalho e Varandas. O professor sabe bem o caminho que quer e não pode haver discursos híbridos com ele. Acho que não existia uma pessoa com o currículo do professor que aceitasse o Sporting naquela altura em que entramos.

Porquê?
Nós estamos em segundo ou terceiro lugar na Grécia e vamos para o Sporting a um ponto da descida. E a vender jogadores uns atrás do outros.

Ele aceitou porquê?
Paixão. Ele treinou o Benfica, o FC Porto, tinha treinado o SC Braga e se calhar era um desafio de carreira. Aceitou também porque sabia que podia ajudar o clube a construir algo. Nós tínhamos uma coisa que depois não sei como é que ficou. Ele cria um gabinete técnico, juntamente com o Jean Paul, que logo a seguir também sai. Estava-se a criar um gabinete técnico em relação à orientação daquilo que era o futebol profissional com a equipa B e sub-19. Entramos ali num momento conturbado. É um ano em que temos de ir buscar muitos jogadores à equipa B e aos sub-19. Vamos buscar o Bruma, o João Mário, o Ilori, depois o Cedric está muito novinho, o Adrien nem joga a titular... Há um jogo em casa com o FC Porto em que empatamos a zero; as pessoas começam a ouvir que o Eric Dier pode jogar a 8 e toda gente dizia que era impossível porque não tem isto, não tem aquilo e ele aparece a jogar a 8 e faz carreira e salta para o Tottenham como 8. Isto é obra do professor.

Rui Almeida no dia da entrevista a Tribuna

Rui Almeida no dia da entrevista a Tribuna

Nuno Botelho

Qual é a grande mais-valia do professor Jesualdo?
Se há uma palavra que o define é conhecimento. Conhecimento daquilo que é o futebol em si. Daquilo que é estruturar uma equipa, estruturar um treino, estruturar um jogo, uma estratégia, observar uma equipa, alterar estratégias a meio de um jogo. Tudo aquilo que é o conhecimento de um jogo, o professor é muito forte nisso. Lembro-me de na faculdade já haver escritos dele que datam dos anos 80. Coisas que se falam, de princípios do jogo e coisas assim, o professor já tinha escrito em 80 e 90 e o professor Carlos Queiroz também. E é esse conhecimento que suporta a carreira dele. Depois tem uma forma muito particular de transmitir que vai ao detalhe. Isso ele fazia ao Dier, ao Ilori ou ao Bruma, como o vi fazer ao Katsouranis, que tinha sido campeão europeu [risos]. Os próprios jogadores, como Falcão, Lucho González, Lisandro López, Hulk, já vieram dizê-lo a público e reconhecer essa capacidade que ele tem.

Como é que ele é no relacionamento com os jogadores?
É uma pessoa com uma personalidade muito forte. Se tiver que se chatear com um jogador, chateia-se. Mas não há quem possa não gostar dele no futebol. Não tem como. Porque o jogador sabe que vai aprender. Se quiser ouvir, vai evoluir. Mas vai evoluir muito. E isto não sou eu a dizer, muitos jogadores já o disseram. Porque o conhecimento dele mudou-lhes a carreira, claramente.

A seguir vai com ele para o SC Braga.
Sim, faço o Braga e o Zamalek.

E a família vai?
Para Braga vamos todos.

A sua filha nunca se queixou de andar a mudar de escola?
Sinceramente não. Eu fui um sortudo na esposa com quem casei e na filha que tive. Viajei sempre muito, fui daqueles que fiz interrail com 15, 16 anos. Sempre gostei muito de viajar e habituei a Alice a isso. Lembro-me de ir passear para Moçambique, de ir ao Kruger Park, tinha a Alice dois anos e meio. Ela habituou-se a viajar connosco para qualquer lado.

Elas também vão para o Egito?
Não.

Rui Almeida foi campeão pelo Zamalek, em 2015, como adjunto de Jesualdo Ferreira (à direita)

Rui Almeida foi campeão pelo Zamalek, em 2015, como adjunto de Jesualdo Ferreira (à direita)

D.R.

