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A casa às costas

Carriço: “Tenho a minha sexualidade muito bem resolvida. Quando me disseram que tinha beijado o Rakitic na boca não me lembrava. Nem ele” 

Daniel Carriço está só à espera do visto para se pôr a caminho de Wuhang, na China, a terra onde surgiu o coronavírus que agora está a parar o mundo. Começou a jogar no Estoril Praia, aos oito anos, mas foi no Sporting que se afirmou, antes de partir para Sevilha, clube pelo qual conquistou três troféus da Liga Europa. Casado e pai de dois filhos, fez nascer uma barbearia junto do estádio do Sevilha e está agora apreensivo com o negócio, mas tranquilo quanto ao seu futuro, que tanto pode passar pelo futebol como pela área do imobiliário

Alexandra Simões de Abreu

Power Sport Images

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É menino da linha?
Nasci no hospital de Cascais mas cresci na Malveira da Serra.

Apresente a família onde nasceu.
Tenho um irmão oito anos mais velho, o André, a minha mãe trabalha na Câmara Municipal de Cascais, é relações públicas, e o meu pai é empresário. O meu irmão é engenheiro e agora também está ligado ao desporto.

Começou a jogar futebol no Estoril Praia. Com quantos anos?
Com oito anos. Na Malveira da Serra não havia todos os escalões de formação e eu era escolinha mas treinava com os iniciados, que são escalões acima. E chegou uma altura em que o meu pai disse "algum dia vão magoá-lo". Era muita a diferença de idades e achou por bem tentar outro clube onde houvesse um escalão de escolinhas para eu poder começar a jogar e competir com as crianças da minha idade, e o mais perto era o Estoril Praia.

Sempre quis ser futebolista?
Desde os dois anos que andava agarrado a uma bola.

Havia alguém na família ligado ao futebol?
A nível profissional não. O meu avô, há muitos anos, chegou a ter propostas de clubes importantes, mas não se pagava o que se paga hoje e como no trabalho dele recebia melhor, não quis ir e continuou a jogar a nível mais amador. Depois o meu irmão quando esteve nos escalões de formação foi chamado ao Sporting, mas quando ia começar a época partiu a perna e não havia transportes como hoje, e acabou por fazer fisioterapia e continuar a jogar por Cascais.

Era bom aluno?
Sempre fui bom aluno, até porque era uma exigência dos meus pais, se eu quisesse continuar no futebol tinha que ter boas notas, não podia deixar para trás a escola.

Estudou até que ano?
Acabei o 12º ano, depois comecei na equipa principal do Sporting, com jogos ao domingo e durante a semana, e era mais complicado.

Daniel Carriço em criança andava sempre com uma bola

Daniel Carriço em criança andava sempre com uma bola

D.R.

Torcia por que clube?
Sempre pelo Sporting, toda a família é do Sporting.

Ídolos, tinha?
Quando era pequeno recordo-me que o Figo era a minha referência, era o craque da altura.

Foi o Daniel que pediu para jogar futebol num clube ou foram os seus pais que resolveram inscrevê-lo?
Eu pedia sempre e os meus pais não tiveram outra alternativa porque viam que eu gostava muito e todas as pessoas diziam que eu devia competir. Acho que os meus pais não tiveram outra alternativa [risos].

Lembra-se do que sentiu quando chegou ao Estoril Praia?
É normal naquela idade que haja um nervoso miudinho e alguma ansiedade quando se vai para um ambiente novo, mas no primeiro treino recordo-me que havia dois escalões, o de escolinhas que não estava na competição e o outro que competia com as outras equipas, e como eu era novo ali, meteram-me no escalão que não competia. Eu era muito grande para a idade que tinha. Comecei a treinar e havia dois ou três miúdos que eram bastante pequenos e eu como tinha muita força comecei a chutar mais e o treinador às tantas: "Não, tu não podes treinar aqui, tens de ir para o escalão de competição". No fim de semana a seguir fui logo competir [risos]. Joguei contra o Estrela da Amadora. Foi o meu primeiro jogo.

Como e quando vai para o Sporting?
Estive dois anos no Estoril e o Sporting como tem uma rede de scouting muito forte começou a acompanhar a minha evolução. Fui contactado tanto pelo Sporting como pelo Benfica, mas como a família toda não estava de acordo em ir para o Benfica, porque somos todos do Sporting, então quando o Sporting me contactou fui fazer as captações a Alvalade, nos campos ao lado do antigo estádio de Alvalade. E acabei por ficar. O senhor Aurélio Pereira chamou-me ao seu escritório e assinei no mesmo dia.

