Tribuna Expresso

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A casa às costas

“O Jesus entrou e foi um choque, aos gritos, a mandar vir com toda a gente, ‘já percebi porque estão neste lugar’... E os sócios na bancada”

Nascido e criado em Setúbal onde ainda hoje vive com a mulher e duas filhas, Mário Loja recorda o seu passado no mesmo jeito tímido com que começou a dar os primeiros pontapés na bola. Depois de fazer toda a formação no Vitória onde se tornou profissional, rumou ao Boavista que, segundo ele, ainda lhe deve quase 90.000 euros; passou pelo Beira Mar e voou até Paris, para jogar no Créteil-Lusitanos durante quatro anos, antes de regressar a Portugal. Só desistiu do futebol na época passada, aos 41 anos. E agora ganha a vida como empregado fabril

Alexandra Simões de Abreu

Ana Baião

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É de Setúbal, fale-nos um bocadinho sobre a família onde nasceu.
Tenho uma irmã mais nova, a Filipa. O meu pai trabalhava numa empresa aqui da zona, a Ariston, e a minha mãe era empregada fabril. Nos primeiros anos cresci num bairro em Setúbal e depois fomos viver para a zona da Fonte do Lavra, curiosamente a zona de onde é o Bruno Lage, somos do mesmo bairro.

Conhece-o?
Sim, conheço. Ele tinha um grupinho no bairro, eu tinha o meu, mas falávamos bem e dou-me relativamente bem, tanto com ele, como com o irmão também.

Quando era pequeno tinha alguém na família ligado ao futebol?
O meu pai jogou futebol, mas sempre na distrital, aqui à volta, nada de muito além disso.

Quando era pequenino já dizia que queria ser futebolista?
Para mim, foi logo o futebol porque também acompanhava muito o meu pai, desde pequenino.

Nessa altura torcia por que clube?
Eu gostava muito do Vitória, como é óbvio, mas também tive sempre um gostinho pelo Sporting.

Ídolos?
Duas referências do futebol italiano: o Baresi e o seu colega de equipa, Maldini. Foram sempre dois jogadores que me entusiasmaram.

O futebol começa na rua e no recreio da escola.
Exatamente. Primeiro nas brincadeiras de bairro- jogávamos no bairro - e depois comecei através da escola, a jogar nos campeonatos inter-escolares. Primeiro entre turmas, depois entre escolas e acabei por conhecer uma pessoa que me influenciou a ir para um clube ao lado do Vitória, "Os Pelezinhos".

Com quantos anos?
Muito novinho, devia ter uns seis ou sete anos.

Da escola, gostava?
Nada, nada. Quer dizer, o conceito de escola gostava porque quando ia para a escola, ia ter com os amigos, ia para a brincadeira sempre que havia intervalo; agora, estudar é que não, era terrível.

Era um miúdo tímido e acanhado ou era malandro?
Muito tímido, pouco falava.

Não faltava às aulas para ir jogar futebol?
Não. Até porque os meus pais não me davam muita liberdade para isso.

O primeiro clube que Mário Loja representou foi o C.D. os Pelezinhos

O primeiro clube que Mário Loja representou foi o C.D. os Pelezinhos

D.R.

Quanto tempo esteve n'Os Pelezinhos?
Dois, três anos e depois passei para o Setúbal. Também foi através de uma pessoa com quem tinha amigos em comum. Faziam captações no Vitória e ele convidou-me para lá ir. Possivelmente já estava referenciado, porque, quando cheguei, nem me deixaram passar pelas captações, disseram que não era preciso, que passava para os quadros do escalão em que era inserido, infantis ou iniciados, já não me recordo bem.

Fez a escola até que idade?
Até ter começar a ter mais dificuldade, quando começo a ter estágios de selecção. Era júnior ou juvenil, devia ter uns 16, 17 anos. Nessa altura tinha muitos estágios de seleção e apesar das faltas serem justificadas, comecei a deixar para trás.

Como é que se define a sua posição em campo?
Sempre joguei como defesa central. Como sénior comecei a jogar a lateral esquerdo, a médio defensivo, mas foi basicamente sempre nesses lugares.

Quando se fala nos anos de formação no Setúbal, qual é a memória mais forte que tem desses anos?
O convívio, o conhecer tantos miúdos e pessoas amigas, tínhamos um espírito de grupo muito bom. Eu acho que isso se está a perder um pouco. Naquele tempo, nas camadas jovens, éramos muito unidos, havia outra mentalidade, que se perdeu, penso eu.

Faziam muitas partidas uns aos outros?
Volta e meia havia sempre brincadeiras. Lembro-me que, um dia, íamos para estágio e era a primeira vez para um rapaz que tinha sido convocado. Pedimos a chave do quarto ao colega dele, tirámos tudo do quarto e pusemos no corredor. Mas mesmo tudo, a cama, o colchão... o quarto dele ficou vazio (risos).

Mário Loja (o capitão, com a mão na bola) nos Pelezinhos

Mário Loja (o capitão, com a mão na bola) nos Pelezinhos

D.R.

Começa a ser chamado por quem à equipa principal?
Foi numa altura de transição. Fizemos uma grande época de juniores, estivemos na luta pelo campeonato nacional com o Boavista e foi nesse ano. Subimos cinco, seis juniores da formação do Vitória aos seniores. Foi com o mister Quinito, era ele que estava como treinador dos seniores, chamou-nos, mas acabou por não ser ele a iniciar a época, porque passou a diretor desportivo. Foi o mister Félix Mourinho quem me lançou. Quem começa a época é o Mário Reis se não estou em erro, só que eu chego mais tarde porque tinha ido para a seleção. Quando chego, já o campeonato tinha começado e praticamente não fui utilizado.

