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A casa às costas

“No Sporting, apostámos com o Paulinho: aguentar o máximo no banho gelado, só com a cabeça de fora. Ganhou, mas rebentou-se todo com febre”

Diogo Salomão, 31 anos, está desde o início deste ano no Santa Clara, onde diz ter encontrado uma família. A formação foi feita nos clubes perto de casa, Estrela de Amadora, Damaiense e Casa Pia, antes de chegar ao Sporting onde nunca conseguiu afirmar-se. Foi em Espanha que mais jogou, no Deportivo da Corunha e no Maiorca, antes de voar para a Roménia onde representou o Dínamo de Bucareste e o Steaua, com uma passagem pela Arábia Saudita. Com a liga parada por causa do coronavírus, diz que a saúde é mais importante do que o futebol e por isso aconselha todos a seguirem à risca os conselhos dados pelas autoridades de saúde e pelo governo

Alexandra Simões de Abreu

Manuel Queimadelos Alonso

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Nasceu na Amadora, cresceu na Reboleira, mas chegou a ser chamado pela seleção da Guiné, certo?
Sim, o meu pai é guineense. Toda a minha família paterna é de Cabo Verde, os meus avós eram enfermeiros em Cabo Verde, tiveram uma oportunidade de trabalho na Guiné, mudaram-se para lá e, por isso, o meu pai e os meus quatro tios nasceram na Guiné. Depois, com a guerra, vieram para Portugal. A minha mãe é portuguesa, da Amadora.

Tem irmãos?
Sou filho único.

O que faziam os seus pais profissionalmente?
O meu pai era técnico de higiene e segurança da limpeza, e a minha mãe trabalha na fábrica de rebuçados do Dr. Bayard.

Alguma vez foi à Guiné?
Não. Já estive em Cabo Verde, ainda não tive oportunidade de ir à Guiné, mas quero conhecer.

Tinha alguém na família ligado ao futebol?
Tanto o meu pai como alguns dos meus tios jogaram no Estrela da Amadora, até aos juniores. Só um tio, o meu tio Carlos, o mais novo dos irmãos, é que chegou a ser campeão no Estrela, pelos juniores. Eu quis seguir o caminho deles porque sempre gostei de futebol e porque fui influenciado, é uma família que gosta bastante de futebol.

Quando era pequenino torcia por que clube?
Para ser sincero, o primeiro clube pelo qual torci foi o Estrela. Mais tarde há sempre aquela situação de termos de escolher um dos grandes e a maior parte da família é benfiquista. Acabei por seguir o caminho deles. Sempre fui adepto do Benfica apesar de mais tarde ter tido oportunidade de jogar no Sporting. Mas são situações distintas, dei o melhor, sempre, e nós queremos ser jogadores antes de sermos adeptos.

Sempre quis ser jogador de futebol?
Sim. Nunca tive um plano B, como se costuma dizer. Tinha que dar certo, desse por onde desse. Acabei por ter alguma sorte. Hoje já tenho uma carreira boa e um percurso interessante, com um esforço enorme da minha parte e alguns sacrifícios.

O futebol começou em casa, ou melhor, na rua com os amigos?
Sim. No início dos anos 90 os pais deixavam os miúdos brincar na rua e naquela zona éramos muitos. Comecei a dar os primeiros toques com os amigos da rua, ainda antes dos seis anos. E alguns deles é que falaram comigo para ir jogar à bola ao Estrela. Primeiro, tinha de falar com os meus pais. Foi assim que surgiu. Cheguei a casa e pedi aos meus pais para me inscrever no Estrela.

Diogo Salomão em criança

Diogo Salomão em criança

D.R.

Vai para o Estrela logo aos seis anos?
Sim, era a idade mínima com que se podia entrar. Foi em 1994, na altura ainda não havia competição, só havia treinos. Eu estava num ATL na Reboleira, lembro-me que os meus pais trabalhavam e as educadoras deixavam-me sair. Tive de decorar o caminho desde o ATL para os treinos. Ia a correr, porque ia sozinho, mas era uma alegria porque sabia que ia treinar.

Quem eram os seus ídolos?
O principal era Ronaldo, o Fenómeno. Era aquele jogador que pelo qual eu perdia tempo a ver os jogos e que admirava bastante. Era completamente vidrado, não perdi um jogo do Brasil no Mundial de 1998 à pala dele, porque queria seguir tudo o que fazia, fascinava-me.

E a escola?
Digamos que nunca fui mau aluno. Perdi-me um bocado mais para a frente, na altura em que tive de fazer algumas escolhas, também por causa do futebol. Mas acho que tinha alguma facilidade se quisesse continuar. Podia pelo menos ter feito o 12.º ano, mas fiquei só com 10.º ano. Quando entrei para o 10.º ano perdi um bocadinho o rumo e deixei a escola para segundo plano, que é uma das coisas mais importantes. Mas pronto, faz parte da vida, fiz algumas coisas menos corretas também... A juventude é um bocado complicada e em algumas zonas da Amadora pode ser ainda mais complicado. Tive momentos menos bons em que deixei a escola para segundo plano e não o devia ter feito.

Faltava às aulas para ir vadiar, namorar…
A maior parte das vezes era para estar na rua com amigos ou simplesmente para jogar à bola.

Isso coincide com a fase que foi para o Damaiense?
Eu fui para o Damaiense com 13 anos.

Porquê?
Tinha chegado à fase de iniciados no Estrela, era muito pequenino, ainda não tinha dado aquele salto físico e havia uma diferença enorme para os outros. Lembro-me de chegar ao Damaiense com 13 anos e tinha 35 kg (risos). Era pequenino e magrinho. Nessa fase faz muita diferença, porque há miúdos com 14, 15 anos que estão completamente desenvolvidos e nota-se muito a nível de jogo também. Essa foi uma das razões por que tive dificuldade em continuar no Estrela, na altura. Lembro-me de fazer treinos em três clubes ao mesmo tempo porque o que eu queria era jogar.

Foi o Estrela que lhe disse que era melhor procurar outro clube?
Sim. Cheguei a ser dispensado. O treinador disse que não contavam comigo, que procurasse outra solução. A solução mais fácil para mim era o Damaiense, que ficava ao lado de casa. Estive lá três anos.

