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A casa às costas

José Gomes: “No Benfica, o Camacho quis testar-me, mas eu percebi e pensei: 'Vinhas tu de Espanha enganar um gajo de Matosinhos?'”

A paixão pelos cavalos era tão grande que aos 10 anos partiu o mealheiro para poder ter aulas de equitação. Pouco dedicado à escola, aproveitou a ida à tropa para, através de passagem administrativa, concluir o 12º ano. Depois de dar instrução na Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, atirou-se finalmente aos estudos e diz ter sido um dos principais responsáveis pela homologação do curso de Educação Física no Instituto Superior da Maia. Em paralelo, sempre o futebol, a paixão maior. Depois de uma breve curta carreira enquanto jogador, ganhou fama como adjunto de Jesualdo Ferreira, no Benfica, no FC Porto, em Espanha e na Grécia. É treinador principal desde 2012 e, atualmente à frente do Marítimo, promete mais e melhor

Alexandra Simões de Abreu

Bryn Lennon

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Onde nasceu, o que faziam os seus pais, tem irmãos? Fale-nos um pouco da sua família.
Nasci em Matosinhos e vivi lá até aos quatro anos, já fiz os cinco em Vilar do Paraíso, em Valadares, onde cresci. Foi a minha casa de sempre e onde ainda hoje vive a minha mãe, que era enfermeira no posto médico de Vilar do Paraíso e Valadares. O meu pai era técnico industrial numa fábrica de metalomecânica pesada que ficava muito perto da nossa casa. Sou o mais velho de quatro irmãos, tenho mais três irmãs, sou o único rapaz.

Havia alguém na família ligado ao futebol?
Não. O meu pai jogava no grupo desportivo dessa fábrica, faziam torneios com outras empresas. Não consigo explicar a razão, mas sempre gostei muito de futebol, mais do que qualquer outra coisa.

E da escola, também gostava?
Gostava de ir à escola [risos]. Era um drama para os meus pais, principalmente para a minha mãe, porque, segundo ela, escolhia sempre as piores companhias, andava com amigos mais velhos, sempre a fazer malandrices. Não era mau aluno, que dizer, mais tarde reprovei, mas era sempre por desleixo, não me dizia muito a escola. Adorava ir à escola mas para estar no recreio, com os amigos [risos]. Aos 14 anos, escolhi a área de desporto, primeiro porque gostava e depois porque estamos a falar de nove horas de aulas por semana em que era desporto, os outros tinham que estar dentro da sala e nós estávamos no pavilhão e nos campos, portanto achava aquilo o máximo.

Já torcia por algum clube?
Pelo Futebol Clube do Porto. Os meus avós eram do Porto, os meus pais do Porto, apesar da minha mãe ter nascido em Famalicão, torcia pelo Futebol Clube do Porto também e eu ia ver o FC Porto, até aos meus dez anos.

Ia com o seu pai?
Fui poucas vezes com o meu pai. Só ia com ele quando ele conseguia através de um amigo de um amigo que trabalhava no Futebol Clube do Porto. É que havia uns papéis que passavam a quem se tornasse sócio e como até ter o cartão ainda demorava uma ou duas semanas, esse documento que substituía o cartão já servia para entrar sem pagar bilhete. O meu pai ia arranjando esses papéis e eu ia com ele. Quando ele não tinha papéis, não ia ao futebol. Só que os meus avós paternos e maternos viviam no Porto e eu ia para lá muitas vezes, e aprendi com os amigos mais velhos da rua onde viviam os meus avós a fugir e a ir para o estádio pedir aos senhores que estavam na fila para nos deixarem entrar com eles como se fôssemos filhos, para não pagarmos. Sabia qual era o "preço do bilhete" quando chegava a casa [risos]. Levava, mas entretanto já tinha pago esse preço, já tinha ido ao futebol [risos].

Tinha ídolos?
Aos quatro anos, talvez de ouvir falar muito, gostava do Cubilhas. Falava-se muito dele e eu andava sempre com uma bola e dizia que era o Cubilhas [risos].

Há pouco disse que chumbou um ano. Tinha quantos anos?
Chumbei nesse ano em que fui para desporto. Estamos a falar de 9º ano, a média de idade da turma era 18 anos.

Muitos repetentes.
O normal é termos 14, 15 anos, sim [risos]. Era uma turma espectacular em termos de camaradagem, mas era terrível para os professores, era um drama para os professores entrarem naquela sala. Nós fazíamos coisas terríveis, terríveis.

Por exemplo?
Tínhamos aulas de biologia e matemática nas salas do rés-do-chão e eram umas três ou quatro horas seguidas de aulas naquela sala. Então nós deixávamos de uma aula para a outra, as janelas destravadas, saíamos para o recreio, uma das janelas dava para as traseiras da escola, portanto ninguém nos vigiava e durante o intervalo tirávamos todas as mesas e cadeiras para as traseiras da escola. Colocávamos tudo alinhado e quando o professor abria a porta da sala para dar a aula, não havia nada dentro da sala [risos]. Sabíamos que enquanto fossem tentar arranjar outra sala de aula ou punham e não punham as coisas, demorava. Depois vinha o presidente do conselho diretivo [risos]. Chegámos a cortar os cabos da campainha no intervalo de forma a tocar para fora e não tocava para dentro e os professores a dada altura "este intervalo está muito grande..." [risos]. Claro, quando cheguei àquela turma, achava o máximo as coisas que se organizavam. Estava tão fascinado que reprovei com três negativas.

José Gomes em bebé com os pais

José Gomes em bebé com os pais

D.R.

Chega a praticar algum desporto federado?
Sim. Dos cinco anos até ao 1º ano do ciclo, agora 5º ano, andei no Colégio de Gaia. Depois fui para a escola pública de Valadares, porque éramos quatro e os meus pais tinham que fazer contas para gerir o orçamento familiar. Mas entrei nuns torneios sem os meus pais saberem porque não me autorizavam. Houve um senhor que estava ligado ao torneio e que queria que eu fosse ao Vilanovense, mas os meus pais não me deixaram ir. Depois havia um grupo desportivo, que não sei se ainda existe, que tinha uma equipa de amadores inscrita na Associação de Futebol do Porto e organizava torneios de futebol de salão, torneios de futebol de sete, num campo no meio de um monte, com umas balizas meio manhosas e alguns miúdos à medida que iam crescendo iam jogar para essa equipa. Cheguei a jogar talvez duas épocas nessa equipa e os meus pais nunca souberam que lá joguei [risos].

Como é que não se aperceberam?
Eu fugia. Arranjava maneira de um amigo levar as meias, outro umas sapatilhas... Não podia ficar sem jogar, por isso arranjei sempre maneira de ir jogando.

Os seus pais deram-lhe alguma razão para não o deixar jogar futebol?
Achavam que aquilo era só para malandros, que a malta ligada ao futebol não prestava, que eram malandros. Evidentemente eles queriam o melhor para mim.

Jogou duas épocas e depois?
Fiz mais uns torneios, mais umas coisas e depois nos juniores, tinha uns 15, 16 anos, deixei de ir de férias com os meus pais porque tinha sempre aquela minha postura de independência [risos] e fui trabalhar.

Foi fazer o quê?
Fui passar guias a camiões num estaleiro de areia, entre Valadares e Francelos. O senhor que tinha o estaleiro que vendia areia era muito desorganizado, mesmo com o dinheiro. Eu perguntava-lhe quanto é que ele ganhava e ele não sabia, não conseguia explicar. E eu organizei-lhe as coisas porque no ano a seguir a ter reprovado o meu pai disse-me: "Tu vais para onde quiseres, mas não vais para desporto". E então novamente no 9º ano fui para economia. Até gostava de algumas matérias. E organizei o negócio ao senhor. Ele de manhã dava-me um saco de plástico cheio de trocos: "Quanto é que está aqui?". Eu todos os dias contava os trocos, fazia uma folha de entrada com quanto dinheiro é que havia, quanto é que tinha pago, quanto é que gastava na areia, na areia fina, no areão, ia fazendo e ia-lhe dizendo: "Este mês ganhou isto aqui, isto naquilo..." Acho que se tivesse continuado mais um mês de férias ele ia propor-me sociedade [risos]. Era muito atrevido na apresentação de ideias. E depois fui jogar para os juniores. Só comecei a jogar campeonatos mais a sério já tarde, nos juniores. No 10º ano voltei à área de desporto.

Começa a jogar como júnior em que clube?
No Valadares.

Aí o seu pai desistiu de impedi-lo?
Sim, ele viu que já não havia força suficiente para desmobilizar a minha energia e foi um amigo que me levou. Nós estávamos a jogar na praia de Valadares, onde quando a maré estava baixa havia uma grande extensão de areia dura e faziam-se ali jogos espectaculares. A dada altura houve um senhor, que depois fiquei a saber que era diretor dos juniores do Valadares, que estava a jogar a guarda-redes e eu fiz uma data de golos. Ele pensava que eu era sénior e disse-me: "Eh pá, é pena não seres júnior, se não vinhas para o clube". E um amigo que estava a jogar e que era sénior ouviu aquilo, não me disse nada, e quando saímos da praia, ele, que tinha lá um irmão ou um amigo, arranjou um esquema qualquer, deu-me um saco e disse-me: "Vá, agora vais treinar". Fui, gostei, tinha lá amigos também da escola, o treinador também gostou, no dia seguinte tinha os papéis e levei-os para o meu pai assinar.

Jogou no Valadares até quando?
Joguei nos juniores, no 1º ano de sénior fui para o Canelas e no 2º ano de sénior voltei para o Valadares. Antes do final da época fui cumprir o serviço militar obrigatório.

Jogava em que posição?
A médio esquerdo e a defesa esquerdo.

Ao colo do avô paterno

Ao colo do avô paterno

D.R.

Quando é chamado para a tropa ficou chateado?
Vou confessar uma coisa que nunca disse publicamente, e que tem a ver com a forma como encarei a tropa. Eu fui à inspeção e disseram-me: "Pode meter adiamento da inspecção porque está a estudar"; "Não, não. Eu não quero meter adiamento, quero ir para a tropa na primeira incorporação".

Porquê?
Como já referi, reprovei a primeira vez no 9º ano, depois estive um ano para acabar disciplinas do 10º e do 11º ano e depois voltei a reprovar no 12º ano. Portanto reprovei três anos, estava no 12º ano e sabia que se tivesse nota positiva no primeiro e no segundo período, se fosse chamado em abril para a tropa, já não fazia o terceiro período na escola, uma vez que era serviço militar obrigatório, e teria passagem administrativa.

Tudo pensado, então.
[Risos] No primeiro período tive positiva, no segundo também. Aquilo foi planeado e insisti para ir na primeira incorporação porque só dava assim. E fui. Fui para uma arma que gostei muito.

Qual?
Há uma modalidade que nunca pratiquei como gostaria, por razões financeiras, mas é uma paixão que continua e que vem de bebé, a equitação. Os meus avós paternos viviam próximo do centro hípico do Sport Club do Porto, os meus pais iam trabalhar e eu ficava muitas vezes com os meus avós durante o dia. E o meu avô quando chegava depois do trabalho e estava bom tempo levava-me ainda menino de colo a ver os cavalos. Eu adorava, era apaixonado por aquilo. Quando cresci já não era ele que me levava, já ia sozinho para o centro hípico porque era perto. Pedia para ter aulas, mas não dava, na altura 10 lições eram 10 mil escudos [50€] e não era fácil. Eu tinha, como todos os miúdos naquele tempo, um mealheiro, e quando nos davam alguns trocos pelos anos ou pelo Natal, punha lá o dinheiro. Aos 10 anos lembrei-me de partir o mealheiro, contei o dinheiro e ainda me faltavam mil e tal escudos [5€]. Então pedi aos meus tios, aos meus avós, andava a pedir em troca de engraxar os sapatos, lavar o carro... [risos]. As coisas foram sempre assim um bocadinho na minha vida, quando metia uma coisa na cabeça era muito chato.