Para o Egito ajudou a experiência que já tinha tido na Síria?
Claramente. Como já conhecia aquela realidade ajudei bastante no enquadramento do treino. Tentar não mudar uma oração, o jogador ter um espaço para fazer a oração num intervalo de um jogo. Coisas normais que não vale a pena estar a mudar, porque se se muda vai mexer com coisas que provavelmente depois não controlamos. E aí, como eu já tinha assistido a tanta coisa na seleção nacional, penso que ajudei bastante.

E que tal o clube?
Fomos para um clube que não ganhava há muitos anos, há 11 anos que não ganhava um título. Antes de nós esteve o Jaime Pacheco, que sai não sei porquê. E entramos nós, exatamente no momento em que estamos para ir para o Santos. Como não ganha o candidato que quer levar o professor, nós vamos para o Zamalek. Primeiro jogo, nós não estamos no banco, estamos só a ver o jogo, e houve 22 mortos à volta do estádio. O jogo realiza-se porque ninguém sabe, só no final, ou então esconderam que sabiam. Ficámos naquela indecisão, ficamos, não ficamos. O campeonato para três semanas. Ficamos, recomeça o campeonato e estamos num sufoco de jogos até ao verão, eram jogos de três em três dias praticamente.

Depois surge o convite para ir para França, para uma equipa da II Liga.
Sim, surge quando faltava um ponto ou dois para sermos campeões, matematicamente, estávamos a três, quatro jornadas do fim.

O que o levou a aceitar?
Fiz este percurso com o professor e voltamos à origem, ao conhecimento. O professor tinha a hipótese de ir para o Qatar e já não era aquilo que eu queria. E este convite de ir para França, quando tens um convite de uma das melhores ligas da Europa, pesa. Apesar de ser II Liga é uma II Liga muito forte. É um percurso que se faz e a pessoa chega a um momento em que diz está na hora de voltar a seguir o meu caminho.

Ele ficou chateado?
Não. No momento há aquela reação: "Mas vais embora porquê? Aconteceu alguma coisa?" Mas ele entendeu muito bem, tanto que somos amigos e trocamos mensagens. Até porque eu não ia trocar para ir ali para o Kuwait ou algo do género. Não. Ia para França. E ele tinha adorado estar em França, ele foi adjunto do Toni no Bordéus. Por isso compreendeu muito bem. Claro que não é lógico separarmo-nos do professor Jesualdo Ferreira. Mas eu sempre pensei pela minha cabeça.

E tinha a ambição de ser treinador principal...
Mais do que a ambição é um bocadinho aquela coisa da flor, tem que nascer. Tem que nascer, não tem como. E há um momento em que tu sentes que aqui não tens por onde ajudar mais. Recebi, dei muito também, e há um momento em que não vais dar muito mais. O professor vai para o Qatar, para um futebol completamente diferente, com outros objetivos, naturalmente. Eu na altura tinha 45 anos, estava noutra fase.

Rui Almeida na apresentação como treinador do Red Star, de França, em 2015

Rui Almeida na apresentação como treinador do Red Star, de França, em 2015

D.R.

Vai para o Red Star, em Paris. Sai de uma situação de adjunto, vai para o futebol europeu... Quais foram as suas maiores preocupações?
Quando me convidam a primeira vez, estou ao pé do Mar Vermelho e de lá vou direto para Paris, para uma reunião. Quando faço o trabalho de casa em relação ao Red Star, à liga onde vou entrar, vejo que claramente perde para o Championship inglês apenas no glamour do dinheiro, porque, no resto, tem tudo. A dimensão é esta, no Red Star não, mas no Troyes e no Caen, onde estive a seguir, nós viajamos de avião particular para todos os jogos fora. Não de autocarro, mas de avião particular. Isto é a segunda liga francesa. O nível financeiro da segunda liga francesa é esse. Penso que nem em Portugal os grandes fazem isso, às vezes. Portanto é para perceber o nível de exigência e suporte profissional que dão. Muitos treinadores que estavam na I Liga iam à segunda liga francesa e continuam a ir. Por razões de carreira, por razões financeiras, porque há clubes da II Liga que pagam mais do que alguns da I Liga e pelo desafio que é a II Liga francesa. Todos os jogos da II Liga dão em direto. A média de assistência é de 8/10 mil pessoas por jogo. Portanto, quando analiso a liga, digo sim. Mesmo que vá para um clube que é o segundo orçamento mais pequeno da liga. Tenho de acreditar em mim, acreditar que vou fazer alguma coisa.