Uma felicidade imensa, calculo.
Claro, não estava à espera, porque via tantos miúdos nas captações, todos com a mesma ambição e o mesmo sonho... E ver que, no meio de tantos, consegui ficar, fiquei muito contente.

Daniel com os pais

Daniel com os pais

D.R.

Chega ao Sporting já na posição de central?
Jogava um bocadinho em todas as posições, porque nessas idades os treinadores tentam que os jogadores experimentem todas as posições. A partir dos infantis começas a definir mais a posição. Quando chego ao Sporting, aí sim, comecei numa posição mais defensiva, tanto de médio defensivo, como a central.

Notou uma grande diferença para o Estoril?
Sim, é outra qualidade, tanto a nível de treinos, como dos treinadores, muito mais competentes, como é óbvio. Também quando estás rodeado de bons jogadores, és melhor e exigem mais de ti. No Sporting quase todos os miúdos jogavam bem, por isso era mais fácil evoluir.

Lembra-se de algum jogador nesse primeiro ano no Sporting que o tenha marcado mais?
Sim, o Fábio Paim, que era o craque e a estrela em todo o lado. Íamos aos torneios e já se sabia de antemão que ele ia ser o melhor jogador. Ele realmente marcava a diferença e na formação não me recordo de nenhum jogador com as qualidades que ele tinha.

Como é que ia da Malveira da Serra para os treinos em Alvalade?
Nos primeiros tempos ia com minha mãe, depois começámos a conhecer outros miúdos que iam desde Cascais até Lisboa, e passamos a ir juntos de comboio e de metro para os treinos. Ia o Fábio Paim, que também era ali de Cascais, ia eu e ia outro rapaz que era o Cid. Íamos os três juntos com o tio do Fábio ou a minha mãe, ia sempre um adulto connosco e no regresso também.

Daniel no meio da mãe e do irmão

Daniel no meio da mãe e do irmão

D.R.

O que mais o marcou nos oito anos de formação no Sporting?
É difícil dizer um momento que me tenha marcado, porque foi onde cresci como jogador e como pessoa. Evoluí e aprendi quase tudo o que é o básico do futebol, as regras mais básicas taticamente, tecnicamente, ali fiz-me jogador. Havia uma grande competitividade, recordo-me que na altura quase todos os anos éramos campeões distritais e nacionais. A formação do Sporting era o topo em Portugal. Atualmente acho que já não é tanto assim mas na altura recordo-me que éramos o topo da formação a nível nacional.

E que amizades maiores é que ficaram desses tempos da formação?
O meu grupo de amigos é ainda desse tempo. O João Gonçalves, o Marco Lança, o Tiago Jorge, o João Martins, essas são as pessoas com quem tenho mais ligação. E o Adrien Silva também.

Quando é chamado pela primeira vez a uma seleção?
Na altura a seleção nacional começava depois das seleções distritais. Nos sub-13 ou sub-14 começava-se a definir quem ia à seleção nacional. Havia um torneio especial, o Torneio Lopes da Silva, e, nesse torneio, os selecionadores nacionais escolhiam os jogadores que iam representar a seleção nacional no primeiro torneio que há de seleções jovens. Nesse torneio escolheram-me e fui logo aos sub-16. O meu primeiro jogo foi contra a França.

Estava muito nervoso?
Tanto eu como os meus companheiros. Era a primeira vez que ouvíamos o hino, que íamos jogar pela seleção. Foi um jogo especial, apesar de termos perdido. A França também sempre teve bons jogadores. Mas foi um jogo especial.

Daniel começou a jogar no Estoril Praia

Daniel começou a jogar no Estoril Praia

D.R.

Ficou sempre a viver com os seus pais durante a formação?
Não. Fui viver para a Academia do Sporting com 13 anos.

Porquê?
Estive três anos a ir de transportes para o Sporting, com o meu pai a ter de me ir buscar de vez em quando. Até que chegou uma altura em que eu conseguia conciliar os estudos com o futebol, porque passámos para a Academia do Sporting em Alcochete e além do comboio e do metro tínhamos de apanhar o autocarro do clube para chegar a Alcochete. Essa viagem demorava duas horas, praticamente, e eu chegava a casa por volta da meia-noite e no dia a seguir tinha de acordar às sete da manhã. Para uma criança de 13 anos é complicado. Ter de chegar a casa, muitas vezes com trabalhos ainda por fazer, praticamente não descansava. Até que o meu pai disse ao Sporting que se eles quisessem que eu continuasse, teria de ir para a Academia, porque senão não iria aguentar aquele ritmo diariamente. Treinávamos todos os dias.