Notou muita diferença quando passou dos juniores para os seniores?
Sim. Nos juniores a gente já leva as coisas meio a sério, mas quando chegas a sénior a mudança é radical, leva-se tudo mais ao pormenor e tudo muito mais a sério. Não deixavam nada ao acaso, davam-te pouca liberdade para saíres, para fazeres o que quisesses.

Foi bem recebido?
Os meus colegas que tinham subido a seniores tinham feito a pré-temporada com eles, eu cheguei assim do nada e só os conhecia a eles. Mal entrei no balneário, comecei a cumprimentar, a olhar à volta e pensei, e agora onde é que me vou sentar? Olhei, ninguém me disse nada e sentei-me num banco. Ainda não tinham chegado a maior parte dos jogadores, mas mal me viram sentado começaram: "Eh, estás aí sentado a fazer quê? Não podes estar ai pá, esse é o lugar do Manel, não podes estar aí". Eu, todo tímido, e agora!? Até que estava o Matias num canto, começou a olhar para mim com um olhar muito sério e disse: "Anda cá miúdo. Vais sentar-te aqui ao pé de mim agora". Pensei, desta já me livrei, sentei-me ali e nesse contexto começaram na brincadeira.

Mas nunca lhe fizeram nenhuma partida mais a sério?
Não, tirando aquelas brincadeiras quando estava praticamente o plantel todo e estava bom tempo, havia uma praxe. Com toda a gente ciente do que é que ia acontecer, no final do treino o preparador físico dizia: "Agora uns minutinhos de descontração, em que vocês vão relaxar". E toda a gente se deitava, ficávamos ali de olhos fechados e os que já sabiam iam-se levantando sorrateiramente, saíam e ficavam à entrada do túnel a olhar, até que uns caíam mesmo de cansaço e ficavam ali sozinhos (risos).

Alguma vez acordou sozinho?
Não, eu começava a achar que aquilo já estava a durar muito tempo, abria o olho e começava a ver que já estávamos poucos, levantava-me e também ia embora (riso).

As saídas à noite quando é que começam? Ainda nos juniores?
Sim. Eu saía quando podia e quando me convidavam, porque de resto nunca fui de grandes saídas.

Nunca teve nenhum problema com saídas à noite, nem com adeptos?
Com adeptos tive, numa altura em que tinha saído do Vitória para o Boavista. Nas férias vim cá, como era normal, passava sempre aqui uma parte das férias e numa dessas vezes saí à noite com os amigos e com a namorada. Estávamos num bar, tranquilos, na brincadeira uns com os outros e vieram dois indivíduos que começaram a meter-se comigo, com um tom que não era na brincadeira, até que os meus amigos se aperceberam da situação e acabámos por sair.

Eram pessoas aqui de Setúbal?
Não os conhecia mas penso que sim. Se calhar não viram com bons olhos a minha saída para o Boavista, mas nem percebi muito bem porquê.

E os namoros?
Nunca fui muito de ficar ligado a namoros. Tinha os meus mas nada que... Só a partir dos 18 anos é que comecei a estar mais sossegado, a dar mais importância ao namoro e depois quando a coisa no futebol começou a tornar-se mais séria, comecei também a levar tudo muito mais a sério.

Ainda nos Pelezinhos, Mário Loja com o galhardete na mão

Ainda nos Pelezinhos, Mário Loja com o galhardete na mão

D.R.

Quando é que assina o primeiro contrato?
Ainda não tinha 18 anos, tivemos de fazer um aditamento ao contrato para entrar em vigor quando fizesse os 18 anos.

Lembra-se do primeiro ordenado que ganhou com o futebol?
Lembro-me que foi uma alegria tremenda porque nunca tinha recebido. Nas camadas jovens, o que o Vitória nos pagava era o passe. Por isso, quando recebi o primeiro ordenado foi uma alegria tremenda, mas não me lembro do valor. Deve ter sido pouco mais do que o ordenado mínimo. Comprei um telemóvel. Na altura já se começavam a usar.

Estava a contar que se estreia com o Félix Mourinho.
Sim, eu comecei a época com o Mário Reis, estive três, quatro meses em que era pouco utilizado, depois deu-se a transição: o Mário Rei saiu, veio o Félix Mourinho que era diretor técnico e, como ainda não tinham nada em perspectiva, ele acabou por ficar quatro, cinco jogos à frente da equipa e foi aí que me deu a oportunidade.

Recorda-se do seu primeiro jogo como sénior?
Foi em Braga.

Estava muito nervoso?
Um bocadinho, antes de começar estava ansioso. Já tinha feito alguns jogos como suplente, mas a estreia como titular foi no antigo estádio do Braga.

Correu bem?
Acabámos por perder, mas correu-me bem, a imprensa fez uma crítica positiva. Depois veio o Manuel Fernandes e comecei a jogar com mais regularidade.

Gostou dele?
Gostei muito, como pessoa e como treinador. Cinco estrelas.

Quando faz a primeira renovação de contrato?
Penso que foi a meio do segundo ano.

Continuava a viver em casa dos seus pais?
Sim, só na minha segunda ou terceira época como sénior é que comprei apartamento em Setúbal. Comprei o meu apartamento antes de ficar pronto e pouco tempo antes de assinar contrato com o Boavista.