Mas é um risco.
Claro, porque saio do professor, vou para uma segunda Liga e se não tenho sucesso tinha o meu pescoço pendurado. Mas é a mesma decisão que me levou a deixar o ensino no ano em que nasce a minha filha, com responsabilidades como pai de família.

O início foi duro?
Não falava fluentemente francês, o meu francês era de três anos de secundário. E no fim do primeiro jogo do campeonato, que é mais ou menos seis semanas depois do início da época, falo francês na conferência de imprensa. A acumular a tudo o que já tinha antes acumulei e absorvi a paixão do professor e isso tornou-me mais forte como treinador. A motivação diária do professor chegar às 7 da manhã, como um miúdo, com entusiasmo. E isso é um bocadinho do que tento fazer também.

Como é que corre essa época e meia no Red Star?
Rebentamos com todos os objectivos e mais alguns. O Red Star é um clube histórico, o fundador do clube é o fundador da FIFA. Mas depois num certo momento da história perdeu-se completamente e em França quem não tem as finanças certinhas desaparece como clube. E o Red Star baixa e naquele momento o único objetivo era estabilizar o clube na 2ª Liga, não descer novamente. A primeira volta correu tão bem que tínhamos 31 pontos, portanto tínhamos quase a manutenção feita. No final de janeiro tínhamos a manutenção concluída, e disse aos jogadores: "Vamos atrás disto". Agarrámos ali um grupo com uma ambição enorme.

Tinha muitos jogadores portugueses?
Dois, o Rui Sampaio e o Vítor, que quase não jogou, não se conseguiu adaptar, claramente. O Rui, sim, mas infelizmente depois lesionou-se e não jogou mais.

Foram escolhidos por si?
Sim.

E é a primeira vez que tem um adjunto.
Sim, o Gabriel Santos, está em Braga quando lá chego, num gabinete de observação. Mais tarde nós vamos para o Sporting e ele vem para o Sporting também. No Braga trabalhou com o José Peseiro, com o Jesualdo e acho que com o Leonardo [Jardim] também. Vem para baixo e trabalha com o Marco Silva. Depois eu convido-o para ser meu adjunto de campo e ele vem comigo. Desde lá tem estado comigo.

Mas estava a contar que tinham já garantida a manutenção e que vão por aí fora…
Vamos e lutamos até à última jornada para subir de divisão diretamente. Ficámos a um ponto[ risos], a um ponto da subida de divisão. Mas estamos a falar do orçamento mais baixo da Liga.

Rui com a mulher, Maria José, em Paris

Rui com a mulher, Maria José, em Paris

D.R.

E na época seguinte?
Começamos, mas saio porque o presidente entretanto quer renovar o contrato, mas eu disse-lhe que não tinha como. Perguntei-lhe algumas coisas normais, quais são os objetivos? Que orçamento vamos ter? Vamos ter capacidade de fazer mais isto e isto? Nós jogávamos a 80 quilómetros de Paris, o clube não jogava em casa, em Saint-Ouen, e isso trouxe-nos muitas dificuldades. Ganhámos muito jogos mas tivemos muitas dificuldades, ficávamos fora do nosso público. Eles, que quando jogavam em casa tinham três ou quatro mil pessoas, não tinham ninguém. Acabámos por vir embora do Red Star.