Lembra-se de como é que foi a primeira noite em que lá dormiu? Custou-lhe?
Não, até porque conhecia toda a gente. Na altura pensávamos, vamo-nos tornar independentes, já somos crescidos [risos] e é uma excitação. Custa mais passado um, dois meses, começam as saudades, mas nesse caso para mim era mais fácil porque aos fins de semana ia a casa. Tinha muitos colegas que eram do norte e do sul do país e não conseguiam ir a casa, para eles sim, era mais complicado.

E partidas que faziam uns aos outros na Academia?
Era todos os dias [risos]. Ali é como a tropa, ainda para mais havia uma grande diferença de idades, havia miúdos de 13 e miúdos de 17, 18 anos. É uma grande diferença de idades e os mais velhos são os que controlam tudo. Eram eles que normalmente faziam as praxes. Todos os miúdos novos que chegavam eles fechavam num quarto e acontecia sempre alguma coisa.

O que lhe aconteceu?
Os papás mandavam sempre bolachas e comida, a comida desaparecia logo no primeiro dia. Depois fechavam-nos no quarto, apagavam as luzes e davam uns calduços, essas coisas normais das praxes.

Não havia tentativas de fuga?
Na Academia não tínhamos muito para onde fugir, o máximo para onde podíamos ir era para o meio dos animais [risos], dos touros e das vacas. Ainda chegámos a ir vasculhar mas era um bocado perigoso. Havia alguns que eram especialistas, não sei como é que eles faziam que volta e meia andavam à procura deles e não os encontravam [risos]. Um deles era o Paim. Era especialista nisso, escondia-se e ninguém o encontrava [risos].

Em ação pelo Estoril Praia

Em ação pelo Estoril Praia

D.R.

Quando começam as primeiras saídas à noite e os primeiros namoros?
Por volta dos 15, 16 anos. Saídas à noite era quando os pais deixavam mas também estávamos muito controlados, porque tínhamos sempre jogo ao fim de semana e no dia anterior ao jogo tínhamos de descansar em casa.

Lembra-se da primeira saída?
Claro, foi em Cascais, ao fim de semana ia a casa e como havia o Coconuts perto... Era a loucura. Quando podia ir, ia com os meus primos. Mas sempre fui muito responsável.

Assinou o primeiro contrato quando chegou ao Sporting?
Quando cheguei ao Sporting, com 10 anos, deram-me o contrato mas não deram dinheiro. Pagavam os transportes. O primeiro dinheiro que ganhei foi nos sub-15, se não estou em erro, eram 250 euros.

O que fez a esse dinheiro?
Guardei-o [risos]. Os meus pais davam-me dinheiro e a partir do momento em que comecei a receber disse-lhes que não fazia sentido continuarem a dar-me. Não precisava de nada porque comíamos sempre na Academia ou na escola e o que gastasse na escola era do meu ordenado.

Quem foi o primeiro treinador a chamá-lo para treinar com a equipa principal?
Foi o mister José Couceiro, no primeiro ano de júnior. Mas fui só treinar várias vezes.

Quando é chamado para integrar o plantel principal?
Aí já foi com o Paulo Bento. Eu era júnior de segundo ano, estive para ir fazer a pré-época mas não fui, acabei por ser emprestado porque na altura o Sporting não tinha equipa B, tinha acabado com a equipa B.

Foi emprestado para onde?
Fui ao Europeu de Sub-19, estive para ir para o Estrela da Amadora, mas acabei por ir para o Olhanense, da II Liga.

Daniel foi para o Sporting com 10 anos

Daniel foi para o Sporting com 10 anos

D.R.

Quando lhe disseram que era para ir para o Olhanense qual foi a sua reação?
Ao início custou-me um pouco. Tinha uma ambição maior, como é óbvio, o meu sonho era chegar à equipa principal do Sporting. Tinha feito dois anos muito bons nos juniores e como tinha acabado o Europeu de Sub-19, tinha ficado no melhor 11 do Europeu, pensava que podia ir para outro patamar. Mas fui muito bem recebido no Olhanense, o grupo era excecional, apesar de ter ficado só meio ano. Depois acabei por ir para o Chipre porque estava lá o mister Mariano Barreto.

Já lá vamos. Quando vai para o Olhanense vai sozinho? Vai viver para onde?
Vou viver para um apartamento, sozinho.

Foi fácil adaptar-se com 17, 18 anos a uma vida sozinho?
Tinha um amigo, o João Martins, que fez a formação e também foi para lá. Estávamos quase sempre juntos e o grupo era muito unido. Foram seis meses, mas foram seis meses muito bons, porque a equipa realmente tinha pessoas formidáveis.