Diogo com a mãe

Diogo com a mãe

D.R.

Regressa ao Estrela como?
Regresso como juvenil de 2.º ano, se não estou em erro. Porque eu continuei a fazer sempre treinos de captações. Eu era ambicioso e procurei sempre soluções melhores, mas tinha de ser perto de casa. O Casa Pia e o Cacém eram clubes onde podia chegar de transportes ou a pé. O Estrela, estando mesmo ao lado de casa e tendo jogado lá, foi um daqueles onde tentei sempre fazer as captações, mesmo estando no Damaiense.

Consegue regressar ao Estrela e fica lá mais dois anos.
Exato. Depois vem a fase de juniores. Quando era júnior de primeiro ano tive dificuldade em jogar, não fiz muitos jogos. Fui convocado quatro vezes essa época, foi o primeiro ano do Paulo Fonseca como treinador, no Estrela. Ele tinha sido lá jogador. Praticamente não joguei e voltei a procurar a minha sorte num outro clube. Nessa época cheguei a fazer treinos em três clubes: No Atlético, no Casa Pia e no Belenenses. Estive nos três a treinar ao mesmo tempo, em que praticamente saía de um treino e metia-me noutro. Acabava o dia completamente roto (risso). Mas era a ambição que eu tinha.

Segue-se o Casa Pia.
Sim, fui para lá nos juniores de segundo ano, com 17 anos.

Já havia namoros nessa altura?
Sim, foi por volta dessa altura que comecei a deixar um bocado mais a bola (risos).

É no Casa Pia que se estreia como sénior.
Sim, fiz o segundo ano de júnior e dois anos como sénior. O treinador dos juniores, o José Viriato, teve a oportunidade de treinar a equipa principal e pegou em alguns miúdos dos juniores, de quem já gostava, e deu-lhes oportunidade de jogar na equipa sénior. Fiz os meus dois primeiros anos de sénior ainda na distrital.

Nessa altura quais eram os seus sonhos, o que ambicionava?
Para ser sincero nesse momento... O meu pai e a minha mãe sempre tiveram uma vida, digamos, tranquila. O meu objetivo era poder viver do futebol com as condições que eles tinham e com que eu cresci. Poder ter as mesmas condições fazendo aquilo de que gostava, jogar futebol, era basicamente o meu sonho. Claro que os sonhos vão-se ajustando ao longo do caminho. Quando somos mais novos queremos ser o Maradona, o Pelé, os melhores do mundo; e depois vamos ajustando conforme vamos fazendo o nosso percurso, as nossas condições e até as nossas limitações.

Quando começa a ganhar dinheiro com o futebol? Qual o seu primeiro ordenado?
O meu primeiro contrato foi no Casa Pia. Foi a primeira retribuição daquilo que era o meu trabalho, eram 100 euros.

Lembra-se do que fez a esse dinheiro?
Comprei um par de ténis, sem dúvida (risos). Gostava muito. Também não dava para muita coisa (risos). E depois foi a carta de condução. Foi das primeiras coisas em que gastei os primeiros salários.

Diogo (2º em baixo à direita) no Estrela da Amadora, clube onde iniciou a sua formação

Diogo (2º em baixo à direita) no Estrela da Amadora, clube onde iniciou a sua formação

D.R.

Com 20 anos estava no Casa Pia. Ainda acreditava que ia chegar a um dos grandes e fazer a carreira que acabou por fazer ou houver algum período em que esmoreceu e pensou que não era o jogador que achava que era?
Quando comecei como sénior no Casa Pia, estando na distrital, um nível muito longe do profissional, sabia que ainda tinha uma margem de progressão muito grande, mas também tinha noção de onde estava, sem querer tirar o mérito ao Casa Pia que é um grande clube. A situação desportiva naquela altura não era a melhor. Eu tinha o sonho de jogar a nível profissional, poder viver apenas do futebol, e transmiti também esse sonho aos meus amigos em conversas, que achava que ainda conseguia chegar a um clube importante em Portugal. Foi tudo muito rápido de estar nessa situação no Casa Pia até chegar ao Sporting. Foram apenas dois anos.

Mas pelo meio ainda vai para o Real Massamá.
Sim. Houve alguns problemas com o Casa Pia que não quero expor muito, o Casa Pia sempre foi um clube que me tratou muito bem, mas na fase final houve ali umas complicações e eu decidi sair. Estava no meu direito e não quis continuar. Decidi procurar outra solução e as duas soluções que apareceram foram o Estrela da Amadora, novamente, e o Real de Massamá.

Porque se decidiu pelo Real Massmá?
Aí já foi por causa da situação dos clubes. O Estrela estava com muitos problemas, pedi informações a jogadores que estavam lá e havia bastantes problemas com pagamentos e tudo isso era importante para mim naquela altura, porque tinha algumas despesas, tinha comprado o meu primeiro carro.

Qual foi o carro?
Um Seat Ibiza branco. Tinha esses encargos e não quis arriscar porque sabia que a situação não estava muito famosa. Foi uma decisão correta porque o Estrela acabou nesse ano e muitos jogadores tiveram problemas. O Bebé, por exemplo, esteve lá nesse ano, em 2010, depois teve a sorte de conseguir dar o salto e ainda bem.

No Real Massamá encontra o Fábio Paim, que chegou a ser considerado uma das maiores promessas do futebol português. Com que ideia ficou dele?
Eu já conhecia o Fábio Paim há muitos anos, porque ele é da minha geração e já nos tínhamos defrontado bastantes vezes, principalmente nos jogos E.Amadora-Sporting, na altura em que ele estava no Sporting. Posso dizer que, dos jogadores que defrontei na formação, ele foi sem dúvida o que mais me impressionou. Era incrível o que ele fazia dentro de campo. Parecia muito fácil para ele em comparação com a dificuldade que era para nós. Era um talento indiscutível, mas que foi perdendo protagonismo no futebol, porque foi tendo algumas decisões complicadas na sua vida. Mas mesmo quando no Real Massamá em que tive oportunidade de jogar com ele na mesma equipa, era um jogador que se notava diferença no toque de bola. Isso ele não perdeu, apenas estava noutras condições a nível psicológico e físico. Já não era aquele Fábio que fazia tanta diferença, mas que continuava a ter qualidades acima da média.