E conseguiu juntar o dinheiro?
Sim. Isto em 1980. Mas não tinha material de equitação. Passei em casa dos meus pais fui buscar a um armário umas calças de bombazine azuis claras do meu pai que ele não usava, pedi à minha avó para apertá-las como eu queria. Ficaram uns calções de montar assim meio estranhos mas lá fui com eles e com umas sapatilhas. O senhor do hipódromo já me conhecia. "Dez lições, isso é muito dinheiro! São 10 mil escudos". Pus-me lá a contar os trocos [risos] e lá fiz as dez aulas.

Era o que estava à espera?
Sim, foi espectacular. Na quinta-feira à tarde, o professor, senhor Martinho, disse-me: "Hoje à tarde vai haver um exterior, vamos dar uma volta e tu vens connosco". Fiquei todo contente por ir de cavalo para a rua. Quando estamos a regressar desse passeio, o meu avô viu-me e o panorama era: todos os meninos com botas e calças de montar e eu de sapatilhas. Quando cheguei a casa, disse-me: "Nos teus anos vou dar-te umas botas de montar". E eu respondi logo: "Não quero. Quero é mais 10 lições. O que é que eu vou fazer com as botas?" [risos]. Essa paixão manteve-se e na tropa fui para cavalaria.

A pedido?
Mais ou menos, quando fui fazer a inspecção mencionei que montava desde os 10 anos [risos]. Fui montando de forma esporádica. Fisicamente não me custou a recruta, com as notas que tive fui para o curso de instruendos. Como tive a melhor nota do meu pelotão, fui convidado para dar formação aos instruendos que iam chegar na incorporação seguinte. Foi muito importante para mim aquele ano em que estive em Santarém, na Escola Prática de Cavalaria. Foi importante no meu alinhamento, porque andava ainda naquele registo de rebeldia. Acho que foi um assentar, conseguir focar e trabalhar com objetivos claros. No ano a seguir entrei na faculdade.

No meio de duas das três irmãs, todas mais novas

No meio de duas das três irmãs, todas mais novas

D.R.

Se gostava tanto de cavalos não ficou na Escola Prática porquê?
Fui convidado para ficar, para fazer parte do grupo de instrução, mas como tinha a melhor nota, podia escolher, e então quis vir para cavalaria de Braga, que era mais perto de casa. Na altura o alferes Lopes da Silva, que agora é coronel e está na Academia Militar, disse-me que era tradição os melhores alunos ficarem a dar instrução lá na escola de Santarém. Ainda retorqui, porque segundo as regras eu podia escolher. E aconteceu uma coisa engraçada, disse-lhe: "Fico se me deixar montar o seu cavalo todos os dias, depois de dar a instrução".

O que é que ele fez?
Havia um sargento que tinha sido mobilizado para a Bósnia, o sargento Seromenho e que tinha uma égua atribuída. Fiquei eu a montar a égua do sargento Seromenho e andava radiante, porque estava a dar recruta, que no fundo era como ir dar treino, era o meu treino. E tive experiências bastante interessantes em termos de liderança. Entretanto, faço as provas de admissão no antigo ISEF, agora Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Era uma semana de provas, inscrevi-me e disse ao capitão de instrução. Ele disse que tinha todo o direito de ir mas como já estava no final da recruta básica e uma semana excede o limite de faltas aceitável para não reprovar, quando regressasse teria de fazer novamente a recruta básica.

E?
Assim não estava interessado, obrigado. Fui então fazer as provas a Vila Real, que também tinha o curso de Educação Física, na UTAD. Só que tive talvez uma das minhas maiores desilusões. As provas correram-me muitíssimo bem, estou convencidíssimo que ia entrar em Vila Real. Entretanto a minha irmã Maria Helena, que apesar de ser três anos mais nova, como eu tinha reprovado, entra na faculdade no mesmo ano do que eu, na universidade em Vila Real. Nesse ano havia a Prova Geral de Acesso. Fiz a prova e havia um certificado dessa prova que se tinha de entregar com outra documentação para entrar na faculdade. Pedi à minha irmã, como ela tinha de lá ir, para levar também o meu certificado. Quando um amigo meu foi lá ver, eu estava excluído por falta de documentação. A minha irmã tinha-se esquecido de levar o meu certificado. Fiquei muito desiludido porque significava um ano de paragem.

O que aconteceu depois?
Nesse ano abriu o curso de Educação Física no Instituto Superior da Maia, que ninguém sabia muito bem o que era, porque era o primeiro curso numa instituição privada, e o curso não estava homologado. Mas eu tinha duas hipóteses: ou arriscava ir para ali e depois pedia transferência para o ISEF ou ficava um ano parado. Como já tinha reprovado três anos, resolvi arriscar e entrei mais tarde, perdi as primeiras aulas porque não consegui sair de Santarém como desejava e foi só quando cheguei que percebi que o curso legalmente não existia. Não tinha sido homologado porque tinha um plano curricular à frente no tempo, que previa uma licenciatura com estágio integrado no quarto ano e não no quinto, como nas outras licenciaturas, já numa perspetiva de Bolonha, que mais tarde vem a acontecer.

José Gomes (atrás) com as três irmãs

José Gomes (atrás) com as três irmãs

D.R.

Tirou um curso não homologado?
Quando cheguei, logo na primeira assembleia-geral, passei para secretário e na última já estava como presidente da assembleia. Entretanto faço uma lista para assumir a presidência da associação de estudantes porque havia muita coisa errada na minha perspetiva. Não queria estar ali a perder um ano. Fiz uma lista, candidatei-me e ganhámos à tangente. Estive três anos como presidente da associação de estudantes. No segundo ano o curso continuava sem estar homologado e dirigimo-nos à direção da cooperativa de ensino que geria o ISMAI. Informámos que não iríamos pagar mais propinas até o curso estar homologado. Estivemos mais de seis meses sem pagar, organizámos piquetes para não deixar ninguém pagar, porque às vezes vinham pais que queriam pagar; chegou a haver umas confusões. Eu tinha dito ao presidente que pagaríamos mal o curso fosse homologado. A própria administração já aceitava qualquer solução. Já aceitava que o curso fosse bacharelato mais cedo à semelhança do que acontecia nas escolas superiores de educação. Mas isso contrariava o espírito e as expetativas das pessoas que lá se inscreveram. Insistiram para que eu colocasse à consideração dos alunos essa ideia. A proposta foi rejeitada por unanimidade. Então pedi à direção que marcasse no Ministério da Educação, em Lisboa, uma reunião com a responsável pelo ensino superior para tratarmos do nosso problema. Tentei ligar para lá e disseram-me que não era possível porque nós “não existíamos”.

Como o curso não estava homologado não os quiseram receber.
Exato. Não podiam receber alunos que legalmente não existiam. Nós não existíamos mas a instituição sim. Disse ao presidente para marcar a reunião, que nós íamos com ele. "Eu recebo-o a si, como presidente da instituição do ensino superior, mas não recebo os alunos". Pedi a carrinha ao meu pai, uma Peugeot 505 de sete lugares, e fui com um representante de cada ano e turma. Avisei o motorista que ia com o nosso diretor a Lisboa que nós íamos atrás e pedi-lhe para não acelerar e para não dizer nada ao professor Domingos, que ele depois iria perceber que era a única forma de resolvermos aquilo. Quando o doutor Domingos se identificou e o técnico disse que ele podia subir, pusemos um pé na porta. "A senhora disse que não falava"; "É muito rápido, não vamos ser mal educados com ninguém, ela vai-nos receber". O homem transpirava no elevador. Quando ela abriu a porta: "Eu disse que não recebia"; "Nós viemos da Maia, ouça-nos cinco minutos". Nós levávamos os planos todos, fizemos uma recolha do que existia em Portugal, em Espanha, tinha visto umas coisas em França, tinha ido inclusivamente ao INEF e expliquei-lhe: "O ISMAI é uma instituição com um grande futuro neste curso de Educação Física e Desporto. Diga-nos o que é que nós temos de alterar no nosso plano de estudos para que possa ser aprovado"; "Se vocês passarem o plano curricular para cinco anos com um estágio no último ano tal como nos outros cursos e fizerem uma monografia", já não me recordo em qual disciplina, "isso é aprovado na hora". Pronto, em 10 minutos resolvemos o problema. Entretanto esqueci-me de referir que no final do primeiro ano no ISMAI comecei a treinar os juniores do Valadares.

Como é que isso surge?
Só para terminar primeiro a questão. Eu alterei o plano de estudos do ISMAI. No segundo ano incluí aquilo que era mais importante numa perspectiva de vir a ser treinador. Criei mais horas de treino desportivo e mais horas de fisiologia de esforço. Foi assim que mexi na carga horária. Quando o coordenador viu aquilo era a fúria em pessoa [risos] mas disse-lhe: "Senhor doutor, ouviu o que foi dito no Ministério, que o curso era aprovado na hora. Portanto neste momento como presidente tem duas hipóteses. Ou faz com que o nosso coordenador assine e aprove e seja responsável também por este novo plano de estudos ou tem hoje que procurar outro coordenador e este senhor tem que sair" [risos]. O homem estava furioso, abandonou a reunião e depois lá acabou por ser exatamente como nós alunos e como eu tinha proposto nesse novo documento. E foi homologado.

José Gomes (à esquerda) foi treinador adjunto dos seniores do Valadares em 1993/94

José Gomes (à esquerda) foi treinador adjunto dos seniores do Valadares em 1993/94

D.R.

Então e como é que vai para o Valadares?
Acabou o primeiro ano e estava um dia a conversar com uns amigos à noite junto ao Grupo Dramático de Vilar do Paraíso, que tinha umas atividades interessantes, um grupo de teatro e gente com muito valor. Estava a falar com alguns amigos e nesse grupo estava o diretor do Valadares, que disse: "Gostava que tu viesses ajudar-me a treinar os juvenis do Coimbrões"; “Acabei o primeiro ano, a verdade é que não sei nada. Não me sinto com capacidade para dar um treino, para orientar um processo de treino"; "Tu acabaste o primeiro ano e não sabes nada, jogamos no mesmo nível e eu tenho a 4ª classe, portanto alguma coisa tens que saber mais do que eu". No dia seguinte ligou-me o presidente do Valadares para saber se eu queria ir para adjunto dos juniores. Sabia que ia para o Coimbrões e achava que não tinha lógica nenhuma porque sou de Valadares. Falei com o meu amigo e disse-lhe o que tinha acontecido, que tinha achado interessante a perspetiva de ir já para o terreno e viver por dentro o processo de treino, mas que ia aceitar o Valadares porque é o clube que me diz alguma coisa, onde tenho os meus amigos, onde joguei. E fui para o Valadares.

Como adjunto.
Sim, no primeiro ano como adjunto. Não cheguei a estar um ano porque em novembro, dezembro passei para os seniores. Tinha havido problemas na equipa técnica dos seniores, e a equipa técnica dos juniores passou para os seniores. Havia muitos problemas sempre, eles não pagavam, depois os jogadores não queriam treinar, com o treinador também houve confusão. Foi mais um espaço fantástico de aprendizagem para mim, ao ponto de ter ficado uma semana como treinador dos seniores a treinar os jogadores que eu tratava por senhor. Agora os miúdos já têm uma relação com os profissionais diferente, mas na altura era um respeito muito grande, mesmo até no lugar que se escolhia no balneário, tinha que se perguntar.