O treinador era o Álvaro Magalhães. Que tal?
Não tinha má relação com ele, mas desejava jogar mais jogos. Houve jogos que não joguei e isso também foi um dos fatores que me levou a sair em dezembro. O meu objetivo era jogar o máximo possível para voltar ao Sporting e quando o mister Mariano Barreto me ligou, disse: "Vou porque aí sei que vou jogar todos os jogos e eu tenho é de jogar".

Daniel (à direita em primeiro plano) num jogo da formação do Sporting

Daniel (à direita em primeiro plano) num jogo da formação do Sporting

D.R.

Não teve receio de sair de Portugal sem se ter estreado ainda no Sporting?
Sim, tive receio, porque não tinha noção do que iria encontrar no Chipre, qual seria a realidade, mas era uma aventura, uma experiência.

Quando lá chegou como foi o primeiro impacto?
Tinha 18, 19 anos e o primeiro impacto foi bom porque era uma ilha paradisíaca, turística. Mas a nível de futebol o impacto não foi positivo porque não tinha as condições de trabalho que temos aqui em Portugal, o nível da competição não é tão exigente, os jogadores não têm a qualidade dos jogadores portugueses ou mesmo a que têm os estrangeiros que vêm para cá. Mas serviu-me para aprender, serviu para crescer.

Foi sozinho também?
Sim, mas recebia visitas. Na altura tinha uma namorada que estava comigo de vez em quando, mas estive bastante tempo sozinho. Deu para desenvolver o meu inglês, deu para crescer, deu para evoluir tanto a nível de jogador como pessoa.

A que lhe custou mais habituar-se?
À comida, se calhar. Tinha de cozinhar em casa porque a comida nos restaurantes não era o forte do país [risos]. Era tudo muito à base de borrego e aquele cheiro já me enjoava. Em casa fazia mais à base de grelhados.

Esteve sempre com o Mariano Barreto como treinador?
Não. Foi mais um desafio para mim, porque o mister Mariano Barreto ao fim de quatro jogos foi despedido e veio um cipriota. Quando o novo treinador chegou eu tinha seleção de sub-20 e ele disse "Podes ir à seleção, nós temos jogo mas eu não te ia utilizar". Fiquei logo um bocado assustado, se ele me deixava ir à seleção e não me ia utilizar... Mas quando voltei do torneio pela seleção recordo-me que tivemos um jogo amigável e ele pôs-me a jogar. O jogo correu-me muito bem e a partir daí joguei os jogos todos até ao final.

Mas nessa altura a sua ideia não era ficar lá ou era?
Não. A minha ideia desde que cheguei era jogar o máximo possível para voltar ao Sporting.

E volta na época seguinte com o Paulo Bento?
Sim, na época seguinte o mister Paulo Bento chama-me para fazer a pré-temporada.

Daniel Carriço começou a ser chamado à seleção nacional com 15 anos

Daniel Carriço começou a ser chamado à seleção nacional com 15 anos

D.R.

Recorda-se do seu primeiro jogo oficial como sénior pelo Sporting?
Sim, tinha vindo da formação, estava mais ou menos como quarto central, recordo-me que o Caneira estava lesionado e estava a jogar o Polga e o Tonel e eu estava no banco de suplentes em Paços de Ferreira. O Tonel lesiona-se e eu tenho de entrar. A partir daí comecei a jogar.

Nessa altura, quando lhe disseram para ir aquecer, tremeram-lhe as pernas um bocadinho ou não?
Temos que estar sempre mentalizados e preparados para jogar mas como é óbvio ia ser a minha estreia e o nervosismo está sempre presente. Fui aquecer um pouco nervoso mas quando se entra para dentro do campo o nervosismo passa.

Quando regressa do Chipre vai viver para onde?
Como a Academia fica em Alcochete, aluguei um apartamento em Alcochete.

Continuou a viver sozinho ou já com a namorada?
Tinha uma namorada mas depois acabei por viver sozinho.

Nessa primeira época como sénior do Sporting, ganham a Supertaça...
Ganhámos a Supertaça logo a seguir à pré-época e lembro-me que estivemos na luta pelo título até ao final. A época seguinte a nível individual foi muito positiva, mas a nível coletivo foi complicado.

Porquê?
Quando há despedimentos de treinadores nunca é positivo, é sinal que os objetivos não estão a ser conquistados.

Como foi a adaptação aos treinadores?
Foi boa porque joguei quase sempre e quando se joga os treinadores são sempre os melhores [risos]. Com o Paulo Bento a relação sempre foi muito boa e com o mister Carlos Carvalhal também.

