Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

Bruno Gama: “Na Crimeia, três soldados entraram no autocarro, encapuzados e armados, em posição de disparar. Íamos só jogar futebol”

A timidez marcou a carreira de Bruno Gama, que, aos 32 anos, está a jogar no Aris, da Grécia. Nascido numa família numerosa em que todos os rapazes, cinco no total, foram jogadores de futebol, recorda que chegou a dizer que queria ser professor de matemática, mas não se lembra porquê. Com a mesma namorada desde os 15 anos, e ainda sem filhos, começou a carreira perto de casa no SC Braga, passou pelo FC Porto, V. Setúbal e Rio Ave antes de se aventurar por Espanha, mas foi na Ucrânia que viveu a maior alegria ao chegar à final da Liga Europa. Ainda não sabe o que vai fazer do futuro, mas já investe no imobiliário e tem um Airbnb

Alexandra Simões de Abreu

Quality Sport Images

Partilhar

Nasceu em Vila Verde, Braga, no seio de uma família com muitos futebolistas, certo?
Sim, a minha família é grande: somos oito irmãos, cinco relacionados com o futebol e depois tenho mais três irmãs. O meu pai também chegou a jogar futebol, na formação do Braga, mas como sénior jogou em clubes da terra, como o Vilaverdense.

Nessa linhagem dos irmãos o Bruno é o mais novo?
Sim, sou o mais novo de todos, com uma grande diferença para o mais velho, para uma irmã, 11 anos de diferença. Já vim mesmo fora dos planos (risos).

Os seus pais trabalhavam em quê?
O meu pai e os irmãos têm uma fábrica que trabalha com vimes, bambus, tudo artesanal, tudo feito à mão, e a minha mãe ajuda-os.

O Bruno cresceu em Vila Verde?
Sou natural de Lanhas, uma freguesia de Vila Verde, onde os meus pais têm uma moradia colada ao local de trabalho do meu pai. Cresci lá com muito espaço para brincar, para correr, para fazer tudo o que queria.

Quando era pequenino já dizia que queria ser jogador de futebol?
Sim, os meus pais diziam que andava sempre com uma bola atrás de mim. Em casa partia constantemente jarras e outras peças de decoração e a minha mãe ficava chateada. Como os meus irmãos, que são mais velhos do que eu e sempre foram ligados ao futebol, isso também ainda ajudava mais.

Quem eram os seus ídolos?
Sempre gostei muito do Luís Figo, do João Vieira Pinto, quando jogava no Benfica... mas o principal era o Luís Figo.

Por que clube torcia?
Pelo Benfica, toda a gente em minha casa torce pelo Benfica e eu não saí diferente (risos).

Da escola, gostava ou não?
Sim. Gostava muito de tirar boas notas e conseguia, até ao momento em que tive de optar pelo futebol. Penso que fui um bom aluno.

Disse que os seus irmãos são todos mais velhos e que começaram cedo no futebol…
Sim, eles fizeram todos a formação no SC Braga, dois chegaram a jogar na equipa principal do Braga, outros dois não conseguiram, mas estiveram na equipa B. Depois, um jogou muitos anos no Rio Ave, na I liga. Outro teve uma carreira na II liga, mas também jogou na I liga pelo Braga, quando passou da formação para sénior. Os outros dois tiveram uma carreira mais pelas segundas II divisões B e III divisão.

Bruno em bebé vestido com o equipamento do SC Braga

Bruno em bebé vestido com o equipamento do SC Braga

D.R.

Quando é que começa a jogar pela primeira vez num clube e como é que lá vai parar?
Penso que teria uns oito anos. Fui a uma escola de formação em Braga, que era de um ex-jogador, que tinha sido, salvo erro, guarda-redes do Braga. Comecei aí, só que eu era bastante tímido e custava-me muito treinar, não conhecia os miúdos e às vezes dizia ao meu pai para não me levar. Preferia ficar em casa, no conforto, a brincar com os amigos com quem estava habituado. Era muito tímido mesmo. Estive nessas escolinhas um ano ou dois e depois comecei no Braga, nos infantis, com uns 10 anos.

Nessa altura jogava em que posição?
A extremo esquerdo ou atrás do avançado, a número 10. É verdade que houve um ou outro ano da minha carreira - quando era infantil, iniciado- em que cheguei a jogar a médio interior direito, mas com essa idade jogava a extremo.

Fez a formação até aos 16 anos no SC Braga. Qual é a memória mais forte que tem desses tempos?
Em memórias sou bastante fraco (risos). Lembro-me que foi muito importante para mim o treinador Carlos Baptista, que chegou a ser jogador profissional do FCP e do Braga, se não estou em erro. Na altura, ajudou-me bastante no processo de integração e a evoluir nos primeiros anos. Ele conhecia bem os meus irmãos, já tinha sido treinador deles, conhecia o meu pai. Como tinha sido jogador profissional sabia muito bem o que era o futebol, o que era essencial para mim e ajudou-me bastante na minha evolução.

Conseguiu conciliar o futebol com os estudos até quando?
A partir dos 15 anos comecei a ter mais dificuldades, porque comecei a ser chamado às selecções jovens e por vezes passávamos duas, três semanas fora; portanto, a partir dos 15 anos começou a ser mais complicado.

Bruno ainda bebé a jogar à bola junto de casa

Bruno ainda bebé a jogar à bola junto de casa

D.R.

Quando foi chamado pela primeira vez à equipa principal do Braga e por quem?
Aos treinos foi aos 15 anos. Na altura, o treinador era o Jesualdo Ferreira. Tenho ótimas recordações desse tempo. Era muito envergonhado, pouco falava, mas foram bons momentos.

Recorda-se de como foi recebido no balneário sénior?
Lembro-me de olharem para mim e verem-me mesmo como um miúdo. Nos treinos diziam-me que tinha de mostrar qualidade e para não ter medo do um-para-um. Quando és mais novo, por vezes, tens receio de como eles vão reagir, lembro-me disso.

Qual foi a primeira impressão que teve do professor Jesualdo?
Boa, muito boa. Ele conversava comigo, dava-me explicações de posicionamento e conselhos sobre coisas que eu devia fazer e melhorar. Ele acreditava bastante em mim e sempre mo disse e na altura tinha bastantes esperanças que eu pudesse vir a ser profissional. Cheguei a estrear-me na equipa principal do Braga com 16 anos, nas mãos do Jesualdo Ferreira. Foi no U. Leiria-SC Braga, em 2004.

Tremeram-lhe as pernas?
Um bocado. Recordo-me de, quando entrei, achar que o jogo estava demasiado rápido (riso). O Leiria na altura tinha um jogador, o Douala, que era extremamente rápido, jogava na mesma zona do que eu, e lembro-me de na altura ficar com a impressão que ele era extremamente rápido. Mas não só ele, mesmo o futebol pareceu-me muito rápido e claro custou-me um bocado o primeiro jogo apesar de já estar a treinar há algum tempo com a equipa principal. Custou-me um bocado por essa ansiedade, mas depois foi um alívio e uma alegria.