Diogo no Estrela da Amadora

Diogo no Estrela da Amadora

D.R.

Como é que foi parar ao Sporting? Tinha empresário?
O meu primeiro empresário foi o Paulo Barbosa, numa altura em que ainda estava no Casa Pia. Fizemos um contrato de dois anos. Acabou o contrato, não apareceu nada da parte dele, não houve nenhuma transferência e, quando fui para o Real Massamá, havia um protocolo com o Sporting, daí ter apanhado lá vários jogadores emprestados do Sporting. Ao fim de um ano de estar no Massamá, onde as coisas correram bastante bem, o diretor desportivo, o Luís Neves, falou-me do interesse da Gestifute. Disse-me que andavam a observar os jogos e estavam a gostar de mim e que, da parte do Sporting, também andavam atentos, podia haver alguma possibilidade de ir para Alvalade caso as coisas continuassem a correr bem.

Assinou contrato com a Gestifute e foi para Alvalade, é isso?
Exatamente. Assino contrato e passados uns meses estava no Sporting, numa operação que foi meio atribulada porque o diretor desportivo do Sporting era o Sá Pinto. Eu estava em casa de férias, as coisas estavam mais ou menos acertadas e durante as férias deu-se aquele caso do Sá Pinto com o Liedson. Houve uma confusão qualquer no balneário, já não me lembro bem como é que foi a história, em que o Sá Pinto acaba despedido. Estava em casa a ver as notícias e pensava que aquilo ia dar torto para o meu lado, que de alguma forma pudesse influenciar a minha ida para lá. Mas não. Foi o Costinha a seguir que acabou por pegar no processo e ligou-me para fazermos contrato.

Lembra-se como foi a emoção de entrar no balneário do Sporting a primeira vez?
No primeiro dia fui com o João Camacho, que trabalha na Gestifute, e foi um choque para mim porque não estava habituado aquele tipo de condições, são condições brutais que qualquer jogador procura e deseja. Foi um choque também de balneário quando vi os colegas com quem estava, colegas que estava habituado a ver só na televisão e passar a partilhar balneário com eles era...

Receberam-o bem, fizeram alguma praxe, houve algum que tenha tido um palavra diferente?
Fui bem recebido. Praticamente não conhecia ninguém. Apenas o André Santos, com quem já tinha estado nos sub-21. Ele foi o que me recebeu melhor e quem mais me ajudou. Não houve nenhuma praxe, mas foram momentos de adaptação difíceis, porque é uma realidade completamente diferente daquilo a que estava habituado.

A que lhe custou mais a habituar?
À disciplina, às regras e à exigência daquele nível que é completamente diferente de clubes que estão por exemplo na IIB. É uma outra realidade, a exigência é muito maior, puxam muito mais por nós e há que estar sempre a 100%.

A equipa do Damaiense para onde Diogo (2º em baixo à direita) foi jogar com 13 anos

A equipa do Damaiense para onde Diogo (2º em baixo à direita) foi jogar com 13 anos

D.R.

Quando chega a Alvalade o treinador é o Paulo Sérgio. É ele que lhe proporciona a estreia no Sporting?
Exato. Quando assinei contrato o objetivo primeiro deles era emprestar-me para a Bélgica, estive para ir para o Cercle Brugge, onde estavam vários jogadores emprestados do Sporting. Era para ser emprestado por um ano para poder crescer e ganhar experiência e adaptar-me a um campeonato mais competitivo. Tive essa conversa com o Costinha, mas eu estava tão fixado e a minha ambição de poder vingar no Sporting era tão grande que lhe disse-lhe: "Acho que tenho qualidade para ficar nesta equipa. Deixa-me treinar, pede ao treinador para fazer nem que seja duas semanas de treino e, depois, se ele não gostar de mim, vocês podem mandar-me para a Bélgica". Isto demonstra a ambição e vontade que tinha de ficar ali.

E ficou.
Primeiramente ficaram boquiabertos, porque não estavam à espera de uma reação dessas da minha parte (risos). Mas lá me deixaram ficar a treinar e a verdade é que as coisas correram muito bem e acabei por ficar o ano todo.

Quando faz a sua estreia, contra quem?
O primeiro jogo oficial que tive oportunidade de jogar foi com o Nacional da Madeira, um jogo em casa, que empatámos. Entrei e ainda atirei uma bola ao poste. Foi uma boa estreia.

Estava muito nervoso, tremeram-lhe as pernas?
Isso aconteceu mais no jogo de apresentação aos sócios. Não era jogo oficial, mas foi um jogo com Lyon e foi mais pelo facto de ter tanta gente no estádio. Outra coisa a que não estava habituado. O máximo de público que tinha tido.... umas 500 pessoas. E nesse jogo de apresentação estariam quase 30.000 pessoas, é uma sensação estranha. O medo de errar, o nervosismo apoderou-se de mim e senti um bocado as pernas bambas ao início. Mas depois a coisa lá foi andando e ainda deu para uma assistência para o Djaló fazer o golo.

Entretanto sai o Paulo Sergio e vem o José Couceiro.
Sim, estive com o Couceiro só durante um mês. Mas foi um treinador que chegou com processos simples. Estávamos na luta pelo 3.º lugar, havia aquela disputa com o SC Braga ainda a nível pontual e acabámos por garantir o 3º lugar, já em Braga, no últimos jogo que ganhámos 1-0, com golo do Djaló. O Couceiro chegou com um discurso muito prático, com processos simples a nível de jogo e era o que precisávamos naquele momento para podermos finalizar a época da melhor forma.

Preferiu o Couceiro ao Paulo Sérgio?
Não, tudo o que tenho a dizer sobre o Paulo Sérgio é positivo. Aliás foi com ele que cheguei a fazer 17 jogos como titular nesse ano. Foi um treinador que, apesar de tudo, e sabemos a dificuldade que há às vezes em apostar num jogador como eu, que vinha de uma IIB, em que não tinha nome nenhum no campeonato português; a dificuldade é enorme em apostar nesse tipo de jogadores e ele deu-me total confiança. Era um treinador também bastante bom, sem dúvida, e que está a ter uma carreira interessante. A meu ver terá sempre boas equipas interessadas nele porque é um treinador com qualidade.