Na temporada seguinte tem outros dois treinadores muito diferentes: Paulo Sérgio e José Couceiro.
Mas nada a apontar aos dois. Na altura comecei a ser capitão da equipa principal e sempre a jogar, apesar de saber que a equipa não estava no seu melhor, porque o Sporting tem de estar sempre a lutar por títulos e na altura isso não acontecia. Mas a nível individual as coisas continuavam a correr-me bem.

O que pode dizer de um e de outro?
Eu já conhecia o mister José Couceiro da formação, tinha estado nos sub-20 com ele e é uma ótima pessoa, um bom treinador. Também tive boa relação com o mister Paulo Sérgio, tentou colocar as suas ideias em prática mas as coisas não correram pelo melhor. Foi o ano mais marcante para mim, porque chegar a capitão de uma equipa como o Sporting tão novo é um marco.

Daniel (2ª atrás, à esquerda) já como sénior do Sporting

Daniel (2ª atrás, à esquerda) já como sénior do Sporting

Lars Ronbog

Depois vêm Domingos Paciência e Sá Pinto.
Identifiquei-me mais com o mister Sá Pinto. Com o Domingos Paciência foi difícil para mim, porque venho de uma época em que era capitão, a jogar quase tudo e é uma época de transição do Sporting, mudaram os dirigentes, mudou o treinador, vieram mais de 20 jogadores novos e no início comecei como 3ª ou 4ª opção. Para mim foi um bocado duro e difícil de aceitar, mas consegui dar a volta por cima. Acabei por fazer muitos jogos, depois de entrar o mister Sá Pinto, quando fazemos um percurso muito bom na Liga Europa.

O Domingos Paciência teve alguma conversa consigo?
Não. Nem foi preciso conversar muito porque senti que as opções dele eram muito claras. Não era a primeira escolha dele, há que respeitar. Eu continuei a fazer o meu trabalho, a dar o melhor de mim diariamente e consegui reverter a situação porque acabei a jogar muitos jogos e a ser titular na Liga Europa e chegámos às meias-finais.

Na época seguinte sai a meio...
A época começa ainda com o Sá Pinto e depois vem o Vercauteren. Quando vem o mister Jesualdo Ferreira já eu tinha saído. Nesses dois últimos anos houve tentativas de renovação, estive para renovar, mas acabei por não renovar.

Porquê?
Primeiro porque o Sporting vivia tempos conturbados, com mudanças sucessivas de direção, e depois porque realmente não chegámos a acordo. Entro no último ano de contrato, não estava a ser utilizado como queria e em dezembro aparece-me a solução da Premier League, que era um campeonato que queria experimentar.

Tinha empresário?
Tinha. Era o Jorge Mendes até aí e mas quem me trouxe a solução do Reading foi o Carlos Gonçalves.

Entrou em rutura com o Sporting e com o seu empresário?
Não foi rutura. Com o Sporting as negociações não chegaram a bom porto, só isso. E depois eu precisava de uma solução, o Jorge Mendes dizia-me para esperar até ao final da época, eu já estava um pouco cansado da situação, queria solucionar a minha vida e quando apareceu essa solução fui.

Daniel (2ª ªà direita na fila do meio), com a seleção de sub-19

Daniel (2ª ªà direita na fila do meio), com a seleção de sub-19

D.R.

Vai sozinho para Inglaterra?
Aí já tinha família, já tinha nascido o meu filho. Conheci a Andreia em 2009, ela estava na Universidade a tirar Comunicação Empresarial. Já nos tínhamos conhecido num jantar entre amigos comuns e um dia eu estava com um grupo de amigos numa discoteca, ela também lá estava e voltámos a falar. O Diogo nasce em 2011.

Assistiu ao parto?
Claro. Muito nervoso, mas sempre ao lado a apoiar.

Vai para Inglaterra já com mulher e filho.
Sim, o meu filho já tinha um ano e meio. Pedi a Andreia em casamento em Reading, precisamente.

Como foi a aventura por Inglaterra?
Outra realidade, outra cultura. Cheguei em pleno Inverno, fazia um frio de rachar, quase sempre nevava. O mais difícil foi adaptar-me a não ver o sol, e ao frio. Era tremendo sair de casa e ter de limpar o vidro do carro com água porque estava cheio de gelo. E treinar muitas vezes com uma sensação térmica de -15º. Isso foi o que mais me custou.

A nível cultural a que lhe foi mais difícil adaptar?
São totalmente diferentes de nós. Estão habituados a uma maneira rígida de viver. Trabalhar, chegar a casa, dar banho aos miúdos, comer e dormir. Às seis da tarde olhava pela janela e não via ninguém, os vizinhos tinham tudo apagado. Eu pensava, estas pessoas não vivem. Deviam dizer que eu era maluco porque estava acordado até às 10, 11 da noite a ver televisão com a família depois de jantar. Aquilo que é normal para nós.