Só fez esse jogo?
Pelo SC Braga sim, só fiz esse jogo. E depois, no verão, na época seguinte, fui para o Porto.

Mas como é que vai parar ao FCP?
Quando estava no Braga as coisas estavam a correr bem, estava na selecção e, através da GestiFute do Jorge Mendes, surgem convites dos grandes, Sporting e Benfica. Mas o meu pai sempre quis que eu estivesse ali perto da família, perto de Braga, e achámos que o melhor seria ir para o Porto, que estava a fazer uma aposta bastante interessante a nível de projeto e era mais perto. E assim foi, com 16 anos fui para o Futebol Clube do Porto.

Olhando para trás está arrependido dessa decisão?
Não, não sou de me arrepender de decisões, há umas que correm melhor, outras nem tanto, mas há que tirar sempre ilações positivas das situações. Na altura achei que era o melhor para mim.

O jovem natural de Vila Verde iniciou a formação no SC Braga

O jovem natural de Vila Verde iniciou a formação no SC Braga

D.R.

Pensava que ia para a equipa principal ou sabia que ia para a equipa B do FCP?
Sabia que ia para a B, que seria chamado quando entendessem para a equipa principal. Eu ainda tinha idade de primeiro ano de júnior, tinha mais dois anos de júnior e já estava a integrar a equipa B.

Na equipa B apanha o Domingos Paciência como treinador. Gostou dele?
Gostei dele como treinador. Mais tarde, voltei a tê-lo como treinador no Deportivo. Mas é diferente trabalhar com jogadores jovens, que ainda estão a aprender, ainda estão a evoluir, do que trabalhar com uma equipa de homens, de seniores. Na altura, ele tinha sido um grande jogador, tinha bastante experiência e ajudava-nos com a sua maneira de ver o futebol, as suas ideias e, principalmente para os avançados, com as suas movimentações.

Continuava a viver em casa dos seus pais?
Quando fui para o FCP aluguei um apartamento no centro do Porto, mas ia muitas vezes a Braga, a casa dos meus pais. Não era assim tão longe e sempre que podia apesar de não ter carro, ia a Braga. Às vezes, quando estava na equipa principal, apanhava boleia com o Nuno Espírito Santo, que é de Guimarães. O meu pai levava-me a Guimarães, eu ia de boleia para o treino e depois regressava com ele. Era assim que fazia muitas vezes.

Já havia namoros, saídas à noite?
(risos) Sim, já havia tudo. Estou junto com a minha namorada, que já é mais mulher do que namorada, apesar de não estarmos casados, desde os 15 anos.

Conheceu-a como e onde?
Conheci a Cindi em Vila Verde. Estudávamos na mesma escola. Conhecemo-nos numa festa da escola, quando tinha 14 anos: começámos a falar, a namorar, mas depois não deu certo e, um ano mais tarde, quando nos voltámos a encontrar noutra escola, na secundária, ficámos na mesma turma e a partir daí começamos a namorar. Até hoje.

Quando é chamado pela primeira vez à equipa principal do FCP e por quem?
Comecei por ser chamado às vezes para os treinos da equipa principal, na altura o treinador era o Victor Fernandez. Isto até meados da época, até dezembro, janeiro, depois ele foi embora. Quando veio o Couceiro, fico a fazer parte do plantel principal até ao final do ano. Não só eu, mas também o Ivanildo, o Paulo Machado, o Vieirinha.

Como foi chegar ao balneário sénior do Futebol Clube do Porto?
Como disse, sou bastante tímido, fico no meu canto e sou de ir a pouco e pouco ganhando confiança. Estar ali com aqueles jogadores que eu via na televisão, referências do futebol português, foi uma satisfação enorme. Lembro-me que o Quaresma era muito engraçado, gostava de brincar com os miúdos, o Costinha também. Lembro-me mais destes dois. O Benny McCarthy e o Vítor Baía, com quem eu muitas vezes partilhava quarto, também. Ele dizia-me que eu era o melhor colega do quarto porque estava calado no meu canto e não chateava ninguém (risos). Quase não fazia barulho para não incomodar (risos).

Fazia o quê? Ficava agarrado ao telemóvel, lia, jogava?
Era isso, estava no telemóvel, se pudesse via algum jornal. Por vezes o Vítor Baía colocava um filme para vermos, mas passado um bocado adormecia (riso).

Bruno foi chamado pela primeira vez à seleção com 15 anos

Bruno foi chamado pela primeira vez à seleção com 15 anos

D.R.

Na época seguinte não fica no plantel principal e volta à equipa B.
Correto.

Porquê, tem ideia?
Ninguém me disse na cara. Fiquei no plantel principal até ao final, nesse ano não conseguimos ser campeões, depois o Couceiro saiu, ele estava a apostar em mim, no ano seguinte veio o Del Neri, que está pouco tempo, e depois o Co Adriaanse. Eu durante esse ano poucas vezes fui treinar à equipa principal - só no último jogo é que fui convocado. Eles já eram campeões. Foram quatro ou cinco miúdos da formação convocados para esse último jogo, que não cheguei a jogar. Na altura eu imaginei que poderiam não estar satisfeitos comigo, porque, no meio ano em que estive na equipa principal, fiz o meu jogo de estreia que é sempre complicado e difícil porque somos miúdos.

Com quem foi esse jogo?
Foi com o Vitória de Setúbal. O jogo correu-me mais ou menos. Continuei na equipa até ao final mas não voltei a jogar mais e, no ano seguinte, já não me lembro bem porquê, também ninguém me disse, reintegrei logo a equipa B e só esporadicamente ia à equipa principal.

Ficou desiludido e chateado?
Ficamos sempre um bocado. Achava que isso não era determinante porque tinha 17, 18 anos ainda, mas claro estava a dar um passo na minha evolução e dar um passo atrás por vezes nunca sabemos se é o melhor ou não.

Tinha assinado por quantos anos com o FCP?
Seis anos.

Mas não faz os seis anos, volta a Braga.
Tive a oportunidade de poder voltar ao Braga e eu via isso como uma boa porta para mim, porque já conhecia o clube e estava na cidade de onde eu sou. Ou seja, para mim seria mais fácil poder jogar no Braga do que no Porto. Hoje vemos as coisas de outra maneira, mas naquela idade, tinha uns 19 anos...Se bem me recordo, ainda cheguei a fazer 15 jogos. Mas claro que nesse ano estava um bocado frustrado, porque pensava que ia participar mais. Vendo as coisas agora, um miúdo que com 19 anos faz 15 jogos no SC Braga é muito bom. Ok que não era o SC Braga de hoje, mas era um SC Braga bom, sempre foi uma equipa forte.

Quem teve como treinador?
Quando cheguei ao Braga estava o Carlos Carvalhal. Depois foi o Rogério Gonçalves e por fim o Jorge Costa.