No Casa Pia, onde se tornou sénior. Diogo é o 2º em baixo à esquerda

No Casa Pia, onde se tornou sénior. Diogo é o 2º em baixo à esquerda

D.R.

Na época seguinte vai emprestado para o Deportivo da Corunha. Torceu o nariz quando lhe disseram?
A minha vontade era ter continuado. Como disse, fiz 17 jogos a a titular e ainda cheguei a fazer quatro ou cinco golos. A meu ver foi uma época bastante positiva para mim, porque não é fácil para quem chega de um Real Massamá, de uma IIB, ter uma adaptação tão rápida. Foi uma decisão da direção, que me foi comunicada através do treinador, o Couceiro. Disse que a direção não estava interessada em que eu continuasse, que o melhor seria o empréstimo. A partir daí, através da Gestifute, comecei a definir o meu futuro, a solução mais interessante foi a ida para Espanha.

Mas havia outros clubes portugueses interessados?
Sim, o Beira Mar e o SC Braga, mas a minha intenção de ter uma experiência fora de Portugal era grande. Tendo em conta as opções que tinha, decidi ir para Espanha.

É a primeira vez que sai de casa dos pais?
É. Foi um impacto grande. Saí com 21 anos. É verdade que tive colegas que saíram muito mais cedo, que tiveram de ir para centros de formação, por exemplo, aos 10 anos, imagino a dificuldade que esse tipo de crianças passa, porque não é fácil crescer longe dos pais, dos amigos, e dedicar-se apenas ao futebol e à escola. Eu já fui numa fase em que era independente. Mas lá que custa sempre, custa. Não é fácil deixar aquilo que são as nossas rotinas, a ajuda dos pais, para nos fazermos à vida e termos de resolver todos os problemas.

Foi sozinho ou com alguma namorada?
Fui com uma namorada que tinha na altura. Ficámos a viver na Corunha, no centro da cidade, iniciámos a nossa vida ali num sítio onde acabei por ficar quatro anos.

Como foi o primeiro impacto no clube, no campeonato? Muito diferente do Sporting e de Portugal?
A nível de futebol, Espanha foi o país em que joguei onde o futebol se pratica com mais qualidade. Um campeonato onde dão muito valor à qualidade do jogador, se calhar muitas vezes até mais do que às características físicas, o que prevalece é a qualidade. A qualidade dos treinos, a qualidade do jogo, o ritmo de jogo, tudo isso me impressionou em Espanha. Adaptei-me e gostei muito da experiência. Foram quatro anos em que desfrutei do futebol e foi o clube onde me senti mais confortável e onde vivi os melhores momentos da carreira até agora.

Nesse primeiro ano foi logo campeão da II liga.
Exatamente. Fizemos 91 pontos, que foi o recorde de pontos da II divisão até hoje. Foi um ano fantástico em que tive oportunidade de jogar muito e fazer muitos golos e assistências. As coisas estavam a correr-me muito bem, a nível de jogo penso que foram os anos em que estive com uma qualidade de jogo mais elevada.

A época seguinte já foi na La Liga.
Exato. Nesse ano disse logo à Gestifute que queria continuar porque tinha adorado viver lá, conheci muita gente que me ajudou e as pessoas naquela zona da Galiza são muito simpáticas, adaptei-me bastante bem à vida de lá.

Notou muita diferença da primeira para a segunda liga, em Espanha?
Mesmo a II divisão considero que é um dos melhores campeonatos porque a qualidade de muitas equipas é de I divisão. Há muitas equipas com nome e com estrutura que acabam por cair na II divisão e que têm muita qualidade no futebol que praticam. Notei diferenças, claro, porque defrontei equipas grandes como o Barcelona e o Real Madrid, todas essas equipas que fazem a diferença, mas em relação às equipas que estão a meio da tabela, comparativamente às da II divisão, em muitos casos não é assim tão grande a diferença e por isso temos muitas surpresas na Taça de Espanha, em que equipas de II divisão e mesmo de III eliminam equipas da I.

Nessa sua segunda época defronta grandes nomes como Messi, Ronaldo, etc. Qual o que mais o impressionou?
Um dos jogadores que mais me impressionou, porque não estava à espera, foi o Alexis Sanchez. Surpreendeu-me muito dentro de campo pela qualidade de movimentação, de controlo de bola, a técnica, foi incrível, não estava à espera que me surpreendesse tanto. Mas, claro, ver o Messi ao vivo também foi incrível, porque é aquele jogador que nunca sabes o que esperar dele, até podes saber para onde é que vai mas não sabes quando, aí é que está o problema e é uma dor de cabeça. Contra o Barcelona foi uma sensação incrível porque sempre tivemos jogos equilibrados contra eles; chegámos a empatar e, quando perdemos, era quase sempre só por um golo. A nível de futebol é impressionante esses jogos, é passar o tempo todo a olhar para o relógio e achar que o jogo já está quase a acabar e só passaram dez minutos, tal é a velocidade.

Diogo com o pai numas férias em Palma de Maiorca

Diogo com o pai numas férias em Palma de Maiorca

D.R.

Entretanto foi chamado pelo treinador Luís Norton de Matos para representar a seleção da Guiné Bissau.
Isso aconteceu quando ainda estava no Sporting.

Ponderou jogar pela Guiné Bissau?
Ponderei. Só que naquela altura era bastante jovem, as coisas estavam a correr-me bem e tendo a oportunidade ainda de representar Portugal... Fiz dois jogos pelos sub-21 por isso ainda sonhava em representar a seleção principal. A minha decisão foi não ir para a seleção da Guiné.

Está arrependido?
Não estou arrependido, porque as coisas podiam ter corrido bem, podia ter vindo a ter oportunidades na seleção principal, mas isso nós nunca sabemos. Aquela foi a minha escolha naquele momento, foi aquilo que achei mais correto, tinha a ambição de poder jogar na seleção principal de Portugal, o que não veio a acontecer. Temos de lidar com as consequências. Se calhar se tivesse ido à seleção da Guiné teria tido a oportunidade de jogar uma CAN ou disputar alguns jogos em África que também teria sido interessante para a minha carreira.