Ao nível do futebol também muito diferente do que contava encontrar?
Sim, porque não é uma equipa das chamadas grandes em Inglaterra e o nível futebolístico é bastante diferente. A maneira de jogar sobretudo. Em Portugal e Espanha prioritiza-se muito a posse de bola, jogadores mais técnicos, ali é muito à base do físico e muita correria.

Não gostou tanto como achava que ia gostar, é isso?
O meu objetivo de ir para a Premier League foi fazer uns bons seis meses. Quando vou para lá a equipa já está numa posição complicada na tabela. Eu fui um dos reforços de inverno, o treinador supostamente era para me pôr em todos os jogos e até março praticamente não me convocou. Foi algo estranho, porque quando um reforço de inverno chega normalmente é para ser utilizado, no mínimo tem que ser convocado. Foi estranho. Até hoje não sei explicar por que razão não era convocado. Até porque a equipa perdia quase todos os jogos.

Tinha assinado por quanto tempo?
Por três anos e meio.

Daniel foi jogar para o Reading de Inglaterra em 2013

Daniel foi jogar para o Reading de Inglaterra em 2013

Bryn Lennon

Então como vem embora e como vai parar ao Sevilha?
No ano anterior a ir para o Reading eu estive para ir para o Sevilha. Já tinha havido contactos, só que o Sporting na altura não me queria vender. No verão seguinte estou no Reading, que acaba por descer de divisão, e falo com o meu empresário. Digo-lhe que quero sair, não queria jogar o Championship, e o Monchi, o diretor desportivo, mostrou-se novamente interessado e não olhei para trás duas vezes.

Vai por quanto tempo inicialmente?
Vou por empréstimo de um ano com opção de compra.

Sevilha foi amor à primeira vista?
Sem dúvida. Pela cidade, pelo clube. Até porque vinha de uma cidade em que não via o sol e chego ali, um calor de outro mundo, um futebol e jogadores com grande qualidade, senti-me logo em casa. A família naturalmente foi comigo e também muito felizes por poderem ir para uma cidade tão boa e relativamente perto da nossa casa em Lisboa.

A sua mulher entretanto terminou o curso ou não?
Não conseguiu, porque entre filhos, casa, marido, viagens e mudanças... Tentou continuar o curso online mas não era possível, tentou fazer transferência para Sevilha, mas não era compatível.

Em Sevilha a estreia não podia ter sido melhor. Começa logo por conquistar a Liga Europa, numa final frente ao Benfica.
Sim, se me dissessem no momento em que estava a assinar que isso ia acontecer eu dizia que era mentira. Correr melhor acho que era praticamente impossível.

Foi o seu primeiro grande título.
Sim e o mais especial para mim. Por ter sido o primeiro, por ter sido uma competição europeia, porque muitos dos jogadores fazem uma carreira inteira e não a conquistam. E foi contra o Benfica. Também eliminámos o FC Porto durante a competição, foram vários fatores que levam a que seja especial e único.

Foram três anos consecutivos a conquistar a Liga Europa.
Sim, um recorde do Guiness, a mesma equipa ganhar a mesma competição três anos seguidos.

Entretanto foi chamado de gay por causa daquele beijo na boca ao Rakitic. Como reagiu?
Isso para mim é ridículo. Tenho a minha sexualidade muito bem resolvida, nem dei qualquer tipo de importância. Acho que as pessoas pegaram mais nisso porque também foi contra o Benfica. Como se costuma dizer, estavam um pouco aziados e tinham de descarregar em alguém.

Foi um beijo espontâneo.
Nem eu nem ele nos recordamos. Depois de 120 minutos, de penáltis, exaustos, os festejos são uma explosão. Nem me recordo do momento. Quando me disseram no final que isso aconteceu, não me recordava, para ver bem.

Mas foi preciso a sua mulher sair em sua defesa.
Sim, ela é uma defensora incondicional. Como estava toda a gente a cair em cima, reagiu. É normal, quando estão a atacar os nossos, reagimos. Mas isso já passou. Isso aconteceu com vários jogadores nos festejos, com o próprio Maradona.