Antes de irmos ao Boavista, fale-nos um bocadinho das três épocas como sénior no V. Setúbal.
A determinada altura eu e o Frechaut tivemos abordagens e o Vitória sabendo de tudo, deu-nos permissão para falarmos com as pessoas.

Abordagens de quem?
De clubes portugueses, do U. Leiria. O Vitória disse-me que não havia problema, podíamos falar com as pessoas. O meu empresário era o Lucílio Ribeiro. O presidente do U. Leiria disse que tinha muito interesse em que fossemos para lá, mas nós dissemos que não tínhamos muito interesse em ir do Vitória para o Leiria, que a mudança não era assim muito benéfica para nós. E curiosamente ele responde: "Vocês não vêm para aqui não há problema, mas este ano dificilmente se vão manter na primeira liga". Olhámos um para o outro, aquilo ainda tinha sido no início da época. "Não nos vamos manter?!"; "Não, vocês com essa equipa dificilmente se vão manter na I liga" (risos). Aquilo ficou marcado. O curioso é que nessa época até começámos muito mal, mas depois houve ali um jogo do qual me lembro perfeitamente, na Madeira, em que ganhámos e a partir daí, do meio da época mais ou menos, começámos a ir por aí acima e acabámos em 5.º lugar, com o Carlos Cardoso.

Mário Loja (2º à esquerda) já nas camadas de formação do V. Setúbal

Mário Loja (2º à esquerda) já nas camadas de formação do V. Setúbal

D.R.

Na época seguinte ainda iniciam com o Carlos Cardoso mas entretanto vem o Rui Águas e a coisa já não corre tão bem.
Foi outra pessoa com quem gostei muito de trabalhar. Muito sincera, muito honesta.

Com métodos muito diferentes do Cardoso?
Sim, sim. Já um pouco mais atualizado, com um pouco mais de objetividade para o jogo. Totalmente diferente. Também um treinador muito mais jovem do que o Carlos Cardoso. Uma pessoa extremamente fácil de trabalhar, muito aberta e um excelente ser humano.

As coisas não correm bem como Rui Águas que ainda inicia a época seguinte, mas termina com o Jorge Jesus a treinador.
Um choque tremendo. Nós estávamos habituados à maneira do Rui Águas, muito calmo, sereno, mas que quando tinha de nos dizer alguma coisa, dizia. Chegámos a novembro e dá-se a mudança. Aquilo foi...

Um grande impacto?
O impacto foi: mas o que é isto?! O que é que se passa aqui!? Raramente treinávamos dentro do estádio e logo no primeiro treino, tudo para dentro do estádio. Houve a palestra normal, a apresentação, subimos para o relvado e, passado coisa pouca, fazemos um aquecimento de uma meia hora, começamos a fazer exercícios, mas sempre tudo muito intenso. Aqui em Setúbal, a bem ou a mal, temos sempre público a assistir aos jogos e aos treinos, e de um momento para o outro, ele dispara e começa a mandar vir com toda a gente, a dizer coisas do género: "Não admira vocês andarem nesta posição"... mas com uns tons. Nós jogadores ficamos: "Eh pá", logo assim. Aquilo foi um choque tremendo, meteu toda a gente em sentido.

Intimidava?
Intimidava. Foi um choque tremendo para todos, porque não estávamos nada à espera que de um momento para o outro lhe saltasse a tampa e começasse naqueles preparos à frente de toda a gente. Mas depois, com o passar do tempo, começámos a habituar-nos e a ver que aquilo era mesmo o feitio dele, não quer dizer que ele não goste de ti por falar num tom mais agressivo.

Ele também chama os jogadores individualmente para conversar?
Sim, sem dúvida. Há aquele choque, aquele impacto que ele quer criar no grupo, criou esse impacto e depois começou a aperceber-se também dos jogadores que tinha e dos que tinham mais peso dentro do balneário, para falar com eles e explicar-lhes as coisas.

Teve alguma conversa consigo?
Nessa altura não, porque só trabalhei com o Jorge desde novembro até ao final da época. Entretanto, em fevereiro ele soube que eu já tinha assinado contrato promessa com o Boavista e aí ele falou comigo abertamente. Disse-me que já sabia. Eu até lhe disse: "Você sabe, mas eu não sei de nada, sei que há conversas, mas não sei de nada”. E ele: "Mário não vale a pena porque eu sei perfeitamente tudo o que se está a passar contigo e aqui com o clube. As pessoas do Boavista também já falaram comigo, estás à vontade, a conversa fica só entre nós, não há problema."

Vai para o Boavista para melhorar contrato ou estava com algum problema no V. Setúbal?
Estava em final de contrato, eram os meus últimos seis meses e já no início dessa época, sei através do meu empresário, que o Boavista me queria ter levado, só que o Setúbal disse logo que não.

Notou mudança de comportamento do Jorge Jesus para consigo depois de saber que tinha assinado com o Boavista?
Não, disse que se eu mantivesse a minha atitude que não mudaria nada e eu disse-lhe: "Não, a minha atitude vai se manter a mesma. Quer jogue, quer não jogue, vou ser sempre o mesmo". Assim foi.

Mário Loja no dia da entrevista, em Setúbal

Mário Loja no dia da entrevista, em Setúbal

Ana Baião

Quando vai para o Boavista, é a primeira vez que sai da casa dos seus pais?
Exatamente. Isso foi em 2001, tinha 24 anos. À partida ia todo satisfeito, ia para melhor, o Boavista tinha vindo de ser campeão nacional. Fui viver para a casa de um colega meu, o Cândido, o guarda-redes que estava em Setúbal. No segundo ano em que estive lá, acabei por casar.