Ainda inicia a segunda época.
Sim, faço meio ano, mas em dezembro, quando tentamos fazer a renovação, disse-lhe: "Não, presidente, não posso renovar".

O Rui aí já tinha contactos do Bastia?
Não, não. Mas estava tranquilo. Em França não há muitos treinadores estrangeiros, na 2ª Liga não há quase ninguém mesmo, na 1ª Liga neste momento salvo erro são só três, quatro agora com o Moreno, penso eu. Não é um hábito ter treinadores estrangeiros, o mercado francês está um bocadinho fechado, mas no primeiro ano sou nomeado para treinador do ano em França. Isto diz um bocadinho do reconhecimento que o meu trabalho teve. Pensei que a partir daí viriam outros clubes.

Quando sai do Red Star volta a Portugal?
Fico em Paris, fiquei sempre em Paris, a minha família nunca mais saiu de Paris.

Ficou muito tempo à espera de novo clube?
Dois meses. Saio em dezembro e no final de fevereiro entro no Bastia, da Córsega. Vou para a Córsega e a família fica em Paris. Não havia colégios internacionais.

Já é um clube da I Liga. Como correu?
Tenho 12 jogos para fazer, acabo por fazer 11, porque há um jogo que é contra o Lyon e que não acaba, e que nós perdemos na secretaria...

Recorde.
Foi uma confusão com o nosso Anthony Lopes, os adeptos saltam para dentro do campo, tentativa de agressão, uma confusão. O jogo estava empatado quando foi interrompido e na secretaria perco esse jogo e desço de divisão. Só que o clube tinha um défice de 23 milhões de euros sempre escondido e quando a DSG, que é organização que controla as finanças dos clubes, descobre isso, o clube vai parar à 5ª divisão.

Rui Almeida teve de andar de metro com a sua equipa do Red Star para conseguir chegar a tempo a um jogo

Rui Almeida teve de andar de metro com a sua equipa do Red Star para conseguir chegar a tempo a um jogo

D.R.

Volta a Paris e fica um ano sem treinar.
Sim, mas sinceramente vinha ali de uma série de anos em que não parava. Aproveito para estar com a família. Acabo também por ter mais tempo para ver outros campeonatos, outras coisas.

Como é que se suporta financeiramente?
Felizmente somos pessoas organizadas.

A sua mulher trabalha?
Na altura já não, mas sou uma pessoa organizada.

Aproveita para ver jogos e...
Para estudar também. Gosto muito de ler e não conseguia, lia uma hora por dia, não mais do que isso.

O que gosta de ler?
Biografias, acima de tudo.

Qual foi a que mais o encantou?
A última foi do CEO da Apple, o Cook, mas a que mais me impressionou foi a do Nelson Mandela.

Rui Almeida treinou o Bastia da I liga francesa em 2016/17

Rui Almeida treinou o Bastia da I liga francesa em 2016/17

PASCAL POCHARD-CASABIANCA

Entretanto como é que surge o Troyes?
Entretanto tinha tido convites, nomeadamente da 2ª Liga francesa, mas não quero.

De Portugal nada?
Sinceramente... Vamos lá ver uma coisa: em Portugal tem que ser algo que realmente me desafie, porque senão não tem muita lógica regressar. Na 2ª Liga em Portugal, neste momento, não treinarei. Na 1ª Liga depende do que for. Agora estou aberto, sim, claramente, o meu país é o meu país e acho que um dia vou regressar. Já me perguntaram porque é que não fui para o Médio Oriente ganhar dinheiro. Não era o momento, já lá tinha estado duas vezes. A Alice estava num momento em que eu queria acompanhá-la um bocadinho, queria estar com ela. Lá está, são escolhas de vida que a pessoa tem que ter capacidade para poder fazer. Eu fui para a Síria no momento em que tive de ir para a Síria entre aspas.