Daniel (à esquerda) a jogar pelo Sevilha e a disputar uma bola com Messi

Daniel (à esquerda) a jogar pelo Sevilha e a disputar uma bola com Messi

David Ramos

Não sentiu nenhum tipo de xenofobia em Espanha?
O que senti quando cheguei a Espanha é que tens de realmente mostrar que és bom. Em Portugal muitas das vezes dá-se valor a jogadores que não têm de demonstrar praticamente nada. Em Espanha dão mais valor ao jogador da casa, ao jogador da cantera, e os estrangeiros têm de provar que são realmente bons. Acho que em Portugal também devíamos ser um bocadinho assim.

Acaba por estar seis época e meia no Sevilha. Quais são as melhores e piores recordações?
As melhores recordações são os títulos que ganhei e o primeiro jogo que fiz pelo Sevilha, em que me estreei logo a marcar numa pré-eliminatória da Liga Europa. As más recordações são os momentos difíceis que os jogadores passam no futebol, as lesões. Tive algumas lesões, fui operado duas vezes ao tornozelo... Foi mais uma limpeza, só estive parado um mês.

De todos os treinadores que teve no Sevilha qual o que mais o marcou?
O Unai Emery, naturalmente, por tudo o que conquistámos juntos, pelo treinador e a pessoa que é.

Entretanto tem mais um filho.
Sim, em 2014 nasce a minha filha, a Catarina.

Qual foi o hábito espanhol que acabou adquirir?
Fazer as refeições mais tarde. Normalmente o espanhol almoça às quatro da tarde. A torrada em vez de ser com manteiga é com azeite e presunto. Isso vai ficar para sempre.

E aquele a que nunca se conseguiu habituar?
O tomate triturado que eles comem pela manhã. Não sou muito fã.

A meio desta época acaba por sair de Sevilha. Porquê?
Porque mais uma vez estive para renovar e não chegámos a acordo. O normal do futebol.

Teve alguma coisa a ver com o Lopetegui?
Não, nada a apontar ao mister Lopetegui. Ele até passou a informação ao clube de que queria que eu ficasse, que era importante para ele e para a equipa. Mas não chegámos a acordo porque eu queria dois anos de contrato e o Sevilha só me propôs um ano, não chegámos a acordo.

Daniel chegou a Sevilha e conquistou a Liga Europa, numa final frente ao Benfica,

Daniel chegou a Sevilha e conquistou a Liga Europa, numa final frente ao Benfica,

Lars Baron

Como surge o Wuhan Zall, da China?
A partir de dezembro começaram a surgir interesse de duas, três equipas da China mas neste caso o Wuhan foi o único que apresentou uma proposta formal.

É verdade que também foi abordado pelo Sporting?
Abordado, abordado, pessoalmente, não. Sei que houve interesse, através do meu empresário e de conhecimentos que tenho dentro do Sporting, mas nunca houve uma proposta formal.

Quando aceita o Wuhan Zall já tinha conhecimento do coronavírus?
Quando começa a haver o interesse do Wuhan foi quando começaram a surgir notícias do coronavírus.

Vacilou?
Como é obvio, quando começaram a surgir as notícias tentei informar-me ao máximo, falei com os responsáveis do clube. O treinador é espanhol e também me passou bastantes informações. A equipa no final de janeiro vai para Espanha para fazer a pré-temporada e garantiram-me que íamos ficar em Espanha até esta situação estar resolvida.

Ainda está em Espanha?
Não. Fiquei em Espanha, treinei em Marbella uma semana com a equipa e como eles estavam a treinar desde meio de janeiro, o treinador resolveu dar 10 dias de descanso de final de fevereiro até início de março. No regresso as coisas começaram a complicar-se em Espanha e os chineses começaram a ficar com receio de que os pudesse afetar a eles e depois não conseguissem regressar à China. Há duas semanas a equipa resolveu regressar à China mas eu entretanto fiquei em Lisboa porque não consegui o visto. Vim de urgência fazer o visto, mas até agora ainda estou à espera que mo dêem para poder voar para a China.

Não tem receio de ir para lá?
Não, acho que agora temos de ter mais receio é de que as coisas comecem a evoluir de forma ainda mais negativa aqui. Na China já está muito mais controlado, eles são muito rígidos nas normas que impõem aos cidadãos e aqui acho que devemos seguir o exemplo deles e tentar que o nível de contágio seja o menor possível. Tentar que realmente as pessoas fiquem em casa e cumpram todas as regras por parte do governo.

Quando conseguir ir, a família vai consigo?
Não, a família vai ficar cá e vai nos meses de verão.

Assinou por quanto tempo?
Dois anos, mais um de opção.

Danielcom o filho Diogo a festejar a conquista da Liga Europa.

Danielcom o filho Diogo a festejar a conquista da Liga Europa.

Michael Steele

Onde ganhou mais dinheiro?
Até agora no Sevilha.