O seu pai não ficou com pena?
Não sei. Isso é uma questão complicada. O meu pai teve um acidente de carro há alguns anos e não entende bem as coisas que se estão a passar.

Tinha quantos anos quando isso aconteceu?
Foi em 2003. Ia fazer 15 anos. Foi um acidente grave. Está num estado estável neste momento, as coisas vão andando, mas não tem bem a noção da realidade.

Devem ter sido momentos muito complicados e naturalmente que mexem com um adolescente.
Muito mesmo. Foram momentos difíceis. O meu pai precisou de cuidados e eu e a minha mãe estivemos com o meu pai em casa durante dois anos. Tudo isso abala a estrutura familiar. Fomos superando com algumas dificuldades. O meu pai ficou completamente dependente.

Ficou paraplégico?
Sim. Foi tendo melhoras, ainda melhorou bastante, chegámos a ir a Cuba, por ser um país de referência nessa matéria, esteve lá algum tempo em reabilitação, melhorou o que tinha a melhorar, mas não passa muito dali porque foi uma coisa complicada. Depois teve que ser institucionalizado, porque a minha mãe tinha de continuar a vida dela e eu também. Era muito complicado para os dois, a minha mãe tinha de ir trabalhar e eu tinha de ficar em casa muitas vezes, porque ainda arranjámos a solução de contratar uma senhora para ficar com ele, mas às vezes também faltava e depois eu tinha de faltar à escola para ficar com o meu pai. Hoje em dia está numa situação estável, dentro do que é possível tem uma qualidade de vida digna e nós estamos sempre a acompanhar o caso.

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Voltando à sua carreira. A equipa do Deportivo tinha muitos portugueses.
Sim, éramos sete ou oito portugueses, a maior parte deles foi para lá através da Gestifute. É sempre bom termos companhia e podermos falar a nossa língua, se bem que o espanhol não é muito diferente do português, mas é sempre diferente termos ali portugueses. Foi um ano em que acabámos por descer de divisão e veio o Domingos Paciência numa fase complicada do clube a nível de resultados. Tivemos uma vitória com o Málaga no primeiro jogo que ele fez, mas depois de quatro derrotas consecutivas, ele acabou por sair passado um mês e pouco. Mas muita gente estava satisfeita com os treinos dele. Eram muito bons, muito intensos. Claro que os resultados não ajudaram.

Na época seguinte volta ao Sporting.
Regressei ao Sporting porque tinha acabado a ligação contratual ao Deportivo por empréstimo. Fiz o seis primeiros meses, em que o treinador era o Leonardo Jardim, e que a princípio disse-me que contava comigo, que ia ser aposta. Acabei até por renovar contrato com o Sporting nesse momento. Mas não tive grandes oportunidades, joguei apenas três jogos, que foram os três jogos do Minho, com Gil Vicente, SC Braga e V. Guimarães, e voltei a sair para o Deportivo em janeiro porque eles voltaram a querer que eu fosse para lá.

Quando regressa de Espanha, volta a casa dos pais ou já tinha apartamento próprio?
Voltei a ficar em casa dos meus pais, não tinha apartamento próprio na altura.

Ainda tinha a mesma namorada?
Não, estava sozinho já.

Tem alguma história engraçada vivida nos tempos do Sporting que possa contar?
Tive um episódio uma vez com o Paulinho, o roupeiro. No final do treino tínhamos sempre uns banhos de contraste, água quente e água fria. A água fria costumava estar bastante gelada mesmo. Numa brincadeira entre os jogadores e o Paulinho fizemos uma aposta com ele em como ele não conseguia ficar X tempo debaixo de água só com a cabeça de fora. Já não me lembro qual o tempo, mas era um desafio difícil. Só que como o Paulinho não gostava de perder nessas brincadeiras, aceitou. No dia a seguir apareceu no treino mas estava todo arrebentado, estava constipado, tinha passado a noite com febre. Ainda nos rimos à pala desta situação, porque graças a Deus não aconteceu nada de mal, nada mais do que isso. Mas deu-nos vontade de rir porque ele, para ganhar a aposta, fez de tudo para manter-se debaixo de água e no dia seguinte estava todo arrebentado. Já nem me lembro o que é que ele ganhava com a aposta.

Gostou de voltar a Espanha?
Sim. Não estava a jogar no Sporting, o que complica muito a vida dos jogadores quando não estão a jogar durante algum tempo. Praticamente não cheguei a fazer um jogo completo a nível de minutos nos três jogos que joguei. Por isso, procurei a saída também e a primeira opção que apareceu foi o Deportivo. Nem pensei duas vezes. Já tinha sido feliz ali, era uma casa que conhecia e, independentemente de estar na II divisão, de ter descido novamente, podia continuar a carreira.

Mas voltam a subir nessa época em que regressa.
Sim, é o clube elevador como costumo dizer (risos).

Uma das coisas que se fala muito em relação a Espanha é de haver uma certa xenofobia em relação aos jogadores portugueses. Alguma vez sentiu isso?
Não, nunca tive esse tipo de problemas. Pode haver aquelas brincadeiras, sei lá, por não dizermos as coisas corretamente em espanhol, mas não vejo que algum dia me tenham faltado ao respeito ou privado de algum direito por ser português. Sempre tive sentido de humor para brincar com eles e nunca houve qualquer problema desse género, apesar de já ter ouvido falar de jogadores que tiveram problemas.

Na época 2014/15 houve um treino invadido por adeptos. Estava lá?
Sim. Estávamos numa fase complicada perto da zona de descida de divisão, os resultados não estavam a aparecer e aquela é uma cidade que vive muito o futebol e que tem uma claque que está sempre em peso nos jogos. Eles manifestaram a sua insatisfação, invadiram o centro de treinos durante um treino. Não chegou a acontecer nada de grave, foram mostrar o seu descontentamento, quiseram tirar satisfações com os jogadores e treinador. Digamos que, entre aspas, estão no seu direito; podem não o ter feito da melhor maneira, mas compreendemos a insatisfação do adepto porque vive para aquilo, é a paixão, está ali em todos os jogos independentemente dos resultados muitas vezes.

Numa foto recente com a mulher e a filha

Numa foto recente com a mulher e a filha

D.R.