Dos três com quem é que se entendeu melhor?
Posso dizer que com os três. Sempre gostei de trabalhar com o Carlos Carvalhal, depois do Braga, trabalhei com ele no Vitória de Setúbal. Foi um treinador que me marcou bastante, com um treino bastante técnico que trabalha também a vertente táctica. Ele gosta que o jogador tenha prazer no treino. Senti isso e gostava bastante de trabalhar com ele. O Rogério Alves estava a tentar apostar em mim, mas não era fácil porque tinha outros jogadores com outro nível, já consagrados na altura. Com o Jorge Costa também tive uma boa relação. Ele já me conhecia, tinha jogado com ele no FC Porto. Lembro-me perfeitamente do Jorge Costa me ter metido a titular no SC Braga-Tottenham. Para mim jogar contra o Tottenham com aquela idade na Liga Europa foi bastante marcante.

No SC Braga

No SC Braga

D.R.

Mas só fica no SC Braga uma época.
Correto.

Porquê?
Por vezes não há muitas explicações (risos). Se calhar teriam um jogador que pudesse dar um rendimento imediato mais forte, o meu rendimento tinha sido algo irregular, o que naquela idade é normal. Eu também achava que seria bom tentar outro clube para poder jogar mais, precisava de jogar mais. E fui emprestado ao Vitória de Setúbal. Era o Carlos Carvalhal que estava lá e convidou-me.

É a primeira vez que sai verdadeiramente do ninho.
Certo, certo. Foi a primeira vez e depois não voltei mais (risos)

Mas custou-lhe ou não?
Claro que custa sempre, não vou dizer que não, estava habituado a uma maneira de viver, a casa sempre cheia… Eram no mínimo 10 pessoas em casa, ou seja, estava habituado a ter sempre aquele ruído, aquele barulho, aquela agitação e de repente fui só eu com a minha namorada - ela estava a estudar em Braga e conseguiu mudar e continuar a estudar em Lisboa.

Ela estava a estudar o quê?
Psicologia. Foi importante ela ter ido comigo. Desde os 19 anos que me acompanha, desde a primeira saída. Mas como estava a dizer foi difícil porque estava habituado a muito ruído, a muita agitação e de repente era um silêncio que no início me fazia confusão, depois a pessoa acaba por habituar-se.

Foram viver para onde?
Para o Parque das Nações. Vivemos lá dois anos, num apartamento alugado. Gostámos muito de viver em Lisboa. Mas passava a maior parte dos dias em Setúbal. Depois do treino, almoçava lá com amigos, tem restaurantes fantásticos e as pessoas são espetaculares, muito atenciosas. O Vitória de Setúbal é um clube que também tem uma boa massa adepta. Tenho e guardo muito boas recordações desses anos em que lá passei. Foram os dois anos em que me senti verdadeiramente feliz a nível profissional, foram os anos em que joguei e participei mais e senti-me mais importante.

Dessas duas épocas no Setúbal para além do Carlos Carvalhal houve mais algum treinador que o tenha marcado?
Também tive um treinador da casa, o Carlos Cardoso, que foi bastante importante. No primeiro ano com o Carlos Carvalhal ganhámos a Taça da Liga, conseguimos qualificar para a pré-eliminatória da Liga Europa, foi um ano fantástico. No ano seguinte, a expetativa era tentar fazer igual, era o Faquirá o treinador, mas as coisas não estavam a correr da maneira que queríamos. Penso que é a meio da época que assume o Carlos Cardoso. Ele deixou os jogadores mais relaxados, por vezes corre bem e a verdade é que ele conseguiu os objetivos do clube.

Entretanto não fica em Setúbal e vai para o Rio Ave, porquê?
Estive dois anos no Setúbal, as coisas correram bem, mas eu tinha, salvo erro, mais um ano de contrato com o FCP. Houve a hipótese de eu rescindir e ir para outro clube. Havia interesse de alguns clubes da I Liga e eu sempre acompanhei o Rio Ave, ainda hoje sou sócio, porque o meu irmão jogou lá bastantes anos e nós íamos muitas vezes ver os jogos. Já conhecia muito bem o clube, sentia-me bem lá, estava numa zona de conforto.

Depois do SC Braga, Bruno Gama foi para o FC Porto

Depois do SC Braga, Bruno Gama foi para o FC Porto

D.R.

Nesses dois anos no Rio Ave esteve com o Carlos Brito como treinador. O que pode dizer sobre ele?
Foi um treinador que me deu bastante confiança e deixou-me sempre muito à vontade. Gostava de trabalhar bastante a parte física e gostava de falar e explicar as coisas aos jogadores. Por vezes fazia-nos uns treinos um pouco diferentes. Normalmente estamos habituados a treinar com bola e ele por vezes levava-nos para correr no Parque da Cidade, para desconectarmos.

Quando foi para o Rio Ave, fica a viver onde?
Estava a viver em Vila Verde com a minha namorada, onde tinha um apartamento desde os meus 17 anos.

Tinha um bom grupo de trabalho no Rio Ave?
Muito bom, um grupo fantástico, juntávamo-nos muitas vezes fora do balneário, para jantar, convivíamos muito e claro isso é bom e reflete-se no campo.

E saídas à noite, o Bruno era muito de saídas à noite?
Muito, não, porque a profissão não o permite, mas sempre que podia. Se, por exemplo, tínhamos uma vitória e só tínhamos treino passado dois dias, saía com amigos, com a minha namorada. Com 16, 17 anos saía mais à tarde. A partir dos vinte, por vezes, saíamos com os outros jogadores e com as mulheres deles depois dos jogos - mas não até muito tarde.

Depois do Rio Ave foi para fora e nunca mais voltou. Em Portugal quais foram as maiores amizades que fez no futebol?
Tenho algumas. Aquelas com quem continuo a manter relação é com o Sílvio, o Ricardo Chaves e o Vítor Gomes também. Mas com o Ricardo Chaves coincidimos cinco anos consecutivos, não é normal (risos), e ainda por cima em três equipas diferentes. Estivemos os dois no Braga, onde nos conhecemos, depois fomos para o V. Setúbal e depois fomos os dois para o Rio Ave. Ficou uma grande relação, somos os padrinhos da filha dele. Houve outras amizades importantes no futebol como o Hugo Sousa, Laure e Matheus.

A seguir ao FCP regressa ao SC Braga, em 2006/07

A seguir ao FCP regressa ao SC Braga, em 2006/07

CityFiles

Como é que se dá a passagem para Espanha e para o Deportivo?
Estava no Rio Ave e na pré-época para o 3.º ano sabia que havia alguns interesses. Tinha feito uma temporada muito boa no Rio Ave, estava com 23 anos e achava que seria bom ir para fora. Na altura, lembro-me do meu empresário ter falado no Saragoça e no Corunha. O Saragoça estava na I liga e o Corunha na II. Encontrei-me com o meu agente para irmos para Espanha, ao Saragoça, e ele disse-me que queria que eu falasse também com os responsáveis do Corunha, porque queriam-me muito e porque era um grande clube. Na altura tinha mais vontade obviamente de ir para o Saragoça, mas também fui ao Corunha. Falei com os responsáveis, estive reunido com o presidente do Corunha e com o treinador. Disseram que me queriam muito, no Saragoça também mas o interesse não era igual. No Corunha era uma aposta do clube, ia para jogar, contavam comigo e isso é muito bom de ouvir. Então tive esse jantar, o presidente do Corunha era o Lendoiro, grande presidente e muito peculiar. Marcaram o jantar para a meia noite (risos) e foi até ás quatro da manhã. Isso marcou-me logo, era fora do que estava habituado. Sei que em Espanha se janta tarde, mas à meia-noite (risos)?