Continua como treinador do Valadares?
Fico até ao final dessa primeira época nos seniores, depois fiz mais uma época nos seniores como adjunto e fiquei a treinar os juvenis do Valadares. Anda treinei os seniores de outra equipa vizinha da distrital, o Gulpilhares. Quando estava a escolher os miúdos que eu conhecia dos juniores com mais talento para ir treinar e jogar na minha equipa, liga o meu professor de futebol, o professor José Neto, a perguntar se queria ir como preparador físico para o Paços de Ferreira.

Nessa altura já tinha acabado o curso?
Não. Fiz o quarto ano e no ano que seria o ano do estágio surge esta oportunidade e disse logo que sim. Aquilo que pensei foi: não posso abraçar aquilo que quero para a minha vida que é o futebol profissional e estar ao mesmo tempo a pedir para faltar porque tenho de ir para as aulas de estágio. Não fui fazer estágio contra a ideia dos meus colegas, dos meus pais, que diziam que era um disparate. Mas eu, como sempre, quando tinha uma ideia, podia não conseguir, mas tinha de pelo menos lutar por ela e ver se era possível. Entretanto como continuava como presidente da associação de estudantes não diligenciei nem durante esse ano. Quando o clube ao fim de uns meses pergunta se eu quero continuar mais uma época, digo que sim e entretanto abre o núcleo de estágio na escola secundária de Paços de Ferreira e eu vou estagiar para lá. O António Jesus, o senhor que foi guarda-redes do Espinho, do Chaves, do Vitória de Guimarães, era o treinador e a forma como ele me recebeu nesse primeiro ano acabou por ser determinante, porque no fundo eu entro no clube pela mão da direção e não pela mão do treinador e a forma como ele me recebeu foi extraordinária. Tenho que lhe ser grato pela forma como me recebeu no futebol profissional.

José Gomes (o 4º à direita na 3ª fila a contar de baixo), foi preparador físico do Paços de Ferreira em 95/96

José Gomes (o 4º à direita na 3ª fila a contar de baixo), foi preparador físico do Paços de Ferreira em 95/96

D.R.

Na época seguinte é substituído pelo Henrique Calisto.
Sim. Eu estava convencido que ia fazer lá a época toda e perdemos em casa com o Alverca 6-0. O Rui Vitória, ex-treinador do Benfica e que agora está na Arábia Saudita, era jogador dessa equipa do Alverca. Era uma equipa que tinha muitos jogadores vindos da formação do Benfica. Não era bem clube satélite mas era uma espécie de satélite e até o treinador, na altura, acho que era o José Augusto. Bem, mas perdemos 6-0 e no fim está a imaginar uma reunião com os diretores do Paço de Ferreira, que na altura eram 17. Sim, 17 diretores à volta de uma mesa e eu, o Jesus e o outro elemento da equipa técnica que era conhecido pelo Cristiano mas o nome dele era João Ribeiro. Ouvimos os diretores que tinham fábricas de móveis, empresas de ferragens, de transporte, portanto tudo associado ao negócio mais comum de Paços de Ferreira e a dada altura já estava um senhor das ferragens a dizer: "Mas não acha que devia treinar mais finalização? Não deviam fazer mais remates à baliza?". O Jesus surpreendentemente deixava-os falar, não reagia. O Cristiano também estava a olhar para a mesa, nem sequer olhava para eles. Aquilo estava a fazer-me uma impressão, estava incomodado e a minha natureza teve que intervir: "Os senhores desculpem lá, são os diretores, têm as vossas empresas, os vossos negócios, agora confiam no nosso trabalho, confiam, se não confiam, mandem-nos embora. Não vão estar a pôr em causa coisas que não percebem. Nós não vamos para a sua empresa dizer que deve fazer a ferragem assim ou assado e que deve meter esta máquina assim... isso é consigo, você é que é o especialista". Perguntaram ao Jesus se queria continuar, só que o Jesus disse-me: "Eh pá, eu vou para o Sporting da Covilhã e gostava que viesses comigo".

E o curso? O estágio?
Pois, já lá vamos. Começa a ligar-me o meu professor: "Você está doido, não façam isso". Mas disse-lhe: "Tenho de fazer. Cheguei agora ao futebol, é isto que eu quero e sei que é isto que tenho de fazer. O resto vai resolver-se". No dia seguinte íamos para a Covilhã e nunca mais chegávamos, é uma estrada horrível, IP5, depois aquela estrada da Guarda para a Covilhã, estreitinha, com aquelas ribanceiras, nunca mais chegava, só via montes e pensava, o que é que vou dizer a estes tipos para eles não me quererem cá? [risos]. Quando lá chegámos reunimos para assinar o contrato, o Jesus já tinha falado comigo, mas eu na altura pedi mais dinheiro. O Jesus ficou a olhar para mim surpreendido. Não era pelo dinheiro, eu queria que eles dissessem que não, para ir acabar o estágio tranquilamente. Mas os homens aceitaram e eu tive de ficar. Tive de honrar a palavra e fiquei lá. Eu acabava o treino, ia para a escola, acabava as aulas, Covilhã, uma coisa brutal. Conciliei sempre e mais uma vez o Jesus foi muito importante porque teve a capacidade de compreender. Havia um dia em que ajustávamos o horário do treino para que eu ainda pudesse ir às atividades que havia na escola e consegui terminar o curso com uma nota muito alta. Tive 19 no estágio.

E vida pessoal no meio disso tudo?
Curiosamente foi no ano de estágio que conheci a mãe dos meus filhos e minha atual mulher, a Gabriela. Ela dava aulas de inglês a uma das turmas a quem eu também dava aulas.

Demorou muito até casarem?
Conhecemo-nos no início do ano mas começámos a namorar em março e casámos em setembro. Acho que aquele ditado "quem pensa não casa, quem casa não pensa” acaba por ter um pouco de verdade.

A Gabriela vai viver consigo para a Covilhã?
Vai e ainda demos aulas na mesma escola.

Com os avós paternos

Com os avós paternos

D.R.

Como surge o Gil Vicente e o Álvaro Magalhães, a seguir?
Temos que ir uns anos atrás. Durante o curso fui bom aluno, estava sempre a fazer perguntas, queria saber como é que as coisas funcionavam, o que é aquilo me poderia acrescentar nos treinos que ia ter à noite. A dada altura há um grupo de uns oito ou dez que se mobiliza para fazermos os cursos de treinador organizados pela Federação. Vamos à Associação de Futebol do Porto mas as datas dos cursos batiam com as datas das nossas frequências, não dava. Houve um colega que nos disse que na Associação de Futebol de Viseu o primeiro nível era às sextas e aos sábados, durante um mês, e noutras datas que não coincidiam com as nossas frequências. O pai dele tinha uma carrinha Ford Transit que nem tinha bancos atrás e então nós íamos todos na Ford Transit, dividíamos a gasolina, dormíamos nuns sacos-cama. Os outros perguntavam onde é que nós estávamos e nós dizíamos que estávamos num hotel, chamávamos hotel à carrinha e íamos às instalações sanitárias do parque que há em Viseu. E fizemos o primeiro nível assim. Depois a Associação de Futebol de Viseu volta a organizar o segundo e o terceiro níveis do curso de treinadores dentro das datas que nos interessava e nós continuamos a ir para lá. O número já era menor porque havia quem só quisesse treinar miúdos e o primeiro nível chegava. Portanto para o segundo nível já foram menos e no terceiro ainda menos e para o quarto nível, que já foi no Porto, já só fui eu. Nós conhecemos o Álvaro Magalhães na Associação de Futebol de Viseu a fazer o terceiro nível. O Álvaro nesse curso convida-me para ir com ele para o Lourosa, mas eu disse-lhe que não podia porque teria que interromper o curso e não queria. Se no futuro ele precisasse e se houvesse uma oportunidade quando eu já tivesse terminado, teria todo o gosto. As coisas foram avançando e ele voltou a convidar-me, dois ou três anos mais tarde, quando tem oportunidade de ir para o Gil Vicente. E pronto, a minha esposa estava efetiva, Barcelos não é longe e não hesitei.

Deixou de dar aulas?
Sim, nessa altura deixei de dar aulas.

Como foi essa experiência como adjunto do Álvaro Magalhães?
O Álvaro é uma pessoa muito dedicada ao trabalho, muito séria, muito exigente e muito rigoroso na execução das tarefas de treino e do posicionamento que quer que os jogadores tenham no treino e eu retirei isso para o meu futuro.

Ficou duas épocas com ele no Gil Vicente e são campeões da II Liga logo na primeira.
Sim e na segunda ficamos em 5º lugar na I Liga. Foram dois anos muito bons, mas houve ali algumas coisas que não queria mencionar agora, foram coisas feias que não têm nada a ver com o treino, nem com a carreira, nem com o futebol propriamente dito, mas em termos de uma relação contratual, de alguns prémios que tinha por ser campeão e depois do 5º lugar e… Mas já passou, no meu íntimo já perdoei a quem fez as coisas. Não quero falar disso.

José Gomes na tropa, esteve na Escola Prática de Cavalaria de Santarém

José Gomes na tropa, esteve na Escola Prática de Cavalaria de Santarém

D.R.

Como é que sai para o Paços de Ferreira com o José Mota?
O José Mota tinha terminado a carreira de jogador na época anterior e passa a ser adjunto do Henrique Calisto. O Henrique Calisto sai e o José Mota assume o comando. Ele que tinha sido o capitão naqueles anos em que eu tinha estado no Paços de Ferreira. Pergunta-me se estou disponível para o ajudar porque vai ser a primeira época dele na I divisão. Como estava chateado com aquilo que me tinha acontecido, disse que sim. Mas só estive um ano lá. O Paços foi uma equipa que fez um campeonato muito giro apesar da classificação, que podia ter sido melhor no final, mas foi um ano claramente acima das expectativas. Fomos ganhar a Alvalade, ao Estádio da Luz, ganhámos em casa ao Porto. Mas a dada altura da época, antes do tempo, já andavam a festejar, havia jogadores brasileiros que era a primeira vez que estavam em Portugal, estavam tão eufóricos que uns andavam com os carros dos diretores, aquilo era jantares com a câmara, jantares com estes e aqueles, tudo a festejar porque tinha sido uma época engraçada e naqueles quatro, cinco jogos finais, se tivesse havido um bocadinho mais de concentração, podíamos ter feito uma época histórica. No final dessa época, já tinha assinado para ficar mais um ano no Paços de Ferreira, mas recebi o convite do Benfica para ser preparador físico.

De quem em concreto?
Quem me ligou a primeira vez foi, não sei se ele na altura já era porta-voz ou diretor de comunicação, foi o João Malheiro. O João Malheiro organizava jantares em Vila do Conde às quintas-feiras que tinham mais treinadores do que a assembleia da Associação Nacional de Treinadores [risos]. Era uma coisa giríssima. A mesa estava posta e quem aparecia juntava-se. Conversas deliciosas, ambientes espetaculares, bons momentos que passei ali e foi assim que o conheci.