Com quem?
Com a Sandra. Ela é de Setúbal, conhecemo-nos na escola ainda.

Como foi lidar com o Jaime Pacheco?
Foi positivo. Era um pouco como o Jesus, uma entrega grande ao treino.

Eram treinos mais físicos.
Sim. Uma entrega ao treino tremenda, não havia tempos mortos. Até o simples facto de te darem permissão para ir beber água, tinha de ser "bebe água e vem". O choque no primeiro ano era que, depois dos treinos estava habituado a chegar a casa, ter companhia, ter o almoço, o jantar, bastava chegar a casa e tinha tudo feito. Ali tive de começar a desenrascar-me, a fazer o básico, bifes, massas... Algumas vezes ligava à minha mãe para tirar dúvidas (risos).

Tinha feito contrato por quanto tempo?
Quatro anos. Os primeiros seis meses foram difíceis porque não jogava, a mudança de clube tinha sido muito grande. Ainda por cima o Boavista tinha vindo de ser campeão, aumentou a fasquia da pressão, aumentou tudo.

As saídas à noite era mais complicadas?
Muito complicado, raramente saía, salvo quando tínhamos folgas autorizadas. De resto, pouco saía à noite.

Com quem é que se dava mais?
Tinha um colega meu, o João Paulo, avançado, que tinha estado emprestado no V. Setúbal pelo Boavista. Ele acabou por ficar pelo Boavista, não foi emprestado a mais nenhum clube e tínhamos uma boa relação desde o Setúbal, apoiámo-nos um ao outro. Andava muito com ele.

Mário Loja (o 4ª à esquerda) uma das primeiras convocatórias da seleção nacional

Mário Loja (o 4ª à esquerda) uma das primeiras convocatórias da seleção nacional

D.R.

Na segunda época no Boavista estava a contar que casou.
Exato, comprei apartamento no Porto, pago pelo Boavista. E a Sandra foi viver comigo.

Ela fazia alguma coisa profissionalmente?
Estava a estagiar, tinha acabado de tirar o curso de contabilidade.

Adaptou-se bem à vida de casado?
Muito bem porque nunca fui muito de sair. Logo que tenha a comodidade que acho importante, sou muito caseiro.

Como se dá a sua passagem para o Beira Mar? Ainda tinha contrato com o Boavista.
Sim. Essa época, a minha terceira no Boavista, foi muito desgastante, porque ao nível de competições europeias foi a tal época em que fomos muito longe na Taça UEFA, que agora é a Liga Europa. Fomos às meias-finais, só que no campeonato foi um ano em que estivemos muito mal. Muito mal para o clube e para as ambições do clube. As coisas no campeonato não saíam. Chegámos a um consenso, também já havia muito desgaste porque o Boavista estava a passar por problemas financeiros.

Chegou a ter ordenados em atraso?
Sim.

Quanto tempo ficou sem receber?
Uns dois, três meses. Em Setúbal também já tinha ficado sem receber, mas não senti muito porque alguns de nós tínhamos acabado de subir a sénior e eles foram conscientes porque ganhávamos pouquíssimo comparado com os outros, por isso iam arranjando dinheiro para nos pagar. No Boavista isso já não acontecia, mas como também já ganhava melhor, dava para segurar. Mas foi um ano muito desgastante a esse ponto, começou a haver muitos problemas desportivos e financeiros. E chegamos a um acordo, eu queria sair em definitivo, mas eles disseram que não deixavam, foi-se arrastando, até que eles queriam emprestar-me mas eu disse: "Não, eu quero sair, quero desligar-me do Boavista, quero ir para outro lado". A solução que encontrei foi o Beira Mar.

Rescindiu?
Cheguei a um acordo com o Boavista, disse-lhes: "Tenho mais um ano de contrato mas também não quero abdicar. Vamos chegar a uma acordo". Chegámos a acordo e fui para o Beira Mar.

Foi viver para Aveiro?
No início, não. Tínhamos muitos colegas que eram do Porto, íamos de carro. Cada semana levava um o carro.

Mário Loja (1º à direita) noutra saída pela seleção, ainda nas camadas jovens

Mário Loja (1º à direita) noutra saída pela seleção, ainda nas camadas jovens

D.R.

Essa época no Beira Mar não correu muito bem, tiveram vários treinadores.
O Beira Mar fez uma sociedade com um grupo inglês. Tornou o clube numa SAD e começou logo a haver choque de interesses. Havia jogadores ingleses que não estavam habituados a esta mentalidade e tivemos bastantes problemas.

Tiveram um treinador inglês, o Luís Campos, o Inácio e o Cajuda, certo?
Exatamente. Com o inglês falava pouco com ele. Eu não falava inglês fluente para ter uma conversa com ele, mas gostei da pessoa em si. Só que ele estava habituado a outra mentalidade e era muito complicado aceitar certas coisas e começou a haver ali muito choque de ideias e a relação acabou por deteriorar-se.

Qual era o choque maior, o que é que ele não aceitava?
Havia coisas que ele trazia que se faziam no campeonato inglês, no escocês, mas que não eram hábito cá. Como por exemplo, os estágios, ele queria estágios sempre e quando havia jogos em casa não era costume fazer-se. Concentramo-nos pouco tempo antes do jogo e ele queria mais tempo. E com os jogadores não havia qualquer problema, a direção é que entendia que não.