E depois?
Eu não dei nenhuma resposta, disse que precisava de pensar, mas que estava mais inclinado para ir para o Saragoça. Entretanto dormi lá, e, claro, falei com a minha namorada, com os meus pais e o meu irmão para pedir opiniões. No dia seguinte acordei e decidi ficar no Corunha.

O que o fez mudar de ideias?
Sentir que as pessoas queriam mesmo que estivesse lá, queriam que eu participasse no projeto do Corunha. Eles tinham uma grande equipa para jogar na II Liga, sempre foi um clube histórico, estava próximo de Portugal, podia pegar no carro com facilidade e vir visitar os amigos, estar com a família ou eles podiam ir a Espanha. Isso também é importante e na altura ponderei tudo e achei que se calhar lá iria ter mais oportunidade para jogar.

A diferença salarial não era muito grande?
Não, era igual.

E não se arrependeu, foi logo campeão.
Não, nada, antes pelo contrário, foram os meus melhores anos da carreira, de onde tenho mais recordações boas. Apesar de ser II Liga, é muito boa, tem um campeonato muito bom, muito competitivo. Respeito e gosto muito do Rio Ave, mas jogar numa casa muitas vezes com mil, três mil adeptos, e jogar ali com vinte e tal mil adeptos... Não tem nada a ver. O dérbi contra o Celta de Vigo com trinta mil adeptos... E claro isso causa um impacto muito forte, parece que se saboreia ainda mais as vitórias, aquele convívio com os adeptos. Depois, também gostei muito do futebol, adaptei-me muito bem e adorei estar lá.

É muito diferente do futebol português ou não?
Muito diferente, não. Lá é um futebol de primeiro toque, de posse de bola, também tático, mas eles privilegiam mais a posse de bola por secções, isso é fundamental. Em Portugal às vezes é mais posse de de um para um, lá tentam jogar mais pelo coletivo, mas de um jogo de posse e de toque. Em Portugal também se gosta de jogar bem, mas lá penso que esse aspecto está um bocadinho mais à frente. Também têm outros incentivos e outros salários.

O Bruno e a sua namorada adaptaram-se bem à Corunha e à cultura dos espanhóis?
No início foi um pouco complicado, saímos pela primeira vez de Portugal, a minha namorada indo para Espanha não poderia continuar os estudos, na altura ainda não tinha acabado o curso de psicologia. Ela é uma pessoa que gosta de estar sempre ativa, de se ocupar e nos primeiros dois, três meses foi complicado. Mal cheguei, as coisas estavam a correr bem na pré-época, mas tive uma lesão: tive uma rotura do adutor e fiquei parado dois meses. Não estava a ser fácil, mas depois a minha namorada conseguiu arranjar trabalho, não era bem o que ela queria, mas estava ocupada, sentia-se útil e isso foi bom.

Foi fazer o quê?
Trabalhou como manager numa loja. Depois, também recuperei da lesão, comecei a jogar e as coisas começaram a correr-me bem. A partir daí foi um bom período, já nos sentíamos bem e cómodos na cidade.

Com a namorada Cindi

Com a namorada Cindi

D.R.

Uma das coisas que os jogadores às vezes referem é que em Espanha há uma exigência muito grande com os jogadores estrangeiros e sobretudo com os portugueses. Sentiu isso?
Sem dúvida. Enquanto em Portugal, muitas vezes damos mais valor ao jogador estrangeiro do que ao português, em Espanha é o contrário. Eles privilegiam o jogador espanhol, dão muito valor ao jogador espanhol, e o jogador de fora, ainda por cima se é português, tem de dar o dobro, tem que convencer o dobro. Ou seja, enquanto o outro precisa de fazer dois jogos só, o português tem que fazer quatro, tem que dar sempre o dobro para as pessoas começarem a dar-lhe a atenção devida e a apreciá-lo de outra maneira. Senti isso, sim. A imprensa lá também é complicada.

Teve algum problema mais sério?
Não, problema mais sério, não. Esses dois primeiros anos foram muito bons, depois quando regressei, mas se calhar falamos mais à frente, as coisas não correram tão bem, aí já senti mais aquela parte de quando as coisas correm bem, tudo muito bom, a crítica é muito boa, quando as coisas não correm tão bem...Mas isso faz parte, já sabemos.

Já lá vamos. Nessa primeira época é campeão da II liga e vai para a liga principal na época seguinte. Notou muita diferença?
Sim. Nessa primeira época fomos campeões e eu estava excitadíssimo porque era um dos meus sonhos, poder jogar na principal liga espanhola. Estava muito motivado, com muita vontade de jogar, de poder enfrentar grandes craques mundiais. Notei a diferença, mais a nível técnico, não tanto de velocidade de jogo. Na I Liga, ao mínimo erro, já se sofria um golo, porque são equipas com jogadores com um nível elevado, os melhores do mundo.

Teve o Oltra como treinador, mas também o Domingos Paciência.
Sim, tive o Oltra foi um treinador muito importante para mim, para a minha carreira em Espanha, foi um treinador que me deu muita confiança e que apostou muito em mim.

Em relação ao Domingos: notou muita diferença para aquele Domingos que tinha conhecido anos antes?
Notei alguma diferença. Já tinham passados alguns anos, naquele momento chegou a uma equipa que passava por um momento complicado. Jogávamos bom futebol, mas custava-nos muito ganhar os jogos. Ele chegou e já se sabe que no futebol quer-se logo resultados. Ele já tinha passado pelo Braga, pelo Sporting, chegou com um trabalho já muito bem elaborado, muito bem auxiliado... mas foi complicado.

Em 2007/08 vai para o V. Setúbal onde esteve duas épocas

Em 2007/08 vai para o V. Setúbal onde esteve duas épocas

Icon Sport

A equipa tinha muitos portugueses.
Sim, o Pizzi, o Nelson Oliveira, Tiago Pinto, Diogo Salomão, o Sílvio... o Domingos levou o Paulo Assunção.

Isso ajudou à sua integração e adaptação, o facto de haver lá muitos portugueses?
Quando cheguei havia dois. O José Castro e o Diogo Salomão. Claro que para a adaptação é importante poder falar o nosso idioma, termos as nossas conversas. No segundo ano com tanto português ainda foi melhor porque sentimo-nos quase em Portugal. As nossas brincadeiras, os nossos costumes, tudo. Obviamente que também tem um segundo lado porque houve algumas coisas que não estavam a correr tão bem, ainda para mais depois veio o Domingos, um treinador português...