Então é ele que o convida para o Benfica?
Não, não. O João Malheiro é a pessoa que está numa conversa em que o meu nome surge e diz "eu conheço". O meu nome surge porque o engenheiro Jorge Vacas, um benfiquista fervoroso muito interessado e atento, observou o que o Gil Vicente e depois o Paços de Ferreira fizeram e perguntou ao Álvaro Magalhães com quem é que ele tinha trabalhado. E começa ali a circular uma informação por parte da direção na recolha de informação. O Carlitos, um extremo natural de Barcelos e que foi contratado pelo Benfica, comentou o assunto com o engenheiro Vacas e dá uma opinião favorável do Álvaro Magalhães também, e a direção contacta-me através do João Malheiro. E fui contactado para ir a uma reunião.

Nessa altura o seu filho já tinha nascido?
Já. O José Afonso nasce em outubro de 1999, quando estou no Gil Vicente.

Quando diz em casa que vai para Lisboa qual foi reação?
Lisboa significava uma grande mudança. Nós às vezes temos dificuldade em elogiar as mulheres mas a Gabriela tem um papel muito importante naquilo que é o preservar da família e o colocar a família sempre à frente de tudo. Se assim não fosse, acho que com tanta mudança não seria possível continuarmos casados.

Como foi o primeiro impacto em Lisboa?
Foi muito bom, fomos muitíssimo bem tratados no Benfica. O doutor João Salgado, que ainda hoje faz parte do Benfica, ajudou a minha esposa no destacamento. Veio dar aulas para a escola do Benfica. Esse apoio do Benfica foi muito importante para que tudo corresse em harmonia.

José Gomes tornou-se treinador principal do U. Leiria em 2005

José Gomes tornou-se treinador principal do U. Leiria em 2005

Martin Rose

Entrou no Benfica com o Toni como treinador principal, certo?
Exatamente. Eu não conhecia o Toni, não conhecia o Jesualdo. Entretanto há uma coisa curiosa, quando vou de viagem para o Benfica estou a ouvir a Rádio Renascença e no "Bola Branca" estavam a anunciar o professor Carlos Azenha como elemento da equipa técnica do Benfica. Quando lá cheguei fui ter com o António Simões, que era o diretor desportivo, e disse-lhe que queria falar com o Toni, que não assinava sem falar com o Toni para saber se ele realmente queria o Carlos Azenha. Porque eu nunca tinha falado com ele, eu ainda não tinha percebido bem como é que tinham chegado até mim. Ligaram-me e ia com todo o gosto mas se o Toni, que é o treinador, quer outra pessoa, tem que vir essa pessoa. Disse-lhes isto e a resposta foi: "Não, não, isso foi uma coisa mal tratada. Duas pessoas a tratarem do mesmo assunto deu esta confusão mas já está resolvido". Insisti: "Ok, mas quero falar com o Toni". Foi uma chatice porque a mãe do Toni estava hospitalizada e ele estava como o telemóvel desligado. Mais tarde lá consegui falar com ele e disse-lhe: "Nós não nos conhecemos. Se quer outra pessoa, não há problema nenhum, eu digo que tive uma problema familiar que impossibilitou a minha vinda e vou para cima, não há problema nenhum". Isto porque já lá estavam jornalistas. "Não, não, já está resolvido, esquece lá isso". Depois reunimos com o Jesualdo, que eu também não conhecia. Reunimos em casa dele, eu, o Toni e o Jesualdo. "Eh pá, mas como é que tu vieste para o Benfica?"; "Não sei, ligaram-me e eu vim" [risos]. Eram os dados que eu tinha, só mais tarde quando conheci o Jorge Vacas e falei com o Carlitos é que percebi como é que as coisas se tinham processado.

Como foi essa reunião com Jesualdo e Toni?
Foi muito engraçado porque eu já tinha visto as datas todas, de quando íamos começar, quando é que havia jogos, já tinha feito o planeamento todo. Tirei o portátil: "Está aqui". O Toni e o Jesualdo começaram a olhar um para o outro e disseram: "Chegou agora e já está para aqui..." Mas, pronto, receberam-me muito bem, tenho ainda hoje uma grande consideração pelo Toni e pelo Jesualdo.

Essas duas épocas no Benfica foram mais com Jesualdo do que com o Toni.
Sim, o Toni sai no início de dezembro, quando injustamente perdemos 1-0 no Boavista, com o senhor Pedro Proença como árbitro, com duas grandes penalidades por assinalar, uma sobre o Simão, outra sobre o Mantorras [risos]. Ele depois mais tarde reconheceu.

O Jesualdo é muito diferente do Toni?
É. Por natureza o Jesualdo é à partida mais reservado, resguarda-se mais e depois quando analisa o espaço onde está, o território onde está, com quem está, vai dando os seus passos. Eles são diferentes mas em termos de conhecimento do jogo, mais do que do treino, são duas grandes figuras do nosso futebol. O Jesualdo continua a ser uma referência, um exemplo de como ajudar os jogadores a melhorar. A forma como ele construía os exercícios levava naturalmente os jogadores a atingirem determinados objetivos, é uma coisa fantástica. Diria que ele a esse nível é realmente um mestre.

Depois como é que se desliga do Jesualdo e vai para treinador do Paços de Ferreira?
[Risos] Não foi bem assim. O Toni saiu, fiquei com o Jesualdo e depois o Jesualdo não acaba a época, há um jogo com o Braga que ganhamos 3-0, em que estou eu com o Chalana e entretanto chega o Camacho. Havia um jogo a meio da semana e depois tínhamos Alvalade e na primeira reunião com o Camacho perguntei-lhe como é que era o trabalho, como é que íamos fazer. E ele: "Prepara-me para quarta-feira um treino assim, assim e assim". E eu: "De certeza?"; "Sim, é para fazer isto". Eu até comentei com o Chalana que não achava normal um treino daqueles, naquele dia. "Ó Chalana, eu acho que ele me está a testar. Acho que vai chegar à hora de fazer isto e vai dizer que pensou melhor e que é melhor fazer outra coisa".

Foi isso que aconteceu?
Espere. O que é que eu fiz? Naquelas transparências onde eu imprimia as fichas de treino, tinha a ficha de treino tal e qual ele me pediu e por trás, sem se ver, tinha o treino que eu achava que devia ser feito naquele dia. Vamos para a reunião de preparação para o treino e ele: "Ó José, eu estive a pensar melhor e é melhor fazer outra coisa, vê lá, desenrasca-te". Fui à transparência e troquei a folha, pus a outra por cima "É uma coisa assim?" E ele: "É isso". E pensei: 'Vinhas tu de Espanha enganar um gajo de Matosinhos' [risos]. Isso foi logo na primeira semana e ainda hoje tenho uma relação excelente com o Camacho e com o Pepe Carcélen, o adjunto dele.

Qual acha que foi a intenção dele ao fazer-lhe isso?
Ele não me conhecia e o normal é as pessoas quererem levar a equipa deles. Ele tinha a equipa dele mas não pôde levá-la na totalidade. Levou o Pepe, mas ele também tinha um treinador de guarda-redes, só que o Benfica já lá tinha um. Ele também tinha o seu preparador físico. Aliás depois há um movimento de alguns jogadores para não me deixarem sair, mesmo que ele quisesse trazer outra pessoa. Ainda hoje tenho lá amigos. Quando fui ao Benfica pela primeira vez, falei com o doutor Manuel Vilarinho, mas quando fui assinar contrato já foi com o Luís Filipe Vieira. Ele entrou mais ou menos na mesma altura do que eu, foi nessa época.

 José Gomes a brincar com o filho José Afonso

José Gomes a brincar com o filho José Afonso

D.R.

Não continua no Benfica porquê?
O Benfica queria que eu assinasse, o Camacho queria que eu ficasse lá mas eu sempre quis ser treinador principal, só que achava que precisaria cerca de 10 anos para que se reunissem as condições. No fundo, mais ou menos ao fim das 10 épocas, surge novamente o convite do Paços de Ferreira. Achei que o Paços de Ferreira iria ser a equipa sensação, que ia para lá e vai ser só ganhar. O Chalana, que também estava incomodado com algumas coisas que se tinham passado na altura, aceitou ir para o Paços como meu adjunto. Mudámo-nos de armas e bagagens para o norte. O Chalana tirou a filha do colégio, a esposa deixou de trabalhar e viemos todos para cima. Ao fim de três ou quatro meses tudo se desmoronou.

Porquê?
Acho que foi a minha grande primeira lição como treinador principal. Nós temos de ouvir todos os nossos colaboradores, as pessoas que estão à nossa volta, que nos rodeiam, que nos aportam dados. Seja da área técnica ou adjuntos, temos de os ouvir mas não temos necessariamente de dizer aquilo que nos vai na alma, quais são as nossas ideias e quais são as nossas intenções. Não é que as pessoas sejam mal intencionadas, mas às vezes podem retirar energia e força àquilo que se pretende fazer. Por exemplo, há um jogo, um treino, uma situação qualquer e a leitura que eu fiz foi a leitura "x" e para aquela leitura eu vou ter um procedimento "y". Portanto na minha cabeça fica claro que com aqueles dados, com a leitura da situação, não há dúvida nenhuma que aquele jogador tem que sair, deixar o grupo e não pode trabalhar mais connosco sob pena de prejudicarmos todo o grupo. Mas como nunca acontece haver alteração em número de jogadores, sempre que há um problema quem muda é o treinador, o procedimento a fazer é este. A partir do momento em que eu partilho isto com os adjuntos, não é que os adjuntos estejam mal intencionados mas é normal que tentem acalmar as coisas. Começam a dizer-me: “Não é preciso tomares uma atitude dessas, vamos dar mais uma hipótese”. Só que é mais uma hipótese e mais uma hipótese... E pronto, vamos cometendo erros por não fazer as coisas, o que é um erro.

Mas foram os resultados que levaram à chicotada, não foram?
Foram os resultados mas... no primeiro jogo viemos à Madeira, perdemos 2-1 com o Nacional, tivemos um jogador expulso numa falta a nosso favor, o árbitro errou e expulsou, depois viemos a perceber porque é que tinha feito aquilo, era um árbitro associado àqueles esquemas que mais tarde foram descobertos. No primeiro jogo em casa que acabámos por vencer contra o Moreirense, já havia muitas vozes a dizer: "Ó Zé Gomes, vai para o Benfica, ó Chalana, vai-te embora". O que não é normal quando tínhamos ganho, à exceção de um empate, os jogos de pré-temporada. Portanto houve ali muitas coisas que se passaram à data do início e que eu devia ter gerido e lidado de outra forma. Fui muito agressivo, deixei que a minha irreverência me levasse a tomar medidas e a ser demasiado agressivo com os meus diretores. Mas faz parte, não foi o ideal, mas foi uma uma forma de aprender e de estar mais preparado para estas coisas.

O que se seguiu? O Chalana vem para baixo, o José continuou lá?
O Chalana vai treinar uma equipa de Lisboa. Eu fico de tal forma que não quero ouvir falar de futebol. Estávamos a viver em Guimarães e eu não queria ouvir falar de futebol. Até que ligou o Pepe Carcélen, adjunto do Camacho, e disse: "Tenho dois convites para ti - ia ser a inauguração do novo estádio da Luz - , não te estou a perguntar se queres vir, tu tens de vir"; "Eh pá, não me chateies, não quero falar sobre futebol". Era o fim do mundo para mim [risos]. Mas ele insistiu, voltou a ligar e disse-me: "Tens de fazer uma coisa. Vestes o teu melhor fato, pões a tua melhor gravata e vens sorridente. Tens de vir". Lá me convenceu. No camarote estava o Cabral, com quem eu tinha trabalhado, porque estava lesionado, e ele disse-me: "Um bom clube para si era o Desportivo das Aves"; "Mas o Desportivo das Aves tem treinador, pá"; "Eu sei mas conheço as pessoas de lá e eles não estão contentes. Acho que se eles não ganharem este fim de semana são capazes de mudar". Ouvi aquilo mas não liguei. O Desportivo das Aves não ganhou e na segunda-feira o Cabral estava a ligar-me para reunir na terça com as pessoas do Aves. Portanto a grande lição da vida aqui é que mesmo numa situação em que parece que o mundo vai acabar, há sempre qualquer janela que se abre. Acabei por ficar sem trabalhar apenas uma semana.