Depois vem o Luís Campos.
Gostei muito da pessoa, das ideias, só que é o que eu costumo dizer: as pessoas quando são muito boas, muito sinceras, muito frontais e têm uma honestidade muito grande, é difícil singrar no futebol português, é difícil.

É preciso ser-se cínico e duro para ter sucesso?
Sim. Quando estás à vontade e dás a tua opinião sincera, se calhar do outro lado, já estás com outro pensamento, outras ideias e com outros interesses. Há muitos interesses.

A nível de balneário é mais fácil respeitar um treinador ditador, mais agressivo, do que outro?
Sim, mas aí também entra muito o factor resultados. Em Setúbal, o impacto que tive com a mudança do Rui Águas para o Jorge Jesus foi grande, só que os resultados com o Rui Águas não apareciam, porque se tivessem aparecido...

E com o Jesus apareceram?
Começaram a dar frutos e as pessoas começaram, ah assim desta maneira, desta forma… Às vezes é preciso um abanão. Tanto para os jogadores que jogam sempre e estão um pouco mais acomodados, como para aqueles que têm jogado menos, que sentem: "Ah, se calhar isto agora vai mudar".

Mário Loja guarda o cromo com a sua fotografia dos primeiros tempos de sénior, no V. Setúbal

Mário Loja guarda o cromo com a sua fotografia dos primeiros tempos de sénior, no V. Setúbal

D.R.

Vamos voltar ao Beira Mar. Estava a contar que o Luís Campos era demasiado sincero.
O Luís acreditava bastante nas pessoas e se calhar as pessoas em que ele acreditava mais e que lhe davam bastantes opiniões, depois não eram tão sinceras quanto aquilo que ele precisava. Penso que o Luís pagou um pouco por ser muito aberto e acreditar bastante nas pessoas. E no mundo do futebol...

O Inácio não é assim?
Diferente, completamente diferente do Luís Campos, não dava tanta abertura. Dava abertura para falares, mas não muito. Enquanto que com o Luís Campos tínhamos um bom relacionamento, com o Inácio já havia alguma distância.

A nível de treino, muito diferente?
Não, basicamente tinham ambos bons métodos, mas mentalidades diferentes.

E o Cajuda?
O Cajuda dentro do mesmo conceito do Inácio, trabalhávamos fisicamente muito. E depois nas palestras gostava do seu toquezinho filosófico. O problema é que tínhamos muitas nacionalidades. Portugueses, ingleses, africanos que falavam francês e que não compreendiam muito bem o português.

Apanhou algum treinador que tivesse levado as suas superstições para o balneário?
Não. Lembro-me, não sei se era superstição ou não, que o Jesus nos dias de jogos andava sempre vestido de preto.

Depois do Beira Mar vai para França fazer o quê, como e porquê? Não estava satisfeito?
Gostei muito da cidade de Aveiro, das pessoas, mas falei com o meu empresário e disse-lhe: "Eu não estou satisfeito em Portugal. Quero ter uma experiência no estrangeiro". E apareceu um clube francês, com um presidente luso francês, o Armando Lopes, que contactou o meu empresário e as coisas começaram a avançar.

Mário Loja (à direita), então jogador do Boavista, no jogo da 1ª mão da meia final da Taça UEFA contra o Celtic, em 2003

Mário Loja (à direita), então jogador do Boavista, no jogo da 1ª mão da meia final da Taça UEFA contra o Celtic, em 2003

Michael Steele

Foi para o Créteil-Lusitanos.
Sim, estava na segunda liga e o objetivo era subir à primeira.

Foi sozinho?
Fui. A minha mulher estava grávida da Nicole e a acabar um curso de esteticismo. Optámos que ela ficasse no Porto.

Assistiu ao parto da sua filha?
Sim, nessa altura ainda consegui conciliar, foi em fevereiro e foi numa altura que volta e meia o campeonato parava por causa da neve e havia fins de semana em que não jogávamos. Vim cá num fim de semana e a médica falou connosco: "Só conseguimos aguentar até ao próximo fim de semana. Se durante a semana, até quinta, sexta-feira não tiver parto normal, temos de provocar". Passou essa semana toda, não nasceu e marcou-se para domingo.

Que tal ver a sua filha nascer?
Bom, mas muito difícil. Estava muito calor dentro do quarto e eu já por mim detesto ver sangue, faz-me muita confusão, chegou a um ponto em que a médica olhou para mim e perguntou: "Você está a sentir-se bem? Não quer ir lá fora? É que se não vou ter de parar de assistir a sua mulher para o assistir a si porque você vai cair, já está branco. Vá lá fora um bocadinho que já volta a entrar" (risos). E assim foi.

Foi viver para onde?
Fui para França sozinho. Quando cheguei lá, não falava nada de francês. Arranhava um pouco de inglês. Fui para um hotel em que a única pessoa que falava português era o rapaz do bar. Quando ele saía, ou quando estava de folga, eu ficava aflito. Comecei a preocupar-me e comecei a apontar as coisas, sobretudo as comidas. Ao início nem saia do hotel. Era treino, hotel, hotel, treino.

O que fazia?
Via televisão, descansava, depois saia para treinar da parte da tarde. Mas havia um ou outro dia em que não treinava à tarde e comecei a arriscar ir aos shoppings ali próximo. Não percebia nada. Dava por mim a pôr-me ao pé das pessoas que estavam a conversar para ver se conseguia apanhar qualquer coisa. Acabei por comprar um dicionário português-francês. Apontava tudo. E aos poucos fui aprendendo.