A culpa passou a ser dos portugueses.
Sim, começou a cair um bocado em cima dos portugueses. Infelizmente foi assim na altura em que o Domingos saiu. Estava a haver muita pressão sobre os portugueses e ele decidiu sair. Foi quando veio o Vasquez. Claro que esta é a parte que não é boa, nós fazemos de tudo para que as coisas corram bem e depois culpam um bocadinho os portugueses. Nessa altura, veio o Vasquez e as coisas começaram a melhorar. Estávamos numa situação complicada, inclusive estávamos a lutar pela manutenção, chegámos ao último jogo acima a linha de água e só dependíamos de nós. Era um jogo difícil contra o Real Sociedad, eles estavam a lutar para ir à Liga dos Campeões, perdemos esse jogo em casa por 1-0 e descemos de divisão. Foi uma grande desilusão na carreira.

Ainda inicia a época seguinte.
Correto. Sentia-me muito bem lá, na Corunha, sentia-me bastante acarinhado, as pessoas gostavam de mim, tinha feito dois anos muito bons, sentia-me confortável. Tinha mais dois ou três anos de contrato, mas achava que devia dar outro passo na minha carreira.

Foi o Bruno que quis sair ou foram eles que o empurraram?
O clube na altura estava a atravessar uma fase com problemas económicos e também precisavam de vender jogadores. Eu sentia-me bem e eles nunca me colocaram nenhuma pressão, mas eu próprio também queria tentar continuar na I Liga espanhola, porque achava que estava num momento bom da carreira, tinha acabado de ser chamado à seleção principal apesar de não me ter estreado, mas fui chamado para um jogo amigável contra a Holanda. Nessa altura, ainda se falou do interesse do Sevilha, mas não se veio a concretizar e depois apareceu a proposta para a Ucrânia e como eles pagavam algum dinheiro ao clube, o que para eles era muito bom porque o clube estava a precisar de dinheiro…

No Rio Ave, onde jogou de 2009 a 2011

No Rio Ave, onde jogou de 2009 a 2011

MIGUEL RIOPA

Quando lhe falaram da Ucrânia qual foi a sua primeira reação?
Pensei: “Não, não vou, não quero”. A Ucrânia não fazia parte dos meus planos para a carreira. Depois, o treinador do Espanhol ligava-me constantemente a dizer-me que me queria lá. Queriam-me lá, mas não queriam pagar a transferência ao clube, eu tinha vontade de ir, apesar de financeiramente na Ucrânia ser melhor. A ida para o Espanhol não se concretizou, ainda comecei a época, ainda fiz um jogo, porque as coisas se arrastaram um bocado até meio de agosto, e decidi então aceitar a proposta da Ucrânia.

Foi um choque quando lá chegou?
Foi encontrar uma realidade completamente diferente. Vir de Espanha onde já estávamos habituados, cómodos, sempre com amigos e família por perto e chegar à Ucrânia e falarem de Dniporpetrovs, a cidade, da qual que nunca tinha ouvido falar... O que vale é que havia um jogador, o Mateus, que tinha jogado comigo no Braga e no Setúbal e estava lá, nessa equipa. Falei com ele antes de ir e ele disse que o clube era muito bom, que se a oferta fosse boa achava eu devia aceitar porque me ia sentir bem. Também falei com outras pessoas que já tinham estado na cidade. Queria saber, queria ter informações sobre a cidade porque o futebol obviamente é importante mas o dia a dia é muito importante também.

Sim, mas como foi o primeiro impacto quando lá chegou?
Quando cheguei a primeira vez, fui eu com o meu empresário e vi um país totalmente diferente do que estamos habituados. As cores... Estava muito calor, até me surpreendeu porque estava à espera de encontrar mais frio, mas estava mais calor do que na Corunha ou em Portugal. Lembro-me que, no trajeto do aeroporto para a cidade, fiquei um bocado apreensivo porque via coisas que a que não estava habituado. São países mais pobres e até chegar ao centro vi muita coisa a que não estava habituado. No centro da cidade já havia zonas boas, sítios bons e comecei a gostar de algumas coisas que via e a sentir-me melhor. Até tirei fotos para enviar à minha namorada, amigos e família.

Falava bem inglês?
Mais ou menos, mas o treinador era espanhol, a equipa técnica era espanhola, eles conheciam-me e também me tinham ligado a falar do clube. Havia três ou quatro brasileiros na equipa. De resto, era muito difícil, ainda não dominava muito bem o inglês e era bastante difícil. Quando o empresário foi embora, eles tinham-me dito que podia ficar nos bungalows que havia no centro de treinos. Havia um bungalow para cada dois jogadores. Eram engraçados, em madeira, e eu disse: "Ok, vou dormir uma noite aqui". Tinha acabado de chegar, não tinha carro, não tinha nada. A intenção era dormir mais noites (risos). Mas não aguentei, dormi uma noite e disse: “Tenho de ir para a cidade, aqui não vou dormir mais".

Porquê?
Aquilo era totalmente escuro, parecia que estávamos no meio do bosque, tinha pouca luz, estava num país totalmente diferente, não estava lá ninguém com quem pudesse falar... No dia seguinte, disse logo que queria ir para um hotel na cidade. Não me sentia bem ali sozinho no meio daquela escuridão, não tinha televisão portuguesa; na cidade pelo menos podes sair e caminhar um bocado ou ir a um restaurante, ali não. Sentia-me muito isolado e fez-me confusão. Depois, eles conseguiram-me um hotel no centro e fiquei lá até arranjar um apartamento, umas três semanas.

Quando a sua namorada chegou gostou da cidade?
Ela não desgostou. Quando chegou tinha a expectativa mais em baixo do que eu e não lhe pareceu tão mau, tinha algumas coisas boas, mas claro que para viver meses e meses não é suficiente. A primeira reacção até foi boa e estávamos dispostos para a aventura, que é mesmo assim.

Bruno foi campeão da Europa de Sub-17, em 2003

Bruno foi campeão da Europa de Sub-17, em 2003

John Walton - EMPICS

E a nível de futebol, adaptou-se bem? Era melhor ou pior do que estava à espera?
A nível de futebol... foram bastante difíceis os primeiros meses. Vinha de um futebol completamente diferente, mais técnico, mais táctico, de posse de bola e cheguei a uma realidade diferente, um jogo mais físico, os jogadores fortes fisicamente, um jogo mais de contacto físico, mais directo e nós tínhamos uma óptima equipa com excelentes jogadores e no início custou-me bastante. Vinha de jogar sempre e, quando cheguei, tinha a mesma expectativa, de jogar como titular. No primeiro jogo as coisas correram-me super bem, ganhámos; já no jogo seguinte, na Liga Europa, joguei a titular as coisas estavam a correr-me mais ou menos e a dada altura o treinador tirou-me e eu fiquei doente. Esses primeiros meses foram um bocado complicados, tanto havia um jogo em que marcava dois golos, como no jogo seguinte estava no banco e aquilo começou-me a fazer confusão.