Com a mulher e os dois filhos

Com a mulher e os dois filhos

D.R.

E como é correm as coisas no Desportivo das Aves?
O Aves tinha um grupo muito mau, muito dividido, mas ao fim de quatro jogos as coisas correram bem, já não dava para subir, mas correram bem.

Mas na época seguinte não fica lá. Porquê?
Porque havia eleições no Aves, não sabiam quem ia ser o presidente e como é que as coisas iam funcionar e entretanto convidam-me do Leixões. Gostei logo da ideia porque apesar de ter ido pequeno para Gaia, Matosinhos não deixava de ser o concelho onde nasci e o Leixões é o clube mais representativo. Apesar de ser numa dimensão incomparável, tem o registo de clube grande, das pessoas viverem aquilo com paixão, nos cafés as pessoas falam do clube e vivem o clube com muita paixão. É um clube histórico do futebol português e mesmo com todos os problemas financeiros, continuam a ter uma franja da população que é apaixonada pelo clube. E portanto aceitei o convite. No Aves ainda não tinham decidido o que é que iam fazer e fui para o Leixões.

Nessa altura ainda só tinha um filho?
Não, a Constança nasce na segunda época no Benfica.

Nasce em Lisboa?
Não, eu tive esse cuidado, ela veio nascer ao Porto [risos].

Assistiu a algum dos partos do seus filhos?
Não, estava lá mas não assisti.

Voltemos ao futebol. Como foi essa época no Leixões?
Foi boa. Na primeira reunião o que me pediram foi: um ponto acima da equipa que desce, somos campeões. Porque o Leixões ia começar naquele ano, um plano de recuperação financeira que não permitia contratações e do grupo que existia ficaram oito jogadores, esses oito jogadores levavam mais de 50% do orçamento da época e eu com os outros 50% tinha de contratar 16 jogadores. Foi uma ginástica, uma tarefa apaixonante conseguir equilibrar o grupo. Foram aproveitados muitos jogadores jovens, fomos buscar jogadores desconhecidos e que depois fizeram carreira a partir daí.

Termina em 6º lugar.
É, mas tivemos duas lesões dos nossos avançados. Há um que nunca chegou a jogar, o Detinho, que é uma das figuras do Leixões, que com o Carlos Carvalhal foi à final da Taça com o Sporting. Um avançado grande, muito forte, com uma capacidade de segurar a bola lá na frente, mas tinha um problema no pé. Em rigor ele tinha uma necrose óssea, foi operado uma série de vezes, mas nunca consegui contar com ele. Quando o João Pedro se lesionou, ficámos muito debilitados.

De qualquer forma porque é que não continuou no Leixões na época seguinte?
Porque no ano seguinte tive a infelicidade de atender o telefone ao senhor João Bartolomeu, presidente do União de Leiria, que estava na I Divisão. O Leixões estava na segunda. Ele recolheu informações de algumas pessoas, mostrou-se interessado e ligou. Ligou várias vezes. Ao fim da primeira semana de treino no Leiria, disse à minha esposa: "Quero ir embora deste clube, já não aguento isto".

Mas porquê?
Ela, que não percebe nada de futebol, nem sabe as regras, perguntou-me: "Mas se ainda não há jogos porque é que já estás assim?"; "Eu não aguento este homem" [risos]. Era uma coisa terrível, terrível. O que é que tinha acontecido? Ele dizia que todos os jogadores que eu tinha trazido eram barretes. Eram uns barretes que não jogavam nada. Fomos jogar com o Hamburgo, que ele dizia que não jogavam nada, que eram altos e toscos, mas esse Hamburgo ficou nessa época em 2º lugar no campeonato alemão. Estou num treino, isto na primeira semana de trabalho, e vejo um jogador que eu tinha ido buscar ao Ponte Preta, o Harison, que parecia desmotivadíssimo. Parei o treino e disse-lhe: "Ó Harison, tu no Ponte Preta podias ser o craque e não sei que relação tinhas com o teu treinador, nem com os outros, aqui ou treinas ou pegas nas tuas coisas e vais já embora"; "Ah não, eu depois falo consigo no fim". Então o que é que o rapaz disse que quando já passava da meia-noite ligou-lhe o presidente a insultá-lo, a dizer que ele não jogava nada, que era melhor pegar nas coisas e ir embora. Isto não pode ser, eu ando aqui a tentar pelo menos que eles saibam os nomes uns dos outros, vamos ter um jogo daqui a 10 dias e o presidente anda ligar aos jogadores? Depois percebi que não tinha sido só a ele.

O que fez?
Fui ter com o presidente e disse-lhe: "Faça um favor, os seus netos estão no Algarve, vá ter com eles e deixe-me trabalhar. Estou a tentar juntar isto para ver se fazemos uma equipa, está-me a estragar isto tudo. Vá de férias". O homem foi de férias, deu uma entrevista já não sei para que diário desportivo e disse mal dos jogadores todos. Confesso que não tinha capacidade na altura para lidar com este homem. Não tinha problema nenhum com os jogadores, nem com a forma de treinar, nem de jogar, nada, mas aquilo inquietava-me. Ficava de tal maneira preocupado e revoltado com o que ele fazia que depois não conseguia estar focado como devia naquilo que eram as minhas tarefas. Entrámos em discussão aberta, acesa algumas delas. Ele depois mentiu aos outros diretores, disse coisas que não tinham acontecido para conseguir ter argumentos para que os outros aceitassem a minha saída. Quem me vem substituir é o Jorge Jesus. O Paulo Duarte continua na equipa técnica mas se for pesquisar, nessa altura a equipa técnica está completa à exceção do Paulo Duarte, que estava preso no autocarro do Leiria porque estava furioso com o sogro, o Bartolomeu, porque tinha descoberto as mentiras que ele disse para que os outros administradores aceitassem a ideia de me mandar embora.

Montado num camelo, no deserto da Arábia Saudita

Montado num camelo, no deserto da Arábia Saudita

D.R.

O Moreirense aparece quanto tempo depois?
Depois fico ali uns meses sem treinar, a SportTV convida-me para fazer uns comentários aos jogos. O contacto com o jornalismo desportivo foi uma experiência muito gira. Acabei por tirar partido desse interregno, depois fiz uma viagem, fui ver vários jogadores ao Brasil, um agente convidou-me para ir. Nessa viagem já tinha visto um bocadinho mais de meio dos jogos que ia para ver, quando me liga o então presidente do Moreirense, conhecido por Almeidinha. Toda a gente me dizia, não vás, não vás, mas achei que era mais uma oportunidade e entre ficar em casa e ir treinar, aceitei ir. Na primeira volta, em 17 jogos tinham feito menos de 16 pontos e o presidente disse-me que o objetivo era nos 10 jogos que faltavam fazer 16 pontos. "Acha que é possível?" perguntou-me. Desses 10 jogos, seis eram contra os seis primeiros classificados. Disse-lhe que achava que era possível e o curioso é que fazemos os 16 pontos. Só que foi um ano em que não desciam duas equipas, mas cinco ou seis, e os 16 pontos não foram suficientes. O Moreirense desceu.

E depois?
Depois vou para o Desportivo das Aves. Entretanto o Jesualdo e o Antero, que era o diretor geral do FC Porto, também já tinham estabelecido contacto, as coisas não estavam ainda oficializadas, mas havia já uma manifestação de intenção para que integrasse a equipa técnica. Fui à Argentina ver jogadores e em 2008 integro a equipa técnica do Futebol Clube do Porto.

Nessa altura achou que foi um passo atrás, voltar a ser adjunto?
Não. Primeiro ia trabalhar com o Jesualdo e depois ia conhecer por dentro a organização de uma máquina vencedora. Foi uma forma de entrar, de perceber e conhecer como é que as coisas funcionavam por dentro. Vi como uma oportunidade de aprender e de crescer.

O que achou dessa máquina que é o FC Porto?
Eu tinha a vivência de clube grande, de dois anos de vivência no Benfica.

Não era muito diferente do Benfica?
Neste momento não sei se é muito diferente. Do Benfica da altura era diferente.

Diferente como?
Mais rigor, mais exigência, uma relação de compromisso para com os objetivos do clube de forma integral de toda a organização. Quando não se ganha, entrar naquelas instalações era pesado, parecia que as paredes nos batiam ao passar para o balneário. Pode achar-se que é demasiado duro porque os resultados não estão sempre dependentes daquilo que se faz, mas que é a única forma de manter o espírito certo para se ganhar mais vezes... E sente-se por parte de todos os funcionários sejam de que área forem. Sente-se que há exigência, que cobram e que não andam da mesma forma.

O Pinto da Costa é homem de ir dar duras ao balneário?
Não. É homem de a seguir a um mau resultado estar à porta do centro de treinos e cumprimentar a olhar para cada jogador e não dizer nada, nem bom dia. São gestos que marcam. Nesses meus dois anos foi ao balneário uma vez e terá ido à porta do centro de treinos cumprimentar os jogadores duas ou três vezes. Há outros momentos em que ele vai naturalmente para ver, para estar no treino, para sentir o pulsar das coisas mas sem esse sentido de ter vindo para dizer que o caminho não é este. Isso terá feito umas duas ou três vezes. Ia com frequência nas vésperas do jogo ou no dia em que íamos para estágio, mas como foi sempre, a vida toda.

José Gomes (de polo azul) junto a uma banca de tâmaras, na Arábia Saudita

José Gomes (de polo azul) junto a uma banca de tâmaras, na Arábia Saudita

D.R.

O que mais o marcou no FC Porto?
Este espírito que nós sentimos. Não é por acaso que vemos às vezes um jogador sul-americano, um argentino, colombiano ou uruguaio, ao fim de dois ou três meses de estar no Futebol Clube do Porto, dar uma entrevista e parecer que nasceu no Porto. E não tinham nenhuma minuta para dizer isto e isto. É um sentimento real, não é forjado, é o espírito do Porto e é conhecido de todos os treinadores. Quando se fala que ele é um jogador à Porto ou jogam à Porto, esta expressão vem da forma de entrega que o Futebol Clube do Porto tem como clube, como equipa, e os jogadores que formam essa equipa na luta pela defesa daquilo que são os seus objetivos. O facto do símbolo do Futebol Clube do Porto ter a palavra "invicta" e o porquê de "invicta" e a forma como as gentes do Porto abraçam este cognome da cidade. O clube no fundo agarrou esse espírito, o espírito da cidade. É o pulsar das gentes do Porto, o fazer com que seja realmente invicta.

É um espírito que está enraizado.
Está enraizado e para que isso possa existir é necessário muito rigor, muita organização, não deixar que nada fuja àquilo que são as linhas que nos orientam para que esse espírito se mantenha vivo. Se virmos o que aconteceu há cinco, quatro, três épocas e depois quando entra o Sérgio, no fundo foi devolver ao clube a forma como a sua equipa se manifestava em campo, o espírito Porto de que andavam desviados. Só quem lá está dentro é que pode falar, mas houve ali alguns desvios que tornaram o Porto diferente daquilo que era o seu espírito.