Entretanto, na época seguinte regressa ao Sporting B.
Sim.

Foi uma grande desilusão, sentia-se muito frustrado?
Fiquei no Sporting B porque o contrato acabava. Mas eu tinha tudo certo para sair para o Deportivo como jogador definitivo.

Isso não aconteceu porquê?
Por algumas discordâncias que houve a nível de rescisão de contrato. Não houve um acordo entre as três partes, eu, o Sporting e o Deportivo. Acabei por ficar entalado, digamos assim, durante seis meses numa situação desagradável. Foi a solução que aceitei e que era a melhor naquela altura para mim porque tinha a oportunidade de não estar parado, de poder treinar e fazer alguns jogos enquanto procurava outra alternativa para assinar novo contrato.

Assina com o Maiorca.
Exatamente, volto a Espanha, com a minha atual namorada, a Sara.

Como é que conheceu a Sara?
Já havia internet (risos). Começámos a falar via internet. A Sara estudava hotelaria, em Peniche. Conhecemo-nos pessoalmente depois, claro. Muitas vezes no trajeto que fazia da Corunha para Lisboa, parava em Peniche. Mais tarde ela começou a trabalhar como hospedeira.

Quem era o treinador que estava no Maiorca quando lá chegou?
Era o Fernando Vazquez que já tinha sido meu treinador no Deportivo, conhecia-me como jogador e como pessoa e quis que eu fosse para lá. Sabia da situação contratual que eu tinha e ofereceu-me a oportunidade de regressar a Espanha para um clube que tinha estabilidade. Tinha havido um grande investimento no clube esse ano por parte de investidores americanos com o objetivo de voltar à I liga, o que acabou por não acontecer. O plano saiu furado. Acabámos por descer de divisão.

Adaptou-se bem a Palma de Maiorca?
Maiorca tem sítios incríveis. A nível de paisagem e de praias foi bom, mas não foi o sítio onde me senti mais confortável a viver.

Porquê?
Não é uma cidade muito acolhedora, as pessoas são muito frias, não são muito dadas, não há aquela ligação e não me sentia muito confortável. Costuma dizer-se que o que faz os sítios são as pessoas e aí eu tive oportunidade de constatar isso, porque é realmente um sítio incrível, muito bonito, para estar de férias eu aconselho, mas para viver desiludiu-me. Se calhar outros colegas têm outra opinião, esta é a minha porque não foi realmente um sítio onde me sentisse em casa.

Com o amigo André Santos

Com o amigo André Santos

D.R.

Como é que vai parar ao Dínamo de Bucareste, da Roménia?
Estive um ano e meio no Maiorca. A primeira época salvámo-nos e na segunda acabámos por descer de divisão e a oportunidade surgiu logo após a descida. Não tinha jogado muito esse ano, tive de encontrar rapidamente uma solução para continuar a trabalhar.

Quando lhe apresentaram a proposta da Roménia qual foi a sua reação?
Falei com bastantes colegas de equipa e outros companheiros que já tinham jogado lá, pedi informações porque era uma mudança muito diferente. Não é o mesmo que ir de Portugal para Espanha. Sinceramente, fiquei um bocado de pé atrás porque temos alguns preconceitos, aquelas ideias que nos deixam um bocado inseguros, mas depois de ter falado com muitos colegas que me aconselharam a ir, já fui com melhor ideia e posso dizer que Bucareste foi um dos sítios onde mais gostei de viver.

Porquê?
O nível de qualidade de vida é muito bom. Não é tão bonito como Maiorca, são sítios completamente diferentes, não tem aquela beleza natural, mas a nível de qualidade de vida tem várias opções, é uma cidade muito tranquila, calma, ao contrário do que tinha ideia, de que era perigosa. Pode viver-se tranquilamente, não tive nenhum tipo de problema.

Tem filhos?
Sim, tenho uma filha, a Elena, que nasceu em 2019. Esteve quase para nascer na Roménia, daí o nome dela ser Elena com E. Gostávamos do nome, já tínhamos escolhido o nome lá, e mesmo nascendo em Portugal acabou por ficar Elena sem H.

Em relação aos romenos, melhor do que estava à espera ou como pessoas vão ao encontro de alguns preconceitos que existem em relação a eles?
São um bocado frios. Em algumas situações são até um bocado brutos. É a maneira deles serem, é o típico povo do leste. Mas a vida na cidade não é tão perigosa como eu pensava. Não tenho nada a apontar. Conheci e fiz amizade com gente de lá. Mas são diferentes do que estamos habituados, são diferentes dos espanhóis, são mais frios e agressivos na forma de falar.

Como se desenvencilhou com a língua?
Ao início tive que falar só em inglês porque era a maneira mais fácil de comunicar com eles, mas os romenos têm uma facilidade enorme para aprender outras línguas e muitos deles falam muito bem inglês. Além disso muita gente fala muito bem espanhol também. Eu também melhorei muito o meu inglês e também aprendi a língua deles. Hoje em dia consigo manter uma conversa em romeno, apesar de me falharem muitas palavras. Não é difícil, até porque o romeno não é assim tão diferente do português, mudam algumas palavras e algumas terminações só.

Pode dar um exemplo?
Nós perguntamos "Quanto custa um quilo de carne" e eles dizem "Cât costă un kilo de carne". Parece que estou a brincar mas é mesmo assim que se diz. Ou seja, há muitas palavras que são iguais ou que muda apenas a terminação. E depois há outras que são completamente diferentes.

Diogo com o amigo Filipe Nascimento

Diogo com o amigo Filipe Nascimento

D.R.

Vai parar a Arábia saudita como e porquê?
Estava a terminar o contrato como Dínamo. A nível dos números foi provavelmente o melhor ano e meio da minha carreira até agora. Fiz 16 golos e muitas assistências e as coisas estavam a correr-me bastante bem. Tinha assinado por dois anos e, após ano e meio, eles queriam renovar, mas como as condições do clube eram limitadas e como houve o interesse da Arábia, eles deixaram-me sair. Entenderam a situação. A nível contratual era uma oferta muito melhor, muito mais benéfica e libertaram-me, deixaram-me seguir o meu caminho porque, passados seis meses, ia ficar um jogador livre. Foi uma maneira também de pouparem a nível de salários de um jogador que não ia continuar lá.