Então decidiu ficar em casa apesar de ter convites. É isso?
Esse ano decidi não ir para lado nenhum, como eu agora posso decidir não ir ou ir, tenho essa capacidade, felizmente. Isso dá-nos uma certa liberdade de decisão e de pensamento.

O Troyes?
Ligações. No Estoril, na altura do José Veiga, temos muitos jogadores franceses e na altura a pessoa que trabalhava naquele mercado era o Luís Sousa. No meu primeiro jogo do campeonato do Red Star, jogo contra o Créteil, quem era o diretor desportivo do Créteil? Luís Sousa. Ou seja, 15 anos depois dou de caras com o Luís Sousa. No final da época o Créteil desce de divisão. Ele vai para o Troyes, que está na I Liga. Eles descem de divisão e no final desse ano ele liga-me: "Eh pá, é a II Liga mas tens de vir, o clube é muito bom, tem um projeto". Fui ter uma reunião com o presidente, que inclusive vive em Portugal, na Comporta, o Daniel Masoni, e assino pelo Troyes.

E corre bem ou nem por isso?
É outra vez uma época em que temos um orçamento de II Liga, ficamos em 3º lugar, vamos ao play-off, perdemos e ficamos a dois pontos da subida direta.

Porque é que não continua?
Porque no final da época há um ataque feroz a mim [risos], por parte de vários clubes. O Caen, o West Bromwich e um clube da I Liga. Por questões de timing, o West Brom opta pelo treinador que o está a treinar, o Bilic. Pensei que o Caen não iria esperar mais de duas semanas e disse OK. Mas tinha mais um ou dois clubes que me tinham sondado, da I e da II Ligas, clubes mais pequenos, mas tudo em função do reconhecimento. Acabo por sair do Troyes e assino pelo Caen. E o Caen acaba por ser uma história curta pelos resultados, acima de tudo resultados, dito isto de forma curta e falando quase contra mim.

Consegue explicar?
Os clubes que descem de uma I Liga em França não têm paraquedas financeiro como em Inglaterra e como em Espanha, em que o clube tem por um ano o orçamento da I Liga. Em França isso não existe, portanto o Caen neste caso desce de 38 milhões para 17 milhões de euros de orçamento, o que quer dizer que tem de livrar-se dos seus melhores jogadores. No Troyes já tinha apanhado isto a uma dimensão menor porque o orçamento era 30 milhões de euros e tinha caído para 13. Ou seja, começamos a época com jogadores que iam sair, com outros que não queriam ficar, outros que querem ficar, portanto muito híbrido. Só que o clube não vai buscar ninguém [risos]. E expus a situação, expus e expus a um ponto que as pessoas acharam por bem decidir que eu estava a mais. Saio no dia do meu aniversário, no dia 29 de setembro [risos].

Esteve pouco tempo.
Foram três meses. Na Liga fiz nove, dez jogos.

Rui Almeida na apresentação do Troyes, 2017

Rui Almeida na apresentação do Troyes, 2017

D.R.

Não apareceu mais nada?
Algumas coisas, sim, mas não me faz muita lógica, neste momento o passo seguinte é um passo que me permita alcançar outras coisas na carreira. Não quer dizer que não vá treinar alguma equipa da II Liga francesa ou inglesa. Tem é que me fazer lógica em relação ao que quero. Por exemplo, se quero chegar à Liga Europa, à Liga dos Campeões, tenho que treinar na I Liga. Normalmente nenhuma equipa da II Liga joga nestas ligas. Portanto o próximo passo tem que ser um clube que me desafie a esse nível.

Ainda não lhe surgiu nenhum?
Não aquele que eu desejo, portanto vou esperar.

Histórias para contar destes anos em França, tem?
No meu primeiro ano em França, com o Red Star, na véspera de um jogo, estávamos no autocarro para ir apanhar o TGV e ficámos completamente bloqueados por causa de uma manifestação. A solução foi apanhar o metro. Todo o plantel, equipa técnica, staff, médicos, vice-presidente teve de ir a pé pela rua, descer, apanhar o metro para depois ir apanhar o TGV. Foi uma situação algo caricata.