Acha que esse espírito já está de regresso?
Acho que o trabalho que o Sérgio fez no seu primeiro ano foi verdadeiramente brilhante a todos os níveis, técnico, táctico, porque provavelmente dos três grandes tinha o pior plantel, não havia contratações sonantes, não houve investimentos de grande montante e conseguiu ser campeão com espírito à Porto. Agora se calhar, provavelmente as coisas não foram acompanhadas a todos os níveis, porque por vezes não é suficiente ter só o espírito. Não nos podemos esquecer de que quem joga os jogos são os jogadores e por muito que se incuta o espírito que nós queremos, depois quem vai interpretar as coisas são eles, são eles os donos do jogo a partir do momento em que o árbitro apita. Nós podemos unicamente ajudá-los, orientá-los naquilo que são os comportamentos de posicionamento em campo.

Na segunda época porque é que não continuam? Foi por não terem conquistado o campeonato ou houve outros motivos para a vossa saída?
Eu não sei com rigor o porquê. Na altura gostaria muito de ter continuado. É verdade que não ganhámos o campeonato, mas há um acontecimento que desvirtuou o campeonato. Quando vamos jogar à Luz acho que há ali muita coisa, muitos cartões e tal... Mas não queria colocar a tónica na arbitragem. Acabámos por fazer um mau jogo, perdemos 1-0, mas não foi o perder 1-0 no estádio da Luz que nos tirou o campeonato, foi o que aconteceu no final do jogo. E o que aconteceu no final do jogo não teve nada a ver com os jogadores do Benfica e não teve nada a ver com os jogadores do Porto. Foram uns senhores, uns seguranças com ordem de alguém, que criaram ali uns problemas e começaram a insultar. As coisas estavam todas tranquilas e de repente aquilo ficou um ambiente terrível, foi uma coisa preparada, montada, e como se isso não tivesse bastado, as pessoas que na altura tinham poder para decidir, decidiram castigar os nossos jogadores, dois deles, com 15 jogos de suspensão. E no final da época vieram dizer, bom, afinal isto não devia ter sido assim, deviam ter sido castigados apenas com três jogos. O que significa que em 12 desses jogos foram castigados indevidamente. Especialmente um desses jogadores significava muito em termos ofensivos para a equipa, tendo em conta o plantel e as opções que tínhamos. Portanto, o campeonato ficou desvirtuado. Se fosse o rei Salomão com certeza os jogos em que esses jogadores e o Futebol Clube do Porto não tivessem ganho deveriam ter sido repetidos.

Mas isso tem a ver com a saída ou não?
O Jesualdo já estava lá há alguns anos, o Futebol Clube do Porto entendeu que era a hora de mudar e de trazer outra pessoa, com outras ideias. Saímos e fomos para Espanha.

Com os dois filhos

Com os dois filhos

D.R.

Quando o Jesualdo o convida para ir para Espanha, qual foi a sua reação e da sua família?
Foi boa. Campeonato espanhol, campeonato forte. Aí já não dava para destacamentos, havia a questão dos miúdos, começámos a procurar escolas internacionais e mais uma vez a minha esposa em prol da família e de estarmos juntos meteu uma licença sem vencimento e fomos para Espanha. O colégio internacional tinha o programa Cambridge mas funcionava muito mal, ao ritmo andaluz, à organização andaluza, sem organização e os miúdos sofreram um bocadinho, especialmente a Constança, que tinha oito anos e não sabia nada de inglês. Tinha uma professora de Birmingham com um sotaque fechadíssimo, e ela que tem muita personalidade, a Constança, pedia para ir à casa de banho e ia chorar para lá para ninguém ver. Sofreu muito e entretanto fomos para a Grécia e a escola com o mesmo programa, o mesmo currículo, na Grécia, funcionava muito melhor.

E vão para a Grécia como e porquê?
Aquilo no fundo fomos apanhados no meio de uma operação da compra do clube. Quem compra o clube é um sheik do Qatar e aquilo é finalizado com o início da época já em andamento, ainda não podia legalmente fazer as transferências do dinheiro e utilizar o dinheiro porque ainda havia questões processuais que não estavam terminadas. Acabamos por ir para um Málaga ambicioso e a pretender lutar pelos lugares da Champions apenas na ambição do sheik. O dinheiro que ele poderia ter colocado ainda não estava disponível e o plantel foi feito às custas do dinheiro que o Málaga tinha na altura, que não era muito. Houve ali um desfasamento entre expectativas e a realidade e a qualidade com que foi construído o plantel. Falou-se que iríamos aguentar até à abertura do mercado de janeiro, mas as coisas não chegaram aí, o sheik acabou por ir buscar o chileno, o Pellegrini. Mas no Málaga, eu e o Nuno Espírito Santos passámos parte das férias a ir lá definir como é que iam ser os balneários, onde é que íamos treinar. O Málaga não tinha um campo de treinos com as dimensões normais, de um campo de futebol. O Málaga equipava-se nos balneários provisórios, quando os definitivos já estavam prontos há muito tempo. Viviam agarrados a uma dimensão tacanha, quando o que se pretendia era que o clube se tornasse um clube de Champions, que mais tarde acabou por ser, quando trouxeram reforços a sério. Mas em termos de base, de organização de base de clube, eu considero que fizemos um excelente trabalho, as bases foram criadas para que o Málaga pudesse crescer como cresceu nessa dimensão europeia. Depois fomos para o Panathinaikos da Grécia.

Uma realidade completamente diferente. Como foi a adaptação?
A imagem que tinha e que me assustava era que os gregos eram mais altos e mais fortes e com barbas enormes, pareciam pessoas em quem não se podia confiar [risos]. Esta foi a primeira impressão mas, com o passar do tempo, adorei o povo grego, acho que eles são mais parecidos connosco do que os espanhóis. Eles gritam e falam muito alto, parecem italianos, mas depois são capazes de dar a mão se vêem que precisamos de ajuda. Contrariamente ao espanhol. Eu dizia ao Camacho que a diferença entre o português e o espanhol via-se nas corridas de touro. Como é que o espanhol lida com o touro e como é que o português o faz. Em Espanha o cavalo tem aquela proteção, aquela coisa feia e é cruel estar ali a confrontar o touro. O português tem a arte equestre e faz uns floreados e depois lá dá um toquezinho. Somos mais sensíveis do que os espanhóis, aliás isso é histórico, se olharmos para a forma como colonizamos e como os espanhóis colonizaram.

Com a filha Constança

Com a filha Constança

D.R.

O que gostou mais e menos na Grécia e no futebol grego?
Gostei muito da intensidade, do fervor com que os adeptos vivem os jogos, mas isso leva-os também para níveis que atingem aquilo de que gostei menos. Nós tivemos muitos jogos interrompidos porque a polícia teve que disparar gás. Há um jogo Panathinaikos - Olympiacos em que os adeptos do Olympiacos não podem ir ao estádio, porque a polícia não consegue controlar e só há adeptos da casa, isso não é bom. Por um lado é fantástico porque criam ambientes que fazem arrepiar, é uma coisa emocionante, um barulho, e depois aquele fogo e aquelas coisas que é tudo proibido, parece que fica tudo a arder no estádio, parece que estamos num ambiente de guerra mas depois isso leva-os para níveis tão altos… Nós fomos ver um jogo entre o Panathinaikos e o Olympiacos em que o intervalo demorou 65 minutos.

Porquê?
Os da claque do Panathinaikos prepararam-se durante a semana. Descobriram mais tarde que eles tinham bidões de gasolina espalhados por vários sítios do estádio. Prepararam aquilo porque estavam revoltados com o que tinha acontecido no jogo da primeira volta em casa do Olympiacos. A polícia de intervenção, que está sempre nos estádios em grande número neste tipo de jogos, começa a pôr os carapuços na cabeça e começou a dirigir-se para o sítio onde a claque, o Pana, estava. De repente começam a estourar cocktails molotov do lado contrário. A própria polícia começa a ficar apavorada, depois começa a disparar, mas com o vento o gás vai para todo o lado e as pessoas que estavam tranquilamente na bancada e que não tinham nada a ver com aquilo ficam desorientadas, querem fugir mas não têm para onde, depois põem água nos olhos mas aquilo ainda arde mais. Ainda ajudamos a levar pessoas para o balneário, miúdos que não tinham culpa nenhuma daquilo. Eles fizeram um furo de entrada para o túnel desde a bancada, portanto já tinham aquilo preparado, deixaram cair um petardo quando íamos entrar para o balneário, o Jesualdo esteve uns 15 minutos em que não conseguia ouvir nada. Eles realmente estavam a avisar-nos, mas era em grego e nós não percebemos o que eles nos estavam a dizer. Diziam “vão-se embora”, porque tinham coisas preparadas. Foi uma coisa horrível. Portanto, da Grécia e do futebol grego, o melhor e o pior acabam por ter ligação. Mas o povo grego é um povo fantástico.

A sua mulher e os seus filhos adaptaram-se bem?
Muitíssimo bem. Na altura parece sempre um drama quando tem que se mudar e mesmo no primeiro ano em que não sabiam nada de inglês... Mas passados uns tempos já falavam inglês, o meu filho chegou a casa um dia e disse-me: "Pai, tenho amigos de 21 nacionalidades diferentes". O futuro o dirá, mas penso que vão tirar partido desta vivência, destas experiências.

Como é que deixa de ser adjunto do Jesualdo e vai para a Hungria?
No final do segundo ano disse ao Jesualdo: "Estou-te grato para a vida, mas quero seguir o meu caminho"; "Eh pá, fica mais um ano, é o meu último ano”. É o "último ano" mas ainda está a treinar [risos]. Ele tem aquela paixão pelo treino e ainda bem que tem e que Deus lhe dê saúde para que assim continue. Mas, pronto, eu queria seguir o meu caminho e ainda não tinha nada, ele até pensava que eu já tinha alguma coisa. Porque no ano anterior uma equipa romena tinha-me convidado e as coisas não foram possíveis. Queria estar disponível caso aparecesse alguém. Tentei para Inglaterra mas não consegui. Depois o Paulo Sousa não queria continuar no Videoton. Eles estavam satisfeitos com o treinador português e quiseram dar continuidade e acabou por ser o Paulo Sousa a dar indicação para a minha contratação.

Com a mulher e a filha na Arábia Saudita

Com a mulher e a filha na Arábia Saudita

D.R.

E vai com a família de armas e bagagens para a Hungria?
Exatamente. Vivemos em Budapeste, que ficava a 60 km do clube, mas fazia-se bem, pela autoestrada. Budapeste é uma cidade lindíssima, segura, o colégio internacional funcionava muito bem, aliás, de todos foi o que funcionou melhor ao nível da exigência e rigor.

Como o receberam no clube?
A minha entrada foi muito bem aceite, a forma de jogar, o cariz ofensivo da equipa, a liberdade dada aos jogadores, o espaço para mostrar o que cada um tem de melhor como jogador foi muito bem aceite. Tivemos quase de imediato resultados muito bons. Depois na época seguinte houve uns problemas no clube. No primeiro ano quando eu tinha um problema conseguia resolvê-lo com alguma facilidade, porque por trás do projeto do futebol, não só dali mas de todo o país, estava o primeiro-ministro e eu morava a pouco mais de um quilómetro da casa dele. Quando tinha algum problema ligava-lhe e ia ter a casa dele, reuníamos na copa dele a comer um presunto, explicava-lhe as coisas e ele conseguia resolver-me os problemas.