Correu-lhe bem a época?
Sim, joguei a época toda. Eles queriam que eu fizesse contrato por mais anos, mas eu disse que não e só assinei por um ano.

O que o fez ficar?
Foram as pessoas e a ambição que eles tinham. Nesse primeiro ano as coisas correram muito bem tanto para o clube como para mim. Ficámos em 3.º ou 4.º lugar e a meio da época propuseram-me renovar. Eu gostei daqueles seis meses e renovei por mais três anos. Depois a família foi ter comigo.

 Mário Loja (à direita), enquanto jogador do Beira Mar, a disputar uma bola com João Moutinho do Sporing, em 2005

Mário Loja (à direita), enquanto jogador do Beira Mar, a disputar uma bola com João Moutinho do Sporing, em 2005

FRANCISCO LEONG

No segundo ano tem o Artur Jorge como treinador.
Sim. Mas não foi de início, foi a meio da época.

Que tal?
Uma figura. Tanto ele como o adjunto dele, o Raúl Águas. Umas figuras.

O que quer dizer com isso? Tente caracterizar.
O Artur Jorge muito no mundo dele. Vivia mesmo num mundo dele. Para se ter uma ideia conto um episódio. Ele marcava os treinos para a semana e houve um dia em que não havia treino de manhã, só havia da parte da tarde. Não é que ele nesse dia apareceu no estádio de manhã? Estava lá o roupeiro a tratar da roupa e ele chegou ao pé dele, começou a olhar para o relógio, e passado um bocado virou-se para o roupeiro e... "Olha lá. Então?"; "Então? Então o quê?"; "Então onde é que estão os jogadores?"; "Os jogadores, mister? Mister, mas você marcou treino só para a tarde e está-me a perguntar pelo treino? Ainda é de manhã"; "Eu marquei treino para a tarde? Eh pá, pois é, a minha cabeça". Coisas assim. O roupeiro, como era português, vinha contar-nos. Mesmo o próprio Raul Águas também era curioso. Tinha coisas que nos dizia, mas depois dizia de forma completamente diferente a outros colegas nossos. Aquilo foi um pandemónio, muita confusão.

Descem de divisão.
Acabámos por descer porque no conceito do presidente tinha ido buscar uma pessoa que conhecia muito o futebol francês. Mas o Artur Jorge esteve alguns anos no Paris Saint-Germain, mas depois o contacto que ele tinha com o futebol francês foi a nível de seleções. E passava um bocado ao lado do que era o campeonato, ainda para mais a II liga francesa. Não tinha grande noção do que era o futebol francês em concreto. Mesmo os próprios jogadores conheciam o Artur Jorge, mas era o nome em si e o que tinha feito e como era visto, de resto não tinha grande noção.

Nas duas épocas a seguir o que há de interessante?
O conceito do presidente era tentar levar jogadores que tinham algum estatuto em Portugal e com isso conseguir com que o clube ganhasse algum estofo. O que acabou por não acontecer, porque muitos dos jogadores que foram para lá não se adaptaram.

Porquê?
Para já, o clima é muito diferente. É um futebol muito característico, muito físico. Eu adaptei-me bem, mas os jogadores mais tecnicistas tinham muita dificuldade. Também iam com a ideia de que começavam logo a jogar e não acontecia assim; depois, tinham bastantes problemas por causa do francês, era difícil a comunicação; eram vários fatores.

O que gostou mais e menos nesses anos em França?
Adorei a cultura deles. Gosto muito de aprender e de adaptar-me. As coisas mais simples, a maneira como vivem. Em Portugal, por exemplo, saímos do treino, vamos almoçar com os colegas, e lá também se passa isso, mas depois à noite, pouco ou nada tem de distrações. A mentalidade é diferente. Eu em Portugal tive ordenados em atraso, no Boavista cheguei a ter ordenados em atraso e cheguei lá, no primeiro ano, não houve ordenados em atraso e no ano a seguir aconteceu uma coisa curiosa. Eu já falava alguma coisa, mas ler francês era difícil e há um dia em que chegamos ao balneário e todos temos uma carta do clube.

O que dizia?
Abri, estava escrito em francês. E agora? Tinha pouca coisa escrita e ao meu lado estava o meu colega português Rui Pataca. Ele explicou-me. Normalmente recebemos três, quatro dias antes do final do mês e nesse mês só recebemos praticamente no último dia. Nessa carta estavam a pedir desculpa. Eu fiquei: "A pedir desculpa?". Até pensei que ele estava a gozar comigo. Mas era a sério, estavam a pedir desculpa pelo atraso e a explicar que se deveu ao simples facto da senhora que tratava de enviar os pagamentos para os bancos ter adoecido dois dias. Alguma vez em Portugal te dizem alguma coisa? Nem quando tens um mês de ordenado em atraso eles te dizem alguma coisa... (risos) Foi uma das coisas que mais me marcou.

Chegou alguma vez a ter ordenados em atraso em França?
Nunca. Até porque a lei não permite. Ou melhor, podem ter mas chega ao final da época ou têm tudo liquidado ou não podem continuar a competir. Há comissões que vão verificar e não querem saber se é o PSG, o Marselha, este ou aquele. É igual para todos os clubes.

Tem mais filhos?
Tenho mais uma filha, a Alicia, que nasceu há três anos.

Com a mulher e filhas

Com a mulher e filhas

D.R.