Qual é a sua maior ambição como treinador?
Neste momento claramente é treinar um clube que treinei sempre como adjunto. Estamos a falar do Sporting e estamos a falar do Braga. Chegar a esse nível.

Acha que tem notoriedade suficiente em Portugal?
[risos] Qualquer desafio que apareça neste momento, sinceramente, não tenho qualquer tipo de problema em abraçar. E tem alguma lógica o que estou a dizer. Da acumulação de várias experiências de formação, de clubes de II e de III divisão até, porque a II B era III divisão, de desafios diferentes, de subidas, de não descidas, para ser campeão ou não, acumulei e somei com clubes grandes. Quando nós treinamos um clube grande como o Sporting e o Panathinaikos, mesmo o Zamalek e o Braga... Estou a mencionar o Zamalek porque é em África e é um clube muito grande. Mas estes três clubes na Europa, a convivência com os jogadores que estes clubes têm, a envolvência do clube, o clube em si, os adeptos, a imprensa, a somar a isso naturalmente o professor com quem trabalhei… Tudo isso é importante e toda essa envolvência deu-me aquilo que me faltava.

Mas não acha que para os portugueses continua a ser o adjunto do professor Jesualdo, uma vez que depois disso fez carreira lá fora?
Não quero estar a falar de nomes, mas nós temos aqui exemplos concretos de treinadores que saem das equipas B. O maior sucesso atual é de uma pessoa que sai de uma equipa B para o maior clube nacional. Isto para chegar à abordagem ao conhecimento, isso é que é o mais importante para mim. Futebol profissional? Sim, eu estive e conheço. Clubes grandes? Sim, eu estive. Formação? Sim, eu sei. Médio Oriente? Também sei. França? Então mas... é preciso falar línguas? Também falo alguma coisa, não falo 10, mas falo alguma coisa. A questão de estar fora só pode ser uma vantagem. Porquê? Porque a versatilidade que a pessoa tem que ter quando está fora é enorme, é gigante.

Rui com os pais no dia do seu 50º aniversário

Rui com os pais no dia do seu 50º aniversário

D.R.

Acompanha naturalmente o futebol português.
Sim, qualquer treinador que está no estrangeiro acompanha o futebol português. Se a pessoa diz assim, estás há 15 anos no Cazaquistão, ok, se calhar, com todo o respeito, se calhar há 15 anos no Cazaquistão perdia um bocadinho o fio à meada; mas estou em França, um campeão do mundo, estou aqui ao lado. Acompanho direta, indiretamente e obrigatoriamente quase. Ainda há pouco tempo ligaram-me para fazer a análise ao Sporting-Benfica.

Faz parte dos seus objetivos ser comentador?
Não, não, nem pensar. Foi a primeira vez que fiz e foi uma análise tática ao jogo. Mas não, até porque não sou uma pessoa de aparecer muito em televisões. Não, comentador não vai ser a minha carreira, para já [risos]. Pelo menos para já.

Não está preocupado por enquanto com o seu futuro?
Não, não estou. Aproveito para estar com a minha família um pouquinho mais, aproveito para fazer coisas de que gosto muito na minha vida privada. Ler, ir ao cinema, sou um apaixonado por praia, por mar...

Pratica algum desporto?
Não, só mota de água. Mas adoro fazer BTT.

Qual é a equipa de sonho que um dia gostava de treinar?
[Risos] Há uma equipa, que não é uma equipa gigante, mas pela qual tenho um fascínio: o West Ham.

Porquê?
Porque com cinco anos vi o Sporting com o West Ham e fiquei sempre com o West Ham na cabeça. E há pouco tempo, na última vez que estive parado fui ver alguns jogos pela Europa, fui a Inglaterra para ver alguns jogos do Marco [Silva], que na altura estava em Watford, e um dos jogos que vejo é com o West Ham, que jogava em Wembley. É fantástico.