Por que razão tinha de recorrer ao primeiro-ministro?
O clube tinha um investidor que era um homem de negócios e tinha entre o investidor e a equipa profissional um diretor que era um homem de atividades ao ar livre e natureza, fazia escalada, montanhismo, não percebia nada de futebol. Depois este foi substituído por um economista que jogava ténis com uns amigos ao fim de semana, também não percebia nada de futebol. Quem me resolvia os problemas era o primeiro-ministro porque conseguia fazer-me explicar ao dono, que não falava inglês, e dizer como é que as coisas tinham de ser resolvidas. Na segunda época quando há uns conflitos na Ucrânia e há uma ameaça de corte do fornecimento do gás para a Hungria, o primeiro-ministro tentou acautelar essa situação negociando a entrada de gás pela Polónia e portanto estava muitas vezes na Polónia e muitas vezes ausente quando eu tinha problemas. Há uma altura em que, apesar de ter mais um ano de contrato, digo para eles pensarem em quem queriam que viesse para o meu lugar na época seguinte que eu só ficaria até final da época.

Mas que tipo de problemas é que tinha?
Problemas de organização, de gestão, que tipo de jogador é que precisamos, medidas que era preciso tomar dentro do clube e não conseguia. Como não me revia naquilo achava que aquele tipo de funcionamento não nos conseguiria nunca levar a lutar pelo título. E se o projeto é ganhar mas não há condições para ganhar, vou-me embora. Disse-lhes que tinham de incluir a figura de diretor desportivo e trazer alguém que seja do futebol que esteja entre mim e a administração. Eles não quiseram, eu saí. Na época seguinte reconheceram e trouxeram um diretor desportivo e com os mesmos jogadores conseguiram ser campeões. Mas pronto, dei o meu contributo à organização do clube.

D.R.

E quando saiu já tinha a Arábia em mente?
Não. Saí com a intenção de ir para Inglaterra, andei a tentar, a tentar, a tentar, não consegui e de repente estou na Arábia.

Como? Através de empresário?
Sim. Há um empresário que tinha um jogador cabo-verdiano nos Emirados, jogador esse que era amigo do Stopira, um jogador que ainda hoje está no Videoton e que foi meu jogador. Tinha estado a falar com ele e o Stopira tinha-lhe dito muito bem da forma como eu trabalhava. O albanês pediu o meu contacto e ligou-me a perguntar se estava disponível para ir para o Médio Oriente. Disse-lhe que não estava virado para ali, que queria tentar Inglaterra, mas para me contactar se aparecesse alguma coisa. Esteve meses sem dizer nada e depois ligou a perguntar se eu queria ir para o Al Taawon, uma equipa de que eu nunca tinha ouvido falar. E fui.

Também foi com a família?
Fui sozinho, fui ver as escolas e não dava. Não tive coragem sequer para os tentar convencer a ir para lá.

Foi mais complicado ver-se pela primeira vez sem a família?
Foi. A facilidade que existe de fazer videochamadas vai atenuando um bocadinho mas é duro. As pessoas podem pensar que isto é tudo um mar de rosas e que é tudo muito fácil, mas é duro não estar com a família.

Culturalmente o que mais o chocou?
Dizerem-nos que para andar de calções tinha de ser abaixo do joelho e depois irmos com calções abaixo do joelho e não nos deixarem entrar num shopping porque estávamos de calções. E uma vez estávamos na rua e quando houve chamamento para a reza fomos abordados, perguntaram por que razão não estávamos na mesquita. Mas, mais uma vez, numa cultura totalmente diferente, fomos muitíssimo bem tratados. Tenho amigos sauditas, com quem troco mensagens todas as semanas, ficamos com uma relação muito boa, fruto daquilo que conseguimos em termos desportivos, mas também pela forma como soubemos respeitar as tradições deles e de nos envolverem como sendo um deles nas coisas que iam fazendo.

Que tipo de coisas?
Lembro-me no primeiro jogo, ao fim de três dias de lá estarmos, eram onze e meia da noite, vem um senhor com caixas e os jogadores começam a ir todos para o corredor do hotel, sentam-se no chão, ele começa a distribuir as caixas e o que era? Era uma tradição da equipa. Na véspera do jogo, antes de se deitarem, comiam um doce à base de tâmara, mel, banana e pão. Chamaram-me e sentei-me com eles no corredor.

Houve alguma coisa a que não se tivesse conseguido habituar mesmo?
Não. Fui convidado para dezenas de casamentos, para a boda, claro, nunca vi nenhuma mulher. A maior parte das vezes a boda do marido é de um lado e da esposa é noutro. A primeira vez que fui, vêm as travessas redondas grandes para as mesas e as regras da boa educação mandam cada um servir-se da travessa numa fatia imaginária à sua frente. Seria falta de educação eu ir buscar um pedaço de carne que estivesse à frente de outro. Ou seja, tenho de comer o arroz e a carne que estão à minha frente. A questão é que não havia talheres. A carne, pronto, dá para tirar com a mão, agora o arroz era uma coisa complicada. Eles fazem uma bolinha na mão e depois metem aquilo na boca a fazer lembrar um camaleão quando apanha uma mosca. O meu arroz espalhava-se todo. Quando me convidaram novamente para outro casamento, não disse nada à equipa técnica mas levei no bolso do blazer uns talheres [risos].

Os árabes não estranharam nem levaram a mal?
Não, riram-se e aceitaram.

Em termos futebolísticos são mais fortes ou mais fracos do que estava à espera?
Tecnicamente mais fortes do que estava à espera. Em termos de comportamento profissional mais fracos do que eu pensava. Julgava que pelo respeito enorme que têm ao cumprimento das regras da religião, a seguir à última reza comeriam qualquer coisa e iam deitar-se. Mas o que acontece é uma coisa inacreditável, e acontece com muitos futebolistas porque os treinos são maioritariamente à tarde, depois do pôr do sol, por causa do calor; eles estão acordados até à primeira reza, que é antes do nascer do sol, depois rezam, comem e dormem. Eles têm défice incrível de vitamina D. Eles não apanham sol. Têm maus hábitos. E isso surpreendeu-me. Muitos fumadores, tabaco. Horários desregulados e difíceis de ajustar àquilo que é a vida de um atleta.

José Gomes segura a Supertaça que conquistou na Arábia, pelo Al Taawon

José Gomes segura a Supertaça que conquistou na Arábia, pelo Al Taawon

D.R.

Porque sai do Al Taawon e vai para o Al-Ahli Jeddah?
Eu fui para lá com um ano de contrato. Quando chegou o início de dezembro eles quiseram fazer mais dois anos de contrato e dobravam-me o salário. Na primeira época foi juntar as pontas, perceber onde é que eu estava e escolher os jogadores que queria que ficassem para a época seguinte e depois fazer uma equipa para tentar lutar por uma coisa melhor. Na segunda época ficámos em 4º lugar, marcámos menos um ou dois golos do que a equipa campeã, foi uma festa enorme porque conseguimos classificar o clube pela primeira vez para a Champions. Um clube que no palmarés tem muitos anos na II divisão e a lutar pela manutenção. E foi muito giro. Já a meio dessa época, em que estávamos muito bem, os dirigentes do Al-Ahli tinham ligado a perguntar se eu queria ir para lá. E eu disse-lhes que não ia abandonar o Taawon porque foi o clube que me abriu as portas naquele mercado e tínhamos objetivos a atingir e que mantivessem o treinador e que depois logo veríamos no final da época.

Eles voltaram a ligar no fim da época?
Sim. Foram campeões mas voltaram a ligar porque queriam um futebol mais atrativo, porque tinham um futebol enfadonho de que não gostavam. E pronto, o Al Taawon acabou por recuperar o dinheiro todo que me tinha pago, eles pagaram ao Al Taawon aquilo que eu tinha a receber na época seguinte e fui para o Al-Ahli Jeddah, que era um clube de maior dimensão e podia lutar por coisas na Champions.

Mas não fica lá até ao fim.
Não. O selecionador, que era holandês, começou logo a prejudicar maioritariamente as equipas grandes, que era onde havia mais selecionados, e foi fazer uma pré-época, uma coisa que não existe em lado nenhum, fora das datas FIFA, para a Áustria. Eu tinha 10 jogadores num grupo de 25. Tive de ir para Espanha fazer a pré-época com oito ou dez jogadores dos sub-23 para completar o plantel. Isto tudo porque o seleccionador holandês convenceu os dirigentes da federação que era muito importante irem para a Áustria. Andavam a correr lá nas montanhas porque nem sequer iam jogar contra ninguém. E não tínhamos jogadores. Fomos jogar a Supertaça contra o Al Hilal, que é a equipa mais forte da Arábia Saudita, onde esteve recentemente o Jorge Jesus. Ganhámos a Supertaça. Depois começou o campeonato, sempre com dois intervalos para a seleção, perdemos um jogo e empatámos outro. Uma derrota e um empate com uma Supertaça ganha e entretanto muda o presidente. E o presidente chega a três dias de um jogo da taça do Príncipe, que corresponde à Taça da Liga, é uma competição de menor importância. E aquilo que já tinha sido combinado com o anterior presidente e com o príncipe era utilizar na Taça da Liga os jogadores menos utilizados para quando chegassem os jogos da Champions e houvesse necessidade de rodar jogadores eles já estarem preparados, com competição nas pernas, para poderem dar uma boa resposta. Só que como aquele era o primeiro jogo do novo presidente ele disse: "Não. Eu queria jogar com a mesma equipa porque estou a chegar agora e queria ganhar".

Qual foi a sua reação?
"Ó presidente, não é justo estar a meter em si a responsabilidade dessa decisão. Os presidentes têm que ter sempre a cabeça do treinador. Portanto, tenho que ser responsável. Vá lá para a tribuna, esteja sossegado, não se preocupe que nós vamos ganhar o jogo"; "Eh pá, mas eu quero ganhar, nós vamos jogar contra o Faisaly, eles vêm cá com a equipa principal, se nós jogarmos com os menos utilizados podemos perder o jogo, não quero". Bom, tivemos num jantar com umas 20 pessoas, com os príncipes e seus conselheiros tudo a mandar palpites sobre o jogo e jogadores, mas não liguei a mínima para aquilo que ele me disse, segui o meu plano e em 11 jogadores mudei oito.

Qual foi a reação dele?
O homem estava furioso antes do jogo, ele nem olhava direito para mim. Ganhámos o jogo. houve paragem de seleção, estava prevista, como aconteceu, a folga, viajei para Portugal, onde ia estar dois dias. No dia seguinte liga-me o meu diretor do Taawon a perguntar se eu queria ir para o Taawon. Eu disse que gostava muito deles mas que estava no Al-Ahli e portanto... E ele: "Não, não, já não estás. Eles andam a tentar contratar outra vez aquele que tu substituíste". E não é que era verdade? Eu soube que estava fora do Al-Ahli pelo meu antigo dirigente do Taawon. Uma coisa tipicamente árabe. Ele sentiu-se desautorizado como presidente.