Vem embora de França porquê?
Na altura, o presidente português começou a perder força porque os jogadores portugueses que tinha levado para lá não se afirmavam e começou a haver um choque. O presidente da câmara também estava dentro do clube e tinha um poder muito forte e começou a haver divergências e os portugueses começaram a perder força. Comecei a aperceber-me e pensei que se calhar estava na altura de regressar e estabilizar em Portugal. Viemos de férias e havia colegas que tinham estado comigo em Setúbal e que tinham abraçado o projeto do Arouca, que tinha um plano para subir de divisão. Achei interessante, também estava lá um treinador com quem eu falava às vezes, o Secretário.

O que achou do Secretário como treinador?
Gostei dele. Também pelo facto de ter sido jogador e de ter deixado há pouco tempo ainda tinha muita abertura com os jogadores, dava algum espaço de manobra. Gostei bastante de trabalhar com ele.

Viveu onde nesse período?
Primeiro vivi em Arouca durante um tempo, sozinho, a família ficou em Setúbal. Depois acabei por ir para Santa Maria da Feira porque havia colegas que vinham de lá. E, como pouco se passava em Arouca, fui para lá. Era relativamente perto e aí já foi a família. A meio da época saiu o Secretário e entrou um treinador, Henrique Nunes, continuei a jogar e acabámos por subir de divisão. Na parte final houve atitudes do treinador que eu não gostava.

Que tipo de atitudes?
Atitudes dele. O próprio adjunto chegava o pé de mim e dizia: "Mário tem calma, isto é mesmo o feitio dele". Mas ele não podia ver só o lado dele, porque somos pessoas e nem ele tem sempre razão, nem os outros têm sempre razão. Disse ao presidente que se ele continuasse na época seguinte, a mim não me interessava continuar porque tínhamos ideias diferentes e ele não aceitava que tivéssemos outras opiniões, levava sempre para o lado negativo. Acabei por subir de divisão e vir embora.

Mário Loja jogou no Créteil-Lusitanos de França de 2005 a 2009

Mário Loja jogou no Créteil-Lusitanos de França de 2005 a 2009

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Foi para o Boavista.
Sim, estive lá um ano e meio.

Porquê só ano e meio?
No primeiro ano as coisas correram bem porque fui para o Boavista através de pessoas que já conhecia, com quem me identificava e que me convidaram, nomeadamente o Rémulo Marques. Ele falou comigo. Mas isto surgiu tudo porque eu tenho um processo contra o Boavista do ano em que lá estive porque eles não pagaram nada do acordo que fizemos. Um acumular de ordenados e prémios desse último ano, em que tínhamos chegado a um acordo, em que eles ficaram de pagar um X por mês e não pagaram nada. Ainda está em tribunal. Ele convidou-me e disse que só podiam pagar X, mas que pagavam um bocadinho mais para ir amortizando a dívida. Eu alertei-o, disse que não estava para ir para lá para aumentarem a dívida. "Mário, podes estar descansado neste primeiro ano eu tenho as coisas todas orientadas e chegas ao fim e recebas o que tens a receber". Esse ano foi impecável, não tivemos problemas nenhuns.

Começaram a falhar no ano seguinte?
No ano seguinte, ele quis que eu lá ficasse e eu fiquei, mas voltei a avisá-lo: "Isto mantém-se. No dia em que começarem a falhar ao segundo mês, vou ter contigo e vou-me embora". Assim foi. Chegou a meio da época, comecei a ver o arrastar das coisas, começaram a pagar meio mês...E quando fez dois meses e não me pagaram tudo o que deviam, falei com ele e vim embora. A família já tinha vindo para baixo.

Estava com que idade?
33 anos, salvo erro. Vim para baixo em dezembro, para Setúbal. Até que apareceu o Vendas Novas, que jogava o campeonato nacional e que me convidou. Fiz o resto da época lá.

Na época seguinte vai para o Alcochetense.
Sim, o Vendas Novas era um pouco longe de Setúbal, ainda por cima só treinávamos ao final do dia.

O que fazia durante o dia?
Nessa altura ainda não fazia nada. A minha mulher trabalhava.

Também só lá fica uma época.
Sim, porque eles queriam subir de divisão mas as pessoas com quem eu fui para lá também deixaram o clube no final dessa época e como eu não conhecia ninguém que lá ia ficar a nível diretivo, decidi vir embora.

Em 2015/16 Mário Loja foi campeão distrital pelo Fabril do Barreiro

Em 2015/16 Mário Loja foi campeão distrital pelo Fabril do Barreiro

D.R.

Segue-se o Fabril do Barreiro onde esteve quatro anos.
Tinha colegas aqui de Setúbal que me convenceram a ir para lá. Um clube com muito boas condições, as pessoas impecáveis, que cumpriam com aquilo que oferecia.

Mas aí já há uma diferença de salário muito grande.
Sim, já. Mesmo quando vim lá de cima do Boavista no segundo ano para o Vendas Novas já havia uma diferença grande e começas a pensar e percebes que é mais pelo gosto do futebol.

Quando vem do Boavista nunca lhe passou pela cabeça parar nessa altura?
Não, pelo gosto, o bichinho que tens pela competição, pelo convívio que tens com as pessoas.

Só deixou de jogar completamente a época passada, aos 41 anos.
Sim. A nível familiar comecei a sentir que precisava de mais tempo para estar com as minhas filhas e a minha mulher. Como estava no campeonato nacional, no Fabril, no Vendas Novas, as viagens eram muito mais longas e os fins de semana eram praticamente todos fora. Ou seja, quando poderíamos estar completos a nível familiar, eu saía. Já não bastava quando era profissional, agora também. E comecei a ver, a nível financeiro, não me dava muito e estava a perder a educação das minhas filhas e do acompanhamento que elas precisam nesta altura está-me a passar um pouco ao lado.