O choque foi maior na Arábia do que foi na Roménia.
Sem dúvida. A Corunha foi o melhor sítio onde estive, foi o sítio onde mais gostei de estar logo a seguir a Bucareste. A Arábia talvez tenha sido o pior, não digo a nível das pessoas porque todos me receberam muito bem, mas a nível de qualidade de vida, a nível do que é a religião, hábitos deles, cultura, tradições, tudo isso influencia muito a nossa vida. Eu estava muito limitado, estava numa cidade que pequenina, tinha 100.000 pessoas e havia muito pouca coisa para fazer. Passava a maior parte do tempo no café com colegas de equipa ou em restaurantes, havia quatro ou cinco bons e o resto era quase tudo fast food.

A Sara foi consigo?
Não, porque a bebé tinha nascido nessa altura, estavam em Portugal. Vim a Portugal para visitar e para estar no momento do nascimento. Assisti ao parto. Na Arábia estive sozinho e também foi difícil por isso. A bebé tinha acabado de nascer, a nível emocional foi complicado, custou-me ainda mais por essa situação.

Houve alguma coisa a que tenha sido muito difícil habituar-se?
Os treinos, porque eram às dez da noite na altura do Ramadão e isso custava muito porque como era um sítio onde não havia nada para fazer, havia dias que passava inteiros fechado no quarto do hotel.

A fazer o quê? Como se ocupava?
Jogava PlayStation, tomava café com os colegas de equipa que estavam no mesmo hotel e era essa a nossa vida porque praticamente não há atividade naquela cidade onde estava. Não há um sítio para visitar, não há muita coisa que se possa fazer sem ser ir ao deserto ver os camelos ou assim.

Foi por isso que não quis lá ficar?
Sim. Achei que era um sítio complicado para estar com uma bebé recém-nascida. Passei lá essa meia época e a nível desportivo até acabou por correr bem.

Diogo Salomão jogou quatro épocas no Deportivo a Corunha

Diogo Salomão jogou quatro épocas no Deportivo a Corunha

D.R.

Acaba depois por ir parar ao FCSB de Bucareste.
Na Roménia, o Steaua é o clube que tem maior poder de compra, é o clube que investe mais na compra de jogadores e normalmente o foco do clube é no próprio campeonato. Eu tinha estado no Dínamo, em que já algumas vezes se tinha falado da ida para um rival, o Steaua, mas nunca se concretizou no tempo em que lá estive. Só que eles ficaram de olho mesmo quando eu saí. Acabando o contrato na Arábia, ficando livre, foi uma oportunidade que eles tiveram e que eu aceite porque é um clube com muito boas condições, que me permitia voltar a um sítio que já conhecia, em que tinha gostado da qualidade de vida o que era importante tendo a bebé nascido.

Não teve também a hipótese de ir para o Gil Vicente?
Falou-se nos jornais, mas não houve sequer contacto com ninguém do Gil Vicente.

Quando vai para o Steaua as coisas não correm bem.
Não correram nada bem. É um clube atípico. É um clube que tem muito boas condições, porque o presidente é uma das pessoas mais ricas do país, as infra-estruturas são muito boas, não há nada que um jogador se possa queixar a esse nível, mas a forma do clube funcionar é completamente diferente de todos os outros clube onde já tinha jogado.

Como assim?
É o presidente que toma todas as decisões dentro do clube. Se ele não quiser ou não estiver a contar com um jogador, independentemente daquilo que aconteça nos treinos, nada disso conta, porque todas as decisões passam por uma pessoa que não entende muito de futebol, apenas é o dono do clube. Mas é ele que toma as decisões, mesmo as que deviam ser tomadas por outras pessoas mais competentes para esses assuntos.

É o presidente que o manda embora. Aliás, há uma declaração pública dele em relação a si em que ele diz: "Que vá com Deus".
Sim.

O que aconteceu? Houve algum problema para ele dizer aquilo?
Não. Essas declarações foram feitas mais para a frente, mas logo após eu ter chegado e ter feito os primeiros jogos as declarações dele não foram muito boas. Ele contrata muitos jogadores e passado dois, três jogos já os quer mandar embora. É um bocado difícil de entender. Houve alguns colegas que tinham assinado na mesma altura que eu, que fizeram um ou dois jogos e o presidente quis logo rescindir com eles. Coisas muito raras que acontecem ali. A ele não lhe faz diferença, o clube é que fica prejudicado, e pelos vistos não lhe faz diferença o dinheiro que perde a contratar jogadores a torto e a direito. Funciona assim.

Com a mulher, Sara, e a filha Elena

Com a mulher, Sara, e a filha Elena

D.R.

Veio embora do Steaua há pouco tempo.
No final de janeiro. Surgiu a oportunidade, sabia que ali não ia ter hipótese de jogar porque funciona daquela maneira, independentemente de treinar bem. Os colegas às vezes falavam comigo e diziam que não entendiam porquê. Por isso tentei procurar alternativa e surgiu em Portugal, no Santa Clara. Também era uma ideia que tinha, regressar e estar mais perto da família. Mesmo não estando no continente, tenho a opção de ir a casa mais vezes e a possibilidade de estar no meu país, o que é sempre diferente e já não estava há muito tempo.

A mulher e filha estão consigo em S. Miguel?
Sim, chegaram há pouco tempo.

Foi praxado pelo Ukra?
(risos) Aqui há brincadeira todos os dias. Vim parar a um plantel onde alegria não falta. É uma equipa muito divertida, há muito à vontade entre todos os jogadores, muito companheirismo, é um clube muito familiar e isso nota-se dentro de campo. Surpreendeu-me muito a qualidade da equipa, há jogadores com muita qualidade e o futebol que temos estado a praticar é muito bom. E as brincadeiras são todos os dias. Ainda agora no Carnaval, a ideia de virmos todos disfarçados foi do Ukra. Ele veio com aquelas saias dos escoceses e por baixo vinha à vontade, sem nada (risos). Na altura das fotos lá levantou a saia virou-se de rabo e pôs toda a gente, a rir claro. São as brincadeiras dele, mas isso é muito importante para um balneário.