Por que é que ele fazia isso? Explicou-lhe?
Não. Era espanhol, podia explicar-me, mas nunca chegou a dizer-me, nunca foi frontal para dizer-me aquilo que achava. O que eu pensava era que ele achava que eu não estava preparado. E como ele já lá estava há quatro anos, tinha construído um grupo forte... Às vezes, quando chega um jogador novo, custa sempre um bocadinho a entrar. Entretanto o campeonato parou uns meses, em dezembro, e eu quis-me ir embora. Chegou uma altura em que só queria sair. Queria jogar e estava a jogar esporadicamente, não estava continuamente no 11. Apesar de no início ter sido um bocadinho melhor do que estava à espera, depois tornou-se complicado, a minha mulher deixou de ter o seu trabalho, de sentir-se ocupada, apesar de ter lá boa companhia. O Mateus, que eu já conhecia, e a mulher dele foram uma companhia bastante boa para nós, mas apesar disso sentia que precisava de sair.

Mas não saiu.
Em janeiro há a pré-época, a época recomeça em março, diziam-me para ter calma que as coisas iriam mudar, que me iria integrar melhor. Depois da pré época comecei a sentir-me melhor, comecei a ter melhor relação com os meus companheiros. No início, eles eram bastante fechados e eu também não dominava o inglês, mas depois foi-se criando uma relação e essa pré-época foi importante para isso. Portanto, nos anos seguintes já foi totalmente diferente. Mas antes, cada vez que abria o mercado, eu queria sair (riso)

E não saia porquê? Porque não havia clubes que lhe interessassem?
Não, porque na altura eles não queriam que eu saísse, não me deixavam sair. Quando vem o treinador ucraniano, o Myron Markevych, ele começou a apostar em mim, as coisas estavam a correr bem, estava a sentir-me bem, principalmente nos primeiros seis meses e foi nesse ano que chegamos à final da Liga Europa.

Um momento único.
Sim, nunca imaginei. É sempre um marco importante na carreira.

Foi uma grande desilusão a derrota com o Sevilha ou de alguma forma já estavam à espera?
Quando se está na final há sempre a esperança de vencer e poder levantar o troféu. Sabíamos que estar ali já era fantástico, já era um prémio enorme. Claro sabíamos que, do outro lado, o Sevilha estava muito forte, mas já tínhamos eliminado grandes equipas pelo caminho e numa final tudo pode acontecer. Foi uma final bastante equilibrada mas eles acabaram por ser mais fortes, mais felizes e ganharam.

Num lance com Marcelo do Real Madrid, quando Bruno atuava pelo Deportivo da Corunha

Num lance com Marcelo do Real Madrid, quando Bruno atuava pelo Deportivo da Corunha

Helios de la Rubia

E seguiu para a sua última época na Ucrânia.
Sim, já estava ali há dois anos e pensava por um lado que poderia renovar mais um ano, mas por outro também queria experimentar outras coisas. Recordo-me que no dia 31 de agosto, cheguei a despedir-me de companheiros porque tinha tido uma oferta e já tinha quase tudo acertado para ir para o Eintracht de Frankfurt. Isto foi no dia 30, eu ia viajar no dia 31 de manhã, já tinha as passagens e tudo, estava em casa a despedir-me dos meus companheiros brasileiros e de mais um casal romeno que foi muito importante para nós... e por volta da uma da manhã recebo uma chamada do meu empresário. Achei estranho, àquela hora, passa-se alguma coisa? Espero que não. Estava contente ia para um liga boa, sempre admirei o futebol alemão, estava tudo acertado. Mas então o meu empresário liga e diz-me: "Vamos ter de aguardar mais um pouco". Porque o Eintracht ia vender um jogador e eu ia entrar para o lugar dele, era esse o plano. Só que entretanto a operação de venda desse jogador não avançou no dia 30. Ou seja, tive de aguardar mais um pouco até ao dia 31 para ver se sim, ou não. Já não viajei, fiquei a aguardar, entretanto não se concretizou... foi uma desilusão. Já estava tudo planeado, vais para lá viver, já tens as malas quase todas preparadas, já te estás a despedir de companheiros e de repente... Não fui e acabei por ficar lá.

Foi uma grande desilusão.
Sim, sim porque ainda por cima acabou por ser o pior ano lá, devido a problemas financeiros que o clube começou a atravessar. Acabei por jogar, ainda fiz bastantes jogos e as coisas até correram relativamente bem, mas chegamos a ter muitos meses em atraso e o que aconteceu foi que o clube, no final desse ano, como que desapareceu e teve de começar do zero.

Mas ficaram-lhe a dever algum dinheiro ou não?
Sim, os últimos cinco, seis meses, ficaram a dever...

Nunca viu esse dinheiro?
Não, até ao momento não. Coloquei na FIFA como os outros jogadores e ganhei o caso, só que como o clube desapareceu... Agora já reaparece,u mas com um nome completamente diferente.

Durante um treino do FC Dnipro, da Ucrânia

Durante um treino do FC Dnipro, da Ucrânia

Shaun Botterill

Como é que surge o Deportivo novamente?
Surgiu em março. Eles começam a entrar em contacto comigo em março, eu ainda achava que não era o valor que eu queria, também queria aguardar um bocadinho até ao final da temporada para ver o que é que poderia surgir mais. Mas na minha cabeça eu queira voltar ao Deportivo, porque era muito acarinhado ali, as pessoas continuavam a mandar-me mensagens, e achava que devia voltar apesar de estar à espera de outras ofertas. Cheguei a falar com a minha namorada sobre isso, com outros companheiros e eles diziam-me: “Não vás para um sítio onde já foste feliz porque a probabilidade de as coisas não serem iguais é muita. Mas eu queria muito e acabei por aceitar. Em junho aceitei a oferta e pronto, fui todo contente.

Mas essa primeira época nem correu muito mal, o pior foi depois não é?
Sim, sim foi isso mesmo. A primeira época nem correu muito mal, eles começaram logo a apostar em mim apesar de estar a custar-me a atingir o meu nível; depois, quando estava numa fase boa, tive uma lesão que me fez parar três semanas. Quando volto, faço um jogo, marco um golo, no jogo seguinte também jogo bem e... outra lesão, mais duas semanas, ou três... Tive um ano um bocado complicado e acabei por jogar só uma parte da temporada, não ia jogando sempre. Jogava, depois não jogava, mas o pior foi o segundo ano.

O que é que acontece?
Queria só dizer que nesse primeiro ano tive uma das melhores recordações da vida que foi ganhar ao Barcelona, que é sempre muito gratificante ganhar a uma equipa do nível do Barcelona. Lembro-me que ganhámos 2-1 em casa e depois de eles terem ganho 6-1 ao Paris Saint-Germain. Foi um dia fantástico que vou recordar para sempre. Entretanto, no segundo ano, a pré-época corre muito bem, talvez tenha sido a melhor pré-época que fiz. Acho que fui o melhor marcador da pré-época e tudo, mas começa a época e no primeiro jogo senti que o treinador não ia apostar em mim.