Não lhe custou pendurar as botas?
Não. Quer dizer, custou-me um pouco a parte do balneário porque o convívio de ires para o balneário, as brincadeiras, o gosto de treinar, dos jogos, da competição, isso está sempre lá. Só que depois, olhas, ao final da tarde teres de estar a sair de casa para ir treinar, ao fim de semana, em que podes estar com a tua família, teres de sair...

Ao longo dos anos teve alguma lesão mais grave?
Fraturei a clavícula no meu segundo ano do Boavista.

Ana Baião

Já sabia ao que queria fazer depois de deixar o futebol?
Não. Mesmo hoje, tendo deixado de jogar futebol há um ano, penso, será que me apetece estar no futebol?

Preparou o seu futuro? Neste momento vive do quê, de investimentos?
Tenho uns terrenos e um apartamento que estão arrendados. Mas depois pensei que precisava de fazer alguma coisa, de me ocupar com alguma coisa. Pensei ficar no futebol, no meu último clube, o Comércio e Indústria, e até me convidaram para abraçar o projeto de treinador-adjunto porque tenho o primeiro e segundo níveis do curso. Só que, depois, comecei a pensar: para seres adjunto tens de o ser de uma pessoa que conheças minimamente e cujas ideias sejam semelhantes. Como eu não conhecia de lado nenhum a pessoa que ia ficar como treinador e, como o segundo ano tinha sido muito desgastante, decidi não arriscar.

Está a fazer alguma coisa?
Estou a trabalhar numa empresa de produtos agrícolas, que não tem nada a ver com o futebol. Sou empregado fabril. É algo que me mantém ocupado. Não quero dizer que goste, porque gostar, gostava de ficar ligado ao futebol, como é óbvio, mas o mundo de futebol hoje em dia... Será que o meu feitio se adaptava a certas ideias e mentalidades?

É empregado fabril por necessidade?
Basicamente, não era por grande necessidade de dinheiro, mas também. Porque depois vi o arrastar de uma situação... Eu pensei que as pessoas, quando precisaram que eu libertasse a ação que tinha contra o Boavista de modo que pudesse continuar a competir, depois também... Esse é o mal, eu acredito muito nas pessoas. Eu libertei a ação para que pudessem inscrever-se, disseram que iam continuar a pagar e afinal...Tive de entrar com outra ação. Até que eles conseguiram fazer este tal plano de revitalização de empresas e penso que estão num período de carência em que não posso fazer nada.

Quanto dinheiro é que o Boavista lhe deve?
Há três, quatro anos, eram cerca de 80 a 90 mil euros. Com o arrastar do caso e a ver que a coisa não se vai resolver tão brevemente por causa do país em que estamos e da justiça que temos, resolvi começar a trabalhar.

Mário Loja (à direita) subiu de divisão com o Comércio e Indústria, no seu último ano de futebolista

Mário Loja (à direita) subiu de divisão com o Comércio e Indústria, no seu último ano de futebolista

D.R.

Onde ganhou mais dinheiro?
Boavista e França.

Acredita em Deus?
Certas alturas...Não muito.

E superstições?
Quando jogava benzia-me sempre à entrada do campo e a saída. De resto mais nada.

Qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Sporting.

Nunca foi chamado à seleção A. Essa é a sua maior frustração no futebol?
Até tive um episódio curioso. Não sei se tive pouca sorte ou não. Foi na minha segunda época no Boavista, em 2002/03. O Ricardo, guarda redes que era assíduo na seleção, é do Montijo, nós falávamos muito e chegou a dizer-me: "Mário, o António Oliveira já me perguntou por ti, como estavas, possivelmente podes ser chamado na próxima convocatória, se continuares a jogar com regularidade". Passada uma ou duas convocatórias, o António Oliveira sai da seleção. E pronto, nunca mais. Mas não penso nisso como frustração.

E a maior alegria?
Tornar-me profissional foi uma das maiores alegrias. Se calhar ser internacional também. Passar pelas camadas jovens portuguesas foi um momento de grande felicidade.

Tem alguma alcunha ou teve?
Na seleção por vezes chamavam-me "o silencioso" porque era muito tímido e falava pouco (risos).

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Ter comprado um Audi Q7. Comprei-o em França. Quando vim, como o estilo de vida já não se adequava, acabei por vendê-lo.

Qual o maior arrependimento?
Não penso muito nisso. Na altura em que estava aqui em Setúbal, recebi o telefonema de um advogado a que não liguei. Passados uns anos ele abordou-me e disse: "Mário, lembras-te de uma altura que uma pessoa te telefonou a perguntar se tinhas empresário e se querias deixar o teu empresário porque tinha um clube grande para ti?"; "Por acaso lembro-me; "Essa pessoa sou eu, fui eu que te liguei, tive contacto com pessoas do Sporting que pediram para entrar em contacto contigo porque eles na altura não trabalhavam nem faziam negócios com o teu empresário. Eu disse-te que, se quisesses rescindir com ele, assinavas por um grande clube". Ele na altura não me disse que esse clube era o Sporting. Das coisas que me arrependeria foi não ter aceitado que ele tratasse do processo de rescisão com o meu empresário.

Tem tatuagens?
Tenho com os nomes das minhas filhas. Só.