Rui Almeida com a mulher e a filha no Egipto

Rui Almeida com a mulher e a filha no Egipto

D.R.

Se não tivesse sido treinador de futebol, o que teria sido?
Piloto de aviões. Era um fascínio também, não sei se algum dia ainda vou tirar o brevê.

Onde ganhou mais dinheiro até agora?
No Médio Oriente.

Onde é que tem investido o seu dinheiro?
Em imobiliário.

Tatuagens?
Tenho uma, o nome da minha filha. Fiz quando ela começou a escrever. Foi ela que escreveu.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Extravagâncias, se é que fiz, foram as viagens.

A melhor viagem que fez?
Até agora, as que mais me marcaram foram os interrails, de mochila às costas por aí fora, foram viagens fabulosas.

E a viagem que ainda quer muito fazer?
Alasca. Sou muito de natureza e há coisas que quero fazer. Perdi já um bocadinho da Austrália, não fiz e já está... E às Galápagos. Quero ver se faço essas duas a breve trecho. A próxima se calhar vai ser já em fevereiro, vou fazer Grand Canyon.

Qual foi o jogador que mais o surpreendeu pela positiva?
Posso dizer dois ou três. Um veterano, o Katsouranis, pela inteligência com que ele jogava. No Sporting quando vamos buscar o Bruma, ao fim de uma semana era titular do Sporting. Treinou uma semana connosco. O Eric Dier a mesma coisa. Seria uma chavão falar do Rafa, mas o Rafa tinha tudo. Ele quando nos chega vinha do Feirense.

Qual é a sua maior referência em termos de treinador?
Tem que ser o senhor professor Jesualdo. Alguém com quem trabalhei, certo?

Há muitos que referem o Mourinho e nunca trabalharam com ele, ou o Guardiola...
Tenho algum fascínio por alguns treinadores italianos. Gosto da forma como eles trabalham.

E qual é a melhor Liga para si?
Que tenha treinado, a francesa. Que não tenha treinado, gosto da alemã. Vi muitos jogos da Alemanha e gosto muito da Bundesliga.

Estava a falar do fascínio pelos treinadores italianos, algum em particular?
Do Massimiliano Allegri, que estava na Juventus, gosto muito do perfil. Gostava muito do Lippi também.

Nuno Botelho

Entre Ronaldo e Messi?
Tem que ser Ronaldo.

Ele é o jogador perfeito?
É o jogador que mostra aos outros que é possível. Encalha um bocadinho naquilo que o Gonçalo disse há poucos dias, ele tem que ser emoldurado [risos].

Qual é a melhor qualidade de um jogador de futebol?
Para além de tudo o que cada um pode ter, tem de ter disponibilidade para aprender. O talento pode trabalhar-se. A mentalidade para fazê-lo é que faz a diferença. Quem tem uma mentalidade mais fixa, pensa que isso vem dos genes, quem tem uma mentalidade de crescimento, sabe que é possível trabalhá-la. Podes ter um bocadinho menos de talento, mas se tens muita autoconfiança e muito espírito de sacrifício, vais desenvolver. E podes ter uma pessoa que não tem esses princípios, tem algum talento mas não consegue. Por exemplo, uma pessoa muito ansiosa perante a competição, perante o treino, ou receosa perante as críticas, também vai ter problemas.

A nova geração de jogadores é menos focada e tem menos espírito de sacrifício do que os jogadores há 20 ou 30 anos?
Acho que temos de relembrar a palavra "compromisso" com eles. Com o que quer que seja, seja com o clube, com o desafio, com o objetivo, com o presidente. Tem de haver compromisso. E estes jovens têm que ter isto. E nós temos de orientá-los para onde os queremos levar. É preciso ter paciência, paciência para ensinar, é preciso tempo, porque isto de ensinar os jogadores a jogar, não acontece assim de um dia para o outro.

É supersticioso?
Não.

E crente?
Sim, sou religioso. Venho de famílias não praticantes, mas religiosas.