José Gomes foi treinador do Rio Ave em 2018

José Gomes foi treinador do Rio Ave em 2018

Gualter Fatia

Mas não vai para o Al Taawon logo a seguir, ainda vai para o Baniyas, dos Emirados.
Contra a vontade do agente que estava a tratar das coisas surge o Baniyas, o agente dizia para eu não aceitar, que eles eram doidos, mas eu fui lá falar com o presidente do Baniyas e era o comandante da polícia dos Emirados. Eu gostei do homem e do projeto que ele me vendeu. Disse-lhe que ia mas que precisávamos de um defesa porque não tínhamos nenhum, que tínhamos de reestruturar a equipa quando abrisse o mercado, e ter um defesa já a treinar connosco, a conhecer os nossos processos, e mal abrisse o mercado ele começava logo a jogar. Ele disse que era o que eu quisesse, que não havia problema. Abriu o mercado e comecei a ver que as coisas não estavam bem e que realmente eles são doidos varridos. Eles não só não foram buscar o defesa que eu disse e que entretanto estava lá a treinar connosco, como não o inscreveram, e foram buscar três avançados. Eu disse ao presidente: "Então eu peço um defesa porque estamos a perder jogos e vai buscar três avançados?" Ele respondeu: "Treinador, não te preocupes, o adversário marca três, nós com estes avançados marcamos quatro" [risos]. Eu disse: "Arranja outro treinador, deixa-me ir embora". Ainda me convenceu a ficar mais três ou quatro jogos mas aquilo foi... Abu Dhabi é um sítio espetacular para viver, muito melhor do que o Dubai, praias lindíssimas, restaurantes de todas as nacionalidades, um sítio seguro, espectacular para viver, mas não profissionalmente. Eu não podia ficar ali.

E regressa então ao Al Taawon.
Regresso, mas entretanto aparece um rumor, que depois se confirma, do interesse do Arouca, um Arouca europeu, que me queria contratar. Mas é um Arouca que desce de divisão por um golo e portanto já não acontece, e aparece o Rio Ave. Um clube muito interessante, apesar de ter mantido apenas seis jogadores da época anterior, porque tinha muitos emprestados, outros em fim de contrato, e ficaram só seis. Foi um início um bocado... os jogadores foram chegando, comecei a época também a treinar com 12 sub-23.

Quando voltou, a família estava a viver em Guimarães?
Não, entretanto quando voltámos da Hungria vamos viver para Matosinhos, para fazerem o colégio inglês no Porto. Depois não fico contente com o colégio e tirei-os de lá e foram para a escola pública, mas para a Constança estava muito pesado e ela foi para o colégio luso-francês. Portanto mesmo que viajasse já não dava para eles irem comigo. Já andavam também nas suas vidas, ela joga voleibol, ele joga futebol. Ele entretanto foi para Desporto na Faculdade, apesar deste ano estar meio parado. Ela está no 12º ano.

Como corre o Rio Ave?
É um clube muito interessante porque se relaciona muito bem com vários parceiros. Consegue reunir um grupo de jogadores de qualidade, o que permite ao treinador mostrar aquilo que é capaz de fazer. Permite construir e trabalhar a equipa para jogar um bom futebol. Aos poucos fomos recebendo jogadores e fomos melhorando, fizemos muito bons jogos e quando eu pensava que agora vou ficar aqui esta época em casa a comer o meu peixinho, surge o convite do Reading.

No fundo era o seu sonho, o futebol inglês.
Era, era o meu sonho, o meu sonho tinha iniciado com um senhor que eu tinha visto treinar no FC Porto, Bobby Robson. Sempre que eu sabia que o treino não era à porta fechada, isto quando eu estava na licenciatura, eu ia ver os treinos e fiquei encantado: como é que um senhor daquela idade tinha e demonstrava aquela paixão, aquela energia no treino? Eu olhava para ele e estava a ver o futebol inglês. O entusiasmo, a forma e a intensidade com que se vive cada momento do jogo. Eu via aquilo no treino e marcou-me muito. A forma como ele interagia com os jogadores, com uma intensidade brutal, fosse para insultar ou ir dar um abraço. Recordo-me de um exercício em que procuravam jogar a bola na profundidade para a velocidade do Folha e o Folha insistentemente estava a fazer mal as coisas e ele: "Folha, Folha, estupid, estupid". E depois quando o Folha fez bem aquilo ele pôs-se de joelhos: "Folha, Folha, fantastic, fantastic". Tenho essa imagem. Já tinha essa vontade esse sonho de um dia poder ir para Inglaterra.

Qual foi a reação em casa e no Rio Ave?
Na verdade custou-me muito e foi condição fundamental para ir, porque estive oito anos fora e o presidente do Rio Ave abriu-me as portas em Portugal, que as coisas fossem claras. Eu disse ao presidente a situação é esta, se me disser que não há qualquer possibilidade eu esqueço e não falo mais nisso, se vir que é bom para si e para o clube, conversamos e vamos ver se chegamos a um entendimento. Portanto, entreguei a decisão e deixei que o clube também dissesse que sim. O Rio Ave acabou por receber mais do que legalmente tinha direito a exigir, mas não me incomodou absolutamente nada.

José Gomes treina o Reading de Inglaterra em 2018/19

José Gomes treina o Reading de Inglaterra em 2018/19

Nick Potts - PA Images

O futebol inglês era o que tinha imaginado?
Era. É verdade que quando cheguei o estádio não estava propriamente cheio, mas porque encontrei um cenário horrível. Falta de esperança em todos os quadrantes do clube. Nos adeptos, jogadores, direção, o sentimento era claramente “já descemos, não temos hipótese, vamos descer de divisão”. Tinha um grupo de 40 jogadores, quando normalmente os plantéis têm 24, 25, 26 jogadores. Quando são grupos muito grandes, só jogam 11 depois há três que entram. Por isso há sistematicamente jogadores que ficam de fora, jornada após jornada. E esses jogadores, não é que sejam mau profissionais ou más pessoas, mas é humano eles não se sentirem parte da solução. Nunca é saudável ter grupos assim grandes. Ao fim de quatro dias de lá estar já tinha mandado sete jogadores para treinar com os sub-23. Em janeiro, até ao fim do mercado de inverno, dispensámos 14 jogadores. Fomos buscar cinco jogadores emprestados. Conseguimos trazer os adeptos, demos esperança à estrutura, à organização, ao investidor, dono do clube e direção. Os jogadores começaram a acreditar no processo, naquilo que estávamos a fazer. Na época anterior eles tinham conseguido salvar-se apenas na última jornada e porque o adversário direto perdeu. E nós conseguimos salvar-nos umas jornadas antes do fim, no último dia os adeptos preparam-nos o dia de Portugal, que foi uma coisa extraordinária. Vimos caras pintadas de verde e vermelho, bandeiras de Portugal por todo o lado, uma coisa espetacular. Há uma fotografia de um senhor que se vestiu dos pés à cabeça de garrafa de vinho do Porto. A cabeça era o gargalo com a rolha. Acabámos a época a festejar e a celebrar o facto de não termos descido. Acabámos a época com 20 e tal mil adeptos em casa, as pessoas a volta da equipa novamente. Foi um objetivo claramente atingido. E quando tudo parecia que estava bem organizado para atacar objetivos maiores…

O que aconteceu?
O futebol é espectacular mas continua a ser um meio que recebe toda a gente e há pessoas que não deviam cá estar. Em muitos clubes pelo mundo fora há agentes que conseguem encontrar investidores para comprarem os clubes, os investidores compram o clube, como podiam comprar um prédio, uma quinta ou uma fábrica, e depois quando o clube tem algum problema, naturalmente esses investidores vão recorrer aos serviços desses agentes para os ajudar novamente, o que é legítimo. O que acontece é que não se consegue evitar alguma promiscuidade entre os diversos interesses. Isso acabou por prejudicar a formação do plantel para essa época, desviando daquilo que seria o ideal para jogar da maneira como gosto. Em janeiro aquilo estava mesmo muito mau, questionaram as minhas opções, mas como aquilo estava tão mal ninguém quis assumir a responsabilidade. Agora, no Verão, em que não há jogos, não faz mal dizer que é melhor trazer aquele ou aquele e convencem o dono e depois o plantel é formado por jogadores que, não está em causa a qualidade, mas o jogador pode não servir minimamente a forma como o treinador quer jogar. Mas isto é um fenómeno que está a acontecer em muitos lados. E acaba por ser em prejuízo em primeiro lugar do treinador, que é sempre a primeira pessoa a ser responsabilizada, no fundo é responsabilizada pelos erros dos outros. E depois a prejuízo do clube, que acaba por não ter estabilidade e há novos investimentos sistematicamente. Mas foi uma experiência espetacular. A forma como os ingleses vivem o jogo... Faz parte do plano familiar enquadrar os jogos do clube que seguem. Vivem os problemas do clube, estão ativamente nas redes sociais do clube a participar, aquilo parece uma religião.

Quando vem embora já tinha o Marítimo ou só aparece depois?
Quando venho embora não tinha nada. Apareceram umas coisas para o Médio Oriente e também para a Bélgica, mas de imediato não quis, preferi esperar um bocadinho e agora aqui estou na pérola do Atlântico.

Os cavalos e a equitação é um das grandes paixões de sempre de José Gomes

Os cavalos e a equitação é um das grandes paixões de sempre de José Gomes

D.R.

Que tal está a ser a experiência no Marítimo?
Gostava de ganhar mais vezes, mas há mostra de aumento de solidez defensiva. Estamos ainda longe de atingir aquilo que considero atingível com os jogadores que tenho em termos ofensivos. Acho que temos que finalizar mais.

Os resultados ainda não são muito positivos. Acha que o clube vai ter paciência para esperar?
O resultado que está aqui fora da realidade do Marítimo, claramente, é a derrota com o Aves em casa. Porque a derrota no Estádio da Luz ou a derrota em Alvalade, isso não é bom, claro, não é impossível ganhar-lhes, mas... O resultado que não é bom é o do Aves. Ok, empatamos com o V. Guimarães, que ainda não tinha vendido o central que vendeu, uma equipa fortíssima com jogadores muitíssimos bons; empatamos em Famalicão, e o Famalicão empatou nos últimos segundos, aliás a bola nem foi ao centro e acabou o jogo. Duas boas equipas que estão a fazer um excelente campeonato.

Está confiante de que vai conseguir dar a volta?
Estou, claro. Temos de melhorar.

Tem superstições?
Não.

Onde ganhou mais dinheiro?
Na Arábia.

Investiu onde?
Em negócios não, porque para estarmos num negócio temos de estar com tempo para seguir o negócio. Como não tenho tempo, só investi em compra de imóveis.

José Gomes, treinador do Marítimo, em dezembro passado no estádio da Luz

José Gomes, treinador do Marítimo, em dezembro passado no estádio da Luz

Gualter Fatia

Qual a maior extravagância que fez?
Acho que foi quando comprei um carro com um valor muito alto para aquilo que é um carro. Model X da Tesla, comprei o modelo mais potente, que tinha acabado de fazer testes e tinha batido o Lamborghini. E eu não sou nada de carros nem de velocidade, mas no fundo comprei a ideia da Tesla.

Tem algum hobby?
Podendo, vou à equitação. Gosto de me organizar uma vez por semana para montar a cavalo durante uma hora e meia. E aqui na Madeira gosto de ir dar um mergulho ao mar, mesmo de inverno dá para isso e gosto.

Qual o clube de sonho que um dia gostava de treinar?
Eu gostava de ser campeão em Portugal. E depois gostava de ser treinador e campeão em Inglaterra pelo Chelsea.

Quem foi o jogador que lhe passou pelas mãos e que mais o surpreendeu pela positiva?
Lucho González. Eu era adjunto no FC Porto. Como jogador, pelo caráter, pela entrega aos problemas da equipa, pela seriedade, pela capacidade de contagiar os outros e chamar os outros para aquilo que eram os interesse da equipa. E claro, pela qualidade também. Mas sobretudo por aquilo que representava na equipa, apesar de não falar muito.

É crente?
Sou. Vou à igreja, mas não vou todas as semanas à missa. A partir do momento que deixamos de acreditar que não podemos ser os donos do mundo e não há nada acima de nós estamos a abrir caminho para errar mais.

Tem alguma tatuagem?
Não. Nem tenciono fazer.