Era o Pepe Mel?
Sim. Senti-me um bocado injustiçado, porque achava que, com o que tinha feito, deveria pelo menos começar a época a jogar, depois logo se via. Comecei a época no banco, lembro-me que no primeiro jogo quando entrei, entrei bem, no segundo jogo também comecei no banco, mas quando entrei, entrei bem.. até que ele me chama e diz que iria jogar a titular, porque eu tinha entrado muito bem nos dois jogos. O jogo em que entro a titular não corre muito bem, infelizmente aos 15 minutos já estávamos a perder 2-0. A partir daí, começou o meu ano complicado. No jogo seguinte, como castigo não me convoca, depois volta-me a convocar... passei ali um período bastante difícil. O que foi complicado, porque vinha de uma etapa muito boa e custou-me um bocado porque a motivação não é a mesma, não te sentes tão bem como antes te sentias.

Até que o mandam embora para vir um jogador ganês.
Sim e isso foi o que mais me marcou pela negativa, foi mesmo isso.

Mas o que é que aconteceu em concreto e o que lhe disseram?
Até janeiro joguei pouco, o treinador não estava a contar muito comigo, mas nunca me disse na cara, o clube também não e eu obviamente que quero sair. Quero sair, mas não vou sair para qualquer sítio, vou tentar encontrar a melhor opção. Conjuntamente com o meu empresário, estávamos a tentar ver alguma coisa na Turquia, mas não se concretizou. Havia uma hipótese na II liga espanhola, mas eu não queria, para isso preferia ficar no grupo até final do ano, acabava o contrato e logo se via. Entretanto, chegámos ao final de janeiro, o diretor chamou-me e disse: "O treinador não conta contigo, se conseguires encontrar outro local para ires tudo bem. Se não conseguires, por nós tudo bem, és um profissional exemplar, gostamos muito de ti, já nos deste muito no passado, por isso não há problema". E eu: "OK, eu também quero sair, vou fazer tudo para encontrar outra opção, mas se não conseguir fico até ao final". No dia 31 de janeiro, e por isso é que tenho esta mágoa, lembro-me que estava em casa, sentado no sofá, deviam ser umas onze da noite e recebo uma chamada de uma pessoa que nem conhecia, era advogado do Deportivo, a dizer que iam rescindir o contrato comigo: "Vamos rescindir o contrato, daqui a pouco vamos enviar-te um email".

Assim, a seco.
Sim, nem conhecia a pessoa de lado de nenhum. Liguei logo para o meu empresário e para outras pessoas, não estava nada à espera do que eles me fizeram. Depois claro, tive que meter o clube na justiça, mas o que mais me doeu foi não terem dado uma palavra, nunca me terem dito nada. Precisam de um espaço livre para o jogador, na altura foram buscar o Muntari, e eu como acabava o contrato em junho, era o jogador a quem tinham de pagar menos dos que não estavam a jogar muito.

A última competição oficial que fez pela seleção foi o Mundial de sub-20, em 2007

A última competição oficial que fez pela seleção foi o Mundial de sub-20, em 2007

Richard Heathcote

Como surge o AD Alcorcón?
Fiquei livre, mas mesmo sendo um jogador livre não se pode ir para todo o lado porque já estávamos em fevereiro e o mercado já tinha fechado em muitos locais. Foi um choque tremendo, estive 15 dias a treinar sozinho e com um personal trainer para manter a forma, voltei para casa, voltei para Portugal.

Onde é que era a sua base nessa altura?
Em Vila Verde. Voltei para lá, sempre em contacto com o meu empresário, a tentar para vários sítios mas não surgia nada que interessasse. Ou seja, em concreto muitos mercados já estavam fechados e era mais mercados para a Ásia ou a Rússia, Ucrânia, mais esses mercados. Surgiu o Alcorccon, porque houve um jogador deles que teve uma lesão grave e em Espanha quando há casos desses o clube pode ir buscar um jogador mesmo fora do mercado. E assim aconteceu, o treinador entrou em contacto comigo, o Julio Velazquez, um treinador que aprecio muito. A verdade é que no início estava a custar-me aceitar, ponderei bastante. Ele falou comigo, deu-me a opinião dele, que era importante para mim voltar a jogar. Eu sabia disso, mas custava-me um bocadinho ir para a II divisão. Mas aceitei porque pensei: “Vou para lá, vou jogar que é aquilo que gosto de fazer, vou para uma boa cidade, Madrid, e o treinador conta comigo”. Por outro lado, tinha algum receio do que podia provocar no meu futuro. Mas era melhor do que estar parado, obviamente.

Foi por pouco tempo.
Foram três meses, mas foram três meses muito bons. Gostei bastante do clube, pequeno, mas muito organizado; gostei muito das pessoas, gostei muito de viver em Madrid. Na altura nem discuti valores nem nada, porque o que eu queria mesmo era jogar até ao final da temporada e depois tentar ir para outro lado, e assim foi. Fui para lá para jogar, as coisas correram bem, o grupo era muito bom. Depois de um período que tinha sido bastante complicado, voltei a sentir-me feliz.

Até que foi para a Grécia. Como é que isso acontece?
Nós estamos sempre à espera de que possa surgir algo melhor. Criamos expectativas e queremos sempre mais. A oferta surgiu-me logo em junho, na altura foi até com um contacto grego, ao início era para o AEK mas acabou por não surgir e apresentou-me depois uma proposta do Aris. Eu já conhecia o clube, sabia que vinha de um momento complicado, mas sabia que era um clube histórico na Grécia. Como isto foi em junho, decidi aguardar, disse que precisava de mais tempo para pensar e para aguardar por outras ofertas. Surgiram outras ofertas, inclusivamente de Portugal e de Espanha da II Liga.

Em ação pelo Dnipro da Ucrânia onde jogou de 2013 a 2016

Em ação pelo Dnipro da Ucrânia onde jogou de 2013 a 2016

NurPhoto

Como é que foi também o primeiro impacto, como é que foi a adaptação?
Desde o princípio que foi muito boa. Estava cá também um português, o Hugo Sousa, que foi muito importante, fez-me sentir bem desde o início. Os adeptos também me acarinharam logo, deram-me muita força e por isso foi muito mais fácil esta adaptação. Tanto eu como a minha mulher sentimo-nos muito bem aqui.

Ela também gostou, adaptou-se bem?
Sim, é um país muito fácil com algumas coisas parecidas com Portugal

Diz-se que os adeptos gregos são muito acesos na discussão do futebol. Sente isso?
Sim, sim. Já joguei em estádios com muito mais gente do que aqui mas os daqui são incríveis, fazem-se ouvir muito. Lançam fogo de artifício e tudo. Os adeptos são muito fervorosos sente-se isso. ficam extremamente chateados quando não se ganha.