Investiu em quê?
Imobiliário e montei também uma barbearia em Sevilha, La Barberia de Nervion. Ainda a tenho, mas vamos ver como correm as coisas agora com toda a crise que se avizinha.

Porquê uma barbearia?
Porque eu gostava, sempre foi algo que tinha interesse em abrir e conheci dois barbeiros que pensei que eram competentes e decidi abrir.

Tem ou já teve alguma alcunha?
Que tenha ficado não. Alguns no Sporting chamavam-me cavalo, se calhar pela forma de correr.

E superstições?
Sim, sou um bocado supersticioso [risos]. Por exemplo, os ténis com que vou para as concentrações dos jogos são sempre os mesmos do início ao fim da época. Se começam a época, têm de terminar.

Tatuagens, tem?
Muitas.

Quando fez a primeira e o que é?
A primeira foi a do meu filho. A minha mulher já tinha uma coroa tatuada e eu resolvi fazer uma coroa com o nome do meu filho por baixo. Mas já fiz mais. Tenho da minha filha também, sou religioso, por isso tenho de Jesus Cristo, de N. Srª, tenho a taça da Liga Europa e mais algumas.

É homem de frequentar a igreja?
Não sou praticante assíduo. Mais em casa.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Sou bastante controlado... Se calhar foi um carro, o Panamera. Mas já o vendi.

D.R.

Tem algum hobby?
Jogar futevólei. Gostava de praticar surf, mas não posso devido à profissão. Sou um seguidor do surf, gosto do Kikas e adoro o Gabriel Medina. É a modalidade que mais sigo.

Já tentou praticar?
Claro que sim, já levei muitas vezes com a prancha em cima [risos]. Mas é perigoso, não posso praticar muito.

Qual foi a maior amizade que fez no futebol?
Nos tempos do Sporting o Adrien Silva. Criámos uma grande ligação e acabámos por perder muito o contacto.

Tem alguma meta para deixar de jogar?
A meta normalmente é os 35 anos. Mas neste momento o que proponho é época a época. Agora cumprir este contrato e depois logo se vê. Vou fazer 32 anos em agosto, tenho é de desfrutar.

Já pensou no que vai fazer depois de pendurar as chuteiras?
Não sei, certamente algo ligado ao desporto, ao futebol, mas não como treinador, porque tens de te dedicar a isso 100 ou 200%, chegas a casa e ainda tens de dar voltas e voltas à cabeça e acabas por não usufruir da tua família, portanto é algo que não quero. Mas se calhar como empresário ou dirigente. É uma hipótese. Tenho investimento a nível imobiliário, é uma área de que também gosto, mas não sei. Ainda não pensei muito nisso, sinceramente.

Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido?
Não sei. Gosto de medicina, de fisioterapia, podia ter sido por aí.

Com a mulher, os filhos e as três taças da Liga Europa que conquistou pelo Sevilha

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D.R.

Qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Posso dizer que estou bastante realizado com os clubes que representei, o Sevilha e o Sporting são os meus clubes do coração. O Sporting era o sonho que tinha desde miúdo, depois a partir daí tudo o que viesse...

Qual foi o jogador com quem jogou que mais o surpreendeu?
Joguei com bastantes craques, mas o Banega e o Reyes, o próprio Rakitic. A nível dos portugueses, o Moutinho, o Veloso, o Adrien e na seleção, quando fui, o Cristiano Ronaldo, claro, nem há palavras para descrever tudo o que ele faz.

A sua maior frustração é não ter jogado mais pela seleção?
Sim. Sinto que houve anos em que merecia ter sido convocado, mas são opções que temos de respeitar. Não é algo que dependa de mim, são opções do treinador. Não me arrependo nada do que fiz, dei sempre o meu melhor e vai ficar sempre um bocadinho essa frustração.

“No Sporting, apostámos com o Paulinho: aguentar o máximo no banho gelado, só com a cabeça de fora. Ganhou, mas rebentou-se todo com febre”

Diogo Salomão, 31 anos, está desde o início deste ano no Santa Clara, onde diz ter encontrado uma família. A formação foi feita nos clubes perto de casa, Estrela de Amadora, Damaiense e Casa Pia, antes de chegar ao Sporting onde nunca conseguiu afirmar-se. Foi em Espanha que mais jogou, no Deportivo da Corunha e no Maiorca, antes de voar para a Roménia onde representou o Dínamo de Bucareste e o Steaua, com uma passagem pela Arábia Saudita. Com a liga parada por causa do coronavírus, diz que a saúde é mais importante do que o futebol e por isso aconselha todos a seguirem à risca os conselhos dados pelas autoridades de saúde e pelo governo