Mascarou-se de quê, já agora?
Eu não vim mascarado porque só soube mais tarde. Meti uma toalha à volta da cintura para tirar a foto e fui de banhista (risos).

Diogo vestiu a camisola do Dinamo de Bucareste em 2017

Diogo vestiu a camisola do Dinamo de Bucareste em 2017

NurPhoto

Tem algum hóbi?
Gosto de jogar PlayStation, gosto dos jogos do telemóvel, de jogos de tabuleiro, quase todo o tipo de jogos sou fã.

Tem ou já teve alguma alcunha?
Só na escola, houve uma altura que me chamavam de tubarão, se calhar por causa do nome Salomão, começou por salmão e depois tubarão, mas passou rápido.

Qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Real Madrid.

Tem tatuagens?
Não. Tive um piercing na sobrancelha, mas tirei aos 25 anos. Gosto de ver tatuagens noutras pessoas, mas acho que é coisa que nunca vou fazer em mim.

Qual a maior extravagância que fez até hoje?
Talvez tenha sido saltar de pára-quedas no Dubai. Foi uma experiência louca. De resto não ligo a carros. Só muito recentemente comprei o meu segundo carro, até agora só tinha tido um carro, o Seat Ibiza de que falei. Os clubes lá fora davam-me carro, por isso optava por andar de carro alugado quando vinha de férias a Portugal.

Quais considera serem os seus pontos fortes e fracos a nível profissional?
Depende das fases. O meu futebol foi alterando. A idade vai mudando as características dos jogadores, a compreensão do jogo vai mudando e tudo isso condiciona a forma como nos vamos comportando dentro de campo. Eu era um jogador diferente quando tinha 20 anos; por vezes não tomava as decisões corretas, porque queria era ver baliza e a bola e era logo à louca. Hoje sou um jogador muito mais calculista, que trabalha muito mais a bola. Nesta altura, se calhar a minha mais valia é a leitura do jogo, dos momentos de jogo, o que é que o jogo pede, tomada de decisão. O lado menos bom talvez seja a nível de choque, de contacto, porque nunca fui um jogador muito alto.

Qual foi o melhor jogador com quem já jogou?
Contra, o Messi. Na mesma equipa, Matias Fernandez, Ismailov e Valerón.

Até hoje qual foi o seu maior concorrente de equipa?
O ano em que senti mais concorrência e que senti que podia não jogar porque as outras opções eram muito boas, foi aquele em que estive no Sporting seis meses, com o Leonardo Jardim. A concorrência era o Carrillo, Capel e Carlos Mané. Eram jogadores que estavam muito bem naquela altura.

Com o primo Daniel Oliveira

Com o primo Daniel Oliveira

D.R.

Quais a maiores amizades que fez no futebol?
André Santos, que está no Belenenses, e Filipe Nascimento. Esses são os principais, depois há sempre jogadores com quem mantemos o contacto. O melhor balneário que apanhei foi o do Casa Pia, sem dúvida, ainda hoje fazemos jantares de natal todos juntos. Reunimos todos os anos. Também daí tenho muitas amizades que ficaram, o Zeca, o Pedro Santos, por exemplo.

Onde é que ganhou mais dinheiro?
Na Arábia.

Investiu em quê?
No banco e em imobiliário.

Já pensou no que quer fazer depois de pendurar as chuteiras?
Não sei, mas o mundo do imobiliário agrada-me. Pode ser algo quem veja a fazer no futuro. Também tenho o nível dois do curso de treinador, que é sempre uma opção.

Tem alguma meta para deixar de jogar?
Mais três, quatro anos máximo. Mas as coisas vão mudando e posso daqui a quatro anos dizer que ainda aguento mais. Não sei.

Diogo está no Santa Clara desde o final de janeiro

Diogo está no Santa Clara desde o final de janeiro

D.R.

Foi-lhe muito difícil regressar ao futebol português? Notou muita diferença?
Ao nível da qualidade notei imensa diferença porque existe mais qualidade em Portugal comparativamente com a Roménia.

Qual a maior alegria na carreira?
O golo ao Barcelona, no Deportivo, quando garantimos a manutenção. Precisávamos de um empate, em 2015, e marquei ao minuto 75, foi esse o ponto alto e a maior alegria que vivi dentro de campo.

E a maior frustração?
A lesão de ligamentos cruzamentos, em 2014.

Como está a viver este período de isolamento obrigatório por causa do coronavírus?
Como todos, em casa, com a família. Só saio para fazer uma corrida e alguns exercícios ao ar livre, que complemento em casa. Evito os espaços públicos e sigo os conselhos das autoridades de saúde. Se o governo e as autoridades de saúde tomaram estas medidas, o mais importante é que as respeitemos e cumpramos à risca para que tudo isto passe o mais rápido possível e volte tudo à normalidade.

Em em relação à paragem do campeonato, que solução defende para o resto da época?
Acho que se deve aguardar mais algum tempo para ver se toda esta situação estabiliza, o futebol não é prioritário claro. Pode ser que tudo isto acalme e dê para terminar o campeonato, mais tarde do que o previsto. Pode ser uma das opções, reduzindo o intervalo fazendo jogos de três em três dias ou então acabando mesmo mais tarde uma vez que não se realiza o Europeu. Vamos ver. Primeiro temos de ver se há condições para terminar o campeonato, senão tem que se arranjar uma maneira de ver quem é campeão, quem desce, etc. Tudo isso irá de ser avaliado mais tarde, mas vamos ver primeiro se temos condições de acabar esta temporada.

Tem mais alguma história que possa partilhar?
Lembro-me de um episódio com o André Santos quando estávamos na seleção de sub-21. Penso que foi num jogo contra Itália. Na manhã da véspera do jogo estávamos todos na sala reunidos com o treinador e faltava o André e o companheiro de quarto dele. Estava toda a gente preocupada, porque já estava quase na hora de começar, e de repente chega o companheiro de quarto dele que diz que o André estava a ser assistido pelo médico. Então o episódio foi que ele durante o sono teve um pesadelo, saltou da cama e ao saltar bateu com a cabeça no móvel da frente, que tinha a televisão, e abriu parte do sobrolho (risos). Partimo-nos a rir, claro.