O futebol é muito diferente do que estava à espera?
Não. É um futebol bastante competitivo. Tem cinco, seis equipas com nível bom, as outras são equipas mais físicas.

Tem contrato até quando?
Termina este verão.

Tem ideia se é para continuar ou prefere ir para outro clube?
Ainda não tenho nada certo. O clube já falou que quer fazer uma oferta de renovação, mas também ainda não tenho nada em papel. Tem havido algumas sondagens, mas ainda nada em concreto.

Bruno (à direita) no seu atual clube, o FC Aris da Grécia

Bruno (à direita) no seu atual clube, o FC Aris da Grécia

D.R.

Gostava de de voltar ao futebol português?
Sim, cada vez penso mais nisso. Não sei ainda quando vai ser. Porque, sinceramente, a parte financeira pesa muito nesta fase. Sinto-me bem, sinto-me feliz aqui, as coisas têm corrido bem. Vamos ver.

Onde ganhou mais dinheiro?
Na Ucrânia.

Onde investiu?
No ramo imobiliário. Tenho alguns apartamentos alugados, tenho um Airbnb. Por vezes compro, remodelo e vendo. Tudo na zona de Braga.

É crente?
Sim. Não sou praticante, mas tenho fé.

E superstições?
Tenho aquelas coisas que quase toda a gente faz: entrar com o pé direito no campo, benzer, esse tipo de coisas.

Tem algum hóbi?
Gosto de jogar Padel com amigos ou ténis. Ou uma pelada de futebol.

Qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Real Madrid.

Qual o jogador com que se acha mais parecido?
Talvez o Isco.

Quando tem de mudar de casa, o que faz questão de levar sempre na bagagem?
Um santo que me foi oferecido pela minha mãe.

Se não fosse jogador de futebol o que teria sido?
Houve uma fase, quando era mais miúdo, que dizia que queria ser professor de matemática. Não sei porquê (risos).

Já sabe o que quer fazer depois de pendurar as chuteiras?
Gosto dos temas relacionados com a parte imobiliária, mas é tudo muito vago. Se eu quiser fazer da minha vida isso, tenho de me informar mais nesse campo, tenho de saber mais, não só o comprar, vender ou alugar. Ou então. algo ligado ao futebol. Treinador, não. Mas ainda não pensei em nada seriamente, na verdade.

Tem alguma meta para deixar de jogar?
Não. Gostava de jogar até aos 35 anos e depois tudo o que viesse, ótimo, enquanto sentisse prazer de jogar.

De todos os campeonatos porque passou de qual gostou mais?
O espanhol.

E o menos competitivo?
O da Ucrânia.

Quando muda de país e tem de procurar casa, o que para é essencial que a casa tenha?
Tem que ter uma boa TV, um bom sofá e, se a cidade tiver praia ou rio, procuro que tenha vista para a praia ou rio.

O que mais gosta de fazer nos tempos livres?
Basicamente, passá-los com a minha namorada. Passear, gostamos de caminhar, ir ao cinema. E depois estar com amigos.

Aprendeu alguma coisa de russo e grego?
Sim. Mais russo que grego. Até porque o ano passado, em janeiro, tive uma lesão grave, uma rotura de ligamentos cruzados, e só estive na Grécia quatro, cinco meses porque fui fazer recuperação em Portugal. E aproveito para fazer um agradecimento muito grande ao Rio Ave, porque foi lá que fiz a minha recuperação.

Com a namorada e com o seu pug Ozzy de 4 anos

Com a namorada e com o seu pug Ozzy de 4 anos

D.R.

Quando é chamado pela primeira vez a uma seleção?
Tinha 15 anos, tinha acabo de fazer o torneio Lopes da Silva, na altura fui o melhor jogador desse torneio e logo de seguida fui convocado. Para um torneio de sub-15 em Cabo Verde. Uma alegria imensa porque cheguei a ver dois dos meus irmãos a representar Portugal, nas camadas jovens. Era muito engraçado porque eu não tinha noção do que era a seleção. Eles diziam “vou para a seleção” e para mim significava ir para longe. E uma coisa engraçada que eu fazia, na minha inocência de criança, era pegar num saco, metia-o às costas ia para a paragem do autocarro e dizia que estava à espera do autocarro que ia para a seleção.

Esteve em várias seleções e competições. Qual a que foi mais marcante?
Obviamente, a primeira do Europeu de sub-17, em que fomos campeões, ainda por cima em Portugal, em Viseu. Na altura achávamo-nos os melhores. Mas não quer dizer nada.

Foi uma grande desilusão nunca ter conseguido estrear-se pela seleção principal?
Não chamo grande desilusão, mas confesso que tinha esperança de jogar. Fui chamado uma vez, não cheguei a estrear-me. Obviamente, o facto de ter ido para a Ucrânia dificultou um bocadinho, porque não tem tanta visibilidade.

O que achou do ambiente da seleção?
Algo fantástico ter aquela sensação de estar entre os melhores de Portugal, de estar ao lado do melhor do mundo, o Cristiano Ronaldo. O facto de estar lá é uma sensação muito boa.

Ao longo da carreira qual a maior alegria que teve?
Chegar à final da Liga Europa.

Tem ou teve alguma alcunha?
Na altura da seleção de sub-16, sub-17, chamavam-no o "33" porque na altura eu carregava muito no 'r'. Mas foi uma época, porque deixei de carregar nos "r".

A sua namorada está a trabalhar?
Ela na Ucrânia tirou mais um curso online, de contabilidade. Tem dois cursos, mas não exerce. Assim que chegarmos a Portugal espero que ela consiga.

Filhos?
Ainda não temos. Mas queremos ter, sim. Queremos ter um bocado de estabilidade também.

Não tem nenhuma história que possa partilhar?
Tenho uma memória péssima. Mesmo. Lembro-me de um episódio no meu primeiro ano na Ucrânia, em 2014, quando houve a guerra entre Ucrânia e Rússia por causa do território da Crimeia. Em março tivemos de ir lá jogar para o campeonato, mas não podíamos ir de avião porque o território estava ocupado pela Rússia. A única opção era ir de autocarro durante 8/9 horas, e assim foi. Quando estávamos a entrar no território da Crimeia, havia como que duas fronteiras, uma de soldados ucranianos, tudo muito bem, pacífico, e outra a 1 km de soldados russos, e aí já foi bem diferente. Quando estávamos a aproximar deles, estavam todos encapuzados, colocados em posição de disparar e aquilo intimidou bastante. Em seguida dois ou três soldados entraram no autocarro, encapuzados e armados, e começaram a verificar os passaportes e tudo mais. Foi uma situação um pouco estranha visto que estávamos a fazer um jogo para o nosso campeonato e parecia que íamos para outro país. Nunca mais vou esquecer este episódio peculiar e ao mesmo tempo de algum medo porque nunca me tinha visto numa situação daquelas e nem imaginava vivê-la.